# Memórias Póstumas de Brás Cubas (Edição B1)

*Machado de Assis*

## Ao leitor

Stendhal confessou, no começo do principal dos seus livros, que o escreveu para cem leitores. Isso admira e entristece. O que não admira, e provavelmente não vai entristecer ninguém, é outra coisa. Este outro livro talvez não tenha os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte. Quando muito, terá dez. Dez? Talvez cinco.

Na verdade, trata-se de uma obra difusa. Eu, Brás Cubas, adotei a forma livre de um Sterne, de um Lamb ou de um de Maistre. Mas não sei se pus nela algumas rabugices de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi esta obra com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Não é difícil prever o que pode sair dessa união. Além disso, a gente séria vai achar no livro umas aparências de puro romance. Já a gente frívola não vai achar nele o seu romance de sempre. Assim, o livro fica sem a estima dos sérios e sem o amor dos frívolos. E esses são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero ganhar as simpatias da opinião. O meio eficaz para isso é fugir de um prólogo claro e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e cortado. Por isso, não vou contar o processo extraordinário que usei para compor estas *Memórias*, escritas cá no outro século. Seria curioso, mas longo demais, e além disso não é necessário para entender a obra. A obra em si mesma é tudo. Se você gostar, fino leitor, fico pago. Se não gostar, pago você com um piparote, e adeus.

Brás Cubas.

AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS

### Glossário

- **difusa**: que trata de muitos assuntos, sem seguir um caminho certo.
- **rabugices**: mau humor, jeito de quem reclama de tudo.
- **finado**: pessoa morta.
- **pena**: objeto antigo usado para escrever com tinta.
- **galhofa**: brincadeira, riso.
- **frívola, frívolos**: quem só se interessa por coisas sem importância.
- **prólogo**: texto de apresentação no começo de um livro.
- **piparote**: golpe leve com o dedo.
- **roeu**: comeu aos poucos.

## Capítulo I. Óbito do autor

Por algum tempo fiquei em dúvida: devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim? Quer dizer, devia colocar primeiro o meu nascimento ou a minha morte? O costume comum é começar pelo nascimento, mas duas razões me levaram a adotar um método diferente. A primeira: não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço. A segunda: assim o escrito ficaria mais elegante e mais novo. Moisés também contou a sua morte, mas não a pôs no começo, e sim no fim. Essa é a diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, morri às duas horas da tarde, numa sexta-feira de agosto de 1869. Foi na minha bela chácara do Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, fortes e prósperos. Era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! É verdade que não houve cartas nem anúncios. Além disso, chovia, ou melhor, peneirava: caía uma chuvinha miúda, triste e constante. Era tão constante e tão triste que deu uma ideia engenhosa a um daqueles fiéis da última hora. Ele a colocou no discurso que fez à beira da minha cova:

— «Os senhores, que o conheceram, meus senhores, os senhores podem dizer comigo: a natureza parece estar chorando. Parece chorar a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que já honraram a humanidade. Vejam este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras. Elas cobrem o azul como um crepe fúnebre. Tudo isso é a dor crua e má que rói as mais íntimas entranhas da natureza. Tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.»

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que deixei para ele. E foi assim que cheguei ao fim dos meus dias. Foi assim que caminhei para o *undiscovered country* de Hamlet. Não tive as ânsias nem as dúvidas do jovem príncipe. Fui devagar e com passo incerto, como quem sai tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Umas nove ou dez pessoas me viram partir. Entre elas, três senhoras: minha irmã Sabina, casada com o Cotrim; a filha, um lírio do vale; e... Tenham paciência! Daqui a pouco vou dizer a vocês quem era a terceira senhora. Contentem-se em saber que essa anônima, mesmo sem ser parente, sofreu mais do que as parentes. É verdade, sofreu mais. Não digo que chorou em voz alta. Não digo que rolou pelo chão, epiléptica. Aliás, a minha morte não era uma coisa muito dramática... Um solteirão que morre aos sessenta e quatro anos não parece reunir todos os elementos de uma tragédia. E, mesmo que reunisse, o que menos convinha a essa anônima era mostrar isso. Ela estava de pé, à cabeceira da cama, com os olhos parados e a boca meio aberta. A triste senhora mal podia crer no meu fim.

— Morto! morto! — dizia ela para si mesma.

Um ilustre viajante viu as cegonhas voarem do Ilisso até as margens africanas, apesar das ruínas e dos tempos. A imaginação dessa senhora também voou, por cima das ruínas do presente, até as margens de uma África jovem... Deixem que ela vá; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu voltar aos meus primeiros anos. Agora, quero morrer tranquilamente, com método. Quero ouvir os soluços das damas e as falas baixas dos homens. Quero ouvir a chuva que bate nas folhas de tinhorão da chácara. Quero ouvir o som agudo de uma navalha, que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro a vocês que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. A partir de certo ponto, chegou a ser deliciosa. A vida se agitava no meu peito, com uns golpes de onda do mar. A consciência me fugia. Eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo se fazia planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia. Mas a causa da minha morte foi menos a pneumonia do que uma ideia grandiosa e útil. Se eu disser isso, é possível que o leitor não acredite, e no entanto é verdade. Vou explicar o caso em poucas palavras. Julgue por si mesmo.

### Glossário

- **óbito**: morte de uma pessoa.
- **defunto**: pessoa morta.
- **campa**: pedra que cobre um túmulo; o próprio túmulo.
- **Pentateuco**: os cinco primeiros livros da Bíblia.
- **prósperos**: que vão bem, com saúde e sucesso.
- **contos**: um conto de réis era mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **peneirava**: chovia de modo muito fino.
- **chuvinha**: chuva fina e fraca.
- **crepe fúnebre**: pano preto usado em sinal de luto.
- **rói**: come aos poucos; aqui, faz sofrer por dentro.
- **apólices**: papéis de dívida do governo que rendem dinheiro.
- **undiscovered country**: em inglês, "país não descoberto"; em *Hamlet*, é o mundo depois da morte.
- **ânsias**: grande aflição, angústia.
- **aborrecido**: cansado, sem nenhum prazer.
- **lírio do vale**: flor pequena, branca e perfumada.
- **convinha**: era bom ou certo para alguém.
- **tinhorão**: planta de folhas grandes e coloridas.
- **amolador**: homem que afia facas e navalhas.
- **afiando**: fazendo uma lâmina cortar melhor.
- **correeiro**: homem que faz e vende objetos de couro.

## Capítulo II. O emplasto

De fato, uma manhã, quando eu passeava na chácara, uma ideia se pendurou no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, começou a mexer os braços e as pernas. Fazia as mais ousadas cabriolas de acrobata que é possível imaginar. Eu fiquei ali, contemplando a ideia. De repente, ela deu um grande salto. Estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa ideia era nada menos que a invenção de um remédio sublime: um emplasto anti-hipocondríaco. Ele devia aliviar a nossa melancólica humanidade. No pedido de privilégio que escrevi então, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Mesmo assim, não neguei aos amigos as vantagens em dinheiro. Elas deviam vir da distribuição de um produto de efeitos tão grandes e tão profundos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo. O que mais me influenciou foi o gosto de ver impressas estas três palavras: *emplasto Brás Cubas*. Queria vê-las nos jornais, nas vitrines, nos folhetos, nas esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio. Para que negar? Eu tinha a paixão do barulho, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me acusem desse defeito. Mas confio que os hábeis vão reconhecer esse talento em mim. E eu era hábil. Assim, a minha ideia tinha duas faces, como as medalhas: uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro. Do outro lado, sede de fama. Digamos: amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas. As almas, dizia ele, só devem desejar a glória eterna. A isso respondia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria. Para ele, o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que existe no homem. Por isso, era o traço mais genuíno do homem.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

### Glossário

- **emplasto**: remédio que se põe sobre a pele.
- **pendurou, pendurada**: do verbo pendurar: prender algo no alto, de modo que fique no ar.
- **trapézio**: barra pendurada em duas cordas, usada por acrobatas.
- **cabriolas**: saltos e movimentos de quem faz acrobacias.
- **decifra-me ou devoro-te**: "entenda quem eu sou ou vou comer você"; frase da Esfinge, ser de uma velha lenda grega.
- **anti-hipocondríaco**: contra a hipocondria, uma tristeza doentia.
- **privilégio**: direito exclusivo de fazer e vender um produto.
- **foguete de lágrimas**: fogo de artifício que cai em faíscas, como gotas.
- **hábeis, hábil**: que sabe fazer bem as coisas e conseguir o que quer.
- **filantropia**: amor à humanidade, ajuda aos outros.
- **cônego de prebenda inteira**: padre de uma catedral que recebe o pagamento completo do cargo.
- **terços de infantaria**: antigos grupos de soldados que lutavam a pé.

## Capítulo III. Genealogia

Mas, já que falei nos meus dois tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealógico.

O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que prosperou na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de profissão, natural do Rio de Janeiro. Lá teria morrido na pobreza e na obscuridade, se trabalhasse só como tanoeiro. Mas não. Virou lavrador: plantou, colheu e trocou o seu produto por boas e honradas patacas. Quando morreu, deixou uma grande fortuna a um filho, o licenciado Luís Cubas. É neste rapaz que começa de verdade a série dos meus avós. Falo dos avós que a minha família sempre confessou. Isso porque o Damião Cubas, afinal de contas, era um tanoeiro, e talvez um mau tanoeiro. Já o Luís Cubas estudou em Coimbra e teve destaque no governo. Foi um dos amigos particulares do vice-rei conde da Cunha.

Para meu pai, este sobrenome de Cubas cheirava demais a tanoaria. Por isso, ele, bisneto do Damião, dizia que o sobrenome tinha sido dado a um cavaleiro. Era um herói nas campanhas da África. O sobrenome era o prêmio por um grande feito: o cavaleiro tirou trezentas cubas dos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um *calembour*. Era um bom caráter, meu pai, um homem digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns ares de pachola; mas quem não é um pouco pachola neste mundo? É preciso notar que ele só recorreu à invenção depois de experimentar a falsificação. Primeiro, ligou-se à família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor Brás Cubas. Esse capitão-mor fundou a vila de São Vicente, onde morreu em 1592. Por esse motivo é que meu pai me deu o nome de Brás. Mas a família do capitão-mor não aceitou isso, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas.

Ainda vivem alguns membros da minha família. Vive, por exemplo, minha sobrinha Venância, o lírio do vale, que é a flor das damas do seu tempo. Vive o pai dela, o Cotrim, um sujeito que... Mas não antecipemos os fatos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.

### Glossário

- **esboço genealógico**: descrição curta da história de uma família.
- **prosperou**: teve sucesso, ficou rico.
- **tanoeiro**: quem faz cubas e barris.
- **obscuridade**: situação de quem ninguém conhece.
- **tanoaria**: trabalho do tanoeiro.
- **cuba**: barril grande.
- **patacas**: antigas moedas de prata.
- **licenciado**: pessoa com diploma de universidade.
- **vice-rei**: homem que governava o Brasil em nome do rei de Portugal.
- **bisneto**: filho do neto ou da neta.
- **calembour**: em francês, jogo de palavras.
- **pachola**: pessoa vaidosa, que gosta de se mostrar.
- **homônimo**: pessoa que tem o mesmo nome de outra.
- **mouriscas**: dos mouros, povo muçulmano do norte da África.
- **lírio do vale**: flor pequena, branca e perfumada.
- **antecipemos**: contemos antes da hora.

## Capítulo IV. A ideia fixa

A minha ideia, depois de tantas cabriolas, tinha se tornado uma ideia fixa. Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um cisco, antes uma trave no olho. Vê o Cavour: foi a ideia fixa da unidade italiana que o matou. É verdade que o Bismarck não morreu. Mas é preciso lembrar que a natureza é muito caprichosa e a história é uma eterna namoradeira. Por exemplo, o Suetônio nos deu um Cláudio que era um verdadeiro banana, ou «uma abóbora», como disse Sêneca. E nos deu um Tito que mereceu ser as delícias de Roma. Modernamente, veio um professor e achou um meio de demonstrar que essas duas ideias eram erradas e confusas. Demonstrou também que, dos dois césares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o «abóbora» de Sêneca. E você, madame Lucrécia, flor dos Bórgia: um poeta pintou você como a Messalina católica. Mas apareceu um Gregorovius incrédulo, que apagou muito essa sua qualidade. Se você não virou lírio, também não ficou pântano. Eu fico entre o poeta e o sábio.

Viva, pois, a história, a volúvel história que dá para tudo. E, voltando à ideia fixa, digo que é ela que faz os homens fortes e os doidos. A ideia móvel, vaga ou furta-cor é a que faz os Cláudios, fórmula de Suetônio.

Era fixa a minha ideia, fixa como... Não me ocorre nada que seja bastante fixo neste mundo. Talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a falecida Dieta germânica. Escolha o leitor a comparação que preferir. Escolha, e não fique aí torcendo o nariz só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus colegas, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Mas é importante dizer que este livro é escrito com pachorra. É a pachorra de um homem já livre da brevidade do século. É uma obra profundamente filosófica, de uma filosofia desigual, ora séria, ora brincalhona. É coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem gela. E é, no entanto, mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos lá: endireite o nariz, e voltemos ao emplasto. Deixemos a história com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós lutou na batalha de Salamina, nenhum de nós escreveu a Confissão de Augsburgo. Da minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só por causa de uma ideia. Com a mesma mão que fechou o parlamento, Sua Alteza teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas. Não riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. Quem não sabe disto? Ao lado de cada bandeira grande, pública e visível, há muitas vezes várias outras bandeiras, modestamente particulares. Elas se levantam e flutuam à sombra da bandeira grande, caem com ela e, não poucas vezes, ficam acima dela. Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se protegia à sombra do castelo feudal. O castelo caiu e a arraia ficou. É verdade que ficou graúda e dona de castelos... Não, a comparação não presta.

### Glossário

- **cisco**: pedacinho de sujeira que entra no olho.
- **trave**: peça grande e comprida de madeira.
- **banana**: homem fraco, sem vontade própria.
- **Messalina**: mulher de um imperador romano, famosa pelos seus escândalos.
- **lírio**: flor branca, símbolo de pureza.
- **pântano**: terra coberta de água parada e lama.
- **volúvel**: que muda muito de ideia.
- **furta-cor**: que muda de cor conforme a luz.
- **Dieta germânica**: antiga assembleia dos Estados alemães.
- **anedota**: caso curto, pequena história.
- **pachorra**: calma, falta de pressa.
- **brevidade**: curta duração; aqui, a vida curta.
- **edifica**: melhora o caráter de quem lê.
- **inflama**: enche de paixão.
- **apostolado**: trabalho de quem ensina uma fé ou defende uma causa.
- **endireite**: ponha reto, direito.
- **Confissão de Augsburgo**: texto de 1530 que expõe a fé dos luteranos.
- **puritanismo**: moral religiosa muito rígida dos puritanos, protestantes ingleses do tempo de Cromwell.
- **arraia-miúda**: o povo pobre, as pessoas sem importância.
- **graúda**: rica e importante.

## Capítulo V. Em que aparece a orelha de uma senhora

Eu estava ocupado em preparar e melhorar a minha invenção. De repente, recebi em cheio um golpe de ar. Adoeci logo e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a ideia fixa dos doidos e dos fortes. Eu me via, ao longe, subir do chão das multidões e voar para o céu, como uma águia imortal. Diante de um espetáculo tão alto, um homem não pode sentir a dor que o fere. No dia seguinte eu estava pior. Enfim me tratei, mas de modo incompleto, sem método, sem cuidado, sem persistência. Essa foi a origem do mal que me trouxe à eternidade. Vocês já sabem que morri numa sexta-feira, dia de azar. E creio ter provado que foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos claras e não menos triunfantes.

Não era impossível, no entanto, que eu chegasse a viver cem anos e aparecesse nos jornais entre os macróbios. Tinha saúde e força. Suponham que eu não estivesse lançando as bases de uma invenção farmacêutica. Suponham que eu estivesse reunindo os elementos de uma instituição política ou de uma reforma religiosa. Viria a corrente de ar, que vence em eficácia o cálculo humano, e lá se ia tudo. Um sopro de ar foi, portanto, o meu grão de areia de Cromwell. Assim corre a sorte dos homens.

Com esta reflexão eu me despedi de uma mulher. Não direi que foi a mais discreta, mas foi com certeza a mais bonita do seu tempo. Era a anônima do primeiro capítulo, aquela cuja imaginação, como as cegonhas do Ilisso... Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes. E imagine que um dia, já doente, eu a vejo aparecer à porta da alcova...

### Glossário

- **aparece a orelha**: começa a se mostrar um pouco.
- **golpe de ar**: vento frio que bate de repente no corpo.
- **macróbios**: pessoas que vivem muitos anos.
- **cálculo**: plano feito com cuidado.
- **grão de areia de Cromwell**: pequena coisa que muda uma grande história; segundo Pascal, um grão de areia matou Cromwell.
- **cegonhas**: grandes aves brancas de pernas longas, que viajam para longe.
- **Ilisso**: pequeno rio da Grécia, perto de Atenas.
- **imponente**: grande, que causa respeito.
- **alcova**: quarto de dormir.

## Capítulo VI. Chimène, qui l'eût dit? — Rodrigue, qui l'eût cru?

Eu a vejo aparecer à porta da alcova, pálida, comovida, vestida de preto. Fica ali durante uns dez segundos, sem coragem de entrar, ou detida pela presença de um homem que estava comigo. Da cama, onde eu estava deitado, olhei para ela durante esse tempo. Esqueci de dizer alguma coisa ou de fazer algum gesto. Fazia já dois anos que não nos víamos. E eu a via agora não como ela era, mas como tinha sido, como nós dois tínhamos sido. Isso porque um Ezequias misterioso tinha feito o sol voltar até os dias da juventude. O sol voltou, e eu sacudi todas as misérias. Este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo. E o tempo é o ministro da morte. Nenhuma água de Juventa se igualaria ali à simples saudade.

Creiam-me: o menos mau é recordar. Ninguém deve confiar na felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Quando o tempo passa e o espasmo acaba, então sim, então talvez se possa desfrutar de verdade. Porque, entre essas duas ilusões, a melhor é a que se prova sem dor.

A lembrança não durou muito. A realidade logo dominou; o presente expulsou o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha teoria das edições humanas. O que importa saber por agora é isto. Virgília — chamava-se Virgília — entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos. Veio até a minha cama. O estranho se levantou e saiu. Era um sujeito que me visitava todos os dias. Vinha falar do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver as estradas de ferro. Nada mais interessante para um moribundo. Saiu. Virgília ficou de pé. Durante algum tempo ficamos olhando um para o outro, sem dizer palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois. Havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela. Não sei se na mesma dose, mas enfim saciados. Virgília tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal. Estava menos magra do que quando a vi pela última vez, numa festa de São João, na Tijuca. E, como era das que resistem muito, só agora os cabelos escuros começavam a mostrar alguns fios de prata.

— Anda visitando os defuntos? — disse eu.

— Ora, defuntos! — respondeu Virgília com um muxoxo. E, depois de apertar as minhas mãos: — Ando a ver se ponho os vadios para a rua.

Não tinha a carícia cheia de lágrimas de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só em casa, com um simples enfermeiro. Podíamos falar um com o outro sem perigo. Virgília me deu longas notícias de fora. Contava tudo com graça, com um certo gosto amargo de má-língua, que era o sal da conversa. Eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em zombar dele. Sentia prazer também em me convencer de que não deixava nada.

— Que ideias são essas! — interrompeu Virgília, um tanto irritada. — Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.

E, olhando o relógio:

— Jesus! são três horas. Vou-me embora.

— Já?

— Já; virei amanhã ou depois.

— Não sei se faz bem — respondi. — O doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...

— Sua mana?

— Ela há de vir passar uns dias aqui, mas não pode ser antes de sábado.

Virgília refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:

— Estou velha! Ninguém mais repara em mim. Mas, para cortar dúvidas, virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, filho único do casamento dela. Aos cinco anos, ele tinha sido cúmplice inconsciente dos nossos amores. Vieram juntos, dois dias depois. Confesso que, ao vê-los ali, na minha alcova, fiquei muito acanhado. Nem pude responder logo às palavras gentis do rapaz. Virgília adivinhou isso e disse ao filho:

— Nhonhô, não repare nesse grande manhoso que está aí; não quer falar para fazer crer que está à morte.

O filho sorriu; creio que eu também sorri; e tudo acabou em pura galhofa. Virgília estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar alguma coisa. Havia nela uma igualdade de palavra e de espírito, um domínio de si mesma, que pareciam raros, e talvez fossem. Por acaso, tocamos num caso de amor ilegítimo, meio secreto, meio conhecido. Vi Virgília falar com desdém e um pouco de indignação da mulher em questão, que aliás era sua amiga. O filho se sentia satisfeito ao ouvir aquela palavra digna e forte. E eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...

Era o meu delírio que começava.

### Glossário

- **Chimène, qui l'eût dit?**: Rodrigue, qui l'eût cru?*** — em francês, "Chimène, quem diria? — Rodrigue, quem acreditaria?"; versos de uma peça de teatro sobre dois amantes.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **Ezequias**: rei da Bíblia; para ele, Deus fez o sol voltar para trás.
- **água de Juventa**: água de uma velha lenda, que devolvia a juventude.
- **baba de Caim**: aqui, a inveja e o mal; Caim matou o irmão, na Bíblia.
- **espasmo**: aqui, momento de paixão muito forte.
- **murchos**: secos, sem vida, como flores velhas.
- **muxoxo**: som feito com a boca para mostrar pouco caso.
- **vadios**: pessoas que não fazem nada; aqui, os que vivem à toa.
- **zombar**: rir de alguém ou de alguma coisa, sem respeito.
- **mana**: irmã, de modo familiar.
- **acanhado**: tímido, sem jeito.
- **manhoso**: quem finge ou faz manha para conseguir o que quer.
- **imaculadas**: sem mancha, sem culpa.
- **gaviões, gavião**: aves que caçam outros animais.
- **Buffon**: sábio francês que escreveu sobre a natureza e os animais.

## Capítulo VII. O delírio

Até onde eu sei, ninguém contou ainda o seu próprio delírio. Eu faço isso agora, e a ciência vai me agradecer. Se o leitor não gosta de observar esses fenômenos da mente, pode saltar o capítulo e ir direto à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo uma coisa. É interessante conhecer o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiro, tomei a figura de um barbeiro chinês, barrigudo e hábil. Eu fazia a barba de um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, eu me senti transformado na *Summa Theologica* de São Tomás. Estava impressa em um só volume, encadernada em couro marroquim, com fechos de prata e gravuras. Essa ideia deu ao meu corpo a imobilidade mais completa. Ainda agora me lembro disto: minhas mãos eram os fechos do livro, e eu as cruzava sobre a barriga. Mas alguém as descruzava (Virgília, com certeza), porque aquela posição lhe dava a imagem de um defunto.

Por fim, voltei à forma humana e vi chegar um hipopótamo, que me levou embora. Eu me deixei levar, calado, não sei se por medo ou por confiança. Mas logo a corrida ficou tão rápida que me dava vertigem. Então tive coragem de fazer perguntas ao animal. Com alguma habilidade, eu lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

— Engana-se — respondeu o animal. — Nós vamos à origem dos séculos.

Sugeri que devia ser muito, muito longe. Mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, ou então fingiu uma dessas coisas. Como ele falava, perguntei se descendia do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão. Ele me respondeu com um gesto próprio desses dois animais de quatro patas: sacudiu as orelhas. Da minha parte, fechei os olhos e me deixei levar à sorte. Agora não me importo de confessar: eu sentia umas certas cócegas de curiosidade. Queria saber onde ficava a origem dos séculos. Queria saber se era tão misteriosa como a origem do Nilo. E, sobretudo, queria saber se ela valia mais ou menos do que o fim dos mesmos séculos. Tudo isso eram reflexões de um cérebro doente. Como eu ia de olhos fechados, não via o caminho. Lembro-me só de que o frio aumentava com a viagem. Chegou um momento em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. De fato, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve. Havia ali uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve e vários animais grandes e de neve. Tudo neve. Até um sol de neve nos gelava. Tentei falar, mas só pude grunhir esta pergunta ansiosa:

— Onde estamos?

— Já passamos o Éden.

— Bem, vamos parar na tenda de Abraão.

— Mas nós caminhamos para trás! — respondeu a minha montaria, rindo de mim.

Fiquei envergonhado e confuso. A viagem começou a me parecer chata e estranha, o frio incômodo, o transporte violento e o resultado impalpável. E depois (pensamentos de doente), e se chegássemos ao fim indicado? Não era impossível que os séculos, irritados porque alguém descobria a sua origem, me esmagassem entre as unhas. E essas unhas deviam ser tão seculares como eles. Enquanto eu pensava assim, íamos devorando o caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés. Por fim, o animal parou de repente, e pude olhar com mais calma em volta de mim. Olhar somente: não vi nada além do imenso branco da neve. Desta vez ela tinha invadido o próprio céu, até ali azul. Talvez, de vez em quando, me aparecesse uma ou outra planta enorme e monstruosa. Ela movia ao vento as suas folhas largas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: parecia que a vida das coisas tinha ficado estúpida diante do homem.

Caiu do ar? Saiu da terra? Não sei. Sei que uma forma imensa, uma figura de mulher, me apareceu então. Ela fixava em mim uns olhos brilhantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a grandeza das formas selvagens. E tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos se perdiam no ar. O que parecia sólido era muitas vezes transparente. Espantado, não disse nada, nem cheguei a soltar um grito. Mas, depois de algum tempo, que foi breve, perguntei quem ela era e como se chamava: curiosidade de delírio.

— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, assustado. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão. As plantas se torceram, e um longo gemido quebrou o silêncio das coisas de fora.

— Não te assustes — disse ela. — Minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que ela se afirma. Vives: não quero outro flagelo.

— Vivo? — perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para ter certeza de que existia.

— Sim, verme, tu vives. Não tenhas medo de perder esse trapo que é teu orgulho. Provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que enlouqueceste, vives. E se a tua consciência recuperar por um instante a lucidez, dirás que queres viver.

Dizendo isso, a visão estendeu o braço e me segurou pelos cabelos. Ela me levantou no ar, como se eu fosse uma simples pluma. Só então pude ver de perto o rosto dela, que era enorme. Nada mais quieto: nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou de ferocidade. A única expressão, geral e completa, era a da indiferença egoísta, a da surdez eterna, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam fechadas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão gelada, havia um ar de juventude, mistura de força e de vigor. Diante dele, eu me sentia o mais fraco e o mais decrépito dos seres.

— Entendeste-me? — disse ela, depois de algum tempo em que olhamos um para o outro.

— Não — respondi. — Nem quero te entender. Tu és absurda, tu és uma fábula. Com certeza estou sonhando. Ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma ideia de louco. És uma coisa vazia, que a razão ausente não pode dirigir nem tocar. Natureza, tu? A Natureza que eu conheço é só mãe, e não inimiga. Ela não faz da vida um flagelo, nem traz, como tu, esse rosto indiferente como o sepulcro. E por que Pandora?

— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

— Sim; o teu olhar me fascina.

— Acredito. Eu não sou somente a vida; sou também a morte. E tu estás perto de me devolver o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou como um trovão naquele vale imenso, pareceu-me o último som que chegava aos meus ouvidos. Senti como se eu mesmo me decompusesse de repente. Então olhei para ela com olhos suplicantes e pedi mais alguns anos.

— Pobre minuto! — exclamou ela. — Para que queres mais alguns instantes de vida? Para devorar e ser devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces bem demais tudo o que te dei de menos feio ou menos doloroso. Conheces a luz da manhã, a melancolia da tarde, a calma da noite, os aspectos da terra. Conheces enfim o sono, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

— Viver somente, não te peço mais nada. Quem pôs no meu coração este amor à vida, senão tu? E, se eu amo a vida, por que te feres a ti mesma, matando-me?

— Porque já não preciso de ti. Para o tempo não importa o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte e alegre. Ele acha que traz em si a eternidade, e traz a morte, e morre como o outro. Mas o tempo continua. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo; não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver. E se o novilho é tenro, tanto melhor: eis a lei universal. Sobe e olha.

Dizendo isso, ela me levou para o alto de uma montanha. Baixei os olhos para uma das encostas. Fiquei olhando muito tempo, ao longe, através de uma névoa, uma coisa única. Imagine, leitor, uma redução dos séculos e um desfile de todos eles. Imagine todas as raças, todas as paixões, o tumulto dos impérios. Imagine a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição mútua dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, espetáculo amargo e curioso. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que nem a imaginação nem a ciência podiam dar. Isso porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga. Mas o que eu via ali era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la, seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão. Mas eu via tudo o que passava diante de mim, porque os olhos do delírio são outros. Via flagelos e delícias, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria. Via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a fraqueza. Lá vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba. Vinham a enxada e a pena, úmidas de suor. Vinham a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor. E todos agitavam o homem como um chocalho, até destruí-lo como um trapo. Eram as várias formas de um só mal, que ora mordia as vísceras, ora mordia o pensamento. Esse mal passeava eternamente as suas roupas de arlequim em volta da espécie humana. A dor às vezes cedia. Mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, castigado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas. Corria atrás de uma figura vaga e difícil de pegar. Era uma figura feita de retalhos: um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível. Todos estavam costurados com pontos frágeis, com a agulha da imaginação. Essa figura, nada menos que a quimera da felicidade, fugia dele para sempre. Ou então se deixava pegar pela barra do vestido, e o homem a apertava contra o peito. E então ela ria, como uma zombaria, e sumia, como uma ilusão.

Ao olhar tanta desgraça, não pude segurar um grito de angústia. Natureza ou Pandora o escutou sem protestar nem rir. E, não sei por que lei de desordem do cérebro, fui eu que comecei a rir. Era um riso descontrolado e idiota.

— Tens razão — disse eu. — A coisa é divertida e vale a pena; talvez monótona, mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que foi concebido, era porque tinha vontade de ver daqui de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me. A coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta dela foi me obrigar com força a olhar para baixo. Tive de ver os séculos que continuavam a passar, rápidos e turbulentos. As gerações se punham sobre as gerações. Umas eram tristes, como os hebreus do cativeiro. Outras eram alegres, como os devassos de Cômodo. E todas elas chegavam pontualmente à sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me prendia os pés. Então disse comigo mesmo: «Bem, os séculos vão passando. O meu vai chegar e vai passar também. Eles vão passar até o último, que me dará a decifração da eternidade.» E fixei os olhos e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando. Eu já estava tranquilo e decidido, não sei se até alegre. Talvez alegre. Cada século trazia uma porção de sombra e luz, de apatia e combate, de verdade e erro. Trazia também o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões. Em cada um deles nasciam as folhas verdes de uma primavera, que depois amareleciam, para rejuvenescer mais tarde. Assim, a vida tinha uma regularidade de calendário, e ao mesmo tempo se faziam a história e a civilização. O homem, nu e desarmado, se armava e se vestia. Construía a cabana e o palácio, a aldeia rude e Tebas das cem portas. Criava a ciência, que investiga, e a arte, que encanta. Fazia-se orador, mecânico, filósofo. Corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia à esfera das nuvens. Assim colaborava na obra misteriosa com que distraía a necessidade da vida e a melancolia do abandono. Meu olhar, cansado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, hábil, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audacioso, sabedor. Mas no fim era tão miserável como os primeiros. E assim passou, e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei a atenção e fixei a vista. Ia enfim ver o último, o último! Mas então a rapidez da marcha já era tal que escapava a toda compreensão. Ao lado dela, o relâmpago seria um século. Talvez por isso os objetos começaram a se trocar. Uns cresceram, outros diminuíram, outros se perderam no ar. Uma névoa cobriu tudo, menos o hipopótamo que me tinha levado ali. E ele começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era de fato um gato. Olhei bem para ele: era o meu gato *Sultão*, que brincava à porta da alcova com uma bola de papel...

### Glossário

- **mandarim**: alto funcionário da antiga China.
- **beliscões**: apertos fortes na pele, feitos com os dedos.
- **confeitos**: pequenos doces de açúcar.
- **Summa Theologica**: grande obra de religião escrita por São Tomás.
- **encadernada**: (livro) com capa firme, presa às páginas.
- **marroquim**: couro fino de cabra.
- **vertigem**: sensação de que tudo gira em volta da pessoa.
- **asna de Balaão**: na Bíblia, animal que falou com o seu dono.
- **cócegas**: sensação na pele que faz rir; aqui, uma vontade forte de saber.
- **grunhir**: fazer um som baixo e rouco, como o do porco.
- **esmagassem**: do verbo esmagar: apertar com força até quebrar.
- **sepulcro**: túmulo, lugar onde se enterra um morto.
- **flagelo**: castigo ou grande sofrimento.
- **lascivo**: pessoa que busca muito os prazeres do corpo.
- **voluptuosidade**: prazer muito grande dos sentidos.
- **novilho**: boi jovem.
- **névoa**: nuvem baixa que não deixa ver longe.
- **arlequim**: personagem cômico que usa roupa de muitas cores.
- **impalpável**: que não se pode tocar.
- **quimera**: sonho que nunca se realiza.
- **digere-me**: faz comigo o que o estômago faz com a comida.
- **alcova**: quarto de dormir.

## Capítulo VIII. Razão contra Sandice

O leitor já compreendeu que era a Razão que voltava para casa. Ela convidava a Sandice a sair, e dizia, com mais direito, as palavras de Tartufo:

*La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir.*

Mas é um velho vício da Sandice gostar das casas dos outros. Por isso, assim que ela se torna dona de uma, é difícil fazê-la sair. É vício; não tem jeito; faz muito tempo que a vergonha dela criou calos. Agora, pensemos no número imenso de casas que ela ocupa. Umas ela ocupa de vez, outras durante as suas estações quentes. Concluímos então que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase uma briga na porta do meu cérebro. É que a intrusa não queria entregar a casa, e a dona não desistia de tomar o que era seu. Por fim, a Sandice já se contentava com um cantinho no sótão.

— Não, senhora — respondeu a Razão. — Estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experiente. O que você quer é passar devagarinho do sótão à sala de jantar, daí à sala de visitas e ao resto.

— Está bem, deixe-me ficar mais algum tempo. Estou na pista de um mistério.

— Que mistério?

— De dois — corrigiu a Sandice. — O da vida e o da morte. Só lhe peço uns dez minutos.

A Razão começou a rir.

— Você há de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa...

E, dizendo isso, agarrou-a pelos pulsos e a arrastou para fora. Depois entrou e se fechou lá dentro. A Sandice ainda gemeu alguns pedidos e ainda resmungou algumas zangas. Mas logo perdeu a esperança, pôs a língua para fora, em ar de zombaria, e foi andando... foi andando... Provavelmente vai andar até o fim dos séculos.

### Glossário

- **Sandice**: loucura, falta de juízo.
- **Tartufo**: personagem falso e mentiroso de uma peça de teatro francesa.
- **La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir**: frase em francês: a casa é minha, é a senhora que deve sair.
- **peregrina**: mulher que anda por lugares distantes.
- **proprietários**: donos de casas ou de outros bens.
- **intrusa**: pessoa que entra onde não foi chamada.
- **sótão**: parte da casa logo abaixo do telhado.
- **zombaria**: atitude de quem ri de alguém para ofender.

## Capítulo IX. Transição

E vejam agora com que destreza, com que fina arte eu faço a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou na presença de Virgília. Virgília foi o meu grande pecado da juventude. Não há juventude sem meninice. Meninice supõe nascimento. E eis aqui como chegamos, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma emenda aparente, nada que distraia a atenção tranquila do leitor; nada. Assim, o livro fica com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método. Na verdade, já era tempo. Porque o método é uma coisa indispensável, mas é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios. Melhor um pouco à vontade e solto. Como quem não se importa com a vizinha da frente nem com o inspetor de quarteirão. É como a eloquência. Há uma eloquência verdadeira e vibrante, de uma arte natural e encantadora. E há outra rígida, engomada e sem graça. Vamos ao dia 20 de outubro.

### Glossário

- **destreza**: habilidade para fazer alguma coisa bem.
- **transição**: passagem de um assunto para outro.
- **meninice**: tempo em que a pessoa é criança.
- **emenda**: sinal do lugar onde duas partes foram unidas.
- **suspensórios**: tiras que passam pelos ombros e seguram as calças.
- **inspetor de quarteirão**: antigo funcionário que vigiava as pessoas de uma parte do bairro.
- **eloquência**: arte de falar bem e convencer.
- **engomada**: dura, como roupa passada com goma; aqui, sem naturalidade.

## Capítulo X. Naquele dia...

Naquele dia, a árvore dos Cubas deu uma flor graciosa. Nasci. Quem me recebeu nos braços foi a Pascoela, famosa parteira do Minho. Ela se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossível que meu pai tenha ouvido essa declaração. Mas creio que foi o sentimento paterno que o levou a lhe dar duas meias dobras. Lavado e enrolado em faixas, fui logo o herói da nossa casa. Cada um previa para mim o que mais lhe agradava. Meu tio João, o antigo oficial de infantaria, via em mim um certo olhar de Bonaparte. Meu pai não pôde ouvir isso sem náuseas. Meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava em mim um cônego.

— Cônego é o que ele há de ser, e não digo mais para não parecer orgulho. Mas eu não me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado... É verdade, um bispado; não é coisa impossível. O que diz você, mano Bento?

Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse. E me levantava no ar, como se quisesse me mostrar à cidade e ao mundo. Perguntava a todos se eu era parecido com ele, se era inteligente, bonito...

Conto essas coisas por alto, como as ouvi contar anos depois. Não sei a maior parte dos detalhes daquele dia famoso. Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recém-nascido. Sei que, nas primeiras semanas, houve muitas visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha que não trabalhasse. Muita casaca e muito calção tomaram ar. E não conto os mimos, os beijos, as admirações, as bênçãos porque, se os contasse, o capítulo não acabaria mais. E é preciso acabá-lo.

Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque não me contaram nada sobre isso. Disseram apenas que foi uma das festas mais bonitas do ano seguinte, 1806. Fui batizado na igreja de São Domingos, numa terça-feira de março, dia claro, luminoso e puro. Meus padrinhos foram o coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Os dois descendiam de velhas famílias do norte. Honravam de verdade o sangue que lhes corria nas veias, sangue derramado outrora na guerra contra a Holanda. Acho que os nomes dos dois foram das primeiras coisas que aprendi. Certamente eu os dizia com muita graça, ou mostrava algum talento precoce. Porque não havia pessoa de fora diante de quem não me obrigassem a recitá-los.

— Nhonhô, diga a estes senhores como se chama o seu padrinho.

— Meu padrinho? É o coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos. Minha madrinha é a Excelentíssima Senhora D. Maria Luísa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.

— É muito esperto o seu menino — comentavam os ouvintes.

— Muito esperto — concordava meu pai.

Os olhos dele babavam de orgulho. Ele punha a mão aberta sobre a minha cabeça e me olhava longamente, apaixonado, cheio de si.

Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez para apressar a natureza, me obrigavam cedo a me agarrar às cadeiras. Me seguravam pela roupa e me davam carrinhos de pau.

— Só só, nhonhô, só só — me dizia a mucama.

E eu, atraído pelo chocalho de lata que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente. Cai aqui, cai ali. E andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.

### Glossário

- **parteira**: mulher que ajuda no nascimento das crianças.
- **fidalgos**: homens de família nobre.
- **meias dobras**: moedas antigas de ouro.
- **cônego**: padre de uma catedral.
- **bispado**: cargo de bispo.
- **cadeirinha**: antiga cadeira fechada, levada por dois homens, para transportar pessoas.
- **casaca**: paletó elegante e antigo de homem.
- **nhonhô**: forma como pessoas escravizadas chamavam os senhores.
- **mucama**: escravizada que servia dentro de casa; palavra antiga.
- **chocalho**: brinquedo de bebê que faz barulho quando é sacudido.

## Capítulo XI. O menino é pai do homem

Cresci, e nisso a família não interveio. Cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos sejam menos manhosos e, com certeza, as magnólias são menos agitadas do que eu era na infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isso é verdade, vejamos alguns traços do menino.

Desde os cinco anos, eu merecia o apelido de «menino diabo». E de fato não era outra coisa. Fui dos meninos mais malvados do meu tempo, esperto, indiscreto, travesso e teimoso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava. Fiz isso porque ela tinha me negado uma colher do doce de coco que estava fazendo. Não contente com esse mal, joguei um punhado de cinza no tacho. E, não satisfeito com a travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava tinha estragado o doce «por pirraça». E eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque da casa, era o meu cavalo de todos os dias. Ele punha as mãos no chão e recebia um cordel na boca, como um freio. Eu subia nas costas dele, com uma varinha na mão. Batia nele e dava mil voltas para um lado e para o outro. E ele obedecia, às vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra. Ou, no máximo, dizia: «ai, nhonhô!». E eu respondia: «Cala a boca, besta!» Eu escondia os chapéus das visitas e punha rabos de papel em pessoas sérias. Puxava o rabicho das perucas e dava beliscões nos braços das matronas. Fazia muitas outras façanhas desse tipo. Eram sinais de um gênio rebelde. Mas devo crer que também eram expressões de um espírito forte, porque meu pai me admirava muito. Se às vezes ele me repreendia diante das pessoas, fazia isso por simples formalidade. Em particular, me dava beijos.

Não concluam daí que eu tenha passado todo o resto da vida quebrando a cabeça dos outros. Nem que tenha vivido escondendo os chapéus deles. Mas teimoso, egoísta e com algum desprezo pelos homens, isso eu fui. Se não passei o tempo escondendo os chapéus deles, alguma vez puxei o rabicho das suas perucas.

Além disso, peguei gosto em observar a injustiça humana. Tive a tendência de diminuí-la, de explicá-la, de classificá-la por partes, de entendê-la. Eu não a entendia por um padrão rígido, mas de acordo com as circunstâncias e os lugares. Minha mãe me ensinava a seu modo, me fazia decorar alguns preceitos e orações. Mas eu sentia que, mais do que as orações, quem me governava eram os nervos e o sangue. E a boa regra perdia o espírito que a faz viver, e se tornava uma fórmula vazia. De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama, eu rezava a Deus. Pedia que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores. Mas entre a manhã e a noite eu fazia uma grande maldade. E meu pai, passado o alvoroço, me dava pancadinhas na cara e exclamava, rindo:

— Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

Sim, meu pai me adorava. Ele tinha por mim esse amor sem mérito, que é um simples e forte impulso da carne. É um amor que a razão não combate nem governa. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, bastante ingênua, sinceramente devota. Era caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de rica. Tinha medo das trovoadas e do marido. O marido era na terra o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação. Se tinha alguma coisa boa, ela era em geral cheia de defeitos, incompleta e, em partes, negativa. Meu tio cônego às vezes fazia críticas ao irmão. Dizia que ele me dava mais liberdade do que ensino, e mais afeto do que correção. Mas meu pai respondia que usava na minha educação um sistema inteiramente superior ao sistema comum. Assim, sem calar o irmão, enganava a si mesmo.

Havia em minha mãe uma sombra de melancolia, que eu herdei, como herdei de meu pai a vaidade tola. Os aspectos da vida aumentaram essa tendência natural dela. Ela tinha coração demais, uma sensibilidade delicada, exigente, doentia.

Junto com a herança e a educação, houve ainda o exemplo de fora, o ambiente da casa. Já vimos os pais; vejamos os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida galante, conversa atrevida. Desde os meus onze anos, ele começou a me contar as suas anedotas, verdadeiras ou não. Todas eram cheias de obscenidade ou de sujeira. Não respeitava a minha adolescência, como não respeitava a batina do irmão. A diferença é que o irmão fugia logo que ele entrava em assunto indecente. Eu não. Eu ficava ali, sem entender nada no começo. Depois fui entendendo e enfim achando graça. Depois de certo tempo, quem o procurava era eu. E ele gostava muito de mim, me dava doces, me levava para passear. Às vezes ele ia passar alguns dias em nossa casa. Muitas vezes, então, eu o encontrava no fundo da chácara, no lavadouro. Ali ele conversava com as escravas que batiam roupa. E ali era uma série de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estouro de risadas. Ninguém podia ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe da casa. As pretas tinham uma tanga na barriga, que levantava um palmo dos vestidos. Umas estavam dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as peças de roupa. Batiam, passavam sabão e torciam a roupa. E iam ouvindo e respondendo às brincadeiras do tio João, e as comentavam de vez em quando com esta palavra:

— Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!

Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza. Mas essas qualidades não davam mais brilho a um espírito superior; apenas compensavam um espírito medíocre. Ele não era homem de ver a parte essencial da igreja. Via o lado externo: a hierarquia, as honras, as sobrepelizes, as reverências. Vinha mais da sacristia do que do altar. Uma falha no ritual o irritava mais do que uma violação dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não tenho certeza de uma coisa. Não sei se ele encontraria facilmente um trecho de Tertuliano. Nem sei se contaria sem hesitar a história do símbolo de Niceia. Mas ninguém, nas festas cantadas, sabia melhor o número e o caso das reverências que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição da sua vida. Ele dizia de coração que era a maior dignidade que podia desejar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso nas regras, mole, tímido, subalterno, ele tinha algumas virtudes, em que era exemplar. Mas não tinha nenhuma força para passar essas virtudes aos outros, para impô-las.

Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana. E, no entanto, era ela a pessoa com mais autoridade sobre mim. Ela era muito diferente dos outros, mas viveu pouco tempo conosco, uns dois anos. Outros parentes e alguns amigos íntimos não merecem ser citados. Não vivemos sempre juntos, mas com longos períodos de separação. O que importa é a expressão geral do ambiente da casa, e essa fica aqui indicada. Caracteres vulgares, amor das aparências brilhantes e do barulho, vontade fraca, domínio do capricho, e o resto. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor.

### Glossário

- **malvados**: muito maus.
- **teimoso**: que não muda de ideia nem aceita conselhos.
- **tacho**: panela grande e larga.
- **pirraça**: coisa feita de propósito só para irritar alguém.
- **moleque**: menino escravizado; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **gemendo**: fazendo sons baixos de dor.
- **rabicho**: trança de cabelo na parte de trás da cabeça.
- **matronas**: senhoras sérias, já não muito jovens.
- **beliscões**: apertos fortes na pele, feitos com os dedos.
- **repreendia**: dizia a alguém, com severidade, que agiu mal.
- **preceitos**: regras de comportamento.
- **mingau**: comida mole e doce, feita com leite e farinha.
- **brejeiro**: menino travesso, malandro.
- **herdei**: recebi dos meus pais.
- **atrevida**: sem respeito, que não tem medo de chocar.
- **batina**: roupa longa e preta de padre.
- **lavadouro**: lugar com tanque para lavar roupa.
- **pretas**: palavra da época para mulheres negras e escravizadas; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **sinhô**: forma como pessoas escravizadas chamavam os senhores.
- **sobrepelizes**: roupas brancas que os padres usam sobre a batina.
- **reverências**: movimentos do corpo para cumprimentar com respeito.
- **estrume**: sujeira de animais usada para adubar a terra.

## Capítulo XII. Um episódio de 1814

Mas não quero passar adiante sem contar rapidamente um divertido episódio de 1814. Eu tinha nove anos.

Quando nasci, Napoleão já estava em todo o esplendor da glória e do poder. Era imperador e tinha conquistado por inteiro a admiração dos homens. De tanto convencer os outros da nossa nobreza, meu pai acabou convencendo a si mesmo. Ele sentia contra Napoleão um ódio puramente mental. Isso causava brigas feias em nossa casa, porque meu tio João perdoava no tirano o que admirava no general. Não sei se era por espírito de classe e simpatia de ofício. Meu tio padre era duro com o corso. Os outros parentes se dividiam. Daí vinham as discussões e as brigas.

Quando chegou ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa. Mas não houve nenhuma zombaria ou provocação. Os vencidos viam a alegria pública e acharam mais digno o silêncio; alguns foram além e bateram palmas. A população, alegre de coração, não economizou demonstrações de afeto à família real. Houve iluminações, salvas de tiros, *Te-Deum*, cortejo e aclamações. Naqueles dias apareci com um espadim novo, que meu padrinho tinha me dado no dia de Santo Antônio. E, francamente, o espadim me interessava mais do que a queda de Bonaparte. Nunca esqueci esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E notem que, quando eu era vivo, ouvi muito discurso. Li muita página cheia de barulho, de grandes ideias e palavras maiores ainda. Discursos e páginas me arrancavam aplausos da boca. Mas, não sei por quê, no fundo desses aplausos, às vezes soava esta frase de homem experiente:

— Vá embora, você só cuida do espadim.

Minha família não se contentou com uma parte anônima na alegria pública. Achou oportuno e indispensável celebrar a queda do imperador com um jantar. E devia ser um grande jantar. O barulho das aclamações tinha de chegar aos ouvidos de Sua Alteza, ou pelo menos aos de seus ministros. Dito e feito. Desceu toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas. Vieram as toalhas de Flandres e as grandes jarras da Índia. Mataram um porco capado. Encomendaram às madres da Ajuda as compotas e as marmeladas. Lavaram, esfregaram e poliram as salas, as escadas, os castiçais e as arandelas. Fizeram o mesmo com as grandes mangas de vidro e com todos os objetos do luxo clássico.

Na hora marcada, estava reunida uma sociedade seleta. Havia o juiz de fora, três ou quatro oficiais militares, alguns comerciantes e letrados e vários funcionários da administração. Uns vinham com as mulheres e as filhas, outros sem elas. Mas todos partilhavam o mesmo desejo: enterrar a memória de Bonaparte no papo de um peru. Não era um jantar, mas um *Te-Deum*. Foi mais ou menos o que disse um dos letrados presentes, o Dr. Vilaça, famoso glosador. Ele acrescentou aos pratos da casa o petisco das musas. Eu me lembro dele como se fosse ontem. Eu o vejo levantar-se, com a sua longa cabeleira de rabicho, casaca de seda e uma esmeralda no dedo. Ele pediu ao meu tio padre que repetisse o mote. Repetido o mote, fixou os olhos na testa de uma senhora. Depois tossiu e ergueu a mão direita, toda fechada, menos o dedo indicador, que apontava para o teto. E, nessa posição, devolveu o mote glosado. Não fez uma glosa, mas três; depois jurou aos seus deuses que não ia parar mais. Pedia um mote, davam-lhe o mote, ele o glosava logo e pedia outro, e mais outro. Chegou a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração.

— A senhora diz isso — respondia modestamente o Vilaça — porque nunca ouviu o Bocage. Eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquilo, sim! Que facilidade! E que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, glosando no meio de palmas e bravos. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a Sra. duquesa de Cadaval...

E estas três últimas palavras, ditas com muita ênfase, produziram em toda a assembleia um tremor de admiração e espanto. Então esse homem tão amável e tão simples, além de lutar com poetas, conversava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Perto de tal homem, as damas se sentiam superfinas. Os homens o olhavam com respeito, alguns com inveja, muitos com dúvida. Ele, entretanto, seguia o seu caminho, juntando adjetivo sobre adjetivo, advérbio sobre advérbio. Desfiava todas as rimas de *tirano* e de *usurpador*. Era a hora da sobremesa; ninguém mais pensava em comer. No intervalo das glosas corria um barulho alegre, uma conversa de estômagos satisfeitos. Os olhos, moles e úmidos, ou vivos e quentes, se espreguiçavam ou saltavam de uma ponta a outra da mesa. A mesa estava cheia de doces e frutas: aqui o abacaxi em fatias, ali o melão em pedaços. Os potes de cristal deixavam ver o doce de coco, finamente ralado, amarelo como uma gema. Ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo e do cará. De vez em quando um riso alegre, largo, desabotoado, um riso de família, vinha quebrar a gravidade política do banquete. No meio do grande interesse comum, agitavam-se também os pequenos interesses particulares. As moças falavam das modinhas que iam cantar ao cravo, do minueto e do solo inglês. Não faltava uma senhora mais velha que prometesse dançar um oitavado de compasso. Queria só mostrar como se divertia nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao meu lado, dava a outro notícias recentes dos negros novos que estavam para chegar. Tinha recebido cartas de Luanda. Uma carta em que o sobrinho dizia que já tinha negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que... Ele as trazia justamente no bolso, mas não podia lê-las naquela ocasião. O que garantia é que podíamos contar, só nessa viagem, com uns cento e vinte negros, pelo menos.

— Trás... trás... trás... — fazia o Vilaça, batendo uma mão na outra.

O barulho parava de repente, como uma orquestra que para de tocar, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem estava longe punha a mão em concha atrás da orelha, para não perder nenhuma palavra. A maioria, antes mesmo da glosa, já tinha um meio riso de aplauso, banal e ingênuo.

Quanto a mim, lá estava, sozinho e esquecido, namorando uma certa compota de que eu gostava muito. No fim de cada glosa eu ficava muito contente, esperando que fosse a última. Mas não era, e a sobremesa continuava intacta. Ninguém se lembrava de dar a primeira palavra. Meu pai, à cabeceira, saboreava em longos goles a alegria dos convidados. Olhava-se inteiro nas caras alegres, nos pratos, nas flores. Ele se deliciava com a familiaridade que nascia entre os espíritos mais distantes, efeito de um bom jantar. Eu via isso, porque levava os olhos da compota para ele e dele para a compota. Era o meu jeito de pedir o doce, mas era em vão. Ele não via nada; via a si mesmo. E as glosas vinham uma atrás da outra, como pancadas de chuva, e me obrigavam a guardar o desejo e o pedido. Tive paciência enquanto pude; e não pude muito. Pedi o doce em voz baixa; por fim, gritei, berrei, bati os pés. Meu pai seria capaz de me dar o sol, se eu exigisse. Ele chamou um escravo para me servir o doce. Mas era tarde. A tia Emerenciana já tinha me tirado da cadeira à força. Ela já tinha me entregado a uma escrava, apesar dos meus gritos e empurrões.

Não foi outro o crime do glosador: ele tinha atrasado a compota e causado a minha expulsão. Isso bastou para eu pensar numa vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar. Devia ser uma coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo. Porque ele era um homem sério, o Dr. Vilaça: medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. Não me bastava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; tinha de ser coisa pior. Comecei a espiá-lo durante o resto da tarde. Eu o segui na chácara, onde todos desceram para passear. Eu o vi conversar com D. Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues. Era uma solteirona robusta, que, se não era bonita, também não era feia.

— Estou muito zangada com o senhor — dizia ela.

— Por quê?

— Porque... não sei por quê... porque é a minha sina... às vezes acho que é melhor morrer...

Eles tinham entrado numa pequena moita. O dia estava acabando, e eu os segui. O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia.

— Deixe-me — disse ela.

— Ninguém nos vê. Morrer, meu anjo? Que ideias são essas! Você sabe que eu morrerei também... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de saudades...

D. Eusébia levou o lenço aos olhos. O glosador procurava na memória algum pedaço literário. Achou este, que mais tarde descobri ser de uma das óperas do Judeu:

— Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.

Disse isso e a puxou para si. Ela resistiu um pouco, mas se deixou levar. Uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.

— O Dr. Vilaça deu um beijo em D. Eusébia! — gritei eu, correndo pela chácara.

Minha frase foi uma explosão. O espanto paralisou todos. Os olhos iam de um lado para outro. Trocavam-se sorrisos e segredos, às escondidas. As mães arrastavam as filhas, com a desculpa do sereno. Meu pai puxou as minhas orelhas, disfarçadamente, irritado de verdade com a indiscrição. Mas no dia seguinte, no almoço, ao lembrar o caso, sacudiu o meu nariz, rindo:

— Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

### Glossário

- **corso**: nascido na ilha da Córsega; aqui, Napoleão.
- **espadim**: espada pequena; aqui, a de um menino.
- **Te-Deum**: canto solene da Igreja para agradecer a Deus.
- **glosador**: quem faz glosas, poemas feitos de repente sobre uma frase dada, o mote.
- **mote**: frase dada a um poeta para ele fazer um poema na hora.
- **glosa**: poema feito na hora sobre um mote.
- **glosas**: poemas feitos na hora sobre um mote.
- **herdada**: recebida de alguém que morreu.
- **jarras**: vasos grandes.
- **marmeladas**: doces de marmelo, uma fruta.
- **arandelas**: suportes de velas presos à parede.
- **seleta**: escolhida, formada por pessoas importantes.
- **juiz de fora**: juiz enviado pelo rei a uma cidade, nos tempos coloniais.
- **usurpador**: quem toma o poder sem ter direito a ele.
- **espreguiçavam**: esticavam o corpo devagar, com preguiça; aqui, os olhos se moviam assim.
- **ralado**: cortado em fios muito finos.
- **gema**: a parte amarela do ovo.
- **melado**: calda grossa e doce de cana-de-açúcar.
- **desabotoado**: com os botões abertos; aqui, livre, sem cerimônia.
- **cravo**: antigo instrumento de teclas, parecido com o piano.
- **negros**: palavra da época, aqui para pessoas escravizadas; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **cabeças**: palavra usada pelos traficantes para contar pessoas escravizadas como gado; muito ofensiva.
- **o Judeu**: apelido de Antônio José da Silva, autor de óperas cômicas do século XVIII.
- **moita**: grupo fechado de plantas baixas.
- **volúpia**: grande prazer dos sentidos.
- **sereno**: umidade fria da noite.
- **brejeiro**: menino malicioso e travesso.

## Capítulo XIII. Um salto

Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a chata escola. Ali aprendi a ler, escrever, contar, dar cascudos e levar cascudos. Ali aprendi também a ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, em qualquer lugar bom para os preguiçosos.

Aquele tempo tinha amarguras: as broncas, os castigos, as lições difíceis e longas, e pouco mais; muito pouco e muito leve. Só a palmatória era pesada, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias de criança! Você foi o *compelle intrare* de um velho mestre, ossudo e calvo. Com você ele pôs no meu cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe e tudo o mais que sabia. Benta palmatória, tão amaldiçoada pelos modernos, como eu queria ter ficado sob o seu jugo! Queria continuar com a minha alma sem barba, as minhas ignorâncias e o meu espadim! Aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão!

E você, afinal, o que queria, meu velho mestre de primeiras letras? Lição decorada e bom comportamento na aula. Nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das últimas letras. A diferença é que você, se me metia medo, nunca me deu raiva. Ainda agora vejo você entrar na sala, com os seus chinelos de couro branco e o capote. Traz o lenço na mão, a careca à mostra, a barba feita. Vejo você sentar, bufar, grunhir, cheirar uma primeira pitada de rapé e depois nos chamar para a lição. Você fez isso durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da rua do Piolho. Não aborreceu o mundo com a sua mediocridade, até que um dia deu o grande mergulho nas trevas. E ninguém chorou por você, a não ser um preto velho. Ninguém, nem eu, que lhe devo as primeiras noções da escrita.

O mestre se chamava Ludgero. Quero escrever o nome inteiro dele nesta página: Ludgero Barata. Era um nome fatal, que dava aos meninos um eterno assunto de piadas. Um de nós, o Quincas Borba, esse, sim, era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, deixava uma barata morta perto dele. Podia ser no bolso das calças largas de enfiar, na gaveta da mesa ou ao pé do tinteiro. Se o mestre a encontrava ainda na hora da aula, dava um pulo. Girava os olhos em chamas e nos chamava dos piores nomes. Nós éramos sevandijas, capadócios, mal-criados, moleques. Uns tremiam, outros resmungavam. O Quincas Borba, porém, ficava quieto, com os olhos fixos no ar.

Uma flor, o Quincas Borba. Nunca na minha infância, nunca em toda a minha vida, encontrei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e não só da escola, mas de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguns bens, adorava o filho. Ela o trazia mimado, limpo e enfeitado, com um pajem vistoso atrás. Esse pajem nos deixava matar aula. Íamos caçar ninhos de pássaros, ou perseguir lagartixas no morro do Livramento e no da Conceição. Ou simplesmente andávamos pelas ruas, à toa, como dois peraltas sem emprego. E de imperador! Era um prazer ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo. Além disso, nos nossos jogos de criança, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro ou general. Queria uma posição acima dos outros, qualquer que fosse. Aquele menino levado tinha elegância e seriedade, certa grandeza nas atitudes e nos gestos. Quem diria que... Suspendamos a pena; não vamos antecipar os acontecimentos. Fujamos sobretudo desse passado tão distante, tão coberto, ai de mim! de cruzes de cemitério. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política e do meu primeiro cativeiro pessoal.

### Glossário

- **cascudos**: pancadas leves na cabeça, dadas com os dedos dobrados.
- **diabruras**: travessuras de criança.
- **amarguras**: grandes tristezas, sofrimentos.
- **broncas**: palavras duras de quem reclama com alguém.
- **palmatória**: peça de madeira para bater nas mãos dos alunos.
- **compelle intrare**: frase latina: "obriga a entrar".
- **ossudo**: muito magro, com os ossos à mostra.
- **amaldiçoada**: xingada, odiada.
- **jugo**: peça que prende os bois ao carro; aqui, poder de quem manda em nós.
- **capote**: casaco comprido e grosso.
- **bufar**: soltar o ar com força pela boca.
- **grunhir**: fazer um som baixo e rouco, como o de um porco.
- **pitada de rapé**: pequena porção de tabaco em pó, que se cheira.
- **aborreceu**: cansou, incomodou.
- **preto**: palavra da época para pessoa negra ou escravizada; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **tinteiro**: pequeno pote de tinta para escrever.
- **resmungavam**: falavam baixo, com raiva.
- **sevandijas**: palavra antiga de insulto: pessoas sem valor, parasitas.
- **capadócios**: palavra antiga de insulto: malandros, gente sem educação.
- **moleques**: aqui, insulto; a palavra também indica o menino escravizado e é ofensiva nesse uso.
- **pajem**: criado que acompanha uma pessoa rica.
- **peraltas**: pessoas vadias que gostam de se mostrar.
- **cativeiro**: estado de quem está preso ou escravizado.

## Capítulo XIV. O primeiro amor

Eu tinha dezessete anos. Um bigodinho fino nascia no meu rosto, e eu fazia força para transformá-lo em bigode de verdade. Os olhos, vivos e decididos, eram o traço realmente masculino da minha cara. Eu mostrava certa arrogância, e por isso não se sabia bem o que eu era. Era uma criança com ares de homem, ou um homem com ares de menino. Enfim, eu era um rapaz bonito e ousado. Entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias. Montava um cavalo nervoso, forte e veloz, como o cavalo das antigas baladas. O romantismo foi buscar esse cavalo no castelo medieval, para fazê-lo correr nas ruas do nosso século. O pior é que o cansaram tanto que foi preciso largá-lo na beira do caminho. Ali o realismo o encontrou, comido de doenças e de vermes, e, por pena, o levou para os seus livros.

Sim, eu era esse rapaz bonito, elegante e rico. A que me cativou logo foi um... uma... não sei se devo dizer. Este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se diz tudo, ou não se diz nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a «linda Marcela», como a chamavam os rapazes da época. E os rapazes tinham razão. Era filha de um hortelão das Astúrias. Ela mesma me disse isso, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é outra. Essa opinião diz que nasceu de um advogado de Madri, vítima da invasão francesa. Ele foi ferido, preso e fuzilado quando ela tinha apenas doze anos. *Cosas de España.* Mas, fosse quem fosse o pai, advogado ou hortelão, a verdade é que Marcela não tinha a inocência do campo. Mal chegava a entender a moral do código. Era uma boa moça, alegre e sem escrúpulos. A severidade da época a prendia um pouco. Não a deixava levar pelas ruas as suas loucuras e as suas carruagens. Gostava de luxo, era impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito rico e tísico: uma pérola.

Eu a vi pela primeira vez no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que soubemos da declaração da independência. Foi uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os entusiasmos da juventude. Eu a vi sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa. Tinha um jeito atrevido, alguma coisa que eu nunca tinha encontrado nas mulheres puras.

— Segue-me — disse ela ao pajem.

E eu a segui, tão pajem como o outro, como se a ordem fosse para mim. Fui andando, apaixonado, cheio das primeiras auroras. No meio do caminho, alguém a chamou de «linda Marcela». Lembrei que tinha ouvido esse nome do meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

Três dias depois, meu tio me perguntou, em segredo, se eu queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era na casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete da noite. Eu comi pouco ou nada, porque só tinha olhos para a dona da casa. Como ela estava gentil, a espanhola! Havia mais umas seis mulheres, todas de partido, bonitas, cheias de graça, mas a espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o meu gênio mandão e imprudente, tudo isso me fez voltar. Na saída, na porta da rua, disse ao meu tio que esperasse um instante. E subi de novo as escadas.

— Esqueceu alguma coisa? — perguntou Marcela, de pé no patamar.

— O lenço.

Ela se virou para me abrir caminho até a sala. Mas eu desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.

### Glossário

- **esporas**: peças de metal na bota, usadas para fazer o cavalo andar.
- **casto**: puro, sem nada de imoral.
- **castíssimo**: muito casto.
- **hortelão**: homem que cuida de uma horta.
- **Cosas de España**: frase espanhola: "coisas da Espanha".
- **tísico**: doente de tuberculose.
- **luminárias**: luzes acesas nas ruas e janelas para uma festa pública.
- **cadeirinha**: cadeira fechada, carregada por dois homens, usada como transporte.
- **airosa e vistosa**: elegante e bonita de ver.
- **atrevido**: ousado, sem medo das regras.
- **pajem**: criado que acompanha uma pessoa rica.
- **tubérculos**: pequenas lesões do pulmão causadas pela tuberculose.
- **de partido**: expressão antiga: mulher sustentada pelo dinheiro de homens.
- **tufão**: vento muito forte, tempestade.
- **ébrio**: bêbado.

## Capítulo XV. Marcela

Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela. Já não ia montado no cavalo da pressa, mas no asno da paciência, ao mesmo tempo esperto e teimoso. Na verdade, há dois meios de ganhar o coração das mulheres: a pressa e a paciência. Aqui eles ficam representados pelo cavalo e pelo asno. Não vou contar os planos que fiz, nem os rodeios, nem as mudanças entre confiança e medo. Também não vou contar as esperas inúteis, nem nenhuma outra dessas coisas do começo. Garanto a vocês que o asno foi digno do cavalo. Foi um asno de Sancho, verdadeiro filósofo, que me levou à casa dela no fim desses trinta dias. Desci dele, bati na sua anca e o mandei pastar.

Primeira emoção da minha juventude, como você foi doce para mim! Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol. Imagine esse efeito do primeiro sol, batendo de frente na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo. E se alguma vez você teve dezoito anos, deve lembrar que foi assim mesmo.

A nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, porque eu não ligo para nomes, teve duas fases. Teve a fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, governamos Xavier e eu, sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma. Mas a credulidade não pôde resistir à evidência. Então o Xavier largou as insígnias, e eu juntei todos os poderes na minha mão. Foi a fase cesariana. Era meu o universo; mas, ai de mim! não o era de graça. Precisei reunir dinheiro, multiplicá-lo, inventá-lo.

Primeiro explorei a generosidade de meu pai. Ele me dava tudo o que eu pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza. Dizia a todos que eu era rapaz e que ele também tinha sido. Mas o abuso chegou a tal ponto que ele reduziu um pouco a sua generosidade, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e a convenci a desviar alguma coisa, que ela me dava às escondidas. Era pouco. Usei então um último recurso. Comecei a tomar dinheiro sobre a herança de meu pai. Assinava dívidas que um dia eu devia pagar com usura.

— Na verdade — dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda ou alguma joia —, na verdade, você quer brigar comigo... Isso é coisa que se faça?... um presente tão caro...

E, se era joia, ela dizia isso olhando-a entre os dedos, procurando luz melhor, experimentando-a e rindo. Enquanto protestava, a felicidade transbordava dos seus olhos, e eu me sentia feliz ao vê-la assim. Ela gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava quantas podia conseguir. Marcela guardava todas numa caixinha de ferro, e ninguém nunca soube onde ficava a chave. Ela a escondia com medo dos escravos.

A casa em que ela morava, nos Cajueiros, era dela. Os móveis eram sólidos e bons, de jacarandá trabalhado. Eram bons também todos os outros objetos: espelhos, jarras, baixela. Havia uma linda baixela da Índia, presente de um desembargador. Baixela do diabo, como você me irritou os nervos! Eu disse isso muitas vezes à própria dona. Não escondia o desgosto que me davam esses e outros restos dos seus amores antigos. Ela me ouvia e ria, com uma expressão inocente, inocente e outra coisa, que naquele tempo eu não entendia bem. Agora, ao lembrar o caso, penso que era um riso misturado. Seria o riso de uma criatura nascida, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock. Não sei se me explico. E como ela sabia dos meus ciúmes atrasados, parece que gostava de provocá-los mais. Foi assim que, um dia, eu não pude lhe dar certo colar, que ela tinha visto num joalheiro. Ela respondeu que era uma simples brincadeira, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.

— Não lhe perdoo se você fizer de mim essa triste ideia — concluiu, ameaçando-me com o dedo.

E logo, súbita como um passarinho, fez uma careta graciosa, uma careta de criança. Depois, no sofá, continuou a falar daquilo com simplicidade e franqueza. Jamais deixaria que comprassem os seus afetos. Muitas vezes tinha vendido as aparências, mas a realidade ela guardava para poucos. Havia o Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ela tinha amado de verdade, dois anos antes. Mesmo ele só com dificuldade conseguia lhe dar alguma coisa de valor, como acontecia comigo. Ela só aceitava sem resistência os presentes de pouco preço. Era o caso da cruz de ouro que ele lhe deu uma vez, nas festas.

— Esta cruz...

Dizia isso, tirando do pescoço uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul.

— Mas essa cruz — observei eu —, não me disseste que foi teu pai que...

Marcela balançou a cabeça com um ar de pena:

— Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para não te aborrecer? Vem cá, *chiquito*, não sejas assim desconfiado comigo... Amei outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...

— Não digas isso! — gritei eu.

— Tudo cessa! Um dia...

Não pôde acabar; um soluço cortou a sua voz.

— Nunca, nunca, meu amor! — disse ela baixinho.

Eu agradeci com os olhos úmidos. No dia seguinte levei o colar que antes eu tinha recusado.

— Para te lembrares de mim, quando nos separarmos — disse eu.

Marcela teve primeiro um silêncio indignado. Depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar na rua. Eu a impedi. Pedi muito que não me fizesse essa ofensa, que ficasse com a joia. Ela sorriu e ficou com ela.

Entretanto, ela retribuía com muita atenção os meus sacrifícios. Procurava ler os meus pensamentos mais escondidos. Não havia vontade minha que ela não atendesse, de boa alma e sem esforço. Era uma espécie de lei da consciência e necessidade do coração. A vontade nunca era razoável. Era um puro capricho, uma criancice. Eu queria vê-la vestida de certo modo, com tais e tais enfeites. Queria este vestido e não aquele, ou um passeio. E ela cedia a tudo, risonha e faladora.

— Você é das Arábias — dizia-me.

E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediência encantadora.

### Glossário

- **asno**: burro.
- **teimoso**: que não muda de ideia.
- **Sancho**: Sancho Pança, o companheiro de Dom Quixote, que anda num burro.
- **anca**: parte de trás do corpo do animal, acima da perna.
- **fase consular**: na Roma antiga, tempo em que dois cônsules governavam juntos; a fase imperial é o tempo de um só chefe.
- **insígnias**: sinais de poder e de um cargo.
- **repreensão**: palavras duras de quem chama a atenção de alguém.
- **frieza**: falta de carinho.
- **usura**: juros muito altos cobrados por um empréstimo.
- **transbordava**: saía para fora, como a água de um copo cheio demais.
- **dobras de ouro**: moedas antigas de ouro.
- **jacarandá**: madeira escura e muito boa, do Brasil.
- **jarras**: vasos grandes.
- **baixela**: conjunto de pratos e outras peças para a mesa.
- **desembargador**: juiz de um tribunal superior.
- **serafim**: anjo de categoria muito alta.
- **joalheiro**: pessoa que faz ou vende joias; aqui, a loja dessa pessoa.
- **alferes**: antigo posto de oficial do exército.
- **chiquito**: palavra espanhola: "pequeno", dita com carinho.
- **das Arábias**: expressão: pessoa cheia de caprichos, que faz coisas fora do comum.

## Capítulo XVI. Uma reflexão imoral

Agora me ocorre uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Acho que eu disse, no capítulo XIII, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma coisa que morrer. Assim afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente que conhece bem a gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Seria um terço ou um quinto do comércio universal dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer. Ela é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que quero dizer. O que quero dizer é o seguinte. A testa mais bela do mundo não fica menos bela se usar um diadema de pedras finas. Não fica menos bela nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...

### Glossário

- **reflexão**: pensamento sobre um assunto.
- **correção de estilo**: mudança para melhorar a maneira de escrever.
- **joalheiros**: pessoas que fazem ou vendem joias.
- **dixes**: pequenas joias, enfeites; palavra antiga.
- **fiados**: coisas vendidas para pagar depois.
- **obscura**: difícil de entender.
- **diadema**: joia em forma de meia coroa, usada na cabeça.
- **pedras finas**: pedras preciosas.

## Capítulo XVII. Do trapézio e outras coisas

... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que soube dos onze contos, levou um susto de verdade. Achou que o caso já passava dos limites de um capricho de rapaz.

— Desta vez — disse ele — vais para a Europa. Vais estudar numa universidade, provavelmente Coimbra. Eu te quero homem sério, e não vadio de rua e gatuno.

E como eu fiz um gesto de espanto:

— Gatuno, sim, senhor. Não é outra coisa um filho que me faz isto...

Tirou do bolso os meus títulos de dívida, que ele já tinha pagado, e os sacudiu na minha cara:

— Vês, peralta? É assim que um moço deve cuidar do nome da família? Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou vadiando pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.

Ele estava furioso, mas de uma fúria moderada e curta. Eu o ouvi calado e não protestei contra a ordem de viajar, como tinha feito outras vezes. Eu pensava sem parar na ideia de levar Marcela comigo. Fui falar com ela. Expliquei a crise e fiz a proposta. Marcela me ouviu com os olhos no ar, sem responder logo. Como eu insisti, ela disse que ficava, que não podia ir para a Europa.

— Por que não?

— Não posso — disse ela com ar sofrido. — Não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar do meu pobre pai, morto por Napoleão...

— Qual deles: o hortelão ou o advogado?

Marcela franziu a testa e cantarolou uma seguidilha, entre os dentes. Depois se queixou do calor e mandou vir um copo de aluá. A mucama o trouxe numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcela me ofereceu educadamente o refresco. Minha resposta foi bater com a mão no copo e na salva. A bebida caiu no vestido dela, a preta deu um grito, e eu gritei que ela fosse embora.

Quando ficamos sozinhos, soltei todo o desespero do meu coração. Disse a Marcela que ela era um monstro, que nunca tinha me amado. Disse que ela tinha me deixado descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade. Eu a chamei de muitos nomes feios e fiz muitos gestos descontrolados. Marcela continuou sentada, batendo as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive vontade de estrangulá-la, ou ao menos de humilhá-la, dominando-a a meus pés. Talvez eu fosse fazer isso, mas a ação se transformou em outra. Fui eu que me atirei aos pés dela, arrependido e suplicante. Lembrei aqueles meses da nossa felicidade solitária e repeti os nomes queridos de outro tempo. Sentado no chão, sem fôlego, fora de mim, pedi com lágrimas que ela não me abandonasse... Marcela ficou alguns instantes olhando para mim, ambos calados. Por fim, com um ar entediado, disse:

— Não me aborreça.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.

— Não! — gritei eu. — Não vais entrar... não quero...

Corri para detê-la, mas era tarde. Ela tinha entrado e fechado a porta.

Saí desesperado. Gastei duas horas mortais andando pelos bairros mais afastados e desertos, onde era difícil alguém me encontrar. Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de fome doentia. Lembrava os dias, as horas, os instantes daquela loucura. Às vezes gostava de acreditar que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo. Outras vezes, enganando a mim mesmo, tentava jogá-los fora, como um peso inútil. Então decidia embarcar imediatamente, para cortar a minha vida em duas metades. E me alegrava com a ideia de que Marcela, ao saber da partida, ficaria cheia de saudades e remorsos. Porque ela tinha me amado loucamente, e devia sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer, como a do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciúme se enterrava no meu coração. E toda a natureza me gritava que era preciso levar Marcela comigo.

— Por força... por força... — dizia eu, ferindo o ar com um soco.

Enfim, tive uma ideia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados, trapézio das ideias difíceis! A ideia salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (cap. II). Era nada menos que fasciná-la, fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la. Pensei em pedir por um meio mais concreto do que a súplica. Não medi as consequências. Recorri a um último empréstimo e fui à rua dos Ourives. Comprei a melhor joia da cidade: três diamantes grandes, presos num pente de marfim. E corri à casa de Marcela.

Marcela estava deitada numa rede, com um ar mole e cansado, e o olhar quieto e sonolento.

— Vem comigo — disse eu. — Arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que quiseres... Olha, toma.

E mostrei a ela o pente com os diamantes. Marcela teve um leve sobressalto. A pupila brilhou como a de um gavião faminto. Ela ergueu metade do corpo e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos. Depois desviou os olhos; tinha se dominado.

— Doido! — foi a sua resposta.

Depois ela pegou o pente e admirou muito o material e o trabalho. Olhava de vez em quando para mim e abanava a cabeça, com um ar de repreensão:

— Ora você! — dizia.

— Vens comigo?

Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia. Mas toda a má impressão desapareceu quando ela me respondeu com firmeza:

— Vou. Quando embarcas?

— Daqui a dois ou três dias.

— Vou.

Agradeci de joelhos. Tinha reencontrado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse isso a ela. Ela sorriu e foi guardar a joia, enquanto eu descia a escada.

### Glossário

- **contos de réis**: um conto valia mil mil-réis; muito dinheiro na época.
- **gatuno**: ladrão.
- **peralta**: rapaz vadio que gosta de se mostrar.
- **pelintra**: pessoa sem dinheiro e sem valor que quer parecer importante; insulto antigo.
- **seguidilha**: canção popular da Espanha.
- **aluá**: bebida refrescante de arroz ou milho com açúcar.
- **mucama**: escravizada que servia dentro de casa; palavra antiga.
- **salva**: bandeja de prata.
- **preta**: palavra da época para mulher negra ou escravizada; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **suplicante**: que pede com humildade e dor.
- **entediado**: cansado e sem interesse.
- **aborreça**: incomode, canse.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **alferes**: antigo posto de oficial do exército.
- **trapézio**: barra pendurada, usada por acrobatas; aqui, o lugar do cérebro onde as ideias fazem acrobacias.
- **deslumbrá-la**: impressioná-la muito, com brilho ou beleza.
- **súplica**: pedido feito com humildade e dor.
- **sonolento**: com sono.
- **sobressalto**: susto rápido.

## Capítulo XVIII. Visão do corredor

No fim da escada, no fundo do corredor escuro, parei por alguns instantes. Queria respirar, ver se eu estava inteiro e juntar as ideias espalhadas. Queria, enfim, voltar a mim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Eu me sentia feliz. É certo que os diamantes estragavam um pouco a minha felicidade. Mas também é certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. Além disso, eu confiava na minha boa Marcela. Ela podia ter defeitos, mas me amava...

— Um anjo! — murmurei, olhando para o teto do corredor.

E ali, como uma zombaria, vi o olhar de Marcela. Era aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança. Ele brilhava em cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das *Mil e uma noites*! Vi você ali mesmo correndo atrás da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a chamá-lo com promessas. E você correndo, correndo, correndo, até a alameda comprida. Da alameda você saiu à rua, onde todos os correeiros vaiaram e bateram em você.

Então me pareceu que o corredor de Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagdá. De fato, olhei para a porta e vi na calçada três dos correeiros. Um estava de batina, outro de libré, outro à paisana. Os três entraram no corredor e me pegaram pelos braços. Eles me meteram numa sege: meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o de libré na boleia. E assim me levaram à casa do intendente de polícia. De lá fui levado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti! Mas toda a resistência era inútil.

Três dias depois, saí da barra para o mar, abatido e mudo. Nem sequer chorava. Eu tinha uma ideia fixa... Malditas ideias fixas! A daquela ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.

### Glossário

- **os gregos e os seus presentes**: lembrança do cavalo de Troia, o presente falso que os gregos deram aos troianos.
- **murmurei**: falei em voz baixa.
- **vizir**: alto ministro de um rei no antigo Oriente.
- **alameda**: caminho ou rua com árvores dos dois lados.
- **correeiros**: homens que fazem e vendem objetos de couro, como selas.
- **vaiaram**: gritaram e fizeram barulho contra alguém.
- **libré**: roupa especial dos criados de casas ricas.
- **à paisana**: com roupa comum, sem uniforme.
- **sege**: carruagem antiga, puxada por cavalos.
- **boleia**: assento de quem dirige a carruagem.
- **intendente de polícia**: chefe da polícia da cidade na época.
- **galera**: navio grande de antigamente.
- **barra**: entrada de um porto, onde começa o mar aberto.

## Capítulo XIX. A bordo

Éramos onze passageiros: um homem doido com a mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois criados. Meu pai me recomendou a todos, começando pelo capitão do navio. O capitão, aliás, tinha muito com que se preocupar. Porque, entre outras coisas, levava a mulher tísica, já no último grau.

Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu projeto fúnebre, ou se meu pai o avisou. Sei que ele não tirava os olhos de mim e me chamava para toda parte. Quando não podia estar comigo, me levava para junto da mulher. Ela ficava quase sempre numa cama baixa, tossindo muito. Prometia que ia me mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente. Era impossível que não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não acreditar na morte próxima, talvez para enganar a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava o destino de uma mulher tísica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela.

Uma noite, logo no fim de uma semana, achei a ocasião boa para morrer. Subi com cuidado, mas encontrei o capitão junto à amurada, com os olhos fixos no horizonte.

— Algum temporal? — disse eu.

— Não — respondeu ele, estremecendo. — Não. Estou admirando o esplendor da noite. Veja: está celestial!

O estilo não combinava com a pessoa, que era bastante rude e parecia não conhecer frases tão elegantes. Olhei fixamente para ele, e ele pareceu saborear o meu espanto. Depois de alguns segundos, pegou na minha mão e apontou para a lua. Perguntou por que eu não fazia uma ode à noite. Respondi que não era poeta. O capitão resmungou alguma coisa, deu dois passos e pôs a mão no bolso. Tirou um pedaço de papel muito amassado. Depois, à luz de uma lanterna, leu uma ode à maneira de Horácio sobre a liberdade da vida no mar. Os versos eram dele.

— Que tal?

Não me lembro do que lhe disse. Lembro que ele apertou a minha mão com muita força e muitos agradecimentos. Logo depois, recitou para mim dois sonetos. Ia recitar outro, quando vieram chamá-lo da parte da mulher.

— Já vou — disse ele.

E recitou o terceiro soneto, com pausa, com amor.

Fiquei só. Mas a musa do capitão tinha varrido os maus pensamentos do meu espírito. Preferi dormir, que é um modo provisório de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a todo mundo, menos ao doido. Ele começou a dar pulos. Dizia que a filha o mandava buscar numa berlinda. A morte de uma filha tinha sido a causa da sua loucura. Não, nunca vou me esquecer da figura horrível do pobre homem. No meio da confusão das pessoas e dos uivos do furacão, ele cantava baixinho e dançava. Os olhos pareciam saltar da cara. Estava pálido, com o cabelo duro e em desordem. Às vezes parava e erguia no ar as mãos ossudas. Fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher já não podia cuidar dele. Entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Enfim, a tempestade se acalmou depois de longas horas. E confesso que foi uma excelente distração para a tempestade do meu coração. Eu planejava ir ao encontro da morte. Mas, quando ela veio ao meu encontro, não tive coragem de olhar para ela.

Quando o temporal passou, o capitão veio falar comigo. Perguntou se eu tinha tido medo, se tinha corrido perigo, se não tinha achado sublime o espetáculo. Fez tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente, a conversa passou para a vida do mar. O capitão perguntou se eu não gostava de idílios de pescadores. Respondi, com ingenuidade, que não sabia o que era aquilo.

— Vai ver — respondeu ele.

E recitou um pequeno poema, depois outro, uma écloga, e enfim cinco sonetos. Com eles encerrou, naquele dia, a sua confidência literária. No dia seguinte, antes de recitar qualquer coisa, o capitão me deu uma explicação. Só por motivos graves tinha abraçado a profissão de marinheiro, porque a avó queria que ele fosse padre. E de fato ele sabia algum latim. Não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua vocação natural. E, como prova dessa vocação, recitou ali mesmo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um fenômeno: os gestos que ele fazia eram tais que uma vez me fizeram rir. Mas, quando recitava, o capitão olhava tanto para dentro de si mesmo que não viu nem ouviu nada.

Os dias passavam, e as águas, e os versos, e com eles ia passando também a vida da mulher. Faltava pouco. Um dia, logo depois do almoço, o capitão me disse que a doente talvez não chegasse ao fim da semana.

— Já! — exclamei.

— Passou muito mal a noite.

Fui vê-la. De fato, ela estava quase moribunda, mas ainda falava em descansar alguns dias em Lisboa. Depois ia comigo a Coimbra, porque pretendia me levar à Universidade. Saí de lá consternado. Encontrei o marido olhando para as ondas, que vinham morrer no costado do navio. Tentei consolá-lo. Ele me agradeceu e me contou a história dos seus amores. Elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher. Lembrou os versos que tinha feito para ela, e recitou esses versos para mim. Nesse momento vieram buscá-lo da parte dela. Corremos os dois; era uma crise. Esse dia e o seguinte foram cruéis; o terceiro foi o da morte. Eu fugi do espetáculo, porque tinha repugnância por ele. Meia hora depois, encontrei o capitão sentado num monte de cabos, com a cabeça nas mãos. Disse a ele alguma coisa de conforto.

— Morreu como uma santa — respondeu ele.

E, para que essas palavras não parecessem fraqueza, levantou-se logo e sacudiu a cabeça. Olhou para o horizonte, com um gesto longo e profundo.

— Vamos — continuou. — Vamos entregá-la à cova que nunca mais se abre.

De fato, poucas horas depois, o cadáver foi lançado ao mar, com as cerimônias de costume. A tristeza tinha murchado todos os rostos. O do viúvo tinha a expressão de um pico de pedra rachado com força por um raio. Grande silêncio. A onda abriu o ventre, recebeu o corpo e se fechou. Uma leve ruga, e a galera foi andando. Fiquei alguns minutos na popa, com os olhos naquele ponto incerto do mar onde ficava um de nós... Depois fui procurar o capitão, para distraí-lo.

— Obrigado — disse ele, compreendendo a intenção. — Creia que nunca vou me esquecer dos seus bons serviços. Deus é quem há de pagá-los. Pobre Leocádia! Você vai se lembrar de nós no céu.

Ele enxugou com a manga uma lágrima inoportuna. Busquei uma distração na poesia, que era a paixão dele. Falei dos versos que ele tinha lido para mim e me ofereci para imprimi-los. Os olhos do capitão se animaram um pouco.

— Talvez aceite — disse ele. — Mas não sei... São versos bem fracos.

Jurei que não. Pedi que os reunisse e os entregasse a mim antes do desembarque.

— Pobre Leocádia! — murmurou ele, sem responder ao pedido. — Um cadáver... o mar... o céu... o navio...

No dia seguinte, veio ler para mim um epicédio recém-composto. Nele estavam lembradas as circunstâncias da morte e da sepultura da mulher. Leu com a voz realmente comovida e a mão trêmula. No fim, perguntou se os versos eram dignos do tesouro que tinha perdido.

— São — disse eu.

— Pode ser que não haja inspiração — observou ele, depois de um instante. — Mas ninguém vai me negar sentimento. A não ser que o próprio sentimento tenha prejudicado a perfeição...

— Não me parece. Acho os versos perfeitos.

— Sim, eu creio que... Versos de marujo.

— De marujo poeta.

Ele levantou os ombros, olhou para o papel e recitou a composição outra vez. Mas agora já não tremia. Acentuava as intenções literárias, dava relevo às imagens e melodia aos versos. No fim, confessou que era a sua obra mais bem-acabada, e eu disse que sim. Ele apertou muito a minha mão e me previu um grande futuro.

### Glossário

- **tísica**: doente de tuberculose.
- **tossindo**: soltando o ar da garganta com força e barulho.
- **amurada**: parede baixa na borda do navio.
- **estremecendo**: tremendo de repente.
- **ode**: poema de tom elevado, feito para louvar alguma coisa.
- **resmungou**: falou baixo, de mau humor.
- **soneto**: poema curto de catorze versos.
- **recitou, recitar, recitava**: dizer versos em voz alta.
- **varrido**: tirado, como se faz com a vassoura.
- **berlinda**: pequena carruagem antiga.
- **uivos**: gritos longos de lobo ou de cão; aqui, o barulho do vento.
- **pálido**: sem cor no rosto.
- **ossudas**: muito magras, com os ossos aparecendo.
- **argolas**: anéis, pequenos círculos.
- **idílios, écloga**: poemas sobre a vida simples de pastores ou pescadores.
- **ingenuidade**: jeito simples de quem não conhece bem as coisas.
- **de corpo presente**: ali, em pessoa; a expressão também se usa para um morto no velório.
- **exclamei**: falei alto, com surpresa.
- **costado**: lado de fora do navio.
- **popa**: parte de trás do navio.
- **epicédio**: poema feito para lembrar um morto.
- **marujo**: marinheiro.

## Capítulo XX. Bacharelo-me

Um grande futuro! Enquanto essa frase batia no meu ouvido, eu voltava os olhos para longe, para o horizonte misterioso e vago. Uma ideia expulsava a outra; a ambição tirava Marcela da sela. Um grande futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político, ou até bispo. Bispo que fosse! Bastava que fosse um cargo, um lugar de destaque, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, se era águia, quebrou naquele momento o ovo e mostrou o olho amarelo e penetrante. Adeus, amores. Adeus, Marcela. Dias de delírio, joias sem preço, vida sem regra, adeus. Eu vou para o trabalho e para a glória. Deixo vocês com as calças de menino da primeira idade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade me esperava com as suas matérias difíceis, e não sei se profundas. Estudei muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel. Deram-me o grau com a cerimônia de costume, depois dos anos exigidos pela lei. Foi uma bela festa, que me encheu de orgulho e de saudades. Principalmente de saudades. Eu tinha conquistado em Coimbra uma grande fama de folião. Era um estudante farrista, superficial, barulhento e atrevido, dado às aventuras. Fazia romantismo prático e liberalismo teórico. Vivia na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas.

Chegou o dia em que a Universidade confirmou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de ter no cérebro. Nesse dia, confesso que me senti de certo modo enganado, ainda que orgulhoso. Eu me explico: o diploma era uma carta de alforria. Se me dava a liberdade, me dava também a responsabilidade. Guardei o diploma e deixei as margens do Mondego. Vim embora bastante desconsolado. Mas já sentia uns impulsos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de ter influência, de gozar, de viver. Queria continuar a Universidade pela vida afora...

### Glossário

- **naturalista**: pessoa que estuda as plantas e os animais.
- **literato**: pessoa que escreve e vive das letras.
- **folião**: quem gosta muito de festa e diversão.
- **farrista**: quem vive em festas e bebedeiras.
- **barulhento**: que faz muito barulho.
- **atrevido**: que não tem medo e não respeita ninguém.
- **liberalismo**: ideias políticas a favor da liberdade e das constituições.
- **constituições**: leis principais de um país.
- **pergaminho**: pele de animal preparada para escrever; aqui, o diploma.
- **carta de alforria**: papel que dava a liberdade a uma pessoa escravizada.
- **Mondego**: rio que passa por Coimbra.
- **desconsolado**: triste, sem consolo.
- **acotovelar**: empurrar com o cotovelo; aqui, disputar lugar com os outros.

## Capítulo XXI. O almocreve

Então o jumento em que eu vinha montado empacou. Bati nele, e ele deu dois saltos, depois mais três, enfim mais um. Esse último me jogou para fora da sela. O desastre foi tão grande que o meu pé esquerdo ficou preso no estribo. Tento me agarrar à barriga do animal, mas ele, já assustado, disparou pela estrada. Digo mal: tentou disparar, e de fato deu dois saltos. Mas um almocreve que estava ali acudiu a tempo de pegar a rédea e detê-lo. Não foi sem esforço nem perigo. Dominado o bicho, soltei o pé do estribo e me pus de pé.

— Olhe do que vosmecê escapou — disse o almocreve.

E era verdade. Se o jumento corresse por ali afora, eu me machucaria de verdade. E talvez a morte estivesse no fim do desastre. Cabeça quebrada, uma congestão, qualquer problema aqui dentro, e lá se ia o meu título de bacharel, ainda em flor. O almocreve tinha talvez salvado a minha vida. Era certo; eu sentia isso no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! Enquanto eu voltava a mim, ele consertava os arreios do jumento, com muito cuidado e arte. Resolvi dar a ele três moedas de ouro, das cinco que trazia comigo. Não porque esse fosse o preço da minha vida, que não tinha preço. Mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está decidido: dou-lhe as três moedas.

— Pronto — disse ele, entregando-me a rédea do animal.

— Daqui a pouco — respondi. — Deixe-me, que ainda não voltei a mim...

— Ora, qual!

— Mas não é certo que eu quase morri?

— Se o jumento corre por aí afora, é possível. Mas, com a ajuda do Senhor, vosmecê viu que não aconteceu nada.

Fui aos alforjes e tirei um colete velho. No bolso dele eu trazia as cinco moedas de ouro. Enquanto isso, pensei se a recompensa não era excessiva, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. De fato, uma moeda bastava para fazê-lo tremer de alegria. Examinei a roupa dele. Era um pobre-diabo, que nunca tinha visto uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a e a vi brilhar à luz do sol. O almocreve não a viu, porque eu estava de costas para ele. Mas talvez tenha suspeitado, porque começou a falar com o jumento de um modo significativo. Dava conselhos ao animal, dizia que tomasse juízo, que o «senhor doutor» podia castigá-lo. Era um monólogo de pai. Valha-me Deus! Até ouvi o estalo de um beijo: era o almocreve que beijava a testa do jumento.

— Olé! — exclamei.

— Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está olhando para a gente com tanta graça...

Eu ri, tive dúvida, pus na mão dele um cruzado de prata, montei no jumento e segui a trote largo. Ia um pouco envergonhado, ou melhor, um pouco incerto do efeito da pequena moeda de prata. Mas, a algumas braças de distância, olhei para trás. O almocreve me fazia grandes cortesias, com sinais evidentes de alegria. Percebi que devia ser assim mesmo. Eu tinha pago bem, talvez até demais. Meti os dedos no bolso do colete que tinha no corpo e senti umas moedas de cobre. Eram os vinténs que eu devia ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado de prata. Porque, afinal, ele não tinha em vista nenhuma recompensa ou virtude. Cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício. Além disso, ele estava justamente no ponto do desastre, nem mais à frente nem mais atrás. Isso parecia fazer dele um simples instrumento da Providência. De um modo ou de outro, o mérito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com essa reflexão. Chamei a mim mesmo de pródigo e pus o cruzado na conta dos meus antigos desperdícios. Tive (por que não direi tudo?) tive remorsos.

### Glossário

- **almocreve**: homem que transporta cargas em animais.
- **jumento**: burro, animal de carga parecido com um cavalo pequeno.
- **empacou**: parou e não quis mais andar.
- **estribo**: peça da sela onde o cavaleiro apoia o pé.
- **acudiu**: veio depressa ajudar.
- **rédea**: correia que serve para guiar o animal.
- **congestão**: excesso de sangue num órgão, como o cérebro.
- **arreios**: conjunto de peças que se põem no animal para montar.
- **vosmecê**: forma antiga e respeitosa de dizer "você".
- **alforjes**: sacos duplos levados nas costas do animal.
- **exclamei**: falei alto, com surpresa.
- **cruzado**: moeda antiga de prata.
- **trote**: passo rápido do animal, entre andar e correr.
- **vinténs**: moedas antigas de cobre, de pouco valor.
- **braças**: antiga medida de comprimento, de cerca de dois metros.
- **desconsolado**: triste, sem consolo.
- **pródigo**: quem gasta dinheiro demais.
- **Providência**: a vontade de Deus, que guia os fatos do mundo.

## Capítulo XXII. Volta ao Rio

Jumento de uma figa, você cortou o fio das minhas reflexões. Agora já não digo o que pensei dali até Lisboa. Nem digo o que fiz em Lisboa, na Península e em outros lugares da Europa. A velha Europa, que naquele tempo parecia ficar jovem de novo. Não, não direi que assisti ao nascer do romantismo. Não direi que também eu fui fazer poesia de verdade no colo da Itália. Não direi coisa nenhuma. Eu teria de escrever um diário de viagem, e não umas memórias como estas. Nelas só entra a substância da vida.

Depois de alguns anos de viagem, atendi às súplicas de meu pai. «Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!» Essa última palavra foi um golpe para mim. Eu amava minha mãe. Ainda tinha diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me deu, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca mais te verei», soluçava a pobre senhora, apertando-me ao peito. E agora eu ouvia essas palavras como uma profecia realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda cheia do perfume dos versos de lorde Byron. Lá estava eu, mergulhado em pleno sonho, revivendo o passado, acreditando estar na Sereníssima República. É verdade: uma vez perguntei ao locandeiro se o doge ia passear naquele dia.

— Que doge, *signor mio*?

Caí em mim, mas não confessei a ilusão. Disse que a minha pergunta era uma espécie de charada americana. Ele mostrou compreender e acrescentou que gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso: o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros. Deixei a gôndola, os versos do lorde, as damas do Rialto. Deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro.

Vim... Mas não; não vamos alongar este capítulo. Às vezes me esqueço escrevendo, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo para mim, que sou o autor. Capítulos compridos combinam melhor com leitores pesados. E nós não somos um público *in-fólio*, mas *in-12*. Pouco texto, margem larga, letra elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não vamos alongar o capítulo.

### Glossário

- **jumento de uma figa**: jumento maldito; expressão de raiva.
- **súplicas**: pedidos feitos com muita emoção.
- **Sereníssima República**: nome da antiga Veneza, quando era um Estado independente.
- **locandeiro**: dono de hospedaria na Itália.
- **doge**: chefe do governo da antiga Veneza.
- **signor mio**: "meu senhor", em italiano.
- **charada**: jogo em que se adivinha uma palavra.
- **alongar**: tornar mais longo.
- **in-fólio**: livro de formato muito grande.
- **in-12**: livro de formato pequeno.
- **corte dourado**: borda das páginas pintada de ouro.
- **vinhetas**: pequenos desenhos que enfeitam um livro.

## Capítulo XXIII. Triste, mas curto

Vim. E não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. Não era efeito da minha pátria política. Era efeito do lugar da infância: a rua, a torre, o chafariz da esquina. Era a mulher de mantilha, o preto do ganho, as coisas e as cenas da meninice, gravadas na memória. Nada menos que um renascimento. O espírito, como um pássaro, não ligou para a corrente dos anos. Voltou voando na direção da fonte original. Foi beber a água fresca e pura, ainda não misturada com o enxurro da vida.

Reparando bem, há aí um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a consternação da família. Meu pai me abraçou com lágrimas.

— Tua mãe não pode viver — disse ele.

De fato, já não era o reumatismo que a matava, era um câncer no estômago. A infeliz sofria de um modo cru, porque o câncer é indiferente às virtudes da pessoa. Quando rói, rói; roer é o seu ofício. Minha irmã Sabina, já casada com o Cotrim, estava caindo de cansaço. Pobre moça! Dormia três horas por noite, nada mais. O próprio tio João estava abatido e triste. D. Eusébia e algumas outras senhoras também estavam lá, não menos tristes e não menos dedicadas.

— Meu filho!

A dor soltou as suas tenazes por um momento. Um sorriso iluminou o rosto da doente, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira. A beleza tinha passado, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca. Eu mal poderia reconhecê-la. Fazia oito ou nove anos que não nos víamos. Ajoelhado ao pé da cama, com as mãos dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto. Não tinha coragem de falar, porque cada palavra seria um soluço, e nós tínhamos medo de avisá-la do fim. Medo inútil! Ela sabia que estava perto de acabar. Ela me disse isso, e vimos que era verdade na manhã seguinte.

Longa foi a agonia, longa e cruel. Foi uma crueldade minuciosa, fria, repetida, que me encheu de dor e de espanto. Era a primeira vez que eu via alguém morrer. Eu conhecia a morte de ouvir falar. No máximo, já a tinha visto petrificada no rosto de algum cadáver que acompanhei ao cemitério. Ou trazia a ideia dela embrulhada nos exageros de retórica dos professores de coisas antigas. Era a morte traiçoeira de César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de Catão. Mas aquele era o duelo do ser e do não ser, a morte em ação, dolorosa, contraída, convulsa. Não tinha aparato político ou filosófico. Era a morte de uma pessoa amada, e foi a primeira vez que pude encará-la. Não chorei. Lembro que não chorei durante o espetáculo. Eu tinha os olhos estúpidos, a garganta presa, a consciência de boca aberta. O quê? Aquela criatura tão dócil, tão meiga, tão santa nunca tinha feito ninguém chorar de desgosto. Era mãe carinhosa, esposa imaculada. E tinha que morrer assim, torturada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...

Triste capítulo; passemos a outro mais alegre.

### Glossário

- **chafariz**: fonte pública de água.
- **mantilha**: véu que as mulheres usavam na cabeça e nos ombros.
- **preto do ganho**: escravizado que trabalhava na rua e dava o dinheiro ao senhor; expressão antiga e ofensiva.
- **enxurro**: água suja que corre depois de uma chuva forte.
- **lugar-comum**: ideia repetida, sem novidade.
- **consternação**: tristeza profunda, com espanto.
- **rói, roer**: gastar aos poucos com os dentes, como faz o rato.
- **tenazes**: ferramenta forte para apertar e segurar.
- **minuciosa**: atenta a cada pequeno detalhe.
- **petrificada**: transformada em pedra.
- **embrulhada**: coberta, como um pacote.
- **retórica**: arte de falar bonito.
- **traiçoeira**: feita com traição.
- **austera**: séria e dura.
- **aparato**: pompa, conjunto de coisas que dão grandeza.
- **convulsa**: com tremores fortes.
- **imaculada**: sem mancha, pura.
- **incongruente**: sem lógica, sem sentido.

## Capítulo XXIV. Curto, mas alegre

Fiquei prostrado. E, no entanto, eu era naquele tempo um fiel resumo de trivialidade e presunção. Nunca o problema da vida e da morte tinha pesado sobre o meu cérebro. Até aquele dia, nunca tinha me debruçado sobre o abismo do Inexplicável. Faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...

Para dizer toda a verdade a vocês, eu refletia as opiniões de um cabeleireiro que encontrei em Modena. Ele se distinguia por não ter absolutamente nenhuma. Era a flor dos cabeleireiros. Por mais demorado que fosse o trabalho no cabelo, nunca cansava ninguém. Entre uma penteada e outra, soltava muitos ditos e piadas grosseiras, cheios de um picante, de um sabor... E não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade não me tivesse ensinado alguma. Mas decorei só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei a filosofia como tratei o latim: guardei no bolso três versos de Virgílio e dois de Horácio. Guardei também uma dúzia de frases morais e políticas, para as despesas da conversa. Tratei tudo isso como tratei a história e o direito. De todas as coisas colhi as frases, a casca, a decoração. O selvagem leva no peito conchas do mar e dentes de pessoa morta. Aquela casca era o mesmo para o meu espírito, vaidoso e nu.

Talvez espante ao leitor a franqueza com que mostro e destaco a minha mediocridade. Lembre-se de que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, há o olhar da opinião, o choque dos interesses, a luta das cobiças. Tudo isso obriga a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgos e os remendos. Obriga a não mostrar ao mundo as revelações que fazemos à consciência. E o melhor dessa obrigação vem quando, de tanto enganar os outros, um homem engana a si mesmo. Porque, nesse caso, se poupa da vergonha, que é uma sensação dolorosa, e da hipocrisia, que é um vício horrível. Mas, na morte, que diferença! Que alívio! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, jogar no fosso as lantejoulas! Como pode se despregar, se despintar, se desenfeitar, e confessar claramente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos. Não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a força logo que pisamos o território da morte. Não digo que ele não chegue até aqui, e não nos examine e julgue. Mas nós é que não ligamos para o exame nem para o julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

### Glossário

- **prostrado**: sem forças, abatido.
- **trivialidade**: o que é comum e sem valor.
- **presunção**: ideia exagerada do próprio valor.
- **debruçado**: inclinado para a frente, por cima de alguma coisa.
- **vertigem**: tontura; aqui, o medo diante de uma coisa muito grande.
- **grosseiras**: vulgares, sem educação.
- **selvagem**: palavra antiga e ofensiva para povos indígenas e africanos.
- **vaidoso**: que tem orgulho demais de si mesmo.
- **franqueza**: qualidade de quem diz tudo com sinceridade.
- **cobiças**: desejos fortes de ter o que é dos outros.
- **remendos**: pedaços de pano costurados para cobrir um buraco.
- **lantejoulas**: pequenos discos brilhantes que enfeitam a roupa.
- **fosso**: buraco comprido e fundo na terra.
- **despregar, despintar, desenfeitar**: tirar os pregos, a pintura e os enfeites; aqui, mostrar-se como se é.
- **incomensurável**: tão grande que não se pode medir.
- **desdém**: falta de respeito ou de interesse por alguém.
- **finados**: pessoas mortas.

## Capítulo XXV. Na Tijuca

Ui! Minha pena já ia escorregando para o enfático. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, nas primeiras semanas depois da morte de minha mãe.

No sétimo dia, acabou a missa fúnebre. Peguei uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos e um moleque, o Prudêncio do capítulo XI. Fui me meter numa velha casa da família. Meu pai fez força para mudar a minha decisão, mas eu não podia nem queria obedecer. Sabina queria que eu fosse morar com ela algum tempo, duas semanas ao menos. Meu cunhado quase me levou à força. Era um bom rapaz, esse Cotrim; tinha passado de farrista a homem sério. Agora negociava em gêneros de estiva e trabalhava de manhã até a noite, com energia, com perseverança. De noite, sentado à janela, enrolando as suíças, não pensava em outra coisa. Amava a mulher e um filho que tinha então, e que morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei a tudo. Meu espírito estava atônito. Creio que foi por esse tempo que começou a se abrir em mim a hipocondria. Era essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro embriagador e sutil.

«Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!»

Quando essa frase de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembro que estava sentado debaixo de um tamarindeiro, com o livro do poeta aberto nas mãos. O espírito estava ainda mais cabisbaixo do que a figura, ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Eu apertava ao peito a minha dor calada, com uma sensação única. Era uma coisa que eu poderia chamar de volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decore esta expressão, leitor. Guarde-a, examine-a, e, se não chegar a entendê-la, pode concluir uma coisa. Você ignora uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.

Às vezes eu caçava, outras dormia, outras lia. Lia muito. Outras vezes, enfim, não fazia nada. Eu me deixava levar de ideia em ideia, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caía, as sombras da noite cobriam a montanha e a cidade. Ninguém me visitava. Recomendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira assim, sem dizer palavra. Isso era bastante para me sacudir para fora da Tijuca e me devolver ao movimento. De fato, ao fim de sete dias, eu estava farto da solidão. A dor tinha se acalmado. O espírito já não se contentava com a espingarda e os livros, nem com a vista das árvores e do céu. A juventude reagia; era preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os hipocondríacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas. Ia fechá-lo, quando o moleque Prudêncio me disse uma coisa. Uma pessoa conhecida tinha se mudado, na véspera, para uma casa roxa, a duzentos passos da nossa.

— Quem?

— Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusébia...

— Lembro... É ela?

— Ela e a filha. Vieram ontem de manhã.

Logo me lembrei do episódio de 1814 e fiquei envergonhado. Mas percebi que os acontecimentos tinham me dado razão. Na verdade, tinha sido impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do sargento-mor. Antes mesmo do meu embarque, já se falava em segredo do nascimento de uma menina. Meu tio João me mandou dizer depois que o Vilaça, ao morrer, deixou um bom legado a D. Eusébia. Isso deu muito que falar em todo o bairro. O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, que tinha muitas folhas. Os acontecimentos tinham me dado razão. Mas, ainda que não me dessem, 1814 já ia longe. E com ele iam a travessura, o Vilaça e o beijo da moita. Afinal, não existia nenhuma relação estreita entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú.

— Nhonhô não vai visitar sinhá D. Eusébia? — perguntou o Prudêncio. — Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei que a tinha visto, entre outras senhoras, na ocasião da morte e do enterro. Mas não sabia que ela tinha prestado à minha mãe esse último favor. A observação do moleque era razoável. Eu devia uma visita a ela. Decidi fazê-la imediatamente, e descer.

### Glossário

- **escorregando**: deslizando sem controle.
- **enfático**: dito com força exagerada, em tom solene.
- **espingarda**: arma de fogo de cano longo, usada para caçar.
- **charutos**: rolos grossos de folhas de tabaco, para fumar.
- **moleque**: menino escravizado; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **gêneros de estiva**: mercadorias vendidas em grande quantidade, trazidas por navio.
- **suíças**: barba nos lados do rosto.
- **avaro**: quem guarda o dinheiro e não gosta de gastar.
- **atônito**: muito espantado, sem saber o que fazer.
- **hipocondria**: tristeza doentia.
- **mórbida**: doentia.
- **embriagador**: que deixa a pessoa como bêbada.
- **sutil, sutis**: leve, difícil de perceber.
- **tamarindeiro**: árvore de frutos ácidos, os tamarindos.
- **cabisbaixo**: de cabeça baixa, triste.
- **jururu**: triste, de cabeça baixa.
- **volúpia**: prazer muito forte.
- **aborrecimento**: tédio, falta de vontade de fazer qualquer coisa.
- **faminta**: com muita fome.
- **pingando**: caindo gota a gota.
- **sargento-mor**: antigo posto militar.
- **legado**: o que uma pessoa deixa para outra ao morrer.
- **nhonhô, sinhá**: formas como pessoas escravizadas chamavam os senhores.

## Capítulo XXVI. O autor hesita

De repente, ouço uma voz:

— Olá, meu rapaz, isto não é vida!

Era meu pai, que chegava com duas propostas no bolso. Sentei-me no baú e o recebi sem entusiasmo. Ele ficou alguns instantes de pé, olhando para mim. Depois estendeu-me a mão com um gesto comovido:

— Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

— Já me conformei — foi a minha resposta, e beijei a mão dele.

Eu ainda não tinha almoçado, e almoçamos juntos. Nenhum de nós falou do triste motivo da minha reclusão. Falamos nisso uma só vez, de passagem, quando meu pai levou a conversa para a Regência. Foi então que mencionou a carta de pêsames que um dos Regentes lhe tinha mandado. Trazia a carta consigo, já bastante amassada, talvez por tê-la lido a muitas outras pessoas. Acho que já disse que era de um dos Regentes. Ele a leu para mim duas vezes.

— Já fui agradecer a ele este sinal de consideração — concluiu meu pai —, e acho que deves ir também...

— Eu?

— Tu. É um homem notável, faz hoje o papel de Imperador. Além disso, trago comigo uma ideia, um projeto, ou... sim, digo-te tudo. Trago dois projetos: um lugar de deputado e um casamento.

Meu pai disse isto devagar, com pausas, e não no mesmo tom. Deu às palavras um jeito e uma ordem para cavá-las mais fundo no meu espírito. A proposta, porém, era tão diferente das minhas últimas sensações que não cheguei a entendê-la bem. Meu pai não desistiu e a repetiu. Elogiou muito o lugar e a noiva.

— Aceitas?

— Não entendo de política — disse eu depois de um instante. — Quanto à noiva... deixe-me viver como um urso, que é o que sou.

— Mas os ursos casam-se — respondeu ele.

— Então traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior.

Meu pai riu e, depois de rir, voltou a falar sério. Eu precisava da carreira política, dizia ele, por vinte e tantas razões. Ele as explicou com uma rapidez singular, dando exemplos de pessoas que conhecíamos. Quanto à noiva, bastava que eu a visse. Se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem esperar nem um dia. Tentou assim o encanto, depois a persuasão, depois a ordem. Eu não dava resposta. Afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, sorrindo ou refletindo. Para dizer tudo, não estava nem dócil nem rebelde diante da proposta. Sentia-me tonto. Uma parte de mim dizia que sim, que uma esposa bonita e uma posição política eram bens de valor. Outra parte dizia que não. E a morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, dos afetos, da família...

— Não saio daqui sem uma resposta definitiva — disse meu pai. — De-fi-ni-ti-va! — repetiu, batendo as sílabas com o dedo.

Bebeu o último gole de café e recostou-se bem na cadeira. Depois começou a falar de tudo. Falou do Senado, da Câmara, da Regência, da restauração, do Evaristo. Falou de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Mata-cavalos... Eu ficava no canto da mesa, escrevendo como um louco num pedaço de papel, com uma ponta de lápis. Traçava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um triângulo. Repetia tudo muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:

arma virumque cano A Arma virumque cano arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque

Tudo isso era mecânico. Mesmo assim, havia certa lógica, certa dedução. Por exemplo, foi o *virumque* que me fez chegar ao nome do próprio poeta, por causa da primeira sílaba. Eu ia escrever *virumque*, e me sai *Virgílio*. Então continuei:

Vir Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio

Meu pai, um pouco ofendido com aquela indiferença, levantou-se e veio até mim. Olhou para o papel...

— Virgílio! — exclamou. — És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília.

### Glossário

- **baú**: caixa grande com tampa, para guardar roupas e objetos.
- **reclusão**: vida longe das outras pessoas.
- **Regência**: governo do Brasil em nome do imperador, quando ele ainda era criança.
- **pêsames**: palavras de tristeza que se dizem à família de um morto.
- **Ursa Maior**: grupo de estrelas do céu do norte.
- **palito**: pedaço fino e pequeno de madeira, usado para limpar os dentes.
- **miolo**: a parte macia de dentro do pão.
- **dócil**: que obedece com facilidade.
- **recostou-se**: inclinou o corpo para trás, para descansar.
- **restauração**: aqui, a ideia de trazer de volta ao poder o antigo imperador.
- **coche**: carruagem grande e luxuosa.
- **arma virumque cano**: palavras em latim que abrem a *Eneida*, de Virgílio: "canto as armas e o homem".

## Capítulo XXVII. Virgília?

Virgília? Mas então era a mesma senhora que, alguns anos depois...? A mesma. Era justamente a senhora que, em 1869, ia assistir aos meus últimos dias. E antes, muito antes, ela teve grande parte nas minhas sensações mais íntimas. Naquele tempo tinha apenas uns quinze ou dezesseis anos. Era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já fosse a mais bonita entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance. No romance, o autor doura a realidade e fecha os olhos às sardas e às espinhas. Mas também não digo que o rosto dela tivesse alguma sarda ou espinha. Não. Era bonita, como tinha saído das mãos da natureza. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, ignorante, infantil. Tinha muita preguiça e alguma devoção — devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que mais tarde ia influenciar a minha vida. Era aquilo aos dezesseis anos. Você que me lê, se ainda estiver viva quando estas páginas aparecerem... Você que me lê, Virgília amada, não nota a diferença? A linguagem de hoje não é a que usei primeiro, quando a vi. Acredite: eu era tão sincero então como agora. A morte não me tornou rabugento nem injusto.

— Mas — dirá você —, e se você não guardou na retina da memória a imagem do que eu fui? Como pode, então, distinguir a verdade daquele tempo e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra. É esse poder de restaurar o passado. Assim podemos tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixe o Pascal dizer que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior. E ela também será corrigida, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

### Glossário

- **voluntariosa**: que quer sempre fazer a própria vontade.
- **sardas**: pequenas manchas escuras na pele.
- **devoção**: sentimento religioso, prática da religião.
- **retina**: parte do olho que recebe as imagens.
- **ignorantona**: pessoa muito ignorante; aqui, dito em tom de brincadeira.
- **caniço**: planta de caule fino e fraco, que o vento dobra.
- **errata**: lista dos erros de um livro, com as correções.
- **edição**: cada impressão de um livro, às vezes com mudanças.

## Capítulo XXVIII. Contanto que...

— Virgília? — interrompi eu.

— Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...

— Que Dutra?

— O Conselheiro Dutra. Não conheces. É uma influência política. Vamos lá: aceitas?

Não respondi logo. Olhei por alguns segundos a ponta da bota. Depois declarei que estava disposto a examinar as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que...

— Contanto que?

— Contanto que eu não fique obrigado a aceitar as duas. Creio que posso ser separadamente homem casado ou homem público...

— Todo o homem público deve ser casado — interrompeu meu pai, em tom de sentença. — Mas seja como queres. Estou de acordo com tudo. Tenho certeza de que, quando a vires, vais acreditar. Além disso, a noiva e o casamento são a mesma coisa... isto é, não... saberás depois... Vá lá, aceito a demora, contanto que...

— Contanto que?... — interrompi eu, imitando a voz dele.

— Ah! brejeiro! Contanto que não fiques aí inútil, obscuro e triste. Não gastei dinheiro, cuidados e esforços para não te ver brilhar. Deves brilhar: isso convém a ti e a todos nós. É preciso continuar o nosso nome, continuá-lo e torná-lo ainda mais ilustre. Olha, estou com sessenta anos, mas, se fosse necessário começar vida nova, começaria sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens têm valor de modos diferentes. O mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...

E o mágico continuou, agitando diante de mim um chocalho, como faziam quando eu era pequeno, para eu andar depressa. E a flor da hipocondria se fechou de novo em botão, para deixar lugar à outra flor. Esta era menos amarela e nada mórbida: o amor da fama, o emplasto Brás Cubas.

### Glossário

- **pateta**: pessoa boba; aqui, dito com carinho.
- **azougue**: mercúrio, metal líquido que se move depressa; aqui, pessoa muito viva.
- **conselheiro**: título de homem importante, que aconselhava o governo.
- **brejeiro**: malandro, esperto; dito com carinho.
- **obscuro**: sem fama, desconhecido.
- **ínfimo**: muito baixo, sem importância.
- **chocalho**: brinquedo de bebê que faz barulho quando é sacudido.
- **hipocondria**: tristeza doentia.
- **mórbida**: doentia.

## Capítulo XXIX. A visita

Meu pai tinha vencido. Resolvi aceitar o diploma e o casamento, Virgília e a Câmara dos Deputados.

— As duas Virgílias — disse ele, num momento de ternura política.

Aceitei-os, e meu pai me deu dois abraços fortes. Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia. A rigor, o filho dele acabava de desembarcar naquele instante, de casaco de linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pai alguma coisa do velho Cid. Era a alma dele, que tinha juntado numa só chama todas as suas últimas faíscas.

— Desces comigo?

— Desço amanhã. Primeiro vou fazer uma visita a D. Eusébia...

Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada. Despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusébia. Encontrei-a repreendendo um preto jardineiro. Mas deixou tudo para vir falar comigo, com uma agitação e um prazer tão sinceros que logo perdi a timidez. Creio que chegou a me abraçar com o seu par de braços fortes. Fez-me sentar ao lado dela, na varanda, entre muitas exclamações de alegria:

— Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos... Um homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...

Eu disse que me lembrava, sim, que não era possível esquecer uma amiga tão próxima da nossa casa. D. Eusébia começou a falar de minha mãe, com muitas saudades. Falou com tantas saudades que logo me conquistou, embora me deixasse triste. Ela viu isso nos meus olhos e mudou o rumo da conversa. Pediu-me que contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros também. Confessou-me que era uma velha patusca. Nisto me lembrei do episódio de 1814: ela, o Vilaça, a moita, o beijo, o meu grito. E, enquanto me lembrava disso, ouço o ranger de uma porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

— Mamãe... mamãe...

### Glossário

- **diploma**: aqui, documento que dá ao deputado o direito ao cargo.
- **ternura**: sentimento de carinho.
- **desembarcar**: sair de um navio e chegar a terra.
- **Cid**: herói espanhol da Idade Média, famoso pela coragem e pela honra.
- **faíscas**: pequenos pontos de fogo que saltam de uma chama.
- **torceu o nariz**: mostrou que não gostou.
- **repreendendo**: falando duro com alguém que fez algo errado.
- **preto**: palavra da época para pessoa negra e escravizada; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **homenzarrão**: homem grande e forte.
- **patusca**: que gosta de diversão.
- **moita**: grupo fechado de plantas baixas.
- **ranger**: som de uma porta velha quando se move.
- **farfalhar**: barulho leve de tecido ou de folhas em movimento.

## Capítulo XXX. A flor da moita

A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena. Ela parou à porta alguns instantes, ao ver gente estranha. Houve um silêncio curto e constrangido. Enfim, D. Eusébia o quebrou, com decisão e franqueza:

— Venha cá, Eugênia — disse ela. — Cumprimente o Dr. Brás Cubas, filho do Sr. Cubas. Ele veio da Europa.

E, voltando-se para mim:

— Minha filha Eugênia.

Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz. Olhou-me admirada e tímida, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arrumou uma das tranças dela, cuja ponta tinha se soltado.

— Ah! travessa! — dizia. — Não imagina, doutor, o que isto é...

E beijou-a com tão grande ternura que me comoveu um pouco. Lembrei-me de minha mãe e — vou dizer tudo — tive uma pequena vontade de ser pai.

— Travessa? — disse eu. — Mas já não está em idade para isso, ao que parece.

— Quantos lhe dá?

— Dezessete.

— Menos um.

— Dezesseis. Pois então! é uma moça.

Eugênia não pôde esconder a satisfação que sentia com esta minha palavra. Mas logo se corrigiu e ficou como antes, ereta, fria e muda. Talvez fosse criança nas suas brincadeiras de moça. Mas assim quieta, impassível, tinha a compostura de uma senhora. Depressa ficamos à vontade. A mãe fazia-lhe grandes elogios, e eu os escutava de boa vontade. Ela sorria, com os olhos brilhantes. Era como se lá dentro do cérebro estivesse voando uma pequena borboleta de asas de ouro e olhos de diamante...

Digo lá dentro, porque cá fora o que voou foi uma borboleta preta. Ela entrou de repente na varanda e começou a bater as asas em volta de D. Eusébia. D. Eusébia deu um grito, levantou-se e soltou umas pragas:

— Te esconjuro!... Sai, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...

— Não tenha medo — disse eu.

Tirei o lenço e expulsei a borboleta. D. Eusébia sentou-se outra vez, ofegante, um pouco envergonhada. A filha, talvez pálida de medo, escondia a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, rindo comigo da superstição das duas mulheres. Era um riso filosófico, desinteressado, superior. À tarde, vi passar a cavalo a filha de D. Eusébia, seguida de um pajem. Ela me cumprimentou com a ponta do chicote. Confesso que gostei da ideia de que, alguns passos adiante, ela ia voltar a cabeça para trás. Mas não voltou.

### Glossário

- **moita**: grupo fechado de plantas baixas; aqui, lembra o lugar do beijo de 1814.
- **constrangido**: sem jeito, pouco à vontade.
- **travessa**: que faz pequenas brincadeiras e desobedece.
- **ternura**: sentimento de carinho.
- **ereta**: com as costas bem direitas.
- **impassível**: que não mostra emoção.
- **compostura**: modo sério e correto de se comportar.
- **pragas**: palavras de raiva, para desejar o mal.
- **te esconjuro**: frase para afastar o diabo ou o mal.
- **ofegante**: respirando depressa e com dificuldade.
- **pálida**: sem cor no rosto.
- **superstição**: crença em sinais de sorte e de azar.
- **pajem**: rapaz que acompanhava e servia uma pessoa rica.

## Capítulo XXXI. A borboleta preta

No dia seguinte, quando eu me preparava para descer, entrou no meu quarto uma borboleta. Era tão negra como a outra e muito maior do que ela. Lembrei-me do caso da véspera e ri. Logo comecei a pensar na filha de D. Eusébia, no susto que tinha levado. Pensei na dignidade que, apesar dele, ela soube conservar. A borboleta, depois de voar muito em volta de mim, pousou na minha testa. Eu a sacudi, e ela foi pousar na vidraça. Sacudi-a de novo, e ela saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. Uma vez pousada, começou a mover as asas com um gesto brando. Esse gesto tinha um certo ar de zombaria, uma espécie de ironia mefistofélica, que me aborreceu muito. Dei de ombros e saí do quarto. Mas voltei minutos depois e a encontrei ainda no mesmo lugar. Senti um choque nos nervos, peguei uma toalha, bati nela e ela caiu.

Não caiu morta. Ainda torcia o corpo e movia as anteninhas da cabeça. Tive pena. Peguei-a na palma da mão e fui colocá-la no peitoril da janela. Era tarde: a infeliz morreu em alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

— Também por que diabo não era ela azul? — disse eu comigo.

E esta reflexão — uma das mais profundas que se têm feito desde a invenção das borboletas — me consolou do mal. Ela me reconciliou comigo mesmo. Fiquei olhando o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela tinha saído do mato, já almoçada e feliz. A manhã era linda. Ela veio por ali, modesta e negra, passeando as suas borboletices sob a vasta cúpula de um céu azul. É um céu que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e me encontra. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem. Deu infinitas voltas em torno do meu corpo e viu que eu me movia. Viu que eu tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas.» A ideia a dominou e a aterrorizou. Mas o medo também dá ideias. Sugeriu-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa. E ela me beijou na testa. Quando eu a enxotei, ela foi pousar na vidraça. Dali viu o retrato de meu pai. Não é impossível que tenha descoberto meia verdade: que ali estava o pai do inventor das borboletas. E voou para lhe pedir misericórdia.

Pois um golpe de toalha acabou com a aventura. De nada lhe valeu a imensidão azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes. De nada valeram contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizer, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria a vida mais segura. Não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia me devolveu a consolação. Uni o dedo grande ao polegar, dei um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo: aí vinham já as formigas previdentes... Não, volto à primeira ideia. Creio que para ela era melhor ter nascido azul.

### Glossário

- **vidraça**: vidro de uma janela.
- **mefistofélica**: própria de Mefistófeles, o diabo que zomba das pessoas.
- **peitoril**: parte baixa da janela, onde se pode apoiar os braços.
- **borboletices**: palavra inventada: coisas que as borboletas fazem.
- **enxotei**: fiz sair, afastei com um gesto.
- **palmos**: medida antiga, do tamanho de uma mão aberta.
- **piparote**: golpe leve com o dedo.
- **previdentes**: que pensam no futuro e se preparam para ele.

## Capítulo XXXII. Coxa de nascença

Fui dali acabar os preparativos da viagem. Agora já não me demoro mais. Desço imediatamente. Desço, ainda que algum leitor circunspecto me pare com uma pergunta. Ele quer saber se o capítulo passado é apenas uma bobagem ou se chega a ser uma zombaria... Ai de mim! Não contava com D. Eusébia. Eu estava pronto quando ela entrou em casa. Vinha me convidar a adiar a descida e ir jantar lá nesse dia. Cheguei a recusar. Mas ela insistiu tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar. Além disso, eu lhe devia aquela compensação. Fui.

Eugênia se vestiu sem enfeites nesse dia, por minha causa. Creio que foi por minha causa — se é que não andava assim muitas vezes. Já não usava os brincos de ouro da véspera. Tinha um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites. Na gola, em vez de broche, um botão de madrepérola. Outro botão nos punhos fechava as mangas. E nem sombra de pulseira.

Assim era por fora; por dentro não era outra coisa. Ideias claras, maneiras simples, certa graça natural, um ar de senhora.

— Agora vou lhe mostrar a chácara — disse a mãe, logo que acabamos o último gole de café.

Saímos à varanda e dali à chácara. Foi então que notei uma circunstância. Eugênia mancava um pouco, tão pouco que cheguei a lhe perguntar se machucara o pé. A mãe ficou calada. A filha respondeu sem hesitar:

— Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos. Chamei-me desastrado, grosseirão. De fato, a simples possibilidade de ela ser coxa bastava para eu não perguntar nada. Então me lembrei de uma coisa. Na primeira vez que a vi, na véspera, a moça tinha se aproximado lentamente da cadeira da mãe. E naquele dia já a encontrei à mesa de jantar. Talvez fosse para esconder o defeito. Mas por que razão o confessava agora? Olhei para ela e vi que estava triste.

Tratei de apagar os vestígios do meu erro. Não foi difícil, porque a mãe era, como tinha confessado, uma velha patusca, e logo começou a conversar comigo. Vimos toda a chácara: árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas. Ela ia me mostrando e comentando tudo. E eu, de lado, examinava os olhos de Eugênia...

Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são. Vinha de uns olhos pretos e tranquilos. Creio que duas ou três vezes eles baixaram para o chão, um pouco perturbados. Mas só duas ou três vezes. Em geral, olhavam para mim com franqueza, sem atrevimento nem falsa modéstia.

### Glossário

- **coxa**: mulher que manca.
- **de nascença**: desde o nascimento.
- **circunspecto**: sério e cuidadoso.
- **enfeites**: coisas que se usam para ficar mais bonito, como joias e fitas.
- **cassa**: tecido leve e fino de algodão.
- **broche**: joia que se prende na roupa.
- **madrepérola**: material brilhante do interior de certas conchas.
- **chácara**: casa com terreno e árvores.
- **mancava**: andava com dificuldade, sem apoiar bem uma perna.
- **mandei-me a todos os diabos**: fiquei com muita raiva de mim mesmo.
- **desastrado**: pessoa sem jeito, que faz as coisas mal.
- **grosseirão**: homem mal-educado e sem delicadeza.
- **patusca**: que gosta de diversão.
- **atrevimento**: coragem demais, falta de respeito.

## Capítulo XXXIII. Bem-aventurados os que não descem

O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes uma imensa zombaria. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Era essa a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite. E não encontrava a solução do enigma. Quando não se resolve um enigma, o melhor é jogá-lo pela janela. Foi o que eu fiz. Peguei uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que voava no meu cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou o bichinho entrar de novo. E ali fiquei eu a noite toda, cavando o mistério sem conseguir explicá-lo.

Amanheceu chovendo e adiei a descida. Mas no outro dia a manhã era limpa e azul, e mesmo assim fiquei. Fiquei também no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Eram manhãs bonitas, frescas, convidativas. Lá embaixo a família me chamava, e a noiva, e o parlamento. E eu não atendia a nada, encantado ao lado da minha Eugênia. Encantado é um modo de enfeitar o estilo. Não havia encanto, mas gosto, uma certa satisfação moral. Queria-lhe, é verdade. Ao lado dessa criatura tão simples, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, eu me sentia bem. E creio que ela se sentia ainda melhor ao meu lado. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. D. Eusébia nos vigiava, mas pouco; equilibrava a necessidade com a conveniência. E a filha me dava a sua confiança.

— O senhor desce amanhã? — disse ela no sábado.

— Pretendo.

— Não desça.

Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: Bem-aventurados os que não descem. No domingo, ela me mostrou que pensava em casamento. Pobre Eugênia! Se você soubesse que ideias me passavam pela mente naquela ocasião! Você via em mim o seu bem-vindo esposo, e eu estava com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça.

D. Eusébia entrou de repente. Eu estava à janela. Eugênia sentou-se para arrumar uma das tranças e escondeu o que sentia. Que dissimulação graciosa! Que arte infinita e delicada! Que tartufice profunda! E tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eusébia não suspeitou nada.

### Glossário

- **descer**: aqui, sair da Tijuca, que é alta, e voltar para a cidade.
- **lúcidos**: claros, inteligentes.
- **senhoril**: próprio de uma senhora séria e fina.
- **enigma**: coisa difícil de entender.
- **fresta**: abertura pequena por onde entra luz ou ar.
- **bichinho**: animal pequeno; aqui, a borboleta preta.
- **cavando**: abrindo um buraco na terra; aqui, tentando entender.
- **enfeitar**: deixar mais bonito.
- **queria-lhe**: gostava dela.
- **espúria**: nascida fora do casamento.
- **égloga**: poema sobre a vida simples no campo.
- **versículo**: cada pequena parte de um texto da Bíblia.
- **bem-aventurados**: muito felizes; palavra da Bíblia.
- **dissimulação**: ato de esconder o que se sente.
- **graciosa**: leve e delicada.
- **tartufice**: falsidade, fingimento; vem de Tartufo, personagem de teatro.

## Capítulo XXXIV. A uma alma sensível

Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível. Com certeza ela está um pouquinho irritada com o capítulo anterior. Começa a tremer pela sorte de Eugênia. E talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame de cínico. Eu, cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa neste mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem. Meu cérebro foi um palco em que se deram peças de todo gênero. Ali havia o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia alegre, a farsa desgrenhada, os autos, as bufonarias. Era um pandemônio, alma sensível, uma confusão de coisas e pessoas. Ali você podia ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do seu quintal. Podia ver do magnífico leito de Cleópatra ao canto da praia em que o mendigo treme no seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de todo tipo e feição. Ali não havia somente a atmosfera da águia e do beija-flor. Havia também a da lesma e do sapo. Retire, pois, a expressão, alma sensível. Castigue os nervos e limpe os óculos, porque isso às vezes é dos óculos. E acabemos de uma vez com esta flor da moita.

### Glossário

- **cínico**: quem não acredita na bondade e não tem vergonha do mal que faz.
- **injúria**: ofensa feita com palavras.
- **Diana**: deusa romana da caça.
- **austero**: sério e severo.
- **piegas**: sentimental em excesso.
- **farsa**: peça de teatro curta, cômica e simples.
- **desgrenhada**: despenteada, em desordem.
- **autos**: antigas peças de teatro, muitas vezes religiosas.
- **bufonarias**: brincadeiras de palhaço, grosseiras.
- **pandemônio**: lugar de grande confusão e barulho.
- **Esmirna**: antiga cidade da Ásia, hoje na Turquia, famosa pelas suas rosas.
- **arruda**: planta simples de quintal, de cheiro forte.
- **feição**: forma, aspecto.

## Capítulo XXXV. O caminho de Damasco

Ora aconteceu que, oito dias depois, quando eu estava no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa. Ela me sussurrou as palavras da Escritura (*Atos*, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saía de mim mesmo e tinha duas origens. Uma era a piedade, que me desarmava diante da inocência da pequena. A outra era o terror de chegar a amá-la de verdade e casar com ela. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há dúvida de que ela o descobriu e me disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, quando anunciei que desceria na manhã seguinte.

— Adeus — suspirou ela, estendendo-me a mão com simplicidade. — Faz bem.

E como eu não dissesse nada, continuou:

— Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo.

Eu ia dizer que não, mas ela se afastou lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos. Jurei por todos os santos do céu que era obrigado a descer, mas que continuava a lhe querer, e muito. Eram tudo exageros frios, que ela escutou sem dizer nada.

— Acredita-me? — perguntei no fim.

— Não; e digo-lhe que faz bem.

Quis retê-la, mas o olhar que me lançou já não era de súplica, e sim de ordem. Desci da Tijuca na manhã seguinte, um pouco amargurado, um pouco satisfeito. E vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai. Que era conveniente seguir a carreira política... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavalo...

### Glossário

- **caminho de Damasco**: na Bíblia, o lugar onde São Paulo ouve uma voz e muda de vida.
- **Escritura**: a Bíblia.
- **Atos**: *Atos dos Apóstolos*, livro da Bíblia.
- **piedade**: pena, compaixão.
- **ridículo**: situação que faz os outros rirem de alguém.
- **retê-la**: fazer com que ela ficasse.
- **súplica**: pedido humilde e aflito.
- **amargurado**: triste, com dor por dentro.

## Capítulo XXXVI. A propósito de botas

Meu pai, que não me esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.

— Agora é deveras? — disse ele. — Posso enfim...?

Deixei-o nessa reticência e fui tirar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei fundo e me deitei bem estendido. Enquanto isso, os pés, e eu todo atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então pensei que as botas apertadas são uma das maiores felicidades da terra. Porque, fazendo doer os pés, dão ocasião ao prazer de tirá-las. Castigue os pés, desgraçado, depois alivie-os, e aí tem a felicidade barata, ao gosto dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta ideia trabalhava no famoso trapézio, eu olhava para a Tijuca. Via a aleijadinha se perder no horizonte do passado. E sentia que o meu coração também não ia demorar a tirar as suas botas. E tirou. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse momento rápido, inefável e incontrolável de prazer. É o prazer que vem depois de uma dor forte, de uma preocupação, de um incômodo... Daqui concluí que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos. Porque só aguça a fome para dar a ocasião de comer. E não inventou os calos senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.

Você, minha Eugênia, é que nunca as tirou. Você foi pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres. Foi solitária, calada, trabalhadora, até que veio também para esta outra margem... O que não sei é se a sua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.

### Glossário

- **deveras**: de verdade.
- **reticência**: frase deixada sem terminar.
- **bem-aventurança**: grande felicidade.
- **Epicuro**: filósofo grego que ensinava que o prazer é o bem da vida.
- **trapézio**: aqui, o lugar do cérebro onde as ideias fazem acrobacias, como no capítulo II.
- **aleijadinha**: palavra antiga e ofensiva para pessoa com deficiência.
- **inefável**: que não se pode dizer com palavras.
- **manquejando**: mancando.
- **comparsa**: ator sem importância, que quase não aparece na peça.
- **patear**: bater com os pés no chão para mostrar que não gostou de uma peça.

## Capítulo XXXVII. Enfim

Enfim! eis aqui Virgília. Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum acordo prévio de casamento.

— Nenhum acordo. Há tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei o desejo que tinha de te ver deputado. Falei de tal modo que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que fará. Quanto à noiva, é o nome que dou a uma criaturinha. Ela é uma joia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... É a filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.

— Só isto?

— Só isto.

Fomos dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse homem: risonho, alegre, patriota. Estava um pouco irritado com os males públicos, mas não perdia a esperança de curá-los depressa. Achou que a minha candidatura era legítima; convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher — uma estimável senhora — e à filha. A filha não desmentiu em nada os elogios de meu pai. Juro-lhes que em nada. Releiam o capítulo XXVIII. Eu, que levava um plano a respeito da pequena, olhei para ela como quem conhece o plano. Ela, que não sei se o conhecia, me olhou do mesmo modo. No fim de um mês, já nos tratávamos com naturalidade.

### Glossário

- **conselheiro**: título de homem importante, que aconselhava o governo.
- **prévio**: feito antes.
- **pérola**: aqui, pessoa excelente.
- **patriota**: quem ama o seu país.
- **candidatura**: ato de se apresentar para um cargo.
- **estimável**: digna de respeito.
- **desmentiu**: mostrou que uma coisa não era verdade.
- **a pequena**: modo familiar de falar de uma moça.

## Capítulo XXXVIII. A quarta edição

— Venha jantar aqui amanhã — me disse o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de São Francisco de Paula e fui dar várias voltas. Vocês ainda se lembram da minha teoria das edições humanas? Pois fiquem sabendo que, naquele tempo, eu estava na quarta edição, revista e emendada. Mas ela ainda estava cheia de descuidos e erros de linguagem. Esse defeito tinha, aliás, alguma compensação: o tipo de letra era elegante e a encadernação era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, olho o relógio e o vidro cai na calçada. Entro na primeira loja que encontro. Era um cubículo, pouco mais do que isso, empoeirado e escuro.

No fundo, atrás do balcão, estava sentada uma mulher. Seu rosto, amarelo e marcado pelas bexigas, não aparecia bem à primeira vista. Mas, quando aparecia, era um espetáculo curioso. Ela não podia ter sido feia. Ao contrário, via-se que tinha sido bonita, e não pouco bonita. Mas a doença e uma velhice antes do tempo tinham destruído a flor da sua graça. As bexigas tinham sido terríveis. As marcas, grandes e muitas, formavam altos e baixos, subidas e descidas. Davam a sensação de uma lixa grossa, enormemente grossa. Os olhos eram a melhor parte da figura. Tinham, aliás, uma expressão estranha e repugnante, que mudou, porém, logo que comecei a falar. O cabelo, penteado sem cuidado, estava sem cor e quase tão empoeirado como os portais da loja. Num dos dedos da mão esquerda brilhava um diamante. Vocês acreditam, pessoas do futuro? Essa mulher era Marcela.

Não a reconheci logo; era difícil. Mas ela me reconheceu assim que lhe dirigi a palavra. Os olhos brilharam e trocaram a expressão de sempre por outra, meio doce e meio triste. Vi nela um movimento, como para se esconder ou fugir. Era o instinto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcela se acalmou e sorriu.

— Quer comprar alguma coisa? — disse ela, estendendo-me a mão.

Não respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu silêncio (não era difícil). Creio que ela só ficou em dúvida numa coisa. O que dominava mais, o espanto do presente ou a memória do passado? Ela me deu uma cadeira. Com o balcão entre nós, falou longamente de si mesma. Falou da vida que tinha levado, das lágrimas que eu a tinha feito chorar, das saudades, dos desastres. Falou, enfim, das bexigas, que tinham destruído o seu rosto. Falou do tempo, que tinha ajudado a doença e adiantado a sua decadência. A verdade é que sua alma estava muito velha. Ela tinha vendido tudo, quase tudo. Um homem que a tinha amado no passado, e que morreu nos braços dela, lhe deixou aquela loja de joias. Mas, para que a desgraça fosse completa, agora poucos procuravam a loja. Talvez fosse porque era estranho ver uma mulher dirigindo uma loja. Depois, ela me pediu que contasse a minha vida. Gastei pouco tempo nisso; não era longa nem interessante.

— Casou? — perguntou Marcela no fim da minha história.

— Ainda não — respondi secamente.

Marcela olhou para a rua, com o olhar parado de quem pensa ou recorda. Eu me deixei ir então ao passado. No meio das lembranças e saudades, perguntei a mim mesmo por que tinha feito tantas loucuras. Esta não era, certamente, a Marcela de 1822. Mas a beleza daquele tempo valia um terço dos meus sacrifícios? Era o que eu tentava saber, perguntando ao rosto de Marcela. O rosto me dizia que não. Ao mesmo tempo, os olhos me contavam que já no passado, como agora, ardia neles a chama da cobiça. Os meus é que não souberam ver isso; eram olhos da primeira edição.

— Mas por que entrou aqui? Me viu da rua? — perguntou ela, saindo daquela espécie de sono.

— Não. Pensei que entrava numa casa de relojoeiro. Queria comprar um vidro para este relógio. Vou a outro lugar. Desculpe-me, estou com pressa.

Marcela suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia ferido e aborrecido ao mesmo tempo, e queria muito sair daquela casa. Mas Marcela chamou um moleque e lhe deu o relógio. Apesar da minha oposição, mandou-o comprar o vidro numa loja da vizinhança. Não havia jeito; sentei-me outra vez. Ela disse então que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo. Observou que, mais tarde ou mais cedo, era natural que eu me casasse. E garantiu que me daria joias finas por preços baratos. Não disse *preços baratos*, mas usou uma metáfora delicada e transparente. Comecei a desconfiar que ela não tinha sofrido nenhum desastre (salvo a doença) e que tinha o dinheiro bem guardado. Ela negociava, desconfiei, com um único fim: alimentar a paixão do lucro, o verme que roía aquela vida. Foi isso mesmo que me disseram depois.

### Glossário

- **sege**: carruagem antiga.
- **encadernação**: a capa e o acabamento de um livro.
- **cubículo**: lugar muito pequeno e fechado.
- **bexigas**: varíola, doença que deixa marcas no rosto.
- **lixa**: papel áspero usado para alisar madeira.
- **repugnante**: que causa nojo.
- **cobiça**: desejo muito forte de ter dinheiro e bens.
- **moleque**: menino escravizado; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **luxuosa**: muito rica e cara.
- **empoeirado**: cheio de poeira.
- **ardia**: queimava.
- **relojoeiro**: quem faz e conserta relógios.
- **aborrecido**: incomodado, irritado.
- **roía**: comia aos poucos, com os dentes.

## Capítulo XXXIX. O vizinho

Enquanto eu fazia essa reflexão comigo mesmo, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapéu. Trazia pela mão uma menina de quatro anos.

— Como está desde hoje de manhã? — disse ele a Marcela.

— Assim, assim. Vem cá, Maricota.

O sujeito levantou a criança pelos braços e a passou para dentro do balcão.

— Vai — disse ele. — Pergunta a D. Marcela como passou a noite. Ela estava ansiosa para vir, mas a mãe ainda não tinha podido vesti-la... Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de marmelo! Assim... A senhora não imagina como ela é lá em casa. Fala na senhora a todo instante, e aqui parece uma pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?

— Não, não diga, papai.

— Então foi alguma coisa feia? — perguntou Marcela, dando um tapinha carinhoso no rosto da menina.

— Eu lhe conto. Todas as noites, a mãe a ensina a rezar um pai-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa Senhora. Mas ontem a pequena veio me pedir, com voz muito humilde... imagine o quê?... para oferecê-los a Santa Marcela.

— Coitadinha! — disse Marcela, beijando a menina.

— É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina... A mãe diz que é feitiço...

O sujeito contou mais algumas coisas, todas muito agradáveis. Depois saiu com a menina, não sem me lançar um olhar interrogativo ou desconfiado. Perguntei a Marcela quem era ele.

— É um relojoeiro da vizinhança, um bom homem. A mulher também. E a filha é uma graça, não é? Parecem gostar muito de mim... É boa gente.

Ao dizer estas palavras, havia um tremor de alegria na voz de Marcela. E no seu rosto pareceu se espalhar uma onda de felicidade...

### Glossário

- **sujeito**: homem; palavra usada para alguém que não se conhece bem.
- **balcão**: móvel comprido de uma loja, entre quem vende e quem compra.
- **Toma a bênção**: pede a bênção; gesto de respeito de uma criança para com um adulto.
- **vara de marmelo**: galho fino usado para castigar crianças.
- **pamonha**: aqui, pessoa parada e sem jeito.
- **pai-nosso, ave-maria**: orações católicas.
- **namoro**: aqui, carinho simples de criança por um adulto.
- **feitiço**: magia; aqui, um encanto que a menina sente por Marcela.
- **relojoeiro**: quem faz e conserta relógios.

## Capítulo XL. Na sege

Nisso entrou o moleque, trazendo o relógio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar ali. Dei uma pequena moeda de prata ao moleque. Disse a Marcela que voltaria em outra ocasião e saí a passos largos. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco. Mas era uma espécie de sino de enterro. Meu espírito estava preso entre impressões opostas. Notem que aquele dia tinha amanhecido alegre para mim. No almoço, meu pai me repetiu, por antecipação, o primeiro discurso que eu tinha de fazer na Câmara dos Deputados. Rimos muito, e o sol também ria, brilhante como nos mais belos dias do mundo. Do mesmo modo Virgília devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. E de repente o vidro do relógio cai. Entro na primeira loja que encontro. E eis que surge o passado. Ele me fere e me beija. Ele me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...

Deixei o passado lá. Entrei às pressas na sege, que me esperava no largo de São Francisco de Paula. Mandei o boleeiro rodar pelas ruas. O boleeiro fez os animais correrem, e a sege começou a me sacudir. As molas gemiam. As rodas cortavam depressa a lama deixada pela chuva recente. E tudo isso me parecia estar parado.

Não há um certo vento que sopra às vezes? É morno, mas não quente demais. Não é forte nem áspero, mas abafa. Não nos leva o chapéu da cabeça, nem faz redemoinho nas saias das mulheres. E, no entanto, é ou parece ser pior do que se fizesse essas coisas. Isso porque ele abate, deixa sem força e como que dissolve os espíritos. Pois eu tinha esse vento comigo. Tinha certeza de que ele me soprava porque eu estava numa espécie de garganta entre o passado e o presente. Por isso, eu desejava muito sair para a planície do futuro. O pior é que a sege não andava.

— João — gritei ao boleeiro. — Esta sege anda ou não anda?

— Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.

### Glossário

- **moleque**: menino escravizado; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **sege**: carruagem antiga.
- **boleeiro**: quem dirige a carruagem.
- **sino de enterro**: sino que toca, devagar e triste, quando alguém morre.
- **bexigas**: varíola, doença que deixa marcas no rosto.
- **largo**: pequena praça.
- **garganta**: aqui, passagem estreita entre montanhas.
- **gemiam**: faziam um som de dor.
- **áspero**: duro e desagradável.
- **redemoinho**: movimento do vento em círculos.
- **sopra, soprava**: diz-se do vento, quando ele se move.
- **nhonhô, sinhô**: formas como pessoas escravizadas chamavam os senhores.

## Capítulo XLI. A alucinação

E era verdade. Entrei com pressa. Encontrei Virgília ansiosa, de mau humor, com a testa carregada. A mãe, que era surda, estava na sala com ela. Depois dos cumprimentos, a moça me disse com secura:

— Esperávamos que viesse mais cedo.

Defendi-me o melhor que pude. Falei do cavalo que tinha empacado e de um amigo que me tinha detido. De repente, a voz morre nos meus lábios e fico parado de espanto. Virgília... seria Virgília aquela moça? Olhei-a muito. A sensação foi tão dolorosa que recuei um passo e desviei os olhos. Voltei a olhá-la. As bexigas tinham comido o seu rosto. A pele agora me aparecia amarela, marcada pela mesma doença que tinha devastado o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, tinham ficado murchos. O lábio estava triste e a postura, cansada. Olhei-a bem e peguei na mão dela. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.

Virgília se afastou e foi se sentar no sofá. Fiquei algum tempo olhando para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar? Rejeitei a primeira ideia, que era simplesmente absurda. Fui até Virgília, que estava lá sentada e calada. Céus! Era outra vez a Virgília de sempre. Procurei em vão no rosto dela algum sinal da doença. Não havia nenhum.

— Nunca me viu? — perguntou Virgília, ao ver que eu a olhava com insistência.

— Tão bonita, nunca.

Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas. Houve alguns segundos de pausa. Falei de coisas que nada tinham a ver com o incidente. Mas ela não me respondia nada nem olhava para mim. A não ser pelo estalido, era a estátua do Silêncio. Só uma vez ela me olhou, mas muito de cima. Levantou a ponta esquerda do lábio e apertou as sobrancelhas até juntá-las. Tudo isso dava ao seu rosto uma expressão média, entre cômica e trágica.

Havia alguma afetação naquele desprezo; era um enfeite do gesto. Por dentro, Virgília sofria, e não pouco, fosse por pura mágoa, fosse só por despeito. E a dor que se esconde dói mais. Por isso, é muito provável que Virgília sofresse o dobro do que realmente devia sofrer. Creio que isto é metafísica.

### Glossário

- **alucinação**: ver uma coisa que não existe.
- **empacado**: parado, sem querer andar, falando de um animal.
- **recuei**: dei um passo para trás.
- **bexigas**: varíola, doença que deixa marcas no rosto.
- **murchos**: sem vida, como uma flor seca.
- **repulsa**: forte sensação de rejeição, de nojo.
- **afetação**: modo de agir falso, para causar efeito.
- **enfeite**: coisa que se põe em algo para ficar mais bonito.
- **mágoa**: dor causada por uma ofensa.
- **despeito**: raiva de quem se sente ferido no orgulho.
- **metafísica**: parte da filosofia que estuda o que está além das coisas visíveis.

## Capítulo XLII. Que escapou a Aristóteles

Outra coisa que também me parece metafísica é isto. Dá-se movimento a uma bola, por exemplo. Ela rola, encontra outra bola e lhe passa o impulso. E eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela (é uma simples suposição). A segunda, Brás Cubas. A terceira, Virgília. Temos que Marcela, ao receber um piparote do passado, rolou até tocar em Brás Cubas. Este cedeu à força do impulso e começou a rolar também. Rolou até bater em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola. E eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais. E assim se estabelece uma coisa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?

### Glossário

- **metafísica**: parte da filosofia que estuda o que está além das coisas visíveis.
- **impulso**: força que põe uma coisa em movimento.
- **piparote**: golpe leve com o dedo.
- **cedeu**: deixou de resistir.
- **transmissão**: passagem de uma coisa para outra.
- **extremos sociais**: pessoas de lugares muito diferentes na sociedade.
- **solidariedade**: união entre pessoas que têm algo em comum.
- **aborrecimento**: incômodo, desgosto.

## Capítulo XLIII. Marquesa, porque eu serei marquês

Positivamente, Virgília era um diabrete, um diabrete angélico, se quiserem, mas era, e então...

E então apareceu o Lobo Neves. Não era mais esbelto do que eu, nem mais elegante, nem mais culto, nem mais simpático. Mas foi ele quem me tomou Virgília e a candidatura, em poucas semanas, com um ímpeto realmente digno de César. Antes disso não houve nenhum despeito, nem a menor violência de família. Um dia, o Dutra veio me dizer que eu esperasse outro vento. Isso porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi, e esse foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, sorrindo, quando ele seria ministro.

— Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.

Virgília respondeu:

— Promete que algum dia me fará baronesa?

— Marquesa, porque eu serei marquês.

Desde então, fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão e escolheu a águia. Deixou o pavão com o seu espanto e o seu despeito.

### Glossário

- **diabrete**: pequeno diabo; pessoa viva e travessa.
- **esbelto**: magro e elegante.
- **candidatura**: pedido para ser eleito, aqui para ser deputado.
- **ímpeto**: força repentina.
- **despeito**: raiva de quem se sente ferido no orgulho.
- **esperasse outro vento**: esperasse outra ocasião.
- **baronesa**: mulher com título de nobreza; o de marquesa é mais alto.
- **marquês**: homem com título alto de nobreza.
- **pavão**: ave grande e vaidosa, de cauda bonita.

## Capítulo XLIV. Um Cubas!

Meu pai ficou atônito com o desfecho, e me parece que não morreu de outra coisa. Tinha construído tantos castelos no ar, tinha tantos e tantíssimos sonhos. Por isso, não podia vê-los assim destruídos sem sofrer um forte abalo no corpo. No início, não quis acreditar. Um Cubas! Um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isso com tal convicção que eu, já sabendo da nossa tanoaria, esqueci um instante a dama volúvel. Só contemplei aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação promovida a consciência.

— Um Cubas! — repetia ele na manhã seguinte, no almoço.

Não foi alegre o almoço. Eu mesmo estava caindo de sono. Tinha ficado acordado parte da noite. Por amor? Era impossível. Não se ama duas vezes a mesma mulher. Eu ia amar aquela mulher tempos depois. Naquele momento, só me prendia a ela uma fantasia passageira, alguma obediência e muita vaidade. Isso basta para explicar a noite sem sono. Era despeito, um pequeno despeito, agudo como ponta de alfinete. Ele se desfez com charutos, murros e leituras interrompidas, até o nascer da aurora, a mais tranquila das auroras.

Mas eu era moço e tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente o golpe. Pensando bem, pode ser que ele não tenha morrido exatamente do desastre. Mas é certo que o desastre complicou as suas últimas dores. Morreu quatro meses depois, abatido, triste, com uma preocupação intensa e contínua, parecida com um remorso. Era um desencanto mortal, que tomou o lugar dos reumatismos e das tosses. Ainda teve meia hora de alegria: foi quando um dos ministros o visitou. Eu vi, lembro-me bem, eu vi o sorriso grato de outro tempo. Vi nos olhos uma concentração de luz. Era, por assim dizer, o último brilho da alma que morria. Mas a tristeza voltou logo, a tristeza de morrer sem me ver em algum lugar alto, como aliás eu merecia.

— Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, numa manhã de maio. Estavam com ele os dois filhos, Sabina e eu, o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu, e nada pôde salvá-lo. Não o salvou a ciência dos médicos, nem o nosso amor. Não o salvaram os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma. Tinha de morrer, morreu.

— Um Cubas!

### Glossário

- **atônito**: muito espantado.
- **desfecho**: fim de uma história ou situação.
- **tantíssimos**: muitíssimos.
- **tanoaria**: ofício de quem faz cubas e barris.
- **volúvel**: que muda de ideia com facilidade.
- **despeito**: raiva de quem se sente ferido no orgulho.
- **alfinete**: agulha pequena, sem buraco.
- **se desfez**: desapareceu aos poucos.
- **charutos**: rolos de folhas de tabaco para fumar.
- **aurora**: luz do céu antes de o sol nascer.
- **abatido**: sem forças, desanimado.
- **desencanto**: perda das ilusões.
- **reumatismos**: dores nas juntas e nos músculos.

## Capítulo XLV. Notas

Soluços, lágrimas, casa enfeitada de luto, veludo preto nas portas. Um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão. Caixão, eça, tocheiros, convites. Convidados que entravam devagar, com passos sem ruído, e apertavam a mão da família. Alguns tristes, todos sérios e calados. Padre e sacristão, rezas, água benta espalhada. O fechar do caixão, com prego e martelo. Seis pessoas que o tiram da eça, o levantam e o descem com esforço pela escada. Isso apesar dos gritos, dos soluços e das novas lágrimas da família. Vão até o coche fúnebre, o colocam em cima, passam e apertam as correias. O rodar do coche, o rodar dos carros, um a um...

Isto, que parece um simples inventário, eram notas que eu tinha tomado para um capítulo muito saboroso. Nele, eu provava que a Terra deve continuar a girar em volta do Sol, porque:

*a*) a natureza só inventou a morte para dar vida a algumas indústrias. São armadores, segeiros, empresas funerárias, tipografias e outras que ela previu com esperteza;

*b*) sem a morte humana, essas indústrias morreriam, e não é improvável que seus donos morressem também. O que dava na mesma.

Mas tudo isto são apenas notas de um capítulo que não escrevo.

### Glossário

- **eça**: estrutura alta onde se põe o caixão durante o velório.
- **tocheiros**: grandes suportes para velas.
- **sacristão**: homem que ajuda o padre na igreja.
- **coche fúnebre**: carruagem que leva o caixão ao cemitério.
- **correias**: tiras de couro usadas para prender coisas.
- **inventário**: lista de todas as coisas que alguém tem.
- **armadores**: quem enfeita casas e igrejas para enterros e festas.
- **segeiros**: quem faz ou aluga carruagens.
- **tipografias**: lugares onde se imprimem textos.

## Capítulo XLVI. A herança

Veja-nos agora, leitor, oito dias depois da morte de meu pai. Minha irmã está sentada num sofá. Pouco adiante, o Cotrim está de pé, encostado a um consolo, de braços cruzados, mordendo o bigode. Eu ando de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Silêncio profundo.

— Mas afinal — disse o Cotrim —, esta casa pouco mais pode valer de trinta contos. Digamos que valha trinta e cinco...

— Vale cinquenta — respondi. — A Sabina sabe que custou cinquenta e oito...

— Podia ter custado até sessenta — disse o Cotrim. — Mas isso não quer dizer que valesse tanto, e menos ainda que valha hoje. Você sabe que as casas baixaram muito há alguns anos. Olhe, se esta vale os cinquenta contos, quanto não vale a que você deseja para si, a do Campo?

— Não fale nisso! Uma casa velha.

— Velha! — exclamou Sabina, levantando as mãos para o teto.

— Acha que é nova, aposto?

— Ora, mano, deixe dessas coisas — disse Sabina, levantando-se do sofá. — Podemos arranjar tudo em boa amizade e com honestidade. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o Paulo...

— O boleeiro não — respondi depressa. — Fico com a sege e não vou comprar outro.

— Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.

— O Prudêncio está livre.

— Livre?

— Há dois anos.

— Livre? Como seu pai arranjava estas coisas aqui em casa, sem avisar ninguém! Está certo. Quanto à prata... creio que não libertou a prata?

Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I. Era a parte mais importante da herança, pelo trabalho, pela idade e pela origem. Segundo meu pai, o conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a deu de presente a meu bisavô Luís Cubas.

— Quanto à prata — continuou o Cotrim —, eu não discutiria nada, se não fosse o desejo de sua irmã de ficar com ela. E acho que ela tem razão. Sabina é casada e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não recebe visitas, não...

— Mas posso casar.

— Para quê? — interrompeu Sabina.

A pergunta era tão sublime que, por alguns instantes, me fez esquecer os interesses. Sorri. Peguei na mão de Sabina e bati de leve na palma. Fiz tudo isso com tão bom humor que o Cotrim entendeu o gesto como um sim. E me agradeceu.

— Como assim? — respondi. — Não cedi nada, nem cedo.

— Nem cede?

Fiz que não com a cabeça.

— Deixa, Cotrim — disse minha irmã ao marido. — Vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo. É só o que falta.

— Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais rápido nos levar ao tribunal. Prove com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que não sou seu cunhado e que Deus não é Deus. Faça isso e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, procure outro ofício!

Ele estava tão irritado, e eu não menos, que achei bom oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. Ele riu e me perguntou quem ficaria com o bule e quem ficaria com o açucareiro. Depois dessa pergunta, declarou que teríamos tempo de resolver a questão, pelo menos na justiça. Enquanto isso, Sabina tinha ido até a janela que dava para a chácara. Depois de um instante, voltou. Propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata. Eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim se adiantou e disse a mesma coisa.

— Isso nunca! Não faço esmolas! — disse ele.

Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu na sobremesa e ainda assistiu a uma pequena discussão.

— Meus filhos — disse ele —, lembrem-se de que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.

Mas o Cotrim respondeu:

— Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.

Finalmente, as partilhas foram feitas, mas nós estávamos brigados. E digo a vocês que, ainda assim, me custou muito brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Tivemos jogos de crianças, fúrias infantis, risos e tristezas da idade adulta. Dividimos muitas vezes, como irmãos, esse pão da alegria e da miséria, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se desfez com as bexigas.

### Glossário

- **consolo**: mesa estreita presa à parede, usada como enfeite.
- **contos**: um conto é mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **pretos**: palavra da época para pessoas negras e escravizadas; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **boleeiro**: quem dirige a carruagem.
- **sege**: carruagem antiga.
- **copa**: lugar da casa onde se guardam pratos e prata; aqui, também essa louça.
- **cônego**: padre de uma catedral.
- **partilhas**: divisão dos bens de uma herança.
- **bexigas**: varíola, doença que deixa marcas no rosto.

## Capítulo XLVII. O recluso

Marcela, Sabina, Virgília... Aí estou eu, misturando todos os contrastes. É como se esses nomes e pessoas fossem apenas modos de ser do meu afeto interior. Pena de maus costumes, ponha uma gravata no seu estilo, vista nele um colete menos sujo. E depois, sim, depois venha comigo, entre nessa casa e deite-se nessa rede. Ela me embalou a melhor parte dos anos que passaram entre o inventário de meu pai e 1842. Venha. Se sentir algum perfume de toucador, não pense que o mandei derramar para meu prazer. É um vestígio da N. ou da Z. ou da U. É que todas essas letras maiúsculas embalaram ali a sua elegante abjeção. Mas, se além do perfume você quiser outra coisa, fique com o desejo. Isso porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memórias. A própria emoção se desfez, e só me ficaram as letras iniciais.

Vivi meio recluso. De longe em longe ia a algum baile, ao teatro ou a uma conversa. Mas passei a maior parte do tempo comigo mesmo. Vivia. Deixava-me levar pelo ir e vir dos acontecimentos e dos dias. Estava ora agitado, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para os jornais e cheguei a ter certa fama de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que já era deputado, e de Virgília, futura marquesa, eu me perguntava uma coisa. Por que eu não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves? Eu, que valia mais, muito mais do que ele. E dizia isto olhando para a ponta do nariz...

### Glossário

- **recluso**: pessoa que vive fechada, longe dos outros.
- **colete**: peça de roupa sem mangas, usada sob o paletó.
- **rede**: tecido preso em dois pontos, para deitar e balançar.
- **embalou, embalaram**: balançou, balançaram devagar, como se faz com um bebê.
- **inventário**: lista oficial dos bens que uma pessoa morta deixou.
- **toucador**: móvel com espelho onde uma mulher se arruma.
- **maiúsculas**: letras grandes, como A, B, C.
- **abjeção**: vida baixa, sem honra.
- **se desfez**: desapareceu aos poucos.
- **apático**: sem interesse, sem energia.
- **desânimo**: falta de força e de vontade.
- **polemista**: quem escreve para discutir e atacar ideias.

## Capítulo XLVIII. Um primo de Virgília

— Sabe quem chegou ontem de São Paulo? — me perguntou uma noite o Luís Dutra.

O Luís Dutra era um primo de Virgília, que também tinha amizade com as musas. Seus versos agradavam e valiam mais do que os meus. Mas ele precisava da aprovação de alguns, que confirmasse o aplauso dos outros. Como era tímido, não perguntava nada a ninguém. Mas gostava muito de ouvir alguma palavra de apreço. Então criava novas forças e se lançava ao trabalho com ânimo de jovem.

Pobre Luís Dutra! Assim que publicava alguma coisa, corria à minha casa. Começava a girar em volta de mim, à espera de um juízo. Esperava uma palavra, um gesto que aprovasse a obra nova. E eu lhe falava de mil coisas diferentes. Falava do último baile do Catete, da discussão nas câmaras, de carruagens e cavalos. Falava de tudo, menos dos seus versos ou da sua prosa. Ele me respondia, no início com animação, depois com menos força. Virava a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro, perguntava se eu tinha algum trabalho novo. Eu dizia que sim ou que não, mas virava a rédea para o outro lado. E lá ia ele atrás de mim, até que parava de vez e saía triste. Minha intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo, desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto olhando para a ponta do nariz...

### Glossário

- **musas**: deusas gregas das artes; ter amizade com elas é escrever poesia.
- **apreço**: respeito, boa opinião.
- **ânimo**: força e vontade.
- **juízo**: opinião sobre uma obra.
- **câmaras**: lugares onde os políticos se reúnem para fazer as leis.
- **prosa**: texto escrito que não é poesia.
- **rédea**: correia que se usa para guiar o cavalo.
- **eliminá-lo**: tirá-lo do caminho, fazê-lo desaparecer.

## Capítulo XLIX. A ponta do nariz

Nariz, consciência sem remorsos, você me valeu muito na vida... Você já pensou alguma vez no destino do nariz, amado leitor? O doutor Pangloss explica que o nariz foi criado para o uso dos óculos. Confesso que, até certo tempo, essa explicação me pareceu definitiva. Mas chegou um dia em que eu estava pensando nesse e em outros pontos obscuros de filosofia. E então encontrei a única explicação verdadeira e definitiva.

De fato, bastou-me observar o costume do fakir. Você sabe, leitor, que o fakir passa longas horas olhando para a ponta do nariz. Seu único fim é ver a luz celeste. Quando fixa os olhos na ponta do nariz, ele perde o sentimento das coisas de fora. Encanta-se com o invisível, alcança o impalpável, solta-se da terra, dissolve-se, vira éter. Essa elevação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais alto do espírito. E o poder de obtê-la não pertence só ao fakir; é universal. Todo homem tem a necessidade e o poder de contemplar o próprio nariz, para ver a luz celeste. Essa contemplação subordina o universo a um só nariz. É ela que constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes só contemplassem uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos. Acabaria com as primeiras tribos.

Daqui ouço uma objeção do leitor:

— Como pode ser assim — diz ele —, se nunca jamais ninguém viu os homens contemplando o próprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que você nunca entrou no cérebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus. É a loja de um rival, que a abriu há dois anos. Tinha então duas portas, hoje tem quatro, e promete ter seis e oito. Nas vitrines estão os chapéus do rival. Pelas portas entram os fregueses do rival. O chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas. Compara aqueles chapéus com os seus, menos procurados, ainda que custem o mesmo. Naturalmente, ele sofre. Mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente. Procura as causas da prosperidade do outro e do seu próprio atraso. E, no entanto, ele, chapeleiro, é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que há duas forças principais. São o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.

### Glossário

- **Pangloss**: personagem de Voltaire, filósofo que acha tudo perfeito.
- **fakir**: religioso da Índia que vive com grande sacrifício.
- **celeste**: do céu.
- **impalpável**: que não se pode tocar.
- **éter**: na ciência antiga, matéria finíssima que enchia o céu.
- **subordina**: coloca abaixo, sob o poder de outra coisa.
- **obtuso**: que entende mal e devagar.
- **chapeleiro**: quem faz ou vende chapéus.

## Capítulo L. Virgília casada

— Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves — continuou o Luís Dutra.

— Ah!

— E só hoje eu soube de uma coisa, seu malandro...

— O que foi?

— Que você quis casar com ela.

— Ideias de meu pai. Quem lhe disse isso?

— Ela mesma. Falei muito de você, e ela então me contou tudo.

No dia seguinte, eu estava na rua do Ouvidor, à porta da tipografia do Plancher. Vi aparecer, ao longe, uma mulher esplêndida. Era ela. Só a reconheci a poucos passos, de tão diferente que estava. A tal ponto a natureza e a arte lhe tinham dado o último acabamento. Nós nos cumprimentamos, e ela seguiu. Entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima. Eu fiquei atônito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile. Creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas houve outro baile um mês depois, na casa de uma senhora. Ela tinha enfeitado os salões do primeiro reinado e ainda não enfeava os do segundo. Ali a aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma coisa deliciosa. Valsamos. E não nego: ao apertar contra o meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma sensação estranha. Era uma sensação de homem roubado.

— Está muito calor — disse ela, logo que acabamos. — Vamos ao terraço?

— Não, pode se resfriar. Vamos a outra sala.

Na outra sala estava o Lobo Neves, que elogiou muito os meus escritos políticos. Acrescentou que não dizia nada dos literários, porque não entendia deles. Mas os políticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi com a mesma cortesia, e nos separamos contentes um com o outro.

Cerca de três semanas depois, recebi dele um convite para uma reunião íntima. Fui. Virgília me recebeu com esta frase graciosa:

— O senhor hoje há de valsar comigo.

Na verdade, eu tinha fama e era um ótimo valsista; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei a mão dela com muita força. Ela a deixou ficar, como esquecida. E eu a abraçava, e todos com os olhos em nós e nos outros, que também se abraçavam e giravam... Um delírio.

### Glossário

- **malandro**: aqui, de brincadeira, pessoa esperta que esconde coisas.
- **tipografia**: lugar onde se imprimem textos.
- **atônito**: muito espantado.
- **primeiro reinado**: tempo em que D. Pedro I governou o Brasil; o segundo foi o de D. Pedro II.
- **reunião íntima**: encontro em casa, com poucas pessoas conhecidas.
- **cortesia**: boa educação, gentileza.
- **valsista**: quem dança valsa.
- **Francesca**: personagem de Dante; ela e o amado se perderam ao ler juntos um livro de amor.

## Capítulo LI. É minha!

— É minha! — disse eu para mim mesmo, logo que a passei a outro cavalheiro.

Confesso que, durante o resto da noite, a ideia foi entrando cada vez mais no meu espírito. Não entrava a golpes de martelo, mas girando como uma verruma, que penetra com mais jeito.

— É minha! — dizia eu ao chegar à porta de casa.

Mas ali aconteceu uma coisa. Parecia que o destino, ou o acaso, ou o que quer que fosse, tinha pensado em mim. Queria dar algum alimento ao meu desejo de posse. Vi brilhar no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.

— É minha! — repeti eu, rindo, e a pus no bolso.

Naquela noite não pensei mais na moeda. Mas no dia seguinte, quando me lembrei do caso, senti uns empurrões da consciência. Uma voz me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não tinha herdado nem ganhado. Eu apenas a tinha achado na rua. Evidentemente, não era minha. Era de outro, daquele que a tinha perdido, rico ou pobre. Talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos. Mas, se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Era preciso devolver a moeda. O melhor meio, o único meio, era fazer isso por um anúncio ou pela polícia. Mandei uma carta ao chefe de polícia com a moeda achada. Pedi que, com os meios que tinha, devolvesse a moeda ao verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranquilo; posso até dizer que almocei alegre. Na véspera, a minha consciência tinha valsado tanto que ficou sufocada, sem respiração. Mas a devolução da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral. Entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à vontade. Ventilem as consciências! Não digo mais nada a vocês. Contudo, sem considerar outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque mostrava um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, de um modo severo e doce ao mesmo tempo. Era o que ela me dizia, apoiada no parapeito da janela aberta.

— Você fez bem, Cubas; agiu perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos jardins eternos. Quer ver o que você fez, Cubas?

E a boa dama tirou um espelho e o abriu diante dos meus olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida. Ela se multiplicava por si mesma: era dez, depois trinta, depois quinhentas. Assim mostrava o benefício que me daria, na vida e na morte, o simples ato da devolução. E eu estendia todo o meu ser na contemplação daquele ato. Eu me via nele, me achava bom, talvez grande. Uma simples moeda, hein? Vejam o que é ter valsado um pouquinho a mais.

Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime: a lei da equivalência das janelas. Estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra. Isso para que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez você não entenda o que fica dito aí. Talvez queira uma coisa mais concreta: um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois tome o embrulho misterioso.

### Glossário

- **cavalheiro**: homem educado; aqui, o homem que dança com uma dama.
- **verruma**: ferramenta fina que fura a madeira girando.
- **meia dobra**: moeda antiga de ouro.
- **herdado**: recebido de uma pessoa que morreu.
- **valsado**: do verbo valsar: dançado a valsa.
- **escrúpulo**: cuidado de quem não quer fazer nada errado.
- **dama interior**: aqui, a consciência, imaginada como uma senhora.
- **parapeito**: parte baixa da janela, onde a gente se apoia.
- **balsâmico**: perfumado e bom para a saúde.
- **transpiração**: aqui, o perfume que sai dos jardins.
- **nítida**: clara, bem visível.
- **arejar**: fazer entrar ar novo.
- **embrulho**: coisa enrolada em papel ou pano; pacote.

## Capítulo LII. O embrulho misterioso

Aconteceu que, alguns dias depois, indo a Botafogo, tropecei num embrulho que estava na praia. Não digo bem: foi menos um tropeção do que um pontapé. Vi um embrulho, não grande, mas limpo e bem-feito, amarrado com um barbante forte. Era uma coisa que parecia alguma coisa. Tive a ideia de bater nele com o pé, só para experimentar. Bati, e o embrulho resistiu. Olhei rapidamente em volta de mim. A praia estava deserta. Ao longe uns meninos brincavam; ainda mais longe, um pescador consertava as redes. Não havia ninguém que pudesse ver a minha ação. Eu me abaixei, apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas não sem medo. Podia ser uma brincadeira de rapazes. Tive a ideia de devolver o achado à praia, mas o apalpei e rejeitei a ideia. Um pouco adiante, voltei atrás e segui para casa.

— Vejamos — disse eu ao entrar no gabinete.

E fiquei em dúvida um instante, creio que por vergonha. Voltou o medo da brincadeira. É certo que ali não havia nenhuma testemunha externa. Mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto. Esse garoto ia assobiar, guinchar, grunhir, bater os pés, vaiar, cacarejar e fazer o diabo. Bastava me ver abrir o embrulho e achar uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas verdes. Mas era tarde. A curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor. Desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... contei de novo nada menos de cinco contos de réis. Nada menos. Talvez uns dez mil-réis a mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo limpinho e arrumadinho, um achado raro. Embrulhei tudo de novo. No jantar, me pareceu que um dos moleques falou a outro com os olhos. Será que tinham me espiado? Fiz perguntas a eles sem chamar atenção e concluí que não. Depois do jantar, fui outra vez ao gabinete e examinei o dinheiro. E ri dos meus cuidados de mãe com cinco contos — eu, que era rico.

Para não pensar mais naquilo, fui de noite à casa do Lobo Neves. Ele tinha insistido muito comigo para que não deixasse de frequentar as reuniões da mulher. Lá encontrei o chefe de polícia e fui apresentado a ele. Ele logo se lembrou da carta e da meia dobra que eu lhe tinha mandado alguns dias antes. Contou o caso. Virgília pareceu saborear o meu comportamento. E aconteceu que cada um dos presentes contou uma anedota parecida, que ouvi com impaciências de mulher histérica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana, pensei o menos que pude nos cinco contos. Até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Eu gostava de falar de todas as coisas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado. E, no entanto, não era crime achar dinheiro. Era uma felicidade, um bom acaso, talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco contos como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos são levados com trinta mil sentidos atentos. São apalpados a toda hora. Ninguém tira deles os olhos, nem as mãos, nem o pensamento. E, para que se percam assim, tolamente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado. Nem crime, nem vergonha, nem nada que manchasse o caráter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande. Era como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto. Até direi que minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem sem direito aos benefícios da Providência.

— Estes cinco contos — dizia eu para mim mesmo, três semanas depois — vou empregá-los em alguma boa ação. Talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... vou ver...

Nesse mesmo dia, levei o dinheiro ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas referências ao caso da meia dobra. A notícia já estava espalhada entre as pessoas que eu conhecia. Respondi, aborrecido, que a coisa não merecia tanto barulho. Então elogiaram a minha modéstia. E, como fiquei com raiva, responderam que era simplesmente grande.

### Glossário

- **embrulho**: coisa enrolada em papel ou pano; pacote.
- **tropecei**: bati com o pé em alguma coisa, sem querer.
- **tropeção**: batida do pé em alguma coisa, sem querer.
- **barbante**: fio grosso usado para amarrar pacotes.
- **apalpei**: toquei com a mão para sentir o que era.
- **gabinete**: sala da casa usada para ler, escrever e trabalhar.
- **assobiar**: fazer um som agudo com os lábios.
- **guinchar**: dar gritos agudos.
- **grunhir**: fazer um som baixo, como o do porco.
- **vaiar**: gritar contra alguém para zombar dele.
- **cacarejar**: fazer o som da galinha.
- **goiabas**: frutas tropicais de polpa branca ou rosada.
- **aguçada**: muito viva, muito forte.
- **contos de réis**: um conto era mil mil-réis; muito dinheiro na época.
- **dobras**: moedas antigas de ouro.
- **moleques**: meninos escravizados; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **espiado**: olhado em segredo.
- **secretária**: móvel com gavetas, próprio para escrever.
- **Providência**: o cuidado de Deus com as pessoas.
- **lenço de tabaco**: lenço usado por quem cheirava tabaco em pó.
- **apalpados**: tocados com a mão.
- **dote**: dinheiro que uma noiva leva para o casamento.
- **sorte grande**: o maior prêmio da loteria.

## Capítulo LIII. ..........

Virgília, essa já não se lembrava da meia dobra. Ela estava toda concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento. Era o que ela dizia, e era verdade.

Há plantas que nascem e crescem depressa; outras são lentas e fracas. O nosso amor era das primeiras. Brotou com tanta força e tanta seiva que logo cresceu muito. Em pouco tempo, era a criatura maior, mais cheia de folhas e mais exuberante dos bosques. Não posso dizer a vocês, ao certo, quantos dias durou esse crescimento. Lembro, sim, que em certa noite apareceu a flor, ou o beijo, se quiserem chamar assim. Foi um beijo que ela me deu, trêmula — coitadinha —, trêmula de medo. É que estávamos no portão da chácara, à vista das estrelas. Eram as castas estrelas de Otelo: *you chaste stars!*

Esse beijo único nos uniu. Foi breve como a ocasião, ardente como o amor. Foi o prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos. Foi uma vida de prazeres que terminavam em dor, de aflições que se abriam em alegria. Havia nela uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio. Foi uma vida de agitações, de raivas, de desesperos e de ciúmes. Uma hora pagava tudo isso, e pagava de sobra. Mas vinha outra hora e engolia aquela, como tudo mais. Engolia para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto. E esse resto é o fastio e a saciedade. Tal foi o livro daquele prólogo.

### Glossário

- **seiva**: líquido que corre dentro das plantas e as alimenta.
- **exuberante**: muito forte, rica e cheia de vida.
- **trêmula**: que está tremendo.
- **coitadinha**: pobrezinha; palavra de pena e carinho.
- **castas**: puras; sem desejo nem pecado.
- **you chaste stars!**: frase em inglês de Otelo, de Shakespeare: "vocês, estrelas castas!".
- **prólogo**: texto que vem antes do começo de uma história.
- **aflições**: sofrimentos, preocupações.
- **hipocrisia**: atitude de quem finge ser ou sentir o que não é.
- **à tona**: na superfície, à vista.
- **fastio**: falta de vontade, enjoo de uma coisa repetida.
- **saciedade**: estado de quem já teve tudo e não quer mais.

## Capítulo LIV. A pêndula

Saí dali saboreando o beijo. Não consegui dormir. Eu me estendi na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi todas as horas da noite. Normalmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula me fazia muito mal. Esse *tique-taque* sombrio, lento e seco parecia dizer, a cada golpe, que eu ia ter um instante menos de vida. Eu imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte. Ele tirava as moedas da vida para dá-las à morte, e as contava assim:

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

O mais estranho é que, se o relógio parava, eu dava corda nele. Eu queria que ele nunca deixasse de bater, para poder contar todos os meus instantes perdidos. Há invenções que se transformam ou acabam; até as instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O último homem vai se despedir do sol frio e gasto. Nesse momento, terá um relógio no bolso, para saber a hora exata em que morre.

Naquela noite não sofri essa triste sensação de aborrecimento, mas outra, deliciosa. As fantasias se agitavam dentro de mim e vinham umas sobre as outras. Pareciam devotas que se empurram para ver o anjo cantor das procissões. Eu não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhos. E, a partir de certo momento, não ouvi coisa nenhuma. É que meu pensamento, esperto e travesso, saltou pela janela e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Ali achou, no parapeito de uma janela, o pensamento de Virgília. Os dois se cumprimentaram e ficaram conversando. Nós dois rolávamos na cama, talvez com frio, precisando de descanso. E os dois vadios ali, repetindo o velho diálogo de Adão e Eva.

### Capítulo LV. O velho diálogo de Adão e Eva

BRÁS CUBAS

.   .   .   . ?

VIRGÍLIA

.   .

BRÁS CUBAS

.      .      .   .   .   .      .      .   .

.         .       .

VIRGÍLIA

.       .  . !

BRÁS CUBAS

.         .

VIRGÍLIA

.   .   .     .            .       .       .   .   .

.   .   .  .  .         ?  .   .       .   .   .

.   .   .  .  .            .   .   .   .   .   .   .

BRÁS CUBAS

.   .   .   .     .   .

VIRGÍLIA

.   .   .   .

BRÁS CUBAS

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .         .   .   .

.   .   .   .   .   .       .   .   .   .     .   .   .

.   .   .   .   .       .   .   .   .         !   .   .

.   .   !   .       .   .   .   .   .             .   .

.   .   .   .   .   .   .       .   .      .   .      !

VIRGÍLIA

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .      .   .?

BRÁS CUBAS

.   .   .   .   .!

VIRGÍLIA

.   .   .   .   .!

### Glossário

- **pêndula**: relógio de parede ou de mesa com uma peça que balança.
- **dava corda**: girava a peça que faz o relógio funcionar.
- **perpétuo**: que dura para sempre.
- **devotas**: mulheres muito religiosas.
- **anjo cantor**: criança vestida de anjo que canta nas festas religiosas.
- **procissões**: grupos de fiéis que andam pelas ruas em festa religiosa.
- **parapeito**: parte baixa da janela, onde a gente se apoia.
- **vadios**: pessoas que não fazem nada de útil.

## Capítulo LVI. O momento oportuno

Mas, com a breca! Quem vai me explicar a razão dessa diferença? Um dia nos vimos, combinamos o casamento, desfizemos tudo e nos separamos. Foi a frio, sem dor, porque não tinha havido nenhuma paixão. Senti apenas algum despeito e nada mais. Passam os anos, volto a vê-la, damos três ou quatro voltas de valsa. E já estamos nos amando com delírio. A beleza de Virgília tinha chegado, é certo, a um alto grau de perfeição. Mas nós éramos, no fundo, os mesmos. E eu, da minha parte, não tinha ficado mais bonito nem mais elegante. Quem vai me explicar a razão dessa diferença?

A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. O primeiro momento não era oportuno, porque não era ainda o momento do *nosso* amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Essa explicação eu mesmo a achei, dois anos depois do beijo. Foi num dia em que Virgília se queixava comigo de um janota que ia lá e a cortejava com teimosia.

— Que importuno! — dizia ela, fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, olhei bem para ela e vi que a indignação era sincera. Então me ocorreu que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta. E compreendi logo toda a grandeza da minha evolução. Eu tinha passado de importuno a oportuno.

### Glossário

- **com a breca!**: exclamação antiga de surpresa ou irritação.
- **a frio**: sem emoção.
- **despeito**: raiva misturada com orgulho ferido.
- **oportuno**: que vem na hora certa.
- **sujeitos**: aqui, as duas pessoas envolvidas no caso.
- **janota**: homem que se veste com exagero e se acha elegante.
- **cortejava**: tentava conquistar uma mulher com elogios.
- **importuno**: que incomoda; que chega na hora errada.

## Capítulo LVII. Destino

Sim, senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais nos proibiam isso, agora é que nos amávamos de verdade. Estávamos presos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório:

*Di pari, come buoi, che vanno a giogo;*

e digo mal, ao nos comparar a bois, porque éramos outra espécie de animal, menos lento, mais velhaco e lascivo. Lá íamos nós, caminhando sem saber até onde, nem por que estradas escondidas. Esse problema me assustou durante algumas semanas, mas entreguei a solução ao destino. Pobre Destino! Onde você andará agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez esteja criando pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já não me lembro onde estava... Ah! nas estradas escondidas. Eu disse para mim mesmo que agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte nos amar. Se não fosse assim, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia ela me confessou que tinha momentos de remorso. Eu disse que, se ela tinha remorsos, era porque não me amava. Então Virgília me cingiu com os seus magníficos braços, murmurando:

— Amo-te, é a vontade do céu.

E essa palavra não vinha à toa. Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade. Creio até que só ia às igrejas em dias de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono. Tinha medo de trovoadas. Nessas ocasiões, tapava os ouvidos e resmungava todas as orações do catecismo. Na alcova dela havia um pequeno oratório de jacarandá, entalhado, de três palmos de altura. Dentro havia três imagens. Mas ela não falava dele às amigas. Ao contrário, chamava de beatas as que eram apenas religiosas. Durante algum tempo, desconfiei que havia nela certa vergonha de crer. A religião dela seria uma espécie de camisa de flanela, que protege e fica escondida. Mas, evidentemente, era engano meu.

### Glossário

- **Di pari, come buoi, che vanno a giogo**: verso em italiano de Dante: "lado a lado, como bois que vão presos pelo pescoço".
- **velhaco**: que engana os outros com esperteza.
- **lascivo**: cheio de desejo sexual.
- **procurador**: pessoa que cuida dos negócios de outra.
- **cingiu**: apertou, envolveu com os braços.
- **murmurando**: falando muito baixo.
- **tribuna**: lugar elevado e reservado dentro da igreja.
- **resmungava**: dizia baixo, entre os dentes.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **oratório**: pequeno móvel com imagens de santos, para rezar em casa.
- **jacarandá**: madeira escura e cara do Brasil.
- **entalhado**: com figuras cortadas na madeira.
- **beatas**: mulheres que estão sempre na igreja; palavra usada com ironia.
- **camisa de flanela**: camisa de tecido quente, usada por baixo da roupa.

## Capítulo LVIII. Confidência

No começo, o Lobo Neves me dava grandes sustos. Pura ilusão! Como adorava a mulher, não tinha vergonha de me dizer isso muitas vezes. Achava que Virgília era a própria perfeição, um conjunto de qualidades sólidas e finas: amorosa, elegante, severa, um modelo. E a confiança não parava aí. Primeiro era uma fresta, depois virou porta escancarada. Um dia me confessou que havia uma coisa triste roendo a vida dele: faltava-lhe a glória pública. Eu o animei. Disse a ele muitas coisas bonitas. Ele as ouviu com a unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer. Então compreendi que a ambição dele estava cansada de bater as asas sem poder voar. Dias depois, ele me contou todos os seus tédios e desânimos, as amarguras engolidas, as raivas reprimidas. Contou que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente, havia ali uma crise de melancolia. Tratei de combatê-la.

— Sei o que estou dizendo — respondeu ele com tristeza. — O senhor não pode imaginar o que tenho passado. Entrei na política por gosto, por família, por ambição e um pouco por vaidade. Veja que reuni só em mim todos os motivos que levam o homem à vida pública. Só me faltou o interesse de outra natureza. Eu tinha visto o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, era bonito! Cenário soberbo, vida, movimento e graça na representação. Assinei contrato; deram-me um papel que... Mas para que cansar o senhor com isso? Deixe-me ficar com as minhas aflições. Creia que tenho passado horas e dias... Não há constância de sentimentos, não há gratidão, não há nada... nada... nada...

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar. Parecia não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco dos próprios pensamentos. Depois de alguns instantes, levantou-se e me estendeu a mão.

— O senhor vai rir de mim — disse ele —, mas desculpe aquele desabafo. Eu tinha um problema que me mordia o espírito.

E ria, de um jeito sombrio e triste. Depois me pediu que não contasse a ninguém o que tinha se passado entre nós. Observei que, a rigor, não tinha se passado nada. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. O Lobo Neves os recebeu com alegria, no começo um tanto falsa, mas logo depois natural. Ao fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais feliz dos homens. Conversava, brincava e ria, e todos riam.

### Glossário

- **fresta**: abertura muito pequena.
- **escancarada**: completamente aberta.
- **unção**: respeito profundo, quase religioso.
- **despeitos**: raivas misturadas com orgulho ferido.
- **perfídias**: traições; atos de quem engana os outros.
- **melancolia**: tristeza profunda e longa.
- **plateia**: parte do teatro onde fica o público.
- **desabafo**: fala de quem conta o que estava guardando no peito.
- **paróquia**: região que pertence a uma igreja.

## Capítulo LIX. Um encontro

A política deve ser um vinho bem forte, dizia eu para mim mesmo, ao sair da casa de Lobo Neves. E fui andando, fui andando, até que, na rua dos Barbonos, vi uma sege. Dentro estava um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Nós nos cumprimentamos com afeto, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando...

— Por que não serei eu ministro?

Esta ideia, brilhante e grande — vestida com elegância, como diria o padre Bernardes —, esta ideia começou a dar cambalhotas vertiginosas. Eu fiquei com os olhos nela, achando graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves. Senti a atração do abismo. Lembrei aquele companheiro de colégio, as corridas nos morros, as alegrias e travessuras. Comparei o menino com o homem e perguntei a mim mesmo por que eu não seria como ele. Eu estava entrando no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa.

— Por que você não será ministro, Cubas?

— Cubas, por que você não será ministro de Estado?

Ao ouvir isso, uma sensação deliciosa refrescava todo o meu sistema. Entrei, fui me sentar num banco e fiquei cavando aquela ideia comigo mesmo. E Virgília, como ia gostar! Alguns minutos depois, vejo uma cara vir na minha direção. Não me pareceu desconhecida. Eu a conhecia, não sabia de onde.

Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, menos o corte, pareciam ter escapado ao cativeiro da Babilônia. O chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes — ou, literalmente, os ossos da pessoa. A cor preta ia dando lugar a um amarelo sem brilho. O pelo do tecido desaparecia aos poucos. Dos oito botões primitivos restavam três. As calças, de brim pardo, estavam muito gastas nos joelhos. As bainhas estavam roídas pelo salto de uma botina sem misericórdia nem graxa. No pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desbotadas. Ela apertava um colarinho de oito dias. Creio que ele usava também colete, um colete de seda escura, rasgado aqui e ali, e desabotoado.

— Aposto que não me conhece, Sr. Dr. Cubas? — disse ele.

— Não me lembro...

— Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado... Como eu queria ter agora a palavra solene de um Bossuet ou de um Vieira, para contar tanta desolação! Era o Quincas Borba, o menino gracioso de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e rico. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode ser. Eu não conseguia acreditar. Aquela figura esquálida, aquela barba pintada de branco, aquele maltrapilho envelhecido, toda aquela ruína era o Quincas Borba? E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo. E o sorriso não tinha perdido certo ar zombeteiro, que era só dele. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. Depois de algum tempo, desviei os olhos. Se a figura repelia, a comparação esmagava.

— Não é preciso contar nada ao senhor — disse ele enfim. — O senhor adivinha tudo. Uma vida de misérias, de sofrimentos e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu fazia o papel de rei? Que tombo! Acabo mendigo...

Ele levantou a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença. Parecia resignado aos golpes da fortuna, e nem sei se não estava até contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria tinha criado calos na sua alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os trapos como antes arrastava a púrpura: com certa graça preguiçosa.

— Procure-me — disse eu. — Poderei arranjar alguma coisa para o senhor.

Um sorriso magnífico abriu os lábios dele.

— O senhor não é o primeiro que me promete alguma coisa — respondeu. — E não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu não peço nada, a não ser dinheiro. Dinheiro, sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.

— Não?

— Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo e ainda não comi...

Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis — a menos limpa — e a dei a ele. Ele a recebeu com os olhos brilhando de cobiça. Levantou a nota no ar e a agitou, entusiasmado.

— *In hoc signo vinces!* — gritou.

Depois beijou a nota, com muitos gestos de ternura. Fez tanto barulho e tanta festa que senti uma mistura de nojo e pena. Ele, que era esperto, me entendeu. Ficou sério, grotescamente sério, e me pediu desculpa da alegria. Disse que era alegria de pobre que não via, havia muitos anos, uma nota de cinco mil-réis.

— Pois está nas suas mãos ver muitas outras — disse eu.

— Sim? — acudiu ele, dando um salto na minha direção.

— Trabalhando — concluí.

Fez um gesto de desprezo e ficou calado alguns instantes. Depois me disse, com toda a clareza, que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e me preparei para sair.

— Não vá embora sem que eu lhe ensine a minha filosofia da miséria — disse ele.

E parou diante de mim, com as pernas abertas.

### Glossário

- **sege**: carruagem antiga.
- **cambalhotas**: voltas que o corpo dá sobre si mesmo.
- **vertiginosas**: muito rápidas, de dar tontura.
- **cavando**: aqui, pensando bem fundo.
- **cativeiro da Babilônia**: tempo muito antigo em que os judeus foram levados presos para a Babilônia.
- **Gessler**: governador cruel da lenda suíça de Guilherme Tell; o chapéu dele é famoso nessa história.
- **sobrecasaca**: casaco masculino longo e fechado, usado antigamente.
- **brim**: tecido forte de algodão ou linho.
- **bainhas**: dobras costuradas na ponta das calças.
- **roídas**: gastas aos poucos, como por dentes.
- **graxa**: pasta usada para limpar e dar brilho aos sapatos.
- **desbotadas**: que perderam a cor.
- **esquálida**: muito magra e suja.
- **maltrapilho**: pessoa vestida com roupas rasgadas.
- **púrpura**: tecido vermelho e caro, usado por reis.
- **casas de pasto**: restaurantes simples e baratos.
- **fiam**: do verbo fiar: vendem para pagar depois.
- **quitandeiras**: mulheres que vendiam comida na rua ou em pequenas lojas.
- **vinténs**: moedas de pouco valor.
- **angu**: comida barata feita de farinha de milho e água.
- **In hoc signo vinces!**: frase em latim: "com este sinal vencerás".

## Capítulo LX. O abraço

Pensei que o pobre diabo estivesse doido. Ia me afastar, quando ele me pegou pelo pulso. Olhou alguns instantes para o brilhante que eu tinha no dedo. Senti na mão dele uns tremores de cobiça, umas coceiras de posse.

— Magnífico! — disse ele.

Depois começou a andar em volta de mim e a me examinar muito.

— O senhor se trata bem — disse ele. — Joias, roupa fina, elegante e... Compare esses sapatos com os meus; que diferença! Pudera! Digo ao senhor que se trata bem. E moças? Como vão elas? Está casado?

— Não...

— Nem eu.

— Moro na rua...

— Não quero saber onde mora — interrompeu o Quincas Borba. — Se alguma vez nos virmos, me dê outra nota de cinco mil-réis. Mas permita que eu não vá buscá-la na sua casa. É uma espécie de orgulho... Agora, adeus; vejo que o senhor está impaciente.

— Adeus!

— E obrigado. Deixe-me agradecer ao senhor de mais perto?

E, dizendo isso, me abraçou com tal força que não pude evitar. Finalmente nos separamos. Eu saí a passos largos, com a camisa amassada pelo abraço, aborrecido e triste. Já não dominava em mim a parte simpática da sensação, mas a outra. Eu queria ver nele uma miséria digna. Contudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de antes. Fiquei triste e olhei o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...

— Ora, adeus! Vamos jantar — disse para mim mesmo.

Ponho a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! O Borba o tinha furtado no abraço.

### Glossário

- **pobre diabo**: pessoa pobre e infeliz.
- **brilhante**: diamante.
- **cobiça**: desejo forte de ter o que é de outro.
- **pudera!**: claro!; é natural que seja assim.
- **mil-réis**: dinheiro da época.
- **abismo**: buraco muito fundo; aqui, uma grande distância.
- **colete**: roupa sem mangas usada por baixo do paletó, com bolso para o relógio.
- **furtado**: roubado sem que a pessoa perceba.

## Capítulo LXI. Um projeto

Jantei triste. Não era a falta do relógio que me doía. Era a imagem do autor do furto, e as lembranças de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Já na sopa começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do cap. XXV. Por isso jantei depressa, para correr à casa de Virgília. Virgília era o presente. Eu queria me refugiar nele, para escapar às opressões do passado. É que o encontro com Quincas Borba tinha feito voltar aos meus olhos o passado. Não o passado como tinha sido de verdade, mas um passado rasgado, abjeto, mendigo e ladrão.

Saí de casa, mas era cedo; eu ia encontrá-los à mesa. Pensei outra vez no Quincas Borba. Tive então o desejo de voltar ao Passeio Público, para ver se o achava. A ideia de regenerá-lo me apareceu como uma forte necessidade. Fui, mas já não o achei. Perguntei ao guarda. Ele me disse que, de fato, «esse sujeito» passava por ali às vezes.

— A que horas?

— Não tem hora certa.

Não era impossível encontrá-lo em outra ocasião, e prometi a mim mesmo voltar lá. A necessidade de regenerá-lo enchia o meu coração. Eu queria trazê-lo ao trabalho e ao respeito por si mesmo. Eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim mesmo... Nisso caía a noite. Fui encontrar Virgília.

### Glossário

- **flor amarela**: imagem da hipocondria, a tristeza doentia do narrador.
- **mórbida**: doentia.
- **refugiar**: esconder-se num lugar seguro.
- **opressões**: pesos que deixam a pessoa sem ar e sem alegria.
- **abjeto**: baixo, que causa nojo.
- **Passeio Público**: jardim público do Rio de Janeiro.
- **regenerá-lo**: fazer dele um homem novo e melhor.
- **elevação**: sentimento de estar acima dos outros, de ser nobre.

## Capítulo LXII. O travesseiro

Fui encontrar Virgília e bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, morno, perfumado, com fronha de cambraia e renda de Bruxelas. Era ali que ele costumava descansar de todas as sensações más, simplesmente chatas ou até dolorosas. E, pensando bem, não havia outra razão para a existência de Virgília; não podia haver. Cinco minutos bastaram para esquecer inteiramente o Quincas Borba. Cinco minutos de contemplação mútua, com as mãos presas umas nas outras. Cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrófula da vida, trapo do passado, que me importa que você exista, que incomode os olhos dos outros? Que me importa, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

### Glossário

- **travesseiro**: almofada onde se põe a cabeça para dormir.
- **fronha**: capa de pano do travesseiro.
- **cambraia**: tecido branco, fino e caro.
- **renda de Bruxelas**: tecido fino e delicado, feito na cidade de Bruxelas.
- **contemplação**: ação de olhar longamente, com prazer.
- **mútua**: feita pelos dois, um para o outro.
- **escrófula**: doença antiga que causa feridas; aqui, coisa feia e doente.
- **palmos**: medida antiga: o espaço de uma mão aberta.

## Capítulo LXIII. Fujamos!

Ai! Nem sempre dormir. Três semanas depois, fui à casa de Virgília. Eram quatro horas da tarde. Encontrei-a triste e abatida. Ela não quis me dizer o que tinha. Mas eu insisti muito, e ela disse:

— Creio que o Damião desconfia de alguma coisa. Agora noto nele umas esquisitices... Não sei... Ele me trata bem, não há dúvida. Mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal. Ainda esta noite acordei apavorada: sonhei que ele ia me matar. Talvez seja ilusão, mas eu acho que ele desconfia...

Acalmei-a como pude. Disse que podiam ser preocupações políticas. Virgília concordou que deviam ser, mas continuou muito agitada e nervosa. Estávamos na sala de visitas, que dava justamente para a chácara. Era ali que tínhamos trocado o primeiro beijo. Uma janela aberta deixava entrar o vento, que balançava de leve as cortinas. Fiquei olhando para as cortinas, sem vê-las. Eu tinha pegado o binóculo da imaginação. Via ao longe uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso. Nesse mundo não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro laço que limitasse a nossa vontade. Esta ideia me embriagou. Eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastaria entrar naquela casa dos anjos.

— Virgília — disse eu —, tenho uma proposta para te fazer.

— O que é?

— Amas-me?

— Oh! — suspirou ela, pondo os braços em volta do meu pescoço.

Virgília me amava com fúria. Aquela resposta era a verdade clara. Com os braços no meu pescoço, calada, respirando fundo, ficou olhando para mim. Tinha uns olhos grandes e belos, que davam uma estranha sensação de luz úmida. Eu fiquei olhando para eles. Olhava com amor para a sua boca, fresca como a madrugada, e insaciável como a morte. A beleza de Virgília tinha agora um tom grandioso, que não tinha antes de casar. Ela era uma dessas figuras talhadas em mármore pentélico, de trabalho nobre, amplo e puro. Era tranquilamente bela, como as estátuas, mas não era apática nem fria. Ao contrário, tinha o aspecto das naturezas ardentes. Podia-se dizer que, na realidade, ela resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquele momento, em que dizia sem palavras tudo o que o olho humano pode dizer. Mas o tempo era curto. Soltei as suas mãos, peguei-a pelos pulsos e, olhando fixo para ela, perguntei se tinha coragem.

— De quê?

— De fugir. Iremos para onde for mais cômodo para nós. Uma casa grande ou pequena, como quiseres, no campo ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer melhor. Um lugar onde ninguém nos incomode e não haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? Fujamos. Mais tarde ou mais cedo, ele pode descobrir alguma coisa, e estarás perdida... Ouves? Perdida... morta... e ele também, porque eu o matarei, eu te juro.

Parei. Virgília tinha ficado muito pálida. Deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Ficou assim alguns instantes, sem me dizer uma palavra. Não sei se tinha dúvida na escolha ou se estava apavorada com a ideia da descoberta e da morte. Fui até ela e insisti na proposta. Falei de todas as vantagens de uma vida a sós, sem ciúmes, nem terrores, nem aflições. Virgília me ouvia calada. Depois disse:

— Não escaparíamos, talvez. Ele iria ter comigo e me mataria do mesmo jeito.

Mostrei-lhe que não. O mundo era bastante grande. Eu tinha meios para viver em qualquer lugar com ar puro e muito sol. Ele não chegaria até lá. Só as grandes paixões são capazes de grandes ações. E ele não a amava tanto que pudesse ir buscá-la, se ela estivesse longe. Virgília fez um gesto de espanto e quase de indignação. Murmurou que o marido gostava muito dela.

— Pode ser — respondi eu. — Pode ser que sim...

Fui até a janela e comecei a assobiar e a bater com os dedos no peitoril. Virgília me chamou. Eu continuei ali, ruminando os meus ciúmes. Desejava estrangular o marido, se o tivesse ali ao alcance da mão... Justamente nesse instante, Lobo Neves entrou na chácara. Não trema assim, leitora pálida; descanse, que não vou manchar esta página com uma gota de sangue. Logo que Lobo Neves entrou na chácara, fiz-lhe um gesto amigo e disse uma palavra simpática. Virgília saiu depressa da sala, e ele entrou três minutos depois.

— Está cá há muito tempo? — disse-me ele.

— Não.

Ele tinha entrado sério, pesado, olhando em volta de um jeito distraído, como era o seu costume. Mas logo mudou e ficou muito alegre, ao ver chegar o filho, Nhonhô, o futuro bacharel do capítulo VIII. Tomou-o nos braços, levantou-o no ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha ódio ao menino, afastei-me dos dois. Virgília voltou à sala.

— Ah! — respirou Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sofá.

— Cansado? — perguntei eu.

— Muito. Aguentei duas chatices de primeira ordem, uma na Câmara e outra na rua. E ainda temos a terceira — acrescentou, olhando para a mulher.

— O que é? — perguntou Virgília.

— Um... Adivinha!

Virgília tinha se sentado ao lado dele. Pegou uma das suas mãos, arrumou a sua gravata e perguntou de novo o que era.

— Nada menos que um camarote.

— Para a Candiani?

— Para a Candiani.

Virgília bateu palmas, levantou-se e deu um beijo no filho. Tinha um ar de alegria infantil, que não combinava nada com a sua figura. Depois perguntou se o camarote ficava perto do palco ou no centro. Consultou o marido, em voz baixa, sobre a *toilette* que ia usar. Perguntou pela ópera que iam cantar e não sei que outras coisas.

— Você janta conosco, doutor — disse-me Lobo Neves.

— Veio para isso mesmo — confirmou a mulher. — Diz que você tem o melhor vinho do Rio de Janeiro.

— Mas nem por isso bebe muito.

No jantar, desmenti-o. Bebi mais do que costumava, mas ainda assim menos do que era preciso para perder a razão. Eu já estava excitado, e fiquei um pouco mais. Era a primeira grande raiva que eu sentia contra Virgília. Não olhei nem uma vez para ela durante o jantar. Falei de política, da imprensa, do ministério. Creio que falaria até de teologia, se a conhecesse, ou se me lembrasse dela. Lobo Neves me acompanhava com muita calma e dignidade, e até com certa bondade superior. Tudo aquilo também me irritava, e tornava o jantar mais amargo e mais longo. Despedi-me logo que nos levantamos da mesa.

— Até logo, não? — perguntou Lobo Neves.

— Pode ser.

E saí.

### Glossário

- **Fujamos**: vamos fugir.
- **esquisitices**: coisas estranhas, modos estranhos.
- **apavorada**: com muito medo, em pânico.
- **binóculo**: instrumento com duas lentes para ver coisas distantes.
- **embriagou**: deixou tonto, como faz o vinho.
- **insaciável**: que nunca fica satisfeito.
- **talhadas**: cortadas e trabalhadas pelo artista.
- **mármore pentélico**: mármore branco e fino da Grécia, usado em estátuas antigas.
- **cômodo**: fácil e agradável.
- **pálida**: sem cor no rosto.
- **canapé**: sofá antigo, com encosto e braços.
- **aflições**: grandes preocupações e sofrimentos.
- **iria ter comigo**: iria até onde eu estivesse.
- **assobiar**: fazer um som fino soprando com os lábios.
- **peitoril**: parte baixa da janela, onde se pode apoiar os braços.
- **ruminando**: pensando sem parar na mesma coisa.
- **estrangular**: matar alguém apertando o pescoço.
- **bacharel**: pessoa formada em direito.
- **camarote**: lugar separado no teatro, para poucas pessoas.
- **Candiani**: cantora italiana de ópera, famosa no Rio de Janeiro da época.
- **toilette**: palavra francesa: a roupa e os enfeites de uma mulher para uma ocasião.
- **desmenti**: mostrei que o que ele disse não era verdade.

## Capítulo LXIV. A transação

Andei sem rumo pelas ruas e voltei para casa às nove horas. Como não conseguia dormir, pus-me a ler e escrever. Às onze horas, eu estava arrependido de não ter ido ao teatro. Olhei o relógio, quis me vestir e sair. Mas achei que chegaria tarde. Além disso, seria uma prova de fraqueza. Claramente, Virgília começava a se aborrecer de mim, pensava eu. Esta ideia me deixou desesperado e depois frio, pronto a esquecê-la e a matá-la. Eu a via dali mesmo, recostada no camarote, com os seus magníficos braços nus. Os braços que eram meus, só meus. Ela fascinava os olhos de todos, com o vestido soberbo que devia estar usando. Via o colo branco como leite, os cabelos em bandós, à moda do tempo. Via os brilhantes, menos luminosos que os olhos dela... Eu a via assim, e me doía que os outros a vissem. Depois, eu começava a despi-la. Punha de lado as joias e as sedas. Desfazia o seu penteado com as minhas mãos ávidas e lascivas. Eu a tornava, não sei se mais bela, se mais natural. Eu a tornava minha, somente minha, unicamente minha.

No dia seguinte, não me aguentei. Fui cedo à casa de Virgília e a encontrei com os olhos vermelhos de chorar.

— O que houve? — perguntei.

— Você não me ama — foi a sua resposta. — Nunca me teve o menor amor. Ontem me tratou como se me odiasse. Se eu ao menos soubesse o que fiz! Mas não sei. Você não vai me dizer o que foi?

— O que foi o quê? Creio que não houve nada.

— Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...

Ao ouvir esta palavra, peguei as suas mãos e as beijei, e duas lágrimas saltaram dos seus olhos.

— Acabou, acabou — disse eu.

Não tive coragem de acusá-la. Aliás, acusá-la de quê? Não era culpa dela se o marido a amava. Disse-lhe que ela não me tinha feito nada. Disse que eu tinha necessariamente ciúmes do outro e que nem sempre podia suportá-lo de cara alegre. Acrescentei que talvez ele estivesse fingindo muito. Para fechar a porta aos sustos e às brigas, disse eu, era melhor aceitar a minha ideia da véspera.

— Pensei nisso — respondeu Virgília depressa. — Uma casinha só nossa, solitária, no meio de um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a ideia boa; mas para que fugir?

Disse isso com o tom ingênuo e preguiçoso de quem não pensa em nada de mal. O sorriso que lhe baixava os cantos da boca tinha a mesma expressão de inocência. Então, afastando-me, respondi:

— Você é que nunca me teve amor.

— Eu?

— Sim, é uma egoísta! Prefere me ver sofrer todos os dias... É uma egoísta sem nome!

Virgília começou a chorar. Para não atrair gente, punha o lenço na boca e segurava os soluços. Essa explosão me desconcertou. Se alguém a ouvisse, tudo estaria perdido. Inclinei-me para ela, segurei os seus pulsos, sussurrei os nomes mais doces da nossa intimidade. Mostrei-lhe o perigo, e o terror a acalmou.

— Não posso — disse ela alguns instantes depois. — Não deixo meu filho. Se o levar, tenho certeza de que ele irá me buscar no fim do mundo. Não posso. Mate-me você, se quiser, ou me deixe morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!

— Sossegue. Olhe que podem ouvir você.

— Que ouçam! Não me importa.

Ainda estava agitada. Pedi-lhe que esquecesse tudo e que me perdoasse. Disse que eu era um doido, mas que a minha loucura vinha dela e com ela acabaria. Virgília enxugou os olhos e me estendeu a mão. Nós dois sorrimos. Minutos depois, voltávamos ao assunto da casinha solitária, em alguma rua escondida...

### Glossário

- **transação**: acordo em que cada lado cede um pouco.
- **camarote**: lugar separado no teatro, para poucas pessoas.
- **soberbo**: magnífico, muito bonito.
- **colo**: pescoço e parte de cima do peito.
- **bandós**: penteado com o cabelo dividido ao meio e preso dos dois lados.
- **brilhantes**: diamantes.
- **ávidas**: que querem muito uma coisa, com pressa.
- **lascivas**: cheias de desejo sexual.
- **véspera**: o dia anterior.
- **desconcertou**: deixou sem saber o que fazer ou dizer.

## Capítulo LXV. Olheiros e escutas

Interrompeu-nos o barulho de um carro na chácara. Um escravo veio dizer que era a baronesa X. Virgília me consultou com os olhos.

— Se a senhora está assim com dor de cabeça — disse eu —, parece que o melhor é não receber.

— Ela já desceu do carro? — perguntou Virgília ao escravo.

— Já desceu, sim. Diz que precisa muito falar com sinhá!

— Que entre!

A baronesa entrou pouco depois. Não sei se esperava me encontrar na sala. Mas era impossível mostrar mais agitação e alegria.

— Bons olhos o vejam! — explodiu ela. — Onde o senhor se mete, que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem me admirei de não vê-lo no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! O senhor gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos iguais. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! E desaforo de velho, que é pior. Mas por que o senhor não foi ontem ao teatro?

— Uma enxaqueca.

— Qual! Algum namoro. Não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto disso... Não tem quarenta anos?

— Não posso lhe dizer com certeza — respondi eu. — Mas, se me dá licença, vou consultar a certidão de batismo.

— Vá, vá... — E, estendendo-me a mão: — Até quando? Sábado ficamos em casa. O barão está com umas saudades do senhor...

Na rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Tinha cinquenta e cinco anos, que pareciam quarenta. Era macia, risonha, com restos de beleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre. Possuía a grande arte de escutar os outros e espiá-los ao mesmo tempo. Recostava-se então na cadeira, tirava da bainha um olhar afiado e comprido, e ficava assim. Os outros, sem saber o que era, falavam, olhavam, faziam gestos, enquanto ela só olhava, ora fixa, ora em movimento. Levava a astúcia ao ponto de às vezes olhar para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras. Mas as pestanas eram como rótulas de janela. Por isso o olhar continuava o seu trabalho, remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um velho acabado de setenta invernos, seco e amarelado. Sofria de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão no coração. Era um hospital concentrado. Os olhos, porém, brilhavam de muita vida e saúde. Nas primeiras semanas, Virgília não tinha nenhum medo dele. Dizia-me que, quando o Viegas parecia espiar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. De fato, era um grande avarento.

Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra. Mas eu o desarmava falando sempre dos seus versos e da sua prosa, e apresentando-o aos conhecidos. Os conhecidos ligavam o nome à pessoa e se mostravam contentes com a apresentação. Então Luís Dutra ficava radiante de felicidade, não há dúvida. Mas eu me curava dessa felicidade com a esperança de que ele nunca nos denunciasse. Havia, enfim, umas duas ou três senhoras e vários rapazes elegantes. Havia também os criados, que assim se vingavam, naturalmente, da sua condição de servos. Tudo isso formava uma verdadeira floresta de olheiros e escutas. Tínhamos de escorregar por entre eles com a tática e a maciez das cobras.

### Glossário

- **olheiros e escutas**: pessoas que vigiam e escutam os outros em segredo.
- **sinhá**: forma como pessoas escravizadas chamavam a senhora.
- **Bons olhos o vejam!**: frase para dizer que é bom ver alguém depois de muito tempo.
- **desaforo**: falta de respeito, ofensa.
- **enxaqueca**: dor de cabeça forte.
- **apresse-se**: ande depressa, não perca tempo.
- **certidão de batismo**: documento da Igreja com a data do batismo; mostra a idade da pessoa.
- **desconfiavam**: achavam que havia algo errado ou escondido.
- **espiá-los**: olhar para eles em segredo.
- **bainha**: capa onde se guarda uma espada ou uma faca.
- **astúcia**: esperteza para enganar os outros.
- **pálpebras**: as peles que cobrem os olhos quando eles se fecham.
- **rótulas**: grades de madeira nas janelas; quem está dentro vê sem ser visto.
- **remexendo**: mexendo muito em alguma coisa, procurando.
- **reumatismo**: doença que causa dor nos ossos e nos músculos.
- **teimoso**: que não desiste; aqui, que não passa.
- **teimosa**: que não desiste; aqui, que não passa.
- **espiar**: olhar em segredo.
- **avarento**: pessoa que guarda dinheiro e não gosta de gastar.
- **desarmava**: tirava as armas; aqui, deixava sem vontade de atacar.
- **escorregar**: deslizar, passar sem ser notado.

## Capítulo LXVI. As pernas

Ora, enquanto eu pensava naquela gente, as pernas iam me levando, ruas abaixo. Assim, sem perceber, cheguei à porta do hotel Pharoux. Eu costumava jantar ali. Mas não tinha andado por vontade própria. Por isso, nenhum mérito dessa ação é meu. O mérito é das pernas, que a fizeram. Benditas pernas! E há quem trate vocês com desprezo ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha má opinião de vocês. Ficava zangado quando vocês se cansavam, quando não podiam ir além de certo ponto. Ficava zangado também quando vocês me deixavam com o desejo batendo as asas, como uma galinha amarrada pelos pés.

Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vocês deixaram para a minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília. E disseram uma à outra:

— Ele precisa comer, está na hora do jantar, vamos levá-lo ao Pharoux. Vamos dividir a consciência dele. Uma parte fica lá com a dama. Nós ficamos com a outra, para que ele ande direito. Assim ele não bate nas pessoas nem nas carroças. Tira o chapéu para os conhecidos e, finalmente, chega são e salvo ao hotel.

E vocês cumpriram à risca o seu plano, amáveis pernas. Isso me obriga a imortalizá-las nesta página.

### Glossário

- **mérito**: valor de quem fez uma coisa boa; aquilo que merece elogio.
- **Benditas**: abençoadas; que merecem agradecimento.
- **desprezo**: falta de respeito; ideia de que alguém ou algo não tem valor.
- **carroças**: veículos de duas ou quatro rodas puxados por animais.
- **dama**: senhora; mulher de boa família.
- **são e salvo**: sem nenhum problema, sem se machucar.
- **à risca**: exatamente como foi dito ou planejado.
- **imortalizá-las**: fazer com que nunca sejam esquecidas.

## Capítulo LXVII. A casinha

Jantei e fui para casa. Lá encontrei uma caixa de charutos, que Lobo Neves tinha me mandado. Estava embrulhada em papel de seda e decorada com fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri a caixa e tirei este bilhete:

«Meu B...

«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz

«V...a»

Foi um golpe, esta carta. Mesmo assim, logo que a noite caiu, corri à casa de Virgília. Era tempo: ela estava arrependida. Junto de uma janela, ela me contou o que tinha acontecido com a baronesa. A baronesa lhe tinha dito francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior. Falaram da minha ausência do camarote de Lobo Neves. Tinham comentado as minhas relações naquela casa. Em resumo, éramos objeto da suspeita pública. Virgília terminou dizendo que não sabia o que fazer.

— O melhor é fugirmos — insinuei.

— Nunca — respondeu ela, balançando a cabeça.

Vi que era impossível separar duas coisas que, para ela, estavam totalmente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de sacrifícios iguais e grandes para conservar as duas vantagens. E a fuga só lhe deixava uma. Talvez eu tenha sentido alguma coisa parecida com despeito. Mas as emoções daqueles dois dias já eram muitas, e o despeito morreu depressa. Que seja; vamos arranjar a casinha.

De fato, dias depois, encontrei a casa, feita de propósito, num canto da Gamboa. Uma joia! Era nova, pintada de branco há pouco tempo. Tinha quatro janelas na frente e duas de cada lado, todas com venezianas cor de tijolo. Trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistério e solidão. Uma joia!

Combinamos que iria morar ali uma mulher conhecida de Virgília, que tinha sido costureira e agregada na casa dela. Virgília exercia sobre ela um verdadeiro encanto. Não íamos lhe dizer tudo; ela aceitaria facilmente o resto.

Para mim, aquilo era uma situação nova do nosso amor. Era uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto. Era alguma coisa que faria a minha consciência adormecer e protegeria o decoro. Eu já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé. Estava cansado de todas essas coisas que me punham sempre diante dos olhos a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites. Podia evitar, enfim, a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa me compensava de tudo. O mundo vulgar terminaria à porta. Dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso. Um mundo sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas. Um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição. Era a unidade moral de todas as coisas, pela exclusão das que me eram contrárias.

### Glossário

- **charutos**: rolos de folhas de tabaco para fumar.
- **embrulhada**: coberta com papel ou pano.
- **insinuei**: disse de modo indireto, sem pedir abertamente.
- **consideração pública**: o respeito que as outras pessoas têm por alguém.
- **despeito**: raiva misturada com orgulho ferido.
- **venezianas**: janelas ou portas de tiras de madeira que deixam passar o ar.
- **trepadeira**: planta que sobe pelas paredes.
- **costureira**: mulher que faz roupas como trabalho.
- **agregada**: pessoa que vive na casa de outra família.
- **decoro**: comportamento correto diante dos outros; respeito às aparências.
- **duplicidade**: o ato de viver de duas maneiras, enganando os outros.
- **cúmplice**: quem ajuda alguém a fazer algo errado ou secreto.
- **olheiros, escutas**: pessoas que vigiam e escutam os outros em segredo.
- **afeição**: sentimento de carinho e amor por alguém.

## Capítulo LXVIII. O vergalho

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, pelo Valongo afora, logo depois de ver a casa e fechar o negócio. Interrompeu-as um grupo de pessoas. Era um preto que batia em outro com um vergalho, na praça. O outro não tinha coragem de fugir. Gemia somente estas únicas palavras:

— «Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!»

Mas o primeiro não fazia caso e, a cada súplica, respondia com uma nova vergalhada.

— Toma, diabo! — dizia ele. — Toma mais perdão, bêbado!

— Meu senhor! — gemia o outro.

— Cala a boca, besta! — respondia o vergalho.

Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, aquele que meu pai tinha libertado alguns anos antes. Cheguei perto. Ele parou logo e me pediu a bênção. Perguntei se aquele preto era escravo dele.

— É, sim, nhonhô.

— Ele te fez alguma coisa?

— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade. E ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

— Está bom, perdoa-lhe — disse eu.

— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!

Saí do grupo, que me olhava surpreso e cochichava as suas suposições. Segui o meu caminho. Ia cavando cá dentro uma infinidade de reflexões, que infelizmente perdi por completo. Aliás, seriam matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Por fora, o episódio do Valongo era sombrio; mas só por fora. Logo que enfiei mais fundo a faca do raciocínio, encontrei nele um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se livrar das pancadas recebidas: passando-as para outro. Eu, em criança, montava nele, punha-lhe um freio na boca e batia nele sem compaixão. Ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, ele era dono de si mesmo, dos braços, das pernas. Podia trabalhar, descansar, dormir, solto da antiga condição. Agora é que ele levava a melhor. Comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

### Glossário

- **vergalho**: chicote de couro.
- **preto**: palavra da época para pessoas negras e escravizadas; antiga e muitas vezes ofensiva.
- **gemia**: fazia sons baixos de dor.
- **moleque**: menino escravizado; palavra antiga, ofensiva nesse uso.
- **nhonhô**: forma como pessoas escravizadas chamavam o senhor ou o filho do senhor.
- **bênção**: pedido de proteção de Deus; aqui, sinal de respeito de quem foi escravizado ao antigo senhor.
- **quitanda**: pequena loja de alimentos.
- **venda**: pequena loja que vende comida e bebida.
- **cochichava**: falava muito baixo, ao ouvido de alguém.
- **suposições**: ideias sem certeza sobre alguma coisa.
- **cavando**: abrindo um buraco na terra; aqui, pensando fundo.
- **infinidade**: número muito grande.
- **miolo gaiato**: parte de dentro engraçada, divertida.
- **freio**: peça de metal que se põe na boca do cavalo para guiá-lo.
- **maroto**: pessoa esperta e sem vergonha; aqui, dito com ironia.

## Capítulo LXIX. Um grão de sandice

Este caso me faz lembrar um doido que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e única mania, e ele tinha um jeito curioso de explicá-la.

— Eu sou o ilustre Tamerlão — dizia ele. — Antigamente fui Romualdo, mas fiquei doente. Tomei tanto tártaro, tanto tártaro, tanto tártaro, que fiquei Tártaro, e até rei dos Tártaros. O tártaro tem a virtude de fazer Tártaros.

Pobre Romualdo! As pessoas riam da resposta, mas é provável que o leitor não ria, e com razão. Eu não acho nenhuma graça nela. Ouvida, tinha algum humor. Mas agora está contada no papel, e a propósito de um vergalho recebido e transferido. Assim, tenho de confessar: é muito melhor voltar à casinha da Gamboa. Deixemos os Romualdos e os Prudêncios.

### Glossário

- **grão**: pedaço muito pequeno de alguma coisa.
- **sandice**: loucura, tolice.
- **mania**: ideia ou hábito que uma pessoa não consegue deixar.
- **Tamerlão**: conquistador tártaro da Ásia, do século XIV.
- **tártaro**: remédio antigo. A palavra é igual a "Tártaro": é esse o jogo de palavras do doido.
- **Tártaro**: pessoa de um antigo povo da Ásia. Tamerlão era rei desse povo.
- **virtude**: aqui, poder de um remédio.
- **vergalho**: chicote de couro.

## Capítulo LXX. D. Plácida

Voltemos à casinha. Você não seria capaz de entrar lá hoje, curioso leitor. Ela envelheceu, ficou preta, apodreceu. O proprietário a derrubou para construir outra, três vezes maior, mas juro a você que muito menor que a primeira. O mundo era pequeno para Alexandre; um canto de telhado é o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo. Ele nos leva pelo espaço como um barco de náufragos que vai para a costa. Hoje dorme um casal de virtudes no mesmo pedaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode dormir lá um padre, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta. E todos vão abençoar esse canto de terra, que lhes deu algumas ilusões.

Virgília fez daquilo uma joia. Escolheu os móveis e objetos mais adequados e os arrumou com o bom gosto natural da mulher elegante. Eu levei para lá alguns livros. E tudo ficou aos cuidados de D. Plácida, suposta dona da casa e, em certos aspectos, dona verdadeira.

Foi muito difícil para ela aceitar a casa. Tinha adivinhado a intenção, e aquele trabalho a fazia sofrer. Mas no fim cedeu. Creio que chorava, no começo: tinha nojo de si mesma. Pelo menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses. Falava comigo de olhos baixos, séria, de cara fechada, às vezes triste. Eu queria conquistá-la e não me mostrava ofendido. Tratava-a com carinho e respeito. Fazia força para obter a sua boa vontade, depois a sua confiança. Quando obtive a confiança, inventei uma história comovente dos meus amores com Virgília. Era um caso anterior ao casamento, com a resistência do pai e a dureza do marido. E havia não sei que outros toques de novela. D. Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou todas. Era uma necessidade da consciência. Depois de seis meses, quem nos visse juntos, os três, diria que D. Plácida era minha sogra.

Não fui ingrato. Fiz-lhe uma poupança de cinco contos, os cinco contos achados em Botafogo, como um pão para a velhice. D. Plácida me agradeceu com lágrimas nos olhos. E nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem do seu quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

### Glossário

- **Alexandre**: rei da Macedônia, na Antiguidade; conquistou um enorme império.
- **andorinhas**: pequenos pássaros que fazem ninho embaixo dos telhados.
- **neutralidade**: atitude de quem não toma o partido de ninguém.
- **globo**: a Terra.
- **náufragos**: pessoas que sobrevivem à perda de um navio no mar.
- **novela**: história inventada.
- **sogra**: mãe da esposa ou do marido.
- **contos**: um conto de réis era mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **a Virgem**: Maria, a mãe de Jesus.

## Capítulo LXXI. O senão do livro

Começo a me arrepender deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho nada para fazer. E, realmente, mandar alguns capítulos magros para esse mundo é sempre um trabalho que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é chato, cheira a sepultura, tem uma certa rigidez de cadáver. É um defeito grave e, aliás, muito pequeno, porque o maior defeito deste livro é você, leitor. Você tem pressa de ficar velho, e o livro anda devagar. Você ama a narração direta e bem cheia, o estilo regular e fluente. Mas este livro e o meu estilo são como os bêbados. Guinam para a direita e para a esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...

E caem! — Folhas muito miseráveis do meu cipreste, vocês vão cair, como quaisquer outras belas e vistosas. E, se eu tivesse olhos, daria a vocês uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte: se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Vocês vão cair. Turvo é o ar que vocês respiram, folhas amadas. O sol que ilumina vocês, embora seja de todos, é um sol opaco e vulgar, de cemitério e carnaval.

### Glossário

- **senão**: pequeno defeito.
- **sepultura**: lugar onde se enterra um morto.
- **rigidez**: estado do que é duro e não se dobra.
- **cadáver**: corpo de uma pessoa morta.
- **Guinam**: mudam de direção de repente.
- **resmungam**: falam baixo, com mau humor.
- **urram**: gritam alto, como animais.
- **gargalham**: riem muito alto.
- **escorregam**: perdem o equilíbrio e deslizam no chão.
- **Folhas**: as folhas de uma árvore e também as páginas deste livro.
- **cipreste**: árvore escura, comum nos cemitérios.
- **Turvo**: escuro, pouco claro.
- **opaco**: sem brilho, que não deixa passar a luz.

## Capítulo LXXII. O bibliômano

Talvez eu suprima o capítulo anterior. Entre outros motivos, há ali, nas últimas linhas, uma frase muito parecida com um absurdo. E eu não quero dar comida à crítica do futuro.

Olhem: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho se inclina sobre a página anterior. Ele não ama nenhuma outra coisa além dos livros. Quer ver se descobre o absurdo. Lê, relê, lê de novo e de novo, desmonta as palavras. Tira uma sílaba, depois outra, mais outra, e as que restam. Examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz. Bate a poeira delas, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica sempre o mesmo absurdo.

É um bibliômano. Não conhece o autor. Este nome de Brás Cubas não está nos seus dicionários de biografias. Encontrou o volume, por acaso, na loja velha e suja de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Investigou, pesquisou, procurou, e acabou descobrindo que era um exemplar único... Único! Vocês, que não só amam os livros, mas sofrem da mania deles, sabem muito bem o valor desta palavra. Adivinham, portanto, as delícias do meu bibliômano. Ele recusaria a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda. Recusaria, se tivesse de trocá-los por esse único exemplar. E não porque seja o das minhas *Memórias*. Faria a mesma coisa com o *Almanak* de Laemmert, desde que fosse único.

O pior é o absurdo. Lá continua o homem, inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito. Está todo entregue à nobre e dura tarefa de decifrar o absurdo. Já prometeu a si mesmo escrever um breve estudo. Nele vai contar como achou o livro e como descobriu a sublimidade, se ela existir, por baixo daquela frase obscura. No fim, não descobre nada e se contenta com a posse. Fecha o livro, olha para ele, olha de novo, chega à janela e o mostra ao sol. Um exemplar único! Nesse momento, passa por baixo da sua janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estica-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar único!

### Glossário

- **bibliômano**: pessoa que tem mania de livros.
- **grisalho**: com cabelos brancos e escuros misturados.
- **relê**: lê de novo.
- **desmonta**: separa as partes de uma coisa.
- **sílaba**: parte de uma palavra, dita de uma só vez.
- **alfarrabista**: quem vende livros velhos e usados.
- **réis**: dinheiro antigo do Brasil; duzentos réis era muito pouco.
- **exemplar**: cada livro de uma mesma edição.
- **papado**: o poder e o cargo do papa.
- **Almanak de Laemmert**: livro anual com endereços e informações do Rio de Janeiro.
- **inclinado**: com o corpo dobrado para a frente.
- **sublimidade**: qualidade do que é muito elevado e belo.
- **César, Cromwell**: chefes famosos que chegaram ao poder pela força.
- **dá de ombros**: levanta os ombros para mostrar que não se importa.
- **folheia**: vira as páginas de um livro, uma a uma.

## Capítulo LXXIII. O lunch

O absurdo me fez perder outro capítulo. Como seria melhor dizer as coisas de forma simples, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estilo ao andar dos bêbados. Se a ideia parece indecente a vocês, comparo-o às minhas refeições com Virgília, na casinha da Gamboa. Ali, às vezes, fazíamos a nossa festinha, o nosso *lunch*. Vinho, frutas, compotas. Comíamos, é verdade, mas era um comer cortado, como por vírgulas, por palavrinhas doces, olhares ternos e criancices. Era uma infinidade desses apartes do coração, que são, aliás, o verdadeiro e ininterrupto discurso do amor. Às vezes vinha uma briguinha temperar o excesso de doçura da situação. Ela me deixava e se refugiava num canto do canapé, ou ia para dentro ouvir os mimos de D. Plácida. Cinco ou dez minutos depois, reatávamos a conversa, como eu reato a narração, para desatá-la outra vez. Note-se que não tínhamos horror ao método. Ao contrário, era nosso costume convidá-lo, na pessoa de D. Plácida, a sentar-se conosco à mesa. Mas D. Plácida nunca aceitava.

— Você parece que não gosta mais de mim — disse-lhe Virgília um dia.

— Virgem Nossa Senhora! — exclamou a boa dama, levantando as mãos para o teto. — Não gosto de Iaiá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?

E, pegando as mãos dela, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente. Olhou tão fixo que os seus olhos se molharam. Virgília a acariciou muito. Eu deixei uma pequena moeda de prata no bolso do vestido dela.

### Glossário

- **lunch**: palavra inglesa: refeição leve.
- **solavancos**: movimentos fortes e irregulares, como os de um carro em rua ruim.
- **indecente**: que ofende o bom comportamento.
- **compotas**: frutas cozidas com açúcar.
- **criancices**: coisas de criança, brincadeiras bobas.
- **infinidade**: número muito grande.
- **apartes**: palavras ditas de passagem, que interrompem um discurso.
- **ininterrupto**: que não para, que continua sempre.
- **canapé**: sofá antigo, com encosto e braços.
- **mimos**: palavras de carinho.
- **reatávamos, reato**: atar de novo o que estava solto; aqui, continuar o que parou.
- **desatá-la**: soltar um nó; aqui, interromper de novo.
- **método**: ordem, jeito regular de fazer as coisas.
- **exclamou**: disse em voz alta, com emoção.
- **Iaiá**: forma como pessoas escravizadas ou agregadas chamavam a senhora ou a filha do senhor.
- **molharam**: ficaram cheios de lágrimas.
- **acariciou**: fez carinho.

## Capítulo LXXIV. História de D. Plácida

Não se arrependa de ser generoso. A pequena moeda de prata me rendeu uma confidência de D. Plácida e, portanto, este capítulo. Alguns dias depois, como a encontrei sozinha em casa, começamos a conversar. Ela me contou sua história em poucas palavras.

Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para vender. Perdeu o pai aos dez anos. Nessa época, já ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira, próprios para a sua idade. Aos quinze ou dezesseis anos, casou com um alfaiate. Ele morreu tísico algum tempo depois e deixou uma filha. Viúva, com pouco mais de vinte anos, ficou responsável pela filha, de dois anos, e pela mãe, cansada de trabalhar. Tinha de sustentar três pessoas. Fazia doces, que era o seu ofício. Mas também costurava, de dia e de noite, com muita dedicação, para três ou quatro lojas. E ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por mês. Assim iam passando os anos, mas não a beleza, porque ela nunca a tivera. Apareceram alguns namoros, propostas, seduções, e ela resistia a todos.

— Se eu pudesse encontrar outro marido — disse ela —, acredite que teria me casado. Mas ninguém queria casar comigo.

Um dos pretendentes conseguiu ser aceito. Mas ele não era mais delicado que os outros, e D. Plácida o mandou embora da mesma maneira. Depois de mandá-lo embora, chorou muito. Continuou a costurar para fora e a tirar a espuma dos tachos. A mãe era rabugenta, por temperamento, pela idade e pela necessidade. Atormentava a filha para que aceitasse um daqueles maridos de empréstimo e de ocasião que a pediam. E gritava:

— Queres ser melhor do que eu? Não sei de onde te vêm essas fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja à toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, não é?

D. Plácida me jurou que não esperava fidalgo nenhum. Era o seu gênio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe não tinha sido. Conhecia algumas mulheres que tinham só o seu homem, sem casamento. Mas era o seu gênio, e queria ser casada. Também não queria que a filha fosse outra coisa. E trabalhava muito, queimando os dedos no fogão e os olhos no candeeiro, para comer e não cair. Emagreceu, ficou doente, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze anos. Mas era muito fraquinha e não fazia nada. D. Plácida vivia cheia de preocupações e levava a filha com ela quando ia entregar as costuras.

Parou um instante e logo continuou:

— Minha filha fugiu; foi com um sujeito, nem quero saber... Ela me deixou só, mas tão triste, tão triste, que pensei que ia morrer. Não tinha mais ninguém no mundo, e estava quase velha e doente. Foi nesse tempo que conheci a família de Iaiá. Gente boa, que me deu trabalho e até chegou a me dar casa. Fiquei lá muitos meses, um ano, mais de um ano, como agregada, costurando. Saí quando Iaiá casou. Depois vivi como Deus quis. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos...

E me mostrou as mãos grossas e rachadas, com as pontas dos dedos furadas pela agulha.

— Mãos assim não se fazem à toa, meu senhor; Deus sabe como é que elas se fazem... Felizmente, Iaiá me protegeu, e o senhor doutor também... Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao dizer a última frase, D. Plácida teve um arrepio. Depois, como se voltasse a si, pareceu ver que aquela confissão era inconveniente, feita ao amante de uma mulher casada. Começou a rir, a negar tudo, a se chamar de tola, «cheia de fidúcias», como dizia a mãe. Por fim, cansada do meu silêncio, saiu da sala. Eu fiquei olhando para a ponta da bota.

### Glossário

- **filha natural**: filha de pais que não eram casados.
- **sacristão**: homem que cuida de uma igreja e ajuda o padre na missa.
- **ralava**: fazia o coco em pedacinhos, esfregando-o numa peça de metal.
- **tísico**: doente de tuberculose.
- **tostões**: moedas antigas do Brasil, de pouco valor.
- **tachos**: panelas grandes e largas, usadas para fazer doces.
- **rabugenta**: que reclama de tudo e está sempre de mau humor.
- **fidúcias**: ares de pessoa importante, orgulho; palavra antiga.
- **venda**: pequena loja de bairro que vende alimentos e bebidas.
- **fidalgo**: homem de família nobre.
- **candeeiro**: lâmpada antiga, de azeite.
- **subscrição**: dinheiro que várias pessoas juntam para pagar alguma coisa.
- **agregada**: pessoa que vive na casa de outra família.
- **Iaiá**: forma como pessoas escravizadas e de condição humilde chamavam a senhora.
- **rachadas**: com pequenas aberturas na pele.
- **esmola**: dinheiro que se dá a um pobre.
- **arrepio**: tremor rápido do corpo, de frio ou de medo.

## Capítulo LXXV. Comigo

Pode acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior. Por isso, aviso que é preciso lê-lo para entender o que eu disse comigo. Foi logo depois que D. Plácida saiu da sala. O que eu disse foi isto:

— Então o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar a dama. Ela ia colaborar com ele na vida de D. Plácida. Ele a viu em outros dias, durante semanas inteiras. Gostou dela, disse a ela alguma gracinha, pisou no pé dela ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, os dois se aproximaram, se amaram. Dessa conjunção de luxúrias vadias nasceu D. Plácida. É de crer que D. Plácida ainda não falasse quando nasceu. Mas, se falasse, podia dizer aos autores de seus dias: «Aqui estou. Para que me chamastes?» E o sacristão e a sacristã naturalmente responderiam: «Nós te chamamos para queimar os dedos nos tachos. Para queimar os olhos na costura, para comer mal, ou não comer. Para andar de um lado para outro, no trabalho duro. Para adoecer e sarar, com o fim de adoecer e sarar outra vez. Para ficar triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura. Até acabar um dia na lama ou no hospital. Foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.»

### Glossário

- **sacristão**: homem que cuida de uma igreja e ajuda o padre na missa.
- **sacristã**: aqui, a mulher que amou o sacristão; é uma brincadeira do narrador.
- **conjunção**: união de duas pessoas ou coisas.
- **luxúrias vadias**: desejos sexuais sem compromisso e sem seriedade.
- **autores de seus dias**: modo antigo de dizer "pai e mãe".
- **chamastes**: forma antiga de "vocês chamaram".
- **tachos**: panelas grandes e largas, usadas para fazer doces.
- **resignada**: que aceita o sofrimento sem reagir.
- **simpatia**: aqui, a atração entre duas pessoas que faz nascer uma criança.

## Capítulo LXXVI. O estrume

De repente, a consciência me deu um puxão. Ela me acusou de ter vencido a honestidade de D. Plácida. Eu a tinha obrigado a um papel sujo, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu a tinha baixado a esse ofício, à custa de favores e dinheiro. Foi o que a consciência me disse, e fiquei uns dez minutos sem saber o que responder. Ela acrescentou que eu tinha me aproveitado do fascínio de Virgília sobre a ex-costureira. Também da gratidão desta e, enfim, da necessidade. Lembrou a resistência de D. Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos. Lembrou também a minha arte de suportar tudo isso, até vencê-la. E me puxou outra vez, de um modo irritado e nervoso.

Concordei que era assim. Mas argumentei que a velhice de D. Plácida agora estava protegida da mendicância; era uma compensação. E então raciocinei: sem os meus amores, D. Plácida provavelmente acabaria como tantas outras criaturas humanas. Daí se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. Isso não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sadia. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgília.

### Glossário

- **estrume**: sujeira de animais usada para fazer as plantas crescerem.
- **privações**: falta das coisas necessárias para viver.
- **medianeira**: mulher que ajuda duas pessoas a se encontrarem, aqui dois amantes.
- **concubina**: mulher que vive como amante de um homem, sem ser casada com ele.
- **ofício**: trabalho, profissão.
- **ex-costureira**: mulher que antes trabalhava fazendo costuras.
- **mendicância**: a vida de quem pede esmola.
- **vício**: mau hábito, ação contra a moral.
- **virtude**: qualidade moral boa.

## Capítulo LXXVII. Entrevista

Virgília entrou sorridente e tranquila. O tempo tinha levado os sustos e as vergonhas. Como era doce vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, com o rosto coberto por um véu, envolvida numa espécie de manto. O manto disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez, ela se deixou cair no canapé, ofegante, vermelha, com os olhos no chão. E, palavra! nunca a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porém, como eu dizia, os sustos e as vergonhas tinham acabado. Os encontros entravam no período cronométrico. A intensidade do amor era a mesma. A diferença é que a chama tinha perdido a loucura dos primeiros dias. Tinha se tornado um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos.

— Estou muito zangada com você — disse ela, sentando-se.

— Por quê?

— Porque você não foi lá ontem, como tinha me dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Por que você não foi?

De fato, eu tinha faltado à palavra que dera, e a culpa era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher esplêndida sabia que era esplêndida, e gostava de ouvir isso, em voz alta ou baixa. Dois dias antes, na casa da baronesa, tinha valsado duas vezes com o mesmo peralta. Antes tinha escutado os galanteios dele, no canto de uma janela. Estava tão alegre! tão expansiva! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum susto, nem ficou séria de repente. Mas jogou ao mar o peralta e os galanteios. Depois veio até mim, tomou o meu braço e me levou a outra sala, com menos gente. Ali se queixou de cansaço e disse muitas outras coisas, com o ar infantil que costumava ter em certas ocasiões. Eu a ouvi quase sem responder nada.

Agora mesmo, era difícil responder alguma coisa. Mas enfim contei a ela o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas, nunca vi olhos mais espantados. A boca meio aberta, as sobrancelhas arqueadas, um espanto visível, tangível, que não se podia negar. Tal foi a primeira resposta de Virgília. Balançou a cabeça com um sorriso de pena e ternura, que me confundiu inteiramente.

— Ora você!

E foi tirar o chapéu, rápida, alegre, como a menina que volta do colégio. Depois veio até mim, que estava sentado, e me deu pancadinhas na testa com um só dedo, repetindo:

— Isto, isto.

E eu não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em galhofa. Era claro que eu tinha me enganado.

### Glossário

- **trêmula**: que treme.
- **sege**: carruagem antiga.
- **ondulações**: curvas suaves, como as das ondas.
- **talhe**: a forma do corpo.
- **canapé**: sofá antigo.
- **ofegante**: que respira depressa e com dificuldade.
- **lisonjeado**: contente com um elogio ou uma atenção.
- **cronométrico**: regular e exato como um relógio.
- **feixe**: grupo de coisas juntas; aqui, de raios de luz.
- **zangada**: com raiva.
- **peralta**: rapaz vaidoso, que se veste com muito cuidado.
- **galanteios**: palavras gentis que um homem diz para agradar a uma mulher.
- **expansiva**: que mostra com alegria tudo o que sente.
- **ruga**: linha que se forma na pele do rosto.
- **interrogativa**: com ar de quem faz uma pergunta.
- **espantados**: muito surpresos.
- **arqueadas**: curvas como um arco.
- **tangível**: que se pode tocar; muito claro, muito real.
- **ternura**: carinho suave.
- **galhofa**: brincadeira, riso.

## Capítulo LXXVIII. A presidência

Certo dia, meses depois, Lobo Neves entrou em casa dizendo que talvez fosse ocupar uma presidência de província. Olhei para Virgília, que ficou pálida. Ele a viu ficar pálida e perguntou:

— Parece que não gostaste, Virgília?

Virgília balançou a cabeça.

— Não me agrada muito — foi a sua resposta.

Não se disse mais nada. Mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto, com um pouco mais de decisão do que à tarde. E dois dias depois declarou à mulher que a presidência era coisa definitiva. Virgília não pôde esconder a repugnância que isso lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades políticas. E acrescentava:

— Não posso recusar o que me pedem. É até do nosso interesse, do nosso futuro, dos teus brasões, meu amor. Porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa estás. Dirás que sou ambicioso? Sou mesmo, mas é preciso que não ponhas um peso nas asas da minha ambição.

Virgília ficou desorientada. No dia seguinte, eu a encontrei triste, na casa da Gamboa, à minha espera. Tinha contado tudo a D. Plácida, que tentava consolá-la como podia. Eu não fiquei menos abatido.

— Você há de ir conosco — disse Virgília.

— Está doida? Seria uma loucura.

— Mas então...?

— Então é preciso desfazer o projeto.

— É impossível.

— Já aceitou?

— Parece que sim.

Levantei-me, joguei o chapéu numa cadeira e comecei a andar de um lado para outro, sem saber o que faria. Pensei muito e não achei nada. Por fim, cheguei perto de Virgília, que estava sentada, e peguei a mão dela. D. Plácida foi para a janela.

— Nesta pequenina mão está toda a minha existência — disse eu. — Você é responsável por ela; faça o que lhe parecer.

Virgília fez um gesto de aflição. Fui me encostar no consolo em frente. Passaram alguns instantes de silêncio. Ouvíamos somente o latido de um cão e, não sei bem, o barulho da água que morria na praia. Como ela não falava, olhei para ela. Virgília tinha os olhos no chão, parados, sem luz. As mãos estavam sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude da suprema desesperança. Em outra ocasião, por outro motivo, é certo que eu me lançaria aos pés dela. E a ampararia com a minha razão e a minha ternura. Agora, porém, era preciso obrigá-la ao esforço de si mesma, ao sacrifício, à responsabilidade da nossa vida comum. Por isso, eu devia abandoná-la, deixá-la e sair. Foi o que fiz.

— Repito: a minha felicidade está nas tuas mãos — disse eu.

Virgília quis me agarrar, mas eu já estava do lado de fora da porta. Cheguei a ouvir um choro forte. Digo a vocês que estive a ponto de voltar, para enxugar as lágrimas com um beijo. Mas me dominei e saí.

### Glossário

- **presidência de província**: o cargo de governante de uma região no Império.
- **brasões**: sinais de uma família nobre; aqui, títulos de nobreza.
- **marquesa**: mulher nobre, de título mais alto que baronesa.
- **abatido**: triste, sem forças.
- **há de ir**: irá, com certeza.
- **consolo**: aqui, pequena mesa encostada na parede.
- **desesperança**: falta total de esperança.
- **ampararia**: daria apoio e proteção.

## Capítulo LXXIX. Compromisso de gato

Eu não acabaria se tivesse de contar em detalhe o que sofri nas primeiras horas. Hesitava entre um querer e um não querer. A piedade me empurrava para a casa de Virgília. Outro sentimento — egoísmo, digamos — me dizia: «Fique. Deixe-a sozinha com o problema. Deixe, que ela vai resolvê-lo a favor do amor.» Creio que essas duas forças tinham a mesma intensidade. Atacavam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. Às vezes eu sentia um dentinho de remorso. Parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher apaixonada e culpada, sem sacrificar nem arriscar nada de mim mesmo. E, quando eu ia me render, vinha outra vez o amor e me repetia o conselho egoísta. Eu ficava em dúvida e inquieto. Queria vê-la, e tinha medo de que, ao vê-la, acabasse dividindo com ela a responsabilidade da solução.

Por fim surgiu um compromisso entre o egoísmo e a piedade. Eu iria vê-la em casa, e só em casa, na presença do marido. Iria para não dizer nada a ela, à espera do efeito da minha exigência. Assim, poderia conciliar as duas forças. Agora, enquanto escrevo isto, parece-me que o compromisso era uma fraude, que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo. Parece-me também que a decisão de ir consolar Virgília era apenas uma sugestão do meu próprio sofrimento. A esse propósito, lembro-me de um naturalista — não me lembro qual, mas era um naturalista. Nele li esta observação curiosa: «O gato não nos afaga, afaga-se em nós.» Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

### Glossário

- **compromisso**: aqui, acordo entre dois lados, em que cada um cede um pouco.
- **piedade**: pena do sofrimento de outra pessoa.
- **tenacidade**: força de quem não desiste.
- **dentinho**: dente pequeno; aqui, uma dor pequena, como uma mordida.
- **remorso**: dor de quem se sente culpado.
- **inquieto**: agitado, sem paz.
- **conciliar**: fazer duas coisas diferentes viverem juntas.
- **fraude**: engano, mentira.
- **naturalista**: cientista que estuda os animais e as plantas.
- **afaga**: faz carinho.

## Capítulo LXXX. Do secretário

Na noite seguinte, fui de fato à casa de Lobo Neves. Estavam os dois: Virgília muito triste, ele muito alegre. Juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura. Não direi o que senti, porque isso já está escrito no capítulo anterior, *in fine*. Lobo Neves me contou os planos que levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as decisões. Estava tão contente! tão cheio de esperança! Virgília, junto da mesa, fingia ler um livro. Mas, por cima da página, me olhava de vez em quando, interrogativa e ansiosa.

— O pior — disse de repente Lobo Neves — é que ainda não achei secretário.

— Não?

— Não, e tenho uma ideia.

— Ah!

— Uma ideia... Quer você dar um passeio ao norte?

Não sei o que respondi.

— Você é rico — continuou ele —, não precisa de um salário magro. Mas, se quisesse me fazer esse favor, iria de secretário comigo.

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei Lobo Neves, fixamente, com autoridade, para ver se apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra disso. O olhar vinha direito e franco. A calma do rosto era natural, não forçada, uma calma salpicada de alegria. Respirei, e não tive coragem de olhar para Virgília. Senti por cima da página o olhar dela, que também me pedia a mesma coisa. E disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário: era resolver as coisas de um modo administrativo.

### Glossário

- **in fine**: expressão latina: no fim, nas últimas linhas.
- **presidência**: o cargo de governante de uma província.
- **interrogativa**: com ar de quem faz uma pergunta.
- **secretário**: pessoa que ajuda um chefe no seu trabalho.
- **salário magro**: salário pequeno.
- **oculto**: escondido.
- **franco**: sincero, aberto.
- **salpicada**: com pequenas gotas ou manchas de alguma coisa.
- **presidenta**: aqui, a mulher do presidente da província.

## Capítulo LXXXI. A reconciliação

E, no entanto, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida. Perguntei a mim mesmo se não ia expor loucamente a reputação de Virgília. Talvez houvesse outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao me levantar da cama, já estava decidido a aceitar a nomeação. Ao meio-dia, o criado veio me dizer que havia na sala uma senhora coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina.

— Isto não pode continuar assim — disse ela. — É preciso que façamos as pazes de uma vez por todas. Nossa família está acabando. Não vamos ficar como dois inimigos.

— Mas eu não te peço outra coisa, mana! — exclamei, estendendo os braços para ela.

Eu a sentei ao meu lado e falei do marido, da filha, dos negócios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrá-la, se eu consentisse.

— Ora essa! Eu mesmo irei vê-la.

— Sim?

— Palavra.

— Tanto melhor! — suspirou Sabina. — É tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, amável, sem nenhuma timidez, sem nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, de mãos dadas, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era a minha infância que voltava, fresca, travessa e loura. Os anos iam caindo, como as fileiras de cartas de baralho curvadas com que eu brincava quando pequeno. E me deixavam ver a nossa casa, a nossa família, as nossas festas. Suportei a lembrança com algum esforço. Mas um barbeiro da vizinhança resolveu arranhar a clássica rabeca. Essa voz — porque até então a lembrança era muda —, essa voz do passado, fanhosa e saudosa, me comoveu tanto que...

Os olhos dela estavam secos. Sabina não tinha herdado a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse isso a ela com ternura, com sinceridade... De repente, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.

— Entra, Sara — disse Sabina.

Era minha sobrinha. Peguei-a do chão e a beijei muitas vezes. A pequena, assustada, empurrava o meu ombro com a mãozinha e dobrava o corpo para descer... Nisso, aparece à porta um chapéu, e logo um homem, Cotrim, nada menos que Cotrim. Eu estava tão comovido que larguei a filha e me lancei nos braços do pai. Talvez essa efusão o tenha desconcertado um pouco. O certo é que me pareceu sem jeito. Simples prólogo. Pouco depois, falávamos como bons e velhos amigos. Nenhuma alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos um na casa do outro. E não deixei de dizer que essa troca de jantares talvez tivesse uma curta interrupção. É que eu andava com ideias de uma viagem ao norte. Sabina olhou para Cotrim, Cotrim para Sabina. Os dois concordaram que essas ideias não tinham senso comum. Que diabo eu podia achar no norte? Não era na corte, em plena corte, que eu devia continuar a brilhar? Que eu devia deixar no chinelo os rapazes do tempo? Porque, na verdade, nenhum podia se comparar a mim. Ele, Cotrim, me acompanhava de longe. Apesar de uma briga ridícula, sempre tivera interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia de mim, nas ruas e nas salas: era um concerto de elogios e admirações. E eu ia deixar isso para passar alguns meses na província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos que fosse política...

— Justamente política — disse eu.

— Nem assim — respondeu ele, depois de um instante. E, depois de outro silêncio: — Seja como for, venha jantar hoje conosco.

— Claro que vou. Mas, amanhã ou depois, vocês hão de vir jantar comigo.

— Não sei, não sei — objetou Sabina. — Casa de homem solteiro... Você precisa casar, mano. Também quero uma sobrinha, ouviu?

Cotrim a conteve com um gesto que não entendi bem. Não importa. A reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático.

### Glossário

- **mana, mano**: irmã, irmão; forma carinhosa.
- **rabeca**: instrumento antigo, parecido com o violino.
- **fanhosa**: com um som que parece sair pelo nariz.
- **flor amarela**: imagem da tristeza doentia que Brás herdou.
- **mórbida**: doentia.
- **efusão**: forte demonstração de sentimento.
- **corte**: a cidade onde vivia o imperador; aqui, o Rio de Janeiro.
- **deixar no chinelo**: ser muito melhor que outra pessoa.
- **enigmático**: difícil de entender, misterioso.

## Capítulo LXXXII. Questão de botânica

Digam o que quiserem os hipocondríacos: a vida é uma coisa doce. Foi o que pensei comigo, ao ver Sabina, o marido e a filha descerem as escadas em grupo. Eles diziam muitas palavras carinhosas para cima, onde eu ficava, no patamar, e eu dizia outras tantas para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Uma mulher me amava, o marido confiava em mim. Eu ia como secretário dos dois e fazia as pazes com os meus. Que mais podia desejar, em vinte e quatro horas?

Nesse mesmo dia, para preparar os ânimos, comecei a espalhar que talvez fosse para o norte como secretário de província. Dizia que ia realizar certos projetos políticos pessoais. Disse isso na rua do Ouvidor e repeti no dia seguinte, no Pharoux e no teatro. A nomeação de Lobo Neves já andava em boatos. Alguns ligavam a minha nomeação à dele e sorriam com malícia. Outros batiam no meu ombro. No teatro, uma senhora me disse que era levar muito longe o amor da escultura. Referia-se às belas formas de Virgília.

Mas a alusão mais aberta que me fizeram foi na casa de Sabina, três dias depois. Quem a fez foi um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial e tagarela. Ele podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa anos. Mesmo assim, nunca teria aquela compostura séria que é a gentileza dos velhos. A velhice ridícula é, talvez, a mais triste e a última surpresa da natureza humana.

— Já sei, desta vez vai ler Cícero — disse ele, ao saber da viagem.

— Cícero! — exclamou Sabina.

— Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgílio num instante. Olhe que é Virgílio, e não Virgília... não confunda...

E ria, um riso grosso, baixo e frívolo. Sabina ficou pálida e olhou para mim, com medo de alguma resposta. Mas sorriu quando me viu sorrir, e virou o rosto para disfarçar. As outras pessoas me olhavam com um ar de curiosidade, indulgência e simpatia. Era claro que não tinham acabado de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. E, no entanto, sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, falador como as pegas de Sintra. Virgília era um belo erro, e é tão fácil confessar um belo erro! No começo, eu costumava ficar de cara fechada quando ouvia alguma alusão aos nossos amores. Mas, palavra de honra! sentia aqui dentro uma impressão suave e agradável à minha vaidade. Uma vez, porém, aconteceu de eu sorrir, e continuei a fazer isso das outras vezes. Não sei se existe por aí algum Hobbes ou Spinoza que explique o fenômeno. Eu explico assim: no começo, o contentamento era interior. Era, por assim dizer, o mesmo sorriso, mas abotoado. Com o tempo, desabotoou-se em flor e apareceu aos olhos do próximo. Simples questão de botânica.

### Glossário

- **hipocondríacos**: pessoas de tristeza doentia.
- **patamar**: parte plana no alto de uma escada.
- **malícia**: intenção de maldade ou de zombaria.
- **alusão**: palavra que fala de uma coisa sem dizer o nome dela.
- **trivial**: comum, sem importância.
- **tagarela**: que fala demais.
- **Cícero**: grande escritor e orador da Roma antiga.
- **latinista**: pessoa que conhece bem o latim.
- **indulgência**: disposição para perdoar.
- **guloso**: que quer sempre mais de uma coisa boa.
- **pegas de Sintra**: aves da história de um rei português, famosas por contar um segredo; aqui, sinal de quem fala demais.
- **abotoado**: fechado como um botão de flor.
- **desabotoou-se**: abriu-se, como um botão de flor.

## Capítulo LXXXIII. 13

Cotrim me tirou daquele prazer, levando-me à janela.

— Você quer que eu lhe diga uma coisa? — perguntou ele. — Não faça essa viagem. É insensata, é perigosa.

— Por quê?

— Você bem sabe por quê — respondeu ele. — É, sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na corte, um caso desses se perde na multidão das pessoas e dos interesses. Mas na província muda de figura. E, quando se trata de personagens políticos, é realmente uma insensatez. Os jornais da oposição, logo que farejarem o negócio, vão imprimi-lo com todas as letras. E aí virão as zombarias, as indiretas, os apelidos...

— Mas não entendo...

— Entende, entende. E, na verdade, você seria bem pouco nosso amigo se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso há longos meses. Repito: não faça essa viagem. Suporte a ausência, que é melhor, e evite algum grande escândalo e um desgosto maior...

Disse isso e foi para dentro. Fiquei com os olhos no lampião da esquina, um antigo lampião de azeite. Era triste, escuro e curvado, como um ponto de interrogação. O que eu devia fazer? Era o caso de Hamlet: dobrar-me à sorte, ou lutar com ela e dominá-la. Em outras palavras: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O lampião não me dizia nada. As palavras de Cotrim soavam nos ouvidos da minha memória de um modo bem diferente das palavras de Garcez. Talvez Cotrim tivesse razão. Mas podia eu me separar de Virgília?

Sabina veio até mim e perguntou em que eu estava pensando. Respondi que em coisa nenhuma, que estava com sono e ia para casa. Sabina ficou um instante calada.

— O que você precisa, eu sei: é uma noiva. Deixe, que ainda arranjo uma noiva para você.

Saí de lá oprimido, desorientado. Estava tudo pronto para embarcar, espírito e coração. E de repente me surge esse porteiro das conveniências, que me pede o cartão de entrada. Mandei ao diabo as conveniências, e com elas a constituição, o corpo legislativo, o ministério, tudo.

No dia seguinte, abro um jornal político e leio uma notícia. Por decretos de 13, Lobo Neves e eu tínhamos sido nomeados presidente e secretário da província de ***. Escrevi imediatamente a Virgília e, duas horas depois, segui para a Gamboa. Coitada de D. Plácida! Estava cada vez mais aflita. Perguntou se esqueceríamos a nossa velha, se a ausência seria longa e se a província ficava longe. Eu a consolei, mas eu mesmo precisava de consolo. A objeção de Cotrim me afligia profundamente. Virgília chegou pouco depois, alegre e ligeira como uma andorinha. Mas, ao me ver triste, ficou muito séria.

— O que aconteceu?

— Estou em dúvida — disse eu. — Não sei se devo aceitar...

Virgília se deixou cair no canapé, rindo.

— Por quê? — disse ela.

— Não é conveniente, chama muito a atenção...

— Mas nós já não vamos.

— Como assim?

Ela me contou que o marido ia recusar a nomeação. O motivo, ele só tinha dito a ela, pedindo o maior segredo. Não podia confessá-lo a mais ninguém.

— É infantil — observou ele —, é ridículo; mas, enfim, é um motivo poderoso para mim.

E contou a ela que o decreto trazia a data de 13. Esse número era para ele uma lembrança fúnebre. O pai tinha morrido num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que a mãe morrera tinha o número 13. *Et cetera*. Era um algarismo fatídico. Não podia alegar tal coisa ao ministro; ia dizer que tinha razões particulares para não aceitar. Fiquei como há de estar o leitor: um pouco assombrado com esse sacrifício a um número. Mas, como ele era ambicioso, o sacrifício devia ser sincero... E ficávamos. Para alguma coisa há de servir a superstição dos homens.

### Glossário

- **insensata**: sem bom senso, louca.
- **corte**: a cidade onde vivia o imperador; aqui, o Rio de Janeiro.
- **farejarem**: sentirem o cheiro; aqui, descobrirem.
- **indiretas**: frases que atacam alguém sem dizer o nome dele.
- **lampião**: lâmpada de rua antiga.
- **ponto de interrogação**: o sinal (?) que marca uma pergunta.
- **soavam**: faziam som, eram ouvidas.
- **oprimido**: com um peso no peito, triste.
- **porteiro das conveniências**: imagem das regras sociais, que decidem quem pode entrar.
- **corpo legislativo**: o grupo de pessoas que faz as leis.
- **decretos**: ordens escritas do governo.
- **aflita**: muito preocupada e com medo.
- **objeção**: argumento contra alguma coisa.
- **afligia**: causava preocupação e sofrimento.
- **canapé**: sofá antigo.
- **Et cetera**: expressão latina: e outras coisas.
- **algarismo**: sinal usado para escrever um número.
- **fatídico**: que traz desgraça.
- **assombrado**: muito surpreso.

## Capítulo LXXXIV. O conflito

Número fatídico, você se lembra de que muitas vezes o abençoei? Assim também as virgens ruivas de Tebas deviam abençoar a égua de crina ruiva. Ela as substituiu no sacrifício de Pelópidas. Era uma bela égua, que morreu lá, coberta de flores, sem que ninguém lhe desse nunca uma palavra de saudade. Pois eu lhe dou essa palavra, égua piedosa. Não só pela sua morte. Também porque, entre as donzelas que escaparam, não é impossível que estivesse uma avó dos Cubas... Número fatídico, você foi a nossa salvação.

O marido não me confessou a causa da recusa. A mim também disse que eram negócios particulares. E o rosto sério, convencido, com que o escutei fez honra à dissimulação humana. Ele é que mal podia esconder a tristeza profunda que o consumia. Falava pouco, ficava perdido nos pensamentos, fechava-se em casa para ler. Outras vezes recebia visitas, e então conversava e ria muito, com barulho e afetação. Duas coisas o oprimiam: a ambição, que um escrúpulo tinha frustrado, e logo depois a dúvida e talvez o arrependimento. Mas era um arrependimento que voltaria, se o caso se repetisse, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava da superstição, sem chegar a rejeitá-la. Essa persistência de um sentimento que repugna ao próprio indivíduo era um fenômeno digno de alguma atenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Plácida, quando confessava que não podia ver um sapato virado para cima.

— Que tem isso? — eu perguntava.

— Faz mal — era a sua resposta.

Só isso, essa única resposta, que para ela valia o livro dos sete selos. Faz mal. Tinham dito isso a ela na infância, sem outra explicação, e ela se contentava com a certeza do mal. Não acontecia a mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo. Aí sabia perfeitamente que isso fazia nascer uma verruga.

Verruga ou outra coisa, que valia isso, para quem não perde uma presidência de província? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata. É insuportável a que leva uma parte da vida. Era o caso de Lobo Neves, com o acréscimo da dúvida e do terror de ter sido ridículo. E mais este outro acréscimo: o ministro não acreditou nos motivos particulares. Atribuiu a recusa de Lobo Neves a manobras políticas, ilusão complicada por algumas aparências. Tratou-o mal e passou a desconfiança aos colegas. Vieram incidentes. Por fim, com o tempo, o presidente que tinha renunciado foi para a oposição.

### Glossário

- **fatídico**: que traz desgraça.
- **Tebas**: cidade da Grécia antiga.
- **égua**: fêmea do cavalo.
- **crina**: pelos longos no pescoço do cavalo.
- **piedosa**: boa, que tem pena dos outros.
- **donzelas**: moças solteiras; palavra antiga.
- **dissimulação**: arte de esconder o que se pensa ou sente.
- **afetação**: modo de agir pouco natural, para causar efeito.
- **oprimiam**: pesavam sobre alguém, causavam sofrimento.
- **escrúpulo**: dúvida que vem da moral ou do medo de errar.
- **repugna**: causa nojo ou rejeição.
- **ingenuidade**: simplicidade de quem acredita em tudo sem pensar.
- **o livro dos sete selos**: livro fechado da Bíblia; coisa muito misteriosa.
- **verruga**: pequena bolinha dura na pele.

## Capítulo LXXXV. O cimo da montanha

Quem escapa de um perigo ama a vida com outra intensidade. Comecei a amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a ponto de perdê-la. E a mesma coisa aconteceu com ela. Assim, a presidência só fez reavivar a afeição primitiva. Foi a droga de Malabar com que tornamos o nosso amor mais saboroso e também mais precioso. Nos primeiros dias depois daquele incidente, gostávamos de imaginar a dor da separação, se houvesse separação. Imaginávamos a tristeza dos dois, à medida que o mar, como uma toalha elástica, se estendesse entre nós. Éramos como as crianças que correm para o colo da mãe, para fugir de uma simples careta. Fugíamos do suposto perigo, apertando-nos com abraços.

— Minha boa Virgília!

— Meu amor!

— Tu és minha, não?

— Tua, tua...

E assim retomamos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, creio eu, o ponto máximo do nosso amor, o cimo da montanha. De lá vimos por algum tempo os vales do leste e do oeste. Acima de nós estava o céu tranquilo e azul. Depois de descansar esse tempo, começamos a descer a encosta. Íamos com as mãos presas ou soltas, mas a descer, a descer...

### Glossário

- **ardor**: sentimento muito forte, paixão.
- **reavivar**: tornar forte de novo.
- **afeição**: amor, carinho.
- **primitiva**: do começo, a primeira.
- **droga de Malabar**: tempero que vinha da Índia e melhorava o sabor da comida.
- **sultana**: mulher do sultão, chefe de um país muçulmano.
- **Scheherazade**: a mulher que conta as histórias de *As mil e uma noites*.
- **cimo**: a parte mais alta.
- **encosta**: o lado inclinado de uma montanha.

## Capítulo LXXXVI. O mistério

Serra abaixo, como a vi um pouco diferente, não sei se abatida ou outra coisa, perguntei o que ela tinha. Ela se calou, fez um gesto de aborrecimento, de mal-estar, de cansaço. Insisti, e ela me disse que... Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo: sensação forte, rápida, singular, que nunca vou conseguir fixar no papel. Peguei as mãos dela, puxei-a levemente para mim e a beijei na testa. Foi um beijo com uma delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão. Ela estremeceu, tomou a minha cabeça entre as mãos, olhou nos meus olhos, depois me acariciou com um gesto maternal... Eis aí um mistério. Deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistério.

### Glossário

- **serra abaixo**: descendo a montanha; aqui, na descida do nosso amor.
- **abatida**: triste, sem forças.
- **mal-estar**: sensação de não estar bem no corpo.
- **fluido**: coisa leve que corre, como um líquido ou um gás.
- **sutil**: muito leve, difícil de notar.
- **singular**: diferente de todas as outras.
- **delicadeza**: modo leve e cuidadoso de fazer alguma coisa.
- **zéfiro**: vento leve e agradável.
- **gravidade**: seriedade.
- **Abraão**: o patriarca da Bíblia, pai de um grande povo.
- **acariciou**: tocou com carinho.
- **decifrar**: descobrir o sentido de uma coisa difícil.

## Capítulo LXXXVII. Geologia

Aconteceu naquele tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou rapidamente por um capítulo deste livro, com os seus setenta anos. Era sufocado pela asma, estava todo torto de reumatismo e tinha ainda, por cima de tudo, uma lesão no coração. Foi um dos finos espiões da nossa aventura. Virgília tinha grandes esperanças naquele velho parente, avarento como um sepulcro. Esperava que ele garantisse o futuro do filho com alguma herança. Se o marido pensava o mesmo, escondia ou estrangulava essas ideias. Tudo deve ser dito. Havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao comércio dos homens. As outras camadas, as de cima, eram terra solta e areia. A vida as levou, porque a vida é um enxurro perpétuo. Talvez o leitor ainda se lembre do capítulo XXXIII. Se lembra, vai notar que esta é a segunda vez que comparo a vida a um enxurro. Mas também vai notar que desta vez acrescento um adjetivo: perpétuo. E Deus sabe a força de um adjetivo, principalmente em países novos e quentes.

O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves. E provavelmente a do cavalheiro que me está lendo. Sim, essas camadas de caráter são alteradas, conservadas ou dissolvidas pela vida, conforme a sua resistência. Elas mereceriam um capítulo, mas não o escrevo, para não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais honesto que conheci na vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares. Não me lembro bem do nome. Talvez fosse Jacó Rodrigues; em resumo, Jacó. Era a própria honestidade. Podia ficar rico, se forçasse um pequeno escrúpulo, e não quis. Deixou escapar pelas mãos nada menos que uns quatrocentos contos. Sua honestidade era tão exemplar que chegava a ser miúda e cansativa. Um dia, estávamos a sós na casa dele, numa boa conversa, quando vieram dizer que o Dr. B. o procurava. Esse Dr. B. era um sujeito chato. O Jacó mandou dizer que não estava em casa.

— Não pega — gritou uma voz no corredor. — Já estou aqui dentro.

E, de fato, era o Dr. B., que logo apareceu à porta da sala. O Jacó foi recebê-lo e afirmou que tinha pensado que era outra pessoa, e não ele. Acrescentou que tinha muito prazer com a visita. Isso nos rendeu uma hora e meia de tédio mortal, e só acabou porque o Jacó tirou o relógio. O Dr. B. perguntou então se ele ia sair.

— Com minha mulher — disse o Jacó.

O Dr. B. foi embora, e nós respiramos. Depois de respirar, eu disse ao Jacó que ele tinha acabado de mentir quatro vezes, em menos de duas horas. A primeira, ao negar que estava em casa. A segunda, ao mostrar alegria com a presença do chato. A terceira, ao dizer que ia sair. A quarta, ao acrescentar que ia com a mulher. O Jacó refletiu um instante e depois reconheceu que a minha observação era justa. Mas se desculpou. Disse que a verdade absoluta não combinava com uma sociedade adiantada. Disse também que a paz das cidades só se podia obter à custa de enganos recíprocos... Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacó Tavares.

### Glossário

- **asma**: doença que dificulta a respiração.
- **reumatismo**: doença que causa dor nas juntas e nos músculos.
- **avarento**: pessoa que não gosta de gastar dinheiro.
- **sepulcro**: túmulo; lugar onde se põe um morto.
- **camada**: parte que fica sobre outra, como as partes da terra.
- **enxurro**: água forte de chuva que corre e leva tudo.
- **geologia**: ciência que estuda a terra e as rochas.
- **escrúpulo**: cuidado de não fazer nada errado.
- **conto**: conto de réis: mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **enganos recíprocos**: enganos que as pessoas fazem umas com as outras.

## Capítulo LXXXVIII. O enfermo

Não preciso dizer que refutei essa doutrina tão prejudicial com os argumentos mais simples. Mas ele estava tão envergonhado com a minha observação que resistiu até o fim. Mostrava um certo calor falso, talvez para atordoar a consciência.

O caso de Virgília tinha um pouco mais de gravidade. Ela tinha menos escrúpulos que o marido. Mostrava claramente as esperanças que tinha na herança. Enchia o parente de todas as cortesias, atenções e carinhos que pudessem render, pelo menos, um pequeno acréscimo no testamento. Para falar com exatidão, ela o bajulava. Mas observei que a bajulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. A dos homens chega perto da servilidade; a das mulheres se confunde com o afeto. As formas graciosamente curvas, a palavra doce e a própria fraqueza física ajudam a mulher. Dão à sua bajulação uma cor local, um aspecto legítimo. A idade do bajulado não importa. A mulher sempre terá para ele uns ares de mãe ou de irmã, ou ainda de enfermeira. Este é outro ofício feminino. Nele, o homem mais hábil sempre vai sentir falta de um *quid*, um fluido, alguma coisa.

Era o que eu pensava comigo, enquanto Virgília se desfazia toda em carinhos com o velho parente. Ela ia recebê-lo à porta, falando e rindo. Tirava-lhe o chapéu e a bengala, dava-lhe o braço e o levava até uma cadeira, ou melhor, até *a* cadeira. É que havia na casa a «cadeira do Viegas», uma obra especial, confortável, feita para gente doente ou velha. Se havia alguma brisa, ela ia fechar a janela mais próxima. Se fazia calor, ia abri-la, mas com cuidado, de modo que ele não pegasse uma corrente de ar.

— Então? Hoje está mais fortinho...

— Qual! Passei mal a noite. O diabo da asma não me deixa.

E o homem bufava. Descansava aos poucos do cansaço da entrada e da subida; não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco mais para a frente, Virgília se sentava num banquinho, com as mãos nos joelhos do doente. Enquanto isso, Nhonhô chegava à sala, sem os pulos de costume. Vinha discreto, meigo, sério. O Viegas gostava muito dele.

— Vem cá, Nhonhô — dizia.

E com esforço enfiava a mão no bolso largo e tirava uma caixinha de pastilhas. Punha uma na boca e dava outra ao pequeno. Eram pastilhas contra a asma. O pequeno dizia que eram muito boas.

Isso se repetia, com variações. O Viegas gostava de jogar damas, e Virgília fazia a vontade dele. Aguentava o velho por muito tempo, movendo as pedras com a mão mole e lenta. Outras vezes, desciam para passear na chácara. Ela lhe dava o braço, mas ele nem sempre aceitava, porque se dizia forte e capaz de andar uma légua. Andavam, sentavam-se, voltavam a andar, e falavam de coisas variadas. Às vezes era um negócio de família, às vezes uma fofoca de alcova. Outras vezes, enfim, era uma casa que ele pensava em construir para morar. Seria uma casa de estilo moderno, porque a dele era das antigas, do tempo do rei D. João VI. Era como algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de São Cristóvão. Elas têm grossas colunas na frente. Ele achava que o casarão em que morava podia ser substituído. Já tinha encomendado o desenho a um pedreiro famoso. Ah! então sim, então é que Virgília ia ver o que era um velho de bom gosto.

Ele falava, como se pode imaginar, devagar e com esforço. As palavras eram cortadas por uma respiração pesada, incômoda para ele e para os outros. De vez em quando vinha um ataque de tosse. Curvado, gemendo, ele levava o lenço à boca e o examinava. Passado o ataque, voltava ao plano da casa. Devia ter tais e tais quartos, um terraço, uma cocheira, uma maravilha.

### Glossário

- **enfermo**: pessoa doente.
- **refutar**: mostrar com argumentos que uma ideia está errada.
- **bajular**: elogiar muito alguém para conseguir alguma coisa.
- **servilidade**: atitude de quem se humilha diante de outra pessoa.
- **quid**: palavra latina: um "não sei quê", algo difícil de dizer.
- **sege**: carruagem antiga.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **légua**: antiga medida de distância, cerca de seis quilômetros.
- **cocheira**: lugar onde ficam as carruagens e os cavalos.

## Capítulo LXXXIX. In extremis

— Amanhã vou passar o dia na casa do Viegas — ela me disse uma vez. — Coitado! Não tem ninguém...

O Viegas tinha caído de cama, definitivamente. A filha casada tinha ficado doente justamente agora e não podia lhe fazer companhia. Virgília ia lá de vez em quando. Eu aproveitei a situação para passar todo aquele dia ao lado dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O Viegas tossia com tanta força que me fazia arder o peito. No intervalo dos ataques, discutia o preço de uma casa com um sujeito magro. O sujeito oferecia trinta contos; o Viegas exigia quarenta. O comprador insistia, como quem tem medo de perder o trem. Mas o Viegas não cedia. Recusou primeiro os trinta contos, depois mais dois, depois mais três. Por fim teve um ataque forte, que lhe tirou a fala durante quinze minutos. O comprador o tratou com muito carinho, arrumou os travesseiros dele e ofereceu trinta e seis contos.

— Nunca! — gemeu o doente.

E mandou buscar um maço de papéis na escrivaninha. Não tinha forças para tirar a fita de borracha que prendia os papéis, e me pediu que a soltasse. Soltei. Eram as contas das despesas com a construção da casa. Havia contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor. Havia contas do papel de parede da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes. Havia também as contas das ferragens e o custo do terreno. Ele as abria uma por uma, com a mão trêmula, e me pedia que as lesse, e eu as lia.

— Veja: mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças francesas... Veja, é de graça — concluiu ele depois de lida a última conta.

— Pois bem... mas...

— Quarenta contos; não dou por menos. Só os juros... faça a conta dos juros...

Essas palavras vinham tossidas, em golfadas, em sílabas, como se fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas órbitas fundas rolavam os olhos brilhantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o lençol se desenhava a estrutura de ossos do corpo, pontuda em dois lugares, nos joelhos e nos pés. A pele amarelada, mole e enrugada, cobria apenas a caveira de um rosto sem expressão. Uma touca de algodão branco cobria o crânio, raspado pelo tempo.

— Então? — disse o sujeito magro.

Fiz sinal para que não insistisse, e ele se calou por alguns instantes. O doente ficou olhando para o teto, calado, respirando com muito esforço. Virgília empalideceu, levantou-se e foi até a janela. Tinha suspeitado que era a morte e sentia medo. Eu tentei falar de outras coisas. O sujeito magro contou uma anedota e voltou a tratar da casa, aumentando a proposta.

— Trinta e oito contos — disse ele.

— Am?... — gemeu o doente.

O sujeito magro se aproximou da cama, pegou a mão dele e a sentiu fria. Eu cheguei perto do doente e perguntei se sentia alguma coisa, se queria tomar um cálice de vinho.

— Não... não... quar... quaren... quar... quar...

Teve um ataque de tosse, e foi o último. Pouco depois ele morreu, para grande tristeza do sujeito magro. Este me confessou depois que estava disposto a oferecer os quarenta contos. Mas era tarde.

### Glossário

- **In extremis**: expressão latina: nos últimos momentos da vida.
- **arder**: queimar, doer como fogo.
- **conto**: conto de réis: mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **gemeu**: fez um som baixo de dor.
- **maço**: conjunto de papéis presos uns aos outros.
- **escrivaninha**: mesa própria para escrever.
- **carpinteiro**: pessoa que trabalha com madeira.
- **ferragens**: peças de ferro usadas numa construção.
- **trêmula**: que treme.
- **dobradiças**: peças de metal que fazem uma porta abrir e fechar.
- **juros**: dinheiro que se paga ou se ganha sobre uma quantia, com o tempo.
- **tossidas**: ditas com tosse.
- **golfadas**: porções que saem de repente da boca.
- **sílabas**: pequenas partes de uma palavra.
- **migalhas**: pedacinhos muito pequenos.
- **desfeito**: destruído, em pedaços.
- **órbitas**: buracos do rosto onde ficam os olhos.
- **lamparina**: pequena lâmpada de azeite, de luz fraca.
- **pontuda**: que tem ponta.
- **enrugada**: cheia de linhas e dobras.
- **touca**: peça de pano macio que cobre a cabeça.
- **raspado**: sem cabelo.
- **quar**: começo da palavra "quarenta", que ele não consegue terminar.

## Capítulo XC. O velho colóquio de Adão e Caim

E nada. Nenhuma lembrança no testamento, nem mesmo uma pastilha, para que ele não parecesse de todo ingrato ou esquecido. Nada. Virgília engoliu com raiva esse fracasso. Contou-me o caso com certa cautela, não pela coisa em si, mas porque tinha a ver com o filho. Ela sabia que eu não gostava muito dele, nem pouco. Sugeri que ela não devia pensar mais naquele assunto. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um bobo, um avarento sem nome, e tratar de coisas alegres. O nosso filho, por exemplo.

Aí me escapou a solução do mistério, aquele doce mistério de algumas semanas antes. Naquele tempo, Virgília me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Essa era a minha única preocupação daquele tempo. Olhos do mundo, ciúmes do marido, morte do Viegas, nada me interessava então. Nem conflitos políticos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia essas duas palavras com certa volúpia indefinível e com não sei que sinais de orgulho. Sentia-me homem.

O melhor é que nós dois conversávamos, o embrião e eu. Falávamos de coisas presentes e futuras. O maroto me amava. Era um malandrinho gracioso. Dava-me tapinhas na cara com as mãozinhas gordas. Outras vezes vestia a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel. E fazia um discurso na Câmara dos Deputados. E o pai o ouvia de uma galeria, com os olhos cheios de lágrimas. De bacharel ele passava outra vez à escola, pequenino, com lousa e livros debaixo do braço. Ou então caía no berço, para se levantar de novo homem. Em vão eu tentava fixar no espírito uma idade, uma atitude. Esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava. Ele era o interminável nos limites de um quarto de hora: *baby* e deputado, colegial e janota. Às vezes, ao lado de Virgília, eu me esquecia dela e de tudo. Virgília me sacudia, reclamava do meu silêncio, dizia que eu já não gostava nada dela. A verdade é que eu estava em diálogo com o embrião. Era o velho colóquio de Adão e Caim. Era uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o mistério.

### Glossário

- **colóquio**: conversa.
- **defunto**: pessoa morta.
- **embrião**: ser que começa a crescer na barriga da mãe.
- **volúpia**: prazer muito forte.
- **maroto**: menino esperto e travesso; aqui é dito com carinho.
- **beca**: roupa longa e preta de juízes e bacharéis.
- **bacharel**: pessoa formada em direito.
- **lousa**: pequena placa escura em que os alunos escreviam.
- **baby**: palavra inglesa: bebê.
- **janota**: homem que se veste com muita elegância e vaidade.

## Capítulo XCI. Uma carta extraordinária

Naquele tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um objeto não menos extraordinário. Eis o que a carta dizia:

«Meu caro Brás Cubas.

«Há tempos, no Passeio Público, peguei emprestado um relógio seu. Tenho a satisfação de devolvê-lo com esta carta. A diferença é que não é o mesmo, mas outro; não digo superior, mas igual ao primeiro. *Que voulez-vous, monseigneur*, como dizia Fígaro, *c'est la misère.* Muitas coisas aconteceram depois do nosso encontro. Vou contá-las em detalhes, se você não me fechar a porta. Saiba que já não uso aquelas botas velhas. Também não visto mais uma famosa sobrecasaca, cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de São Francisco; finalmente, almoço.

«Dito isso, peço licença para ir um dia destes lhe apresentar um trabalho, fruto de longo estudo. É um novo sistema de filosofia. Ele explica e descreve a origem e o fim das coisas. Além disso, dá um grande passo à frente de Zenão e Sêneca. O estoicismo deles era uma verdadeira brincadeira de crianças ao lado da minha receita moral. Este meu sistema é singularmente espantoso. Corrige o espírito humano, suprime a dor, garante a felicidade e enche de imensa glória o nosso país. Eu o chamo de Humanitismo, de *Humanitas*, princípio das coisas. Minha primeira ideia revelava uma grande vaidade: era chamá-lo de borbismo, de Borba. Era um nome vaidoso, além de grosseiro e desagradável. E com certeza dizia menos. Você verá, meu caro Brás Cubas, verá que é realmente um monumento. Se alguma coisa pode me fazer esquecer as amarguras da vida, é um gosto. É o gosto de ter enfim agarrado a verdade e a felicidade. Aqui estão elas na minha mão, essas duas fugitivas. Depois de tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, aqui estão elas nas mãos do homem. Até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do

Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»

Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma caixinha, e dentro havia um bonito relógio. Tinha as minhas iniciais gravadas e esta frase: *Lembrança do velho Quincas.* Voltei à carta e a reli devagar, com atenção. A devolução do relógio excluía toda ideia de trapaça. A lucidez, a serenidade, a convicção, um pouco vaidosa, é certo, pareciam excluir a suspeita de loucura. Naturalmente o Quincas Borba tinha herdado de algum dos seus parentes de Minas. E a riqueza lhe tinha devolvido a dignidade de antes. Não digo tanto; há coisas que não se podem recuperar por inteiro. Mas enfim, a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.

### Glossário

- **Que voulez-vous, monseigneur**: frase francesa: "O que o senhor quer, meu senhor?".
- **c'est la misère**: frase francesa: "é a miséria".
- **sobrecasaca**: casaco longo de homem, usado antigamente.
- **abas**: partes de baixo de um casaco, que ficam soltas.
- **estoicismo**: filosofia antiga que ensina a suportar a dor com calma.
- **Humanitas**: palavra latina: humanidade; aqui, o princípio de tudo.
- **lucidez**: estado de quem pensa com clareza.
- **regeneração**: volta a uma vida melhor e mais digna.

## Capítulo XCII. Um homem extraordinário

Agora acabo de uma vez com as coisas extraordinárias. Eu tinha acabado de guardar a carta e o relógio. Nesse momento me procurou um homem magro, de altura média, com um bilhete do Cotrim. O bilhete me convidava para jantar. O portador era casado com uma irmã do Cotrim. Tinha chegado do norte poucos dias antes, chamava-se Damasceno e tinha feito a revolução de 1831. Foi ele mesmo que me disse isso, em cinco minutos. Tinha saído do Rio de Janeiro por desacordo com o Regente, que era um asno. Um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a revolução estava outra vez às portas. Nesse ponto, ele tinha as ideias políticas um pouco confusas, mas consegui organizar e formular o governo que ele preferia. Era um despotismo temperado; não por cantigas, como dizem em outros lugares, mas por penachos da guarda nacional. Só não consegui entender se ele queria o despotismo de um, de três, de trinta ou de trezentos. Era a favor de várias coisas, entre outras, do aumento do tráfico de africanos e da expulsão dos ingleses. Gostava muito de teatro. Assim que chegou, foi ao teatro de São Pedro. Lá viu um drama magnífico, a *Maria Joana*, e uma comédia muito interessante, *Kettly, ou a volta à Suíça.* Também tinha gostado muito da Deperini, na *Safo*, ou na *Ana Bolena*, não se lembrava bem. Mas a Candiani! Sim, senhor, essa era de primeira! Agora queria ouvir o *Ernani*, que a filha dele cantava em casa, ao piano: *Ernani, Ernani, involami...* — E dizia isso levantando-se e cantarolando a meia voz. — No norte essas coisas chegavam como um eco. A filha morria de vontade de ouvir todas as óperas. Tinha uma voz muito mimosa, a filha. E gosto, muito gosto. Ah! Ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já tinha percorrido a cidade toda, com umas saudades... Palavra! Em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Tinha enjoado muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um inglês... Que o diabo levasse os ingleses! Isto aqui não ia ficar direito sem botar todos eles barra afora. O que a Inglaterra podia nos fazer? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, a expulsão desses tais *godemes* era obra de uma noite... Graças a Deus, tinha patriotismo — e batia no peito —, o que não admirava, porque era de família. Descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a ocasião, e ele ia mostrar de que pau era a canoa... Mas estava ficando tarde. Ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para conversar mais. — Levei-o até a porta da sala. Ele parou e disse que tinha muita simpatia por mim. Quando ele se casou, eu estava na Europa. Conheceu meu pai, um homem direito, com quem dançou num célebre baile da Praia Grande... Coisas! Coisas! Falaria depois, estava ficando tarde, tinha de levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei a porta... Uf!

### Glossário

- **despotismo**: governo de quem manda sozinho, sem limites.
- **penachos**: enfeites de penas nos chapéus de militares.
- **guarda nacional**: força armada de cidadãos, no tempo do Império.
- **tráfico de africanos**: comércio de pessoas trazidas da África como escravos.
- **mimosa**: delicada, agradável.
- **barra afora**: para fora da entrada do porto, de volta ao mar.
- **godemes**: apelido antigo para os ingleses.
- **capitão-mor**: antigo chefe militar de uma região.
- **pé-rapado**: pessoa pobre e sem importância.
- **de que pau era a canoa**: expressão popular: mostrar quem ele era e do que era capaz.

## Capítulo XCIII. O jantar

Que suplício foi aquele jantar! Felizmente, Sabina me fez sentar ao lado da filha do Damasceno, uma D. Eulália, ou mais familiarmente Nhã-loló. Era uma moça bem graciosa, um pouco tímida no começo, mas só no começo. Faltava-lhe elegância, mas compensava isso com os olhos, que eram soberbos. Só tinham um defeito: não saíam de mim, exceto quando desciam ao prato. Mas Nhã-loló comia tão pouco que quase não olhava para o prato. À noite ela cantou. A voz era como o pai dizia, «muito mimosa». Mesmo assim, escapei. Sabina veio até a porta e me perguntou o que eu tinha achado da filha do Damasceno.

— Assim, assim.

— Muito simpática, não é? — disse ela logo. — Falta-lhe um pouco mais de boas maneiras da sociedade. Mas que coração! É uma pérola. Bem boa noiva para você.

— Não gosto de pérolas.

— Casmurro! Para quando é que você está se guardando? Para quando estiver caindo de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira, quer não, há de casar com Nhã-loló.

E dizia isso batendo no meu rosto com os dedos. Estava meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo firme e decidida. Santo Deus! Seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desanimado com a ideia. Mas uma voz misteriosa me chamava à casa do Lobo Neves. Disse adeus a Sabina e às suas ameaças.

### Glossário

- **suplício**: sofrimento muito grande.
- **soberbos**: muito bonitos, magníficos.
- **mimosa**: delicada, agradável.
- **pérola**: aqui, pessoa muito boa.
- **casmurro**: homem teimoso e fechado.
- **caindo de maduro**: já velho demais, como uma fruta que cai da árvore.
- **meu rico**: forma carinhosa de falar com alguém.
- **reconciliação**: volta à paz depois de uma briga.

## Capítulo XCIV. A causa secreta

— Como está a minha querida mamãe?

Ao ouvir essa palavra, Virgília ficou emburrada, como sempre. Estava num canto da janela, sozinha, olhando para a lua, e tinha me recebido com alegria. Mas quando falei do nosso filho, ficou emburrada. Não gostava dessa alusão; as minhas carícias de pai antecipadas a aborreciam. E eu, para quem ela já era uma pessoa sagrada, uma âmbula divina, a deixava quieta. No começo, pensei no embrião, esse perfil do desconhecido, projetado na nossa aventura. Supus que ele tivesse devolvido a ela a consciência do mal. Mas eu me enganava. Nunca Virgília me tinha parecido mais aberta, mais sem reservas, menos preocupada com os outros e com o marido. Não eram remorsos. Imaginei também que a gravidez fosse pura invenção, um modo de me prender a ela. Era um recurso que não funcionaria por muito tempo, e que talvez já começasse a pesar sobre ela. Essa hipótese não era absurda; a minha doce Virgília mentia às vezes, com tanta graça!

Naquela noite descobri a verdadeira causa. Era medo do parto e vergonha da gravidez. Ela tinha sofrido muito quando nasceu o primeiro filho. Aquela hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, já lhe dava na imaginação os calafrios do patíbulo. Quanto à vergonha, ficava ainda mais complicada porque ela seria obrigada a deixar certos hábitos da vida elegante. Com certeza era isso mesmo. Dei-lhe a entender isso e a repreendi, um pouco em nome dos meus direitos de pai. Virgília me fitou. Depois desviou os olhos e sorriu de um jeito incrédulo.

### Glossário

- **emburrada**: de cara fechada, zangada e sem falar.
- **alusão**: palavra que lembra uma coisa sem falar dela diretamente.
- **carícias**: gestos de carinho.
- **antecipadas**: feitas antes da hora.
- **aborreciam**: incomodavam, irritavam.
- **âmbula**: vaso sagrado usado na igreja.
- **embrião**: ser que começa a crescer na barriga da mãe.
- **remorsos**: dor na consciência depois de fazer algo errado.
- **parto**: momento em que a mulher dá à luz.
- **calafrios**: tremores de frio ou de medo.
- **patíbulo**: lugar onde se executava um condenado à morte.
- **incrédulo**: de quem não acredita.

## Capítulo XCV. Flores de antanho

Onde estão elas, as flores de antanho? Uma tarde, depois de algumas semanas de gravidez, caiu todo o edifício das minhas quimeras de pai. O embrião se foi, naquele ponto em que não se distingue Laplace de uma tartaruga. Recebi a notícia da boca do Lobo Neves. Ele me deixou na sala e acompanhou o médico à alcova da mãe frustrada. Eu me encostei à janela, olhando para a chácara, onde estavam verdes as laranjeiras sem flores. Onde iam elas, as flores de antanho?

### Glossário

- **antanho**: palavra antiga: tempos passados.
- **quimeras**: sonhos impossíveis, fantasias.
- **embrião**: ser que começa a crescer na barriga da mãe.
- **Laplace**: grande cientista francês.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **chácara**: casa com terreno e árvores.
- **laranjeiras**: árvores que dão laranjas.

## Capítulo XCVI. A carta anônima

Senti que me tocavam no ombro; era o Lobo Neves. Ficamos alguns instantes olhando um para o outro, mudos, inconsoláveis. Perguntei por Virgília, e depois ficamos conversando uma meia hora. No fim desse tempo, trouxeram-lhe uma carta. Ele a leu, ficou muito pálido e a fechou com a mão trêmula. Creio que o vi fazer um gesto, como se quisesse se atirar sobre mim; mas não me lembro bem. O que lembro claramente é que, nos dias seguintes, ele me recebeu frio e calado. Enfim, Virgília me contou tudo, alguns dias depois, na Gamboa.

O marido lhe mostrou a carta assim que ela se recuperou. Era anônima e nos denunciava. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, dos nossos encontros fora de casa. Limitava-se a preveni-lo contra a minha intimidade e acrescentava que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame.

— Calúnia? — perguntou o Lobo Neves.

— Infame.

O marido respirou. Mas voltou à carta. Parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo. Cada letra gritava contra a indignação da mulher. Esse homem, em geral corajoso, era agora a mais frágil das criaturas. Talvez a imaginação lhe mostrasse, ao longe, o famoso olho da opinião, fitando-o com sarcasmo e um ar de canalha. Talvez uma boca invisível repetisse ao ouvido dele as piadas que ele tinha escutado ou dito no passado. Insistiu com a mulher para que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília compreendeu que estava salva. Mostrou-se irritada com a insistência e jurou que de mim só tinha ouvido palavras de brincadeira e cortesia. A carta devia ser de algum namorado sem sorte. E citou alguns. Um a tinha cortejado abertamente durante algumas semanas, outro lhe tinha escrito uma carta, e havia ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com detalhes, estudando os olhos do marido. Concluiu dizendo que, para não dar motivo à calúnia, me trataria de um modo que eu não voltaria lá.

Ouvi tudo isso um pouco perturbado. Não era pelo fingimento maior que seria preciso usar dali em diante. Esse fingimento ia durar até eu me afastar de todo da casa do Lobo Neves. Era pela tranquilidade moral de Virgília, pela falta de emoção, de susto, de saudade, e até de remorsos. Virgília notou a minha preocupação. Levantou a minha cabeça, porque eu olhava então para o chão, e me disse com certa amargura:

— Você não merece os sacrifícios que lhe faço.

Não disse nada. Um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor ardido dos primeiros dias. Mas era inútil explicar isso a ela. Se eu dissesse, não é impossível que ela chegasse, lenta e artificialmente, a esse pouco de desespero e terror. Não disse nada. Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão. Aproximei-me e a beijei na testa. Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto.

### Glossário

- **anônima**: sem o nome de quem escreveu.
- **inconsoláveis**: tão tristes que nada pode confortar.
- **denunciar**: contar a alguém uma coisa errada que outra pessoa fez.
- **calúnia**: mentira que se diz para prejudicar alguém.
- **infame**: muito baixa, vergonhosa.
- **canalha**: pessoa sem honra.
- **cortejar**: tentar conquistar uma mulher com palavras e atenções.
- **remorsos**: dor na consciência depois de fazer algo errado.
- **defunto**: pessoa morta.

## Capítulo XCVII. Entre a boca e a testa

Sinto que o leitor estremeceu, ou devia estremecer. Naturalmente a última palavra lhe sugeriu três ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito tempo. Uma se inclina para a outra, para lhe dar um beijo na testa. A outra recua, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há aí um breve intervalo entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo. Nesse intervalo há muito espaço para muita coisa. Pode haver a contração de um ressentimento, a ruga da desconfiança, ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade...

### Glossário

- **estremecer**: tremer de repente, de medo ou de susto.
- **recuar**: ir para trás.
- **cadáver**: corpo de uma pessoa morta.
- **contração**: movimento em que uma parte do rosto ou do corpo se aperta.
- **ressentimento**: mágoa guardada contra alguém.
- **ruga**: linha que se forma na pele do rosto.
- **sonolento**: com sono.
- **saciedade**: estado de quem já teve demais de uma coisa e não a deseja mais.

## Capítulo XCVIII. Suprimido

Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anônima devolvia à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo. E, afinal, foi muito bom que Virgília não perdesse naquela crise o controle de si mesma. À noite fui ao teatro de São Pedro. Representavam uma grande peça, em que a Estella arrancava lágrimas do público. Entro; passo os olhos pelos camarotes; vejo em um deles o Damasceno e a família. A filha se vestia com outra elegância e certo cuidado. Isso era difícil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necessário para se endividar. Mas talvez fosse por isso mesmo.

No intervalo fui visitá-los. O Damasceno me recebeu com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim. E realmente ela me parecia agora mais bonita que no dia do jantar. Na verdade, não sei como lhes dizer que não me senti mal ao lado da moça.

Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas eu escrevo as minhas memórias e não as suas, leitor pacato. Não; decididamente suprimo este capítulo.

### Glossário

- **suprimir**: tirar, eliminar.
- **reconciliado**: em paz outra vez com alguém ou com alguma coisa.
- **o sal do mistério e a pimenta do perigo**: o gosto forte que o mistério e o perigo dão a uma aventura.
- **camarotes**: pequenas salas abertas para o palco, num teatro.
- **se endividar**: ficar devendo dinheiro.
- **Estella**: atriz de teatro da época.
- **declive**: descida de um terreno; aqui, caminho arriscado.
- **pacato**: calmo, tranquilo, que não gosta de confusão.

## Capítulo XCIX. Na plateia

Na plateia encontrei o Lobo Neves, conversando com alguns amigos. Falamos por alto, com frieza, os dois constrangidos. Mas no intervalo seguinte, pouco antes de subir o pano, nos encontramos num dos corredores, onde não havia ninguém. Ele veio até mim com muita gentileza e riso. Puxou-me para uma das janelinhas redondas do teatro. Falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranquilo dos homens. Cheguei a perguntar pela mulher dele. Respondeu que estava boa, mas logo desviou a conversa para assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença; eu fujo do Damasceno, que me espia ali da porta do camarote.

Não ouvi nada do ato seguinte, nem as palavras dos atores, nem as palmas do público. Recostado na cadeira, eu recolhia da memória os retalhos da conversa do Lobo Neves. Refazia os modos dele e concluía que a nova situação era muito melhor. A Gamboa nos bastava. Frequentar a outra casa aumentaria as invejas. E, a rigor, podíamos deixar de nos falar todos os dias. Era até melhor, porque punha a saudade no meio do amor. Além disso, eu tinha galgado os quarenta anos e não era nada, nem simples eleitor de paróquia. Era urgente fazer alguma coisa, mesmo que fosse por amor de Virgília. Ela ia se orgulhar quando visse brilhar o meu nome... Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu pensava em outra coisa.

Multidão, cujo amor desejei até a morte, era assim que eu me vingava às vezes de você. Deixava a gente humana fazer barulho em volta do meu corpo, sem ouvi-la. Era o que o Prometeu de Ésquilo fazia com os seus carrascos. Ah! Você pensava que me acorrentava ao rochedo da sua frivolidade, da sua indiferença ou da sua agitação? Frágeis correntes, minha amiga; eu as rompia com um gesto de Gulliver. É coisa vulgar ir meditar no deserto. O voluptuoso, o requintado, é se isolar no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões. É decretar-se distante, inacessível, ausente. O homem volta a si, isto é, volta aos outros. O máximo que podem dizer então é que desce do mundo da lua. Mas o mundo da lua é esse sótão luminoso e discreto do cérebro. Que outra coisa é ele senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Viva Deus! eis um bom fecho de capítulo.

### Glossário

- **plateia**: lugar do teatro onde o público se senta, em frente ao palco.
- **galgado**: subido; aqui, passado de uma idade.
- **eleitor de paróquia**: cidadão que votava na sua região, o nível mais baixo da política.
- **carrascos**: homens que torturam ou executam os condenados.
- **rochedo**: grande rocha.
- **frivolidade**: gosto por coisas sem importância.
- **voluptuoso**: que dá muito prazer.
- **fecho**: fim, parte que encerra alguma coisa.
- **expansivo**: que fala muito e mostra o que sente.
- **espia**: olha às escondidas.
- **acorrentava**: prendia com correntes.
- **desdenhosa**: cheia de desprezo.

## Capítulo C. O caso provável

Se esse mundo não fosse uma região de espíritos distraídos, seria inútil lembrar uma coisa ao leitor. Eu só afirmo certas leis quando as conheço de verdade. Quanto a outras, limito-me a admitir que são prováveis. O presente capítulo é um exemplo da segunda classe. Recomendo a sua leitura a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Ao que parece, e não é improvável, existe uma certa ação recíproca. Ela acontece entre os fatos da vida pública e os da vida particular. É uma ação regular, e talvez periódica. Para usar uma imagem, há alguma coisa semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras praias igualmente barulhentas. De fato, quando a onda ataca a praia, inunda muitos palmos de areia. Mas essa mesma água volta ao mar, com força variável. E vai engrossar a onda que há de vir, e essa terá de voltar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a aplicação.

Deixei dito em outra página que o Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Ele recusou a nomeação por causa da data do decreto, que era 13. Foi um ato grave, e a sua consequência foi separar do ministério o marido de Virgília. Assim, o fato particular do ódio a um número produziu o fenômeno da dissidência política. Falta ver como, tempos depois, um ato político causou na vida particular uma parada de movimento. Não convém ao método deste livro descrever agora esse outro fenômeno. Por enquanto, digo apenas uma coisa. Quatro meses depois do nosso encontro no teatro, o Lobo Neves se reconciliou com o ministério. O leitor não deve perder de vista esse fato, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

### Glossário

- **recíproca**: que vai de um lado para o outro e volta; que os dois lados fazem um ao outro.
- **marés**: subida e descida regular da água do mar.
- **palmos**: medida antiga, do tamanho de uma mão aberta.
- **presidente de província**: governante de uma região no Império.
- **decreto**: ordem escrita do governo.
- **ministério**: o grupo de ministros que governa.
- **dissidência**: separação de um grupo por não concordar com ele.
- **sutileza**: ideia fina, difícil de perceber.

## Capítulo CI. A revolução dálmata

Foi Virgília quem me deu a notícia da reviravolta política do marido. Foi numa manhã de outubro, entre as onze horas e o meio-dia. Ela me falou de reuniões, de conversas, de um discurso...

— De maneira que desta vez fica você baronesa — interrompi eu.

Ela abaixou os cantos da boca e moveu a cabeça de um lado para o outro. Mas esse gesto de indiferença era desmentido por outra coisa, menos definível e menos clara. Era uma expressão de gosto e de esperança. E não sei por que imaginei uma coisa: a carta imperial da nomeação podia atraí-la para a virtude. Não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Porque ela amava de coração a nobreza. Um dos maiores desgostos da nossa vida foi o aparecimento de um certo pelintra de legação. Era da legação da Dalmácia, suponhamos. Era o conde B. V., que a namorou durante três meses.

Esse homem, verdadeiro fidalgo de raça, tinha perturbado um pouco a cabeça de Virgília. Além disso, ela possuía a vocação diplomática. Não consigo imaginar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia uma revolução. Ela derrubou o governo e purificou as embaixadas. Foi uma revolução sangrenta, dolorosa, terrível. A cada navio que chegava da Europa, os jornais copiavam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças. Toda a gente tremia de indignação e de piedade... Eu não. Eu abençoava em silêncio essa tragédia, que me tinha tirado uma pedrinha do sapato. E depois, a Dalmácia era tão longe!

### Glossário

- **baronesa**: mulher com título de nobreza, abaixo de marquesa.
- **carta imperial**: documento do imperador que dá um título de nobreza.
- **pelintra**: homem que quer parecer elegante, mas tem pouco valor.
- **legação**: grupo que representa um país em outro país.
- **fidalgo**: homem nobre.
- **vocação diplomática**: jeito natural para a vida dos representantes de um país.
- **embaixadas**: casas e grupos que representam um país no estrangeiro.
- **uma pedrinha do sapato**: pequeno problema que incomoda muito.
- **desmentido**: negado, mostrado como falso.
- **suponhamos**: vamos imaginar.
- **rebentasse**: começasse de repente, com força.
- **abençoava**: agradecia e desejava o bem a alguma coisa.

## Capítulo CII. De repouso

Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou algum tempo depois... Não, não vou contar isso nesta página. Que este capítulo fique para descanso da minha vergonha. Uma ação grosseira, baixa, sem explicação possível... Repito, não contarei o caso nesta página.

### Glossário

- **praticou**: fez, realizou.
- **grosseira**: sem educação, sem delicadeza.
- **baixa**: feia do ponto de vista moral; sem dignidade.

## Capítulo CIII. Distração

— Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.

D. Plácida tinha razão. Nenhum cavalheiro chega uma hora atrasado ao lugar onde a sua dama o espera. Entrei sem fôlego; Virgília já tinha ido embora. D. Plácida me contou tudo. Virgília tinha esperado muito, tinha se irritado, tinha chorado. Tinha jurado me condenar ao desprezo. A nossa caseira dizia essas e outras coisas com lágrimas na voz. Pedia que eu não abandonasse Iaiá. Dizia que era muito injusto com uma moça que me tinha sacrificado tudo. Expliquei então que um equívoco... E não era. Creio que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples distração.

Coitada de D. Plácida! Estava aflita de verdade. Andava de um lado para outro, balançando a cabeça, suspirando alto, espiando pela rótula. Coitada de D. Plácida! Com que arte ajeitava as roupas, aquecia as faces, acalmava as manhas do nosso amor! Que imaginação fértil para tornar as horas mais agradáveis e mais breves! Flores, doces (os bons doces de outros dias), e muito riso, muito carinho. Esse riso e esse carinho cresciam com o tempo. Era como se ela quisesse fixar a nossa aventura, ou lhe devolver a primeira flor. A nossa confidente e caseira não esquecia nada. Nada, nem a mentira, porque contava a cada um de nós suspiros e saudades que nunca tinha visto. Nada, nem a calúnia, porque uma vez chegou a me atribuir uma paixão nova.

— Você sabe que não posso gostar de outra mulher — foi a minha resposta, quando Virgília me falou de tal coisa.

E só essa palavra, sem nenhum protesto ou repreensão, dissipou a calúnia de D. Plácida, que ficou triste.

— Está bem — eu lhe disse, depois de um quarto de hora. — Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma... Você quer levar uma carta para ela agora mesmo?

— Ela há de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguém. Mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Iaiá, aí sim é que vai ver o anjo que ela é!

Lembro que desviei o rosto e baixei os olhos para o chão. Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder. Ou ainda às que tiverem medo de olhar outros olhos de frente. Nesses casos, alguns preferem recitar uma oitava dos *Lusíadas*. Outros preferem assobiar a *Norma*. Eu fico com o gesto indicado: é mais simples e exige menos esforço.

Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada quando lhe pedi desculpa pelas lágrimas que derramou naquela triste ocasião. Não me lembro se, por dentro, atribuí essas lágrimas a D. Plácida. De fato, podia acontecer que D. Plácida chorasse ao ver Virgília desapontada. E, por um fenômeno da visão, as lágrimas dos próprios olhos podiam lhe parecer cair dos olhos de Virgília. Seja como for, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgília me dizia muitas coisas duras, ameaçava me deixar e, por fim, elogiava o marido. Esse sim era um homem digno, muito superior a mim. Era delicado, uma perfeição de cortesia e de afeto. Era o que ela dizia. Enquanto isso, eu estava sentado, com os braços apoiados nos joelhos, olhando para o chão. No chão, uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!

— Mas você não diz nada, nada? — perguntou Virgília, parando diante de mim.

— Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você insiste em se zangar; que hei de dizer? Sabe o que me parece? Parece que você está cansada, que se aborrece, que quer acabar...

— Justamente!

Foi pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa...

— Adeus, D. Plácida! — gritou ela para dentro.

Depois foi até a porta, abriu o trinco e ia sair. Eu a agarrei pela cintura.

— Está bom, está bom — eu disse.

Virgília ainda fez força para sair. Eu a segurei, pedi que ficasse, que esquecesse. Ela se afastou da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao lado dela e disse muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia, ou ainda menos. É matéria discutível. Lembro, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgília. Eu me abaixei para apanhá-lo. E a mosca de antes subiu no brinco, levando sempre a formiga no pé. Então, com a delicadeza natural de um homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de sofredores. Calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno. E perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão pobre. Se você conclui daí que eu era um bárbaro, engana-se. Porque eu pedi um grampo a Virgília, para separar os dois insetos. Mas a mosca adivinhou a minha intenção, abriu as asas e foi embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.

### Glossário

- **caseira**: mulher que cuida de uma casa para o dono.
- **Iaiá**: forma como pessoas escravizadas e criadas chamavam as senhoras e moças da casa.
- **rótula**: grade de madeira na janela, que permite olhar para fora sem ser visto.
- **manhas**: choro e birra de criança para conseguir alguma coisa.
- **calúnia**: mentira que se diz contra alguém.
- **oitava**: estrofe de oito versos.
- **Lusíadas**: grande poema português de Camões.
- **Norma**: ópera italiana muito conhecida na época.
- **canapé**: sofá antigo.
- **cambraia**: tecido muito fino.
- **grampo**: pequeno objeto de metal para prender o cabelo.
- **cavalheiro**: homem educado e elegante.
- **equívoco**: engano, erro.
- **aflita**: muito preocupada.
- **suspirando**: soltando o ar com força, de tristeza.
- **espiando**: olhando às escondidas.
- **coitadinha**: pobrezinha, pessoa que merece pena.
- **assobiar**: fazer música soprando o ar pelos lábios.
- **desapontada**: triste porque não teve o que esperava.
- **zangar**: ficar com raiva.
- **aborrece**: fica cansada e sem interesse.
- **trêmula**: que treme.
- **raivosa**: cheia de raiva.
- **trinco**: peça de metal que fecha a porta.
- **meigas**: doces, carinhosas.

## Capítulo CIV. Era ele!

Devolvi o grampo a Virgília, que o prendeu de novo nos cabelos e se preparou para sair. Era tarde; já tinham dado três horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Plácida espiava o momento certo para a saída. De repente, ela fecha a janela e exclama:

— Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília ficou da cor das rendas do vestido e correu até a porta da alcova. D. Plácida, que tinha fechado a rótula, queria fechar também a porta de dentro. Eu me preparei para esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgília voltou a si, me empurrou para a alcova e disse a D. Plácida que voltasse à janela. A confidente obedeceu.

Era ele. D. Plácida abriu a porta com muitas exclamações de espanto:

— O senhor por aqui! honrando a casa da sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está aqui... Não precisa adivinhar: não veio por outra coisa... Apareça, Iaiá.

Virgília, que estava num canto, se atirou ao marido. Eu os espiava pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou devagar, pálido, frio, quieto, sem explosão, sem violência. E passeou um olhar em volta da sala.

— Que é isto? — exclamou Virgília. — Você por aqui?

— Ia passando, vi D. Plácida à janela e vim cumprimentá-la.

— Muito obrigada — respondeu logo D. Plácida. — E digam que as velhas não valem alguma coisa... Olhem só, gente! Iaiá parece estar com ciúmes.

E, acariciando muito Virgília:

— Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...

— Não me demoro.

— Você vai para casa? — disse Virgília. — Vamos juntos.

— Vou.

— Dê aqui o meu chapéu, D. Plácida.

— Está aqui.

D. Plácida foi buscar um espelho e o abriu diante dela. Virgília punha o chapéu, amarrava as fitas, arrumava os cabelos. Enquanto isso, falava ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha falava demais. Era um modo de disfarçar os tremores do corpo. Virgília, vencido o primeiro instante, tinha voltado a ser dona de si mesma.

— Pronta! — disse ela. — Adeus, D. Plácida; não se esqueça de aparecer, ouviu?

A outra prometeu que sim e abriu a porta para eles.

### Glossário

- **grampo**: pequeno objeto de metal para prender o cabelo.
- **Iaiá**: forma como pessoas escravizadas e criadas chamavam as senhoras e moças da casa.
- **rendas**: tecido fino e cheio de pequenos desenhos abertos.
- **alcova**: quarto de dormir.
- **rótula**: grade de madeira na janela, que permite olhar para fora sem ser visto.
- **confidente**: pessoa que conhece os segredos de alguém.
- **buraco da fechadura**: abertura da porta onde se põe a chave.
- **fitas**: tiras de tecido para amarrar ou enfeitar.
- **espiava**: olhava às escondidas.
- **acariciando**: fazendo carinho.
- **anjinho**: pequeno anjo; aqui, pessoa doce.

## Capítulo CV. Equivalência das janelas

D. Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu saí imediatamente da alcova e dei dois passos para ir à rua. Queria arrancar Virgília do marido. Foi o que eu disse, e foi bom ter dito, porque D. Plácida me segurou por um braço. Houve um tempo em que cheguei a supor que só tinha dito aquilo para que ela me segurasse. Mas basta refletir um pouco para ver isto. Depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais verdadeiro e sincero só podia ser esse. E isso por causa daquela famosa lei da equivalência das janelas. Tive a satisfação de descobrir e formular essa lei no capítulo LI. Era preciso arejar a consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

### Glossário

- **alcova**: quarto de dormir.
- **arrancar**: tirar com força.
- **equivalência**: qualidade do que tem o mesmo valor que outra coisa.
- **formular**: explicar uma ideia com palavras exatas.
- **arejar**: deixar entrar ar novo.
- **consciência**: voz interior que julga o que fazemos.

## Capítulo CVI. Jogo perigoso

Respirei e me sentei. D. Plácida enchia a sala de barulho com exclamações e lamentos. Eu ouvia sem dizer nada. Pensava comigo se não teria sido melhor fechar Virgília na alcova e ficar na sala. Mas logo vi que seria pior. Confirmaria a suspeita, levaria o fogo à pólvora, e haveria uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas e depois? Que ia acontecer na casa de Virgília? O marido ia matá-la? ia espancá-la? ia trancá-la? ia expulsá-la? Essas perguntas percorriam lentamente o meu cérebro. Eram como os pontinhos e vírgulas escuras que percorrem a vista dos olhos doentes ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto seco e trágico. E eu não podia agarrar uma delas e dizer: é você, você e não outra.

De repente vejo um vulto negro. Era D. Plácida, que tinha ido lá dentro e vestido a mantilha. Vinha se oferecer para ir à casa do Lobo Neves. Eu disse que era arriscado, porque ele ia desconfiar de uma nova visita tão cedo.

— Fique tranquilo — interrompeu ela. — Eu saberei arranjar as coisas. Se ele estiver em casa, não entro.

Saiu. Fiquei pensando sem parar no acontecimento e nas suas possíveis consequências. No fim, me parecia que eu jogava um jogo perigoso. Perguntava a mim mesmo se não era hora de me levantar e descansar, como um jogador de *whist*. E então senti uma saudade do casamento, um desejo de canalizar a vida. Por que não? O meu coração ainda tinha coisas a explorar. Não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção. Eu estava farto delas; não sei até se sentia algum remorso. Mal pensei nisso, me deixei levar pela imaginação. Logo me vi casado, ao lado de uma mulher adorável. Diante de nós, um *baby* dormia no colo da ama. Estávamos todos no fundo de uma chácara sombria e verde. E espiávamos, através das árvores, um pedaço do céu azul, extremamente azul...

### Glossário

- **alcova**: quarto de dormir.
- **pólvora**: pó que explode quando pega fogo.
- **vulto**: figura que se vê de modo pouco claro.
- **mantilha**: grande lenço que as mulheres punham na cabeça e nos ombros.
- **whist**: jogo de cartas inglês, para quatro pessoas.
- **canalizar a vida**: dar à vida um caminho certo e calmo, como a água num canal.
- **casto**: puro, sem sexo.
- **torrencial e vertiginosa**: forte e rápida como a água de um rio cheio.
- **baby**: palavra inglesa para bebê.
- **ama**: mulher paga para cuidar de uma criança.

## Capítulo CVII. Bilhete

«Não houve nada, mas ele suspeita de alguma coisa. Está muito sério e não fala. Agora saiu. Sorriu uma vez só, para Nhonhô, depois de olhar para ele muito tempo, com a cara fechada. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muito cuidado, por enquanto, muito cuidado.»

### Glossário

- **Bilhete**: carta muito curta.
- **suspeita**: acha que algo está errado, mas não tem certeza.
- **com a cara fechada**: com expressão séria e zangada.
- **Deus queira**: espero, com a ajuda de Deus.

## Capítulo CVIII. Que se não entende

Aí está o drama. Aí está a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Aquele pedacinho de papel estava rabiscado em algumas partes e amassado pelas mãos. Era um documento para análise. Eu não farei essa análise neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Essas poucas linhas foram escritas às pressas. Poderia eu tirar do leitor o gosto de notar sozinho a frieza, a inteligência e a coragem delas? E de ver, atrás delas, a tempestade de outro cérebro, a raiva escondida, o desespero que se controla e medita? Porque esse desespero tem de acabar na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas.

Quanto a mim, se eu disser que li o bilhete três ou quatro vezes naquele dia, acreditem. É verdade. Se disser ainda que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podem acreditar. É a pura realidade. Mas, se eu disser a emoção que senti, duvidem um pouco dessa afirmação. Não a aceitem sem provas. Nem então, nem ainda agora, consegui saber o que senti. Era medo, e não era medo; era pena e não era pena; era vaidade e não era vaidade. Enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio. E tudo isso dava uma combinação bastante complexa e vaga. Era uma coisa que vocês não poderão entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada.

### Glossário

- **a ponta da orelha**: pequena parte de algo escondido que aparece e o revela.
- **rabiscado**: escrito de modo rápido e pouco claro.
- **amassado**: apertado e cheio de dobras.
- **análise**: estudo atento de cada parte de uma coisa.
- **frieza**: calma de quem não mostra sentimentos.
- **medita**: pensa profundamente.
- **vaidade**: orgulho de si mesmo, desejo de ser admirado.
- **delírio**: paixão forte, quase loucura.

## Capítulo CIX. O filósofo

Se já se sabe que reli a carta antes e depois do almoço, já se sabe que almocei. Só falta dizer que essa refeição foi das mais pobres da minha vida. Foi um ovo, uma fatia de pão, uma xícara de chá. Não esqueci esse detalhe mínimo. Tantas coisas importantes se apagaram, e esse almoço ficou. A razão principal poderia ser justamente o meu desastre. Mas não foi. A razão principal foi uma reflexão que o Quincas Borba me fez, pois ele me visitou naquele dia. Ele me disse que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo, e menos ainda para praticá-lo. Disse que esta filosofia se dava bem com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espetáculo e os amores. E disse que, ao contrário, a frugalidade podia indicar certa tendência para o ascetismo. E o ascetismo era a expressão perfeita da tolice humana.

— Veja São João — continuou ele. — Alimentava-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranquilamente na cidade e fazer o farisaísmo emagrecer na sinagoga.

Deus me livre de contar a história do Quincas Borba. Aliás, ouvi toda ela naquela triste ocasião. É uma história longa, complicada, mas interessante. E, se não conto a história, também não preciso descrever a sua figura. Aliás, ela era muito diferente da que me apareceu no Passeio Público. Fico calado. Digo somente isto. Se a principal característica do homem não é o rosto, mas a roupa, ele não era o Quincas Borba. Era um desembargador sem toga, um general sem farda, um negociante sem *déficit*. Notei a perfeição da sobrecasaca, a brancura da camisa, a limpeza das botas. A própria voz, antes rouca, parecia ter recuperado o som de origem. Quanto aos gestos, não tinham perdido a vivacidade de outro tempo, mas já não tinham a desordem. Obedeciam a um certo método. Mas eu não quero descrevê-lo. Eu poderia falar, por exemplo, do botão de ouro que trazia no peito e da qualidade do couro das botas. Mas assim começaria uma descrição, que deixo de lado por brevidade. Contentem-se em saber que as botas eram de verniz. Saibam ainda que ele tinha herdado alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena.

Meu espírito (permitam-me aqui uma comparação de criança!), meu espírito era naquela ocasião uma espécie de peteca. A narração do Quincas Borba lhe dava uma palmada, e ele subia. Quando ia cair, o bilhete de Virgília lhe dava outra palmada, e ele era jogado de novo para o ar. Descia, e o episódio do Passeio Público o recebia com outra palmada, igualmente forte e eficaz. Creio que não nasci para situações complexas. Esse puxa e empurra de coisas opostas me fazia perder o equilíbrio. Eu tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia. E depois queria mandar tudo de presente a Aristóteles. No entanto, a narração do nosso filósofo era instrutiva. Eu admirava sobretudo o seu talento de observação. Ele descrevia a formação e o crescimento do vício, as lutas interiores, as rendições lentas, o uso da lama.

— Olhe — observou ele. — A primeira noite que passei na escada de São Francisco, dormi a noite inteira, como na pluma mais fina. Por quê? Porque fui aos poucos da cama de esteira ao catre de pau. Fui do quarto próprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez à rua...

Ele quis finalmente me expor a filosofia; pedi que não.

— Estou muito preocupado hoje e não poderia atendê-lo. Venha depois; estou sempre em casa.

O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso. Talvez soubesse da minha aventura, mas não acrescentou nada. Só me disse estas últimas palavras à porta:

— Venha para o Humanitismo. Ele é o grande colo dos espíritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos a faziam sair de um poço. Que ideia mesquinha! Um poço! Mas é por isso mesmo que nunca a encontraram. Gregos, subgregos, antigregos, toda a longa série dos homens tem se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade. Mas ela não está lá. Gastaram cordas e baldes. Alguns mais ousados desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha para o Humanitismo.

### Glossário

- **frugalidade**: hábito de comer e gastar muito pouco.
- **Humanitismo**: a filosofia inventada pelo Quincas Borba.
- **ascetismo**: vida de sacrifício, sem prazeres.
- **farisaísmo**: os fariseus, um grupo religioso judeu da Bíblia; também falsa religiosidade.
- **desembargador**: juiz de um tribunal superior.
- **toga**: roupa longa e preta dos juízes.
- **déficit**: falta de dinheiro nas contas.
- **sobrecasaca**: casaco longo e elegante de homem, usado na época.
- **verniz**: couro muito brilhante.
- **contos de réis**: dinheiro da época; um conto era muito dinheiro.
- **peteca**: brinquedo que se joga para o alto com a palma da mão.
- **catre**: cama simples e dura.
- **corpo da guarda**: lugar onde ficam os soldados de guarda.
- **xadrez**: prisão.
- **reli**: li de novo.
- **gafanhotos**: insetos que saltam e comem plantas.
- **engordar**: ficar gordo.
- **brancura**: qualidade do que é branco.
- **rouca**: fraca e áspera, como a voz de quem está com a garganta doente.
- **embrulhar**: cobrir com papel, como um pacote.
- **pluma**: pena macia de ave.
- **mesquinha**: pequena, sem grandeza.

## Capítulo CX. 31

Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Eu me agarrei à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez com a data de 13. Mas ele trouxe a data de 31. E esta simples troca de algarismos tirou deles a substância diabólica. Que profundas que são as molas da vida!

### Glossário

- **presidente de província**: governante de uma região no Império.
- **recusa**: ato de dizer não.
- **decreto**: ordem escrita do governo.
- **algarismos**: sinais que representam os números, como 1 e 3.
- **substância diabólica**: aqui, o poder ruim que o número tinha para o Lobo Neves.
- **molas**: aqui, as forças escondidas que movem as coisas.

## Capítulo CXI. O muro

Como não é meu costume disfarçar ou esconder nada, contarei nesta página o caso do muro. Eles estavam prestes a embarcar. Ao entrar na casa de D. Plácida, vi um papelzinho dobrado sobre a mesa. Era um bilhete de Virgília. Dizia que me esperava à noite, na chácara, sem falta. E terminava: «O muro é baixo do lado do beco.»

Fiz um gesto de desagrado. A carta me pareceu extremamente ousada, mal pensada e até ridícula. Não era só convidar o escândalo; era convidá-lo junto com o riso. Eu me imaginei saltando o muro, mesmo baixo e do lado do beco. E, quando ia subir nele, me via agarrado por um soldado de polícia, que me levava ao corpo da guarda. O muro é baixo! E que importava que fosse baixo? Naturalmente Virgília não sabia o que tinha feito. Era possível que já estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedaço de papel amassado, mas inflexível. Tive vontade de rasgá-lo em trinta mil pedaços e jogá-los ao vento, como o último resto da minha aventura. Mas recuei a tempo. O amor-próprio, a vergonha da fuga, a ideia do medo... Não havia outro remédio senão ir.

— Diga a ela que vou.

— Aonde? — perguntou D. Plácida.

— Onde ela disse que me espera.

— Ela não me disse nada.

— Neste papel.

D. Plácida arregalou os olhos:

— Mas esse papel, eu o achei hoje de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que...

Tive uma sensação esquisita. Reli o papel, olhei para ele, tornei a olhar. Era, na verdade, um antigo bilhete de Virgília, recebido no começo dos nossos amores. Era de um certo encontro na chácara, que me levou de fato a saltar o muro. Um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma sensação esquisita.

### Glossário

- **prestes a**: quase no momento de.
- **bilhete**: carta muito curta.
- **chácara**: casa com terreno e árvores.
- **beco**: rua muito estreita.
- **corpo da guarda**: lugar onde ficam os soldados de guarda.
- **inflexível**: que não muda, que não cede.
- **amor-próprio**: orgulho, respeito por si mesmo.
- **arregalou**: abriu muito os olhos, de espanto.

## Capítulo CXII. A opinião

Mas estava escrito que aquele dia devia ser o dos casos duvidosos. Poucas horas depois, encontrei o Lobo Neves na rua do Ouvidor. Falamos da presidência e da política. Ele aproveitou o primeiro conhecido que passou ao nosso lado e me deixou, depois de muitos cumprimentos. Lembro que estava reservado, mas de um modo que se esforçava por esconder. Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu julgamento for imprudente!), pareceu-me que ele tinha medo. Não medo de mim, nem de si mesmo, nem da lei, nem da consciência. Tinha medo da opinião. A opinião é um tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga. Supus que esse tribunal era o limite posto à vontade do Lobo Neves. Talvez ele já não amasse a mulher. Assim, pode ser que o coração não tivesse parte na indulgência dos seus últimos atos. Creio (e de novo peço a boa vontade da crítica!), creio que ele estaria pronto a se separar da mulher. Faria isso como o leitor já terá se separado de muitas relações pessoais. Mas havia a opinião. Essa opinião arrastaria a vida dele por todas as ruas. Abriria um inquérito minucioso sobre o caso. Reuniria uma a uma todas as circunstâncias, antecedentes, suposições e provas. E contaria tudo nas conversas das chácaras desocupadas. Essa terrível opinião, tão curiosa das alcovas, impediu a dispersão da família. Ao mesmo tempo, tornou impossível a vingança, que seria a divulgação. Ele não podia se mostrar ressentido comigo sem buscar também a separação do casal. Teve então de fingir a mesma ignorância de antes e, por dedução, os mesmos sentimentos.

Creio que isso lhe custava. Naqueles dias, principalmente, pelo que vi nele, devia custar muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que espero a indulgência dos homens pensadores!), o tempo endurece a sensibilidade. E apaga a memória das coisas. Era de supor que os anos lhe tirassem as pontas dos espinhos. Que a distância apagasse o contorno dos fatos. Que uma sombra de dúvida sobre o passado cobrisse a nudez da realidade. Enfim, que a opinião se ocupasse um pouco de outras aventuras. O filho, ao crescer, buscaria satisfazer as ambições do pai e seria o herdeiro de todos os seus afetos. Isso, e a atividade externa, e o prestígio público. Depois a velhice, a doença, o declínio, a morte, um responso, uma notícia biográfica. E estava fechado o livro da vida, sem nenhuma página de sangue.

### Glossário

- **a crítica**: as pessoas que julgam livros em público.
- **indulgência**: facilidade em perdoar.
- **inquérito**: investigação sobre um caso.
- **chácaras desocupadas**: aqui, casas de gente sem trabalho, que passa o tempo falando dos outros.
- **alcovas**: quartos de dormir.
- **divulgação**: ato de tornar uma coisa conhecida por todos.
- **responso**: oração pelos mortos.
- **notícia biográfica**: pequeno texto sobre a vida de uma pessoa.

## Capítulo CXIII. A solda

A conclusão, se há alguma no capítulo anterior, é esta. A opinião é uma boa solda das instituições domésticas. Não é impossível que eu desenvolva este pensamento antes de acabar o livro. Mas também não é impossível que o deixe como está. De um modo ou de outro, a opinião é uma boa solda. E isso vale tanto na ordem doméstica como na política. Alguns metafísicos de mau humor chegaram ao extremo. Disseram que ela é simples produto da gente sem graça ou medíocre. Mas, mesmo que uma ideia tão extrema não trouxesse em si mesma a resposta, a coisa é evidente. Bastaria considerar os efeitos saudáveis da opinião. Logo se concluiria que ela é a obra mais fina da flor dos homens, a saber, do maior número.

### Glossário

- **solda**: metal que une duas peças; aqui, o que mantém as coisas unidas.
- **instituições domésticas**: a família e o casamento.
- **ordem doméstica**: a vida dentro de casa e da família.
- **metafísicos**: filósofos que estudam as questões mais abstratas.
- **gente sem graça**: pessoas sem valor e sem interesse.
- **medíocre**: sem qualidade, comum.
- **a flor dos homens**: a melhor parte dos homens.
- **a saber**: isto é.

## Capítulo CXIV. Fim de um diálogo

— Sim, é amanhã. Você vai a bordo?

— Está doida? É impossível.

— Então, adeus!

— Adeus!

— Não se esqueça de D. Plácida. Vá vê-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem se despedir de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais... É uma boa criatura, não?

— Certamente.

— Se tivermos de escrever, ela receberá as cartas. Agora até daqui a...

— Talvez dois anos?

— Qual! ele diz que é só até fazer as eleições.

— Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.

— Quem?

— Ali do sofá. Vamos nos separar.

— Isso me custa muito.

— Mas é preciso; adeus, Virgília!

— Até breve. Adeus!

### Glossário

- **a bordo**: dentro de um navio.
- **doida**: louca.
- **Coitada**: palavra que mostra pena de alguém.
- **criatura**: pessoa.
- **Qual!**: expressão que significa "de jeito nenhum!".
- **até breve**: até logo; até nos vermos de novo em pouco tempo.
- **me custa**: é difícil e doloroso para mim.

## Capítulo CXV. O almoço

Não a vi partir. Mas, na hora marcada, senti alguma coisa que não era dor nem prazer. Era uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em doses iguais. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu sei bem que, para excitar os nervos da sua fantasia, eu devia sofrer um grande desespero. Devia derramar algumas lágrimas e não almoçar. Seria romanesco, mas não seria biográfico. A pura realidade é que almocei, como nos outros dias. Socorria o coração com as lembranças da minha aventura, e o estômago com os pratos finos de Mr. Pruddon...

...Velhos do meu tempo, vocês se lembram desse mestre cozinheiro do hotel Pharoux? Segundo dizia o dono da casa, ele tinha servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris. E também nos palácios do conde Molé e do duque de la Rochefoucauld. Era excelente. Entrou no Rio de Janeiro com a polca... A polca, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Cassino: eis algumas das melhores lembranças daquele tempo. Mas, sobretudo, os pratos finos do mestre eram deliciosos.

Eram, e naquela manhã parece que o diabo do homem tinha adivinhado a nossa catástrofe. Nunca o engenho e a arte lhe foram tão favoráveis. Que requinte de temperos! que carnes tão tenras! que formas tão elaboradas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia. Se tivesse guardado, é muito provável que a deixasse nestas páginas. Sei que foi cara. Ai, dor! Eu precisava enterrar magnificamente os meus amores. Eles lá iam, mar afora, no espaço e no tempo. E eu ficava ali, numa ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos anos, tão vadios e tão vazios. Ficava para nunca mais vê-los. Porque ela poderia voltar, e voltou. Mas quem é que pediu ao crepúsculo da tarde o perfume da manhã?

### Glossário

- **alívio**: sensação boa quando acaba uma dor ou um peso.
- **romanesco**: como nos romances, não como na vida real.
- **biográfico**: que conta a vida real de uma pessoa.
- **polca**: dança animada, muito na moda naquela época.
- **engenho**: talento, inteligência para criar.
- **requinte**: cuidado e elegância nos detalhes.
- **tenras**: macias.
- **mar afora**: pelo mar, para longe.
- **vadios**: sem trabalho, sem ocupação útil.
- **crepúsculo**: a luz fraca do fim do dia.

## Capítulo CXVI. Filosofia das folhas velhas

Fiquei tão triste com o fim do último capítulo que era capaz de não escrever este. Era capaz de descansar um pouco, limpar o espírito da melancolia que o enche, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.

A partida de Virgília me deu uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias, fiquei fechado em casa, fisgando moscas, como Domiciano, se Suetônio não mente. Mas eu as fisgava de um modo particular: com os olhos. Fisgava uma a uma, no fundo de uma sala grande, estendido na rede, com um livro aberto nas mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tédio, e muito devaneio solto. Meu tio cônego morreu nesse intervalo, e também dois primos. Não me abalei. Levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? Como quem leva cartas ao correio. Selei as cartas, pus na caixinha e deixei ao carteiro o cuidado de entregá-las em mãos. Foi também por essa época que nasceu minha sobrinha Venância, filha do Cotrim. Uns morriam, outros nasciam: eu continuava às moscas.

Outras vezes eu me agitava. Ia às gavetas, despejava as cartas antigas dos amigos, dos parentes, das namoradas (até as de Marcela). Abria todas, lia uma a uma e recompunha o passado... Leitor ignaro, se você não guardar as cartas da juventude, nunca vai conhecer a filosofia das folhas velhas. Não vai provar o prazer de se ver ao longe, na penumbra. Lá está você, com um chapéu de três bicos, botas de sete léguas e longas barbas assírias. E dança ao som de uma gaita anacreôntica. Guarde as suas cartas da juventude!

Ou, se você não gosta do chapéu de três bicos, vou usar outras palavras. São de um velho marujo, amigo da casa do Cotrim. Direi que, se guardar as cartas da juventude, você terá ocasião de «cantar uma saudade». Parece que os nossos marujos dão esse nome às cantigas de terra, cantadas em alto-mar. Como expressão poética, é o mais triste que se pode exigir.

### Glossário

- **viuvez**: estado de quem perdeu o marido ou a mulher.
- **fisgando**, **fisgava**: pegando, pegava com um objeto de ponta, como um gancho.
- **despejava**: virava, deixando cair tudo.
- **recompunha**: formava de novo.
- **assírias**: como as dos homens da Assíria, um antigo reino do Oriente.
- **tédio**: aborrecimento, falta de interesse por tudo.
- **devaneio**: pensamento solto, sonho de olhos abertos.
- **cônego**: padre de uma catedral.
- **às moscas**: sem fazer nada.
- **ignaro**: que não sabe; ignorante.
- **penumbra**: pouca luz, meia sombra.
- **botas de sete léguas**: botas mágicas dos contos, que dão passos enormes.
- **gaita anacreôntica**: instrumento da poesia alegre, de vinho e amor, como a do grego Anacreonte.
- **marujo**: homem que trabalha em navio.

## Capítulo CXVII. O Humanitismo

Mas duas forças, além de uma terceira, me obrigavam a voltar à agitação de costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã empurrou a candidatura de Nhã-loló ao casamento de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim, o casamento estava quase combinado. Quanto ao Quincas Borba, ele finalmente me explicou o Humanitismo. Era um sistema de filosofia destinado a destruir todos os outros sistemas.

— Humanitas — dizia ele —, o princípio das coisas, é apenas o próprio homem repartido por todos os homens. Humanitas tem três fases. A *estática* vem antes de toda a criação. A *expansiva* é o começo das coisas. A *dispersiva* é o aparecimento do homem. E terá mais uma fase, a *contrativa*, que vai absorver o homem e as coisas. A *expansão* iniciou o universo e deu a Humanitas o desejo de gozá-lo. Daí veio a *dispersão*, que é apenas a multiplicação personificada da substância original.

Esta explicação não me pareceu bastante clara. Então o Quincas Borba a desenvolveu de um modo profundo e mostrou as grandes linhas do sistema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo estava ligado ao Bramanismo. A ligação estava na distribuição dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas. Na religião indiana, isso tinha apenas um estreito sentido religioso e político. No Humanitismo, era a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas era ser *um forte*. E isso não era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz. Daí a necessidade de cultivar e fortalecer o músculo. Hércules ou Héracles foi apenas um símbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto, o Quincas Borba observou que o paganismo poderia ter chegado à verdade. Mas o paganismo se diminuiu com a parte galante dos seus mitos. Nada disso vai acontecer com o Humanitismo. Nesta igreja nova não há aventuras fáceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias infantis. O amor, por exemplo, é um sacerdócio, e a reprodução, um ritual. A vida é o maior benefício do universo. Não há mendigo que não prefira a miséria à morte (o que é uma deliciosa influência de Humanitas). Por isso, a transmissão da vida está longe de ser uma ocasião de galanteio. É a hora suprema da missa espiritual. Porque, na verdade, só há uma desgraça: é não nascer.

— Imagine, por exemplo, que eu não tivesse nascido — continuou o Quincas Borba. — É certo que agora eu não teria o prazer de conversar com você, comer esta batata, ir ao teatro. Para dizer tudo numa só palavra: viver. Note que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas. Não, ele é ao mesmo tempo veículo, cocheiro e passageiro. Ele é o próprio Humanitas reduzido; daí a necessidade de adorar a si mesmo. Quer uma prova da superioridade do meu sistema? Olhe a inveja. Não há moralista grego ou turco, cristão ou muçulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O acordo é universal, desde os campos da Idumeia até o alto da Tijuca. Pois bem. Deixe de lado os velhos preconceitos e esqueça as retóricas gastas. Estude a inveja, esse sentimento tão sutil e tão nobre. Cada homem é uma redução de Humanitas. Por isso, é claro que nenhum homem se opõe de verdade a outro, apesar das aparências contrárias. Assim, por exemplo, o carrasco que executa o condenado pode provocar o grito inútil dos poetas. Mas, no fundo, é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas. Digo o mesmo do indivíduo que estripa outro: é uma manifestação da força de Humanitas. Nada impede (e há exemplos) que ele também seja estripado. Se você entendeu bem, vai compreender facilmente que a inveja é apenas uma admiração que luta. E a luta é a grande função do gênero humano. Por isso, todos os sentimentos guerreiros são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude.

Para que negar? Eu estava estupefato. A clareza da exposição, a lógica dos princípios, o rigor das consequências, tudo isso me parecia superiormente grande. Precisei parar a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova. O Quincas Borba mal podia esconder a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato e a mordia com filosófica serenidade. Eu ainda lhe fiz algumas críticas, mas tão fracas que ele não gastou muito tempo para destruí-las.

— Para entender bem o meu sistema — concluiu ele —, nunca se deve esquecer o princípio universal. Ele está repartido e resumido em cada homem. Olhe: a guerra parece uma desgraça, mas é uma operação conveniente. É como se fosse o estalar dos dedos de Humanitas. A fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova. A ela Humanitas submete a própria víscera. Mas não quero outro documento da sublimidade do meu sistema além deste mesmo frango. Ele se alimentou de milho, que foi plantado por um africano, vamos supor, importado de Angola. Esse africano nasceu, cresceu, foi vendido. Um navio o trouxe, um navio construído com madeira cortada no mato por dez ou doze homens. Era levado por velas que oito ou dez homens teceram, sem contar as cordas e outras partes do equipamento náutico. Assim, este frango, que acabo de almoçar, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas. E tudo isso foi feito com o único fim de matar o meu apetite.

Entre o queijo e o café, o Quincas Borba me demonstrou que o seu sistema era a destruição da dor. A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão. Quando a criança é ameaçada por um pau, antes mesmo de ser espancada, fecha os olhos e treme. Essa *predisposição* é que forma a base da ilusão humana, herdada e transmitida. Certamente não basta adotar o sistema para acabar logo com a dor. Mas adotá-lo é indispensável; o resto é a evolução natural das coisas. Quando o homem se convencer bem de que é o próprio Humanitas, basta levar o pensamento até a substância original. Assim ele impede qualquer sensação dolorosa. Mas essa evolução é tão profunda que mal se pode prever para ela um prazo de alguns milhares de anos.

Alguns dias depois, o Quincas Borba leu para mim a sua grande obra. Eram quatro volumes escritos à mão, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume era um tratado político baseado no Humanitismo. Talvez fosse a parte mais chata do sistema, embora escrita com um formidável rigor de lógica. A sociedade seria reorganizada pelo método dele. Nem assim ficavam eliminados a guerra, a insurreição, o simples soco, a facada anônima, a miséria, a fome, as doenças. Mas esses supostos flagelos eram verdadeiros erros do entendimento, porque seriam apenas movimentos externos da substância interior. Não deviam influir sobre o homem, a não ser como simples quebra da monotonia universal. Assim, era claro que a existência deles não impediria a felicidade humana. Mas vamos supor que esses flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro à ideia estreita dos tempos antigos. Mesmo assim, o sistema não ficava destruído, por dois motivos. Primeiro: Humanitas é a substância criadora e absoluta. Por isso, cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em se sacrificar ao princípio de onde descende. Segundo: mesmo assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra. E a terra foi inventada unicamente para o recreio dele, como as estrelas, as brisas, as tâmaras e o ruibarbo.

— Pangloss — dizia-me ele ao fechar o livro — não era tão tolo como Voltaire o pintou.

### Glossário

- **impetuoso**: forte, rápido e sem calma.
- **expansiva**: que cresce e se estende.
- **dispersiva**: que se espalha em muitas partes.
- **personificada**: em forma de pessoa.
- **Bramanismo**: antiga religião da Índia.
- **antecipado**: que veio antes do tempo.
- **galante**: ligado a conquistas amorosas.
- **sacerdócio**: função de padre; trabalho sagrado.
- **troveje**: fale com força e raiva, como um trovão.
- **carrasco**: homem que executa os condenados à morte.
- **estripa**, **estripado**: fere, ferido na barriga, com as tripas arrancadas.
- **estupefato**: muito surpreso, sem saber o que dizer.
- **víscera**: órgão de dentro do corpo, como o estômago.
- **teceram**: fizeram com fios.
- **predisposição**: tendência que existe antes do próprio fato.
- **flagelos**: grandes males, desgraças.
- **ruibarbo**: planta usada como remédio.
- **Pangloss**: personagem de Voltaire que acha que tudo vai bem neste mundo.

## Capítulo CXVIII. A terceira força

A terceira força (veja a primeira linha do capítulo passado)... A terceira força que me chamava ao barulho era a impaciência de brilhar e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão me atraía, as palmas me conquistavam. O luxo, o tumulto, o rufar dos tambores, tudo isso me seduzia. Se a ideia do emplasto me tivesse aparecido nesse tempo, quem sabe? Eu não teria morrido logo e estaria célebre. Mas o emplasto não veio. Veio o desejo de me agitar em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa. *Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls.* Esta máxima de La Bruyère sempre me pareceu um grande disparate. Não há dúvida de que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens. A segunda é a curiosidade. A terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta, a coragem militar, e assim por diante.

### Glossário

- **tumulto**: grande barulho e agitação de muitas pessoas.
- **rufar**: som rápido e repetido dos tambores.
- **emplasto**: remédio que se põe sobre a pele.
- **célebre**: muito conhecido, famoso.
- **Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls**: frase francesa: todo o nosso mal vem de não podermos ficar sós.
- **máxima**: frase curta que diz uma ideia geral sobre a vida.
- **disparate**: ideia sem sentido, bobagem.
- **sociabilidade**: gosto de estar e conviver com outras pessoas.

## Capítulo CXIX. Parêntesis

(Haverá uma crítica tão perversa que possa atribuir a minha opinião sobre La Bruyère à inveja das suas máximas? Evito esse golpe desde já. Copio aqui algumas das que escrevi naquele tempo. Logo depois eu as rasguei, porque não me pareceram dignas de ser impressas. Escrevi-as num período em que a flor amarela do capítulo XXV tinha voltado a abrir; eram bocejos de tédio. Se não acreditam, vejam:

Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria pequeno se todos andassem de carruagem.

Creia em si mesmo; mas nem sempre duvide dos outros.

Não se compreende que um botocudo fure o lábio para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.

Não se irrite se pagarem mal um benefício seu: antes cair das nuvens do que de um terceiro andar.)

### Glossário

- **máximas**: frases curtas que dizem uma ideia geral sobre a vida.
- **flor amarela**: imagem da hipocondria, a tristeza doentia de Brás.
- **bocejos**: atos de abrir a boca por sono ou aborrecimento.
- **tédio**: sensação de aborrecimento, falta de interesse por tudo.
- **cólica**: dor forte na barriga.
- **próximo**: outra pessoa, o semelhante.
- **botocudo**: nome antigo e ofensivo para um indígena que usava enfeite de madeira no lábio.
- **cair das nuvens**: ter uma grande surpresa ruim.

## Capítulo CXX. Compelle intrare

— Não, senhor, agora, quer você queira, quer não, há de casar — disse-me Sabina. — Que belo futuro! Um solteirão sem filhos.

Sem filhos! Eis a flecha secreta. A ideia de ter filhos me deu um susto; o fluido misterioso me percorreu outra vez. Sim, era preciso ser pai. A vida de solteiro podia ter certas vantagens próprias, mas seriam pequenas, e compradas em troca da solidão. Sem filhos! Não; impossível. Decidi aceitar tudo, até mesmo a aliança com o Damasceno. Sem filhos! Naquele tempo eu já tinha grande confiança no Quincas Borba. Por isso fui procurá-lo e lhe contei os movimentos internos da minha paternidade. O filósofo me ouviu com entusiasmo. Declarou que Humanitas se agitava em meu peito. Animou-me a casar. Observou que eram mais alguns convidados que batiam à porta, etc. *Compelle intrare*, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar uma coisa. A parábola do Evangelho era apenas um anúncio do Humanitismo, mal interpretado pelos padres.

### Glossário

- **solteirão**: homem que já não é jovem e nunca se casou.
- **flecha**: arma fina e pontuda; aqui, aquilo que feriu Brás por dentro.
- **fluido misterioso**: sensação estranha que Brás teve ao pensar em ser pai.
- **paternidade**: fato de ser pai; sentimento de pai.
- **aliança**: união entre famílias pelo casamento.
- **Humanitas**: o princípio de tudo, na filosofia de Quincas Borba.
- **Compelle intrare**: frase em latim: "obrigue-os a entrar", palavras de uma parábola de Jesus.
- **parábola**: pequena história que ensina uma lição.

## Capítulo CXXI. Morro abaixo

No fim de três meses, tudo ia às maravilhas. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pai, tudo isso me empurrava para o casamento. A lembrança de Virgília aparecia de vez em quando à porta. Com ela vinha um diabo negro, que me punha um espelho diante da cara. Nesse espelho eu via ao longe Virgília desfeita em lágrimas. Mas vinha outro diabo, cor-de-rosa, com outro espelho. Nele se refletia a figura de Nhã-loló, terna, luminosa, angélica.

Não falo dos anos. Eu não os sentia. Digo mais: eu os joguei fora num certo domingo, quando fui à missa na capela do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu os acompanhava muitas vezes à missa. O morro ainda estava nu de casas, menos o velho palacete do alto, onde ficava a capela. Pois num domingo, ao descer com Nhã-loló pelo braço, aconteceu não sei que fenômeno. Fui deixando aqui dois anos, ali quatro, logo adiante cinco. Assim, quando cheguei embaixo, estava com vinte anos apenas, tão leves como eles tinham sido.

Agora, se querem saber em que circunstâncias o fenômeno aconteceu, basta ler este capítulo até o fim. Estávamos voltando da missa, ela, o pai e eu. No meio do morro encontramos um grupo de homens. O Damasceno, que vinha perto de nós, percebeu o que era e foi na frente, animado. Nós fomos atrás dele. E vimos isto: homens de todas as idades, tamanhos e cores. Uns estavam em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros em sobrecasacas rasgadas. As atitudes eram diversas: uns de cócoras, outros com as mãos apoiadas nos joelhos. Estes estavam sentados em pedras, aqueles encostados ao muro. E todos tinham os olhos fixos no centro, e as almas debruçadas nas pupilas.

— Que é? — perguntou-me Nhã-loló.

Fiz-lhe sinal para se calar. Abri caminho com cuidado, e todos me foram dando espaço, sem que ninguém me visse de verdade. O centro lhes tinha amarrado os olhos. Era uma briga de galos. Vi os dois lutadores, dois galos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue. O peito de um e de outro estava sem penas e vermelho. O cansaço os invadia. Mas lutavam assim mesmo, olhos fixos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquele, vibrantes e furiosos. O Damasceno não sabia de mais nada; o espetáculo eliminou para ele todo o universo. Em vão lhe disse que era hora de descer. Ele não respondia, não ouvia, estava concentrado no duelo. A briga de galos era uma das suas paixões.

Foi nessa ocasião que Nhã-loló me puxou de leve pelo braço e disse para irmos embora. Aceitei o conselho e desci com ela por ali abaixo. Já disse que o morro era então desabitado. Disse também que estávamos voltando da missa. Não lhes disse que chovia; portanto, é claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu abri logo o guarda-sol. Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo.

Ao pé do morro paramos alguns minutos, à espera do Damasceno. Ele veio pouco depois, rodeado dos apostadores, comentando com eles a briga. Um deles, tesoureiro das apostas, distribuía um velho maço de notas de dez tostões. Os vencedores as recebiam duplamente alegres. Quanto aos galos, vinham debaixo do braço dos seus donos. Um deles trazia a crista tão comida e ensanguentada que logo vi nele o vencido. Mas era engano: o vencido era o outro, que não trazia crista nenhuma. Ambos estavam de bico aberto, respirando com dificuldade, exaustos. Os apostadores, ao contrário, vinham alegres, apesar das fortes emoções da luta. Contavam a vida dos lutadores e lembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadíssima.

### Glossário

- **desfeita em lágrimas**: chorando muito.
- **palacete**: casa grande e elegante.
- **em mangas de camisa**: sem paletó, só de camisa.
- **sobrecasacas**: paletós longos e elegantes de homem, usados na época.
- **de cócoras**: agachado, com as pernas dobradas e o corpo perto do chão.
- **pupilas**: pontos negros no centro dos olhos.
- **esporão**: ponta dura na perna do galo, usada para ferir.
- **cristas**: partes vermelhas de carne no alto da cabeça do galo.
- **desabitado**: sem moradores.
- **maço**: pacote de papéis ou de notas presos juntos.
- **tostões**: moedas antigas de pouco valor.
- **ensanguentada**: coberta de sangue.
- **proezas**: atos de coragem ou de grande habilidade.
- **vexado**: envergonhado.
- **vexadíssima**: muito envergonhada.

## Capítulo CXXII. Uma intenção mui fina

O que vexava Nhã-loló era o pai. A facilidade com que ele se misturou com os apostadores mostrava antigos costumes e afinidades sociais. Nhã-loló chegou a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notável a diferença que ela fazia de si mesma. Ela se estudava e me estudava. A vida elegante e polida a atraía, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhã-loló observava, imitava, adivinhava. Ao mesmo tempo, fazia esforço para esconder a inferioridade da família. Naquele dia, porém, o comportamento do pai foi tão forte que a deixou muito triste. Então tentei distraí-la do assunto com muitas brincadeiras e ditos de bom tom. Foram esforços vãos, que já não a alegravam. O abatimento era tão profundo, o desânimo tão expressivo, que cheguei a lhe atribuir uma intenção clara. Pensei que ela queria separar, no meu espírito, a sua causa da causa do pai. Este sentimento me pareceu de grande elevação; era mais uma afinidade entre nós.

— Não há remédio — disse eu comigo —, vou arrancar esta flor a este pântano.

### Glossário

- **mui**: forma antiga de "muito".
- **vexava**: envergonhava.
- **apostadores**: pessoas que arriscam dinheiro no resultado de uma luta ou de um jogo.
- **afinidades**: coisas em comum entre pessoas; semelhanças.
- **sogro**: pai da esposa ou do marido.
- **indigno**: que não merece respeito.
- **de bom tom**: elegante, próprio de pessoas educadas.
- **abatimento**: tristeza profunda, falta de força.
- **pântano**: terreno cheio de água parada e lama.

## Capítulo CXXIII. O verdadeiro Cotrim

Eu amava a harmonia da família. Por isso, apesar dos meus quarenta e tantos anos, resolvi não tratar do casamento sem falar primeiro com o Cotrim. Ele me ouviu e respondeu com seriedade que não tinha opinião em negócios de parentes seus. Se elogiasse as raras qualidades de Nhã-loló, podiam supor nele algum interesse; por isso se calava. Mais: tinha certeza de que a sobrinha sentia por mim verdadeira paixão. Mas, se ela o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não fazia isso por nenhum ódio. Apreciava as minhas boas qualidades e não se cansava de elogiá-las, como era justo. Quanto a Nhã-loló, jamais negaria que era uma noiva excelente. Mas daí a aconselhar o casamento havia um abismo.

— Lavo inteiramente as mãos — concluiu ele.

— Mas outro dia você achava que eu devia casar quanto antes...

— Isso é outro negócio. Acho que é indispensável casar, principalmente para quem tem ambições políticas. Saiba que, na política, o celibato é um atraso. Agora, quanto à noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é da minha honra. Parece-me que Sabina foi além e lhe fez certas confidências, segundo me disse. Mas, em todo caso, ela não é tia de sangue de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...

— Diga.

— Não; não digo nada.

Talvez o escrúpulo do Cotrim pareça excessivo a quem não souber que ele tinha um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário do meu pai. Reconheço que era um modelo. Acusavam-no de avareza, e creio que tinham razão. Mas a avareza é apenas o exagero de uma virtude. E as virtudes devem ser como os orçamentos: é melhor o saldo que o *deficit*. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato citado nesse ponto era mandar com frequência escravos ao calabouço, de onde eles desciam escorrendo sangue. Mas ele só mandava os perversos e os fugitivos. Além disso, tinha sido contrabandista de escravos durante muito tempo. Assim, tinha se habituado, de certo modo, ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio pedia. E não se pode honestamente atribuir à natureza original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos piedosos estava no seu amor aos filhos. Estava também na dor que sofreu quando Sara morreu, alguns meses depois. É uma prova irrefutável, acho eu; e não é a única. Ele era tesoureiro de uma confraria e irmão de várias irmandades. Era até irmão remido de uma delas, o que não combina muito com a fama de avareza. Verdade é que o benefício não caiu no chão. A irmandade, de que ele tinha sido juiz, mandou fazer o seu retrato a óleo. Não era perfeito, é certo. Tinha, por exemplo, a mania de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava. É uma mania condenável ou pouco louvável, concordo. Mas ele se desculpava dizendo que as boas ações eram contagiosas quando públicas. É uma razão que tem algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que era esse o seu objetivo. Ele praticava esses benefícios, de vez em quando, apenas para despertar a filantropia dos outros. E, se era essa a intenção, é preciso confessar que a publicidade se tornava uma condição *sine qua non*. Em suma, podia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém.

### Glossário

- **celibato**: estado de quem não se casa.
- **avareza**: amor exagerado ao dinheiro; vício de quem não quer gastar.
- **saldo**: dinheiro que sobra numa conta.
- **deficit**: dinheiro que falta numa conta.
- **calabouço**: prisão escura; aqui, lugar onde os escravos eram presos e castigados.
- **contrabandista**: pessoa que faz comércio proibido por lei.
- **confraria**, **irmandades**: associações religiosas de pessoas leigas.
- **irmão remido**: membro que pagou uma quantia grande de uma só vez e ficou livre das contribuições.
- **sine qua non**: expressão latina: condição sem a qual uma coisa não existe.
- **real**: moeda antiga de valor muito pequeno.

## Capítulo CXXIV. Vá de intermédio

O que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Mesmo assim, se eu não escrevesse este capítulo, o leitor sofreria um forte abalo, muito prejudicial ao efeito do livro. Saltar de um retrato a um epitáfio pode ser real e comum. Mas o leitor só se refugia no livro para escapar da vida. Não digo que este pensamento seja meu. Digo que há nele uma dose de verdade e que, pelo menos, a forma é pitoresca. E repito: não é meu.

Vá de intermédio, e contemos a este propósito uma anedota. Foi no tempo da minha vida parlamentar. Éramos cinco, falávamos de tudo e de nada, e acabamos tocando nos negócios do Rio da Prata. Então um disse:

— O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra.

Respondi que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relógio, o terceiro tamborilou no joelho. O quarto deu uns passos pela sala, o quinto era eu. Mas continuei a falar. Disse que essa ideia, inteiramente justa, não era minha, e sim de Maquiavel. Esse detalhe levou o primeiro a não coçar o nariz e o segundo a não consultar o relógio. Levou o terceiro a não tamborilar no joelho e o quarto a não dar passos. E todos me rodearam e me pediram que repetisse o dito. Repeti, e eles ficavam encantados, e balançavam a cabeça aprovando, saboreando, decorando. Isso me agradou, porque sempre fui amador de ideias justas. Mas vamos ao epitáfio.

### Capítulo CXXV. Epitáfio

AQUI JAZ

D. EULÁLIA DAMASCENA DE BRITO

MORTA

AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE

ORAI POR ELA!

### Glossário

- **intermédio**: parte que fica entre duas outras; pausa.
- **abalo**: choque forte, emoção violenta.
- **epitáfio**: texto escrito num túmulo.
- **pitoresca**: curiosa e cheia de cor, como uma pintura.
- **Rio da Prata**: região do sul da América onde o Brasil tinha negócios e guerras.
- **nervo da guerra**: aquilo que dá força à guerra.
- **tamborilou**, **tamborilar**: bateu, bater com os dedos, como num tambor.
- **jaz**: está enterrado.
- **orai**: forma antiga de "rezem".

## Capítulo CXXVI. Desconsolação

O epitáfio diz tudo. Vale mais do que se eu lhes contasse a doença de Nhã-loló, a morte, o desespero da família, o enterro. Ficam sabendo que ela morreu. Acrescento que foi na ocasião da primeira chegada da febre amarela. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o túmulo e me despedi triste, mas sem lágrimas. Conclui que talvez não a amasse deveras.

Vejam agora a que excessos pode levar um descuido. Doeu-me um pouco a cegueira da epidemia. Matando à direita e à esquerda, levou também uma jovem dama que ia ser minha mulher. Não cheguei a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquela morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. O Quincas Borba, porém, me explicou que as epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas para certo número de indivíduos. Fez-me notar que, por mais horrível que fosse o espetáculo, havia uma vantagem de muito peso. Era a sobrevivência do maior número. Chegou a me perguntar uma coisa. No meio do luto geral, eu não sentia algum secreto encanto por ter escapado das garras da peste? Mas esta pergunta era tão insensata que ficou sem resposta.

Se não contei a morte, também não conto a missa do sétimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruína. Quinze dias depois estive com ele. Continuava inconsolável. Dizia que a grande dor com que Deus o castigou tinha sido ainda aumentada pela que os homens lhe causaram. Não me disse mais nada. Três semanas depois voltou ao assunto e então me confessou uma coisa. No meio do desastre irreparável, ele quis ter a consolação da presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e três quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam à cova o cadáver da sua querida filha. E ele tinha mandado oitenta convites. Observei-lhe que as perdas eram tão gerais que se podia bem desculpar essa aparente falta de atenção. O Damasceno balançava a cabeça de um modo incrédulo e triste.

— Qual! — gemia ele. — Abandonaram-me.

O Cotrim, que estava presente:

— Vieram os que de fato se interessam por você e por nós. Os oitenta viriam por formalidade. Falariam da inércia do governo, dos remédios milagrosos dos boticários, do preço das casas, ou uns dos outros...

O Damasceno ouviu calado, balançou outra vez a cabeça e suspirou:

— Mas viessem!

### Glossário

- **febre amarela**: doença grave transmitida por mosquito.
- **deveras**: de verdade.
- **epidemia**: doença que ataca muitas pessoas ao mesmo tempo.
- **desastrosas**: que causam grande mal.
- **peste**: doença grave que mata muita gente.
- **missa do sétimo dia**: missa rezada sete dias depois da morte de alguém.
- **inconsolável**: que ninguém consegue consolar.
- **irreparável**: que não se pode consertar.
- **incrédulo**: de quem não acredita.
- **Qual!**: palavra que mostra que a pessoa não acredita no que ouviu.
- **gemia**: falava com voz de dor.
- **formalidade**: ato feito só para cumprir um costume, sem sentimento.
- **inércia**: falta de ação.
- **boticários**: pessoas que preparavam e vendiam remédios; farmacêuticos antigos.
- **Mas viessem!**: mesmo assim, deviam ter vindo.

## Capítulo CXXVII. Formalidade

Grande coisa é ter recebido do céu uma partícula da sabedoria! É o dom de achar as relações entre as coisas, a faculdade de compará-las e o talento de concluir. Eu tive essa distinção do espírito; ainda agora a agradeço do fundo do meu sepulcro.

De fato, um homem comum que ouvisse a última palavra do Damasceno não se lembraria dela depois. Não se lembraria quando, tempos mais tarde, olhasse para uma gravura de seis damas turcas. Pois eu me lembrei. Eram seis damas de Constantinopla, modernas, em roupas de rua, com o rosto coberto. Não estava coberto de outra maneira, com um pano espesso que as cobrisse de verdade. Estava coberto com um véu finíssimo, que fingia descobrir só os olhos e na realidade descobria o rosto inteiro. E achei graça nessa esperteza da faceirice muçulmana. Assim ela esconde o rosto — e cumpre o costume —, mas não o esconde — e divulga a beleza. Aparentemente, não há nada entre as damas turcas e o Damasceno. Mas se você é um espírito profundo e penetrante (e duvido muito que me negue isso), vai compreender. Nos dois casos surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social...

Amável Formalidade, você é, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações. Você é a medianeira entre os homens, o vínculo entre a terra e o céu. Você enxuga as lágrimas de um pai, você conquista a indulgência de um Profeta. E se a dor adormece, e se a consciência se acomoda, a quem deverão esse imenso benefício, senão a você? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma. Mas a indiferença que cumprimenta deixa nela uma impressão deliciosa. A razão é que, ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata. A letra dá vida. O espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação e, portanto, de luta e de morte. Viva você, amável Formalidade, para o sossego do Damasceno e a glória de Muhammed.

### Glossário

- **sepulcro**: túmulo.
- **gravura**: imagem impressa num papel.
- **faceirice**: vaidade de quem quer ser olhado e admirado.
- **bordão**: bastão em que a pessoa se apoia para andar.
- **bálsamo**: remédio que acalma a dor.
- **medianeira**: pessoa que fica entre duas outras para uni-las.
- **indulgência**: perdão, paciência com os erros dos outros.
- **a letra**: o que está escrito, as palavras exatas; "a letra mata e o espírito dá vida" é uma frase da Bíblia.

## Capítulo CXXVIII. Na Câmara

E notem bem que vi a gravura turca dois anos depois das palavras de Damasceno. Vi-a na Câmara dos Deputados, no meio de um grande barulho. Enquanto isso, um deputado discutia um parecer da comissão de orçamento, e eu também era deputado. Para quem leu este livro, é desnecessário dizer como eu estava satisfeito; para os outros, é igualmente inútil. Eu era deputado e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira. De um lado, um colega contava uma anedota. Do outro, um colega desenhava a lápis, nas costas de um envelope, o perfil do orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida nos trouxe à mesma praia, como duas garrafas de náufragos. Ele continha o seu ressentimento, eu devia conter o meu remorso. Uso esta forma suspensiva, de dúvida ou condicional, com um fim. Quero dizer que, na verdade, eu não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.

### Glossário

- **gravura**: imagem impressa num papel.
- **parecer**: opinião escrita sobre um assunto, dada por pessoas encarregadas de estudá-lo.
- **comissão de orçamento**: grupo de deputados que estuda as contas do governo.
- **recostado**: sentado com o corpo inclinado para trás.
- **orador**: pessoa que faz um discurso.
- **náufragos**: pessoas que sobreviveram ao afundamento de um navio.
- **ressentimento**: raiva que fica por causa de uma ofensa antiga.
- **remorso**: dor na consciência por um mal que se fez.

## Capítulo CXXIX. Sem remorsos

Não tinha remorsos. Se possuísse os aparelhos próprios, incluiria neste livro uma página de química. Isso porque decomporia o remorso até os seus elementos mais simples, para saber uma coisa de modo positivo e conclusivo. Por que razão Aquiles passeia à roda de Troia o cadáver do adversário? E por que lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue? Mas eu não tenho aparelhos químicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Contudo, se tenho de acabar este capítulo, direi que não queria ser Aquiles nem lady Macbeth. Se tivesse de ser alguma coisa, antes Aquiles, antes passear triunfante o cadáver do que a mancha. No fim, ouvem-se as súplicas de Príamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e literária. Eu não ouvia as súplicas de Príamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.

### Glossário

- **remorsos**: dores na consciência por um mal que se fez.
- **decomporia**: separaria uma coisa nas suas partes.
- **Aquiles**: herói grego que arrastou o corpo do inimigo Heitor em volta de Troia.
- **Troia**: cidade antiga da guerra contada por Homero.
- **lady Macbeth**: personagem de Shakespeare que anda de noite e vê sangue nas mãos depois de um crime.
- **ministro de Estado**: membro do governo que chefia uma parte da administração.
- **triunfante**: alegre e orgulhoso pela vitória.
- **súplicas**: pedidos feitos com humildade e dor.
- **Príamo**: rei de Troia, pai de Heitor; pediu a Aquiles o corpo do filho.

## Capítulo CXXX. Para intercalar no cap. CXXIX

A primeira vez que pude falar com Virgília, depois da presidência, foi num baile em 1855. Ela usava um soberbo vestido de gorgorão azul e mostrava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira idade; ao contrário. Mas ainda estava bela, de uma beleza de outono, realçada pela noite. Lembro que falamos muito; e lembro que não falamos de nada do passado. Tudo ficava subentendido. Uma frase distante, vaga, ou então um olhar, e mais nada. Pouco depois ela se retirou. Fui vê-la descer as escadas. Não sei por que fenômeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os filólogos essa frase bárbara), murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva:

— Magnífica!

Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do cap. CXXIX.

### Glossário

- **intercalar**: colocar uma coisa entre duas outras.
- **presidência**: aqui, o tempo em que Lobo Neves governou uma província.
- **soberbo**: muito bonito, magnífico.
- **gorgorão**: tecido forte de seda com linhas em relevo.
- **realçada**: que ficou mais visível, mais bonita.
- **subentendido**: compreendido sem ser dito.
- **ventriloquismo**: arte de falar sem mexer os lábios, como se a voz viesse de outro lugar.
- **filólogos**: pessoas que estudam a língua e os textos.
- **retrospectiva**: que olha para o passado.
- **oração**: aqui, parte de uma frase.

## Capítulo CXXXI. De uma calúnia

Eu acabava de dizer aquilo pelo processo ventríloquo-cerebral, o que era simples opinião e não remorso. Nesse momento, senti que alguém me punha a mão no ombro. Eu me voltei. Era um antigo companheiro, oficial de marinha, alegre, um pouco atrevido nas maneiras. Ele sorriu com malícia e me disse:

— Seu maganão! Recordações do passado, hein?

— Viva o passado!

— Você naturalmente foi reintegrado no emprego.

— Salta, pelintra! — disse eu, ameaçando-o com o dedo.

Confesso que este diálogo era uma indiscrição, principalmente a última resposta. E confesso isso com tanto mais prazer porque as mulheres é que têm fama de indiscretas. Não quero acabar o livro sem corrigir essa ideia do espírito humano. Em assuntos de aventura amorosa, encontrei homens que sorriam, ou negavam com dificuldade, de um modo frio, com monossílabos, etc. Já as suas parceiras não davam sinal de nada, e jurariam pelos Santos Evangelhos que era tudo uma calúnia. A razão desta diferença é que a mulher se entrega por amor (salvo a hipótese do cap. CI e outras). Pode ser o amor-paixão de Stendhal, ou o amor puramente físico de algumas damas romanas, por exemplo. Ou de polinésias, lapônias, cafres, e talvez de outras raças civilizadas. Mas o homem, falo do homem de uma sociedade culta e elegante, junta a sua vaidade ao outro sentimento. Além disso (e falo sempre dos casos proibidos), a mulher que ama outro homem sente que falta a um dever. Portanto, tem de fingir com arte maior, tem de refinar a traição. Já o homem se sente causa da infração e vencedor de outro homem. Fica legitimamente orgulhoso e logo passa a outro sentimento, menos áspero e menos secreto. É essa doce presunção, que é a transpiração luminosa do mérito.

Mas, seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar uma coisa escrita nesta página, para uso dos séculos. A indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens. Em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulcro. Muitas vezes se perdem por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares. É por isso que uma grande dama e fino espírito, a rainha de Navarra, usou em algum lugar uma metáfora. Queria dizer que toda aventura amorosa tem de se descobrir, mais tarde ou mais cedo. A metáfora é esta: «não há cachorrinho tão treinado que no fim não ouçamos o seu latido.»

### Glossário

- **calúnia**: mentira que se diz para prejudicar alguém.
- **ventríloquo-cerebral**: brincadeira do autor: a voz parece sair do cérebro, como a de quem fala sem mexer os lábios.
- **malícia**: intenção de zombar ou de pensar mal.
- **maganão**: homem alegre e esperto, conquistador.
- **reintegrado no emprego**: de volta ao antigo lugar; aqui, uma brincadeira sobre o antigo amor.
- **pelintra**: sujeito atrevido e sem valor; aqui, dito de brincadeira.
- **indiscrição**: ato de contar o que devia ficar em segredo.
- **indiscretas**: que contam o que devia ficar em segredo.
- **monossílabos**: palavras de uma sílaba só; aqui, respostas muito curtas.
- **polinésias**: mulheres das ilhas do oceano Pacífico.
- **lapônias**: mulheres do extremo norte da Europa.
- **cafres**: nome antigo e ofensivo para povos africanos.
- **civilizadas**: que vivem com leis, costumes e cultura.
- **refinar**: tornar mais fino, mais perfeito.
- **legitimamente**: com razão, com direito.
- **presunção**: ideia exagerada do próprio valor.
- **transpiração**: suor; aqui, o que sai de dentro de uma pessoa.
- **burla**: engano, mentira.
- **sepulcro**: túmulo; aqui, quem guarda bem um segredo.
- **inquietas**: nervosas, sem calma.
- **latido**: a voz do cão.

## Capítulo CXXXII. Que não é sério

Citando o dito da rainha de Navarra, lembro-me de um costume. Entre o nosso povo, uma pessoa que vê outra zangada costuma fazer uma pergunta. Ela diz: «Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» É como se dissesse: «quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capítulo não é sério.

### Glossário

- **dito**: frase que alguém disse e que as pessoas repetem.
- **rainha de Navarra**: rainha e escritora francesa do século XVI.
- **zangada**: com raiva, de mau humor.
- **Gentes**: palavra popular que mostra surpresa.
- **cachorrinhos**: cães pequenos; aqui, os amores escondidos.

## Capítulo CXXXIII. O princípio de Helvétius

Estávamos no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confissão dos meus amores com Virgília. E aqui eu corrijo o princípio de Helvétius, ou melhor, eu o explico. O meu interesse era ficar calado. Confirmar a suspeita de uma coisa antiga seria provocar algum ódio adormecido. Seria também dar origem a um escândalo. No mínimo, eu ganharia a fama de indiscreto. Esse era o interesse. Se entendemos o princípio de Helvétius de modo superficial, era isso que eu devia ter feito.

Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina. Antes daquele interesse de *segurança*, havia outro, o do *desvanecimento*, que é mais íntimo e mais imediato. O primeiro era reflexivo e supunha um silogismo anterior. O segundo era espontâneo e instintivo, e vinha das entranhas do sujeito. Enfim, o primeiro tinha um efeito distante, e o segundo, um efeito próximo. Conclusão: o princípio de Helvétius é verdadeiro no meu caso. A diferença é que o interesse não era o aparente, mas o escondido.

### Glossário

- **princípio de Helvétius**: ideia do filósofo francês Helvétius: as pessoas agem sempre pelo próprio interesse.
- **arrancou**: tirou com esforço; aqui, obrigou alguém a contar um segredo.
- **indiscreto**: quem conta o que devia guardar em segredo.
- **indiscrição**: ato de contar o que devia ficar em segredo.
- **desvanecimento**: orgulho, vaidade, prazer de se mostrar.
- **reflexivo**: que vem do pensamento, não do impulso.
- **silogismo**: raciocínio com duas afirmações e uma conclusão.
- **entranhas**: a parte mais funda e escondida de uma pessoa.

## Capítulo CXXXIV. Cinquenta anos

Ainda não disse a vocês, mas digo agora. Quando Virgília descia a escada, e o oficial de marinha me tocava no ombro, eu tinha cinquenta anos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo, ou ao menos a melhor parte dela. Era uma parte cheia de prazeres, de agitações e de sustos, coberta de dissimulação e falsidade. Mas era enfim a melhor, se falarmos a linguagem comum. Se usarmos outra linguagem mais sublime, porém, a melhor parte foi a que restou. Terei a honra de dizer isso a vocês nas poucas páginas deste livro.

Cinquenta anos! Não era preciso confessar. Já se percebe que o meu estilo não é tão ágil como nos primeiros dias. Naquela ocasião, acabou a conversa com o oficial de marinha, e ele vestiu a capa e saiu. Confesso que fiquei um pouco triste. Voltei à sala e tive a ideia de dançar uma polca. Quis me embriagar com as luzes, as flores, os cristais, os olhos bonitos. Quis me embriagar também com o barulho baixo e leve das conversas particulares. E não me arrependo: rejuvenesci. Mas meia hora depois, às quatro da manhã, saí do baile. E o que fui encontrar no fundo do carro? Os meus cinquenta anos. Lá estavam eles, os teimosos. Não estavam duros de frio, nem reumáticos. Mas cochilavam o seu cansaço, um pouco desejosos de cama e de repouso. E vejam até onde pode ir a imaginação de um homem com sono! Pareceu-me ouvir então um morcego, pousado no teto do carro:

— Sr. Brás Cubas, a volta à juventude estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas; enfim, nos outros.

### Glossário

- **dissimulação**: ato de esconder o que se pensa ou sente.
- **sublime**: muito elevado, nobre.
- **ágil**: leve, rápido.
- **polca**: dança animada, muito comum naquela época.
- **rejuvenesci**: fiquei mais jovem, senti-me jovem de novo.
- **teimosos**: que não desistem, que não vão embora.
- **reumáticos**: que sofrem de dores nas articulações.
- **cochilavam**: dormiam um sono leve.

## Capítulo CXXXV. Oblivion

E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas páginas, ela fecha o livro e não lê o resto. Para ela, acabou o interesse da minha vida, que era o amor. Cinquenta anos! Ainda não é a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez anos, e eu entenderei o que dizia um inglês. Entenderei «o que é não achar mais quem se lembre dos meus pais». Entenderei «de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO.»

Esse nome vai em letras grandes. OBLIVION! É justo dar todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno. Ele é um convidado da última hora, mas é um convidado certo. Sabe disso a dama que brilhou no começo do reinado atual. E sabe com mais dor aquela que mostrou as suas graças em flor sob o ministério Paraná. É que esta está mais perto do triunfo, e já sente que outras tomaram o carro dela. Então, se ela é digna de si mesma, não teima em acordar a lembrança morta ou quase morta. Não procura no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem. Naquele tempo, eram outros os que começavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. *Tempora mutantur.* E ela vai compreender que este turbilhão é assim mesmo. Ele leva as folhas do mato e os trapos do caminho, sem exceção nem piedade. E se ela tiver um pouco de filosofia, não vai invejar as que tomaram o carro dela. Vai ter pena delas, porque também elas hão de ser tiradas do carro pelo estribeiro OBLIVION. É um espetáculo cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.

### Capítulo CXXXVI. Inutilidade

Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.

### Glossário

- **invalidez**: estado de quem não pode mais trabalhar ou agir por causa da idade ou da doença.
- **OBLIVION**: palavra inglesa: esquecimento.
- **ministério Paraná**: governo do marquês do Paraná, na década de 1850.
- **graças**: beleza e encantos de uma pessoa.
- **Tempora mutantur**: expressão latina: os tempos mudam.
- **turbilhão**: vento forte que gira e leva tudo.
- **trapos**: pedaços de pano velho.
- **estribeiro**: homem que cuidava dos cavalos e dos carros de um senhor.

## Capítulo CXXXVII. A barretina

E daí, não; esse capítulo resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba. Acrescentei que me sentia abatido, e mil outras coisas tristes. Mas esse filósofo, com o alto juízo que tinha, gritou que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.

— Meu caro Brás Cubas, não te deixes vencer por esses vapores. Que diabo! É preciso ser homem! Ser forte! Lutar! Vencer! Brilhar! Influir! Dominar! Cinquenta anos é a idade da ciência e do governo. Ânimo, Brás Cubas; não me sejas bobo. Que tens tu com essa sequência de ruína a ruína ou de flor a flor? Trata de saborear a vida. E fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas. Ele se deita na margem do rio só para lamentar o curso sem fim das águas. O ofício delas é não parar nunca. Acomoda-te à lei, e trata de aproveitá-la.

Vê-se nas menores coisas o valor da autoridade de um grande filósofo. As palavras do Quincas Borba tiveram o poder de sacudir a apatia moral e mental em que eu andava. Vamos lá; sejamos governo. Vocês acreditam, pessoas do futuro? Até então eu não tinha entrado nos grandes debates. Eu cortejava a pasta com reverências, chás, comissões e votos; e a pasta não vinha. Era urgente tomar conta da tribuna.

Comecei devagar. Três dias depois, discutia-se o orçamento da justiça. Aproveitei a ocasião para fazer modestamente uma pergunta ao ministro. Perguntei se ele não achava útil diminuir a barretina da guarda nacional. O objeto da pergunta não tinha grande alcance. Mesmo assim, demonstrei que ele não era indigno das reflexões de um homem de Estado. Citei Filopêmen, que mandou trocar os escudos das suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores. Mandou trocar também as lanças, que eram leves demais. E a história não achou que esse fato diminuísse a seriedade das suas páginas.

O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo, não só porque eram deselegantes, mas também porque eram anti-higiênicas. Nas paradas, ao sol, o excesso de calor que elas produziam podia ser fatal. Um dos preceitos de Hipócrates era manter a cabeça fresca. Por isso, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples respeito ao uniforme, a arriscar a saúde e a vida. E assim ele arriscava também o futuro da família. A Câmara e o governo deviam se lembrar de que a guarda nacional protegia a liberdade e a independência. O cidadão era chamado a um serviço gratuito, frequente e penoso. Ele tinha direito a um peso menor: deviam decretar um uniforme leve e cômodo. Além disso, a barretina, por seu peso, abaixava a cabeça dos cidadãos. E a pátria precisava de cidadãos que pudessem levantar a testa, altivos e serenos, diante do poder. E concluí com esta ideia: o chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é árvore de cemitério. A palmeira, reta e firme, é árvore do deserto, das praças e dos jardins.

A impressão deste discurso foi variada. Quanto à forma, ao entusiasmo da eloquência, à parte literária e filosófica, a opinião foi uma só. Todos me disseram que o discurso era completo. Disseram que ninguém ainda tinha conseguido tirar tantas ideias de uma barretina. Mas muitos consideraram lamentável a parte política. Alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar. Enfim, vieram me dizer que outros já me colocavam na oposição. Nesse número entravam os oposicionistas da Câmara. Eles chegaram a sugerir que seria bom apresentar uma moção de desconfiança.

Rejeitei com energia essa interpretação, que era errada e também caluniosa, porque todos sabiam que eu apoiava o gabinete. Acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina não era tão grande. Podia esperar alguns anos. Em todo caso, eu aceitaria um corte menor, de três quartos de polegada ou menos. Enfim, mesmo que a minha ideia não fosse adotada, bastava-me ter apresentado a ideia no parlamento.

O Quincas Borba, porém, não fez nenhuma restrição.

— Não sou homem político — disse ele ao jantar. — Não sei se agiste bem ou mal; sei que fizeste um excelente discurso.

E então ele apontou as partes mais importantes, as belas imagens, os argumentos fortes. Fez isso com aquela moderação no elogio que fica tão bem a um grande filósofo. Depois, tomou o assunto para si. Atacou a barretina com tanta força e lucidez que acabou me convencendo, de fato, do perigo dela.

### Glossário

- **barretina**: chapéu alto de militar.
- **guarda nacional**: força de cidadãos armados no Império.
- **choramingas**: pessoa que se queixa e chora por tudo.
- **pasta**: cargo de ministro.
- **tribuna**: lugar alto de onde os deputados falam; aqui, o direito de discursar.
- **moção de desconfiança**: proposta dos deputados contra o governo.
- **gabinete**: o grupo de ministros que governa.
- **polegada**: antiga medida de comprimento, de pouco mais de dois centímetros e meio.

## Capítulo CXXXVIII. A um crítico

Meu caro crítico,

Algumas páginas atrás, eu disse que tinha cinquenta anos. E acrescentei: «Já se percebe que o meu estilo não é tão ágil como nos primeiros dias.» Talvez você ache esta frase incompreensível, sabendo do meu estado atual. Mas eu chamo a sua atenção para a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer não é que eu esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida tenho a sensação correspondente. Valha-me Deus! É preciso explicar tudo.

### Capítulo CXXXIX. De como não fui ministro de Estado

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### Glossário

- **crítico**: pessoa que escreve opiniões sobre livros.
- **ágil**: leve, rápido.
- **incompreensível**: que não se pode entender.
- **sutileza**: ideia fina, difícil de perceber.
- **narração**: ato de contar uma história.
- **correspondente**: que combina com aquele momento.
- **Valha-me Deus!**: expressão de impaciência: "Deus me ajude!".
- **ministro de Estado**: membro do governo, chefe de uma área do país.

## Capítulo CXL. Que explica o anterior

Há coisas que melhor se dizem calando; é o caso da matéria do capítulo anterior. Os ambiciosos fracassados podem entendê-lo. Alguns dizem que a paixão do poder é a mais forte de todas. Então imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira na Câmara dos Deputados. Todas as minhas esperanças iam embora; a minha carreira política terminava. E notem que o Quincas Borba, por induções filosóficas que fez, pensou outra coisa. Achou que a minha ambição não era a verdadeira paixão do poder, mas um capricho, um desejo de me divertir. Na opinião dele, esse sentimento não é mais profundo que o outro, mas incomoda muito mais. Isso porque ele se parece com o amor que as mulheres têm pelas rendas e pelos enfeites de cabeça. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava ele, são queimados pela paixão do poder. Por isso mesmo chegam lá à força, pela escada da direita ou pela da esquerda. O meu sentimento não era assim. Ele não tem a mesma força, e por isso não tem a mesma certeza do resultado. Daí vêm a maior aflição, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...

— Vai para o diabo com o teu Humanitismo — interrompi. — Estou farto de filosofias que não me levam a coisa nenhuma.

A dureza da interrupção, diante de um filósofo tão grande, era o mesmo que um desrespeito. Mas ele mesmo desculpou a irritação com que lhe falei. Trouxeram-nos café. Era uma hora da tarde, e estávamos na minha sala de estudo. Era uma bela sala, que dava para o fundo da chácara. Havia bons livros e objetos de arte. Entre eles havia um Voltaire, um Voltaire de bronze. Naquele momento, ele parecia acentuar o risinho de sarcasmo com que me olhava, o ladrão. As cadeiras eram excelentes. Lá fora havia sol, um grande sol. O Quincas Borba, não sei se por brincadeira ou por poesia, o chamou de um dos ministros da natureza. Corria um vento fresco, e o céu estava nitidamente azul. Eram três janelas, e de cada uma pendia uma gaiola com pássaros. Eles cantavam as suas óperas rústicas.

Tudo parecia uma conspiração das coisas contra o homem. Eu estava na *minha* sala, olhando para a *minha* chácara, sentado na *minha* cadeira. Ouvia os *meus* pássaros, ao pé dos *meus* livros, iluminado pelo *meu* sol. Mesmo assim, não conseguia me curar das saudades daquela outra cadeira, que não era minha.

### Glossário

- **abatimento**: tristeza e falta de força.
- **induções**: conclusões tiradas de fatos observados.
- **capricho**: desejo passageiro, vontade sem razão séria.
- **rendas**: tecidos finos e delicados, usados como enfeite.
- **chácara**: casa com terreno e árvores.
- **sarcasmo**: ironia dura, que zomba de alguém.
- **Voltaire**: escritor francês famoso pela sua ironia.
- **rústicas**: simples, do campo.

## Capítulo CXLI. Os cães

— Mas, enfim, que pretendes fazer agora? — perguntou o Quincas Borba, indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas.

— Não sei. Vou me enfiar na Tijuca, fugir dos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.

— Nada! — interrompeu o Quincas Borba, com um gesto de indignação.

Para me distrair, ele me convidou a sair. Saímos para os lados do Engenho Velho. Íamos a pé, filosofando sobre as coisas. Nunca vou esquecer o benefício desse passeio, que me devolveu a calma e a força. A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Ele me disse que eu não podia fugir do combate. Se me fechavam a tribuna, eu devia abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada. Mostrou assim que a língua filosófica podia, uma vez ou outra, se renovar na gíria do povo.

— Funda um jornal — disse ele — e «desmancha toda esta igrejinha.»

— Magnífica ideia! Vou fundar um jornal, vou arrasá-los, vou...

— Lutar. Podes arrasá-los ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.

Pouco depois encontramos uma briga de cães. Aos olhos de um homem vulgar, esse fato não teria valor. O Quincas Borba me fez parar e observar os cães. Eram dois. Ele notou que ao pé deles estava um osso, motivo da guerra. E não deixou de chamar a minha atenção para um detalhe: o osso não tinha carne. Um simples osso nu. Os cães se mordiam e rosnavam, com fúria nos olhos... O Quincas Borba pôs a bengala debaixo do braço, encostou o queixo no castão e parecia em êxtase.

— Que belo que isto é! — dizia ele de vez em quando.

Quis arrancá-lo dali, mas não pude. Ele estava preso ao chão. Só voltou a andar quando a briga acabou inteiramente. Um dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome para outro lugar. Notei que ele ficou sinceramente alegre, embora contivesse a alegria, como convinha a um grande filósofo. Ele me fez observar a beleza do espetáculo e lembrou o objeto da luta. Concluiu que os cães tinham fome. Mas a falta de comida não era nada para os efeitos gerais da filosofia. Também não deixou de lembrar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais grandioso. Lá, são as criaturas humanas que disputam com os cães os ossos e outras comidas menos apetitosas. Essa luta se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem. Ela traz toda a astúcia acumulada que os séculos lhe deram, etc.

### Glossário

- **parapeito**: parte baixa da janela, onde se pode apoiar algo.
- **cordial**: bebida que dá forças e ânimo.
- **tribuna**: lugar alto de onde os deputados falam; aqui, a carreira de deputado.
- **gíria**: linguagem popular, pouco formal.
- **desmancha toda esta igrejinha**: expressão popular: acaba com esse grupo fechado de amigos e protegidos.
- **vulgar**: comum, sem nada de especial.
- **castão**: parte de cima da bengala, onde se põe a mão.
- **êxtase**: estado de grande prazer ou admiração.
- **astúcia**: inteligência usada para enganar ou conseguir algo.

## Capítulo CXLII. O pedido secreto

Quanta coisa num minuete!, como dizia o outro. Quanta coisa numa briga de cães! Mas eu não era um discípulo servil ou medroso, incapaz de fazer uma ou outra objeção adequada. Andando, eu disse a ele que tinha uma dúvida. Não estava bem certo da vantagem de disputar a comida com os cães. Ele me respondeu com uma suavidade excepcional:

— Disputá-la com outros homens é mais lógico, porque a condição dos adversários é a mesma. E leva o osso o que for mais forte. Mas por que não será um espetáculo grandioso disputá-lo com os cães? Há quem coma gafanhotos por vontade própria, como o Precursor, ou coisa pior, como Ezequiel. Logo, o ruim se pode comer. Resta saber o que é mais digno do homem. Disputá-lo por uma necessidade natural, ou preferi-lo para obedecer a uma exaltação religiosa? Esta pode mudar, enquanto a fome é eterna, como a vida e como a morte.

Estávamos à porta de casa. Deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora. Entramos. O Quincas Borba, com a discrição própria de um filósofo, foi ler as lombadas dos livros de uma estante. Enquanto isso, eu lia a carta, que era de Virgília:

«Meu bom amigo,

D. Plácida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma coisa por ela. Mora no beco das Escadinhas. Veja se consegue colocá-la na Misericórdia.

Sua amiga sincera,

V.»

Não era a letra fina e correta de Virgília, mas grossa e desigual. O V da assinatura não passava de um rabisco, sem intenção de ser uma letra. Assim, se a carta aparecesse, seria muito difícil dizer quem a escreveu. Virei e revirei o papel. Pobre D. Plácida! Mas eu tinha deixado para ela os cinco contos da praia da Gamboa, e não podia compreender que...

— Vais compreender — disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.

— O quê? — perguntei, espantado.

— Vais compreender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus avós espirituais. A minha filosofia vale mais que a dele, mas não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz ele nesta página?

E, de chapéu na cabeça e bengala debaixo do braço, apontava o lugar com o dedo.

— Que diz ele? Diz que o homem tem «uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre. Já o universo ignora isso absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso com um cão tem esta grande vantagem sobre ele: sabe que tem fome. É isso que torna a luta grandiosa, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão profunda; mas creio que a minha expressão é mais profunda: sabe que tem fome. Porque a morte limita, por assim dizer, o entendimento humano. A consciência do fim dura um breve instante e acaba para sempre. Já a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não há nisso alguma imodéstia) que a fórmula de Pascal é inferior à minha. Mas não deixa de ser um grande pensamento, e Pascal não deixa de ser um grande homem.

### Glossário

- **minuete**: dança antiga, lenta e elegante.
- **servil**: que obedece a tudo, sem opinião própria.
- **gafanhotos**: insetos que saltam e comem plantas.
- **Precursor**: São João Batista, que comia gafanhotos no deserto.
- **Ezequiel**: profeta da Bíblia, que recebeu ordem de comer alimentos repugnantes.
- **exaltação religiosa**: fé muito forte e cheia de emoção.
- **lombadas**: partes das costas dos livros, onde está o título.
- **Misericórdia**: hospital de caridade.
- **rabisco**: traço malfeito, feito depressa.
- **imodéstia**: falta de modéstia, elogio de si mesmo.

## Capítulo CXLIII. Não vou

Enquanto ele devolvia o livro à estante, eu relia o bilhete. No jantar, eu falava pouco e mastigava sem acabar de engolir. Olhava fixo para o canto da sala, a ponta da mesa, um prato, uma cadeira, uma mosca invisível. Vendo isso, ele me disse:

— Tens alguma coisa; aposto que foi aquela carta?

— Foi.

Realmente, eu me sentia aborrecido, incomodado com o pedido de Virgília. Eu tinha dado a D. Plácida cinco contos de réis. Duvido muito que alguém fosse mais generoso do que eu, ou mesmo tão generoso. Cinco contos! E o que ela tinha feito deles? Naturalmente jogou tudo fora, comeu tudo em grandes festas. E agora vai para a Misericórdia, e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Além disso, eu não sabia, ou não me lembrava, do tal beco das Escadinhas. Mas, pelo nome, parecia algum canto estreito e escuro da cidade. Eu tinha de ir lá, chamar a atenção dos vizinhos, bater à porta, etc. Que maçada! Não vou.

### Glossário

- **bilhete**: carta muito curta.
- **mastigava**: partia a comida com os dentes.
- **engolir**: fazer a comida descer pela garganta.
- **conto de réis**: mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **Misericórdia**: hospital de caridade.
- **beco**: rua muito estreita.
- **canto**: lugar pequeno e afastado.
- **maçada**: coisa chata, que dá trabalho e aborrece.

## Capítulo CXLIV. Utilidade relativa

Mas a noite, que é boa conselheira, me fez pensar. A cortesia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama.

— Letras vencidas, é urgente pagá-las — disse eu ao me levantar.

Depois do almoço fui à casa de D. Plácida. Encontrei um molho de ossos, enrolado em trapos, deitado numa cama velha e nojenta. Dei a ela algum dinheiro. No dia seguinte, mandei levá-la para a Misericórdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta. Saiu da vida às escondidas, tal como tinha entrado. Outra vez fiz a mim mesmo uma pergunta, como no capítulo LXXV. Era para isto que o sacristão da Sé e a doceira fizeram D. Plácida nascer, num momento de simpatia específica? Mas logo pensei numa coisa. Sem D. Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos. Ou talvez tivessem sido quebrados de imediato, em plena efervescência. Tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plácida. Utilidade relativa, concordo; mas que diacho há absoluto nesse mundo?

### Glossário

- **letras vencidas**: dívidas cujo prazo acabou e que é preciso pagar.
- **molho**: feixe, conjunto de coisas amarradas juntas.
- **trapos**: pedaços de pano velho.
- **Misericórdia**: hospital de caridade.
- **sacristão**: homem que cuida das coisas de uma igreja.
- **Sé**: a igreja principal de uma cidade, a catedral.
- **simpatia**: aqui, a atração que fez nascer uma criança.
- **efervescência**: agitação, momento de grande paixão.
- **diacho**: forma suave de dizer "diabo".

## Capítulo CXLV. Simples repetição

Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da vizinhança fingiu estar apaixonado por D. Plácida. Ele conseguiu acordar os sentidos dela, ou a vaidade, e casou com ela. No fim de alguns meses, inventou um negócio, vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro. Não vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de um capítulo.

### Glossário

- **contos**: um conto de réis era mil mil-réis, muito dinheiro na época.
- **canteiro**: homem que trabalha a pedra.
- **vizinhança**: as pessoas e as casas de perto.
- **sentidos**: aqui, o desejo do corpo.
- **vaidade**: gosto de ser admirado.
- **apólices**: papéis de dívida do governo que rendem dinheiro.

## Capítulo CXLVI. O programa

Era urgente fundar o jornal. Redigi o programa, que era uma aplicação política do Humanitismo. Mas o Quincas Borba ainda não tinha publicado o livro, que aperfeiçoava de ano em ano. Por isso, combinamos não fazer nenhuma referência a ele. O Quincas Borba exigiu apenas uma declaração, escrita à mão por mim e guardada em segredo. Ela dizia que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do livro dele, ainda inédito.

Era a fina flor dos programas. Prometia curar a sociedade, destruir os abusos e defender os sãos princípios de liberdade e conservação. Fazia um apelo ao comércio e à lavoura. Citava Guizot e Ledru-Rollin. E acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e local. «A nova doutrina que professamos há de inevitavelmente derrubar o atual ministério.» Confesso que, nas circunstâncias políticas do momento, o programa me pareceu uma obra-prima. A ameaça do fim, que ele achou mesquinha, estava cheia do mais puro Humanitismo. Demonstrei isso a ele, e ele mesmo o confessou depois. Porque o Humanitismo não excluía nada. As guerras de Napoleão e uma briga de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade. A diferença é que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, coisa que aparentemente não acontece com as cabras. Ora, eu só estava aplicando às circunstâncias a nossa fórmula filosófica: Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.

— Tu és o meu discípulo amado, o meu califa — gritou o Quincas Borba. Havia na voz dele uma ternura que eu ainda não tinha ouvido. — Posso dizer como o grande Muhammed. Mesmo que venham agora contra mim o sol e a lua, não recuarei das minhas ideias. Crê, meu caro Brás Cubas, que esta é a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos séculos.

### Glossário

- **programa**: texto com as ideias e os planos de um jornal.
- **inédito**: que ainda não foi publicado.
- **lavoura**: trabalho na terra, agricultura.
- **mesquinha**: pequena, sem grandeza.
- **doutrina**: conjunto de ideias de um grupo ou de um filósofo.
- **sublimidade**: qualidade do que é muito elevado e grandioso.
- **Humanitas**: nome que Quincas Borba dá ao princípio de todas as coisas.
- **califa**: chefe religioso muçulmano.

## Capítulo CXLVII. O desatino

Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta. Dizia que provavelmente começaria a sair, dali a algumas semanas, um jornal de oposição, redigido pelo Dr. Brás Cubas. O Quincas Borba, a quem li a notícia, pegou a pena. Com uma fraternidade verdadeiramente humanística, acrescentou ao meu nome esta frase: «um dos mais gloriosos membros da passada Câmara.»

No dia seguinte, o Cotrim entrou na minha casa. Vinha um pouco perturbado, mas disfarçava, fingindo calma e até alegria. Tinha visto a notícia do jornal. Achava que devia, como amigo e parente, me convencer a desistir dessa ideia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia me colocar numa situação difícil e, de certa maneira, fechar as portas do parlamento. O ministério lhe parecia excelente, o que talvez não fosse a minha opinião. Além disso, com certeza ia viver muito. E o que eu podia ganhar colocando-o contra mim? Ele sabia que alguns dos ministros gostavam de mim. Não era impossível uma vaga, e... Eu o interrompi nesse ponto. Disse que tinha pensado muito no passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propor que ele lesse o programa. Mas ele recusou com energia, dizendo que não queria ter a menor parte no meu desatino.

— É um verdadeiro desatino — repetiu ele. — Pense ainda alguns dias, e verá que é um desatino.

A mesma coisa disse Sabina, à noite, no teatro. Deixou a filha no camarote com o Cotrim e me levou ao corredor.

— Mano Brás, o que é que você vai fazer? — perguntou, aflita. — Que ideia é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia...

Expliquei que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento. A minha ideia era derrubar o ministério, porque ele não me parecia adequado à situação, e a certa fórmula filosófica. Garanti que usaria sempre uma linguagem cortês, embora enérgica. A violência não era tempero do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos e balançou a cabeça. Voltou ao assunto, com um ar ora de súplica, ora de ameaça. Eu disse que não, que não, e que não. Desiludida, ela me acusou de preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido.

— Pois siga o que lhe parecer — concluiu. — Nós cumprimos a nossa obrigação.

Deu-me as costas e voltou ao camarote.

### Glossário

- **pena**: antigo instrumento para escrever com tinta.
- **fraternidade**: afeto entre irmãos ou companheiros.
- **humanística**: aqui, própria do Humanitismo.
- **desatino**: ato de loucura, grande erro.
- **camarote**: lugar reservado no teatro.
- **mano**: forma carinhosa de dizer "irmão".
- **mendigar**: pedir como um pobre pede esmola.
- **paladar**: sentido do gosto.
- **súplica**: pedido humilde e aflito.

## Capítulo CXLVIII. O problema insolúvel

Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apareceu em outros jornais uma declaração do Cotrim. Dizia, em substância, o seguinte. «Embora não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a pátria, achava conveniente deixar algo bem claro. Não tinha influência nem parte, direta ou indireta, na folha do seu cunhado, o Dr. Brás Cubas. Reprovava inteiramente as ideias e o procedimento político dele. O atual ministério (como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades) lhe parecia destinado a promover a felicidade pública.»

Não podia acreditar nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e li de novo a declaração inoportuna, estranha e enigmática. Se não tinha nada com os partidos, que lhe importava um incidente tão comum como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministério fazem tais declarações na imprensa. E não são obrigados a fazê-las. Realmente, era um mistério a intromissão do Cotrim nesse negócio, e também a sua agressão pessoal. As nossas relações até então tinham sido francas e amigas. Eu não me lembrava de nenhum desentendimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação. Ao contrário, as lembranças eram de verdadeiros favores. Por exemplo, quando eu era deputado, consegui para ele uns fornecimentos para o Arsenal de Marinha. Ele continuava a fazer esses fornecimentos com a maior pontualidade. Algumas semanas antes, tinha me dito uma coisa sobre eles. No fim de mais três anos, podiam lhe dar uns duzentos contos. Pois a lembrança de tal favor não teve força para impedir que ele viesse a público humilhar o cunhado? O motivo da declaração devia ser muito poderoso. Fazia com que ele cometesse ao mesmo tempo um disparate e uma ingratidão. Confesso que era um problema insolúvel...

### Glossário

- **militasse**: participasse ativamente de um partido.
- **folha**: jornal.
- **cunhado**: irmão da esposa ou marido da irmã.
- **inoportuna**: feita no momento errado.
- **enigmática**: difícil de entender, misteriosa.
- **intromissão**: ato de se meter no que não é da sua conta.
- **desentendimento**: pequena briga, falta de acordo.
- **fornecimentos**: entregas de produtos, por contrato.
- **Arsenal de Marinha**: lugar onde se construíam e consertavam navios de guerra.
- **pontualidade**: cuidado de fazer tudo no tempo certo.
- **disparate**: coisa sem sentido, grande bobagem.
- **ingratidão**: falta de reconhecimento por um bem recebido.
- **insolúvel**: que não se pode resolver.

## Capítulo CXLIX. Teoria do benefício

... Tão insolúvel que o Quincas Borba não conseguiu resolvê-lo, apesar de estudá-lo longamente e com boa vontade.

— Ora, adeus! — concluiu. — Nem todos os problemas valem cinco minutos de atenção.

Quanto à censura de ingratidão, o Quincas Borba a rejeitou inteiramente. Não a rejeitou como improvável, mas como absurda, porque não obedecia às conclusões de uma boa filosofia humanística:

— Não podes me negar um fato — disse ele. — O prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o benefício? É um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, cessada a privação, o organismo volta ao estado anterior, ao estado indiferente. Supõe que apertaste demais o cós das calças. Para acabar com o incômodo, desabotoas o cós, respiras e saboreias um instante de gozo. Depois o organismo volta à indiferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. Como nada permanece, é natural que a memória se apague. Porque ela não é uma planta aérea: precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro. Esse fato é um dos mais sublimes que a filosofia pode encontrar em seu caminho. Mas ele se explica pela memória da privação, ou, usando outra fórmula, pela privação continuada na memória. Essa memória repete a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno. Não digo que, mesmo sem essa circunstância, a memória do favor nunca fique. Às vezes ela fica, com certo afeto mais ou menos intenso. Mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um filósofo.

— Mas — respondi eu — se quem recebe o favor não tem razão para lembrá-lo, quem o faz tem menos ainda. Queria que me explicasses esse ponto.

— Não se explica o que é evidente por natureza — respondeu o Quincas Borba. — Mas eu direi alguma coisa mais. O benefício fica na memória de quem o faz por causa da sua própria natureza e dos seus efeitos. Primeiro, há o sentimento de uma boa ação, e daí a consciência de que somos capazes de boas ações. Em segundo lugar, recebemos uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade na condição e nos meios. E essa é uma das coisas mais legitimamente agradáveis ao organismo humano, segundo as melhores opiniões. Erasmo escreveu algumas coisas boas no seu *Elogio da Sandice*. Ele chamou a atenção para o prazer com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo. Mas direi o que ele não disse. Se um dos burros coçar melhor o outro, esse terá nos olhos algum sinal especial de satisfação. Por que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho? Porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre muitas outras mulheres, menos bonitas ou absolutamente feias. A consciência é a mesma coisa: ela se olha muitas vezes, quando se acha bela. E o remorso não é outra coisa senão a careta de uma consciência que se vê horrível. Não esqueças que tudo é uma simples irradiação de Humanitas. Por isso, o benefício e os seus efeitos são fenômenos perfeitamente admiráveis.

### Glossário

- **censura**: crítica, acusação.
- **ingratidão**: falta de reconhecimento por um bem recebido.
- **beneficiador**: pessoa que faz um bem a outra.
- **beneficiado**: pessoa que recebe um bem de outra.
- **privação**: falta de algo necessário.
- **cós**: parte de cima das calças, que aperta a cintura.
- **desabotoas**: abres os botões.
- **precaução**: cuidado tomado antes, para evitar um mal.
- **aberrações**: coisas fora do normal, erros da natureza.
- **legitimamente**: com razão, de modo justo.
- **Elogio da Sandice**: livro de Erasmo; "sandice" quer dizer loucura, tolice.
- **coçam**: esfregam a pele com as unhas ou com os dentes.
- **coçar**: esfregar a pele com as unhas ou com os dentes.
- **remorso**: dor que se sente por ter feito algo errado.
- **irradiação**: aquilo que sai de um centro, como a luz sai do sol.
- **Humanitas**: nome que Quincas Borba dá ao princípio de todas as coisas.

## Capítulo CL. Rotação e translação

Em cada empresa, afeição ou idade, há um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro número do meu jornal encheu minha alma de uma vasta aurora. Pôs na minha cabeça uma coroa de folhas verdes e me devolveu a leveza da juventude. Seis meses depois, batia a hora da velhice. Duas semanas mais tarde, batia a hora da morte, que foi clandestina, como a de D. Plácida. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de um longo caminho. Por isso, posso dizer que a vida humana alimenta, de si mesma, outras vidas, mais ou menos efêmeras. Assim também o corpo alimenta os seus parasitas. Se eu disser isso, creio que não digo uma coisa inteiramente absurda. Mas essa figura é pouco clara e pouco adequada, e não quero correr esse risco. Prefiro uma imagem da astronomia. O homem faz, em volta do grande mistério, um movimento duplo de rotação e translação. Tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter. E com esses dias compõe o seu ano, mais ou menos longo.

No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, Lobo Neves concluía o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada do ministério. Pelo menos, correu durante algumas semanas o boato de que ele ia ser ministro. Esse boato me encheu de muita irritação e inveja. Por isso, não é impossível que a notícia da morte me desse alguma tranquilidade e alívio. Talvez me desse até um ou dois minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos séculos que é a pura verdade.

Fui ao enterro. Na sala do velório, encontrei Virgília ao pé do caixão, soluçando. Quando ela levantou a cabeça, vi que chorava de verdade. Na saída do enterro, ela se abraçou ao caixão, aflita. Vieram tirá-la dali e levá-la para dentro. Digo a vocês que as lágrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemitério. Para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar. Levava uma pedra na garganta ou na consciência. No cemitério, deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova. Principalmente nesse momento, o baque surdo da cal me deu um estremecimento. Foi passageiro, é certo, mas desagradável. Depois, a tarde tinha o peso e a cor do chumbo; o cemitério, as roupas pretas...

### Glossário

- **rotação**: movimento de um astro em volta de si mesmo; forma os dias.
- **translação**: movimento de um astro em volta de outro; forma os anos.
- **clandestina**: feita em segredo, escondida, sem ninguém ver.
- **efêmeras**: que duram pouco tempo.
- **parasitas**: seres que vivem no corpo de outro e se alimentam dele.
- **com o pé na escada do ministério**: quase chegando ao cargo de ministro.
- **boato**: notícia que corre de boca em boca, sem certeza.
- **soluçando**: chorando alto, com a respiração cortada.
- **pá de cal**: porção de cal, um pó branco, que se joga com uma pá sobre o caixão no enterro.
- **baque surdo**: som baixo e pesado de uma coisa que cai.
- **estremecimento**: tremor rápido do corpo.
- **chumbo**: metal cinzento e muito pesado.

## Capítulo CLI. Filosofia dos epitáfios

Saí, afastando-me dos grupos e fingindo ler os epitáfios. Aliás, gosto dos epitáfios. Entre as pessoas civilizadas, eles são uma expressão daquele egoísmo piedoso e secreto. Esse egoísmo leva o homem a arrancar da morte pelo menos um farrapo da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza sem consolo dos que levam os seus mortos à vala comum. Têm a impressão de que a podridão anônima alcança também a eles mesmos.

### Glossário

- **epitáfios**: textos escritos nos túmulos.
- **piedoso**: ligado à religião e ao respeito pelos mortos.
- **arrancar**: tirar com força.
- **farrapo**: pedaço pequeno e rasgado de pano; aqui, um pouco do que restou.
- **sombra**: aqui, a pessoa que viveu e já não existe.
- **vala comum**: buraco onde se enterram juntos muitos mortos, sem nome.
- **podridão**: estado do que apodrece; decomposição do corpo.
- **anônima**: sem nome.

## Capítulo CLII. A moeda de Vespasiano

Todos já tinham ido embora; só o meu carro esperava pelo dono. Acendi um charuto e me afastei do cemitério. Não conseguia tirar dos olhos a cerimônia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgília. Os soluços, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um problema. Virgília traíra o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com sinceridade. Eis uma combinação difícil, que não consegui fazer em todo o caminho. Em casa, porém, ao descer do carro, suspeitei que a combinação era possível, e até fácil. Meiga Natura! A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano: não cheira à origem. Tanto se colhe do mal como do bem. A moral talvez censure a minha cúmplice. Isso não te importa, amiga implacável, uma vez que recebeste pontualmente as lágrimas dela. Meiga, três vezes meiga Natura!

### Glossário

- **soluços**: sons curtos e fortes de quem chora.
- **traíra**: tinha traído.
- **chorava-o**: chorava por ele, pelo morto.
- **Meiga**: doce, delicada, carinhosa.
- **Natura**: a Natureza; forma antiga e literária.
- **taxa**: dinheiro que se paga como imposto.
- **moeda de Vespasiano**: Vespasiano, imperador de Roma, cobrava imposto sobre a urina e dizia que o dinheiro não tem cheiro.
- **cúmplice**: pessoa que participa de uma ação errada com outra.
- **implacável**: que não perdoa, que não tem pena.

## Capítulo CLIII. O alienista

Começo a ficar patético, e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era nababo e acordei com a ideia de ser nababo. Às vezes, eu gostava de imaginar esses contrastes de região, estado e crença. Alguns dias antes, tinha pensado numa hipótese: uma revolução social, religiosa e política. Essa revolução transferiria o arcebispo de Cantuária para o cargo de simples coletor de Petrópolis. Fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o coletor. Queria saber também que porção de arcebispo pode existir num coletor. E que soma de coletor pode combinar com um arcebispo, etc. Essas questões parecem insolúveis. Mas na realidade são perfeitamente solúveis. Basta lembrar que pode haver num arcebispo dois arcebispos: o da bula e o outro. Está dito, vou ser nababo.

Era uma simples brincadeira; mesmo assim, eu a disse ao Quincas Borba. Ele olhou para mim com certa cautela e pena. Levou a sua bondade ao ponto de me comunicar que eu estava doido. A princípio, ri; mas a nobre convicção do filósofo me deu certo medo. A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que eu não me sentia doido. Mas os doidos geralmente não têm outra opinião de si mesmos, e por isso a objeção ficava sem valor. E vejam se tem algum fundamento a crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas. No dia seguinte, o Quincas Borba me mandou um alienista. Eu o conhecia, e fiquei aterrado. Mas ele se comportou com a maior delicadeza e habilidade. Despediu-se tão alegremente que me animei a perguntar se de verdade não me achava doido.

— Não — disse ele, sorrindo. — Raros homens terão tanto juízo como o senhor.

— Então o Quincas Borba se enganou?

— Redondamente. — E depois: — Ao contrário, se o senhor é amigo dele... peço-lhe que o distraia... que...

— Justos céus! O senhor acha?... Um homem de tanto espírito! um filósofo!

Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha aflição. Vendo o efeito de suas palavras, o alienista reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba. Tratou então de diminuir a gravidade do aviso. Observou que podia não ser nada. Acrescentou até que um grãozinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo sabor à vida. Como rejeitei com horror essa opinião, o alienista sorriu. Então me disse uma coisa tão extraordinária, tão extraordinária, que não merece menos de um capítulo.

### Glossário

- **patético**: que quer comover, cheio de emoção exagerada.
- **nababo**: homem muito rico.
- **arcebispo de Cantuária**: o chefe da Igreja da Inglaterra.
- **coletor**: funcionário que cobra impostos.
- **bula**: documento oficial do papa.
- **alheios**: distantes, sem interesse por alguma coisa.
- **alienista**: médico de doentes mentais; palavra antiga.
- **aterrado**: com muito medo.
- **juízo**: bom senso, razão.
- **redondamente**: completamente.
- **sandice**: loucura, tolice.

## Capítulo CLIV. Os navios do Pireu

— O senhor há de se lembrar — disse-me o alienista — daquele famoso maníaco de Atenas. Ele supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez nem tivesse, para dormir, a cuba de Diógenes. Mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade. Ora bem, há em todos nós um maníaco de Atenas. Quem jurar que nunca possuiu, mentalmente, pelo menos dois ou três patachos, pode acreditar que jura falso.

— Também o senhor? — perguntei-lhe.

— Também eu.

— Também eu?

— Também o senhor. E o seu criado também, se é seu criado esse homem ali, sacudindo os tapetes na janela.

De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto nós falávamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que ele tinha escancarado todas as janelas, havia muito tempo. Tinha levantado as cortinas e deixado a sala o mais aberta possível, para que a vissem de fora. A sala era ricamente mobiliada. E concluiu:

— Este seu criado tem a mania do ateniense: crê que os navios são dele. É uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da terra.

### Glossário

- **maníaco**: pessoa dominada por uma ideia fixa, por uma mania.
- **Pireu**: o porto da cidade de Atenas, na Grécia.
- **pobretão**: homem muito pobre.
- **cuba de Diógenes**: o barril onde vivia Diógenes, filósofo grego muito pobre.
- **dracmas**: moedas da Grécia antiga.
- **Hélade**: nome antigo da Grécia.
- **patachos**: pequenos navios antigos, de dois mastros.
- **escancarado**: aberto ao máximo.

## Capítulo CLV. Reflexão cordial

— Se o alienista tem razão — disse comigo mesmo —, não haverá muito que lamentar o Quincas Borba. É uma questão de mais ou de menos. Contudo, é justo cuidar dele e evitar que entrem no seu cérebro maníacos de outros lugares.

### Capítulo CLVI. Orgulho da servilidade

O Quincas Borba não concordou com o alienista a respeito do meu criado.

— Pode-se, por imagem — disse ele —, atribuir ao teu criado a mania do ateniense. Mas imagens não são ideias, nem observações tiradas da natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre, perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo. É o orgulho da servilidade. A intenção dele é mostrar que não é criado de *qualquer*.

Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa grande, mais empertigados que o patrão. Falou também dos criados de hotel, cuja atenção muda conforme a posição social dos fregueses, etc. E concluiu que tudo era a expressão daquele sentimento delicado e nobre. Era a prova definitiva de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.

### Glossário

- **cordial**: que vem do coração, amigável.
- **lamentar**: ter pena de alguém.
- **maníacos**: pessoas dominadas por uma mania; aqui, as manias que entram na cabeça.
- **servilidade**: condição de quem serve os outros e se submete a eles.
- **cocheiros**: homens que dirigem carruagens.
- **empertigados**: muito retos e orgulhosos no modo de se mostrar.
- **fregueses**: clientes.
- **engraxar**: passar graxa nos sapatos para que brilhem.
- **sublime**: grandioso, muito elevado.

## Capítulo CLVII. Fase brilhante

— Sublime és tu — gritei, lançando os braços ao pescoço dele.

Com efeito, era impossível crer que um homem tão profundo pudesse chegar à demência. Foi o que lhe disse depois do abraço, e lhe contei a suspeita do alienista. Não posso descrever a impressão que isso lhe causou. Lembro que ele estremeceu e ficou muito pálido.

Foi por esse tempo que me reconciliei outra vez com o Cotrim. Não cheguei a saber a causa da briga. A reconciliação veio na hora certa, porque a solidão pesava em mim como um remorso. E a vida era para mim o pior dos cansaços, que é o cansaço sem trabalho. Pouco depois, ele me convidou a entrar numa Ordem Terceira. Não o fiz sem consultar o Quincas Borba:

— Vai, se quiseres — disse-me ele —, mas só por um tempo. Estou tratando de juntar à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica. O Humanitismo há de ser também uma religião, a do futuro, a única verdadeira. O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos. As outras religiões não valem mais do que ele: têm todas a mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraíso cristão é um digno rival do paraíso muçulmano. Quanto ao nirvana de Buda, não passa de uma concepção de paralíticos. Verás o que é a religião humanística. A absorção final, a fase *contrativa*, é a reconstituição da substância, não a sua aniquilação, etc. Vai aonde te chamam; mas não esqueças que és o meu califa.

E vejam agora a minha modéstia. Entrei na Ordem Terceira de ***, e exerci ali alguns cargos. Foi essa a fase mais brilhante da minha vida. Apesar disso, eu me calo. Não digo nada, não conto os meus serviços, nem o que fiz aos pobres e aos doentes. Não conto as recompensas que recebi, nada, não digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse ganhar alguma coisa, se eu mostrasse uma verdade. Todo e qualquer prêmio externo vale pouco ao lado do prêmio subjetivo e imediato. Mas isso seria romper o silêncio que jurei guardar neste ponto. Além disso, os fenômenos da consciência são difíceis de analisar. Por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que estivessem ligados a ele. E acabaria fazendo um capítulo de psicologia. Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes. Tinham a monotonia da desgraça, que é tão aborrecida como a do prazer, e talvez pior. Mas a alegria que se dá à alma dos doentes e dos pobres é uma recompensa de algum valor. E não me digam que ela é negativa, porque só a recebe quem ganha o favor. Não; eu a recebia de modo reflexo, e ainda assim era grande. Era tão grande que me dava uma excelente ideia de mim mesmo.

### Glossário

- **demência**: loucura.
- **alienista**: médico que trata de doentes mentais (palavra antiga).
- **reconciliei**: fiz as pazes.
- **Ordem Terceira**: associação religiosa de leigos.
- **dogmática**: ligada às verdades que uma religião ensina como certas.
- **litúrgica**: ligada às cerimônias de uma religião.
- **vulgaridade**: falta de valor e de nobreza; qualidade do que é baixo e comum.
- **nirvana**: no budismo, estado final de paz, sem desejo e sem dor.
- **contrativa**: que contrai, que faz voltar para dentro; é a última fase do Humanitismo.
- **reconstituição**: ato de formar de novo.
- **aniquilação**: destruição total.
- **califa**: chefe religioso muçulmano; aqui, o seguidor principal do filósofo.
- **modéstia**: qualidade de quem não se elogia nem fala bem de si mesmo.
- **subjetivo**: que existe dentro da própria pessoa.
- **monotonia**: falta de variedade; estado em que tudo é sempre igual.
- **de modo reflexo**: de modo indireto, como a luz que volta de um espelho.

## Capítulo CLVIII. Dois encontros

Ao fim de alguns anos, três ou quatro, eu estava enjoado do ofício, e o deixei. Mas não o deixei sem uma doação importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. Não vou acabar o capítulo, porém, sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcela. E a vi morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço para distribuir esmolas, achei... Agora é que vocês não são capazes de adivinhar... achei a flor da moita, Eugênia, a filha de D. Eusébia e do Vilaça. Estava tão coxa como eu a tinha deixado, e ainda mais triste.

Ela, ao me reconhecer, ficou pálida e baixou os olhos; mas foi coisa de um instante. Levantou logo a cabeça e me olhou fixamente, com muita dignidade. Compreendi que ela não aceitaria esmolas do meu bolso, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista. Ela me cumprimentou e se fechou no cubículo. Nunca mais a vi. Não soube nada da vida dela, nem se a mãe estava morta, nem que desastre a trouxera a tanta miséria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com essa impressão profunda que cheguei ao hospital. Marcela tinha entrado ali na véspera, e a vi morrer meia hora depois, feia, magra, decrépita...

### Glossário

- **enjoado**: cansado de uma coisa, sem vontade de continuar.
- **ofício**: trabalho, ocupação.
- **doação**: dinheiro dado a uma instituição.
- **sacristia**: sala de uma igreja onde ficam as roupas e os objetos do culto.
- **cortiço**: casa pobre onde vivem muitas famílias.
- **esmolas**: dinheiro ou coisas dadas aos pobres.
- **coxa**: mulher que manca.
- **capitalista**: pessoa rica, dona de muito dinheiro.
- **cubículo**: quarto muito pequeno.
- **decrépita**: muito velha e fraca.

## Capítulo CLIX. A semidemência

Compreendi que estava velho e que precisava de uma força. Mas o Quincas Borba tinha partido seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois. Certa manhã, entrou na minha casa, quase no estado em que eu o tinha visto no Passeio Público. A diferença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para aperfeiçoar o Humanitismo, tinha queimado todo o manuscrito e ia recomeçá-lo. A parte dogmática estava completa, embora não escrita; era a verdadeira religião do futuro.

— Juras por Humanitas? — perguntou-me.

— Sabes que sim.

A voz mal podia sair do meu peito; e, aliás, eu não tinha descoberto toda a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco. Esse resto de consciência, como uma lamparina fraca no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Ele o sabia e não se irritava contra o mal. Ao contrário, dizia-me que isso era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos capítulos do livro, e antífonas, e ladainhas espirituais. Chegou até a reproduzir uma dança sacra que tinha inventado para as cerimônias do Humanitismo. A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica. Outras vezes, ficava emburrado num canto, com os olhos fixos no ar. Nesses olhos, de longe em longe, brilhava um raio persistente da razão, triste como uma lágrima...

Morreu pouco tempo depois, na minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão. Jurava também que Pangloss, o caluniado Pangloss, não era tão tolo como Voltaire supôs.

### Glossário

- **demente**: louco.
- **manuscrito**: texto de um livro escrito à mão, ainda não impresso.
- **dogmática**: ligada às verdades que uma religião ensina como certas.
- **lamparina**: pequena luz de óleo, muito fraca.
- **trevas**: escuridão total.
- **antífonas**: pequenos versos cantados nas cerimônias religiosas.
- **ladainhas**: longas orações com pedidos repetidos.
- **lúgubre**: triste e sombrio, que lembra a morte.
- **emburrado**: calado e de mau humor.
- **Pangloss**: personagem do livro *Cândido*, de Voltaire; acha que tudo no mundo está bem.

## Capítulo CLX. Das negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, aconteceram os fatos contados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do *emplasto Brás Cubas*, que morreu comigo, por causa da doença que peguei. Divino emplasto, você me daria o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza. E daria porque você era a genuína e direta inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e aí ficam vocês, eternamente hipocondríacos.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, tive uma boa sorte. Não comprei o pão com o suor do meu rosto. Mais: não sofri a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa vai imaginar que não houve falta nem sobra. Vai imaginar, portanto, que saí quite com a vida. E vai imaginar mal. Porque, ao chegar a este outro lado do mistério, encontrei um pequeno saldo. É a última negativa deste capítulo de negativas:

— Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

### Glossário

- **negativas**: coisas que não aconteceram, respostas com "não".
- **emplasto**: remédio que se põe sobre a pele.
- **genuína**: verdadeira, pura.
- **hipocondríacos**: doentes de tristeza; pessoas que sofrem de hipocondria.
- **califa**: chefe religioso muçulmano; aqui, o seguidor principal de Quincas Borba.
- **suor do meu rosto**: trabalho duro para ganhar a vida.
- **quite**: sem dever nada a ninguém.
- **saldo**: o que sobra quando se fazem as contas.
- **legado**: o que uma pessoa deixa para quem vem depois dela.
