# O Alienista (Edição B2)

*Machado de Assis*

## I. De como Itaguaí ganhou uma casa de orates

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos viveu ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte. Era filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Tinha estudado em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, e el-rei não conseguiu que ele ficasse em Coimbra, dirigindo a universidade, ou em Lisboa, cuidando dos negócios da monarquia.

— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Dito isto, instalou-se em Itaguaí e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de tal escolha e disse-lhe isso. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem: digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista. Estava assim apta para lhe dar filhos robustos, sãos e inteligentes. Essas eram as únicas prendas dignas da preocupação de um sábio. Se, além delas, D. Evarista era mal composta de feições, ele estava longe de lamentar isso; agradecia-o a Deus. Agradecia-o porque não corria o risco de deixar para trás os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte: não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a paciência; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. No fim desse tempo fez um estudo profundo da matéria. Releu todos os escritores árabes e outros que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentar especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às advertências do esposo. E à sua resistência, explicável, mas inqualificável, devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos da medicina lhe chamou especialmente a atenção: o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, nem mesmo no reino, uma só autoridade em tal matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência portuguesa, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis". A expressão foi usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, como convém aos sábios.

— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.

A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é acusada pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim, cada louco furioso era trancado em uma alcova, na sua própria casa, e ali ficava, não curado, mas descurado. Ficava até que a morte vinha defraudá-lo do benefício da vida. Os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte resolveu desde logo reformar tão ruim costume. Pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar, no edifício que ia construir, todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades. Em troca receberia um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do doente não o pudesse fazer. A proposta despertou a curiosidade de toda a vila e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se arrancam hábitos absurdos, ou mesmo maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência. E não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido e disse-lhe "que estava com desejos". Tinha um principalmente: o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, percebeu a intenção da esposa e respondeu-lhe, sorrindo, que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência que a maioria resolveu autorizá-lo a fazer o que pedira. Votou ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, o alojamento e o sustento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil de achar; tudo estava taxado em Itaguaí. Depois de longos estudos, decidiu-se permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse pôr penachos nos cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara. Esta quantia repetia-se tantas vezes quantas fossem as horas passadas entre a da morte e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa. E um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se dispensasse o escrivão de um trabalho inútil.

— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?

Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez de posse da licença, começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo. Tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro e numerosos cubículos para os hóspedes. Como era grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, considerando que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa. Mas, como tinha medo do vigário, e por tabela do bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII. Mereceu com essa fraude, aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Foi inaugurada com imensa pompa. De todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos, e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis. Ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam. Porque, e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, porque viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre. E, se tinham inveja dela, era a santa e nobre inveja dos admiradores.

Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de orates.

### Glossário

- **orates**: palavra antiga para "loucos"; uma casa de orates é a casa onde ficam os loucos.
- **cataplasmas**: pastas quentes de remédio que se põem sobre a pele.
- **pacas**: animais do Brasil, caçados pela sua carne.
- **prendas**: boas qualidades.
- **mofinos**: fracos, doentes.
- **inefável**: que não se pode explicar com palavras.
- **louros imarcescíveis**: glória que nunca acaba.
- **arroubo**: momento de grande entusiasmo.
- **comensais**: pessoas que comem com frequência na casa de outra.
- **vereança**: a Câmara; o cargo de vereador.
- **alcova**: pequeno quarto no interior da casa.
- **estipêndio**: pagamento regular.
- **penachos**: enfeites de penas.
- **tostões**: antigas moedas de pouco valor.
- **coche mortuário**: carro de enterro puxado por cavalos.

## II. Torrente de loucos

Três dias depois, numa conversa íntima com o boticário Crispim Soares, o alienista desvendou o mistério do seu coração.

— A caridade, Sr. Soares, entra certamente no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas. É assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: "Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada". O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura e os seus diversos graus. É classificar os seus casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.

— Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

— Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele me dá, porém, muito maior campo para os meus estudos.

— Muito maior, acrescentou o outro.

E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos corriam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Os primeiros cubículos não bastaram; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não tinha imaginado a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, era um rapaz bronco e vilão que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico. O discurso vinha enfeitado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus bordados de grego e latim e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele tinha visto, três meses antes, jogando peteca na rua!

— Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

— Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura. Provavelmente, como as línguas foram confundidas antigamente, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

— Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante. Mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...

— Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d'alva. Abria os braços e alargava as pernas, para lhes dar certa feição de raios. E ficava assim horas esquecidas, a perguntar se o sol já tinha saído, para ele se recolher. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado que a mulher tinha deixado para seguir um peralvilho. Mal descobriu a fuga, armou-se de uma garrucha e saiu atrás deles. Achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, e matou os dois com os maiores requintes de crueldade.

O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.

A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

— Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura. A púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.

Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:

— Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

Outro da mesma espécie era um escrivão, que se fazia passar por mordomo do rei. Outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente. Dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa. Apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João. Prometia o reino dos céus a quem o adorasse e as penas do inferno aos outros. E depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada. É que imaginava que, no dia em que chegasse a dizer uma só palavra, todas as estrelas se soltariam do céu e queimariam a terra. Tal era o poder que tinha recebido de Deus.

Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico.

Porque, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; era nada menos que espantosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração. Aceitou essa ideia do boticário Crispim Soares, e aceitou-lhe também dois sobrinhos. Encarregou-os de executar um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, de distribuir a comida e a roupa, e também da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para cuidar somente do seu ofício.

— A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual.

E o Padre Lopes ria deste pio trocado, e acrescentava, com o único fim de dizer também uma chalaça:

— Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.

Uma vez livre da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus doentes. Dividiu-os primeiro em duas classes principais: os furiosos e os mansos. Daí passou às subclasses: monomanias, delírios, alucinações diversas.

Feito isto, começou um estudo persistente e contínuo. Analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as antipatias, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências. Perguntava pela vida dos doentes, profissão, costumes, circunstâncias em que a doença se revelou, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família. Era, enfim, uma devassa como não a faria o mais sagaz corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regime, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos. Não eram só os que vinham nos seus amados árabes, mas também os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia. E, mesmo comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão. Muitas vezes ia de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

### Glossário

- **arraiais**: pequenas povoações.
- **monomaníacos**: loucos com uma só ideia fixa.
- **bronco**: rude, sem instrução.
- **borlas**: enfeites feitos de fios pendurados.
- **peteca**: brinquedo de penas que se joga com a mão.
- **estrela-d'alva**: estrela que brilha antes de o sol nascer.
- **peralvilho**: homem jovem muito preocupado com a roupa e a aparência.
- **garrucha**: pequena arma de fogo antiga.
- **algibebe**: vendedor de roupas simples ou usadas.
- **engendrou**: gerou, deu origem a.
- **regimento**: conjunto de regras.
- **pio trocado**: talvez uma brincadeira com palavras sobre coisas da religião.
- **chalaça**: brincadeira, piada.
- **devassa**: investigação longa e completa.
- **corregedor**: alto juiz que examinava o trabalho da justiça.

## III. Deus sabe o que faz

A ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres. Caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou censura, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas sofria calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, o marido perguntou-lhe o que tinha, e ela respondeu tristemente que nada. Depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava tão viúva como antes. E acrescentou:

— Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos...

Não acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao teto. Os olhos eram a sua feição mais insinuante: negros, grandes, lavados de uma luz úmida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que tinha usado no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a ciência, ou, pelo menos, cortar-lhe as mãos. Mas a conjetura é verossímil. Em todo caso, o alienista não lhe atribuiu intenção. E não se irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno. Nem a menor prega veio quebrar a superfície da fronte, quieta como a água de Botafogo. Talvez um sorriso lhe abriu os lábios, por entre os quais passou esta palavra macia como o óleo do Cântico:

— Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.

D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas tinha visto o Rio de Janeiro, que, embora não fosse sequer uma pálida sombra do que hoje é, era alguma coisa mais do que Itaguaí. Ver o Rio de Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente, que o marido se fixara de vez naquela povoação interior, agora é que ela perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade. E justamente agora é que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pôde dissimular o gosto de tal proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu, um sorriso tanto ou quanto filosófico, além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento:

— "Não há remédio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se".

E, porque era homem estudioso, tomou nota da observação.

Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto. Limitou-se a dizer ao marido que, se ele não ia, ela também não iria, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas.

— Irá com sua tia, respondeu o alienista.

Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo, mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo. Em primeiro lugar, porque seria impor grandes despesas ao marido. Em segundo lugar, porque era melhor, mais metódico e racional, que a proposta viesse dele.

— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.

— Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário me prestou contas. Queres ver?

E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro.

Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência.

Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a e dizia-lhe ao ouvido, com a mais pérfida das alusões:

— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...

D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:

— Deus sabe o que faz!

Três meses depois realizava-se a viagem. Na comitiva iam D. Evarista, a tia, a mulher do boticário e um sobrinho deste. Iam também um padre que o alienista conhecera em Lisboa e que por acaso estava em Itaguaí, cinco ou seis pajens e quatro mucamas. Tal foi a comitiva que a população viu sair dali, em certa manhã do mês de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista. Embora as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência. E, se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, era apenas uma ideia. Era a ideia de que algum demente podia estar ali misturado com a gente de juízo.

— Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário.

E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao voltar para casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado. Simão Bacamarte estendia os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades; outro devassa o futuro, com todas as suas auroras.

### Glossário

- **definhava**: ficava cada vez mais fraca e magra.
- **lunáticos**: loucos.
- **brandiu**: agitou no ar, como quem ameaça com uma arma.
- **verossímil**: que parece verdade.
- **hebreu cativo**: o hebreu preso longe da sua terra, que sonha em voltar.
- **arcas**: caixas grandes de madeira para guardar coisas.
- **cruzados**: antigas moedas portuguesas.
- **dobrões**: antigas moedas de ouro.
- **comitiva**: grupo de pessoas que viajam juntas.
- **pajens**: rapazes que acompanham e servem um senhor ou uma senhora.
- **mucamas**: jovens escravas que serviam a senhora dentro da casa.
- **besta ruana**: animal de montaria, de pelo de cor misturada.
- **vulgo**: o povo comum.
- **devassa**: olha até o fundo, procura conhecer tudo.

## IV. Uma teoria nova

Enquanto D. Evarista, em lágrimas, ia buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia ousada e nova. Era uma ideia própria para alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa. Conversava com as pessoas sobre trinta mil assuntos, virgulando as falas com um olhar que metia medo aos mais heroicos.

Um dia de manhã, passadas três semanas, Crispim Soares estava ocupado em preparar um medicamento, quando vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.

— Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.

Crispim ficou pálido. Que negócio importante podia ser, senão alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este ponto deve ficar claramente definido, visto que os cronistas insistem nele: Crispim amava a mulher, e, em trinta anos, nunca tinham estado separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muitas vezes:

— "Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!"

E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Assim que o recebeu, largou as drogas e voou à Casa Verde.

Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço.

— Estou muito contente, disse ele.

— Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.

O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

— Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Disse isto e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou longamente a sua ideia. No conceito dele, a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande quantidade de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí. Mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres: Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc. Era uma enfiada de casos e pessoas, em que vinham de mistura entidades odiosas e entidades ridículas. E, porque o boticário se admirou de tal mistura, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

— A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

— Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares, levantando as mãos ao céu.

Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, o boticário achou-a extravagante. Mas a modéstia, principal adorno do seu espírito, não lhe permitiu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo. Declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era "caso de matraca". Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, e tinha dois modos de divulgar uma notícia. Ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara e da matriz, ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar pelas ruas do povoado com uma matraca na mão.

De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe tinham encomendado. Podia ser um remédio para sezões, umas terras de cultivo, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública, mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde, gozava da reputação de perfeito educador de cobras e macacos. E, aliás, nunca tinha domesticado um só desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador. A afirmação era perfeitamente falsa, mas devia-se somente à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século.

— Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.

E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.

— Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.

Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

— Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão. Por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.

O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou francamente que não chegava a entendê-la. Disse que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

— Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à compaixão. Mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.

A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, com tal segurança que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução.

### Glossário

- **virgulando**: interrompendo de vez em quando, como quem põe vírgulas numa frase.
- **fâmulos**: empregados de uma casa.
- **bajulador**: pessoa que elogia demais para agradar.
- **lacaio**: empregado; pessoa que obedece sem dignidade.
- **biltre**: homem desonesto, sem valor (insulto).
- **circunspeção**: seriedade, muito cuidado no modo de agir e de falar.
- **insânia**: loucura.
- **matraca**: instrumento de madeira que faz muito barulho, usado para chamar as pessoas nas ruas.
- **caso de matraca**: coisa que merece ser anunciada a todos.
- **arraiais**: pequenas povoações.
- **matriz**: a igreja principal da vila.
- **sezões**: febres que voltam de tempos em tempos.
- **cascavéis**: cobras venenosas com um chocalho na cauda.
- **faculdades**: as capacidades da mente, como pensar, sentir e lembrar.
- **egrégias**: muito importantes, ilustres.

## V. O terror

Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa tinha sido recolhido à Casa Verde.

— Impossível!

— Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã.

— Mas, na verdade, ele não merecia... Ainda em cima! depois de tanto que ele fez...

Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí. Tinha herdado quatrocentos mil cruzados em boa moeda de El-rei Dom João V. A renda desse dinheiro bastava, segundo o tio lhe declarou no testamento, para viver "até o fim do mundo". Assim que recebeu a herança, começou a dividi-la em empréstimos, sem usura: mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos a este, oitocentos àquele. Foi a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada. Se a miséria viesse de repente, o pasmo de Itaguaí seria enorme; mas veio devagar. Ele foi passando da opulência à abastança, da abastança à mediania, da mediania à pobreza, da pobreza à miséria, gradualmente.

Ao cabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chapéu ao chão assim que ele aparecia no fim da rua agora lhe batiam no ombro, com intimidade. Davam-lhe piparotes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre amável, risonho. Nem se importava de ver que os menos corteses eram justamente os que ainda tinham a dívida em aberto. Ao contrário, parece que os recebia com maior prazer e mais sublime resignação. Um dia, um desses incuráveis devedores atirou-lhe uma chalaça grossa, e ele riu-se dela. Observou então um desafeiçoado, com certa perfídia:

— Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga.

Costa não se deteve um minuto: foi ao devedor e perdoou-lhe a dívida.

— Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está no céu.

Costa era perspicaz. Entendeu que o outro negava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a intenção de rejeitar o que ninguém vinha meter-lhe no bolso. Era também brioso e inventivo. Duas horas depois achou um meio de provar que não merecia tal labéu: pegou em algumas dobras e mandou-as de empréstimo ao devedor.

— Agora espero que... pensou ele, sem concluir a frase.

Esse último rasgo do Costa persuadiu crédulos e incrédulos; ninguém mais pôs em dúvida os sentimentos cavalheirescos daquele digno cidadão. As necessidades mais tímidas saíram à rua e vieram bater-lhe à porta, com os seus chinelos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto, roía a alma do Costa: era o conceito do desafeiçoado. Mas isso mesmo acabou. Três meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados, com promessa de os restituir dali a dois dias. Era o resto da grande herança, mas era também uma nobre vingança: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não teve tempo de ser pago; cinco meses depois era recolhido à Casa Verde.

Imagina-se a consternação de Itaguaí quando soube do caso. Não se falou em outra coisa. Uns diziam que o Costa tinha enlouquecido ao almoço, outros que de madrugada. E contavam-se os acessos, que eram furiosos, sombrios, terríveis, ou mansos, e até engraçados, conforme as versões. Muita gente correu à Casa Verde, e achou o pobre Costa tranquilo, um pouco espantado, falando com muita clareza. Perguntava por que motivo o tinham levado para ali. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, e que ele não podia deixar na rua um mentecapto. A última pessoa que intercedeu por ele foi uma pobre senhora, prima do Costa. Porque, depois do que vou contar, ninguém mais se atreveu a procurar o terrível médico. O alienista disse-lhe confidencialmente que esse digno homem não estava no perfeito equilíbrio das faculdades mentais, à vista do modo como tinha dissipado os bens que...

— Isso, não! isso, não! interrompeu a boa senhora com energia. Se ele gastou tão depressa o que recebeu, a culpa não é dele.

— Não?

— Não, senhor. Eu lhe digo como o negócio se passou. O defunto meu tio não era mau homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar o chapéu ao Santíssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer, descobriu que um escravo lhe tinha roubado um boi; imagine como ficou. A cara era um pimentão; todo ele tremia, a boca espumava; lembro-me como se fosse hoje. Então um homem feio, cabeludo, em mangas de camisa, chegou-se a ele e pediu água. Meu tio (Deus lhe fale na alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a mão em ar de ameaça, e rogou esta praga. "Todo o seu dinheiro não há de durar mais de sete anos e um dia, tão certo como isto ser o sino-salamão!" E mostrou o sino-salamão impresso no braço. Foi isto, meu senhor; foi esta praga daquele maldito.

Bacamarte tinha espetado na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse à própria esposa do vice-rei, e convidou-a a ir falar ao primo. A mísera acreditou; ele levou-a à Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.

A notícia desta traição do ilustre Bacamarte lançou o terror na alma da população. Ninguém queria acabar de crer que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada. Ela não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros. Edificou-se um romance: umas finezas namoradas que o alienista outrora dirigira à prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima. E daí a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir tal hipótese. Histórias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais crédulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas. Não as dizia, por não ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar.

— Você, que é íntimo dele, não nos podia dizer o que há, o que houve, que motivo...

Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagração pública. Não havia como duvidar. Toda a povoação sabia enfim que o privado do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colaborador do grande homem e das grandes coisas. Daí a corrida à botica. Tudo isso dizia o carão alegre e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio, porque ele não respondia nada. Um, dois, três monossílabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso constante e miúdo, cheio de mistérios científicos. Esses mistérios, ele não podia, sem desonra nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.

— Há coisa, pensavam os mais desconfiados.

Um desses limitou-se a pensá-lo, deu de ombros e foi embora. Tinha negócios pessoais. Acabava de construir uma casa suntuosa. Só a casa bastava para deter e chamar toda a gente. Mas havia mais: a mobília, que ele mandara vir da Hungria e da Holanda, segundo contava. Podia-se vê-la do lado de fora, porque as janelas viviam abertas. E havia o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnífica, jardim pomposo, mobília rara. Não deixou o negócio das albardas, mas descansava dele na contemplação da casa nova. Era a primeira de Itaguaí, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a da Câmara. Entre a gente ilustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa do albardeiro. Um simples albardeiro, Deus do céu!

— Lá está ele embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã.

De manhã, com efeito, era costume do Mateus plantar-se no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado. Ficava assim durante uma longa hora, até que vinham chamá-lo para almoçar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com certo respeito, riam-se dele pelas costas, que era um gosto. Um deles chegou a dizer que o Mateus seria muito mais econômico, e estaria riquíssimo, se fabricasse as albardas para si mesmo. Era um epigrama ininteligível, mas que fazia rir às gargalhadas.

— Agora lá está o Mateus a ser contemplado, diziam à tarde.

A razão deste outro dito era que, de tarde, quando as famílias saíam a passeio (jantavam cedo), o Mateus costumava colocar-se à janela, bem no centro. Ali ficava, vistoso, sobre um fundo escuro, vestido de branco, em atitude senhoril, duas e três horas, até que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção do Mateus era ser admirado e invejado, embora não a confessasse a ninguém, nem ao boticário, nem ao Padre Lopes, seus grandes amigos. E, no entanto, não foi outra a alegação do boticário, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez sofresse do "amor das pedras". Era uma mania que ele, Bacamarte, tinha descoberto e estudava desde algum tempo. Aquilo de contemplar a casa...

— Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.

— Não?

— Há de perdoar-me, mas talvez não saiba que ele de manhã examina a obra, não a admira. De tarde, são os outros que o admiram a ele e à obra.

E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cair da noite.

Uma volúpia científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte. Ou ele não conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma notícia incerta ou suspeita vaga. A explicação satisfê-lo; mas, como tinha as alegrias próprias de um sábio, concentradas, nada viu o boticário que fizesse suspeitar uma intenção sinistra. Ao contrário, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra. Crispim ficou trêmulo, atrapalhado, disse que sim, que estava pronto. Chegaram duas ou três pessoas de fora, e Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos. Não só atrasavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte escolhesse alguma delas para acompanhá-lo e o dispensasse a ele. Que impaciência! que aflição! Enfim, saíram. O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro e viu-o à janela. Passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, examinando as atitudes, a expressão do rosto. O pobre Mateus, assim que notou que era objeto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de Itaguaí, redobrou de expressão, deu outro relevo às atitudes... Triste! triste, não fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido à Casa Verde.

— A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.

Nunca uma opinião pegou e se espalhou tão rapidamente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí. Repetia-se a medo, é verdade. É que, durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, duas ou três de consideração, foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico. Falava-se também de um plano secreto do Rio de Janeiro, com o fim de destruir em Itaguaí qualquer germe de prosperidade. Esse germe podia brotar, fazer-se árvore, florir, para vergonha e prejuízo daquela cidade. E mil outras explicações, que não explicavam nada: tal era o produto diário da imaginação pública.

Nisto chegaram do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares e toda a comitiva, ou quase toda. Tinham partido de Itaguaí algumas semanas antes. O alienista foi recebê-la, com o boticário, o Padre Lopes, os vereadores e vários outros magistrados. O momento em que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo um dos mais sublimes da história moral dos homens. Isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra e atirou-se ao consorte. Foi um gesto que não se pode definir melhor do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o ilustre Bacamarte. Frio como diagnóstico, sem perder por um instante a rigidez científica, estendeu os braços à dama, que caiu neles e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos, e o cortejo punha-se em marcha.

D. Evarista era a esperança de Itaguaí; contava-se com ela para diminuir o flagelo da Casa Verde. Daí as aclamações públicas, a imensa gente que enchia as ruas, as flâmulas, as flores e damascos às janelas. Ia com o braço apoiado no do Padre Lopes, porque o eminente médico confiara a mulher ao vigário e os acompanhava a passo meditativo. D. Evarista voltava a cabeça de um lado para outro, curiosa, inquieta, petulante. O vigário perguntava pelo Rio de Janeiro, que ele não via desde o vice-reinado anterior. E D. Evarista respondia, entusiasmada, que era a coisa mais bela que podia haver no mundo. O Passeio Público estava acabado, um paraíso onde ela tinha ido muitas vezes, e a Rua das Belas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas, feitas de metal e despejando água pela boca fora. Uma coisa galantíssima. O vigário dizia que sim, que o Rio de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. Se já o era noutro tempo! Não admira, maior do que Itaguaí e, além disso, sede do governo... Mas não se pode dizer que Itaguaí fosse feio; tinha belas casas, a casa do Mateus, a Casa Verde...

— A propósito de Casa Verde, disse o Padre Lopes, escorregando habilmente para o assunto da ocasião, a senhora vem achá-la muito cheia de gente.

— Sim?

— É verdade. Lá está o Mateus...

— O albardeiro?

— O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e...

— Tudo isso doido?

— Ou quase doido, obtemperou o padre.

— Mas então?

O vigário baixou os cantos da boca, à maneira de quem não sabe nada ou não quer dizer tudo. Era uma resposta vaga, que não se pode repetir a outra pessoa por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinário que toda aquela gente enlouquecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto custava-lhe duvidar; o marido era um sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura.

— Sem dúvida... sem dúvida... ia pontuando o vigário.

Três horas depois, cerca de cinquenta convidados sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigatório dos brindes, discursos, versos de toda a espécie, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação. Trazia nos olhos duas estrelas, segundo a versão modesta de Crispim Soares, e dois sóis, no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto aborrecido, mas sem visível impaciência. Quando muito, dizia ao ouvido da mulher que a retórica permitia tais ousadias sem significação. D. Evarista fazia esforços para aderir a esta opinião do marido; mas, mesmo descontando três quartas partes dos elogios, ficava muito com que inflar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, foi Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras. Declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos desafios.

— Deus, disse ele, depois de dar o universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina...

E o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa.

— Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.

D. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Duas senhoras, achando a lisonja excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa. E, na verdade, o rosto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e provavelmente de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que afastasse qualquer episódio trágico, ou que o adiasse ao menos para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir consigo mesma que D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? Esta ideia fê-la tremer outra vez, embora menos. Menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. Não lhe negou que era um improviso brilhante, cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou a teria encontrado em algum autor que?... Não, senhor; era dele mesmo. Achou-a naquela ocasião e pareceu-lhe adequada a um arroubo oratório. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôs uma ode à queda do Marquês de Pombal. Nela dizia que esse ministro era o "dragão aspérrimo do Nada", esmagado pelas "garras vingadoras do Todo". E assim outras mais ou menos fora do comum; gostava das ideias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres...

— Pobre moço! pensou o alienista.

E continuou consigo:

— Trata-se de um caso de lesão cerebral: fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo...

D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito tinha sido alojado na Casa Verde. Um moço que tinha ideias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente, a declaração do moço fora audaciosa demais.

Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimável, o Chico das cambraias, folgazão emérito, o escrivão Fabrício e ainda outros? O terror aumentou. Já não se sabia quem estava são, nem quem estava doido. As mulheres, quando os maridos saíam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora. E nem todos os maridos eram valentes; alguns não andavam fora sem um ou dois capangas. Positivamente o terror. Quem podia emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de trinta anos, amável, conversador, polido, tão polido que não cumprimentava ninguém sem levar o chapéu ao chão. Na rua, acontecia-lhe correr uma distância de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino. Foi o que aconteceu ao filho do juiz de fora. Tinha a vocação das cortesias. De resto, devia as boas relações da sociedade não só aos dotes pessoais, que eram raros, como à nobre tenacidade. Com ela nunca desanimava diante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado numa casa, não a deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, tão gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho. Na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde.

— Devemos acabar com isto!

— Não pode continuar!

— Abaixo a tirania!

— Déspota! violento! Golias!

Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa, mas não tardava a hora dos gritos. O terror crescia; aproximava-se a rebelião. A ideia de uma petição ao governo, para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças. Isto foi antes que o barbeiro Porfírio a expusesse na loja com grandes gestos de indignação. Note-se, e essa é uma das laudas mais puras desta sombria história, note-se que o Porfírio viu crescerem os seus lucros. Cresceram desde que a Casa Verde começara a povoar-se tão extraordinariamente, pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam. Mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao interesse público. E acrescentava:

— É preciso derrubar o tirano!

Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Bacamarte fizera recolher à Casa Verde um homem que tinha com ele uma demanda, o Coelho.

— Não me dirão em que é que o Coelho é doido? bradou o Porfírio.

E ninguém lhe respondia; todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. A própria demanda que ele tinha com o barbeiro, acerca de uns chãos da vila, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça ou ódio. Um excelente caráter, o Coelho. Os únicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos ou alegando andar com pressa, mal o viam de longe dobravam as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, ele amava a boa palestra, a palestra comprida, saboreada a goles largos. Assim é que nunca estava só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os outros. O Padre Lopes, que cultivava o Dante e era inimigo do Coelho, nunca o via afastar-se de uma pessoa sem declamar e emendar este trecho:

La bocca sollevò dal fiero pasto

Quel "seccatore"...

Mas uns sabiam do ódio do padre, e outros pensavam que isto era uma oração em latim.

### Glossário

- **piparotes**: pancadas leves com o dedo.
- **pulhas**: brincadeiras grosseiras.
- **desafeiçoado**: pessoa que não gosta de outra; inimigo.
- **labéu**: má fama.
- **sino-salamão**: sinal mágico; "signo de Salomão".
- **mentecapto**: pessoa que perdeu a razão; louco.
- **privado**: amigo mais próximo de uma pessoa importante.
- **albardas**: selas grosseiras para burros e outros animais de carga.
- **albardeiro**: homem que faz albardas.
- **cárcere privado**: prisão particular.
- **onça**: grande animal feroz do Brasil, parecido com um tigre.
- **rola**: ave pequena e mansa.
- **pintalegrete**: homem jovem muito preocupado com a roupa e a aparência.
- **braças**: antiga medida de comprimento, cerca de dois metros.
- **seccatore**: palavra italiana; pessoa chata, que aborrece os outros. No verso de Dante, o Padre Lopes troca a palavra original por esta.

## VI. O barbeiro

Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representação à Câmara.

A Câmara recusou aceitá-la. Declarou que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.

— Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.

A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião e destruir a Casa Verde. Disse que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota. Disse que muitas pessoas estimáveis e algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde. Disse que o despotismo científico do alienista se complicava com o espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça. As famílias e, na falta delas, a Câmara pagavam ao alienista...

— É falso! interrompeu o presidente.

— Falso?

— Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico. Nele nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do pagamento votado pela Câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos.

A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum interesse alheio à ciência o movia. E para demonstrar o erro, era preciso alguma coisa mais do que arruaças e clamores. Isto disse o presidente, com aplauso de toda a Câmara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentração, declarou que estava investido de um mandato público. Não devolveria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde, "essa Bastilha da razão humana". Era uma expressão que ouvira a um poeta local, e ele a repetiu com muita ênfase. Disse, e, a um sinal, todos saíram com ele.

Imagine-se a situação dos vereadores; era urgente impedir o ajuntamento, a rebelião, a luta, o sangue. Para acrescentar ao mal, um dos vereadores que tinham apoiado o presidente ouviu agora o nome dado pelo barbeiro à Casa Verde, "Bastilha da razão humana". Achou-o tão elegante que mudou de parecer. Disse que julgava prudente decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde. E, porque o presidente, indignado, manifestou em termos enérgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão:

— Nada tenho que ver com a ciência. Mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?

Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo, com prudência mas com firmeza. Os colegas estavam atônitos. O presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do respeito à lei. Que não lançasse as suas ideias na rua, para não dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um turbilhão de átomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco o efeito da outra. Sebastião Freitas prometeu suspender qualquer ação, reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a redução da Casa Verde. E repetia consigo, namorado: — Bastilha da razão humana!

Entretanto a arruaça crescia. Já não eram trinta mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro. O seu apelido familiar deve ser mencionado, porque ele deu o nome à revolta. Chamavam-lhe o Canjica, e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser restrita, visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua. Mas o sentimento era unânime, ou quase unânime. E os trezentos que caminhavam para a Casa Verde, dada a diferença de Paris a Itaguaí, podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.

D. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela chegasse; quem lhe deu a notícia foi uma de suas crias. Ela provava nessa ocasião um vestido de seda, um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro, e não quis crer.

— Há de ser alguma patuscada, dizia ela, mudando a posição de um alfinete. Benedita, vê se a barra está boa.

— Está, sinhá, respondia a mucama de cócoras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim. Está muito boa.

— Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando: — Morra o Dr. Bacamarte!!! o tirano! dizia o moleque assustado.

— Cala a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e...

— Morra o Dr. Bacamarte!!! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova.

D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instintivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D. Evarista não dera crédito, teve um instante de triunfo súbito, imperceptível, profundo, de satisfação moral. Foi ao ver que a realidade vinha jurar por ele.

— Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.

D. Evarista, se não resistia facilmente às comoções de prazer, sabia enfrentar os momentos de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico examinava um texto de Averróis. Os olhos dele, embaçados pela reflexão, subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que ele lhe desse atenção; à terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.

— Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lágrimas.

O alienista atendeu então; os gritos aproximavam-se, terríveis, ameaçadores; ele compreendeu tudo. Levantou-se da cadeira de encosto alto em que estava sentado, fechou o livro e, a passo firme e tranquilo, foi colocá-lo na estante. Como a introdução do volume desarrumasse um pouco a linha dos dois tomos vizinhos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo e, aliás, interessante. Depois disse à mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.

— Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...

Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, ordenava-lhe, em nome da vida, que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa.

— Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas.

O alienista caminhou para a varanda da frente. Chegou ali no momento em que a rebelião também chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero.

— Morra! morra! bradaram de todos os lados, mal o vulto do alienista apareceu na varanda.

Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então o barbeiro, agitando o chapéu a fim de impor silêncio à turba, conseguiu aquietar os amigos. Declarou ao alienista que podia falar, mas acrescentou que não abusasse da paciência do povo como fizera até então.

— Direi pouco, ou até não direi nada, se for preciso. Desejo saber primeiro o que pedis.

— Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida, ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão.

— Não entendo.

— Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio, capricho, ganância...

O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão; era uma contração leve de dois ou três músculos, nada mais. Sorriu e respondeu:

— Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas, se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós em comissão dos outros a vir ver comigo os loucos reclusos. Mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos nem a rebeldes.

Disse isto o alienista, e a multidão ficou atônita; era claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu ainda mais quando o alienista, cortejando a multidão com muita gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logo a si e, agitando o chapéu, convidou os amigos à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo. Pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde e derrubando a influência do alienista, chegaria a apoderar-se da Câmara. Chegaria a dominar as demais autoridades e a constituir-se senhor de Itaguaí. Havia alguns anos que ele se esforçava por ver o seu nome incluído nos pelouros para o sorteio dos vereadores. Mas era recusado por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A ocasião era agora ou nunca. Além disso, fora tão longe na arruaça que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca ou o degredo. Infelizmente a resposta do alienista diminuíra o furor dos seguidores. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação e quis bradar-lhes: — Canalhas! covardes! Mas conteve-se e falou deste modo:

— Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de Itaguaí está nas vossas mãos dignas e heroicas. Destruamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno.

E a multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em redor do barbeiro. Era a revolta que tornava a si da ligeira síncope e ameaçava arrasar a Casa Verde.

— Vamos! bradou Porfírio, agitando o chapéu.

— Vamos! repetiram todos.

Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na Rua Nova.

### Glossário

- **representação**: pedido escrito e oficial feito a uma autoridade.
- **jaziam**: estavam deitadas, como mortas; estavam presas sem poder sair.
- **arruaça**: desordem na rua.
- **crias**: crianças escravas nascidas ou criadas na casa do senhor.
- **patuscada**: festa, brincadeira barulhenta.
- **mucama**: jovem escrava que servia a senhora dentro da casa.
- **de cócoras**: agachada, sentada sobre os calcanhares.
- **rutilantes**: muito brilhantes.
- **fremente**: que treme de emoção forte.
- **cortejando**: cumprimentando com respeito.
- **pelouros**: bolas de cera com nomes, usadas para escolher os vereadores por sorteio.
- **degredo**: castigo de mandar alguém viver longe da sua terra.
- **síncope**: desmaio.
- **dragões**: soldados de um corpo especial.
- **marche-marche**: passo militar muito rápido.

## VII. O inesperado

Chegados os dragões em frente aos Canjicas, houve um instante de estupefação. Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, e o capitão ordenou à multidão que se dispersasse. Mas, embora uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos elevados:

— Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres. Não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança em que os dragões não usariam as armas; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar. Mas a maioria ficou bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões, qualquer que fosse o motivo (as crônicas não o declaram), passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desânimo nas fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas. Um a um foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio: declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.

A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos às casas próximas e seguiu para a Câmara. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao "ilustre Porfírio". Este ia na frente, empunhando a espada tão destramente como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A dignidade de governo começava a enrijar-lhe os quadris.

Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa, pensaram que a tropa capturara a multidão. Sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei. Pediam que mandasse dar um mês de pagamento aos dragões, "cujo denodo salvou Itaguaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes". Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes notícia da triste realidade. O presidente não desanimou:

— Qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo.

Sebastião insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora. Mas toda a Câmara rejeitou esse alvitre.

Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança e intimava à Câmara a sua queda. A Câmara não resistiu, entregou-se e foi dali para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila em nome de Sua Majestade. Porfírio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia. Disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes, ao que eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela e comunicou ao povo essas resoluções, que o povo ratificou, aclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de "Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo". Expediram-se logo várias ordens importantes, comunicações oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade. Finalmente, expediu-se uma proclamação ao povo, curta, mas enérgica:

"*Itaguaienses!*

*Uma Câmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Majestade e do povo. A opinião pública tinha-a condenado. Um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade, acaba de a dissolver ignominiosamente. E por unânime consenso da vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguaienses! Não vos peço senão que me rodeeis de confiança. Que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda pública, tão desbaratada pela Câmara que ora findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos de que a coroa será por nós.*

*O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo*

*Porfírio Caetano das Neves*".

Toda a gente notou o absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior porque, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas. Entre elas havia duas senhoras, e um dos homens era aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira. E a vila respirou com a esperança de que o alienista, dentro de vinte e quatro horas, estaria a ferros, e destruído o terrível cárcere.

O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia. E entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual. Mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

— Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro, dando à fisionomia um aspecto tenebroso.

Ao que o Padre Lopes respondeu, sem responder:

— Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?

O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os próprios principais, se não o aclamavam, não tinham saído contra ele. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte.

### Glossário

- **carregar sobre**: atacar, avançar com força contra alguém.
- **cingia**: cercava, rodeava.
- **nimbo**: círculo de luz em volta da cabeça, como nas imagens de santos.
- **enrijar**: tornar rijo, duro, firme.
- **denodo**: coragem.
- **cáfila**: bando de pessoas más (palavra de desprezo).
- **alvitre**: proposta, ideia.
- **concurso**: aqui, ajuda, colaboração.
- **anuíram**: concordaram.
- **ignominiosamente**: com desonra, de modo vergonhoso.
- **fazenda pública**: o dinheiro e os bens do governo.
- **desbaratada**: gasta sem cuidado, desperdiçada.
- **repto**: desafio.
- **a ferros**: preso com correntes.
- **almotacés**: funcionários da vila que controlavam pesos, medidas e preços.

## VIII. As angústias do boticário

Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do palácio do governo (foi a denominação dada à casa da Câmara). Ia com dois ajudantes de ordens e dirigiu-se à residência de Simão Bacamarte. Não ignorava ele que era mais decoroso ao governo mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o alienista não obedecesse obrigou-o a parecer tolerante e moderado.

Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista.

— Vai prendê-lo, pensou ele.

E redobraram-lhe as angústias. Com efeito, a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em situação mais apertada: a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples notícia da sublevação lhe tinha sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista. Mas a vitória final foi também o golpe final. A esposa, senhora máscula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Bacamarte. O coração, porém, bradava-lhe que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguém, por ato próprio, se amarra a um cadáver. Fê-lo Catão, é verdade, *sed victa Catoni*, pensava ele, relembrando algumas palestras habituais do Padre Lopes. Mas Catão não se atou a uma causa vencida, ele era a própria causa vencida, a causa da república. O seu ato, portanto, foi de egoísta, de um miserável egoísta; minha situação é outra.

Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer: declarou-se doente e meteu-se na cama.

— Lá vai o Porfírio à casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a mulher no dia seguinte, à cabeceira da cama; vai acompanhado de gente.

— Vai prendê-lo, pensou o boticário.

Uma ideia traz outra; o boticário imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam também buscá-lo a ele na qualidade de cúmplice. Esta ideia foi o melhor dos vesicatórios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sair; e, apesar de todos os esforços e protestos da consorte, vestiu-se e saiu. Os velhos cronistas são unânimes em dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticário. E notam com muita perspicácia o imenso poder moral de uma ilusão, porque o boticário caminhou resolutamente ao palácio do governo e não à casa do alienista. Ali chegando, mostrou-se admirado de não ver o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adesão, não o tendo feito desde a véspera por enfermo. E tossia com algum custo. Os altos funcionários que lhe ouviam esta declaração sabiam da intimidade do boticário com o alienista. Compreenderam toda a importância da nova adesão e trataram Crispim Soares com apurado carinho. Afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido à Casa Verde, a negócio importante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios. Disseram-lhe que a causa do ilustre Porfírio era a de todos os patriotas. O boticário ia repetindo que sim, que nunca pensara outra coisa, que isso mesmo mandaria declarar a Sua Majestade.

### Glossário

- **ajudantes de ordens**: oficiais que acompanham uma autoridade e levam as suas ordens.
- **decoroso**: digno, próprio de quem tem uma posição importante.
- **privança**: amizade muito próxima com uma pessoa importante.
- **sublevação**: revolta.
- **senhora máscula**: senhora forte, de vontade firme, como um homem.
- **Catão**: político da Roma antiga, defensor da república.
- **sed victa Catoni**: latim; "mas a \[causa\] vencida agradou a Catão".
- **vesicatórios**: remédios que queimam a pele e fazem bolhas.
- **consorte**: marido ou esposa.
- **protestos**: aqui, declarações solenes de apoio.
- **Sua Senhoria**: forma respeitosa de falar de uma pessoa importante.

## IX. Dois lindos casos

O alienista não se demorou em receber o barbeiro. Declarou-lhe que não tinha meios de resistir e, portanto, estava pronto a obedecer. Só uma coisa pedia: que não o obrigasse a assistir pessoalmente à destruição da Casa Verde.

— Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo. Mas o governo reconhece que a questão é puramente científica, e não pensa em resolver com posturas as questões científicas. Além disso, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há entretanto, por força há de haver, um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão dele, o desterro, tudo, menos...

— O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não atender à grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma cega piedade que lhe dá em tal caso legítima indignação, pode exigir do governo certa ordem de atos. Mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou uma Câmara vilipendiada e corrupta pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde. Mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão delicado, o governo não pode, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados. E bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e bondade.

— Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão Bacamarte depois de uns três minutos.

O barbeiro ficou espantado com a pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista.

E em seguida declarou que o alvitre não lhe parecia bom, mas que ia procurar algum outro e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos dragões, resistência da Câmara etc. O barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo principalmente no descrédito em que a Câmara caíra. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a simpatia, mas com a benevolência do mais alto espírito de Itaguaí e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram, não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos. — Dois lindos casos!

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro à porta.

O alienista espiou pela janela e ainda ouviu este resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam.

— ... porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é a base do governo...

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus.

— Dois lindos casos! murmurou o alienista.

### Glossário

- **Vossa Senhoria**: forma respeitosa de falar a uma pessoa importante.
- **posturas**: leis da Câmara de uma vila.
- **alvitre**: proposta, ideia.
- **desterro**: castigo de mandar alguém viver longe da sua terra.
- **atalhou**: interrompeu.
- **incumbe**: cabe, é dever de alguém.
- **vilipendiada**: tratada com desprezo, desonrada.
- **discriminá-la**: distingui-la, separá-la do que não é loucura.
- **concurso**: aqui, ajuda, colaboração.
- **bem assim**: e também, do mesmo modo.
- **de pouca monta**: de pouca importância.
- **folgaria**: ficaria contente.
- **desvanecimento**: orgulho, vaidade.
- **toleima**: tolice.
- **velo**: vigio, cuido com atenção.

## X. A restauração

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas que o Porfírio estava "vendido ao ouro de Simão Bacamarte". Essa frase reuniu em torno de João Pina a gente mais decidida da vila. Porfírio viu o antigo rival da navalha à frente da insurreição, e compreendeu que a sua perda não tinha remédio, se não desse um grande golpe. Publicou dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Porfírio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois, Porfírio caía ignominiosamente e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. Como achou nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, apressou-se a mandá-los copiar e enviar. Acrescentam os cronistas, e aliás compreende-se, que ele lhes mudou os nomes. Onde o outro barbeiro falara de uma Câmara corrupta, este falou de "um intruso eivado das más doutrinas francesas e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade", etc.

Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu logo a entrega do barbeiro Porfírio, e também a de uns cinquenta e tantos indivíduos que declarou mentecaptos. E não só lhe deram esses, como prometeram entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que se recuperavam das feridas apanhadas na primeira rebelião.

Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo o que quis, deram-lhe. Uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão dos vereadores, de volta aos seus lugares. Eles aceitaram que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. Quando lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, o alienista comparou-a à aprovação que sempre recebera dele, ainda na véspera. E mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o, dizendo que cedera a um movimento de terror ao ver a rebelião vitoriosa. Deu como prova a ausência de qualquer outro ato seu, e acrescentou que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou. Disse, porém, aos presentes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.

Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena sessão, que, para lavar a Câmara da afronta dos Canjicas, não se contentava com menos de trinta almudes de sangue. Essa palavra chegou aos ouvidos do alienista pela boca do secretário da Câmara, entusiasmado com tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde. Dali foi à Câmara e declarou que o presidente estava sofrendo da "demência dos touros", um gênero que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo.

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia inventar ou espalhar a mais simples mentira do mundo, mesmo daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, sem ser logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia: ninguém escapava aos emissários do alienista. Não escapavam os que põem todo o seu cuidado na tafularia, nem um ou outro almotacé enfunado. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou gastador, ia do mesmo modo para a Casa Verde. Daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental.

Alguns cronistas creem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com honestidade. Citam em favor dessa afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura. Essa postura autorizava o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda. Podia usá-lo toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre dele. É certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal. Mas não é menos certo que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos. Por isso, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. A razão determinativa da captura e da aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram o anel é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí. A opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo, nada há.

— Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas...

Um dia de manhã, dia em que a Câmara devia dar um grande baile, a vila inteira ficou abalada com uma notícia. A própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da madrugada. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato.

— Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas. Esse furor, manifestou-o logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos. Se eu lhe falava das antigas cortes, perguntava logo pela forma dos vestidos das damas. Se uma senhora a visitava na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o traje, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demência. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da Câmara Municipal; só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta ao almoço; pouco depois do jantar fui achá-la calada e pensativa.

— Que tem? perguntei-lhe.

— Queria levar o colar de granada, mas acho o de safira tão bonito!

— Pois leve o de safira.

— Ah! mas onde fica o de granada?

— Enfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos e deitamo-nos. Alta noite, seria uma hora e meia da madrugada, acordo e não a vejo. Levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência: recolhi-a logo.

O Padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de "mania suntuária", não incurável e, em todo caso, digno de estudo.

— Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.

E a abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra, desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe, menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência.

Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.

### Glossário

- **atarantado**: confuso, sem saber o que fazer.
- **engodo**: coisa feita para enganar alguém; isca.
- **eivado**: cheio de alguma coisa má.
- **sequazes**: pessoas que seguem um chefe.
- **almudes**: antiga medida para líquidos.
- **tafularia**: gosto exagerado por roupas elegantes.
- **almotacé**: funcionário da vila que controlava pesos, medidas e preços.
- **enfunado**: cheio de orgulho, vaidoso.
- **namoradeiras**: mulheres que gostam de namorar muitos homens.
- **onças**: antiga medida de peso, cerca de 30 gramas.
- **sangue godo**: sangue dos godos, povo antigo; sinal de nobreza.
- **ourives**: pessoa que trabalha com ouro e faz joias.
- **aposentação**: ato de alojar alguém num lugar.
- **mania suntuária**: mania de luxo, de roupas e joias caras.
- **Hipócrates forrado de Catão**: grande médico por fora e, por dentro, homem muito severo.

## XI. O assombro de Itaguaí

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila. Foi ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.

— Todos?

— Todos.

— É impossível; alguns sim, mas todos...

— Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.

De fato, o alienista oficiara à Câmara, expondo:

1º que verificara, pelas estatísticas da vila e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento.

2º que esta deslocação de população o levara a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais. Essa teoria excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto.

3º que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta. Portanto, devia-se admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

4º que, à vista disso, declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde. E ia agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas.

5º que, tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação.

6º que restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc. Isso a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danças, luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão feliz acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas.

E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém reparava na frase final do § 4º, uma frase cheia de experiências futuras.

### Glossário

- **ofício**: carta oficial.
- **aposentados**: alojados, que moram num lugar.
- **moléstias**: doenças.
- **faculdades**: as capacidades da mente, como pensar, sentir e lembrar.
- **reclusos**: pessoas fechadas num lugar, sem poder sair.
- **agasalhar**: receber e alojar alguém.
- **estipêndio**: pagamento regular.
- **arcas**: caixas grandes de madeira para guardar coisas.
- **luminárias**: luzes postas nas casas e ruas para uma festa.
- **regozijo**: grande alegria.

## XII. O final do parágrafo 4º

Apagaram-se as luminárias, reuniram-se as famílias, tudo parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, e a Câmara exercia outra vez o governo sem nenhuma pressão externa; o presidente e o vereador Freitas voltaram aos seus lugares. O barbeiro Porfírio foi ensinado pelos acontecimentos. Tinha "provado tudo", como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde. Por isso, o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calamidades brilhantes do poder. Foi, é certo, processado; mas a população da vila implorou a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrubara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio: "ladrão que furta ladrão tem cem anos de perdão". Adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.

Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara. Além disso, os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e ardente entusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera a ideia de separar-se do consorte. Mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio. E o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.

Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução. E apreciou muito a magnanimidade do alienista, que, ao dar-lhe a liberdade, lhe estendeu a mão de amigo velho.

— É um grande homem, disse ele à mulher, referindo aquela circunstância.

Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e de outros especialmente nomeados neste escrito. Basta dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. O próprio Martim Brito fora recolhido por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista. Agora fez outro em honra do ilustre médico, "cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra".

— Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não arrependo de o haver restituído à liberdade.

Entretanto, a Câmara respondera ao ofício de Simão Bacamarte com uma ressalva: oportunamente decidiria em relação ao final do § 4º. Tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada sem debate uma postura, autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. E porque a experiência da Câmara fora dolorosa, ela estabeleceu uma cláusula: a autorização era provisória, limitada a um ano, para se experimentar a nova teoria psicológica. A Câmara podia, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se motivos de ordem pública assim o aconselhassem. O vereador Freitas propôs também a declaração de que, em nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados. A cláusula foi aceita, votada e incluída na postura, apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado era que a Câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequências da lei. A exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira estas duas palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega. Este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção.

— A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano.

Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde. A cláusula, porém, era a melhor prova de que eles não sofriam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão: o acerto da sua objeção e a moderação da sua resposta às invectivas dos colegas mostravam nele um cérebro bem organizado. Por isso, rogava à Câmara que lho entregasse. A Câmara, sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão, recebeu com gosto o pedido do alienista e votou por unanimidade a entrega.

Compreende-se que, pela teoria nova, não bastava um fato ou um dito para recolher alguém à Casa Verde. Era preciso um longo exame, um vasto inquérito do passado e do presente. O Padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e declarando às pessoas que encontrava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouviu na rua essa notícia e esqueceu os motivos de dissidência. Correu à casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade. Apertou-lhe muito as mãos e recolheu-o à Casa Verde.

— Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim.

Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, e o boticário não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido. Talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examiná-la com muita atenção; mas antes disso não podia deixá-la na rua. Pareceu-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e a velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa. E disse Simão Bacamarte:

— O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.

A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde. Nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que iria ver a amiga e transmitiria os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos, agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista.

Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não parava. Ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando. E quando colhia um doente, levava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova; achara-se enfim a verdadeira patologia cerebral. Um dia conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora. Mas procedia com tanto escrúpulo que só o fez depois de estudar minuciosamente todos os seus atos e interrogar os principais da vila. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas. Foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais que era perigoso deixá-lo na rua. Mandou prendê-lo; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiência. Foi ter com um compadre, demandado por causa de um testamento falso, e deu-lhe o conselho de tomar por advogado o Salustiano. Era o nome da pessoa em questão.

— Então parece-lhe...?

— Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual for, e confie-lhe a causa.

O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. O advogado não se negou; estudou os papéis, arrazoou longamente e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. A inocência do réu foi solenemente proclamada pelo juiz e a herança passou-lhe às mãos. O distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade.

Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão Bacamarte, desde algum tempo, notava o zelo, a sagacidade, a paciência, a moderação daquele agente. Reconheceu a habilidade e o tino com que ele levara a cabo uma experiência tão melindrosa e complicada. E determinou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubículos.

Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral. Fez-se outra de tolerantes, outra de verídicos, outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as famílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria; e alguns tentaram compelir a Câmara a cassar a licença. A Câmara, porém, não esquecera a linguagem do vereador Galvão; se cassasse a licença, iria vê-lo na rua e restituído ao lugar. Por isso, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse ato de vingança pessoal.

Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio. Prometeram-lhe todo o apoio de gente, de dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à frente de outro movimento contra a Câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não. Disse que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis. Mas ele se emendara, reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus próprios sequazes. A Câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista, por um ano. Cumpria ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma Câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.

— O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principais da vila.

Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde.

— Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.

Chegou o fim do prazo, e a Câmara autorizou um prazo suplementar de seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capítulos de exposição. Mas contento-me com um, que será o remate da narrativa e um dos mais belos exemplos de convicção científica e abnegação humana.

### Glossário

- **adágio**: frase curta do povo que ensina alguma coisa; ditado.
- **ladrão que furta ladrão tem cem anos de perdão**: ditado; quem rouba um ladrão merece ser perdoado.
- **ajuizados**: que têm juízo; sãos da mente.
- **consorte**: marido ou esposa.
- **postura**: lei da Câmara de uma vila.
- **vereança**: a Câmara; o cargo de vereador.
- **invectivas**: palavras duras e violentas contra alguém.
- **privado**: amigo mais próximo de uma pessoa importante.
- **velhacaria**: desonestidade, modo de agir de quem engana os outros.
- **asno de Buridan**: burro de uma história antiga que não sabe escolher entre duas coisas iguais.
- **pusilânime**: covarde, sem coragem.
- **arrazoou**: apresentou argumentos diante do juiz.
- **tino**: bom senso, juízo.
- **cassar**: anular, tirar uma licença ou um direito.
- **Preso por ter cão, preso por não ter cão**: ditado; a pessoa é castigada faça o que fizer.

## XIII. Plus ultra!

Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir doentes, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que começou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas espantosas, que despertaram a mais viva admiração em Itaguaí.

Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Os loucos estavam divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras. Por isso, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse dar-lhe o sentimento oposto. E não ia logo às doses máximas: ajustava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do doente. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado. Em outros casos a doença era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente poeta que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve a ideia de mandar correr matraca para o anunciar como um rival de Garção e de Píndaro.

— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio.

Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação. Mas, como não era escritor (mal sabia assinar o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário da Academia dos Encobertos, estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia, por especial graça do finado Rei Dom João V. Implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma. Mas o alienista representou que não o pedia como prêmio honorífico ou distinção legítima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil. O governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio.

— Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.

Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo. Então o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro não o pode conseguir.

No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio. Digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação corrompendo os juízes e enganando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples *vis medicatrix* da natureza. Não aconteceu o mesmo com o Padre Lopes. Sabendo que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, o alienista incumbiu-o de fazer uma análise crítica da versão dos Setenta. O padre aceitou a incumbência, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde, aliás, não lhe faltaram carinhos.

— Por que é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ela todos os dias.

Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:

— Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas à custa de unguentos falsificados e podres... Ah! tratante!...

Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a acusação contida nestas palavras, elas bastavam. Mostravam que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades. E prontamente lhe deu alta.

Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. *Plus ultra*! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. *Plus ultra*! Não ficou alegre, ficou preocupado, pensativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.

— Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade.

Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde brilhava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. Estava preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma universidade). A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva, adquirida nos pensamentos cotidianos da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram protegidos por um par de sapatos. As fivelas destes não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica. O que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.

Era assim que ele ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo. Estava estranho a todas as coisas que não fossem o tenebroso problema da patologia cerebral. Súbito, parou. Em pé, diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou ele a si mesmo:

— Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?

E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes dado um sentimento ou uma faculdade nova. Uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.

Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta enorme com o povo, podia afirmar esta verdade. Não havia loucos em Itaguaí. Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas, mal esta ideia lhe refrescou a alma, apareceu outra que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?

A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois, alumiou-se a fisionomia do alienista de uma suave claridade.

— Sim, há de ser isso, pensou ele.

Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral. Pareceu-lhe possuir a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.

— Nenhum defeito?

— Nenhum, disse em coro a assembleia.

— Nenhum vício?

— Nada.

— Tudo perfeito?

— Tudo.

— Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.

A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

— Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: a modéstia.

Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

— A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.

— Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa, com o rosto lavado em lágrimas.

Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele em Itaguaí. Mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato. E é boato duvidoso, pois é atribuído ao Padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.

### Glossário

- **casaca**: paletó formal comprido atrás.
- **cabeleira**: cabelo postiço; peruca.
- **santo remédio**: remédio que resolve tudo.
- **comadre**: mulher muito amiga; madrinha do filho de alguém ou mãe do afilhado.
- **enfunada**: cheia de orgulho, vaidosa.
- **vis medicatrix**: expressão latina; a força com que a natureza cura sozinha.
- **versão dos Setenta**: antiga tradução grega da Bíblia.
- **unguentos**: remédios gordurosos para pôr na pele.
- **Plus ultra**: latim; "mais além".
- **chambre**: roupão, roupa comprida para usar em casa.
- **damasco**: tecido fino de seda.
- **borlas**: enfeites de fios presos numa ponta.
- **mariolas**: palavra rara; aqui parece querer dizer grosseiros, como os de um carregador.
- **latão**: metal amarelo, sem grande valor.
- **mentecapto**: pessoa que perdeu a razão; louco.
