# O Mandarim (Edição B1)

*Eça de Queirós*

## Prólogo

1.º Amigo (*bebendo conhaque e soda, debaixo de árvores, num terraço, à beira de água*)

Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do áspero estudo da Realidade humana... Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas. Lá se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos cobrem as ruínas do Idealismo... Façamos fantasia!...

2.º Amigo

Mas sobriamente, camarada, parcamente!... E como nas sábias e amáveis Alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta...

(Comédia Inédita).

### Glossário

- **estio**: verão (palavra antiga).
- **embotam**: tiram a força ou o corte a alguma coisa.
- **sagacidade**: inteligência rápida.
- **vaguear**: andar sem destino, ao acaso.
- **musgos**: pequenas plantas verdes e macias que crescem nas pedras e nas árvores.
- **sobriamente**: sem exagero, com calma.
- **parcamente**: com moderação, com pouco.
- **Alegorias**: histórias ou imagens que ensinam uma ideia por meio de figuras.
- **Moralidade**: lição moral que uma história dá.
- **conhaque**: bebida alcoólica forte, feita de vinho.
- **soda**: água com gás.
- **áspero**: duro, difícil.
- **amáveis**: agradáveis, simpáticas.

## I

Eu chamo-me Teodoro — e fui amanuense do Ministério do Reino.

Nesse tempo, eu vivia na travessa da Conceição n.º 106, na casa de hóspedes de D. Augusta. Era a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros. Um era o Cabrita, empregado na Administração do bairro central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro. O outro era o forte, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa.

A minha vida era bem equilibrada e suave. Toda a semana, com mangas de lustrina, eu ficava à secretária da minha repartição. Ali, numa bela letra cursiva, ia escrevendo no papel Tojal do Estado estas frases fáceis: «*Ilmo. e Exmo. Sr. — Tenho a honra de comunicar a V. Ex.ª... Tenho a honra de passar às mãos de V. Ex.ª, Ilmo. e Exmo. Sr...*»

Aos domingos descansava. Instalava-me então no canapé da sala de jantar, com o cachimbo nos dentes. E admirava D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora, sobretudo no verão, era deliciosa. Pelas janelas meio fechadas entrava o calor do sol e o toque distante dos sinos da Conceição Nova. Entrava também o arrulhar das rolas na varanda. O zumbido monótono das moscas balançava-se sobre a velha cambraia. Este tecido tinha sido o véu de noiva de Madame Marques. Agora cobria, no aparador, os pratos de cerejas bicais. Pouco a pouco, o tenente ia adormecendo, enrolado num lençol como um ídolo no seu manto. Adormecia sob o esfregar mole das mãos carinhosas de D. Augusta. E ela, levantando o dedo mínimo, branco e gordo, abria riscas no seu cabelo brilhante com o pentezinho dos bichos... Eu então, comovido, dizia àquela senhora deliciosa:

— Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ela ria e chamava-me *enguiço*! Eu sorria, sem me ofender. *Enguiço* era, de facto, o nome que me davam em casa. Chamavam-me assim por eu ser magro, por entrar sempre nas portas com o pé direito, por tremer de ratos. Também por ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores, que tinha pertencido à mamã. E por andar corcovado. Infelizmente sou corcovado. Fiquei assim por ter dobrado muito as costas. Na Universidade, recuava como uma pega assustada diante dos senhores Lentes. Na repartição, baixava a cabeça até ao pó perante os meus Diretores-Gerais. Esta atitude, aliás, convém a um bacharel. Mantém a disciplina num Estado bem organizado. E a mim garantia-me a tranquilidade dos domingos, o uso de alguma roupa branca e vinte mil réis mensais.

Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso. Madame Marques e o alegre Couceiro reconheciam-no com inteligência. Não tinha no peito o desejo heroico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos. A minha louca alma também nunca sonhou andar pela Baixa num trem da Companhia, seguida de um correio a trote. Mas picava-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, e de apertar a mão delicada de viscondessas. E queria, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus. Oh! jovens que corríeis para São Carlos, abafados em paletós caros, com a gravata branca de *soirée* a brilhar! Oh! tipoias cheias de andaluzas, que corríeis alegremente para os touros — quantas vezes me fizestes suspirar! Porque os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço afastavam-me dessas alegrias sociais. Afastavam-me delas para sempre. E esta certeza feria-me o peito, como uma flecha que se crava num tronco e fica muito tempo a vibrar!

Ainda assim, eu não me via, com amargura, como um «pária». A vida humilde tem doçuras. É agradável, numa manhã de sol alegre, com guardanapo ao pescoço, abrir o *Diário de Notícias* diante do bife grelhado. Pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de idílio. É saboroso, à noite, no Martinho, beber um café aos goles e ouvir os faladores a insultar a pátria... Depois, nunca fui muito infeliz, porque não tenho imaginação. Não me consumia a andar à volta de paraísos inventados, a desejá-los. Esses paraísos nasciam da minha própria alma cheia de desejos, como as nuvens nascem da evaporação de um lago. Não suspirava, a olhar as estrelas claras, por um amor à Romeu ou por uma glória social à Camors. Sou um positivo. Só desejava o racional, o que se pode tocar. Só queria o que outros já tinham alcançado no meu bairro, o que está ao alcance de um bacharel. E ia-me resignando. Era como quem, numa *table d'hôte*, mastiga um pedaço de pão seco. Espera assim que lhe chegue o prato rico da *Charlotte russe*. As felicidades haviam de vir. E, para as apressar, eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional. Pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria.

No entanto, procurava distrair-me. As voltas do meu cérebro não me permitiam compor odes. Tantos outros ao meu lado faziam-no, para se vingarem do tédio da profissão. O meu ordenado, pagos a casa e o tabaco, também não me permitia um vício. Por isso, tinha ganho o hábito discreto de comprar na Feira da Ladra velhos volumes avulsos. E à noite, no meu quarto, deliciava-me com essas leituras curiosas. Eram sempre obras de títulos pesados: *Galera da Inocência*, *Espelho Milagroso*, *Tristeza dos Mal Deserdados*... Encantavam-me a letra venerável, o papel amarelado com furos de traça. Encantavam-me a encadernação séria, de freira, e a fitinha verde a marcar a página! Depois, aquelas palavras ingénuas em letra gorda enchiam todo o meu ser de paz. Era uma sensação como a paz profunda de um velho muro de mosteiro, no fundo de um vale. Sentia-se essa paz num fim de tarde suave, a ouvir correr uma água triste...

Uma noite, há anos, eu tinha começado a ler, num desses in-fólios antigos, um capítulo chamado *Brecha das Almas*. Ia caindo numa sonolência agradável quando esta frase estranha se destacou do tom neutro e apagado da página. Saltava à vista como uma medalha de ouro nova a brilhar sobre um tapete escuro. Copio-a palavra por palavra:

«No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fábula ou a História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o rosto, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes as suas riquezas infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Parei, assombrado, diante da página aberta. Aquela pergunta, «homem mortal, tocarás tu a campainha?», parecia-me engraçada, ridícula, e no entanto perturbava-me muitíssimo. Quis ler mais. Mas as linhas fugiam, ondulando como cobras assustadas. E no vazio que deixavam, pálido como um pergaminho, ficava a brilhar, a negro, a estranha pergunta: «tocarás tu a campainha?»

Se o volume fosse de uma honesta edição Michel-Lévy, de capa amarela, eu teria simplesmente fechado o livro. A alucinação nervosa teria desaparecido logo. Afinal, eu não estava perdido numa floresta de balada alemã. Da minha varanda, podia ver brilhar à luz do gás os cintos brancos da patrulha. Mas aquele sombrio in-fólio parecia rebentar de magia. Cada letra tinha a forma inquietante dos sinais da velha cabala, que guardam um sentido fatal. As vírgulas tinham a curva atrevida de rabos de diabinhos, vistos de relance à luz branca da lua. No *ponto de interrogação* final, eu via o gancho terrível do Tentador. Com ele, o Tentador vai pescando as almas que adormeceram sem se refugiar na fortaleza segura da Oração!... Uma influência sobrenatural apoderava-se de mim. Levava-me devagar para fora da realidade e do raciocínio. E no meu espírito foram-se formando duas visões. De um lado, um Mandarim muito velho morria sem dor, longe, num quiosque chinês, a um *ti-li-tin* de campainha. Do outro, toda uma montanha de ouro brilhava aos meus pés! Isto era tão claro que eu via os olhos oblíquos do velho personagem a ficarem baços. Pareciam cobertos de uma fina camada de pó. E ouvia o fino tilintar de libras a rolar juntas. Imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha. Ela estava pousada calmamente diante de mim, sobre um dicionário francês. Era a campainha prevista, citada no maravilhoso in-fólio...

Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metálica me disse, no silêncio:

— Vamos, Teodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um forte!

O *abat-jour* verde da vela deixava tudo à volta em meia sombra. Levantei-o, a tremer. E vi, sentado muito tranquilamente, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto. As duas mãos, com luvas pretas, estavam gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe-média, como se viesse da minha repartição...

Toda a sua originalidade estava no rosto sem barba, de linhas fortes e duras. O nariz brusco, muito curvo, tinha a expressão de rapina e de ataque de um bico de águia. Os lábios, muito firmes, formavam como uma boca de bronze. Os olhos, quando se fixavam, pareciam dois clarões de tiro, saídos de repente do mato escuro das sobrancelhas unidas. Era muito pálido, mas aqui e ali corriam-lhe na pele veias de sangue, como num velho mármore fenício.

Veio-me de repente a ideia de que tinha diante de mim o Diabo. Mas logo todo o meu raciocínio se revoltou contra esta imaginação. Eu nunca acreditei no Diabo, como nunca acreditei em Deus. Nunca o disse em voz alta nem o escrevi nos jornais. Não queria desagradar aos poderes públicos, encarregados de manter o respeito por tais entidades. Mas não acredito que existam estes dois personagens, velhos como a Substância. Seriam dois rivais bonacheirões, que se fazem partidas amáveis um ao outro. Um teria barbas de neve e túnica azul, vestido como o antigo Jove. Viveria nas alturas luminosas, no meio de uma corte mais complicada que a de Luís XIV. O outro, sujo de fuligem e manhoso, teria cornos. Viveria nas chamas de baixo, numa imitação burguesa do pitoresco Plutão. Não acredito. Não, não acredito! O Céu e o Inferno são ideias sociais para uso da plebe — e eu pertenço à classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores. É que pedi o favor do senhor doutor para passar no meu exame. Para obter os meus vinte mil réis, implorei a bondade do senhor deputado. Do mesmo modo, preciso de uma proteção extra-humana contra a tísica, a angina, a navalha de ponta. Preciso dela contra a febre que vem da sarjeta, e contra a casca de laranja escorregadia onde se parte a perna. Preciso dela contra outros males públicos. Ou com vénias ou com incenso, o homem prudente deve fazer assim sábias adulações, desde a Arcada até ao Paraíso. Com um compadre no bairro e uma comadre mística nas Alturas, o destino do bacharel está seguro.

Por isso, livre de superstições vergonhosas, disse com familiaridade ao indivíduo vestido de preto:

— Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

Ele levantou um pouco o chapéu. Descobriu a testa estreita, enfeitada de um cabelo crespo e negro como o do fabuloso Alcides. E respondeu, palavra a palavra:

— Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há neste globo coisas prodigiosas. Há vinhos de Borgonha, como o *Romanée-Conti* de 58 e o *Chambertin* de 61. Cada garrafa custa de dez a onze mil réis. E quem bebe o primeiro cálice não hesitará em assassinar o seu pai para beber o segundo... Fazem-se em Paris e em Londres carruagens de molas tão suaves e de estofos tão delicados! Por isso, é melhor andar nelas pelo Campo Grande do que viajar como os antigos deuses. Eles iam pelos céus, sobre as almofadas macias das nuvens... Não vou ofender a sua instrução, dizendo-lhe como se mobilam hoje as casas. Têm um estilo e um conforto que superam esse prazer inventado, chamado outrora a «Bem-aventurança». Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos da terra: o Teatro do *Palais Royal*, o *baile Laborde*, o *Café Anglais*... Só chamarei a sua atenção para este facto. Existem seres que se chamam Mulheres, diferentes daqueles que o Teodoro conhece, e que se chamam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, só usavam por fora uma *folha de vinha*. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um poema engenhoso e delicado. São rendas, *baptistes*, cetins, flores, joias, caxemiras, gazes e veludos... Compreende a satisfação indescritível que sentirão os cinco dedos de um cristão, ao percorrer e apalpar estas maravilhas macias. Mas percebe também que estes querubins têm contas a pagar. Essas contas não se pagam com o troco de uma placa honesta de cinco tostões... Mas elas têm melhor, Teodoro: os cabelos cor do ouro ou cor da treva. Têm assim nas suas tranças o símbolo das duas grandes tentações humanas. São a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E têm ainda mais: os braços cor de mármore, frescos como um lírio com orvalho. Têm os seios, sobre os quais o grande Praxíteles modelou a sua Taça. É a linha mais pura e mais ideal da Antiguidade... Outrora, na ideia desse ingénuo Ancião que os formou, os seios destinavam-se à nobre alimentação da humanidade. Foi ele que fabricou o mundo, e uma inimizade de séculos proíbe-me de dizer o seu nome. Mas sossegue, Teodoro. Hoje nenhuma *maman* racional os expõe a essa função severa, que os estraga. Servem só para brilhar, aninhados em rendas, à luz do gás das *soirées* — e para outros usos secretos. As conveniências impedem-me de continuar esta exposição radiosa das belezas que formam o *Fatal Feminino*... Aliás, as suas pupilas já rebrilham... Ora, todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês... Confesse, ao menos, que estas palavras têm o venerável selo da verdade!...

Eu murmurei, com as faces a arder:

— Têm.

E a sua voz continuou, paciente e suave:

— Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma bagatela... Mas enfim, são um começo. São uma ligeira preparação para conquistar a felicidade. Agora pense nestes factos. O Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrépito e tem gota. Como homem e como funcionário do Celeste Império, é inútil. É mais inútil em Pequim e na humanidade que um seixo na boca de um cão esfomeado. Mas a transformação da substância existe: garanto-lha eu, que sei o segredo das coisas... Porque a terra é assim: recebe aqui um homem podre e devolve-o ali ao conjunto das formas, como planta viçosa. Bem pode ser que ele, inútil como Mandarim no Império do Meio, vá ser útil noutra terra. Pode ser útil como rosa perfumada ou saboroso repolho. Matar, meu filho, é quase sempre equilibrar as necessidades universais. É eliminar aqui o que está a mais, para ir preencher ali o que falta. Compreenda bem estas filosofias sólidas. Uma pobre costureira de Londres deseja muito ver florir, na sua trapeira, um vaso cheio de terra negra. Uma flor consolaria aquela desgraçada. Mas veja, infelizmente, a ordem dos seres nesse momento. A substância que lá devia ser rosa é aqui, na Baixa, homem de Estado... Vem então o fadista de navalha aberta e corta o estadista. A enxurrada leva-lhe os intestinos. Enterram-no, com tipoias atrás. A matéria começa a desfazer-se e mistura-se à vasta evolução dos átomos. E o homem de governo, que estava a mais, vai alegrar a água-furtada da loira costureira, em forma de amor-perfeito. O assassino é um filantropo! Deixe-me resumir, Teodoro: a morte desse velho Mandarim idiota traz-lhe ao bolso alguns milhares de contos. Desde esse momento, pode dar pontapés nos poderes públicos: pense na intensidade deste gozo! Logo a seguir, é citado nos jornais: veja-se nesse máximo da glória humana! E agora repare: é só agarrar a campainha e fazer *ti-li-tin*. Eu não sou um bárbaro. Compreendo a repugnância de um *gentleman* em assassinar um contemporâneo. O sangue a espirrar suja vergonhosamente os punhos da camisa, e é repugnante a agonia de um corpo humano. Mas aqui não há nenhum desses espetáculos sujos... É como quem chama um criado... E são cento e cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus apontamentos... O Teodoro não duvida de mim. Sou um cavalheiro. Provei-o quando fiz a guerra a um tirano, na primeira revolta da justiça. Fui atirado de alturas que nem Vossa Senhoria imagina... Um trambulhão considerável, meu caro senhor! Grandes desgostos! O que me consola é que o OUTRO também está muito abalado. Porque, meu amigo, quando um Jeová tem contra si apenas um Satanás, sai-se bem das dificuldades. Manda atacar mais uma legião de arcanjos. Mas quando o inimigo é o homem, armado de pena de pato e caderno de papel branco, está perdido... Enfim são seis mil contos. Vamos, Teodoro, aí tem a campainha, seja um homem.

Eu sei o que um cristão deve a si mesmo. Se este personagem me tivesse levado ao cimo de uma montanha na Palestina, numa noite de lua cheia... Se aí me mostrasse cidades, raças e impérios adormecidos... Se me dissesse, com ar sombrio: «Mata o Mandarim, e tudo o que vês em vale e colina será teu»... Eu saberia responder-lhe, seguindo um exemplo ilustre. Levantaria o dedo para as profundezas cheias de estrelas: «O meu reino não é deste mundo!» Eu conheço os meus autores. Mas eram cento e tantos mil contos, oferecidos à luz de uma vela de estearina, na travessa da Conceição. Quem os oferecia era um sujeito de chapéu alto, apoiado a um guarda-chuva...

Então não hesitei. E, com mão firme, toquei a campainha. Foi talvez uma ilusão. Mas pareceu-me que um sino, de boca tão vasta como o próprio céu, soava na escuridão, através do Universo. O seu som terrível foi decerto acordar sóis que faziam né-né e planetas pançudos a ressonar sobre os seus eixos...

O indivíduo levou um dedo à pálpebra. Limpou a lágrima que tinha embaciado um instante o seu olho brilhante:

— Pobre Ti-Chin-Fu!...

— Morreu?

— Estava no seu jardim, sossegado, a preparar um papagaio de papel para o lançar ao ar. É o passatempo honesto de um Mandarim retirado. Foi então que o surpreendeu este *ti-li-tin* da campainha. Agora está deitado à beira de um regato que canta. Está todo vestido de seda amarela, morto, de pança ao ar, sobre a relva verde. Nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que parece tão morto como ele. Amanhã são os funerais. Que a sabedoria de Confúcio, penetrando-o, ajude a sua alma a emigrar bem!

E o sujeito levantou-se, tirou respeitosamente o chapéu e saiu, com o guarda-chuva debaixo do braço.

Então, ao ouvir bater a porta, pareceu-me que saía de um pesadelo. Saltei para o corredor. Uma voz alegre falava com Madame Marques, e a cancela da escada fechou-se devagarinho.

— Quem é que saiu agora, ó D. Augusta? — perguntei, a suar.

— Foi o Cabritinha que vai um bocadinho à batota...

Voltei ao quarto. Tudo lá estava tranquilo, igual, real. O in-fólio ainda estava aberto na página terrível. Reli-a. Agora parecia-me apenas a prosa antiquada de um moralista teimoso. Cada palavra se tinha tornado como um carvão apagado...

Deitei-me. E sonhei que estava longe, para além de Pequim, nas fronteiras da Tartária, no quiosque de um convento de Lamas. Ouvia máximas prudentes e suaves, que escorriam dos lábios de um Buda vivo, com um fino aroma de chá.

### Glossário

- **amanuense**: funcionário que copia documentos à mão.
- **enguiço**: pessoa ou coisa que parece trazer azar; é a alcunha de Teodoro.
- **Lentes**: professores da universidade (palavra antiga).
- **in-fólios**: livros antigos de grande formato.
- **ti-li-tin**: o som da campainha.
- **Fêmeas**: aqui, palavra grosseira e ofensiva para as mulheres comuns.
- **fadista**: aqui, homem violento das ruas (sentido antigo).
- **faziam né-né**: dormiam, como dizem os bebés.
- **papagaio de papel**: brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio.
- **batota**: jogo de dinheiro proibido.
- **olhos oblíquos**: olhos de forma alongada; expressão antiga para descrever pessoas do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **raças**: palavra antiga para «povos»; hoje considerada ofensiva quando usada assim.
- **bárbaro**: palavra antiga e ofensiva para «estrangeiro» ou «sem civilização».
- **Tartária**: nome antigo de terras do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **in-fólio**: livro antigo de grande formato.
- **Mandarim**: aqui, alto funcionário chinês; não é a língua.
- **poderes públicos**: o governo.
- **tipoias**: carruagens de aluguer.
- **trem**: aqui, carruagem puxada por cavalos; não é um comboio.
- **campainha**: pequeno sino que se toca com a mão.
- **réis**: antiga moeda portuguesa.
- **corcovado**: com as costas curvadas.
- **venerável**: digno de grande respeito.
- **pálido**: muito claro, quase sem cor.
- **costureira**: mulher que faz ou arranja roupa.
- **esplêndida**: magnífica, maravilhosa.
- **esguio**: alto e magro.
- **exuberante**: cheio de vida e de energia.
- **lustrina**: tecido leve e brilhante.
- **cachimbo**: pequeno objeto usado para fumar tabaco.
- **arrulhar**: o som que fazem as rolas e as pombas.
- **monótono**: sempre igual.
- **cambraia**: tecido muito fino.
- **aparador**: móvel da sala de jantar onde se põem pratos e copos.
- **bicais**: de uma variedade de cerejas.
- **litografia**: imagem impressa, feita a partir de um desenho.
- **viscondessas**: senhoras nobres; mulheres de viscondes.
- **êxtase**: prazer ou alegria muito forte.
- **trote**: passo rápido do cavalo, mais lento que o galope.

## II

Decorreu um mês.

Eu, no entanto, rotineiro e triste, continuava a pôr o meu cursivo ao serviço dos poderes públicos. Aos domingos, admirava a habilidade comovente com que D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Agora era claro para mim que, nessa noite, eu tinha adormecido sobre o in-fólio. Tinha sonhado com uma «Tentação da Montanha» em formas familiares. Mas, por instinto, comecei a preocupar-me com a China. Ia ler os telegramas à Havaneza, e procurava sempre as notícias do Império do Meio. Parece, porém, que nessa altura nada se passava na região das raças amarelas... A *Agência Havas* só tagarelava sobre a Herzegovina, a Bósnia, a Bulgária e outras curiosidades bárbaras...

Pouco a pouco, fui esquecendo o meu episódio fantasmagórico. E, à medida que o meu espírito se acalmava, as antigas ambições que lá viviam voltaram a mexer-se. Eram um ordenado de Diretor-Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os de D. Augusta. Mas tais prazeres pareciam-me tão fora do meu alcance, tão nascidos do sonho, como os próprios milhões do Mandarim. E, pelo deserto monótono da vida, lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas melancolias...

Um domingo de agosto, de manhã, eu estava estendido na cama, em mangas de camisa. Dormitava, com o cigarro apagado no lábio. Foi então que a porta rangeu devagarinho. Abri um pouco a pálpebra adormecida e vi curvar-se ao meu lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

— O sr. Teodoro?... O sr. Teodoro do Ministério do Reino?...

Levantei-me lentamente sobre o cotovelo e respondi, a bocejar:

— Sou eu, cavalheiro.

O indivíduo dobrou as costas: assim se curva o cortesão na presença augusta de el-rei Bobeche... Era pequenino e gordo. A ponta das suíças brancas tocava-lhe as lapelas do fraque de alpaca. Uns respeitáveis óculos de ouro brilhavam na sua cara de bochechas gordas, que parecia uma próspera imagem da Ordem. E tremia todo, desde a calva brilhante até às botinas de bezerro. Pigarreou, cuspiu um pouco, falou com dificuldade:

— São notícias para vossa senhoria! Notícias consideráveis! O meu nome é Silvestre... Silvestre, Juliano & C.ª... Um criado às ordens de vossa excelência... Chegaram justamente pelo navio de Southampton... Nós somos correspondentes de Brito, Alves & C.ª de Macau... Correspondentes de Craig and Co de Hong Kong... As letras vêm de Hong Kong...

O sujeito quase não conseguia falar. A sua mão gorda agitava, a tremer, um envelope cheio, com um selo de cera preta.

— Vossa excelência — continuou — estava certamente prevenido... Nós é que não estávamos... A atrapalhação é natural... O que esperamos é que vossa excelência nos conserve a sua bondade... Nós sempre respeitámos muito o caráter de vossa excelência... Vossa excelência é nesta terra uma flor de virtude e espelho de bons! Aqui estão os primeiros saques sobre Bhering and Brothers de Londres... Letras a trinta dias sobre Rothschild...

A este nome, que soava como o próprio ouro, saltei avidamente da cama.

— O que é isso, senhor? — gritei.

E ele, gritando mais alto, a agitar o envelope, todo levantado na ponta das botinas:

— São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre Londres, Paris, Hamburgo e Amesterdão, sacados a seu favor, excelentíssimo senhor!... A seu favor, excelentíssimo senhor! Pelas casas de Hong Kong, de Xangai e de Cantão, da herança depositada do Mandarim Ti-Chin-Fu!!

Senti tremer o Globo debaixo dos pés e fechei os olhos por um momento. Mas compreendi, num instante, que eu era, desde essa hora, como uma encarnação do Sobrenatural. Recebia dele a minha força e possuía os seus atributos. Não podia comportar-me como um homem, nem rebaixar-me com emoções humanas. Até, para não quebrar a minha atitude solene e sagrada, não fui soluçar sobre o vasto seio de Madame Marques. E era isso que a alma me pedia...

De agora em diante, cabia-me a impassibilidade de um Deus — ou de um Demónio. Dei, com naturalidade, um puxão às calças, e disse a Silvestre, Juliano & C.ª estas palavras:

— Está bem! O Mandarim... Esse Mandarim que disse portou-se com cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de família. Deixe aí os papéis... Bons dias.

Silvestre, Juliano & C.ª retirou-se às arrecuas, com as costas dobradas e a testa virada para o chão.

Eu fui então abrir toda a janela. Dobrei a cabeça para trás e respirei o ar quente, com prazer, como uma corça cansada...

Depois olhei para baixo, para a rua. Toda uma burguesia saía calmamente da missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e ali, sem pensar, algumas cuias de senhoras, alguns metais brilhantes de arreios. E de repente veio-me esta ideia, esta certeza triunfante. Todas aquelas tipoias podiam ser minhas, à hora ou ao ano! Nenhuma das mulheres que eu via deixaria de me oferecer o seu seio nu, a um sinal do meu desejo! E todos esses homens, de sobrecasaca de domingo, se prostrariam diante de mim. Seria como diante de um Cristo, de um Maomé ou de um Buda. Bastava que eu lhes agitasse junto à cara cento e seis mil contos sobre as praças da Europa!...

Apoiei-me à varanda. E ri, com tédio, ao ver a agitação passageira daquela humanidade subalterna. Eles consideravam-se livres e fortes. E, por cima deles, numa varanda de quarto andar, eu tinha na mão um envelope fechado com cera preta. Ali estava o próprio princípio da sua fraqueza e da sua escravidão!... Então, gozei pela imaginação as satisfações do Luxo, os prazeres do Amor, os orgulhos do Poder. Gozei tudo num instante, de um só trago. Mas logo uma grande saciedade me foi enchendo a alma. E, sentindo o mundo aos meus pés, bocejei como um leão farto.

De que me serviam, afinal, tantos milhões? Serviam só para me trazer, dia a dia, a triste certeza da baixeza humana?... E assim, ao choque de tanto ouro, a beleza moral do Universo ia desaparecer dos meus olhos como fumo! Tomou-me uma tristeza mística. Deixei-me cair numa cadeira e, com a cara entre as mãos, chorei muito.

Pouco depois, Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas sedas pretas.

— Está-se à sua espera para jantar, enguiço!...

Saí da minha amargura para lhe responder secamente:

— Não janto.

— Mais fica!

Nesse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me de que era domingo, dia de touros. De repente uma visão brilhou, ardeu, atraindo-me deliciosamente. Era a tourada vista de um camarote, depois um jantar com champanhe. E à noite a orgia, como uma iniciação! Corri à mesa. Enchi os bolsos de letras sobre Londres. Desci à rua com a fúria de um abutre que corta o ar contra a presa. Passava uma caleche vazia. Mandei-a parar e gritei:

— Aos touros!

— São dez tostões, meu amo!

Olhei com repulsa aquele reles pedaço de matéria organizada, que falava em placas de prata a um colosso de ouro! Enterrei a mão no bolso carregado de milhões e tirei o meu metal: tinha setecentos e vinte!

O cocheiro bateu na anca da égua e seguiu, a resmungar. Eu balbuciei:

— Mas tenho letras!... Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!...

— Não pega.

Setecentos e vinte!... E os touros, o jantar de lorde, as andaluzas nuas, todo esse sonho acabou. Morreu como uma bola de sabão que bate na ponta de um prego.

Odiei a Humanidade, abominei o Numerário. Eu tinha ficado parado, distraído, com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada. Outra tipoia, lançada a trote, cheia de gente em festa, quase me atropelou.

De cabeça baixa, cheio de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu quarto andar. Humilhei-me a Madame Marques e aceitei o seu bife duro como corno. E passei essa primeira noite de riqueza a bocejar na cama solitária. Enquanto isso, lá fora, o alegre Couceiro, o pobre tenente de quinze mil réis de soldo, ria com D. Augusta. Ao mesmo tempo, tocava na viola o *Fado da Cotovia*.

Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que refleti sobre a origem dos meus milhões. Essa origem era claramente sobrenatural e suspeita.

Mas o meu Racionalismo impedia-me de ver nestes tesouros inesperados a generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo. Esses dois são ficções puramente escolásticas. Os fragmentos de Positivismo formam o fundo da minha Filosofia. Também eles não me deixavam procurar *as causas primárias, as origens essenciais*. Por isso, decidi bem depressa aceitar secamente este Fenómeno, e usá-lo com largueza. Portanto, corri para o *London Brazilian Bank*, com o casaco ao vento...

Aí, atirei para cima do balcão um papel sobre o *Banco de Inglaterra*, de mil libras. E soltei esta palavra deliciosa:

— Ouro!

Um caixeiro sugeriu-me com doçura:

— Talvez lhe fosse mais cómodo em notas...

Repeti secamente:

— Ouro!

Enchi os bolsos, devagar, aos punhados. Na rua, muito carregado, icei-me para uma caleche. Sentia-me gordo, sentia-me obeso. Tinha na boca um sabor a ouro, e uma secura de pó de ouro na pele das mãos. As paredes das casas pareciam-me brilhar como longas lâminas de ouro. E dentro do cérebro ia um ruído surdo, onde tilintavam metais. Era como um oceano que rolasse barras de ouro nas suas ondas.

Deixava-me ir com o balanço das molas, a rebolar como um odre mal seguro. Deixava cair sobre a rua e sobre a gente o olhar turvo e aborrecido do ser repleto. Por fim, atirei o chapéu para a nuca, estiquei a perna, empinei a barriga. E arrotei formidavelmente, com uma flatulência de rico...

Rolei muito tempo assim pela cidade, embrutecido num gozo de Nababo.

De repente, um desejo brusco de gastar, de esbanjar ouro, veio encher-me o peito. Era como uma rajada que incha uma vela.

— Para, animal! — gritei ao cocheiro.

Os cavalos pararam. Procurei à minha volta, com a pálpebra meio fechada, alguma coisa cara para comprar. Podia ser joia de rainha ou consciência de estadista. Não vi nada. Corri então para uma tabacaria.

— Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

— Quantos? — perguntou o homem, servilmente.

— Todos! — respondi, com brutalidade.

À porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao peito, estendeu-me a mão transparente. Incomodava-me procurar as moedas de cobre no meio dos meus punhados de ouro. Afastei-a, impaciente. E, com o chapéu sobre o olho, encarei friamente a multidão.

Foi então que vi aproximar-se o vulto ponderoso do meu Diretor-Geral. Imediatamente, dei por mim com as costas dobradas em arco. O chapéu, a cumprimentar, tocava nas lajes do chão. Era o hábito da dependência: os meus milhões ainda não me tinham endireitado a espinha...

Em casa, despejei o ouro sobre a cama. Rolei em cima dele durante muito tempo, a grunhir num gozo surdo. A torre, ao lado, bateu três horas. O sol apressado já descia, levando consigo o meu primeiro dia de riqueza... Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

Ah, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solitário e egoísta. A mesa estava coberta de Bordéus, Borgonha, champanhe, Reno, licores de todas as comunidades religiosas. Era como para matar uma sede de trinta anos! Mas só me fartei de Colares. Depois, a cambalear, arrastei-me para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou atrás das persianas. Dei por mim caído no tapete, exausto e meio nu. Sentia o corpo e a alma como que a esvaírem-se, a dissolverem-se naquele ambiente abafado. Andava lá um cheiro a pó de arroz, a fêmea e a ponche...

Quando voltei à travessa da Conceição, as janelas do meu quarto estavam fechadas. A vela morria, com clarões pálidos, no castiçal de latão. Então, ao chegar junto à cama, vi isto. Deitada de través sobre a colcha, estava uma figura barriguda de Mandarim fulminado. Vestia seda amarela e tinha um grande rabicho solto. E entre os braços, como morto também, tinha um papagaio de papel!

Abri desesperadamente a janela, e tudo desapareceu. O que estava agora sobre a cama era um velho paletó esbranquiçado.

### Glossário

- **raças amarelas**: nome antigo para os povos do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **bárbaras**: palavra antiga e ofensiva para «estrangeiras» ou «sem civilização».
- **Lola**: nome usado para falar de uma dançarina espanhola ou de uma mulher de vida livre.
- **contos**: um conto são mil mil-réis; uma grande soma de dinheiro.
- **letras**: papéis que mandam um banco pagar uma soma.
- **cuias**: cabelo postiço usado pelas senhoras.
- **tipoias**: carruagens de aluguer.
- **jantar**: aqui, a refeição principal do dia, que podia ser a meio do dia ou à tarde.
- **Mais fica!**: «fica mais para os outros», diz-se a quem recusa comida.
- **Não pega.**: «isso não serve», «isso não resulta».
- **Nababo**: homem riquíssimo.
- **Lupanar**: casa de prostituição.
- **rabicho**: trança de cabelo que os homens chineses usavam na época (palavra antiga).
- **setecentos**: 700; aqui, «setecentos e vinte» são 720 réis.
- **pálpebra**: a pele que cobre o olho.
- **bocejar**: abrir muito a boca, com sono ou com tédio.
- **excelentíssimo**: forma muito respeitosa de falar a uma pessoa importante.
- **tostões**: moedas antigas; um tostão valia 100 réis.
- **cocheiro**: homem que conduz uma carruagem.
- **rotineiro**: que faz sempre as mesmas coisas.
- **in-fólio**: livro antigo de grande formato.
- **telegramas**: mensagens curtas enviadas de muito longe por telégrafo.
- **tagarelava**: falava muito, sem dizer nada importante.
- **tenros**: macios, fáceis de mastigar.
- **monótono**: sempre igual.
- **melancolias**: tristezas longas e calmas.
- **murmurou**: disse em voz muito baixa.
- **cavalheiro**: homem bem-educado; forma respeitosa de falar a um homem.
- **poderes públicos**: o governo.
- **saques**: papéis que mandam pagar uma soma de dinheiro.
- **trens**: aqui, carruagens puxadas por cavalos; não são comboios.
- **caleche**: carruagem leve puxada por cavalos.
- **fêmea**: aqui, palavra grosseira e ofensiva para mulher.
- **réis**: antiga moeda portuguesa.
- **lapelas**: partes dobradas da frente de um casaco, junto ao pescoço.
- **fraque**: casaco de homem, curto à frente e comprido atrás.
- **alpaca**: tecido fino e leve.
- **cuspiu**: deitou saliva pela boca.

## III

Então começou a minha vida de milionário. Deixei bem depressa a casa de Madame Marques. Desde que sabia que eu era rico, ela dava-me todos os dias arroz-doce. Servia-me ela mesma, com o seu vestido de seda dos domingos. Comprei e habitei o palacete amarelo, ao Loreto. As magnificências da minha casa são bem conhecidas pelas gravuras indiscretas da *Ilustração Francesa*. A minha cama tornou-se famosa na Europa, pelo seu gosto exuberante e bárbaro. A barra era coberta de lâminas de ouro trabalhado. Os cortinados eram de um raro brocado preto, onde ondulam versos eróticos de Catulo, bordados a pérolas. Uma lâmpada, pendurada lá dentro, espalha a luz amorosa, branca como leite, de um luar de verão.

Não o escondo: passei os meus primeiros meses de rico a amar. Amava com o sincero bater de coração de um pajem sem experiência. Tinha-a visto a dar água aos seus craveiros na varanda, como numa página de novela. Chamava-se Cândida. Era pequenina, era loira. Morava em Buenos Aires, numa casinha casta coberta de trepadeiras. Pela graça e pela cintura elegante, lembrava-me tudo o que a Arte criou de mais fino e frágil: Mimi, Virgínia, a Joaninha do Vale de Santarém.

Todas as noites eu caía, em êxtase de místico, aos seus pés cor de jaspe. Todas as manhãs lhe enchia o colo de notas de vinte mil réis. Primeiro, ela recusava-as, a corar. Depois, ao guardá-las na gaveta, chamava-me o seu *anjo Totó*.

Um dia entrei com passos leves, sobre o grosso tapete sírio, até ao seu *boudoir*. Ela estava a escrever, muito encantada, de dedinho no ar. Quando me viu, toda a tremer, toda pálida, escondeu o papel, que tinha o seu monograma. Arranquei-lhe o papel, num ciúme louco. Era a carta, a carta costumada, a carta necessária, a carta que a mulher sempre escreve, desde a velha Antiguidade. Começava por *meu idolatrado* — e era para um alferes da vizinhança...

Arranquei logo este sentimento do peito, como uma planta venenosa. Deixei de acreditar para sempre nos Anjos loiros, que guardam no olhar azul o reflexo dos céus por onde passaram. De cima do meu ouro, deixei cair a gargalhada ácida de Mefistófeles. Caiu sobre a Inocência, o Pudor e outras idealizações funestas. E organizei friamente uma vida animal, grandiosa e cínica.

Ao bater do meio-dia, entrava na minha tina de mármore cor-de-rosa. Os perfumes deitados nela davam à água um tom opaco de leite. Depois, pajens de mãos macias esfregavam-me, com o cerimonial de quem celebra um culto. Embrulhado num *robe-de-chambre* de seda da Índia, atravessava a galeria. Dava aqui e ali um olhar aos meus Fortunys e aos meus Corots, entre filas silenciosas de lacaios. E dirigia-me ao bife à inglesa, servido em Sèvres azul e ouro.

O resto da manhã, se estava calor, passava-o sobre almofadas de cetim cor de pérola. O *boudoir* tinha mobília de porcelana fina de Dresde, e as flores faziam dele um jardim de Armida. Aí saboreava o *Diário de Notícias*, enquanto lindas raparigas vestidas à japonesa refrescavam o ar com leques de plumas.

De tarde, ia dar uma volta a pé até ao Pote das Almas. Era a hora mais pesada do dia. Encostado à bengala, arrastando as pernas moles, abria bocejos de fera saciada. E a multidão abjeta parava a contemplar, em êxtase, o Nababo aborrecido!

Às vezes, vinha-me como uma saudade dos meus tempos ocupados da Repartição. Entrava em casa e fechava-me na biblioteca, onde o Pensamento da Humanidade descansava, esquecido e encadernado em marroquim. Aparava uma pena de pato. E ficava horas a escrever em folhas do meu querido Tojal de outrora: «*Ilmo. e Exmo. Sr. — Tenho a honra de participar a V. Ex.ª... Tenho a honra de passar às mãos de V. Ex.ª!...*»

No começo da noite, um criado anunciava o jantar. Pelos corredores, fazia soar uma música solene na sua tuba de prata, à moda gótica. Eu levantava-me e ia comer, majestoso e solitário. Uma populaça de lacaios, de libré de seda preta, servia em silêncio, como sombras que deslizam. Traziam comidas raras e vinhos do preço de joias. Toda a mesa era um esplendor de flores, luzes, cristais e brilhos de ouro. E, enrolando-se pelas pirâmides de fruta, misturando-se ao vapor dos pratos, andava, como uma névoa fina, um tédio indescritível...

Depois, apoplético, atirava-me para o fundo do cupé, e lá ia às Janelas Verdes. Aí mantinha, num jardim de serralho, entre requintes muçulmanos, um viveiro de fêmeas. Vestiam-me uma túnica de seda fresca e perfumada, e eu entregava-me a delírios abomináveis... Traziam-me meio morto para casa, à primeira luz da manhã. Fazia mecanicamente o sinal da cruz. E pouco depois ressonava de barriga para o ar, pálido e com um suor frio, como um Tibério exausto.

Entretanto, Lisboa rojava-se aos meus pés. O pátio do palacete estava sempre invadido por uma multidão. Das janelas da galeria, eu olhava-a, aborrecido. Via lá brilhar os peitilhos brancos da Aristocracia, as batinas pretas do Clero e o suor da Plebe. Todos vinham suplicar, de lábio abjeto, a honra do meu sorriso e uma parte do meu ouro. Às vezes, aceitava receber algum velho de título histórico. Ele avançava pela sala, quase a tocar no tapete com os cabelos brancos, gaguejando elogios. E logo punha sobre o peito a mão de veias fortes, onde corria um sangue de três séculos. Então oferecia-me uma filha muito amada, para esposa ou para concubina.

Todos os cidadãos me traziam presentes, como a um Ídolo sobre o altar. Uns traziam Odes votivas, outros o meu monograma bordado a cabelo, alguns chinelas ou boquilhas. Cada um trazia a sua consciência. Se o meu olhar cansado se fixava por acaso numa mulher, na rua, chegava logo no dia seguinte uma carta. Nela, a criatura, esposa ou prostituta, oferecia-me a sua nudez, o seu amor e todas as complacências da lascívia.

Os jornalistas esporeavam a imaginação para encontrar adjetivos dignos da minha grandeza. Fui o *sublime sr. Teodoro*, cheguei a ser o *celeste sr. Teodoro*. Então, enlouquecida, a *Gazeta das Locais* chamou-me o *extraceleste sr. Teodoro*! Diante de mim, nenhuma cabeça ficou jamais coberta, usasse ela coroa ou chapéu de coco. Todos os dias me ofereciam uma Presidência de Ministério ou uma Direção de Confraria. Recusei sempre, com nojo.

Pouco a pouco, o rumor das minhas riquezas foi passando as fronteiras da Monarquia. O *Figaro*, cortesão, falou de mim em cada número, preferindo-me a Henrique V. O grotesco imortal que assina *Saint-Genest* dirigiu-me apelos convulsivos, pedindo-me para salvar a França. E foi então que as *Ilustrações* estrangeiras publicaram, a cores, as cenas da minha vida. Recebi de todas as princesas da Europa envelopes com selos de brasão. Mostravam-me, com fotografias e documentos, a forma dos seus corpos e a antiguidade das suas genealogias. Duas piadas que disse nesse ano foram telegrafadas ao Universo pelos fios da *Agência Havas*. E fui considerado mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort e que esse fino entendimento chamado *Todo-o-Mundo*. Quando o meu intestino se aliviava com estrondo, a Humanidade sabia-o pelos jornais. Fiz empréstimos aos Reis, subsidiei guerras civis. E todas as Repúblicas latinas à volta do golfo do México me enganaram e não me pagaram.

E eu, no entanto, vivia triste...

Todas as vezes que entrava em casa, parava, arrepiado, diante da mesma visão. Deitada no limiar da porta, ou atravessada sobre a cama de ouro, lá estava a figura barriguda. Tinha rabicho preto e túnica amarela, e o seu papagaio nos braços... Era o Mandarim Ti-Chin-Fu! Eu corria para ele, de punho levantado, e tudo desaparecia.

Então caía, aniquilado, todo suado, numa poltrona. No silêncio do quarto, as velas dos candelabros davam tons de sangue aos damascos vermelhos. E eu murmurava:

— *Preciso de matar este morto!*

E, no entanto, um velho fantasma pançudo instalava-se nos meus móveis e nas minhas colchas. Não era esta impertinência que me estragava o gosto da vida.

O horror supremo estava numa ideia. Essa ideia tinha-se cravado então no meu espírito, como um ferro impossível de arrancar: *que eu tinha assassinado um velho!*

Não tinha sido com uma corda à volta da garganta, à moda muçulmana. Nem com veneno num cálice de vinho de Siracusa, à maneira italiana da Renascença. Nem com um dos métodos clássicos que a história das Monarquias consagrou com solenidade. Esses foram o punhal, como D. João II, e a carabina, como Carlos IX...

Tinha eliminado a criatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo, fantástico, engraçado. Mas isso não diminuía o negrume trágico do facto: *eu tinha assassinado um velho!*

Pouco a pouco, esta certeza levantou-se e petrificou-se na minha alma. Como uma coluna num descampado, dominou toda a minha vida interior. Assim, por mais longe que fossem os meus pensamentos, viam sempre no horizonte aquela Memória acusadora. Por mais alto que voassem as minhas imaginações, acabavam fatalmente por ferir as asas nesse Monumento de miséria moral.

Ah! podemos considerar a Vida e a Morte como banais transformações da Substância. Mas é um pensamento terrível saber que se gelou um sangue quente, que se imobilizou um músculo vivo! Depois de jantar, com o aroma do café ao lado, eu estendia-me no sofá, lânguido, numa sensação de plenitude. Então levantava-se logo dentro de mim, triste como o coro que vem de uma prisão, todo um murmúrio de acusações:

— E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais fosse gozado pelo venerável Ti-Chin-Fu!...

Em vão respondia eu à Consciência, lembrando-lhe a velhice do Mandarim e a sua gota incurável... Cheia de argumentos, gulosa de discussões, ela respondia logo com fúria:

— Mas, mesmo na sua atividade mais pequena, a vida é um bem supremo. Porque o seu encanto está no seu próprio princípio, e não na abundância das suas manifestações!

Eu revoltava-me contra este pedantismo retórico de professor rígido. Levantava bem alto a cabeça e gritava-lhe, com uma arrogância desesperada:

— Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? O teu grande nome de Consciência não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade nervosa. Posso eliminar-te com *flor de laranja!*

E logo sentia passar-me na alma, lenta como uma brisa, um rumor humilde de murmúrios irónicos:

— Bem, então come, dorme, banha-te e ama...

Eu assim fazia. Mas logo os próprios lençóis de Bretanha da cama ganhavam, aos meus olhos cheios de terror, os tons pálidos de uma mortalha. A água perfumada em que eu mergulhava arrefecia-me sobre a pele, com a sensação espessa de um sangue que coalha. E os peitos nus das minhas amantes entristeciam-me, como lápides de mármore que fecham um corpo morto.

Depois atacou-me uma amargura maior. Comecei a pensar que Ti-Chin-Fu tinha decerto uma vasta família, netos, tenros bisnetos. Eu comia a herança deles à farta, em pratos de Sèvres, com uma pompa de sultão gastador. E eles, sem essa herança, iam atravessando na China todos os infernos tradicionais da miséria humana. Eram os dias sem arroz, o corpo sem agasalho, a esmola recusada, a rua lamacenta por morada...

Compreendi então por que me perseguia a figura obesa do velho letrado. Dos seus lábios, cobertos pelos longos pelos brancos do seu bigode de sombra, parecia-me sair agora esta acusação desolada: «Eu não me lamento a mim, forma meio morta que eu era. Choro os tristes que arruinaste. A estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas amantes, eles gemem de fome e gelam de frio. Estão amontoados num grupo moribundo, entre leprosos e ladrões. Estão na *Ponte dos Mendigos*, ao pé dos terraços do Templo do Céu!»

Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chinesa! Não podia levar à boca um pedaço de pão sem imaginar logo o bando faminto de criancinhas. Era a descendência de Ti-Chin-Fu. Sofriam como passarinhos sem penas que abrem em vão o bico e piam num ninho abandonado. Se me agasalhava no meu paletó, vinha logo a visão de senhoras desgraçadas. Outrora tinham vivido no morno conforto chinês. Hoje estavam roxas de frio, em farrapos de velhas sedas, numa manhã de neve. O teto de ébano do meu palacete lembrava-me a família do Mandarim. Dormia à beira dos canais, farejada pelos cães. E o meu cupé bem forrado fazia-me arrepiar. Pensava nas longas caminhadas sem destino, por estradas encharcadas, num duro inverno asiático.

O que eu sofria! E era o tempo em que a populaça invejosa vinha olhar, espantada, para o meu palacete. Comentava as felicidades inacessíveis que lá deviam viver!

Enfim, reconheci que a Consciência era dentro de mim como uma serpente irritada. Decidi implorar o auxílio d'Aquele que dizem ser superior à Consciência, porque dispõe da Graça.

Infelizmente, eu não acreditava n'Ele... Recorri pois à minha antiga divindade particular, ao meu ídolo querido, padroeira da minha família, Nossa Senhora das Dores. Paguei como um rei a um povo de curas e cónegos. Nas catedrais das cidades e nas capelas das aldeias, foram rezando a Nossa Senhora das Dores. Pediam-lhe que voltasse os olhos piedosos para o meu mal interior... Mas nenhum alívio desceu desses céus sem piedade. Para lá sobe em vão, há milhares de anos, o clamor da miséria humana.

Então fui eu próprio que mergulhei em práticas piedosas. E Lisboa assistiu a este espetáculo extraordinário: um ricaço, um Nababo, de joelhos, humilde, diante dos altares. Balbuciava de mãos postas frases da *Salve-Rainha*. Parecia ver na Oração e no Reino do Céu que ela conquista, algo mais do que uma consolação inventada. Mas essa consolação, inventaram-na os que possuem tudo, para contentar os que não possuem nada... Eu pertenço à Burguesia. E sei por que razão ela mostra à Plebe pobre um paraíso distante e gozos indescritíveis a alcançar. É para lhe afastar a atenção dos seus cofres cheios e da abundância das suas searas.

Depois, mais inquieto, mandei dizer milhares de missas, simples e cantadas, para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fu. Pueril desvario de um cérebro peninsular! O velho Mandarim era letrado, membro da Academia dos Han-Lin. Era colaborador provável do grande tratado *Khou-Tsuane-Chou*, que já tem setenta e oito mil setecentos e trinta volumes. Era certamente um seguidor da Doutrina, da Moral positiva de Confúcio... Ele nunca tinha queimado sequer pavios perfumados em honra de Buda. Tinha uma abominável alma de gramático e de cético. Os cerimoniais do Sacrifício místico deviam parecer-lhe pantomimas de palhaços, no teatro de Hong-Tung!

Então prelados astutos, com experiência católica, deram-me um conselho subtil. Devia conquistar a bondade de Nossa Senhora das Dores com presentes, flores, brocados e joias. Era como se quisesse alcançar os favores de Aspásia. Um banqueiro obeso obtém as complacências de uma dançarina dando-lhe um *cottage* entre árvores. Eu, por sugestão dos padres, tentei do mesmo modo comprar a doce Mãe dos Homens. Ergui-lhe uma catedral toda de mármore branco. A abundância das flores abria entre os pilares trabalhados vistas de paraísos. A multidão das luzes lembrava uma magnificência de estrelas... Despesas vãs! O fino e erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja. Mas, nesse dia, entrei para visitar a minha hóspede divina. E, para além das calvas dos padres, na névoa mística do incenso, o que vi? Não foi a Rainha da Graça, loira, na sua túnica azul. Foi o velho malandro, com o seu olho oblíquo e o seu papagaio nos braços! Era a *ele*, ao seu branco bigode tártaro, à sua pança cor de ocre, que tudo se dirigia. Ao ronco do órgão, todo um clero bordado a ouro lhe oferecia a Eternidade dos Louvores!...

Pensei então que Lisboa, este meio adormecido onde eu vivia, favorecia estas imaginações. Parti, e viajei com sobriedade, sem pompa, com um baú e um lacaio.

Visitei, pela sua ordem clássica, Paris, a banal Suíça, Londres, os lagos calados da Escócia. Ergui a minha tenda diante das muralhas evangélicas de Jerusalém. E de Alexandria a Tebas, percorri esse longo Egito, monumental e triste como o corredor de um mausoléu. Conheci o enjoo dos paquetes, a monotonia das ruínas, a melancolia das multidões desconhecidas, as desilusões do *boulevard*. E o meu mal interior ia crescendo.

Agora já não era só a amargura de ter roubado uma família venerável. Atacava-me um remorso mais vasto: tinha privado toda uma sociedade de um Personagem fundamental. Era um letrado experiente, coluna da Ordem, apoio das Instituições. Não se pode arrancar assim a um Estado uma personalidade do valor de cento e seis mil contos. Isso perturba-lhe o equilíbrio... Esta ideia feria-me duramente. Quis muito saber se o desaparecimento de Ti-Chin-Fu tinha sido de facto funesto para a velha China. Li todos os jornais de Hong Kong e de Xangai. Passei noites acordado com Histórias de viagens. Consultei sábios missionários. E artigos, homens, livros, tudo me fala da decadência do Império do Meio. Falam de províncias arruinadas, cidades a morrer, plebes esfomeadas, pestes e rebeliões, templos a cair, leis a perder a autoridade. É a decomposição de um mundo, como uma nau encalhada que as ondas desfazem tábua a tábua!...

E eu atribuía-me estas desgraças da Sociedade chinesa! No meu espírito doente, Ti-Chin-Fu tinha ganho o valor desproporcionado de um César, de um Moisés. Era um desses seres providenciais que são a força de uma raça. Eu tinha-o matado, e com ele tinha desaparecido a vitalidade da sua pátria! O seu vasto cérebro podia talvez ter salvado, com golpes de génio, aquela velha monarquia asiática. E eu tinha parado a sua ação criadora! A sua fortuna ajudaria a refazer a grandeza do Tesouro. E eu estava a esbanjá-la a oferecer pêssegos em janeiro às messalinas do Helder!... Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um império!

Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me à orgia. Instalei-me num palacete da avenida dos Campos Elísios e fui medonho. Dava festas à Trimalquião. Nas horas mais violentas da fúria libertina, as bandas de música atiravam *can-cans*, com o som brutal dos metais. Prostitutas de seio à mostra guinchavam canções ordinárias. Os meus convidados boémios, ateus de cervejaria, insultavam Deus, com a taça de champanhe levantada. E eu, como Heliogábalo, era tomado de repente por uma fúria de bestialidade. Sentia um ódio ao Pensante e ao Consciente. Atirava-me ao chão, de quatro patas, e zurrava formidavelmente como um burro...

Depois quis ir mais baixo, ao deboche da plebe, às porcarias alcoólicas do *Assommoir*. Quantas vezes andei vestido de blusa, com o boné para a nuca, de braço dado com *Mes-Bottes* ou *Bibi-la-Gaillarde*! Num bando bêbedo, ia a cambalear pelos *boulevards* exteriores, a uivar, entre arrotos:

*Allons, enfants de la patrie-e-e!... Le jour de gloire est arrivé...*

Foi numa manhã, depois de um destes excessos. É a hora em que, nas trevas da alma do devasso, se levanta uma vaga aurora espiritual. Nasceu-me de repente a ideia de partir para a China! Soldados num acampamento adormecido levantam-se ao som do clarim. Juntam-se um a um e vão formando coluna. Assim outras ideias se foram reunindo no meu espírito, alinhando-se, completando um plano formidável... Iria para Pequim. Descobriria a família de Ti-Chin-Fu. Casando com uma das senhoras, tornaria legais os meus milhões. Daria àquela casa letrada a antiga prosperidade. Celebraria um funeral pomposo ao Mandarim, para lhe acalmar o espírito irritado. Iria pelas províncias miseráveis, a fazer colossais distribuições de arroz. Obteria do Imperador o botão de cristal de Mandarim, acesso fácil a um bacharel. Iria substituir assim a personalidade desaparecida de Ti-Chin-Fu. Poderia devolver legalmente à sua pátria, se não a autoridade do seu saber, pelo menos a força do seu ouro.

Tudo isto, por vezes, me parecia um programa indefinido, nevoento, infantil e idealista. Mas o desejo desta aventura original e épica já me tinha envolvido. E eu ia, levado por ele, como uma folha seca numa rajada.

Desejei muito, suspirei por pisar a terra da China! Depois de grandes preparativos, apressados a punhados de ouro, parti enfim, uma noite, para Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o *Ceilão*. Na manhã seguinte, o mar estava azul-escuro e as gaivotas voavam, brancas. Os primeiros raios de sol coravam as torres de Nossa Senhora da Guarda, sobre o seu rochedo escuro. E eu pus a proa ao Oriente.

### Glossário

- **palacete**: casa grande e luxuosa.
- **bárbaro**: palavra antiga e ofensiva para «estrangeiro» ou «sem civilização».
- **boudoir**: pequena sala íntima de uma senhora.
- **lacaios**: criados de uma casa rica, com farda.
- **Nababo**: homem riquíssimo.
- **serralho**: parte da casa onde viviam as mulheres de um sultão (palavra antiga).
- **rabicho**: trança de cabelo que os homens chineses usavam na época (palavra antiga).
- **olho oblíquo**: olho de forma alongada; expressão antiga para descrever pessoas do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **tártaro**: dos povos do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **populaça**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **raça**: palavra antiga para «povo»; hoje considerada ofensiva quando usada assim.
- **remorso**: dor por uma coisa má que se fez.
- **messalinas**: mulheres de costumes livres, a quem se paga o luxo.
- **magnificências**: coisas de grande luxo e beleza.
- **indiscretas**: que mostram o que devia ficar privado.
- **exuberante**: vistoso e excessivo, cheio de vida.
- **brocado**: tecido rico de seda, com desenhos em relevo.
- **ondulam**: movem-se como ondas.
- **êxtase**: estado de grande admiração ou alegria, em que a pessoa fica fora de si.
- **monograma**: desenho feito com as letras iniciais de um nome.
- **aborrecido**: aqui, cansado de tudo e sem interesse por nada.
- **névoa**: nuvem fina junto ao chão.
- **túnica**: roupa comprida e larga, como um vestido simples.
- **perfumada**: com cheiro agradável.
- **Plebe**: o povo mais pobre, visto com desprezo.
- **complacências**: aqui, favores feitos para agradar.
- **venerável**: digno de muito respeito.
- **pompa**: grande luxo, para mostrar aos outros.
- **fêmeas**: aqui, palavra grosseira e insultuosa para «mulheres».
- **papagaio**: aqui, brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio; não é a ave.
- **cupé**: carruagem fechada, para poucas pessoas.
- **eróticos**: que falam do amor físico.
- **pendurada**: presa por cima, sem tocar no chão.
- **pajem**: criado ao serviço de um rei ou de um nobre (plural: pajens).
- **craveiros**: plantas que dão cravos, flores de cheiro forte.
- **trepadeiras**: plantas que sobem pelas paredes.
- **jaspe**: pedra dura, polida e de cores vivas.
- **dedinho**: o dedo mais pequeno da mão.
- **idolatrado**: amado e adorado como um ídolo.

## IV

O *Ceilão* teve uma viagem calma e monótona até Xangai.

Daí subimos pelo rio Azul até Tien-Tsin, num pequeno *steamer* da Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China com a curiosidade ociosa de um *touriste*. A paisagem dessa província parece a dos vasos de porcelana, de um tom azulado e vaporoso. Tem pequenas colinas calvas e, de longe em longe, um arbusto de ramos abertos. Tudo isso me deixou sombriamente indiferente.

O capitão do *steamer* era um ianque atrevido, com focinho de chibo. Quando passámos à altura de Nanquim, propôs-me parar, para percorrer as ruínas monumentais da velha cidade de porcelana. Recusei com um movimento seco da cabeça. Nem sequer afastei os olhos tristes da corrente barrenta do rio.

Que pesados e sombrios me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a Tung-Chou! Íamos em barcos chatos que o cheiro dos remadores chineses empestava. Passávamos ora por terras baixas inundadas pelo Pei-Hó, ora ao longo de pálidos arrozais sem fim. Aqui via uma aldeia lúgubre de lama negra, além um campo coberto de caixões amarelos. A cada momento encontrávamos cadáveres de mendigos, inchados e esverdeados. Desciam com a corrente, debaixo de um céu escuro e baixo!

Em Tung-Chou tive uma surpresa: encontrei uma escolta de cossacos que o velho general Camilloff mandava ao meu encontro. Ele era um heroico oficial das campanhas da Ásia Central e, nessa altura, embaixador da Rússia em Pequim. Eu vinha-lhe recomendado como um ser precioso e raro. Pôs ao meu serviço o falador intérprete Sá-Tó. Sá-Tó explicou-me que o general tinha recebido, havia semanas, as cartas de selo imperial que o avisavam da minha chegada. Vinham pelos correios da Chancelaria, que atravessam a Sibéria de trenó e descem de camelo até à Grande Muralha tártara. Aí entregam a mala aos corredores mongóis, vestidos de couro escarlate, que galopam dia e noite para Pequim.

Camilloff enviava-me um pónei da Manchúria, enfeitado de seda, e um cartão de visita. Sob o seu nome, tinha traçado a lápis estas palavras: «*Saúde! o animal é doce de boca!*»

Montei o pónei. A um hurra! dos cossacos, num agitar heroico de lanças, partimos a galope pela planície poeirenta, porque a tarde já caía. E as portas de Pequim fecham-se mal o último raio de sol deixa as torres do Templo do Céu. Ao princípio seguimos uma estrada batida pelas caravanas, cheia de enormes lajes de mármore soltas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de Pa-li-kao, toda de mármore branco, ladeada de dragões arrogantes. Vamos então a correr à beira de canais de água negra. Começam a aparecer pomares e, aqui e ali, uma aldeia azulada, aninhada ao pé de um Pagode. De repente, numa curva do caminho, paro assombrado...

Pequim está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e bárbara, de um negro baço, que se estende a perder de vista. As arquiteturas babilónicas das suas portas, de tetos curvos, destacam-se sobre um poente de púrpura ensanguentada...

Ao longe, para o Norte, num vapor roxo e vago, as montanhas da Mongólia esbatem-se, como suspensas no ar...

Uma rica liteira esperava-me à porta de Tung-Tsen-Men, para eu atravessar Pequim até à Residência militar de Camilloff. De perto, a muralha parecia agora subir até aos céus, com o horror de uma construção bíblica. Na sua base, amontoava-se uma confusão de barracas, uma feira exótica, onde se ouvia o rumor de uma multidão. A luz das lanternas a oscilar já cortava o crepúsculo com vagas manchas cor de sangue. Os toldos brancos pareciam, ao pé do muro negro, um bando de borboletas pousadas.

Senti-me triste. Subi para a liteira e fechei as cortinas de seda escarlate, todas bordadas a ouro. Cercado pelos cossacos, eis-me a entrar na velha Pequim, por essa porta de Babel, no meio da multidão agitada. Passava entre carretas, cadeirinhas de xarão, cavaleiros mongóis armados de flechas. Passava entre bonzos de túnica branca, que marchavam um a um, e longas filas de dromedários lentos, que balançavam a carga em cadência...

Pouco depois, a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó abriu as cortinas, e vi-me num jardim escuro e calado. Entre sicómoros de séculos, quiosques iluminados brilhavam com uma luz doce, como enormes lanternas pousadas na relva. E toda a espécie de águas correntes murmurava na sombra. Sob um peristilo de madeiras pintadas de vermelhão, iluminado por fios de lâmpadas de papel transparente, esperava-me um figurão. Era forte, tinha bigodes brancos e apoiava-se a um grosso espadão. Era o general Camilloff. Ao avançar para ele, eu sentia o passo inquieto das gazelas, que fugiam levemente debaixo das árvores...

O velho herói apertou-me um momento ao peito. Levou-me logo, segundo os usos chineses, ao banho da hospitalidade. Era uma vasta tina de porcelana, onde esponjas brancas flutuavam entre rodelas finas de limão, num perfume forte de lilás...

Pouco depois, a lua banhava deliciosamente os jardins. E eu, muito fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no *boudoir* da generala. Era alta e loira, e tinha os olhos verdes das sereias de Homero. No decote baixo do seu vestido de seda branca pousava uma rosa escarlate. E nos dedos, que lhe beijei, andava um aroma fino de sândalo e de chá.

Conversámos muito da Europa, do Niilismo, de Zola, de Leão XIII e da magreza de Sarah Bernhardt...

Pela galeria aberta entrava um ar quente que cheirava a heliotrópio. Depois ela sentou-se ao piano. E a sua voz de contralto quebrou até tarde os silêncios melancólicos da cidade tártara. Cantou as árias picantes de *Madame Favart* e as melodias carinhosas do *Rei de Lahore*.

Na manhã seguinte, cedo, fechei-me com o general num dos quiosques do jardim. Contei-lhe a minha lamentável história e os motivos fabulosos que me traziam a Pequim. O herói escutava, a cofiar sombriamente o seu espesso bigode cossaco...

— O meu prezado hóspede sabe o chinês? — perguntou-me de repente, fixando em mim a pupila astuta.

— Sei duas palavras importantes, general: *Mandarim* e *chá*.

Ele passou a sua mão de fortes tendões sobre a medonha cicatriz que lhe cortava a calva:

— *Mandarim*, meu amigo, não é uma palavra chinesa, e ninguém a entende na China. É o nome que no século XVI os navegadores do seu país, do seu belo país...

— Quando nós tínhamos navegadores... — murmurei, a suspirar.

Ele suspirou também, por delicadeza, e continuou:

— ...Que os seus navegadores deram aos funcionários chineses. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...

— Quando tínhamos verbos... — rosnei, com o hábito instintivo de falar mal da pátria.

Ele arregalou por um momento o seu olho redondo de velho mocho, e continuou, paciente e grave:

— Do seu lindo verbo *mandar*... Resta-lhe portanto *chá*. É uma palavra com um vasto papel na vida chinesa. Mas acho-a insuficiente para todas as relações sociais. O meu estimável hóspede pretende casar com uma senhora da família Ti-Chin-Fu. Quer continuar a grossa influência que o Mandarim exercia. Quer substituir, em casa e na sociedade, esse chorado defunto... Para tudo isto, dispõe da palavra *chá*. É pouco.

Não pude negar que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz curvo de milhafre, pôs-me ainda outras objeções. Eu via-as levantar-se diante do meu desejo, como as próprias muralhas de Pequim. Nenhuma senhora da família Ti-Chin-Fu aceitaria jamais casar com um bárbaro. E havia o Imperador, o Filho do Sol. Seria impossível, terrivelmente impossível, que desse a um estrangeiro as honras privilegiadas de um Mandarim...

— Mas por que mas recusaria? — exclamei. — Eu pertenço a uma boa família da província do Minho. Sou bacharel formado: portanto, na China como em Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte de uma repartição pública... Possuo milhões... Tenho a experiência do estilo administrativo...

O general ia-se curvando com respeito, perante esta abundância dos meus atributos.

— Não é — disse ele enfim — que o Imperador realmente o recusasse. É que o indivíduo que lho propusesse seria imediatamente decapitado. A lei chinesa, neste ponto, é explícita e seca.

Baixei a cabeça, abatido.

— Mas, general — murmurei —, eu quero livrar-me da presença odiosa do velho Ti-Chin-Fu e do seu papagaio!... E se eu entregasse metade dos meus milhões ao tesouro chinês? Já que não posso aplicá-los pessoalmente, como Mandarim, na prosperidade do Estado... Talvez Ti-Chin-Fu se acalmasse...

O general pousou-me paternalmente a vasta mão no ombro:

— Erro, considerável erro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao tesouro imperial. Ficariam nos bolsos sem fundo das classes dirigentes. Seriam gastos a plantar jardins, a colecionar porcelanas, a cobrir os soalhos de peles, a dar sedas às concubinas. Não aliviariam a fome de um só chinês, nem reparariam uma só pedra das estradas públicas... Iriam enriquecer a orgia asiática. A alma de Ti-Chin-Fu deve conhecer bem o Império, e isso não a satisfaria.

— E se eu usasse parte da fortuna do velho malandro como filantropo, por minha conta? Podia fazer grandes distribuições de arroz à populaça faminta... É uma ideia...

— Funesta — disse o general, franzindo medonhamente a sobrancelha. — A corte imperial veria aí logo uma ambição política. Veria o plano tortuoso de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dinastia... O meu bom amigo seria decapitado... É grave...

— Maldição! — gritei. — Então para que vim eu à China?

O diplomata encolheu devagar os ombros. Mas logo, mostrando num sorriso astuto os seus dentes amarelos de cossaco, disse:

— Faça uma coisa. Procure a família de Ti-Chin-Fu... Eu perguntarei ao primeiro-ministro, sua excelência o príncipe Tong, onde está essa prole interessante... Reúna-os e atire-lhes uma ou duas dúzias de milhões... Depois prepare ao defunto um funeral régio. Um funeral de alto cerimonial, com um cortejo de uma légua e filas de bonzos. Todo um mundo de estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de carpideiras a uivar sinistramente, etc. etc... Se depois de tudo isto a sua consciência não adormecer e o fantasma insistir...

— Então?

— Corte as goelas.

— Obrigado, general.

Uma coisa, porém, era evidente, e nela concordaram Camilloff, o respeitoso Sá-Tó e a generala. Eu ia frequentar a família Ti-Chin-Fu, seguir o funeral, misturar-me na vida de Pequim. Por isso, devia vestir-me já como um chinês rico, da classe letrada. Assim me iria habituando ao traje, às maneiras, ao cerimonial mandarim...

A minha cara amarelada e o meu longo bigode caído ajudavam o disfarce. Na manhã seguinte, fui arranjado pelos costureiros engenhosos da rua Chá-Coua. Depois entrei na sala forrada de seda escarlate. As porcelanas do almoço já brilhavam sobre a mesa de charão preto. A generala recuou, como se aparecesse o próprio Tong-Tché, Filho do Céu!

Eu trazia uma túnica de brocado azul-escuro, abotoada ao lado. O peitilho era ricamente bordado de dragões e flores de ouro. Por cima, um casabeque de seda de um azul mais claro, curto, largo e fofo. As calças de cetim cor de avelã deixavam ver ricas babuchas amarelas pespontadas de pérolas. Via-se também um pouco da meia, picada de estrelinhas pretas. E à cintura, numa linda faixa com franjas de prata, tinha metido um leque de bambu. Era um dos que têm o retrato do filósofo Lá-o-Tsé e são fabricados em Swaton.

E, pelas misteriosas relações com que o vestuário influencia o caráter, eu já sentia em mim ideias e instintos chineses. Sentia o amor dos cerimoniais minuciosos, o respeito burocrático pelas fórmulas, uma ponta de ceticismo letrado. E também um terror abjeto do Imperador, o ódio ao estrangeiro, o culto dos antepassados. Sentia o fanatismo da tradição, o gosto das coisas açucaradas...

Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse à generala: *Bon jour, Madame*. Dobrado ao meio, a fazer girar os punhos fechados sobre a testa baixa, fiz gravemente o *chin-chin*!

— É adorável, é precioso! — dizia ela, com o seu lindo riso, batendo as mãozinhas pálidas.

Nessa manhã, em honra da minha nova encarnação, havia um almoço chinês. Que gentis guardanapos de papel de seda escarlate, com monstros fabulosos desenhados a preto! O serviço começou por ostras de Ning-Pó. Excelentes! Absorvi duas dúzias, com um intenso prazer chinês. Depois vieram deliciosas tiras de barbatana de tubarão e olhos de carneiro com picado de alho. Veio um prato de nenúfares em calda de açúcar, e laranjas de Cantão. E enfim o arroz sagrado, o arroz dos avós...

Delicada refeição, largamente regada de excelente vinho de Chão-Chigne! E por fim, com que prazer recebi a minha taça de água a ferver! Deitei nela uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março. É uma colheita única, celebrada como um rito santo pelas mãos puras de virgens!...

Duas cantadeiras entraram, enquanto nós fumávamos. Durante muito tempo, com uma voz gutural, cantaram velhas canções do tempo da dinastia Ming. Acompanhavam-nas guitarras cobertas de peles de serpente, tocadas por dois tártaros agachados, numa cadência melancólica e bárbara. A China tem encantos de um raro gosto...

Depois a loira generala cantou-nos, com graça, a *Femme à barbe*. O general saiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do príncipe Tong. Ia saber onde morava a família Ti-Chin-Fu. Quando ele saiu, eu, cheio e bem-disposto, saí com Sá-Tó para ver Pequim.

A casa de Camilloff ficava na cidade tártara, nos bairros militares e nobres. Há aqui uma tranquilidade austera. As ruas parecem largos caminhos de aldeia, abertos pelas rodas dos carros. E quase sempre se caminha ao longo de um muro, de onde saem ramos horizontais de sicómoros.

Por vezes passa depressa uma carreta, ao trote de um pónei mongol, com altas rodas cravejadas de pregos dourados. Tudo nela oscila: o toldo, as cortinas de seda, os ramos de plumas nos cantos. Lá dentro entrevê-se alguma linda dama chinesa, coberta de brocados claros, com a cabeça cheia de flores. Faz girar nos pulsos dois aros de prata, com um ar de tédio cerimonioso. Depois é alguma cadeirinha aristocrática de Mandarim. Cules vestidos de azul, de rabicho solto, levam-na num trote ofegante para os Yamens do Estado. À frente deles vai uma criadagem esfarrapada, que levanta bem alto rolos de seda com inscrições bordadas, sinais de autoridade. E lá dentro o personagem barrigudo, com enormes óculos redondos, folheia os seus papéis ou dormita de beiço caído...

A cada momento parávamos a olhar as lojas ricas, com as suas tabuletas verticais de letras douradas sobre fundo escarlate. Os fregueses, num silêncio de igreja, subtis como sombras, vão examinando as preciosidades. São porcelanas da dinastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins, sedas, armas trabalhadas, os maravilhosos leques de Swaton. Por vezes, uma rapariga fresca de olho oblíquo, túnica azul e papoilas de papel nas tranças, desdobra algum brocado raro. Mostra-o a um chinês gordo, que o contempla com ar feliz, de dedos cruzados na pança. Ao fundo, o mercador, vistoso e imóvel, escreve com um pincel em longas tabuinhas de sândalo. E um perfume adocicado que sai das coisas perturba e entristece...

Eis aqui a muralha que cerca a Cidade Interdita, morada santa do Imperador! Jovens nobres vêm a descer do terraço de um templo, onde estiveram a treinar o tiro com arco. Sá-Tó disse-me os seus nomes. Eram da guarda escolhida, que nas cerimónias acompanha o guarda-sol de seda amarela, com o Dragão bordado. É o emblema sagrado do Imperador. Todos eles cumprimentaram profundamente um velho que ia a passar, de barbas veneráveis. Usava o casabeque amarelo, que é o privilégio do ancião. Vinha a falar sozinho, e trazia na mão uma vara, onde pousavam cotovias domesticadas... Era um príncipe do Império.

Estranhos bairros! Mas nada me divertia tanto como ver, a cada instante, à porta de um jardim, dois Mandarins pançudos. Para entrar, trocavam sem fim salamaleques, cortesias, recusas, risinhos agudos de etiqueta. Era todo um cerimonial dogmático, que lhes fazia balançar sobre as costas, de modo ridículo, as longas penas de pavão. Depois, se levantava os olhos para o ar, via sempre pairar enormes papagaios de papel. Tinham forma de dragões, de cetáceos, de aves fabulosas. Enchiam o espaço com uma incrível legião de monstros transparentes e ondulantes...

— Sá-Tó, basta de cidade tártara! Vamos ver os bairros chineses...

E lá fomos, a entrar na cidade chinesa pela porta monstruosa de Tchin-Men. Aqui vive a burguesia, o mercador, a populaça. As ruas alinham-se como as linhas de um caderno. O chão é antigo e lamacento, feito da imundície de gerações, pisada há séculos. Ainda aqui e ali se vê alguma das lajes de mármore cor-de-rosa que outrora o calçavam, no tempo da grandeza dos Ming.

Dos dois lados há terrenos vagos onde uivam matilhas de cães famintos, filas de casebres escuros, pobres lojas. As suas tabuletas, estreitas e de muitas cores, baloiçam de uma haste de ferro. À distância levantam-se os arcos triunfais, feitos de traves cor de púrpura. No alto, liga-os um telhado comprido de telhas azuis envernizadas, que brilham como esmaltes. Uma multidão ruidosa e espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem parar. A poeira envolve tudo numa névoa amarelada. Um fedor acre sai das enxurradas negras. E a cada momento uma longa caravana de camelos corta lentamente a multidão. Conduzem-na mongóis sombrios, vestidos de pele de carneiro...

Fomos até às entradas das pontes sobre os canais. Aí, saltimbancos meio nus, com máscaras de demónios pavorosos, fazem habilidades de um cómico bárbaro e subtil. E estive muito tempo a admirar os astrólogos de longas túnicas, com dragões de papel colados às costas. Vendiam ruidosamente horóscopos e consultas dos astros. Oh cidade fabulosa e singular!

De repente, levanta-se uma gritaria! Corremos. Era um bando de presos, amarrados uns aos outros pelo rabicho! Um soldado de grandes óculos ia-os empurrando com o guarda-sol. Foi aí, nessa avenida, que vi o cortejo ruidoso do funeral de um Mandarim, todo enfeitado de estandartes e bandeirolas. Grupos de homens fúnebres vinham a queimar papéis em fogareiros portáteis. Mulheres esfarrapadas uivavam de dor, a rebolar sobre tapetes. Depois levantavam-se e riam às gargalhadas. E um cule vestido de luto branco servia-lhes logo chá, de um grande bule em forma de ave.

Ao passar junto ao Templo do Céu, vejo, amontoada num largo, uma legião de mendigos. Tinham por vestuário um tijolo preso à cintura por um cordel. As mulheres, com velhas flores de papel no meio dos cabelos, roíam ossos tranquilamente. E cadáveres de crianças apodreciam ao lado, sob o voo das moscas grandes. Mais à frente encontramos uma jaula de traves, onde um condenado estendia pelas grades as mãos descarnadas, a pedir esmola... Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita. Aí, sobre pilares de pedra, pousavam pequenas gaiolas com cabeças cortadas. E delas ia pingando, gota a gota, um sangue espesso e negro...

— Ouf! — exclamei, cansado e atordoado. — Sá-Tó, agora quero o repouso, o silêncio e um charuto caro...

Ele curvou-se. E, por uma escadaria de granito, levou-me às altas muralhas da cidade. Formam uma esplanada por onde quatro carros de guerra, lado a lado, podem andar durante léguas.

Enquanto Sá-Tó, sentado numa abertura da ameia, bocejava, aliviado como um *cicerone* aborrecido, eu fumava. E contemplei muito tempo, aos meus pés, a vasta Pequim...

É como uma formidável cidade da Bíblia, Babel, ou Nínive, que o profeta Jonas levou três dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os quatro pontos do horizonte. As suas portas têm torres monumentais, que o ar azulado, àquela distância, faz parecer transparentes. E no seu imenso recinto amontoam-se, em confusão, verduras de bosques, lagos artificiais, canais brilhantes como aço, pontes de mármore. Há terrenos cobertos de ruínas e telhados envernizados a brilhar ao sol. Por toda a parte há pagodes heráldicos, brancos terraços de templos, arcos triunfais. Há milhares de quiosques a sair das folhagens dos jardins. Depois há espaços que parecem um monte de porcelanas, e outros que parecem montes de lama. E sempre, a intervalos regulares, o olhar encontra algum dos bastiões, de aspeto heroico e fabuloso...

A multidão, junto a esses edifícios grandiosos, é apenas como grãos de areia negra que um vento brando vai trazendo e levando...

Aqui está o vasto palácio imperial, entre árvores misteriosas, com os seus telhados de um amarelo de ouro vivo! Como eu gostaria de entrar nos seus segredos! Queria ver, pelas galerias sobrepostas, a magnificência bárbara dessas Dinastias de séculos!

Além levanta-se a torre do Templo do Céu, que parece três guarda-sóis uns sobre os outros. Depois, a grande Coluna dos Princípios, hierática e seca como o Génio mesmo da Raça. E mais adiante brilham, brancos, numa meia-tinta sobrenatural, os terraços de jaspe do Santuário da Purificação...

Então faço perguntas a Sá-Tó. O seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo dos Antepassados e o Palácio da Soberana Concórdia. Mostra-me o Pavilhão das Flores das Letras e o Quiosque dos Historiadores. Entre os bosques sagrados que os cercam, brilham os seus telhados lustrosos de faiança azul, verde, escarlate e cor de limão. Eu devorava, de olho ávido, esses monumentos da Antiguidade asiática. Tinha curiosidade de conhecer as classes impenetráveis que os habitam, o princípio das Instituições, o significado dos Cultos. Queria conhecer o espírito das suas letras, a gramática, o dogma, a estranha vida interior de um cérebro de letrado chinês... Mas esse mundo é inviolável como um Santuário...

Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planície de areia. Ela estende-se para além das portas, até aos contrafortes dos montes mongóis. Aí giram sem cessar ondas de poeira sem fim. A toda a hora se veem escuras filas lentas de caravanas... Então encheu-me a alma uma melancolia, que o silêncio daquelas alturas, à volta de Pequim, tornava mais vaga e desolada. Era como uma saudade de mim mesmo, um longo pesar de me sentir ali isolado, absorvido por aquele mundo duro e bárbaro. Lembrei-me, com os olhos húmidos, da minha aldeia do Minho. Lembrei-me do seu adro à sombra dos carvalhos, da venda com um ramo de louro à porta, do alpendre do ferrador. E dos ribeiros, tão frescos quando o linho está verde...

Era a época em que as pombas emigram de Pequim para o sul. Eu via-as juntar-se em bandos por cima de mim, a partir dos bosques dos templos e dos pavilhões imperiais. Cada uma leva um leve tubo de bambu, que o ar faz assobiar, para a livrar dos milhafres. E aquelas nuvens brancas passavam como empurradas por uma brisa mole. Deixavam no silêncio um suspiro lento e melancólico, uma ondulação eólia que se perdia nos ares pálidos...

Voltei para casa, pesado e pensativo.

Ao jantar, Camilloff, a desdobrar o guardanapo, pediu-me com bonomia as minhas impressões de Pequim.

— Pequim faz-me sentir bem, general, os versos de um poeta nosso:

*Sôbolos rios que vão / por Babilónia me achei...*

— Pequim é um monstro! — disse Camilloff, balançando a calva com ar pensativo. — E agora considere: a esta capital, à classe tártara e conquistadora que a possui, obedecem trezentos milhões de homens. É uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolífica, invasora... Estudam as nossas ciências... Um cálice de Médoc, Teodoro?... Têm uma marinha formidável! O exército julgava outrora destruir o estrangeiro com dragões de papelão, de onde saíam foguetes. Agora tem tática prussiana e espingarda de agulha! Grave!

— E todavia, general, no meu país fala-se do Império Celeste, a propósito de Macau. Quando isso acontece, os patriotas passam os dedos pela cabeleira. E dizem com ar descuidado: *Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China*...

Perante esta tolice, fez-se silêncio. E o general, depois de tossir formidavelmente, murmurou, com condescendência:

— Portugal é um belo país...

Eu exclamei, seco e firme:

— É uma choldra, general.

A generala pousou delicadamente uma asa de frango na borda do prato, limpou o dedinho e disse:

— É o país da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira...

O gordo Meriskoff era doutor alemão pela Universidade de Bonn, chanceler da legação, homem de poesia e de comentário. Observou com respeito:

— Generala, o doce país de Mignon é a Itália: *Conheces tu a terra privilegiada onde a laranjeira dá flor?* O divino Goethe referia-se à Itália, *Italia mater*... A Itália será o eterno amor da humanidade sensível!

— Eu prefiro a França! — suspirou a mulher do primeiro secretário, uma bonecazinha sardenta, de cabelo arruivado.

— Ah! a França!... — murmurou um adido, revirando com ternura um grande olho.

O gordo Meriskoff ajeitou os óculos de ouro:

— A França tem um mal, que é a Questão social...

— Oh! a Questão social! — rosnou sombriamente Camilloff.

— Ah! a Questão social!... — considerou pesadamente o adido.

E, a conversar com tanta sabedoria, chegámos por fim ao café.

Ao descer ao jardim, a generala apoiou-se sentimentalmente ao meu braço e murmurou-me, junto à cara:

— Ai, quem me dera viver nesses países apaixonados, onde verdejam os laranjais!...

— É lá que se ama, generala — segredei-lhe eu, levando-a docemente para a escuridão dos sicómoros...

### Glossário

- **generala**: a mulher do general.
- **bonzos**: monges budistas.
- **bárbaro**: palavra antiga e ofensiva para «estrangeiro» ou «sem civilização».
- **tártara**: dos povos do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **Corte as goelas.**: corte a sua própria garganta.
- **Yamen**: escritório do governo na China antiga.
- **chin-chin**: saudação chinesa com o corpo dobrado.
- **cule**: trabalhador asiático contratado para carregar coisas (palavra antiga e ofensiva).
- **rabicho**: trança de cabelo que os homens chineses usavam na época (palavra antiga).
- **olho oblíquo**: olho de forma alongada; expressão antiga para descrever pessoas do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **papagaios de papel**: brinquedos de papel que se lançam ao ar com um fio.
- **raça**: palavra antiga para «povo»; hoje considerada ofensiva quando usada assim.
- **populaça**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **choldra**: confusão; gente sem valor.
- **escarlate**: vermelho muito vivo.
- **mongóis**: pessoas da Mongólia, terra a norte da China.
- **porcelana**: louça branca, fina e cara.
- **porcelanas**: peças de porcelana.
- **cossacos**: soldados russos a cavalo.
- **pónei**: cavalo pequeno.
- **liteira**: cadeira fechada, levada por homens ou animais.
- **túnica**: roupa comprida e larga, como um vestido simples.
- **sicómoros**: árvores grandes, com muita sombra.
- **exclamei**: disse em voz alta, com emoção.
- **dinastia**: família de reis ou imperadores que governa durante muito tempo.
- **cerimonial**: conjunto de regras e gestos de uma cerimónia.
- **murmurou**: disse em voz baixa.
- **steamer**: barco a vapor (palavra inglesa).
- **monumentais**: muito grandes e imponentes.
- **carreta**: carro de duas rodas, puxado por um animal.
- **Sôbolos**: forma antiga de «sobre os», num verso de Camões.
- **enfeitado**: com coisas bonitas por cima, para ficar mais bonito.
- **púrpura**: vermelho-escuro.
- **sândalo**: madeira de cheiro doce, que vem da Ásia.
- **espesso**: grosso, denso.
- **cossaco**: dos cossacos, soldados russos a cavalo.
- **hóspede**: pessoa recebida em casa de outra.
- **murmurei**: disse em voz baixa.
- **defunto**: pessoa morta.
- **decapitado**: morto com a cabeça cortada.
- **estandartes**: bandeiras grandes, levadas em cerimónias.
- **plumas**: penas grandes de ave, usadas como enfeite.
- **bambu**: planta alta e oca, de madeira leve.
- **trote**: passo rápido de um cavalo ou de uma pessoa, entre andar e correr.
- **tabuletas**: placas com o nome ou o anúncio de uma loja.

## V

Foi necessário todo um longo verão para descobrir a província onde tinha vivido o falecido Ti-Chin-Fu!

Que episódio administrativo tão pitoresco, tão chinês! O prestável Camilloff passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado. Queria conhecer a casa de um velho Mandarim. Primeiro, teve de provar que esse desejo não escondia uma conspiração contra a segurança do Império. Depois, teve ainda de jurar que esta curiosidade não era um ataque aos Ritos sagrados!

Então, satisfeito, o príncipe Tong permitiu que se fizesse o inquérito imperial. Centenas de escribas ficaram pálidos, noite e dia, de pincel na mão. Desenhavam relatórios em papel de arroz. Havia reuniões misteriosas, em voz baixa, sem parar, em todas as repartições da Cidade Imperial. Aconteciam desde o Tribunal astronómico até ao Palácio da Bondade Preferida. E uma população de cules transportava padiolas que estalavam com o peso de pacotes de documentos antigos. Levavam-nas da legação russa para os quiosques da Cidade Interdita, e daí para o Pátio dos Arquivos...

Quando Camilloff perguntava *pelo resultado*, vinha-lhe uma resposta satisfatória. Estavam a consultar os Livros Santos de Lá-o-Tsé. Ou então iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chu. O russo ficava impaciente e guerreiro. Para o acalmar, o príncipe Tong mandava, com estes recados subtis, um bom presente. Eram confeitos recheados ou gomos de bambu em calda de açúcar...

Ora, o general trabalhava com fervor para encontrar a família Ti-Chin-Fu. Enquanto isso, eu ia tecendo horas de seda e ouro (assim diz um poeta japonês) aos pés pequeninos da generala...

No jardim, debaixo dos sicómoros, havia um quiosque. Chamava-se, à maneira chinesa, *Repouso discreto*. Ao lado, um riacho fresco ia cantando docemente debaixo de uma pontezinha rústica, pintada de cor-de-rosa. As paredes eram apenas uma grade de bambu fino, coberta de seda cor de ganga. O sol passava através delas e fazia uma luz sobrenatural de opala pálida. No centro havia um divã macio de seda branca. Tinha a poesia de uma nuvem da manhã e atraía como uma cama de noivos. Aos cantos, em ricos vasos transparentes da época de Yeng, erguiam-se lírios escarlates do Japão, com a sua graça aristocrática. Todo o chão estava coberto de esteiras finas de Nanquim. Junto à janela rendilhada havia um elegante pedestal de sândalo. Sobre ele estava um leque aberto para cima, feito de lâminas de cristal separadas. A brisa entrava e fazia-as vibrar, numa música melancólica e terna.

As manhãs do fim de agosto em Pequim são muito suaves; já anda no ar uma ternura de outono. A essa hora, o conselheiro Meriskoff e os oficiais da legação estavam sempre na chancelaria. Estavam a *fazer a mala* para São Petersburgo.

Eu então, de leque na mão, pisava subtilmente as ruazinhas de areia do jardim, na ponta das babuchas de cetim. E ia abrir um pouco a porta do *Repouso discreto*:

— Mimi?

E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

— *All right*...

Como ela era linda, vestida de dama chinesa! No cabelo levantado brilhavam, brancas, flores de pessegueiro. As sobrancelhas pareciam mais puras e negras, pintadas com tinta de Nanquim. A blusinha de gaze tinha um bordado fino de filigrana de ouro. Colava-se aos seus seios pequeninos e direitos. Vestia umas calças largas e fofas de seda, cor de *coxa de Ninfa*, que lhe davam uma graça de serralho. Caíam sobre o tornozelo fino, coberto por uma meia de seda amarela. E na sua chinelinha cabiam apenas três dedos da minha mão...

Chamava-se Vladimira. Tinha nascido perto de Nijni Novgorod. Tinha sido educada por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas e usava o cabelo empoado. Essa tia parecia a grossa litografia cossaca de uma dama galante de Versalhes...

O sonho de Vladimira era viver em Paris. Enquanto fervia delicadamente as folhas de chá, pedia-me histórias maliciosas de *cocottes*. E falava-me do seu culto por Dumas filho...

Eu arregaçava-lhe a manga larga do casabeque de seda cor de folha morta. Depois fazia viajar os meus lábios devotos pela pele fresca dos seus belos braços. Depois, no divã, abraçados, peito contra peito, num êxtase mudo, sentíamos as lâminas de cristal a soar ao vento. Sentíamos as pegas azuis a voar pelos plátanos e o ritmo fugitivo do riacho...

Os nossos olhos húmidos encontravam às vezes um quadro de cetim preto, por cima do divã. Nele estavam escritas, em letras chinesas, sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas nenhum de nós percebia chinês... E no silêncio os nossos beijos recomeçavam, devagar, com um som doce. Na língua florida daqueles países, eram como pérolas que caem uma a uma numa bacia de prata... — Oh suaves sestas dos jardins de Pequim, onde estais vós? Onde estais, folhas mortas dos lírios escarlates do Japão?...

Uma manhã, eu fumava o cachimbo da amizade com Meriskoff, na chancelaria. Camilloff entrou e atirou o seu enorme sabre para um sofá. E, radiante, contou-nos as notícias que lhe tinha dado o penetrante príncipe Tong. Tinha-se descoberto, enfim, que um rico Mandarim chamado Ti-Chin-Fu tinha vivido outrora nos confins da Mongólia, na vila de Tien-Hó! Tinha morrido de repente. E a sua grande família vivia lá, na miséria, num casebre miserável...

Esta descoberta, é verdade, não se devia à inteligência da burocracia imperial. Tinha sido feita por um astrólogo do templo de Faqua. Durante vinte noites, ele tinha folheado no céu o arquivo luminoso dos astros...

— Teodoro, há de ser o seu homem! — exclamou Camilloff.

E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

— Há de ser o seu homem, Teodoro!

— O meu homem... — murmurei, sombrio.

Era talvez o *meu homem*, sim! Mas não me apetecia ir procurar o *meu homem* ou a sua família. Não queria a monotonia de uma caravana por esses extremos desolados da China!... Depois, desde que tinha chegado a Pequim, não tinha voltado a ver a forma odiosa de Ti-Chin-Fu e do seu papagaio. A Consciência estava dentro de mim como uma pomba adormecida. Eu tinha feito um grande esforço para me arrancar às doçuras do *boulevard* e do Loreto. Tinha atravessado os mares até ao Império do Meio. Certamente, a Eterna Equidade tinha achado que isto era uma expiação suficiente e uma peregrinação reparadora. Certamente Ti-Chin-Fu, mais calmo, tinha-se recolhido com o seu papagaio à Imobilidade eterna...

Para que iria eu, então, a Tien-Hó? Porque não ficaria ali, naquela amável Pequim, a comer nenúfares em calda de açúcar? Não podia entregar-me às sonolências amorosas do *Repouso discreto*? E, nas tardes azuladas, não podia passear pelo braço do bom Meriskoff? Podíamos ir aos terraços de jaspe da Purificação, ou para debaixo dos cedros do Templo do Céu...

Mas o zeloso Camilloff, de lápis na mão, já marcava no mapa o meu itinerário para Tien-Hó! E mostrava-me uma mistura desagradável de sombras de montes, linhas tortas de rios e manchas de lagoas:

— Aqui está! O meu hóspede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó... Daí, em barcos chatos, vai a My-yun. Boa cidade, há lá um Buda vivo... Daí, a cavalo, segue até à fortaleza de Ché-hia. Passa a Grande Muralha, famoso espetáculo!... Descansa no forte de Ku-pi-hó. Pode lá caçar a gazela. Soberbas gazelas... E com dois dias de caminho está em Tien-Hó... Brilhante, hein?... Quando quer partir? Amanhã?...

— Amanhã — rosnei, triste.

Pobre generala! Nessa noite, Meriskoff estava ao fundo da sala, no seu *whist* sagrado, com três oficiais da embaixada. Camilloff, ao canto do sofá, de braços cruzados, dormia de boca aberta, solene como numa poltrona do Congresso de Viena. Enquanto isso, ela sentou-se ao piano. Eu, ao lado, na atitude de um Lara devastado pela fatalidade, torcia o bigode com ar lúgubre. E a doce criatura, entre dois gemidos do teclado cheios de saudade, cantou. Enquanto cantava, voltava para mim os olhos brilhantes e húmidos:

*L'oiseau s'envole, / Là-bas, là-bas!... / L'oiseau s'envole... / Ne revient pas...*

— A ave há de voltar ao ninho — murmurei eu, comovido.

E, ao afastar-me para esconder uma lágrima, ia resmungando, furioso:

— Canalha de Ti-Chin-Fu! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!...

No outro dia lá vou para Tien-Hó, com o respeitoso intérprete Sá-Tó. Levo uma longa fila de carretas, dois cossacos e toda uma populaça de cules.

Deixámos a muralha da cidade tártara. Depois seguimos muito tempo ao longo dos jardins sagrados que rodeiam o templo de Confúcio.

Era o fim do outono; as folhas já estavam amarelas; uma doçura comovente andava no ar...

Dos quiosques santos saía um sussurro de cânticos, de nota monótona e triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, arrastavam-se, já entorpecidas pelo frio. E aqui e ali, ao passar, avistávamos budistas muito velhos, secos como pergaminhos e nodosos como raízes. Estavam sentados de pernas cruzadas no chão, debaixo dos sicómoros, imóveis como ídolos. Contemplavam sem parar o umbigo, à espera da perfeição do Nirvana...

E eu ia triste, de uma tristeza tão pálida como aquele céu de outubro asiático. Pensava nas duas lágrimas redondinhas que tinha visto brilhar, na despedida, nos olhos verdes da generala!...

### Glossário

- **cules**: trabalhadores asiáticos contratados para carregar coisas (palavra antiga e ofensiva).
- **populaça**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **serralho**: parte da casa onde viviam as mulheres de um sultão (palavra antiga).
- **tártara**: do povo tártaro; nome antigo de povos do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **generala**: a mulher do general.
- **fazer a mala**: aqui, preparar o correio diplomático; não é arrumar a roupa para uma viagem.
- **papagaio**: brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio.
- **expiação**: sofrimento aceite para pagar uma culpa.
- **Lara**: herói sombrio e infeliz de um poema inglês.
- **ganga**: aqui, tecido de algodão de cor amarelada.
- **nodosos**: cheios de nós, como um ramo velho.
- **pitoresco**: curioso e cheio de cor.
- **Yamens**: escritórios do governo na China antiga.
- **escribas**: homens que escreviam documentos para o Estado.
- **pálidos**: sem cor na cara, quase brancos.
- **pálida**: com pouca cor, quase branca.
- **padiolas**: tabuleiros com varas, levados por duas pessoas.
- **legação**: casa e serviços de um representante de um país no estrangeiro.
- **bambu**: planta alta e fina, de caule oco.
- **sicómoros**: árvores grandes de folhas largas.
- **lírios**: flores grandes e elegantes.
- **escarlates**: de um vermelho muito vivo.
- **babuchas**: sapatos orientais, leves e sem salto.
- **cetim**: tecido macio e brilhante.
- **casabeque**: casaco curto de mulher.
- **húmidos**: um pouco molhados.
- **cachimbo**: objeto com um tubo e uma pequena taça, para fumar tabaco.
- **murmurei**: disse em voz muito baixa.
- **nenúfares**: plantas com flores que crescem à superfície da água.
- **L'oiseau s'envole**: em francês, «a ave voa para longe».
- **Là-bas**: em francês, «lá longe».
- **Ne revient pas**: em francês, «não volta».
- **pincel**: pequena vara com pelos na ponta, para pintar ou escrever com tinta.
- **confeitos recheados**: pequenos doces cobertos de açúcar, com outro doce por dentro.
- **gomos**: aqui, partes do caule do bambu.
- **tecendo**: fazendo um tecido com fios; aqui, criando pouco a pouco.
- **rústica**: simples, própria do campo.
- **sândalo**: madeira cheirosa do Oriente.

## VI

A tarde já caía, e o sol descia vermelho como um escudo de metal a arder, quando chegámos a Tien-Hó.

As muralhas negras da vila erguem-se, do lado sul, junto a uma torrente que ruge entre rochas. Para leste, a planície pálida e cheia de pó estende-se até um grupo escuro de colinas. Lá aparece, branco, um grande edifício, que é uma Missão Católica. E mais além, no extremo norte, ficam as eternas montanhas roxas da Mongólia, sempre suspensas no ar como nuvens.

Ficámos num barracão fétido, chamado *Estalagem da Consolação terrestre*. Deram-me o quarto nobre, que abria para uma galeria assente em estacas. Estava decorado de uma forma estranha, com dragões de papel cortado, pendurados por cordéis nas traves do teto. À menor brisa, aquela legião de monstros fabulosos balançava ao mesmo ritmo, com um ruído seco de folhas. Parecia tomada de uma vida sobrenatural e grotesca.

Antes de escurecer, fui com Sá-Tó ver a vila. Mas depressa fugi do fedor horrível das vielas. Tudo me pareceu negro: os casebres, o chão de barro, as águas sujas, os cães famintos, a populaça abjeta... Voltei à estalagem, onde arrieiros mongóis e crianças piolhosas me olhavam com espanto.

— Toda esta gente me parece suspeita, Sá-Tó — disse eu, franzindo a testa.

— Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não há perigo: eu matei, antes de partirmos, um galo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente. Pode Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espíritos... Quer Vossa Honra o chá?...

— Traze, Sá-Tó.

Depois do chá, falámos do *grande plano*. Na manhã seguinte, eu ia levar a alegria à triste choupana da viúva de Ti-Chin-Fu. Ia anunciar-lhe os milhões que lhe dava, já depositados em Pequim. Depois, de acordo com o Mandarim governador, faríamos uma grande distribuição de arroz à populaça. E à noite haveria iluminações e danças, como numa festa pública...

— Que te parece, Sá-Tó?

— Nos lábios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confúcio... Vai ser grande! Vai ser grande!

Como vinha cansado, comecei muito cedo a bocejar. Estendi-me sobre o estrado de tijolo aquecido que serve de cama nas estalagens da China. Enrolado na minha peliça, fiz o sinal da cruz. E adormeci a pensar nos braços brancos da generala e nos seus olhos verdes de sereia...

Era talvez já meia-noite quando acordei com um ruído lento e surdo que envolvia o barracão. Parecia um vento forte num bosque, ou um mar grosso a bater num paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no quarto, um luar triste de outono asiático. Dava aos dragões pendurados no teto formas e semelhanças fantásticas...

Levantei-me, já nervoso. Nesse momento, um vulto alto e inquieto apareceu na faixa luminosa do luar...

— Sou eu, Vossa Honra! — murmurou a voz apavorada de Sá-Tó.

E logo, agachado ao pé de mim, contou-me a sua aflição, num jorro de palavras roucas. Enquanto eu dormia, tinha-se espalhado uma notícia pela vila. Um estrangeiro, o *Diabo estrangeiro*, tinha chegado com bagagens carregadas de tesouros... Desde o começo da noite, ele tinha visto vagamente caras agudas, de olhos vorazes, a rondar o barracão, como chacais impacientes... Tinha logo mandado os cules fechar a porta com as carretas das bagagens. Estavam em semicírculo, à velha maneira tártara... Mas pouco a pouco o bando tinha crescido... Agora ele vinha de espreitar por uma janelinha. Toda a populaça de Tien-Hó estava em volta da estalagem, a rosnar de forma sinistra... A deusa Kaonine não tinha ficado satisfeita com o sangue do galo preto!... Além disso, à porta de um pagode, ele tinha visto uma cabra negra recuar!... A noite ia ser de terrores!... E a sua mulher, o osso do seu osso, estava tão longe, em Pequim!...

— E agora, Sá-Tó? — perguntei eu.

— Agora... Vossa Honra! Agora...

Calou-se. E a sua figura magra tremia, encolhida como um cão que se roja sob o açoite.

Eu afastei o cobarde e avancei para a galeria. Em baixo, o muro em frente, coberto por um alpendre, fazia uma sombra funda. Ali estava, de facto, uma turba negra, muito apertada. Às vezes uma figura avançava de rastos pelo espaço iluminado. Espreitava, farejava as carretas e, ao sentir a lua na cara, recuava depressa e desaparecia na escuridão. E, como o teto do alpendre era baixo, brilhava por um momento à luz o ferro de uma lança inclinada...

— Que querem vocês, canalha? — gritei eu em português.

A esta voz estrangeira, um grunhido saiu das trevas. Imediatamente uma pedra veio furar, ao meu lado, o papel encerado da gelosia. Depois uma flecha assobiou e cravou-se numa trave, por cima da minha cabeça...

Desci depressa à cozinha da estalagem. Os meus cules, de cócoras sobre os calcanhares, batiam o queixo de terror. Os dois cossacos que me acompanhavam, impassíveis junto à lareira, fumavam cachimbo, com o sabre nu nos joelhos.

O velho estalajadeiro de óculos tinha desaparecido. Também tinha desaparecido uma avó esfarrapada, que eu tinha visto no pátio a lançar um papagaio de papel. Os arrieiros mongóis e as crianças piolhosas já não estavam ali. Só tinha ficado um velho, bêbedo de ópio, caído a um canto como um fardo. Lá fora já se ouvia a multidão a gritar.

Interpelei então Sá-Tó, que quase desmaiava, encostado a uma viga. Nós estávamos sem armas. Os dois cossacos, sozinhos, não podiam repelir o ataque. Era portanto necessário ir acordar o Mandarim governador. Era preciso revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff e um convidado do príncipe Tong. Devíamos exigir que ele viesse dispersar a turba e manter a lei santa da hospitalidade!...

Mas Sá-Tó confessou-me, numa voz fraca como um sopro, que era certamente o Governador quem dirigia o ataque! Corria a fama da minha riqueza e a lenda das carretas carregadas de ouro. Isso tinha acendido todos os apetites, desde as autoridades até aos mendigos!... A prudência mandava, como um mandamento santo, que abandonássemos parte dos tesouros, as mulas e as caixas de comida...

— E ficar aqui, nesta aldeia maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem mantimentos?...

— Mas com a rica vida, Vossa Honra!

Cedi. E ordenei a Sá-Tó que fosse propor à turba uma grande distribuição de sapecas. Em troca, ela devia voltar aos seus casebres e respeitar em nós os hóspedes enviados por Buda...

Sá-Tó subiu à varanda da galeria, a tremer. E começou logo a falar ao bando, agitando os braços. Atirava as palavras com a violência de um cão que ladra. Eu já tinha aberto uma maleta e ia-lhe passando cartuchos e sacos de sapecas. Ele atirava-os aos punhados, com um gesto de semeador... Em baixo, quando as moedas choviam, havia por momentos um tumulto furioso. Depois vinha um lento suspiro de gula satisfeita. E logo um silêncio, numa suspensão *de quem espera mais*...

— Mais! — murmurava Sá-Tó, voltando-se para mim, ansioso.

Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rolos, molhos de moedas de meio real enfiadas em cordéis... A maleta já estava vazia. A turba rugia, ainda não satisfeita.

— Mais, Vossa Honra! — suplicou Sá-Tó.

— Não tenho mais, criatura! O resto está em Pequim!

— Oh Buda Santo! Perdidos! Perdidos! — gritou Sá-Tó, caindo de joelhos.

A populaça, calada, ainda esperava. De repente, um uivo selvagem rasgou o ar. E eu senti aquela massa ávida atirar-se contra as carretas que defendiam a porta em semicírculo. Com o choque, toda a madeira da *Estalagem da Consolação terrestre* rangeu e oscilou...

Corri à varanda. Em baixo, era um tropel desesperado em volta das carretas derrubadas. Os machados brilhavam ao cair sobre as tampas dos caixotes. O couro das malas abria-se, cortado à faca por mãos sem conta. No alpendre, os cossacos lutavam, aos urros, debaixo das lâminas. Apesar da lua, eu via tochas a andar em volta do barracão, a espalhar faíscas. Subia um clamor rouco, que fazia uivar os cães ao longe. E de todas as vielas saía e corria mais populaça, sombras ligeiras que agitavam chuços e foices curvas...

De repente, na loja do rés do chão, ouvi o tumulto da turba que entrava pelas portas despedaçadas. Procuravam-me, com certeza. Pensavam que eu tinha comigo o melhor do tesouro, pedras preciosas ou ouro... O terror pôs-me louco. Corri para uma grade de bambu do lado do pátio. Deitei-a abaixo e saltei sobre uma camada de mato grosso, com um cheiro ácido de imundícies. O meu pónei, preso a uma trave, relinchava e puxava furiosamente o cabresto. Atirei-me para cima dele e agarrei-lhe as crinas...

Nesse momento, do portão arrombado da cozinha, saía uma horda com lanternas e lanças, num clamor de delírio. O pónei, assustado, salta um rego de água. Uma flecha assobia ao meu lado. Depois um tijolo bate-me no ombro, outro nos rins, outro na anca do pónei. Outro maior rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente às crinas, vou ofegante, de língua de fora, com o sangue a pingar da orelha. Sou levado num galope furioso ao longo de uma rua negra... De repente vejo diante de mim a muralha, um bastião, a porta da vila fechada!

Então, louco de medo, sentindo atrás de mim a turba a rugir, sem nenhum socorro humano, *precisei de Deus*! Acreditei nele e gritei-lhe que me salvasse. E o meu espírito ia agarrando em tumulto, para lhe oferecer, pedaços de orações e de *Salve-Rainhas*. Ainda estavam no fundo da minha memória... Voltei-me sobre a anca do potro. De uma esquina, ao longe, surgiu um clarão de tochas: era a corja!... Lancei-me a galope ao longo da alta muralha, que corria ao meu lado como uma vasta fita negra, furiosamente desenrolada. De repente avisto uma brecha, uma abertura cheia de ramos de silvas. E lá fora estava a planície, que sob a lua parecia uma vasta água adormecida! Atirei-me para lá, desesperado, sacudido pelos saltos do potro... E galopei muito tempo no campo deserto.

De repente, o pónei e eu rolámos com um baque surdo. Era uma lagoa. Entrou-me pela boca água podre, e os pés prenderam-se nas raízes moles dos nenúfares... Quando me levantei e firmei os pés no chão, vi o pónei a correr, muito longe. Parecia uma sombra, com os estribos ao vento...

Então comecei a caminhar por aquela solidão. Enterrava-me nas terras de lama e cortava através do mato de espinhos. O sangue da orelha ia-me pingando no ombro. Com o frio áspero, a roupa encharcada gelava-me sobre a pele. E às vezes, na sombra, parecia-me ver brilhar olhos de feras.

Por fim, encontrei um recinto de pedras soltas. Lá estava, debaixo de um arbusto negro, um daqueles montes de caixões amarelos. Os chineses abandonam-nos nos campos, e neles apodrecem os corpos. Caí sobre um caixão, sem forças. Mas pesava no ar um cheiro horrível. E, ao apoiar-me, senti um líquido viscoso que escorria pelas fendas das tábuas... Quis fugir. Mas os joelhos recusavam-se e tremiam. Árvores, rochas, ervas altas, todo o horizonte começou a girar à minha volta como um disco muito rápido. Faíscas de sangue vibravam diante dos meus olhos. E senti-me como se caísse de muito alto, devagar, tal como uma pena que desce...

Quando voltei a mim, estava estendido num banco de pedra, no pátio de um grande edifício parecido com um convento. Um silêncio profundo envolvia tudo. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Circulava um ar fresco. A roldana de um poço rangia lentamente. Um sino tocava para as matinas. Levantei os olhos e avistei uma fachada branca, com janelinhas gradeadas e uma cruz no topo. Naquela paz de claustro católico, vi como que um canto da pátria recuperada, o abrigo e a consolação. Então rolaram-me das pálpebras duas lágrimas mudas.

### Glossário

- **cules**: trabalhadores asiáticos contratados para carregar coisas (palavra antiga e ofensiva).
- **populaça**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **ralé**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **turba negra**: multidão que parece escura porque está na sombra.
- **tártara**: do povo tártaro; nome antigo de povos do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **arrieiros**: homens que conduzem mulas de carga.
- **papagaio de papel**: brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio.
- **sapecas**: pequenas moedas chinesas de pouco valor.
- **pagode**: templo do Oriente.
- **chuços**: paus compridos com uma ponta de ferro.
- **lazaristas**: padres de uma ordem católica de missionários.
- **matinas**: orações da manhã cedo num convento.
- **claustro**: pátio com arcos no interior de um convento.
- **carretas**: carros simples de madeira, para levar carga.
- **pónei**: cavalo pequeno.
- **alpendre**: pequeno telhado encostado a um muro, que dá abrigo.
- **cossacos**: soldados russos a cavalo.
- **pendurados**: presos por cima, sem tocar no chão.
- **cordéis**: cordas finas.
- **vielas**: ruas muito estreitas.
- **mongóis**: da Mongólia, terra a norte da China.
- **piolhosas**: cheias de piolhos, pequenos insetos que vivem no cabelo.
- **bagagens**: malas e caixas que se levam numa viagem.
- **semicírculo**: forma de meio círculo.
- **roja**: arrasta pelo chão.
- **gelosia**: janela com uma grade, que deixa ver sem ser visto.
- **maleta**: mala pequena.
- **faíscas**: pequenos pontos de fogo ou de luz.
- **clamor**: grito forte de muita gente.
- **anca**: parte de trás do corpo de um cavalo, por cima das patas.
- **ruge**: faz um som forte e profundo, como um leão.
- **fétido**: que cheira muito mal.
- **fedor**: cheiro muito mau.
- **famintos**: com muita fome.
- **abjeta**: baixa, que merece desprezo.
- **choupana**: casa pequena e muito pobre.

## VII

De madrugada, dois padres lazaristas que iam para Tien-Hó tinham-me encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot, «era já tempo». Porque os grossos e sombrios corvos da Tartária já estavam à volta do meu corpo imóvel, num semicírculo negro. Contemplavam-me com gula...

Trouxeram-me logo para o convento numa padiola. Grande foi a alegria da comunidade ao saber que eu era um latino, um cristão e um súbdito dos Reis Fidelíssimos. O convento forma ali o centro de um pequeno burgo católico. As casas apertam-se em volta do edifício maciço, como as casas dos servos na base de um castelo feudal. O convento existe desde os primeiros missionários que percorreram a Manchúria. Porque nós estamos aqui nos confins da China. Para além já é a Mongólia, a Terra das Ervas. É um prado imenso, verde-escuro, uma lezíria sem fim, colorida aqui e ali por flores silvestres vivas...

Ali fica a vasta planície dos Nómadas. Da minha janela eu via os círculos negros de tendas, cobertas de feltro ou de peles de carneiro. E às vezes assistia à partida de uma tribo, em longas filas de caravanas. Levava os seus rebanhos para oeste...

O superior lazarista era o excelente padre Giulio. A longa permanência entre as raças amarelas tinha-o tornado quase um chinês. Às vezes encontrava-o no claustro, com a sua túnica roxa, o rabicho longo e a barba venerável. Agitava devagar um enorme leque. Parecia-me um sábio e letrado mandarim, a comentar em pensamento o Livro sagrado de Chu, na paz de um templo. Era um santo. Mas o cheiro a alho que ele deitava afastaria as almas mais magoadas e mais precisadas de consolação.

Guardo uma memória suave dos dias que ali passei! O meu quarto, caiado de branco, com uma cruz negra, tinha o recolhimento de uma cela. Acordava sempre ao toque das matinas. Por respeito aos velhos missionários, ia ouvir missa à capela. E comovia-me ali, tão longe da pátria católica, naquelas terras mongólicas. Via, à luz clara da manhã, a casula do padre, com a sua cruz bordada, a curvar-se diante do altar. E ouvia, ditos em voz baixa no silêncio fresco, os *Dominus vobiscum* e os *Cum spiritu tuo*...

De tarde ia à escola, admirar os pequenos chineses a declinar *Hora, Horae*... E depois da refeição, a passear no claustro, ouvia histórias de missões distantes. Eram viagens apostólicas ao *País das Ervagens*, prisões suportadas, marchas, perigos, as Crónicas heroicas da Fé...

Eu, por mim, não contei no convento as minhas aventuras fantásticas. Apresentei-me como um *touriste* curioso, que tomava notas pelo Universo. E, à espera que a minha orelha cicatrizasse, entregava-me, com a alma cansada, àquela paz de mosteiro...

Mas estava decidido a deixar muito depressa a China, esse Império bárbaro, que agora odiava de forma prodigiosa!

Às vezes punha-me a pensar. Tinha vindo dos confins do Ocidente para trazer a uma província chinesa a abundância dos meus milhões. E, mal tinha lá chegado, tinha sido logo roubado, apedrejado e atacado com flechas! Enchia-me então um rancor surdo. Gastava horas a andar agitado pelo quarto. E revolvia coisas ferozes que tentaria para me vingar do Império do Meio!

Retirar-me com os meus milhões era a vingança mais prática e mais fácil! Além disso, a minha ideia de ressuscitar artificialmente, para bem da China, a personalidade de Ti-Chin-Fu parecia-me agora absurda. Era uma loucura de sonho. Eu não compreendia a língua, nem os costumes, nem os ritos, nem as leis, nem os sábios daquela raça. Que vinha então fazer ali? Só me expunha, com o aparato da minha riqueza, aos ataques de um povo. Há quarenta e quatro séculos que esse povo é pirata nos mares e varre as terras com os seus roubos!...

Além disso, Ti-Chin-Fu e o seu papagaio continuavam invisíveis. Tinham certamente subido ao Céu chinês dos Avós. E, como o remorso visível se tinha acalmado, o meu desejo de expiação tinha diminuído muito...

Sem dúvida o velho letrado estava cansado de deixar essas regiões indizíveis para se vir estender nos meus móveis. Tinha visto os meus esforços. Tinha visto o meu desejo de ser útil aos seus descendentes, à sua província, à sua raça. E, satisfeito, tinha-se instalado muito bem para a sua sesta eterna. Eu nunca mais veria a sua pança amarela!...

E então mordia-me o apetite de estar já tranquilo e livre, no gozo pacífico do meu ouro. Queria estar no Loreto ou no *boulevard*, a beber o mel das flores da Civilização...

Mas a viúva de Ti-Chin-Fu, as delicadas senhoras da sua família, os netos pequeninos?... Ia deixá-los, de forma bárbara, com fome e frio, nas vielas negras de Tien-Hó? Não. Esses não tinham culpa das pedradas da populaça. Eu era cristão. Estava abrigado num convento cristão, com o Evangelho à cabeceira da cama, rodeado de vidas que eram encarnações da Caridade. Não podia partir do Império sem devolver a abundância àqueles a quem a tinha tirado. Era esse conforto honesto que recomenda o *Clássico da Piedade Filial*...

Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha fuga vergonhosa, debaixo das pedras da turba chinesa. Contava-lhe o abrigo cristão que me tinha dado a Missão e o forte desejo de partir do Império do Meio. Pedia-lhe que enviasse à viúva de Ti-Chin-Fu os milhões que eu tinha depositado em casa do mercador Tsing-Fó. Ficava na avenida de Chá-Coua, ao lado do arco triunfal de Tong, junto ao templo da deusa Kaonine.

O alegre padre Loriot ia a Pequim em missão e levou esta carta. Eu tinha-a fechado com lacre e o selo do convento: uma cruz a sair de um coração em chamas...

Os dias passaram. As primeiras neves branquearam as montanhas do norte da Manchúria. E eu ocupava-me a caçar a gazela pela Terra das Ervas... Que horas cheias de energia e de vida, as dessas manhãs! Eu partia a galope no grande ar áspero da planície, entre os batedores mongóis. Com um grito agudo e vibrante, eles batiam o mato com as lanças. Às vezes saltava uma gazela. Com a orelha baixa, esticada e fina, partia no fio do vento...

Soltávamos o falcão, que voava sobre ela, de asa serena. A intervalos regulares, dava-lhe uma picada viva no crânio, com toda a força do bico curvo. E íamos abatê-la, por fim, à beira de alguma água morta, coberta de nenúfares... Então os cães negros da Tartária amontoavam-se sobre a barriga dela. Com as patas no sangue, iam rasgando devagar as entranhas, à ponta do dente...

Uma manhã, o leigo da portaria avistou enfim o alegre padre Loriot. Vinha de volta de Pequim e subia à pressa o caminho íngreme do burgo. Trazia a mochila ao ombro e uma criancinha nos braços. Tinha-a encontrado abandonada, nuazinha, a morrer à beira de um caminho. Tinha-a logo batizado num riacho com o nome de *Bem-Achado*. E trazia-a ali, todo comovido e sem fôlego de tanto apressar o passo. Queria dar depressa à criaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento...

Abraçou os religiosos e limpou as grossas gotas de suor. Depois tirou do bolso dos calções um envelope com o selo da águia russa:

— É isto que manda o papá Camilloff, amigo Teodoro. Ficou ótimo. E a senhora também... Tudo rijo.

Corri a um canto do claustro para ler as duas folhas de prosa. Meu bom Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como ele era original! Juntava o senso fino de um homem hábil de Chancelaria às manias cómicas de um diplomata de comédia! A carta dizia assim:

«Amigo, hóspede, e caríssimo Teodoro,

«Às primeiras linhas da sua carta, ficámos consternados! Mas as seguintes deram-nos logo um grato alívio. Garantiam-nos que estava com esses santos padres da Missão cristã... Fui ao Yamen imperial fazer uma reclamação severa ao príncipe Tong, sobre o escândalo de Tien-Hó. Sua excelência mostrou uma alegria louca! Porque, como particular, lamenta a ofensa, o roubo e as pedradas que o meu hóspede sofreu. Mas como ministro do Império, vê aí uma doce oportunidade. Pode arrancar à vila de Tien-Hó uma multa, como castigo pela injúria feita a um estrangeiro. É a vantajosa soma de *trezentos mil francos*. Segundo os cálculos do nosso sagaz Meriskoff, são *cinquenta e quatro contos de réis* na moeda do seu belo país! É, como disse Meriskoff, um excelente resultado para o Tesouro imperial. E assim fica a sua orelha copiosamente vingada...

«Aqui começam a picar os primeiros frios, e já usamos peles. O bom Meriskoff continua a sofrer do fígado, mas a dor não lhe altera o critério filosófico nem a sábia verbosidade...

«Tivemos um grande desgosto. O lindo cãozinho da boa Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretário, desapareceu na manhã de 15. O adorável *Tu-tu*! Fiz pedidos urgentes à polícia, mas o *Tu-tu* não nos foi devolvido. E a pena é ainda maior porque toda a gente sabe uma coisa: a populaça de Pequim aprecia muito estes cãezinhos, guisados em calda de açúcar...

«Deu-se aqui um facto abominável e de consequências funestas. Foi a ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse *galho seco* (como diz o nosso Meriskoff). No último jantar da legação, desprezou todas as regras internacionais. Deu o braço, o seu descarnado braço, e a sua direita à mesa a um simples adido inglês, lord Gordon! Que me diz a isto? É crível? É racional? É destruir a ordem social! O braço e a direita a um adido, um escocês cor de tijolo, de vidro entalado no olho! E estavam presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem causado no corpo diplomático uma sensação indescritível... Esperamos instruções dos nossos governos. Como diz Meriskoff, abanando tristemente a cabeça: *é grave... é muito grave*! O que prova (e ninguém duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do *galho seco*. Que podridão! Que lama!...

«A generala não tem passado bem, desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó. O doutor Pagloff não percebe o mal dela. É uma languidez, um murchar, uma preguiça cheia de saudade. Fica horas e horas imóvel no sofá, no *Pavilhão do Repouso discreto*. Tem o olhar vago e o lábio cheio de suspiros... Eu não me iludo, sei perfeitamente o que a consome. É a desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más águas, quando estivemos na legação de Madrid... Seja feita a vontade do Senhor!...

«Ela pede-me que lhe mande *un petit bonjour*. E deseja um favor, logo que o meu hóspede chegue a Paris, se for a Paris. Deve mandar-lhe duas dúzias de luvas de doze botões, pela mala da Embaixada para São Petersburgo. De lá virão a Pequim. São do número *cinco e três quartos*, da marca *Sol*, dos armazéns do Louvre. Deseja também os últimos romances de Zola, *Mademoiselle de Maupin* de Gautier, e uma caixa de frascos de *Opoponax*...

«Esquecia-me de lhe dizer que mudámos de padeiro. Agora compramos na padaria da Embaixada inglesa. Deixámos a da Embaixada francesa, para não ter contacto com o *galho seco*... Eis os inconvenientes de não termos aqui uma padaria na Embaixada russa! E já fiz tantos relatórios e tantas reclamações sobre isso à chancelaria de São Petersburgo! Eles sabem bem que em Pequim não há padarias. Cada legação tem a sua própria, como elemento de instalação e de influência. Mas quê! Na corte imperial desprezam-se os mais sérios interesses da civilização russa!...

«Creio que é tudo o que há de novo em Pequim e nas legações. Meriskoff envia cumprimentos, e todos desta Embaixada. Também o condezinho Artur, o Zizi da legação espanhola, o *Focinho Caído* e o Lulu. Enfim, todos. E eu mais do que ninguém, que assino com saudade e afeto

*«General Camilloff»*.

«P.S. Quanto à viúva e à família de Ti-Chin-Fu, houve um engano. O astrólogo do templo de Faqua enganou-se na interpretação das estrelas. Não é realmente em Tien-Hó que vive essa família... É no sul da China, na província de Cantão. Mas também há uma família Ti-Chin-Fu para além da Grande Muralha, quase na fronteira russa, no distrito de Ka-ó-li. Ambas perderam o chefe, ambas caíram na pobreza... Portanto, à espera de novas ordens, não levantei o dinheiro da casa de Tsing-Fó. Esta nova informação foi-me mandada hoje por sua excelência o príncipe Tong, com uma deliciosa compota de calombro...

«Devo anunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó apareceu aqui, de volta de Tien-Hó. Trazia um beiço rachado e leves contusões no ombro. Da bagagem roubada, salvou apenas uma litografia de Nossa Senhora das Dores. Pela inscrição a tinta, vejo que tinha pertencido à sua respeitável mamã... Os meus valentes cossacos, esses, lá ficaram numa poça de sangue. Sua excelência o príncipe Tong aceita pagar-me dez mil francos por cada um. Sairão das somas arrancadas à vila de Tien-Hó... O meu hóspede, como é natural, pode recomeçar as suas viagens pelo Império em busca dos Ti-Chin-Fu. Nesse caso, diz-me Sá-Tó, ficaria honrado e feliz por o acompanhar, com uma fidelidade canina e uma docilidade cossaca...

*«Camilloff»*.

— Não! nunca! — rugi com fúria, amarrotando a carta, a falar sozinho, a grandes passos pelo claustro melancólico. — Não, por Deus ou pelo Demónio! Ir de novo bater as estradas da China? Jamais! Oh sorte grotesca e desastrosa! Deixo os meus prazeres no Loreto e o meu ninho de amor em Paris. Venho rolado pelas ondas enjoativas de Marselha a Xangai. Sofro as pulgas dos barcos chineses, o fedor das vielas, o pó dos caminhos secos. E para quê? Tinha um plano que subia até aos céus, grandioso e enfeitado como um troféu. Por cima dele brilhavam, de alto a baixo, todas as espécies de boas ações. E eis que o vejo cair ao chão, peça a peça, em ruína! Queria dar o meu nome, os meus milhões e metade da minha cama de ouro a uma senhora Ti-Chin-Fu. E não mo permitem os preconceitos sociais de uma raça bárbara! Pretendo, com o botão de cristal de Mandarim, mudar os destinos da China e trazer-lhe a prosperidade civil. E a lei imperial proíbe-mo! Desejo dar uma esmola sem fim a esta populaça faminta. E corro o perigo ingrato de ser decapitado como instigador de rebeliões! Venho enriquecer uma vila, e a turba furiosa apedreja-me! Ia enfim dar a abundância, o conforto que Confúcio louva, à família Ti-Chin-Fu. E essa família some-se, evapora-se como um fumo! E outras famílias Ti-Chin-Fu surgem, aqui e ali, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores... E havia de ir a Cantão, a Ka-ó-li, oferecer a outra orelha a tijolos brutais? Havia de fugir outra vez pelos campos desertos, agarrado às crinas de um potro? Jamais!

Parei. E, de braços levantados, falei às arcadas do claustro, às árvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:

— Ti-Chin-Fu! — gritei. — Ti-Chin-Fu, para te aplacar, fiz o que era racional, generoso e lógico! Estás enfim satisfeito, letrado venerável, tu, o teu gentil papagaio, a tua pança oficial? Fala-me! Fala-me!...

Escutei, olhei. A essa hora do meio-dia, a roldana do poço rangia devagar no pátio. Debaixo das amoreiras, ao longo das arcadas do claustro, secavam folhas de chá. Eram da colheita de outubro e estavam em papel de seda. Da porta meio fechada da aula vinha um sussurro lento de declinações latinas. Era uma paz severa, feita da simplicidade das ocupações, da honestidade dos estudos e do ar pastoril daquela colina. Ali dormia o burgo religioso, debaixo de um sol branco de inverno... E com aquela serenidade à minha volta, pareceu-me receber de repente na alma uma paz absoluta!

Acendi um charuto com os dedos ainda a tremer. E, limpando da testa uma gota de suor, disse estas palavras, resumo de um destino:

— Bem, Ti-Chin-Fu está contente.

Fui logo à cela do excelente padre Giulio. Ele lia o seu Breviário à janela, a debicar confeitos de açúcar, com o gato do convento no colo.

— Reverendíssimo, volto à Europa... Algum dos nossos bons padres vai por acaso em missão para os lados de Xangai?...

O venerável superior pôs os seus óculos redondos. E, folheando com unção um grande registo em letra chinesa, foi murmurando:

— Quinto dia da décima lua... Sim, há o padre Anacleto para Tien-Tsin, para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodécima lua, o padre Sanchez, também para Tien-Tsin, para a obra do Catecismo aos Órfãos... Sim, caro hóspede, tem companheiros para leste...

— Amanhã?

— Amanhã. É dolorosa a separação nestes confins do mundo, quando as almas se compreendem bem em Jesus... O nosso padre Gutierrez que lhe faça um bom farnel... Nós já o amávamos como a um irmão, Teodoro... Coma um confeito, são deliciosos... As coisas estão em feliz repouso quando se encontram no seu lugar e elemento natural. O lugar do coração do homem é o coração de Deus, e o seu está nesse asilo seguro... Coma um confeito... Que é isso, meu filho, que é isso?

Eu estava a colocar um rolo de notas do *Banco de Inglaterra* sobre o seu Breviário. Estava aberto numa página do Evangelho da pobreza. E balbuciei:

— Meu reverendíssimo, para os seus pobres...

— Excelente, excelente... O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel copioso... *Amen*, meu filho... *In Deo omnia spes!*...

No outro dia, desci o burgo ao som dos sinos, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez. Ia montado na mula branca do convento. E aí vamos para Hiang-Hiam, vila negra e murada, onde param os barcos que descem a Tien-Tsin. As terras ao longo do Pei-Hó já estavam todas brancas de neve. Nas enseadas baixas a água começava a gelar. Embrulhados em peles de carneiro, à volta do fogareiro, à popa do barco, os bons padres e eu conversávamos. Falávamos de trabalhos de missionários, de coisas da China e às vezes dos interesses do Céu. E o grosso frasco de genebra ia passando sem parar de mão em mão...

Em Tien-Tsin separei-me daqueles santos camaradas. Duas semanas depois, num meio-dia de sol morno, eu passeava no convés do *Java*. O navio ia levantar âncora para a Europa. Fumava o meu charuto e olhava a agitação do cais de Hong Kong.

Foi um momento comovente para mim. Às primeiras voltas da hélice, vi a terra da China a afastar-se.

Desde que tinha acordado, nessa manhã, uma inquietação surda voltava a pesar-me na alma. Agora punha-me a pensar. Tinha vindo àquele vasto Império para acalmar pela expiação um protesto temível da Consciência. E por fim, empurrado por uma impaciência nervosa, ali partia eu. Não tinha feito mais do que desonrar os bigodes brancos de um general heroico. E tinha recebido pedradas na orelha, numa vila dos confins da Mongólia.

Estranho destino, o meu!...

Até ao anoitecer fiquei encostado, sombrio, à borda do paquete. Via o mar liso, como uma grande peça de seda azul, a dobrar-se aos lados em duas pregas moles. Pouco a pouco, grandes estrelas palpitaram na concavidade negra do céu. A hélice trabalhava com ritmo na sombra. Então, tomado por um cansaço mole, fui andando pelo paquete. Olhava, aqui e ali, a bússola iluminada e os montes de cabrestantes. Olhava as peças da máquina, que batiam com ritmo numa luz ardente. Olhava as faíscas que fugiam da chaminé, num rolo de fumo negro. Olhava os marinheiros de barba ruiva, imóveis à roda do leme. Via as formas dos pilotos na ponte, altas e vagas na noite. Na *cabine* do capitão, um inglês de capacete de cortiça estava rodeado de damas que bebiam conhaque. Tocava na flauta, melancolicamente, a ária de *Bonnie Dundee*...

Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam apagadas. Mas a lua, redonda e branca, erguia-se ao nível da água. Batia no vidro da *cabine* com um raio de claridade. E então, nessa meia-luz pálida, lá vi a figura pançuda, estendida no beliche. Estava vestida de seda amarela, com o seu papagaio nos braços!

Era *ele*, outra vez!

E foi *ele*, perpetuamente! Foi ele em Singapura e em Ceilão. Foi ele a erguer-se das areias do deserto, quando passámos no canal de Suez. Foi ele a avançar na proa de um barco de provisões, quando parámos em Malta. Foi ele a deslizar sobre as montanhas cor-de-rosa da Sicília. Foi ele a sair dos nevoeiros que cercam o rochedo de Gibraltar! Quando desembarquei em Lisboa, no cais das Colunas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da Rua Augusta. O seu olho oblíquo fixava-me, e os dois olhos pintados do seu papagaio pareciam fixar-me também...

### Glossário

- **raças amarelas**: nome antigo para os povos do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **raça**: palavra antiga para «povo»; hoje considerada ofensiva quando usada assim.
- **bárbaro**: palavra antiga e ofensiva para «estrangeiro» ou «sem civilização».
- **populaça**: palavra de desprezo para «o povo pobre» (palavra antiga e ofensiva).
- **Tartária**: nome antigo de terras do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **rabicho**: trança de cabelo que os homens chineses usavam na época (palavra antiga).
- **olho oblíquo**: olho de forma alongada; expressão antiga para descrever pessoas do Leste da Ásia (palavra antiga e ofensiva).
- **papagaio**: brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio.
- **burgo**: pequena povoação à volta de um castelo ou convento.
- **Reis Fidelíssimos**: título dos reis de Portugal.
- **Benjamim**: o preferido, o favorito.
- **doença de bexiga**: doença do órgão que guarda a urina.
- **farnel**: comida para levar numa viagem.
- **genebra**: bebida alcoólica forte.
- **hóspede**: pessoa que fica em casa de outra durante algum tempo.
- **legação**: casa e serviços de um representante de um país no estrangeiro.
- **Yamen**: escritório do governo na China antiga.
- **venerável**: que merece muito respeito, sobretudo pela idade.
- **vielas**: ruas muito estreitas.
- **gazela**: animal pequeno e muito rápido, parecido com um veado.
- **no fio do vento**: a direito, na linha do vento.
- **charuto**: rolo de folhas de tabaco para fumar.
- **reverendíssimo**: título de respeito para um padre importante.
- **confeito**: pequeno doce coberto de açúcar.
- **paquete**: grande navio de passageiros.
- **beliche**: quarto pequeno de dormir num navio; também a sua cama estreita.
- **semicírculo**: forma de meio círculo.
- **gula**: vontade muito forte de comer.
- **padiola**: cama de pano com varas, para transportar doentes ou feridos.
- **súbdito**: pessoa que deve obediência a um rei.
- **feudal**: do tempo em que os senhores tinham castelos e servos.
- **un petit bonjour**: em francês, uma pequena saudação.
- **In Deo omnia spes**: em latim, «em Deus está toda a esperança».
- **lezíria**: terra plana e fértil.
- **feltro**: tecido grosso feito de lã ou de pelo apertados.
- **Dominus vobiscum**: em latim, «o Senhor esteja convosco»; palavras da missa.
- **Cum spiritu tuo**: em latim, «com o teu espírito»; resposta na missa.
- **declinar**: dizer todas as formas de uma palavra latina.
- **prodigiosa**: extraordinária, enorme.
- **apedrejado**: atacado com pedras.
- **expunha**: punha em perigo, sem proteção.
- **indizíveis**: que não se podem dizer por palavras.
- **lacre**: cera dura que se usa para fechar cartas.

## VIII

Então, certo de que nunca poderia aplacar Ti-Chin-Fu, passei toda essa noite no meu quarto do Loreto. Como antigamente, as inúmeras velas dos candelabros davam aos damascos tons de sangue fresco. Pensei em sacudir de mim, como um adorno de pecado, esses milhões sobrenaturais. Talvez assim me libertasse daquela pança e daquele papagaio abominável!

Abandonei o palacete do Loreto e a vida de Nababo. Com um casaco gasto, fui alugar de novo o meu quarto na casa de Madame Marques. E voltei à Repartição, de espinha curvada. Fui implorar os meus vinte mil réis mensais e a minha doce pena de amanuense!...

Mas um sofrimento maior veio amargar os meus dias. Todos aqueles que a minha riqueza tinha humilhado pensavam que eu estava arruinado. Por isso, cobriram-me de ofensas, como se cobre de lixo a estátua derrubada de um príncipe caído. Os jornais, num triunfo de ironia, troçaram da minha miséria. A aristocracia tinha gaguejado adulações aos pés do Nababo. Agora mandava aos seus cocheiros que atropelassem nas ruas o corpo encolhido do escrevente de Secretaria. O clero, que eu tinha enriquecido, acusava-me de *feiticeiro*. O povo atirou-me pedras. E Madame Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza de granito dos bifes, punha as duas mãos na cintura. E gritava:

— Ora o enguiço! Então que quer você mais? Aguente! Olha o pelintra!...

E, apesar desta expiação, o velho Ti-Chin-Fu lá estava sempre ao meu lado, obeso e cor de ocre. Porque os seus milhões estavam agora estéreis e intactos nos Bancos, mas ainda eram meus, de facto! Desgraçadamente meus!

Então, indignado, um dia voltei de repente, com estrondo, ao meu palacete e ao meu luxo. Nessa noite, o brilho das minhas janelas voltou a iluminar o Loreto. E pelo portão aberto viram-se, como antigamente, as longas filas de lacaios decorativos, nas suas fardas de seda preta.

Lisboa, sem hesitar, rojou-se logo aos meus pés. Madame Marques chamou-me, a chorar, *filho do seu coração*. Os jornais deram-me os títulos que, por antiga tradição, pertencem à Divindade: fui o *Omnipotente*, fui o *Omnisciente*! A aristocracia beijou-me os dedos, como a um Tirano. O clero incensou-me, como a um ídolo. E o meu desprezo pela Humanidade foi tão grande que se estendeu ao Deus que a criou.

Desde então, um fastio que me tira as forças mantém-me semanas inteiras num sofá, mudo e sombrio. Penso na felicidade do *não-ser*...

Uma noite, voltava sozinho para casa por uma rua deserta. Vi diante de mim o Personagem vestido de preto, com o guarda-chuva debaixo do braço. Era o mesmo do meu quarto feliz da travessa da Conceição. Com um *ti-li-tin* de campainha, ele tinha-me feito herdar tantos milhões detestáveis. Corri para ele, agarrei-me às abas da sua sobrecasaca burguesa e gritei:

— Livra-me das minhas riquezas! Ressuscita o Mandarim! Restitui-me a paz da miséria!

Ele passou gravemente o guarda-chuva para debaixo do outro braço e respondeu com bondade:

— Não pode ser, meu prezado senhor, não pode ser...

Atirei-me aos seus pés, numa súplica abjeta. Mas só vi diante de mim, sob uma luz fraca de gás, a forma magra de um cão a cheirar o lixo.

Nunca mais encontrei este indivíduo. — E agora o mundo parece-me um imenso monte de ruínas. A minha alma solitária, como um exilado que anda entre colunas caídas, geme sem parar...

As flores dos meus quartos secam e ninguém as renova. Toda a luz me parece uma tocha. E quando as minhas amantes vêm, na brancura dos seus roupões, encostar-se à minha cama, eu choro. Choro como se visse a legião amortalhada das minhas alegrias mortas...

Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio. Pertencem-lhe; que ele os reclame e os reparta...

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: «*Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!*»

E todavia, ao morrer, consola-me prodigiosamente uma ideia. Penso em todo o vasto Império da China, do Norte ao Sul e do Oeste a Leste. Vai da Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo. Nesse Império, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu o pudesses suprimir tão facilmente como eu e herdar-lhe os milhões. Tu, oh leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!

Angers, junho, 1880.

### Glossário

- **papagaio**: brinquedo de papel que se lança ao ar com um fio.
- **damascos**: tecidos de seda com desenhos, usados nas paredes e nos móveis.
- **Nababo**: homem riquíssimo.
- **amanuense**: funcionário que copia documentos à mão.
- **Repartição**: escritório do Estado.
- **enguiço**: pessoa ou coisa que parece trazer azar; é a alcunha de Teodoro.
- **Aguente!**: suporte isso sem se queixar.
- **pelintra**: pessoa pobre que quer parecer bem.
- **lacaios**: criados de uma casa rica, com farda.
- **ti-li-tin**: o som da campainha.
- **amortalhada**: vestida com o pano que cobre os mortos.
- **Tartária**: nome antigo de terras do Norte da Ásia (palavra antiga).
- **aplacar**: acalmar a raiva de alguém.
- **candelabros**: suportes com vários braços para velas.
- **abominável**: horrível, que causa nojo e ódio.
- **réis**: antigas moedas de Portugal.
- **arruinado**: que perdeu todo o dinheiro.
- **troçaram**: riram-se de alguém para o humilhar.
- **aristocracia**: as famílias nobres.
- **gaguejado**: dito com dificuldade, repetindo os sons.
- **adulações**: elogios falsos, feitos para agradar.
- **cocheiros**: homens que conduzem carruagens.
- **atropelassem**: passassem por cima de alguém com um carro.
- **encolhido**: curvado e pequeno, por medo ou vergonha.
- **obeso**: muito gordo.
- **ocre**: cor amarela escura, como a de certas terras.
- **herdar**: receber os bens de quem morreu.
- **rojou-se**: arrastou-se pelo chão.
- **incensou**: queimou incenso em honra de alguém; aqui, elogiou muito.
- **sobrecasaca**: casaco comprido de homem, usado antigamente.
- **prezado**: estimado; palavra de respeito.
- **súplica abjeta**: pedido humilhante, feito sem nenhuma dignidade.
- **geme**: faz sons baixos de dor.
- **prodigiosamente**: de modo extraordinário.
