# Dom Casmurro (Edição B1)

*Machado de Assis*

## I. Do título.

Uma noite destas, eu vinha da cidade para o Engenho Novo, no trem da Central. No trem encontrei um rapaz aqui do bairro, que conheço de vista e de chapéu. Ele me cumprimentou, sentou-se ao meu lado, falou da lua e dos ministros e acabou recitando versos para mim. A viagem era curta, e os versos talvez não fossem completamente maus. Mas, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes. Isso bastou para ele parar a leitura e guardar os versos no bolso.

— Continue — disse eu, acordando.

— Já acabei — murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi que ele fez um gesto para tirar os versos outra vez do bolso, mas ficou só no gesto. Estava ofendido, de cara fechada. No dia seguinte, começou a dizer nomes feios sobre mim, e acabou me dando o apelido de *Dom Casmurro*. Os vizinhos não gostam dos meus hábitos de homem calado, que vive fechado em casa. Por isso espalharam o apelido, que afinal pegou. Nem assim me zanguei. Contei a história aos amigos da cidade. Eles, de brincadeira, me chamam assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.» «Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia. Vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.» «Meu caro Dom Casmurro, não pense que está livre do teatro amanhã. Venha, e dormirá aqui na cidade: dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.»

Não consulte dicionários. *Casmurro* não está aqui no sentido que eles dão à palavra. Está no sentido que o povo lhe deu: homem calado e fechado em si mesmo. *Dom* veio por ironia, para me dar ares de nobre. Tudo porque cochilei! Também não achei título melhor para a minha narração. Se até o fim do livro eu não encontrar outro, fica este mesmo. O meu poeta do trem vai saber que não lhe guardo rancor. E, com um pequeno esforço, como o título é dele, poderá pensar que a obra é dele. Há livros que só terão isso dos seus autores; alguns, nem tanto.

### Glossário

- **de vista e de chapéu**: conhecer alguém só de ver e de tirar o chapéu para cumprimentar na rua.
- **recitando**: dizendo em voz alta um texto ou versos.
- **apelido**: nome que os outros dão a uma pessoa, muitas vezes de brincadeira.
- **camarote**: lugar reservado e separado no teatro.
- **casmurro**: homem calado e fechado.
- **ares de nobre**: aparência de pessoa de família importante.
- **cochilei**: dormi um pouco, sem querer, por pouco tempo.
- **rancor**: raiva guardada por muito tempo.

## II. Do livro.

Agora que expliquei o título, vou começar a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Vivo só, com um criado. A casa em que moro é minha. Mandei construí-la de propósito, por um desejo tão pessoal que tenho vergonha de publicá-lo, mas seja. Um dia, há bastantes anos, tive uma ideia. Quis reproduzir no Engenho Novo a casa em que fui criado, na antiga rua de Matacavalos. Ela devia ter o mesmo aspecto e a mesma organização daquela outra, que desapareceu. O construtor e o pintor entenderam bem as minhas indicações. É o mesmo prédio de dois andares, com três janelas na frente e varanda no fundo. São as mesmas alcovas e as mesmas salas. Na sala principal, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual. Há grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que, de espaço em espaço, as seguram nos bicos. Nos quatro cantos do teto estão as figuras das estações. No centro das paredes estão os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes embaixo... Não entendo a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, ela já estava decorada assim; a pintura vinha da década anterior. Naturalmente era gosto da época pôr sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O resto também é semelhante e parecido. Tenho uma pequena chácara, flores, legumes, uma casuarina, um poço e um lavadouro. Uso louça velha e móveis velhos. Enfim, agora, como antigamente, há aqui o mesmo contraste. A vida de dentro é tranquila, e a de fora é barulhenta.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui refazer o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a expressão é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem se consola mais ou menos das pessoas que perde. Mas falto eu mesmo, e esta falta é tudo. O que está aqui é, mal comparando, como a tinta que se põe na barba e nos cabelos. Ela conserva apenas o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são recentes; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, conheço algumas há quinze anos, outras há menos, e quase todas acreditam na mocidade. Duas ou três fariam os outros acreditar nela. Mas a língua que falam obriga muitas vezes a consultar os dicionários, e isso cansa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. Em certos aspectos, aquela vida antiga me parece sem muitos encantos que encontrei nela. Mas também é verdade que perdeu muitos espinhos que a tornavam difícil. E, de memória, conservo alguma lembrança doce e encantadora. Na verdade, apareço pouco e falo menos. Distrações, raras. A maior parte do tempo passo cuidando da horta e do jardim, e lendo; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por me esgotar também. Quis variar, e tive a ideia de escrever um livro. Direito, filosofia e política me vieram à cabeça, mas não me vieram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma *História dos Subúrbios*. Seria menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos sobre a cidade. Era uma obra modesta, mas exigia primeiro documentos e datas, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes começaram a falar comigo. Eles não conseguiam me trazer de volta os tempos passados. Por isso, disseram, eu devia pegar na pena e contar alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem passar leves. Foi assim com o poeta, não o do trem, mas o do *Fausto*: *Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?*

Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora a pena me treme na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me levas a escrever os meus comentários: agradeço-vos o conselho. Vou pôr no papel as lembranças que me forem chegando. Deste modo, viverei o que vivi, e prepararei a mão para alguma obra maior. Vamos, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca esqueci. Tive muitas outras, melhores e piores, mas aquela nunca se apagou do meu espírito. É o que você vai entender, lendo.

### Glossário

- **pena**: objeto antigo usado para escrever com tinta.
- **alcovas**: pequenos quartos de dormir, dentro da casa.
- **grinaldas**: coroas ou fileiras de flores usadas como enfeite.
- **medalhões**: pinturas redondas ou ovais com um rosto.
- **casuarina**: árvore alta, de folhas finas como fios.
- **lavadouro**: lugar onde se lava a roupa.
- **hábito externo**: na autópsia, o aspecto de fora do corpo.
- **certidão**: documento oficial, com a data de nascimento, por exemplo.
- **campos santos**: cemitérios.
- **bustos**: figuras de pessoas, só da cabeça ao peito.

## III. A denúncia.

Eu ia entrar na sala de visitas, quando ouvi dizerem o meu nome e me escondi atrás da porta. A casa era a da rua de Matacavalos, e o mês era novembro. O ano é um pouco distante, mas não vou trocar as datas da minha vida. Não farei isso só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas. O ano era 1857.

— D. Glória, a senhora continua com a ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? Já é mais que tempo, e agora pode haver uma dificuldade.

— Que dificuldade?

— Uma grande dificuldade.

Minha mãe quis saber o que era. José Dias ficou concentrado alguns instantes e veio ver se havia alguém no corredor. Não me viu e voltou. Baixando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao lado: a gente do Pádua.

— A gente do Pádua?

— Há algum tempo quero lhe dizer isto, mas não tinha coragem. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do *Tartaruga*. Esta é a dificuldade, porque, se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

— Não acho. Metidos nos cantos?

— É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai finge que não vê. Ele bem que gostaria que as coisas corressem de maneira que... Compreendo o seu gesto. A senhora não acredita nesses cálculos, acha que todos têm a alma cândida...

— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade: Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze na semana passada; são duas crianças. Não se esqueça de que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos. Nela, a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de acreditar...? Mano Cosme, você que acha?

Tio Cosme respondeu com um «Ora!». Em língua comum, isso queria dizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos se divertem, eu me divirto. Onde está o gamão?»

— Sim, creio que o senhor está enganado.

— Pode ser, minha senhora. Tomara que tenham razão; mas acredite que só falei depois de examinar muito...

— Em todo caso, já vai sendo tempo — interrompeu minha mãe. — Vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.

— Bem, uma vez que não perdeu a ideia de fazê-lo padre, ganhamos o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois, a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte e que o padre Feijó governou o império...

— Governou como a cara dele! — cortou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.

— Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero dizer é que o clero ainda tem um grande papel no Brasil.

— Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

— É promessa, há de se cumprir.

— Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

— Eu?

— Verdade é que cada um sabe melhor de si — continuou tio Cosme. — Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa para lágrimas?

Minha mãe assoou o nariz sem responder. Creio que prima Justina se levantou e foi até ela. Seguiu-se um grande silêncio. Durante esse silêncio estive a ponto de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme começou a dizer. Prima Justina pedia: «Prima Glória! prima Glória!» José Dias se desculpava: «Se soubesse, não teria falado. Mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...»

### Glossário

- **pegam de namoro**: começam a namorar.
- **desmiolada**: pessoa sem juízo.
- **cândida**: pura, inocente, sem maldade.
- **gamão**: jogo de tabuleiro, com dados e peças.
- **Constituinte**: assembleia que preparou a primeira Constituição do Brasil.
- **rancores**: raivas guardadas por muito tempo.
- **clero**: os padres e os bispos da Igreja.
- **capote**: vitória grande no jogo.
- **assoou o nariz**: limpou o nariz com um lenço.

## IV. Um dever amaríssimo!

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar forma monumental às ideias; quando não havia ideias, servia para prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Encostei-me bem à parede e o vi passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi um dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Usava as calças curtas para que ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por dentro, imobilizava o pescoço; era a moda de então. O rodaque de chita, roupa de casa e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um começo de calvície; teria uns cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo lento de costume. Não era a lentidão arrastada dos preguiçosos, mas uma lentidão calculada e deduzida. Era um silogismo completo: a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

### Glossário

- **superlativos**: palavras de grau muito forte, como "amaríssimo" e "lindíssimo".
- **engomadas**: duras e lisas, porque foram tratadas com goma.
- **presilhas**: tiras que prendem a calça por baixo do pé.
- **rodaque**: casaco leve de homem, usado antigamente.
- **gravata de mola**: gravata já pronta, que se prende ao pescoço.
- **chita**: tecido de algodão simples e barato.
- **casaca**: paletó elegante, usado em festas e cerimônias.
- **silogismo**: raciocínio em que a conclusão sai de duas ideias anteriores.
- **premissa**: ideia de que se parte para chegar a uma conclusão.
- **prolongar**: fazer durar mais, tornar mais longo.
- **cetim**: tecido liso e brilhante.
- **aro**: pequeno círculo de metal.
- **imobilizava**: não deixava mexer.
- **chupado**: muito magro, de rosto fino.
- **lentidão**: modo de quem faz as coisas devagar.
- **deduzida**: pensada passo a passo, com lógica.
- **amaríssimo**: muito amargo.

## V. O agregado.

Nem sempre ele andava naquele passo lento e rígido. Também perdia a compostura em gestos, e muitas vezes era rápido e ligeiro nos movimentos. Era tão natural nesta maneira como na outra. Além disso, ria largo, se era preciso, um grande riso sem vontade, mas contagiante. Tanto que as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos momentos graves, gravíssimo.

Era nosso agregado havia muitos anos. Meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia, ele apareceu lá, apresentando-se como médico homeopata; levava um *Manual* e uma caixa de remédios. Havia então uma epidemia de febres. José Dias curou o feitor e uma escrava e não quis receber nenhum pagamento. Então meu pai lhe propôs ficar vivendo ali, com um pequeno salário. José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.

— Quem o impede de ir a outros lugares? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.

— Voltarei daqui a três meses.

Voltou duas semanas depois. Aceitou casa e comida sem outro pagamento, só o que quisessem lhe dar nas festas. Meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. José Dias veio também, e teve o seu quarto no fundo da chácara. Um dia, quando havia de novo febres em Itaguaí, meu pai lhe disse que fosse ver a nossa escravatura. José Dias ficou calado, suspirou e acabou confessando que não era médico. Tinha tomado este título para ajudar a divulgar a nova escola, e não o fizera sem estudar muito e muito. Mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.

— Mas você curou das outras vezes.

— Creio que sim; mas o mais certo é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue. Os motivos do meu procedimento podiam ser dignos, e eram. A homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti. Mas é tempo de restabelecer tudo.

Não foi despedido, como então pedia; meu pai já não podia ficar sem ele. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; sentiam a falta dele como de uma pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor dele foi enorme, me disseram; eu não me lembro. Minha mãe ficou muito grata e não permitiu que ele deixasse o quarto da chácara. No sétimo dia, depois da missa, ele foi se despedir dela.

— Fique, José Dias.

— Obedeço, minha senhora.

Recebeu um pequeno legado no testamento: uma apólice e quatro palavras de elogio. Copiou as palavras, colocou-as em uma moldura e pendurou-as no quarto, acima da cama. «Esta é a melhor apólice», dizia ele muitas vezes. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, ou pelo menos era ouvido. Não abusava, e sabia dar opinião obedecendo. No fim das contas, era um amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não pense que tinha alma de inferior; as cortesias que fazia vinham mais do cálculo que da natureza. A roupa durava muito. Ao contrário das pessoas que sujam depressa a roupa nova, ele trazia a velha escovada e lisa. Era remendada e abotoada, de uma elegância pobre e modesta. Tinha lido bastante, embora às pressas. Sabia o suficiente para divertir à noite e à sobremesa, ou para explicar algum fenômeno. Falava dos efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muitas vezes uma viagem que tinha feito à Europa. Confessava que, se não fôssemos nós, já teria voltado para lá. Tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

— Abaixo ou acima? — perguntou-lhe tio Cosme um dia.

— Abaixo — repetiu José Dias, cheio de veneração.

E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu, aprovando. José Dias agradeceu com a cabeça. Minha mãe lhe dava de vez em quando algumas moedas. Tio Cosme, que era advogado, lhe confiava a cópia de papéis de processos.

### Glossário

- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **homeopata**: médico que trata os doentes com pequenas doses de remédio.
- **feitor**: homem que dirigia o trabalho dos escravos na fazenda.
- **sapé**: capim seco usado para cobrir casas pobres.
- **escravatura**: conjunto dos escravizados de um dono; palavra antiga.
- **charlatão**: pessoa que finge saber o que não sabe, para enganar.
- **legado**: o que uma pessoa deixa a outra no testamento.
- **apólice**: papel do governo que dá uma renda a quem o possui.

## VI. Tio Cosme.

Tio Cosme vivia com minha mãe desde que ela ficou viúva. Ele já era viúvo, como prima Justina; era a casa dos três viúvos.

A sorte muitas vezes contraria a natureza. Tio Cosme tinha sido feito para as tranquilas funções do capitalismo, mas não enriquecia na advocacia: só ganhava para comer. Tinha o escritório na antiga rua das Violas, perto do júri, que funcionava no extinto Aljube. Trabalhava com casos de crime. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. Era ele quem lhe vestia e tirava a toga, com muitos cumprimentos no fim. Em casa, contava os debates. Tio Cosme, por mais modesto que quisesse ser, sorria, convencido.

Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos de sono. Uma das minhas lembranças mais antigas era vê-lo montar, todas as manhãs, a mula que minha mãe lhe deu. A mula o levava ao escritório. O preto que tinha ido buscá-la na cocheira segurava o freio. Enquanto isso, ele levantava o pé e o punha no estribo. Seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. Depois, ele dava um impulso, o primeiro; o corpo ameaçava subir, mas não subia. Segundo impulso, igual efeito. Enfim, depois de alguns longos instantes, tio Cosme juntava todas as forças físicas e morais. Dava o último salto da terra, e desta vez caía em cima da sela. Raramente a mula deixava de mostrar, com um gesto, que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a mula partia a trote.

Também não esqueci o que ele me fez uma tarde. Eu tinha nascido na roça, de onde vim com dois anos, e os costumes da época pediam outra coisa. Apesar disso, eu não sabia montar e tinha medo de cavalo. Tio Cosme me pegou e me sentou, de pernas abertas, em cima da mula. Eu me vi no alto (tinha nove anos), sozinho e sem ajuda, com o chão lá embaixo. Comecei a gritar desesperadamente: «Mamãe! mamãe!» Ela veio correndo, pálida e trêmula, pensando que estavam me matando. Tirou-me da mula e me fez carinho, enquanto o irmão perguntava:

— Mana Glória, um menino deste tamanho tem medo de mula mansa?

— Não está acostumado.

— Deve se acostumar. Mesmo sendo padre, se for vigário na roça, vai precisar montar a cavalo. E aqui mesmo, ainda que não seja padre, pode querer se exibir a cavalo como os outros rapazes. Se não souber, vai se queixar de você, mana Glória.

— Pois que se queixe; tenho medo.

— Medo! Ora, medo!

A verdade é que só aprendi a montar mais tarde. Foi menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia. «Agora é que ele vai namorar deveras», disseram quando comecei as lições. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele, montar era velho costume e necessidade. Já não servia para namoros. Contam que, quando rapaz, foi aceito por muitas damas, além de ser um partidário exaltado. Mas os anos lhe levaram a maior parte do ardor político e sexual. A gordura acabou com o resto das ideias públicas e específicas. Agora só cumpria as obrigações do ofício, e sem amor. Nas horas de lazer ficava olhando ou jogava. Uma vez ou outra dizia uma piada.

### Glossário

- **júri**: grupo de pessoas que decide se um acusado é culpado.
- **Aljube**: antiga prisão do Rio de Janeiro.
- **toga**: roupa longa e preta usada pelos advogados no tribunal.
- **cocheira**: lugar onde ficam os cavalos e as mulas.
- **freio**: peça de ferro, com rédeas, que serve para guiar o animal.
- **estribo**: apoio de metal para o pé de quem monta.
- **roça**: o campo, longe da cidade.
- **vigário**: padre responsável por uma igreja.
- **ardor**: força ou paixão muito viva.
- **mula**: animal parecido com o cavalo, filho de égua e jumento.
- **trote**: passo rápido do cavalo ou da mula.
- **pálida**: sem cor no rosto.
- **trêmula**: que treme.
- **exaltado**: de ideias fortes, cheio de entusiasmo.

## VII. D. Glória.

Minha mãe era uma boa criatura. Quando o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, morreu, ela tinha trinta e um anos e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar perto da igreja em que meu pai foi enterrado. Vendeu a pequena fazenda e os escravos. Comprou outros, que alugou ou pôs ao ganho. Comprou também uma dúzia de prédios e certo número de apólices. E ficou na casa de Matacavalos, onde tinha vivido os dois últimos anos de casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, da família Fernandes.

Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago tinha quarenta e dois anos. Ainda era bonita e jovem. Mas teimava em esconder o que restava da juventude, por mais que a natureza quisesse protegê-la do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem enfeites. Usava um xale preto, dobrado em triângulo e preso ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram presos na nuca por um velho pente de tartaruga. Às vezes usava uma touca branca de babados. Andava assim, com os seus sapatos de cordovão baixos e silenciosos, de um lado para outro. Via e dirigia todos os serviços da casa inteira, desde a manhã até a noite.

Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do retrato do marido, tais como estavam na outra casa. A pintura ficou muito escura, mas ainda dá uma ideia dos dois. Não me lembro de nada dele, a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. O retrato mostra uns olhos redondos que me acompanham para todos os lados. É um efeito da pintura, que me assustava quando eu era pequeno. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. O rosto não tem barba, menos um pedacinho perto das orelhas. O retrato de minha mãe mostra que ela era linda. Tinha então vinte anos, e segurava uma flor entre os dedos. No quadro, parece oferecer a flor ao marido. O que se lê na cara dos dois é isto. Se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado ainda as acusou de imorais. Do mesmo modo, ninguém chamou de má a caixa de Pandora por causa da esperança que havia no fundo. Em alguma parte ela há de ficar. Aqui tenho os dois, os bem casados de antigamente, os bem-amados, os bem-aventurados. Eles se foram desta vida para a outra, provavelmente para continuar um sonho. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, levanto os olhos para eles. Então esqueço os bilhetes brancos e a caixa fatal. São retratos que valem tanto como os originais. O de minha mãe, estendendo a flor ao marido, parece dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O de meu pai, olhando para a gente, faz este comentário: «Vejam como esta moça me quer...» Se sofreram doenças, não sei, como não sei se tiveram desgostos. Eu era criança, e comecei por não ter nascido. Depois da morte dele, lembro que ela chorou muito. Mas aqui estão os retratos dos dois, e a sujeira do tempo não lhes tirou a primeira expressão. São como fotografias instantâneas da felicidade.

### Glossário

- **ao ganho**: escravizado mandado à rua para trabalhar e entregar o dinheiro ao dono.
- **apólices**: papéis do governo que dão uma renda a quem os possui.
- **camafeu**: joia com uma pequena figura em relevo.
- **bandós**: penteado com o cabelo dividido e liso dos dois lados da cabeça.
- **cordovão**: couro macio de cabra.
- **sorte grande**: o primeiro prêmio da loteria.
- **de sociedade**: comprado por duas ou mais pessoas, que dividem o prêmio.
- **caixa de Pandora**: na história antiga dos gregos, caixa de onde saíram todos os males.
- **bilhetes brancos**: bilhetes de loteria sem prêmio.
- **guapo**: bonito e valente; palavra antiga.
- **teimava**: insistia, sem aceitar outra ideia.
- **enfeites**: coisas que se usam para ficar mais bonita.
- **xale**: pano grande que as mulheres usam sobre os ombros.
- **touca**: peça de pano que cobre o cabelo.
- **conjugal**: do casamento, de marido e mulher.
- **abolir**: acabar com uma coisa por lei.
- **imorais**: contrárias aos bons costumes.
- **aborrecem**: cansam, deixam de mau humor.
- **cavalheiro**: homem educado e gentil.

## VIII. É tempo!

Mas é tempo de voltar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca. Estava sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Foi verdadeiramente o início da minha vida. Tudo o que tinha acontecido antes foi como pintar e vestir as pessoas que iam entrar em cena. Foi como acender as luzes, afinar os violinos, tocar a sinfonia... Agora é que eu ia começar a minha ópera. «A vida é uma ópera», me dizia um velho tenor italiano que viveu e morreu aqui... E um dia me explicou a definição, de tal maneira que me fez acreditar nela. Talvez valha a pena contá-la; é só um capítulo.

### Glossário

- **trecho**: parte de uma rua ou de um caminho.
- **em cena**: no palco, diante do público.
- **afinar**: preparar um instrumento para que dê os sons certos.
- **sinfonia**: aqui, a música que a orquestra toca antes de começar a ópera.
- **ópera**: peça de teatro toda cantada, com orquestra.
- **tenor**: cantor de voz alta.
- **definição**: frase que explica o que uma coisa é.

## IX. A ópera.

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que tinha. «O desuso é que me faz mal», acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ele ia ao empresário. E lhe contava todas as injustiças da terra e do céu. O empresário cometia mais uma, e ele saía gritando contra a injustiça. Ainda usava os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia fazer a corte a uma princesa da Babilônia. Às vezes cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais velho que ele, ou tão velho quanto ele. Vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu a definição de costume. Eu lhe disse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha. Ele balançou a cabeça e respondeu:

— A vida é uma ópera, e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários. Outras vezes, o soprano e o contralto lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos balés, e a orquestração é excelente...

— Mas, meu caro Marcolini...

— Quê...?

E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice. E me expôs a história da criação, com palavras que vou resumir.

Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Era rival de Miguel, Rafael e Gabriel, e não tolerava que eles viessem primeiro na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música muito doce e mística daqueles colegas aborrecesse o seu gênio, essencialmente trágico. Tramou uma rebelião, que foi descoberta a tempo, e ele foi expulso do conservatório. Tudo teria acabado aí, se Deus não tivesse escrito um libreto de ópera. Deus tinha desistido dele, por achar que esse tipo de diversão não combinava com a sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Quis mostrar que valia mais que os outros, e talvez se reconciliar com o céu. Por isso, compôs a partitura, e assim que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

— Senhor, não esqueci as lições recebidas — disse-lhe. — Aqui tendes a partitura. Escutai-a, corrigi-a, fazei-a executar, e, se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...

— Não — respondeu o Senhor —, não quero ouvir nada.

— Mas, Senhor...

— Nada! nada!

Satanás suplicou ainda, sem melhor sorte. Enfim Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta. E inventou uma companhia inteira, com todos os papéis, primários e comprimários, coros e bailarinos.

— Ouvi agora alguns ensaios!

— Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Esta recusa foi talvez um mal. Dela resultaram alguns desacertos que a audição prévia e a colaboração amiga teriam evitado. De fato, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, que foge à monotonia. Assim explicam o trio do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que as mesmas cenas se repitam sem razão suficiente. Certos motivos cansam de tanto se repetir. Também há partes obscuras. O maestro abusa das massas de coro e muitas vezes esconde o sentido de um modo confuso. Já as partes da orquestra são tratadas com grande perícia. Esta é a opinião dos imparciais.

Os amigos do maestro dizem que dificilmente se pode achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e algumas lacunas. Mas, com o andar da ópera, é provável que as lacunas sejam preenchidas ou explicadas, e as rudezas desapareçam inteiramente. O maestro aceita corrigir a obra onde achar que ela não corresponde bem ao pensamento sublime do poeta. Os amigos do poeta já não dizem o mesmo. Juram que o libreto foi sacrificado e que a partitura corrompeu o sentido das palavras. Dizem que ela é bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros. Mas é totalmente diferente do drama, e até contrária a ele. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é um acréscimo para imitar as *Mulheres patuscas de Windsor*. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, quando o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare tinham nascido. Chegam a afirmar que o poeta inglês só teve um gênio: copiar o texto da ópera. Copiou com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição. Mas, evidentemente, é um plagiário.

— Esta peça — concluiu o velho tenor — durará enquanto durar o teatro. Não se pode calcular quando ele será demolido por utilidade astronômica. O sucesso é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos de autor, que não são iguais. É que a regra da divisão é aquela da Escritura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanás em papel.

— Tem graça...

— Graça? — gritou ele com fúria. Mas logo se acalmou, e respondeu: — Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém que ensine esta verdade aos homens. Pode ser um tenor, e talvez italiano. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o *dó*, e o *dó* se fez *ré*, etc. Este cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve refrão. Não se ouve? Também não se ouvem o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

### Glossário

- **barítono, soprano, contralto, baixo**: tipos de voz de cantores de ópera.
- **comprimários**: cantores que fazem os papéis menores da ópera.
- **cálice**: copo pequeno com pé.
- **conservatório**: escola de música.
- **libreto**: o texto de uma ópera.
- **partitura**: a música de uma obra, escrita em notas.
- **ária**: canção para uma só voz, dentro de uma ópera.
- **guilhotina**: máquina que corta a cabeça dos condenados.
- **patuscas**: alegres, brincalhonas.
- **plagiário**: pessoa que copia a obra de outra e diz que é sua.
- **teimava**: insistia, sem aceitar outra ideia.
- **desuso**: o fato de não usar mais uma coisa.
- **cantarolava**: cantava baixinho.
- **abafadas**: baixas, que quase não se ouvem.
- **licor**: bebida doce com álcool.
- **aborrecesse**: cansasse, desagradasse.
- **reconciliar**: fazer as pazes.
- **consentiu**: deu licença, aceitou.
- **desacertos**: erros, coisas que não combinam.
- **monotonia**: falta de variação, repetição que cansa.
- **imparciais**: pessoas que julgam sem tomar partido.
- **desapareçam**: deixem de existir.
- **grotesco**: o que é feio e ridículo ao mesmo tempo.

## X. Aceito a teoria.

Não há dúvida de que é metafísica demais para um só tenor. Mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.

Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini. Não a aceito só porque parece verdade, e isso muitas vezes é toda a verdade. Aceito-a também porque a minha vida se casa bem com a definição. Cantei um *duo* terníssimo, depois um *trio*, depois um *quatuor*... Mas não nos adiantemos. Vamos à primeira tarde, em que vim a saber que já cantava. É que a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou.

### Glossário

- **metafísica**: parte da filosofia que pensa sobre Deus, a alma e o sentido das coisas.
- **tenor**: cantor de voz alta.
- **teoria**: ideia que procura explicar alguma coisa.
- **duo**: música cantada por duas pessoas.
- **trio**: música cantada por três pessoas.
- **quatuor**: música cantada por quatro pessoas.
- **terníssimo**: muito terno, muito carinhoso.
- **denúncia**: ato de contar a alguém uma falta de outra pessoa.

## XI. A promessa.

Assim que vi o agregado desaparecer no corredor, saí do meu esconderijo e corri para a varanda do fundo. Não quis saber de lágrimas, nem da causa que fazia minha mãe chorar. A causa eram provavelmente os seus planos de me fazer padre. Vou contar como esses planos nasceram, porque já eram uma história velha. Tinham dezesseis anos.

Os planos vinham do tempo em que fui concebido. O primeiro filho de minha mãe nasceu morto. Então ela se agarrou com Deus para que o segundo vivesse. Prometeu que, se fosse menino, ia colocá-lo na Igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem antes nem depois de me dar à luz. Pensava em contar quando eu entrasse para a escola, mas ficou viúva antes disso. Viúva, sentiu terror de se separar de mim. Mas era tão devota e tinha tanto temor de Deus que procurou testemunhas da obrigação. Contou a promessa a parentes e pessoas da casa. Só quis uma coisa: que a nossa separação viesse o mais tarde possível. Por isso me fez aprender em casa as primeiras letras, latim e doutrina. O professor era aquele padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar à noite.

Prazos longos são fáceis de assinar; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os anos fossem chegando. Enquanto isso, eu ia me afeiçoando à ideia da Igreja. Brincadeiras de criança, livros devotos, imagens de santos, conversas de casa, tudo levava para o altar. Quando íamos à missa, ela sempre me dizia que era para aprender a ser padre. Eu devia observar o padre e não tirar os olhos dele. Em casa, eu brincava de missa, um pouco escondido, porque minha mãe dizia que missa não era brincadeira. Capitu e eu arrumávamos um altar. Ela fazia de sacristão, e nós mudávamos o ritual: dividíamos a hóstia entre nós. A hóstia era sempre um doce. Naquele tempo, eu ouvia muitas vezes a minha vizinha perguntar: «Hoje há missa?» Eu já sabia o que isso queria dizer. Respondia que sim e ia pedir a hóstia com outro nome. Voltava com ela, arrumávamos o altar, dizíamos o latim mal e depressa e corríamos com as cerimônias. *Dominus, non sum dignus...* Eu devia dizer isso três vezes, mas penso que só dizia uma. Tão grande era a gulodice do padre e do sacristão! Não bebíamos vinho nem água. Não tínhamos o primeiro, e a segunda iria nos tirar o gosto do sacrifício.

Ultimamente já não me falavam do seminário. Eu até pensava que o assunto tinha acabado. Aos quinze anos, sem vocação, eu precisava mais do seminário do mundo que do de São José. Minha mãe ficava muitas vezes a olhar para mim, como uma alma perdida. Ou então pegava na minha mão, sem motivo nenhum, e a apertava muito.

### Glossário

- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **devota**: pessoa muito religiosa, que reza muito e vai sempre à igreja.
- **doutrina**: o que a Igreja ensina; as lições de religião.
- **prazos**: tempos marcados para fazer alguma coisa.
- **sacristão**: homem que ajuda o padre na igreja e na missa.
- **hóstia**: pequeno pão branco e fino que o padre dá na missa.
- **gulodice**: vontade grande de comer doces e coisas gostosas.
- **vocação**: chamado interior para uma vida ou um trabalho, como o de padre.

## XII. Na varanda.

Parei na varanda. Estava tonto, atordoado, com as pernas fracas, e o coração parecia querer sair pela boca. Não tinha coragem de descer à chácara e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para outro. Parava para me apoiar, andava outra vez e parava de novo. Vozes confusas repetiam o discurso de José Dias:

«Sempre juntos...»

«Em segredinhos...»

«Se eles pegam de namoro...»

Tijolos que pisei tantas vezes naquela tarde, colunas amareladas à minha direita ou à esquerda, conforme eu ia ou vinha! Em vocês ficou a melhor parte da crise. Às vezes eu me pegava sorrindo, com um ar de satisfação que desmentia a abominação do meu pecado. E as vozes se repetiam, confusas:

«Em segredinhos...»

«Sempre juntos...»

«Se eles pegam de namoro...»

Um coqueiro me viu agitado e adivinhou a causa. Lá de cima, disse baixinho que não era feio os meninos de quinze anos andarem com as meninas de quatorze. Ao contrário, naquela idade os adolescentes não tinham outra ocupação. Era um coqueiro velho, e eu acreditava nos coqueiros velhos, ainda mais que nos livros velhos. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o verão, toda a gente viva do ar era da mesma opinião.

Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, eu estava sempre junto dela, mas não me lembrava de nada entre nós que fosse de fato secreto. Antes de ela ir para o colégio, tudo eram travessuras de criança. Depois que saiu do colégio, é certo que não voltamos logo à antiga intimidade. Mas a intimidade voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Apesar disso, os assuntos das nossas conversas eram os de sempre. Capitu às vezes me chamava bonito, mocetão, uma flor. Outras vezes pegava nas minhas mãos para contar os meus dedos. E comecei a me lembrar desses e de outros gestos e palavras. Ela dizia que achava os meus cabelos muito lindos. Eu dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu balançava a cabeça, com uma grande expressão de desengano e tristeza. Isso surpreendia ainda mais, porque os cabelos dela eram realmente admiráveis. Mas eu respondia chamando-a de maluca. Quando ela me perguntava se eu tinha sonhado com ela na véspera, eu dizia que não. Então ela me contava que tinha sonhado comigo. Eram aventuras extraordinárias. Subíamos ao Corcovado pelo ar, dançávamos na lua. Ou então os anjos vinham perguntar os nossos nomes, para dá-los a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos bem juntinhos. Os sonhos que eu tinha com ela não eram assim. Só mostravam o nosso costume de estar juntos. Muitas vezes eram apenas a repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Eu também os contava. Um dia Capitu notou a diferença e disse que os dela eram mais bonitos que os meus. Depois de alguma dúvida, eu disse que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga.

Pois, francamente, só agora eu entendia a emoção que essas e outras confidências me davam. A emoção era doce e nova, mas a sua causa me fugia. Eu nem a procurava nem a suspeitava. Os silêncios dos últimos dias não me tinham revelado nada. Agora eu os sentia como sinais de alguma coisa. Assim também as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de lembrar a infância. Também notei que era um fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. Também era novo escutá-la de memória e estremecer quando ouvia os seus passos. Se falavam dela em minha casa, eu prestava mais atenção que antes. Se era elogio, eu sentia mais gosto; se era crítica, mais desgosto. Antes, quando éramos apenas companheiros de travessuras, não era tão forte. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês, com intervalos, é verdade, mas pensando só nela.

Tudo isso me era agora mostrado pela boca de José Dias. Ele me tinha denunciado a mim mesmo, e eu lhe perdoava tudo. Perdoava o mal que tinha dito, o mal que tinha feito e o que pudesse vir dos dois. Naquele instante, a eterna Verdade não valeria mais que ele, nem a eterna Bondade, nem as outras Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam, voltavam, paravam, trêmulas e certas de abraçar o mundo. Essa revelação da consciência a si mesma nunca mais me saiu da memória. Nunca achei que outra emoção da mesma espécie se pudesse comparar a ela. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira.

### Glossário

- **atordoado**: confuso, sem conseguir pensar direito.
- **pegam de namoro**: começam a namorar.
- **desmentia**: mostrava que uma coisa era falsa.
- **abominação**: coisa horrível, que causa grande repulsa.
- **coqueiro**: palmeira alta que dá cocos.
- **coqueiros**: palmeiras altas que dão cocos.
- **ensaiava**: treinava, preparava-se para fazer alguma coisa.
- **travessuras**: brincadeiras de criança, às vezes um pouco erradas.
- **mocetão**: rapaz grande e forte.
- **desengano**: tristeza de quem perdeu uma esperança.
- **pitanga**: fruta pequena do Brasil, de cor vermelha.
- **confidências**: coisas secretas que se contam a uma pessoa de confiança.
- **estremecer**: tremer de repente, por causa de uma emoção forte.
- **trêmulas**: que tremem.

## XIII. Capitu.

De repente, ouvi uma voz gritar de dentro da casa vizinha:

— Capitu!

E no quintal:

— Mamãe!

E outra vez na casa:

— Vem cá!

Não me aguentei. As minhas pernas desceram os três degraus que davam para a chácara e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, à tarde, e de manhã também. Porque as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços. Valem por si mesmas quando a cabeça não as governa com ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia ali uma porta de comunicação, que minha mãe tinha mandado abrir quando Capitu e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem tranca. Abria-se empurrando de um lado ou puxando do outro. Fechava-se com o peso de uma pedra pendurada numa corda. Era quase exclusivamente nossa. Quando crianças, fazíamos visitas: batíamos de um lado e éramos recebidos do outro com muitas reverências. Quando as bonecas de Capitu ficavam doentes, o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço, para imitar a grande bengala do doutor João da Costa. Tomava o pulso da doente e pedia que mostrasse a língua. «É surda, coitada!», exclamava Capitu. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar umas sanguessugas ou dar um vomitório. Era o tratamento habitual do médico.

— Capitu!

— Mamãe!

— Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe estava agora mais perto, como se já viesse da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas, que há pouco andavam tanto, pareciam agora presas ao chão. Por fim fiz um esforço, empurrei a porta e entrei. Capitu estava ao pé do muro em frente, virada para ele, riscando com um prego. O barulho da porta a fez olhar para trás. Quando me viu, encostou-se no muro, como se quisesse esconder alguma coisa. Caminhei para ela. Naturalmente meu rosto estava mudado, porque ela veio até mim e perguntou, inquieta:

— Que é que você tem?

— Eu? Nada.

— Nada, não; você tem alguma coisa.

Quis insistir que não era nada, mas não achei voz. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta e forte, num vestido de chita meio desbotado. Os cabelos grossos, em duas tranças com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam pelas costas. Era morena, de olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo. As mãos, apesar de alguns trabalhos duros, eram tratadas com amor. Não cheiravam a sabonetes finos nem a águas de perfume. Mas, com água do poço e sabão comum, ela as mantinha sem nenhuma mancha. Usava sapatos de pano, baixos e velhos, que ela mesma tinha consertado com alguns pontos.

— Que é que você tem? — repetiu.

— Não é nada — balbuciei finalmente.

E corrigi logo:

— É uma notícia.

— Notícia de quê?

Pensei em dizer que ia entrar para o seminário e observar a impressão que isso lhe faria. Se ela ficasse abalada, era porque realmente gostava de mim. Se não, era porque não gostava. Mas todo esse cálculo foi escuro e rápido. Senti que não poderia falar claramente. Tinha agora a vista não sei como...

— Então?

— Você sabe...

Nisso olhei para o muro, para o lugar onde ela tinha estado riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos e lembrei o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto e dei um passo. Capitu me agarrou. Mas, ou por medo de que eu acabasse fugindo, ou para negar de outra maneira, correu na frente. E apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.

### Glossário

- **chácara**: casa com terreno, árvores e horta.
- **reverências**: gestos de respeito, como baixar a cabeça ou o corpo.
- **sanguessugas**: pequenos bichos que chupam sangue; antigamente eram usados pelos médicos.
- **vomitório**: remédio que faz a pessoa vomitar.
- **esburacando**: fazendo buracos.
- **chita**: tecido simples e barato de algodão, com desenhos coloridos.
- **desbotado**: que perdeu a cor.
- **balbuciei**: falei baixo e com dificuldade, sem conseguir dizer bem as palavras.

## XIV. A inscrição.

Tudo o que contei no fim do outro capítulo foi obra de um instante. O que veio depois foi ainda mais rápido. Dei um pulo e, antes que ela raspasse o muro, li estes dois nomes, abertos a prego e dispostos assim:

BENTO CAPITOLINA

Voltei-me para ela. Capitu tinha os olhos no chão. Logo os ergueu, devagar, e ficamos olhando um para o outro... Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Na verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos. Só as mãos se estenderam pouco a pouco, todas as quatro, pegando-se, apertando-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia ter marcado. Sinto falta de uma nota escrita naquela mesma noite. Eu a colocaria aqui com os erros de ortografia que tivesse. Mas não teria nenhum, tão grande era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar.

Não soltamos as mãos, nem elas caíram de cansadas ou de esquecidas. Os olhos se olhavam e se desviavam. Depois de vagar por perto, voltavam a entrar uns nos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar. Uma das faces era a Epístola, e a outra, o Evangelho. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota. A limpeza da intenção lava o que possa haver de menos correto no estilo. Estávamos ali com o céu em nós. As mãos faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura de anjo. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. Só as palavras da boca nem tentavam sair. Voltavam caladas ao coração, como tinham vindo...

### Glossário

- **inscrição**: palavras escritas ou riscadas numa parede, numa pedra ou num muro.
- **confissão**: ato de dizer um segredo ou uma culpa.
- **poupado**: livre de um trabalho ou de uma dor.
- **ortografia**: a maneira certa de escrever as palavras.
- **faces**: os dois lados do rosto.
- **Epístola**: parte da missa em que se lê uma carta da Bíblia.
- **Evangelho**: parte da missa em que se lê a história de Jesus.
- **sacrílego**: pessoa que ofende as coisas sagradas.

## XV. Outra voz repentina.

Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:

— Vocês estão jogando o siso?

Era o pai de Capitu, que estava à porta dos fundos, ao lado da mulher. Soltamos as mãos depressa e ficamos atrapalhados. Capitu foi ao muro e, com o prego, disfarçando, apagou os nossos nomes escritos.

— Capitu!

— Papai!

— Não me estragues o reboco do muro.

Capitu riscava sobre o riscado, para apagar bem o escrito. Pádua saiu ao quintal para ver o que era. Mas a filha já tinha começado outra coisa, um perfil. Disse que era o retrato dele, e tanto podia ser dele como da mãe. O perfil o fez rir, e isso era o essencial. Aliás, ele chegou sem raiva, muito doce, apesar do gesto duvidoso, ou menos que duvidoso, em que nos pegou. Era um homem baixo e grosso, de pernas e braços curtos e costas curvas. Daí veio o apelido de Tartaruga, que José Dias lhe pôs. Ninguém o chamava assim lá em casa; era só o agregado.

— Vocês estavam jogando o siso? — perguntou.

Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto. Capitu respondeu pelos dois.

— Estávamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta.

— Quando eu cheguei à porta, não ria.

— Já tinha rido das outras vezes; não pode. Papai quer ver?

E, séria, fixou os olhos em mim, convidando-me para o jogo. O susto é naturalmente sério. Eu ainda sentia o efeito da entrada de Pádua. Não fui capaz de rir, por mais que devesse, para confirmar a resposta de Capitu. Ela, cansada de esperar, virou o rosto. Disse que eu não ria daquela vez por estar perto do pai dela. E nem assim eu ri. Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitu deu duas voltas e foi ficar com a mãe, que continuava à porta da casa. O pai e eu ficamos encantados com ela. O pai, olhando para ela e para mim, dizia-me, cheio de ternura:

— Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. Mamãe está boa? — continuou, virando-se inteiramente para mim.

— Está.

— Há muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote no doutor, mas não tenho podido. Ando com trabalho da repartição em casa; escrevo todas as noites, que é um desespero; negócio de relatório. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; venha ver.

Que eu não tinha vontade nenhuma, acredita-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar agora do mal que nos esperava. Mas o pai era o pai, e além disso amava especialmente os passarinhos. Tinha-os de várias espécies, cores e tamanhos. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. Eles cantavam e faziam um barulho de todos os diabos. Trocava pássaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns no próprio quintal, com armadilhas. Também, se adoeciam, cuidava deles como se fossem gente.

### Glossário

- **jogando o siso**: fazendo um jogo: duas pessoas se olham, sérias, e perde quem rir primeiro.
- **reboco**: camada de massa que cobre um muro ou uma parede.
- **perfil**: desenho do rosto visto de lado.
- **sabugueiro**: árvore pequena de flores brancas.
- **mister**: necessário; palavra antiga.
- **capote**: vitória grande no jogo.
- **repartição**: escritório do governo.
- **gaturamo**: pequeno pássaro do Brasil, que canta bem.

## XVI. O administrador interino.

Pádua era empregado numa repartição ligada ao ministério da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco e a vida era barata. Além disso, a casa em que morava era propriedade dele. Tinha dois andares, como a nossa, embora fosse menor. Ele a comprou com o grande prêmio que ganhou num meio bilhete de loteria: dez contos de réis. Quando saiu o prêmio, a primeira ideia de Pádua foi comprar um cavalo do Cabo. Queria também joias de brilhantes para a mulher e uma sepultura perpétua para a família. Pensava ainda em mandar vir da Europa alguns pássaros, etc. Mas a mulher é esta D. Fortunata que ali está, em pé, à porta dos fundos, falando à filha. É alta e forte como a filha, tem a mesma cabeça e os mesmos olhos claros. Foi ela que disse que o melhor era comprar a casa e guardar o resto para as doenças graves. Pádua hesitou muito. Por fim, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu ajuda. E não foi só nessa ocasião que minha mãe os ajudou; um dia chegou a salvar a vida de Pádua. Escutem; a história é curta.

O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte, em missão. Pádua, por ordem do regulamento ou por escolha especial, ficou substituindo o administrador, com o salário do cargo. Esta mudança de sorte lhe deu uma espécie de vertigem; isso foi antes dos dez contos. Não se contentou em renovar a roupa e a louça. Atirou-se às despesas supérfluas. Deu joias à mulher, matava um leitão nos dias de festa, era visto nos teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dois meses, pensando que o cargo interino seria eterno. Uma tarde entrou em nossa casa aflito e fora de si. Ia perder o lugar, porque o administrador efetivo tinha chegado naquela manhã. Pediu a minha mãe que cuidasse das infelizes que deixava. Não podia sofrer a desgraça: ia se matar. Minha mãe falou com bondade, mas ele não prestava atenção a nada.

— Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família, voltar atrás... Já disse, mato-me! Não vou confessar à minha gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o público?

— Que público, Sr. Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se de que sua mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.

Pádua enxugou os olhos e foi para casa. Lá viveu alguns dias prostrado, mudo, fechado na alcova. Ou então ficava no quintal, ao pé do poço, como se a ideia da morte não o largasse. D. Fortunata ralhava:

— Joãozinho, você é criança?

Mas ela, de tanto ouvi-lo falar em morte, teve medo. Um dia correu a pedir a minha mãe o favor de ver se salvava o marido, que se queria matar. Minha mãe foi encontrá-lo à beira do poço e lhe ordenou que vivesse. Que maluquice era aquela? Parecia que ia ficar desgraçado por causa de uma gratificação a menos e de um emprego interino perdido! Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a filha... Pádua obedeceu. Confessou que acharia forças para cumprir a vontade de minha mãe.

— Vontade minha, não; é obrigação sua.

— Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.

Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa colado à parede, de cara no chão. Não era mais o homem de antes da administração interina. Aquele andava risonho, de olhos no ar, e estragava o chapéu de tanto cumprimentar a vizinhança. Vieram as semanas, e a ferida foi sarando. Pádua começou a se interessar pelos assuntos da casa e a cuidar dos passarinhos. Dormia tranquilo de noite e de tarde, conversava e dava notícias da rua. A serenidade voltou. Atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de dois amigos que iam jogar o solo, apostando só fichas. Ele já ria, já brincava, tinha o ar de sempre; a ferida sarou de todo.

Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou a falar da administração interina sem saudades do salário e sem vergonha da perda. Falava até com vaidade e orgulho. A administração passou a ser a sua hégira, a data de onde ele contava para a frente e para trás.

— No tempo em que eu era administrador...

Ou então:

— Ah! sim, lembro-me, foi antes da minha administração, um ou dois meses antes... Ora espere; a minha administração começou... É isto, mês e meio antes; foi mês e meio antes, não foi mais.

Ou ainda:

— Justamente; fazia já seis meses que eu administrava...

Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias gritava que era a vaidade que sobrevivia. Mas o padre Cabral levava tudo para a Escritura. Dizia que com o vizinho Pádua acontecia a lição de Elifaz a Jó. «Não desprezes a correção do Senhor; ele fere e cura.»

### Glossário

- **interino**: que está num cargo só por um tempo, no lugar de outra pessoa.
- **repartição**: escritório do governo.
- **contos de réis**: dinheiro antigo do Brasil; dez contos eram uma grande soma.
- **vertigem**: sensação de tontura; aqui, perda da calma por causa do dinheiro.
- **supérfluas**: que não são necessárias.
- **prostrado**: muito fraco e abatido, sem forças para nada.
- **alcova**: quarto pequeno, sem janela para fora.
- **ralhava**: falava alto e com zanga, para corrigir alguém.
- **hégira**: fuga de Maomé para Medina, data que marca o início do calendário muçulmano.

## XVII. Os vermes.

«Ele fere e cura!» Mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez. Tive então certa vontade de escrever uma dissertação sobre esse assunto. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados. Abri-os e comparei-os, examinando o texto e o sentido. Queria achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Procurei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

— Meu senhor — respondeu-me um longo verme gordo —, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos. Nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou odiamos o que roemos; nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Todos os outros, como se tivessem combinado, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

### Glossário

- **vermes**: bichos pequenos e moles, sem pernas; alguns comem o papel dos livros velhos.
- **lança**: arma antiga, de ponta aguda e cabo comprido.
- **dissertação**: texto longo e sério sobre um assunto.
- **oráculo**: resposta que os deuses davam às pessoas, na Antiguidade.
- **pagão**: de religiões antigas, anteriores ao cristianismo, com muitos deuses.
- **israelita**: do povo de Israel, o povo da Bíblia.
- **roídos**: comidos aos poucos, em pedacinhos, como fazem os ratos e os vermes.
- **roemos**: comemos aos poucos, em pedacinhos, como os ratos e os vermes.
- **roer**: comer aos poucos, em pedacinhos, como os ratos e os vermes.
- **roído**: aquilo que foi comido aos poucos, em pedacinhos.
- **cantilena**: conversa ou canto que se repete sempre igual.

## XVIII. Um plano.

Nem o pai nem a mãe vieram até nós, enquanto Capitu e eu falávamos do seminário na sala de visitas. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que notícia era aquela que me fazia sofrer tanto. Quando eu disse o que era, ela ficou da cor da cera.

— Mas eu não quero — disse logo —, não quero entrar em seminários; não entro, é inútil insistirem comigo, não entro.

Capitu, no princípio, não disse nada. Recolheu os olhos para dentro de si e ficou com o olhar vago e surdo, a boca meio aberta, toda parada. Então eu, para dar força às minhas palavras, comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo eu jurava muito e forte, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que me faltasse a luz na hora da morte, se eu fosse para o seminário. Capitu não parecia acreditar nem duvidar; não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas me faltou coragem. Aquela criatura tinha brincado comigo, tinha pulado e dançado comigo. Agora me deixava com os braços presos e cheios de medo. Enfim, voltou a si, mas estava com a cara lívida, e explodiu nestas palavras furiosas:

— Beata! carola! papa-missas!

Fiquei tonto. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela, que eu não podia entender uma explosão tão grande. É verdade que ela também gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira. Isso bastava para explicar a raiva que lhe dava a ameaça da separação. Mas e os insultos? Como entender que ela desse a minha mãe nomes tão feios? E principalmente para atacar costumes religiosos que eram também os dela? Porque ela também ia à missa. Três ou quatro vezes foi minha mãe que a levou, na nossa velha sege. Minha mãe também lhe tinha dado um rosário, uma cruz de ouro e um livro de *Horas*... Quis defendê-la, mas Capitu não deixou. Continuou a chamá-la de beata e carola, em voz tão alta que tive medo de que os pais ouvissem. Nunca a vi tão irritada como naquele momento; parecia pronta a dizer tudo a todos. Apertava os dentes, balançava a cabeça... Eu, assustado, não sabia o que fazer. Repetia os juramentos. Prometia ir naquela mesma noite dizer em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.

— Você? Você entra.

— Não entro.

— Você verá se entra ou não.

Calou-se outra vez. Quando voltou a falar, tinha mudado. Ainda não era a Capitu de sempre, mas quase. Estava séria, sem aflição, e falava baixo. Quis saber a conversa da minha casa. Contei tudo, menos a parte que falava dela.

— E que interesse tem José Dias em lembrar isso? — perguntou no fim.

— Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É um sujeito muito ruim; mas deixe estar, que ele me há de pagar. Quando eu for dono da casa, quem vai para a rua é ele, você verá; não fica nem um instante. Mamãe é boa demais; dá atenção demais a ele. Parece até que chorou.

— José Dias?

— Não, mamãe.

— Chorou por quê?

— Não sei; só ouvi dizer que ela não chorasse, que não era coisa de choro... Ele chegou a se mostrar arrependido, e saiu. Eu então, para não ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas deixe estar, que ele me paga!

Disse isso fechando o punho, e fiz outras ameaças. Quando me lembro delas, não me acho ridículo. A adolescência e a infância não são ridículas nesse ponto; é um dos seus privilégios. Este mal ou perigo começa na juventude, cresce na idade madura e chega ao grau mais alto na velhice. Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não fazer nada.

Capitu refletia. A reflexão não era coisa rara nela, e a gente conhecia esses momentos pelos olhos apertados. Pediu mais alguns detalhes: as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas. Eu não queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ela mesma. Por isso não pude dar a tudo o seu significado completo. A atenção de Capitu estava agora principalmente nas lágrimas de minha mãe; não conseguia entendê-las. No meio disso, confessou que minha mãe certamente não queria me fazer padre por mal. Era a promessa antiga, e minha mãe, que temia a Deus, não podia deixar de cumpri-la. Ela mesma corrigia assim, sem ninguém pedir, os insultos de pouco antes. Fiquei tão satisfeito que peguei a mão dela e a apertei muito. Capitu deixou, rindo. Depois a conversa começou a cochilar e a dormir. Tínhamos chegado à janela. Um preto, que há algum tempo vinha anunciando cocadas, parou em frente e perguntou:

— Sinhazinha, qué cocada hoje?

— Não — respondeu Capitu.

— Cocadinha tá boa.

— Vá embora — disse ela, sem dureza.

— Dê cá! — disse eu, descendo o braço para receber duas.

Comprei as duas, mas tive de comê-las sozinho; Capitu recusou. Vi que, no meio da crise, eu guardava um canto para as cocadas. Isso tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para essas definições. Fiquemos nisto: minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. O preto foi cantando o seu pregão. Era o pregão das velhas tardes, tão conhecido do bairro e da nossa infância:

Chora, menina, chora,  
Chora, porque não tem  
Vintém,

Ao contrário, parece que o pregão lhe deixou uma impressão desagradável. Não era pela melodia; ela a sabia de cor, desde muito tempo. Costumava repeti-la nos nossos jogos de crianças, rindo, pulando, trocando os papéis comigo. Ora vendia, ora comprava um doce que não existia. Creio que foi a letra, feita para picar a vaidade das crianças, que a aborreceu agora. Porque logo depois ela me disse:

— Se eu fosse rica, você fugia, metia-se no paquete e ia para a Europa.

Dito isso, espiou os meus olhos, mas creio que eles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a boa intenção. De fato, o sentimento era tão amigo que eu podia desculpar o extraordinário da aventura.

Como você vê, aos quatorze anos Capitu já tinha ideias ousadas, mas muito menos que outras que vieram depois. Essas ideias eram ousadas só em si mesmas. Na prática ficavam hábeis, cheias de voltas, silenciosas, e alcançavam o fim desejado, não de um salto, mas aos saltinhos. Não sei se me explico bem. Imagine uma ideia grande executada por meios pequenos. Veja o desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. Se pudesse realizá-lo, Capitu não me faria embarcar no paquete e fugir. Estenderia uma fila de canoas daqui até lá. Eu andaria sobre essa ponte móvel e pareceria ir à fortaleza da Laje, mas iria realmente até Bordéus. E minha mãe ficaria na praia, à espera. Assim era o caráter particular da minha amiga. Por isso não admira que ela combatesse os meus projetos de resistência aberta. Preferia os meios suaves: o empenho, a palavra, a persuasão lenta de todos os dias. E examinava antes as pessoas com quem podíamos contar. Rejeitou tio Cosme: era um «boa-vida». Se não aprovava a minha ordenação, não era capaz de dar um passo para impedi-la. Prima Justina era melhor que ele. Melhor que os dois seria o padre Cabral, pela autoridade, mas o padre não iria trabalhar contra a Igreja. Só se eu lhe confessasse que não tinha vocação...

— Posso confessar?

— Pode, sim, mas isso seria aparecer abertamente, e o melhor é outra coisa. José Dias...

— Que tem José Dias?

— Pode ser um bom empenho.

— Mas se foi ele mesmo que falou...

— Não importa — continuou Capitu. — Dirá agora outra coisa. Ele gosta muito de você. Não fale com ele acanhado. O importante é você não ter medo. Mostre que há de ser dono da casa, mostre que quer e que pode. Faça-o entender bem que não é favor. Faça-lhe também elogios; ele gosta muito de ser elogiado. D. Glória presta atenção nele; mas o principal não é isso. O principal é que ele, tendo de servir a você, falará com muito mais calor que outra pessoa.

— Não acho, não, Capitu.

— Então vá para o seminário.

— Isso não.

— Mas o que se perde em experimentar? Experimentemos; faça o que eu digo. D. Glória pode mudar de ideia; se não mudar, faz-se outra coisa, e então se chama o padre Cabral. Você não se lembra como foi ao teatro pela primeira vez, há dois meses? D. Glória não queria, e isso bastava para José Dias não insistir. Mas ele queria ir, e fez um discurso, lembra-se?

— Lembro; disse que o teatro era uma escola de costumes.

— Justo; falou tanto que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada aos dois... Ande, peça, mande. Olhe: diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.

Estremeci de prazer. São Paulo era um biombo frágil, destinado a ser afastado um dia, em vez da parede grossa, espiritual e eterna. Prometi falar a José Dias nos termos que ela propunha. Capitu repetiu as palavras, marcando algumas como as principais. Depois me fazia perguntas, para ver se eu tinha entendido bem e não tinha trocado umas por outras. E insistia em que eu pedisse com boa cara. Mas devia pedir como quem pede um copo de água a uma pessoa que tem obrigação de trazê-lo. Conto estes detalhes para que se entenda melhor aquela manhã da minha amiga. Logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. É como no Gênesis, onde se fizeram sete, um depois do outro.

### Glossário

- **lívida**: muito pálida, sem cor no rosto.
- **beata**: pessoa muito religiosa; aqui é usada como insulto.
- **carola**: pessoa que vai à igreja o tempo todo e exagera na religião.
- **papa-missas**: palavra de insulto para quem vive assistindo a missas.
- **sege**: carro antigo, puxado por animais.
- **cocadas**: doces feitos de coco e açúcar.
- **pregão**: grito ou canto com que um vendedor anuncia na rua o que vende.
- **vintém**: dinheiro antigo do Brasil, de pouco valor.
- **paquete**: navio que levava passageiros e cartas.
- **empenho**: pedido de alguém com influência; também a própria pessoa que faz esse pedido.
- **boa-vida**: pessoa que só quer viver bem, sem esforço.
- **acanhado**: tímido, com vergonha.
- **biombo**: parede leve e fácil de mover, usada para dividir um espaço.

## XIX. Sem falta.

Quando voltei para casa, era noite. Vim depressa, mas não tanto que não pudesse pensar nas palavras que diria ao agregado. Formei o pedido na cabeça. Escolhi as palavras e o tom delas, entre seco e bondoso. Na chácara, antes de entrar em casa, repeti as palavras para mim mesmo, depois em voz alta. Queria ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: «Preciso falar-lhe, *sem falta*, amanhã; escolha o lugar e diga-me.» Disse-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras *sem falta*, como para sublinhá-las. Repeti-as mais uma vez. Então as achei secas demais, quase duras, e, francamente, impróprias de um rapazinho para um homem maduro. Procurei escolher outras, e parei.

Afinal disse a mim mesmo que as palavras podiam servir; o importante era dizê-las num tom que não ofendesse. E a prova é que, repetindo-as de novo, elas saíram quase suplicantes. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito: um meio-termo. «E Capitu tem razão, pensei; a casa é minha, ele é um simples agregado... É habilidoso, pode muito bem trabalhar por mim e desfazer o plano de mamãe.»

### Glossário

- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **chácara**: casa com terreno, árvores e horta.
- **sem falta**: com certeza, de qualquer maneira.
- **sublinhá-las**: dar mais força a certas palavras, para mostrar que são importantes.
- **impróprias**: que não são adequadas para aquela pessoa ou situação.
- **suplicantes**: com o tom de quem pede com humildade.
- **meio-termo**: ponto entre duas coisas opostas.
- **habilidoso**: que sabe conseguir o que quer com jeito.

## XX. Mil padre-nossos e mil ave-marias.

Levantei os olhos para o céu, que começava a ficar nublado, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse para mim mesmo:

— Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias conseguir que eu não vá para o seminário.

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequeno me acostumei a pedir favores ao céu. Em troca, diria orações, se os favores viessem. Disse as primeiras; as outras foram adiadas e, à medida que se amontoavam, iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinquenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantidade das orações. Além disso, cada promessa nova era feita e jurada com a intenção de pagar a dívida antiga. Mas tentem matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço! A vida não a diminuía. O céu me fazia o favor, eu adiava o pagamento. Afinal me perdi nas contas.

— Mil, mil — repeti comigo.

Realmente, o favor que eu pedia agora era imenso. Era nada menos que a salvação ou o naufrágio da minha vida inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse todos os atrasados. Deus, irritado com os esquecimentos, podia muito bem negar-se a me ouvir sem muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino cansem você, se é que não as acha ridículas. Sublimes não eram. Pensei muito no modo de pagar a dívida espiritual. Não achava outra espécie de pagamento em que, pela intenção, tudo se cumprisse. Eu queria fechar a contabilidade da minha consciência moral sem *déficit*. Pensava em mandar dizer cem missas, ou em subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma. Pensava em ir à Terra Santa, e em tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. Tudo isso me vinha à cabeça, mas nada se fixava de vez no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; com certeza eu os feriria. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram muitas, e podiam endividar de novo a minha alma...

### Glossário

- **padre-nossos**: orações cristãs muito conhecidas.
- **ave-marias**: orações católicas a Nossa Senhora.
- **se amontoavam**: ficavam umas sobre as outras, em grande número.
- **peitar**: comprar a vontade de alguém com dinheiro ou presentes.
- **berço**: cama de bebê; aqui, o começo da vida.
- **naufrágio**: perda de um navio no mar; aqui, a ruína da vida.
- **grave**: sério, que não gosta de brincadeiras.
- **sublimes**: muito elevadas, muito nobres.
- **déficit**: o que falta numa conta para ela fechar certa.
- **ladeira**: rua que sobe um morro.

## XXI. Prima Justina.

Na varanda encontrei prima Justina, andando de um lado para outro. Ela veio ao patamar e me perguntou onde eu tinha estado.

— Estive aqui perto, conversando com D. Fortunata, e me distraí. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?

— Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.

A mentira me espantou, e também a franqueza da notícia. Não é que prima Justina fosse de fingimentos. Dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro. Mas confessar que tinha mentido, isso me pareceu novidade. Era uma mulher de uns quarenta anos, magra e pálida, de boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor de minha mãe, e também por interesse. Minha mãe queria ter uma senhora íntima ao seu lado, e preferia uma parenta a uma estranha.

Andamos alguns minutos na varanda, iluminada por um lampião. Ela quis saber se eu tinha esquecido os projetos religiosos de minha mãe. Eu disse que não. Então me perguntou se eu tinha gosto pela vida de padre. Respondi, fugindo da pergunta:

— Vida de padre é muito bonita.

— Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre — explicou, rindo.

— Eu gosto do que mamãe quiser.

— Prima Glória deseja muito que você se ordene. Mas, ainda que não desejasse, há aqui em casa quem lhe meta isso na cabeça.

— Quem é?

— Ora, quem! Quem há de ser? Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu também não.

— José Dias? — concluí.

— Naturalmente.

Enruguei a testa como quem pergunta, como se não soubesse nada. Prima Justina completou a notícia. Disse que naquela mesma tarde José Dias tinha lembrado a minha mãe a promessa antiga.

— Prima Glória pode ser que, com o passar dos dias, vá esquecendo a promessa. Mas como há de esquecer, se uma pessoa está a toda hora no ouvido dela, falando do seminário? E os discursos que ele faz, os elogios da Igreja, e que a vida de padre é isto e aquilo! Tudo com aquelas palavras que só ele conhece, e aquela afetação... Note que é só para fazer mal, porque ele é tão religioso como este lampião. Pois é verdade, ainda hoje. Você não dê a entender que sabe... Hoje à tarde falou como você não imagina.

— Mas falou à toa? — perguntei, para ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha.

Não contou. Fez apenas um gesto, como se houvesse outra coisa que não podia dizer. De novo me recomendou que não desse a entender nada. Depois repetiu todo o mal que pensava de José Dias, e não era pouco. Ele era um intrigante, um bajulador, um especulador e, apesar da casca de educação, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:

— Prima Justina, a senhora era capaz de uma coisa?

— De quê?

— Era capaz de... Suponha que eu não gostasse de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...

— Isso não — cortou ela logo. — Prima Glória tem este negócio firme na cabeça, e nada no mundo a faz mudar de ideia; só o tempo. Você ainda era pequenino, e ela já contava isto a todas as pessoas amigas, ou só conhecidas. Lembrar a ela, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros. Mas também pedir outra coisa, não peço. Se ela me consultasse, bem. Se ela me dissesse: «Prima Justina, você que acha?», eu tinha a minha resposta. Eu diria: «Prima Glória, eu penso que, se ele gosta de ser padre, pode ir. Mas, se não gosta, o melhor é ficar.» É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar com ela sem ser chamada, não faço.

### Glossário

- **patamar**: lugar plano no alto de uma escada.
- **lampião**: lanterna grande que ilumina um lugar.
- **se ordene**: se torne padre.
- **enruguei**: fiz linhas na pele da testa, apertando-a.
- **afetação**: modo de falar ou agir pouco natural, para impressionar.
- **à toa**: sem motivo, sem intenção.
- **denúncia**: o que alguém conta para revelar uma falta de outra pessoa.
- **intrigante**: pessoa que cria problemas entre os outros com o que diz.
- **bajulador**: pessoa que elogia demais, por interesse.
- **especulador**: pessoa que usa tudo em proveito próprio.
- **grosseirão**: homem sem educação.

## XXII. Sensações alheias.

Não consegui mais nada, e no fim me arrependi do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Então, quando eu quis ir para dentro, prima Justina me segurou alguns minutos. Falou do calor e da próxima festa da Conceição, dos meus velhos oratórios, e finalmente de Capitu. Não falou mal dela; ao contrário, deu a entender que ela podia vir a ser uma moça bonita. Eu já a achava lindíssima. Gritaria que era a mais bela criatura do mundo, se o medo não me fizesse discreto. Mas prima Justina começou a elogiar os modos dela, a seriedade e os costumes. Elogiou o trabalho para os seus e o amor que tinha a minha mãe. Tudo isso me animou tanto que também comecei a elogiá-la. Quando não era com palavras, era com um gesto de aprovação a cada frase de prima Justina. E certamente era também com a felicidade que devia iluminar a minha cara. Não percebi que assim confirmava a denúncia de José Dias. Prima Justina a tinha ouvido à tarde, na sala de visitas, se é que já não desconfiava. Só pensei nisso na cama. Só então senti que, enquanto eu falava, os olhos curiosos de prima Justina não saíam de mim. Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. É certo que, depois de algum tempo, ela mudou os elogios a Capitu e até lhe fez algumas críticas. Disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. Mas, mesmo assim, não creio que fossem ciúmes. Creio antes... sim... sim, creio isto. Creio que prima Justina achou, no espetáculo das sensações alheias, uma vaga ressurreição das suas próprias.

### Glossário

- **alheias**: de outras pessoas.
- **festa da Conceição**: festa católica de Nossa Senhora da Conceição, em dezembro.
- **oratórios**: pequenos altares de casa, com imagens de santos.
- **denúncia**: o que alguém conta para revelar uma falta de outra pessoa.
- **pirralho**: menino pequeno, sem importância.
- **quarentona**: mulher de uns quarenta anos.
- **trêfega**: inquieta, que não para quieta.
- **olhava por baixo**: olhava de modo escondido, sem encarar de frente.
- **ressurreição**: volta à vida.

## XXIII. Prazo dado.

— Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o lugar e diga-me.

Creio que José Dias achou estranho esse meu modo de falar. O tom talvez não tenha saído tão imperativo como eu temia, mas as palavras eram. Eu não perguntei, não pedi, não hesitei, como era próprio da criança e do meu estilo de sempre. Isso certamente lhe deu a ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Foi no corredor, quando íamos para o chá. José Dias vinha cheio da leitura de Walter Scott que tinha feito para minha mãe e prima Justina. Lia cantando e com ritmo. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele, e os lagos tinham mais água. A «abóbada celeste» contava alguns milhares a mais de estrelas brilhantes. Nos diálogos, ele mudava o som das vozes. Elas ficavam um pouco grossas ou finas, conforme o sexo de quem falava. E imitava com moderação a ternura e a cólera.

Ao se despedir de mim, na varanda, ele me disse:

— Amanhã, na rua. Tenho umas compras a fazer, você pode ir comigo, pedirei a mamãe. É dia de lição?

— A lição foi hoje.

— Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; afirmo desde já que é matéria grave e pura.

— Sim, senhor.

— Até amanhã.

Tudo se fez o melhor possível. Houve só uma mudança: minha mãe achou o dia quente e não deixou que eu fosse a pé. Entramos no ônibus, à porta de casa.

— Não importa — disse-me José Dias. — Podemos descer à porta do Passeio Público.

### Glossário

- **prazo**: tempo marcado para fazer alguma coisa.
- **imperativo**: que manda, como uma ordem.
- **hesitei**: fiquei em dúvida antes de agir.
- **abóbada celeste**: o céu, visto como um grande teto curvo.
- **cólera**: raiva muito forte.
- **matéria grave**: assunto sério.
- **ônibus**: aqui, carro público puxado por cavalos.
- **Passeio Público**: jardim público do Rio de Janeiro.

## XXIV. De mãe e de servo.

José Dias me tratava com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu, logo que comecei a sair à rua, foi dispensar o meu pajem. Ele mesmo se fez pajem e ia comigo à rua. Cuidava das minhas coisas em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha pronúncia. Aos oito anos, os meus plurais às vezes ficavam sem a terminação certa. Ele os corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para ser perdoado pela correção. Assim ajudava o professor das primeiras letras. Mais tarde, padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada. José Dias assistia às lições, fazia reflexões religiosas e, no fim, perguntava ao padre: «Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?» Chamava-me «um prodígio». Dizia a minha mãe que tinha conhecido antigamente meninos muito inteligentes, mas que eu era melhor que todos. Dizia também que, para a minha idade, eu já tinha um certo número de qualidades morais sólidas. Eu não entendia todo o valor desse outro elogio, mas gostava do elogio; era um elogio.

### Glossário

- **extremos**: cuidados muito grandes, carinho exagerado.
- **servo**: pessoa que serve a outra.
- **pajem**: criado que acompanhava um menino rico.
- **terminação**: a parte final de uma palavra.
- **primeiras letras**: o começo da escola: ler, escrever e contar.
- **doutrina**: os ensinos da Igreja.
- **história sagrada**: as histórias da Bíblia.
- **prodígio**: pessoa extraordinária, muito acima das outras.

## XXV. No Passeio Público.

Entramos no Passeio Público. Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias estavam espalhadas, tristes, no caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para ganhar coragem, falei do jardim:

— Há muito tempo que não venho aqui, talvez um ano.

— Perdoe-me — cortou ele —, não faz três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua; não se lembra?

— É verdade, mas foi tão de passagem...

— Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer você. E ela, que é boa como a mãe de Deus, consentiu. Mas ouça: já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua.

— Mas eu andei algumas vezes...

— Quando era mais jovem; em criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço, e ele vai tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disto. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima. Quanto a ele, não nego que seja honesto, tem um bom emprego, é dono da casa em que mora. Mas honestidade e estima não bastam. E as outras qualidades perdem muito valor com as más companhias dele. Pádua tem uma tendência para gente baixa. Basta cheirar a homem vulgar, e já é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim. Nem porque ria, como riu, há dias, dos meus sapatos gastos no calcanhar...

— Perdão — interrompi, parando —, nunca ouvi que ele falasse mal do senhor. Pelo contrário, um dia, não faz muito tempo, ele falou do senhor a um sujeito, na minha frente. Disse que o senhor era «um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras.»

José Dias sorriu com delícia, mas fez um grande esforço e fechou outra vez o rosto. Depois respondeu:

— Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que eu digo.

Tínhamos voltado a andar. Subimos ao terraço e olhamos para o mar.

— Vejo que o senhor só quer o meu bem — disse eu depois de alguns instantes.

— Pois que outra coisa, Bentinho?

— Neste caso, peço-lhe um favor.

— Um favor? Mande, ordene, o que é?

— Mamãe...

Durante algum tempo não pude dizer o resto, que era pouco e vinha de cor. José Dias perguntou de novo o que era. Sacudia-me com suavidade, levantava o meu queixo e fixava os olhos em mim, ansioso também, como prima Justina na véspera.

— Mamãe quê? O que é que tem mamãe?

— Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre — disse finalmente.

José Dias endireitou-se, pasmado.

— Não posso — continuei, não menos pasmado que ele —, não tenho jeito, não gosto da vida de padre. Estou pronto para tudo o que ela quiser; mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. Estou pronto a ser o que for do agrado dela, até cocheiro de ônibus. Padre, não; não posso ser padre. A carreira é bonita, mas não é para mim.

Todo esse discurso não saiu assim, de uma vez, natural e firme, como pode parecer no texto. Saiu em pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida. Mesmo assim, José Dias ouviu espantado. Certamente não contava com a resistência, por mais tímida que fosse. Mas o que mais o assombrou foi esta conclusão:

— Conto com o senhor para salvar-me.

Os olhos do agregado se abriram muito, as sobrancelhas se arquearam. O prazer que eu pensava dar-lhe com a escolha do protetor não apareceu em nenhum dos músculos. A cara dele inteira era pouca para tanta surpresa. Realmente, o assunto do discurso mostrava em mim uma alma nova; eu mesmo não me conhecia. Mas foi a palavra final que trouxe uma força única. José Dias ficou tonto. Quando os olhos voltaram ao tamanho normal, perguntou:

— Mas o que posso eu fazer?

— Pode muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede muitas vezes os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento...

— São bondades — respondeu, lisonjeado. — São favores de pessoas dignas, que merecem tudo... Aí está! nunca ninguém me ouvirá dizer nada de pessoas assim; por quê? Porque são ilustres e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo. Tenho conhecido famílias distintas; nenhuma pode vencer a sua em nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim, confesso que o tenho, mas é só um. É o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.

— Há de ter também o de proteger os amigos, como eu.

— Em que posso ajudar você, anjo do céu? Não vou convencer sua mãe a desistir de um projeto. Ele é, além de promessa, a ambição e o sonho de longos anos. Mesmo que eu pudesse, é tarde. Ainda ontem ela me fez o favor de dizer: «José Dias, preciso meter Bentinho no seminário.»

Timidez não é moeda tão ruim como parece. Se eu fosse corajoso, é provável que, com a indignação que senti, o chamasse de mentiroso. Mas então precisaria confessar que tinha estado à escuta, atrás da porta, e uma ação valia a outra. Contentei-me em responder que não era tarde.

— Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quiser.

— Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu, senão servi-lo? Que desejo, senão que seja feliz, como merece?

— Pois ainda é tempo. Olhe, não é por preguiça. Estou pronto para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou para São Paulo...

### Glossário

- **vadias**: pessoas que não trabalham e passam o tempo sem fazer nada.
- **cigana**: mulher do povo cigano.
- **oblíqua**: que olha de lado, não de frente.
- **dissimulada**: que esconde o que pensa ou sente.
- **adulação**: elogio exagerado, feito por interesse.
- **estima**: respeito e carinho por alguém.
- **calcanhar**: a parte de trás do pé.
- **pasmado**: muito surpreso, sem saber o que dizer.
- **cocheiro**: homem que conduz um carro puxado por cavalos.
- **mastigado**: aqui, dito com dificuldade, sem clareza.
- **lisonjeado**: contente por ter recebido um elogio.
- **apreço**: valor que se dá a alguém ou a alguma coisa.
- **à escuta**: ouvindo em segredo a conversa dos outros.

## XXVI. As leis são belas.

Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma ideia, uma ideia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se por alguns instantes. Eu tinha os olhos nele; ele tinha voltado os seus para o lado da barra. Como eu insistisse, disse:

— É tarde; mas, para provar que não falta vontade, irei falar com sua mãe. Não prometo vencer, prometo lutar; trabalharei com alma. Deveras, não quer ser padre? As leis são belas, meu querido... Pode ir a São Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe. Há boas universidades por esse mundo afora. Vá para as leis, se essa é a sua vocação. Vou falar com D. Glória, mas não conte só comigo; fale também com seu tio.

— Hei de falar.

— Agarre-se também a Deus, a Deus e à Virgem Santíssima — concluiu, apontando para o céu.

O céu estava meio escuro. No ar, perto da praia, grandes pássaros negros davam voltas, voando ou parados no ar. Desciam até tocar a água com os pés e voltavam a subir, para descer de novo. Mas nem as sombras do céu nem as danças fantásticas dos pássaros me tiravam a atenção de quem falava comigo. Primeiro respondi que sim. Depois me corrigi:

— Deus fará o que o senhor quiser.

— Não blasfeme. Deus é dono de tudo. Ele é, só por si, a terra e o céu, o passado, o presente e o futuro. Peça a ele a sua felicidade, que eu não faço outra coisa... Uma vez que você não pode ser padre, e prefere as leis... As leis são belas, sem falar mal da teologia, que é melhor que tudo. A vida da Igreja é a mais santa... Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade e, ao mesmo tempo que estuda, viajar. Podemos ir juntos. Veremos as terras estrangeiras, ouviremos inglês, francês, italiano, espanhol, russo e até sueco. D. Glória provavelmente não poderá acompanhar você. Mesmo que possa e vá, não vai querer cuidar dos negócios, dos papéis, das matrículas e das hospedarias. Nem vai querer andar com você de um lado para outro... Oh! as leis são belíssimas!

— Está dito; o senhor pede a mamãe que não me meta no seminário?

— Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo do meu coração, se vontade de servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo. Ah! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...

Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambições era voltar à Europa. Falava dela muitas vezes. Mas não conseguia tentar minha mãe nem tio Cosme, por mais que elogiasse os ares e as belezas... Não contava com esta possibilidade de ir comigo e ficar lá durante a eternidade dos meus estudos.

— Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!

### Glossário

- **barra**: entrada de um porto, onde a baía encontra o mar.
- **deveras**: de verdade, realmente.
- **vocação**: talento ou desejo forte para uma profissão ou para a vida religiosa.
- **blasfeme**: fale mal de Deus ou das coisas sagradas.
- **teologia**: estudo de Deus e da religião.
- **matrículas**: inscrições numa escola ou universidade.
- **hospedarias**: casas simples onde os viajantes dormem e comem.
- **pirueta**: volta do corpo feita com um pé só, como numa dança.
- **a bordo**: dentro de um navio; aqui, prontos para a viagem.

## XXVII. Ao portão.

No portão do Passeio, um mendigo nos estendeu a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário. Tirei dois vinténs do bolso e os dei ao mendigo. Ele beijou a moeda. Eu lhe pedi que rezasse a Deus por mim, para que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.

— Sim, meu devoto!

— Chamo-me Bento — acrescentei, para esclarecê-lo.

### Glossário

- **mendigo**: pessoa pobre que pede dinheiro na rua.
- **vinténs**: dinheiro antigo do Brasil, de pouco valor.
- **devoto**: pessoa muito religiosa; também quem gosta muito de um santo.
- **esclarecê-lo**: explicar uma coisa a ele, para que entenda bem.

## XXVIII. Na rua.

José Dias ia tão contente que mudou de homem. Deixou o homem dos momentos graves, como era na rua, e virou o homem flexível e inquieto. Mexia-se todo e falava de tudo. A cada passo me fazia parar diante de uma vitrine ou de um cartaz de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças e recitava monólogos em verso. Fez todos os recados, pagou contas e recebeu aluguéis de casas. Para si mesmo comprou um vigésimo de loteria.

Afinal, o homem duro substituiu o flexível, e ele passou a falar devagar, com superlativos. Eu não vi que a mudança era natural. Tive medo de que ele tivesse mudado a decisão já tomada. Por isso comecei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no ônibus.

### Glossário

- **flexível**: que muda com facilidade; aqui, leve e sem cerimônia.
- **inquieto**: que não fica parado nem calmo.
- **vitrine**: janela de loja onde as coisas ficam à mostra.
- **cartaz**: papel grande colado na rua para anunciar alguma coisa.
- **enredo**: a história de uma peça ou de um livro.
- **recitava**: do verbo "recitar": dizer em voz alta um texto aprendido de memória.
- **monólogos**: falas longas de uma só pessoa no teatro.
- **recados**: pequenos serviços que alguém faz na rua para outra pessoa.
- **vigésimo de loteria**: uma das vinte partes de um bilhete de loteria.
- **superlativos**: palavras que dizem o grau mais alto de uma coisa, como "lindíssimo".
- **ônibus**: carro grande de passageiros; naquele tempo era puxado por animais.

## XXIX. O imperador.

No caminho encontramos o imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos. Os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até o coche imperial passar. Quando voltei ao meu lugar, trazia uma ideia fantástica. Eu iria procurar o imperador, contar-lhe tudo e pedir que ele interviesse. Não contaria esta ideia a Capitu. «Se Sua Majestade pedir, mamãe cede», pensei comigo.

Vi então o imperador me escutando e refletindo. No fim ele dizia que sim, que iria falar com minha mãe. Eu beijava a mão dele, com lágrimas. E logo me achei em casa, à espera, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria. É o imperador! é o imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar. Mas ele não passava: o coche parava à nossa porta, o imperador descia e entrava. Grande agitação na vizinhança: «O imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será?» Nossa família saía para recebê-lo, e minha mãe era a primeira a beijar a mão dele. Então o imperador, todo risonho, pedia a minha mãe que não me fizesse padre. Fazia isso sem entrar na sala, ou entrando; não me lembro bem, os sonhos muitas vezes são confusos. E ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.

— A medicina... por que a senhora não manda ensinar medicina a ele?

— Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...

— Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem se comparar aos melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência. Basta só isto: dar a saúde aos outros, conhecer as doenças, combatê-las, vencê-las... A senhora mesma deve ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não cuidava de si... É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

— Se mamãe quiser.

— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o imperador dava outra vez a mão para beijarmos e saía, acompanhado por todos nós. A rua estava cheia de gente, as janelas lotadas, e havia um silêncio de espanto. O imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados. E para ver o impossível basta um cantinho de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos. Depois o plano se desfez, e voltei-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.

### Glossário

- **coche**: carro grande e rico, puxado por cavalos.
- **interviesse**: do verbo "intervir": entrar num assunto para mudar o que vai acontecer.
- **batedores**: homens a cavalo que vão na frente de uma pessoa importante.
- **piquete de cavalaria**: pequeno grupo de soldados a cavalo.
- **lisonjeada**: contente porque recebeu uma honra ou um elogio.
- **de primeira ordem**: dos melhores, de grande qualidade.
- **Ariosto**: poeta italiano, autor de um longo poema cheio de fantasia.
- **fértil**: que produz muito; aqui, cheia de ideias.

## XXX. O Santíssimo.

Você já deve ter entendido uma coisa. Aquela lembrança do imperador sobre a medicina era apenas uma sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos de quem está acordado são como os outros sonhos. São tecidos pelo desenho das nossas inclinações e das nossas lembranças. Ainda vá que eu fosse para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Eu ia contar estas esperanças a Capitu.

— Parece que vai sair o Santíssimo — disse alguém no ônibus. — Ouço um sino; sim, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!

O recebedor das passagens puxou a correia que ia até o braço do cocheiro. O ônibus parou, e o homem desceu. José Dias virou a cabeça duas vezes, rápido, pegou-me pelo braço e me fez descer com ele. Nós também íamos acompanhar o Santíssimo. De fato, o sino chamava os fiéis para aquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que eu me via num momento tão grave. Obedeci, no começo sem jeito, mas logo depois satisfeito. A razão era menos a caridade do serviço do que o fato de ser um trabalho de homem.

Quando o sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito sem fôlego. Era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Viu-nos e veio nos cumprimentar. José Dias fez um gesto de aborrecido e respondeu apenas com uma palavra seca. Olhava para o padre, que lavava as mãos. Depois, como Pádua falava baixinho com o sacristão, José Dias se aproximou deles. Eu fiz a mesma coisa. Pádua pedia ao sacristão uma das varas do pálio. José Dias pediu uma para si.

— Há só uma disponível — disse o sacristão.

— Pois essa — disse José Dias.

— Mas eu tinha pedido primeiro — arriscou Pádua.

— Pediu primeiro, mas entrou tarde — respondeu José Dias. — Eu já estava aqui. Leve uma tocha.

Pádua, apesar do medo que tinha do outro, insistia em querer a vara, tudo isto em voz baixa e abafada. O sacristão achou um meio de resolver a rivalidade. Ele mesmo pediria a um dos outros seguradores do pálio que cedesse a vara. Ela ficaria com Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim fez; mas José Dias atrapalhou ainda este acordo. Não: havia outra vara disponível, e ele a pedia para mim, «jovem seminarista». Esta distinção cabia a mim com mais direito, dizia ele. Pádua ficou pálido como as tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão me conhecia, porque me via ali com minha mãe aos domingos. Perguntou, curioso, se eu era mesmo seminarista.

— Ainda não, mas vai sê-lo — respondeu José Dias, piscando o olho esquerdo para mim.

Apesar do aviso, fiquei zangado.

— Bem, cedo ao nosso Bentinho — suspirou o pai de Capitu.

Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara. Lembrei-me de que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha. Mas da última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma glória piedosa e risonha. Assim se entende a agitação com que entrara na igreja. Era a segunda vez do pálio, e por isso tratou logo de ir pedi-lo. E nada! Voltava à tocha comum. Era outra vez a interinidade interrompida: o administrador voltava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a vara, mas o agregado me impediu esse ato de generosidade. Pediu ao sacristão que nos pusesse, a ele e a mim, nas duas varas da frente. Assim abriríamos a marcha do pálio.

As opas foram vestidas, as tochas distribuídas e acesas. O padre e o cibório estavam prontos, e o sacristão tinha o hissope e a campainha nas mãos. Então o cortejo saiu à rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma metáfora; não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. De resto, não pude olhar muito tempo para ele, nem para o agregado. José Dias, ao meu lado, erguia a cabeça com ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. Em pouco tempo me senti cansado, e os braços me caíam. Felizmente a casa era perto, na rua do Senado.

A doente era uma senhora viúva, tuberculosa, que tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos. A filha estava chorando à porta do quarto. A moça não era bonita, talvez nem tivesse graça. Os cabelos caíam despenteados, e as lágrimas lhe enrugavam os olhos. Apesar disso, o conjunto falava e tocava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe a comunhão e os santos óleos. O choro da moça aumentou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Fui para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor passava de um para outro, por si mesma. Misturada com a lembrança de minha mãe, doeu-me mais. E quando enfim pensei em Capitu, senti um impulso de soluçar também. Entrei pelo corredor e ouvi alguém me dizer:

— Não chore assim!

A imagem de Capitu ia comigo. Pouco antes, minha imaginação lhe dera lágrimas; agora lhe encheu a boca de riso. Vi-a escrever no muro, falar comigo, andar à volta, com os braços no ar. Ouvi claramente o meu nome, com uma doçura que me deixou tonto de alegria, e a voz era dela. As tochas acesas, tão tristes naquela ocasião, pareciam-me agora um lustre nupcial... O que era lustre nupcial? Não sei. Era alguma coisa contrária à morte, e não vejo outra mais que o casamento. Este novo sentimento me dominou tanto que José Dias veio até mim e me disse ao ouvido, em voz baixa:

— Não ria assim!

Fiquei sério depressa. Era o momento da saída. Peguei a minha vara. Eu já conhecia a distância, e agora voltávamos para a igreja, o que fazia a distância menor. Por isso o peso da vara era bem pequeno. Além disso, o sol lá fora e a animação da rua me alegravam. Os rapazes da minha idade me olhavam cheios de inveja. As devotas chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. Tudo me enchia a alma de uma leveza nova.

Pádua, ao contrário, ia mais humilhado. Apesar de ter sido substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha, da miserável tocha. E no entanto havia outros que também levavam tocha e apenas mostravam a seriedade do ato. Não iam alegres, mas também não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.

### Glossário

- **Santíssimo**: a hóstia consagrada, levada pelo padre a uma pessoa que está morrendo.
- **opas**: capas sem mangas que os homens vestem nas cerimônias da igreja.
- **pálio**: pano levantado sobre varas, que cobre o padre numa procissão.
- **tocha**: vela grande levada na mão.
- **moribundos**: pessoas que estão morrendo.
- **interinidade**: tempo em que uma pessoa ocupa um cargo só por algum tempo, no lugar de outra.
- **cibório**: vaso sagrado onde ficam as hóstias.
- **hissope**: objeto com que o padre joga água benta.
- **santos óleos**: óleo sagrado que o padre põe no doente que vai morrer.
- **lustre nupcial**: grande luz com várias velas, numa festa de casamento.

## XXXI. As curiosidades de Capitu.

Capitu preferia tudo ao seminário. Se a ideia da Europa fosse adiante, a separação seria longa. Mas, em vez de ficar abatida com essa ameaça, ela se mostrou satisfeita. E quando lhe contei o meu sonho imperial, respondeu:

— Não, Bentinho, deixemos o imperador sossegado; fiquemos por ora com a promessa de José Dias. Quando é que ele disse que falaria com sua mãe?

— Não marcou dia. Prometeu que ia ver, que falaria logo que pudesse, e que eu pedisse a Deus.

Capitu quis que eu repetisse todas as respostas do agregado. Quis também as mudanças do gesto e até a pirueta, que eu apenas lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa e atenta. A narração e o diálogo, tudo ela parecia remoer consigo. Também se pode dizer que ela comparava, etiquetava e pregava na memória o meu relato. Esta imagem talvez seja melhor que a outra, mas a melhor de todas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda não disse isso, aí fica. Se já disse, fica também. Há ideias que devem entrar na alma do leitor à força de repetição.

Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vários tipos: explicáveis e sem explicação, úteis e inúteis, umas sérias, outras frívolas. Ela gostava de saber tudo. No colégio, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês, doutrina e trabalhos de agulha. Não aprendeu lá, por exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse. Se não estudou latim com o padre Cabral, foi por causa dele. O padre propôs isso brincando, e acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu me confessou um dia que esta razão acendeu nela o desejo de saber latim. Em compensação, quis aprender inglês com um velho professor, amigo do pai e parceiro dele no solo. Mas não foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.

— Anda apanhar um capotinho, Capitu — dizia ele.

Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui encontrá-la desenhando um retrato a lápis. Dava os últimos traços e me pediu que esperasse, para ver se estava parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda hoje está comigo. Perfeição não era. Ao contrário, os olhos saíram esbugalhados, e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre os outros. Mas ela não tinha nenhuma noção de arte e fizera aquilo de memória em poucos minutos. Por isso achei que era obra de muito mérito; desconte a minha idade e a minha simpatia. Mesmo assim, creio que aprenderia pintura facilmente, como aprendeu música mais tarde. Já então ela namorava o piano da nossa casa, um móvel velho e inútil, guardado só por estimação. Lia os nossos romances e folheava os nossos livros de gravuras. Queria saber das ruínas, das pessoas, das campanhas: o nome, a história, o lugar. José Dias lhe dava essas informações com certo orgulho de erudito. A erudição dele não era muito maior que a sua homeopatia de Cantagalo.

Um dia, Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. O agregado explicou em poucas palavras. Demorou-se um pouco mais em César, com frases de admiração e latim:

— César! Júlio César! Grande homem! *Tu quoque, Brute?*

Capitu não achava bonito o perfil de César, mas as ações citadas por José Dias lhe davam gestos de admiração. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola de seis milhões de sestércios!

— E quanto valia cada sestércio?

José Dias não se lembrava do valor do sestércio e respondeu, entusiasmado:

— É o maior homem da história!

A pérola de César acendia os olhos de Capitu. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que já não usava as joias do retrato. Referia-se ao retrato que estava na sala, com o de meu pai. Nele minha mãe tinha um grande colar, um diadema e brincos.

— São joias viúvas, como eu, Capitu.

— Quando é que a senhora pôs estas?

— Foi nas festas da Coroação.

— Oh! conte-me as festas da Coroação!

Ela já sabia o que os pais lhe haviam contado. Mas achava, naturalmente, que eles conheciam pouco mais do que o que se passou nas ruas. Queria notícias das tribunas da Capela Imperial e dos salões de baile. Nascera muito depois daquelas festas célebres. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade, insistiu um dia em saber o que fora esse acontecimento. Disseram-lhe, e ela achou que o imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. Tudo era matéria para as curiosidades de Capitu: móveis antigos, objetos velhos, costumes, notícias de Itaguaí. Também a infância e a mocidade de minha mãe, um dito daqui, uma lembrança dali, um provérbio de acolá...

### Glossário

- **sossegado**: calmo, em paz.
- **pirueta**: volta rápida do corpo sobre um pé.
- **minuciosa**: que presta atenção a todos os detalhes.
- **remoer**: pensar muitas vezes na mesma coisa.
- **mui particular**: muito especial, diferente das outras; "mui" é forma antiga de "muito".
- **mais mulher do que eu era homem**: ela era mais madura de espírito do que eu.
- **frívolas**: sem importância, pouco sérias.
- **solo**: jogo de cartas.
- **capotinho**: forma carinhosa de "capote", vitória grande no jogo.
- **esbugalhados**: muito abertos e saltados para fora.
- **folheava**: do verbo "folhear": virar as páginas de um livro, olhando aqui e ali.
- **erudito**: pessoa que estudou muito e sabe muitas coisas.
- **erudição**: grande saber que vem de muitos estudos.
- **Tu quoque, Brute?**: "Até tu, Bruto?", em latim; palavras de César quando foi morto.
- **sestércios**: moedas da Roma antiga.
- **sestércio**: uma moeda da Roma antiga.
- **diadema**: joia em forma de pequena coroa, usada na cabeça.
- **Coroação**: festa em que o imperador recebeu a coroa.
- **Maioridade**: ato que declarou o jovem imperador adulto, para ele poder governar.
- **acolá**: lá, naquele lugar mais longe.

## XXXII. Olhos de ressaca.

Tudo era matéria para as curiosidades de Capitu. Passados alguns dias do acordo com o agregado, fui ver a minha amiga. Eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eu perguntasse pela filha.

— Está na sala penteando o cabelo — disse-me. — Vá devagarzinho, para lhe dar um susto.

Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho me traiu. O espelho talvez não tenha sido. Era um espelhinho barato (perdoe a pobreza da coisa), comprado de um mascate italiano. Tinha moldura grosseira e uma argolinha de latão, e estava pendurado na parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, logo que entrei na sala, pente, cabelos, ela toda voou pelos ares. E só ouvi esta pergunta:

— Há alguma coisa?

— Não há nada — respondi. — Vim ver você antes que o padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?

— Eu, bem. José Dias ainda não falou?

— Parece que não.

— Mas então quando fala?

— Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto. Não vai falar logo de uma vez. Vai falar assim por alto e de longe, só um toque. Depois entrará na matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a decisão tomada...

— Que tem, tem — interrompeu Capitu. — E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, ninguém falaria com ela. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. Acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá conseguir...? Ele é ouvido; se, porém... É um inferno isto! Você insista com ele, Bentinho.

— Insisto; hoje mesmo ele há de falar.

— Você jura?

— Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.

Eu tinha me lembrado da definição que José Dias dera deles: «olhos de cigana oblíqua e dissimulada.» Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam ser chamados assim. Capitu deixou que eu os olhasse e examinasse. Só me perguntava o que era, se eu nunca os tinha visto. Não achei nada de extraordinário; a cor e a doçura eu já conhecia. Creio que a demora do exame lhe deu outra ideia da minha intenção. Imaginou que era um pretexto para vê-los mais de perto, com os meus olhos longos e constantes, postos nos dela. Atribuo a isso que eles começassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com uma expressão que...

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me vem nenhuma imagem capaz disso. Nenhuma diz, sem quebrar a dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela expressão nova. Traziam não sei que fluido misterioso e forte. Era uma força que puxava para dentro, como a onda que se retira da praia nos dias de ressaca. Cada vez que eu procurava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, funda e escura. Ameaçava me envolver, me puxar e me tragar.

Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem os seus relógios de pêndulo. Mesmo sem acabar nunca, ela quer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Os bem-aventurados do céu vão conhecer a soma dos tormentos que seus inimigos já sofreram no inferno. Isso vai dobrar o prazer deles. Assim também, os condenados do inferno vão sofrer mais dores. Vão saber a quantidade de delícias que seus inimigos gozaram no céu. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas não estou aqui para corrigir poetas. Estou aqui para contar o que veio depois de um tempo não marcado. Disse a Capitu, para dizer alguma coisa, que era capaz de pentear os cabelos dela, se ela quisesse.

— Você?

— Eu mesmo.

— Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso, sim.

— Se embaraçar, você desembaraça depois.

— Vamos ver.

### Glossário

- **espelhinho**: espelho pequeno.
- **mascate**: vendedor que anda de casa em casa com as suas mercadorias.
- **moldura**: parte que fica em volta de um espelho ou de um quadro.
- **grosseira**: mal feita, sem cuidado.
- **argolinha**: pequeno anel de metal.
- **pendurado**: preso no alto por um ponto, sem se apoiar embaixo.
- **influir**: ter força sobre o que outra pessoa decide.
- **cigana**: mulher do povo cigano.
- **oblíqua**: que olha de lado, não de frente.
- **dissimulada**: que esconde o que pensa ou sente.
- **ressaca**: movimento forte do mar, quando a onda volta da praia e puxa para dentro.
- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como esse movimento do mar.
- **pupilas**: a parte preta no centro do olho.
- **tragar**: engolir; fazer desaparecer para dentro de si.
- **pêndulo**: peça do relógio que balança de um lado para o outro.
- **suplícios**: dores e sofrimentos muito grandes.
- **bem-aventurados**: pessoas felizes que estão no céu.
- **tormentos**: grandes sofrimentos.
- **embaraçar**: dar nós no cabelo, misturar os fios.
- **desembaraça**: do verbo "desembaraçar": tirar os nós do cabelo.

## XXXIII. O penteado.

Capitu virou as costas para mim e ficou de frente para o espelhinho. Peguei o pente e comecei a alisar os cabelos dela, da testa até as últimas pontas. O cabelo era muito comprido. De pé não dava jeito. Você não esqueceu que ela era um nadinha mais alta que eu; mas, mesmo com a mesma altura, não daria. Pedi que ela se sentasse.

— Senta aqui, é melhor.

Ela se sentou. «Vamos ver o grande cabeleireiro», disse-me, rindo. Continuei a alisar os cabelos com muito cuidado e os dividi em duas partes iguais, para fazer as duas tranças. Não as fiz logo, nem depressa, como podem supor os cabeleireiros de profissão. Fiz devagar, devagarinho. O trabalho era atrapalhado, às vezes por falta de jeito, outras de propósito, para desfazer o que estava feito e fazer de novo.

Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu quisesse que não acabassem. Não pedi ao céu que fossem tão longos como os da Aurora. Eu ainda não conhecia essa divindade; os velhos poetas me apresentaram a ela depois. Mas desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. Desejei fazer duas tranças que dessem a volta ao infinito, um número sem nome de vezes. Se isto lhe parecer exagerado, leitor infeliz, é que você nunca penteou uma criatura amada. Digo somente criatura amada, palavra que reúne todas as forças cristãs e pagãs.

Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para amarrar as pontas? Em cima da mesa havia um triste pedaço de fita suja. Juntei as pontas das tranças, prendi-as com um laço e retoquei o trabalho, alargando aqui, achatando ali, até que disse em voz alta:

— Pronto!

— Estará bom?

— Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, Capitu ficou sentada. Não se esqueça de que ela estava de costas para mim. Virou-se, viu como eu a olhava, e ficamos assim a olhar um para o outro.

Capitu levantou-se. Eu recuei até a parede, sem fala. Quando olhei para ela, vi que tinha os olhos no chão. Não tive coragem de dizer nada; mesmo que quisesse, não tinha voz. Confuso, não achava gesto nem impulso que me tirasse da parede. Queria dizer a ela mil palavras doces, e nenhuma saía...

Daquele dia em diante, éramos namorados.

Não mofe dos meus quinze anos, leitor.

### Glossário

- **espelhinho**: espelho pequeno.
- **alisar**: passar o pente para deixar o cabelo liso.
- **nadinha**: muito pouco; só um pouquinho.
- **cabeleireiro**: homem que tem como trabalho pentear e cortar cabelos.
- **tranças**: partes do cabelo cruzadas umas sobre as outras.
- **atrapalhado**: feito com confusão e sem jeito.
- **Aurora**: deusa antiga da luz da manhã.
- **todos os séculos dos séculos**: para sempre; expressão das orações.
- **retoquei**: do verbo "retocar": fazer pequenas mudanças para melhorar um trabalho.
- **alargando**: do verbo "alargar": deixar mais largo.
- **mofe**: do verbo "mofar": rir de alguém, zombar.

## XXXIV. Sou homem!

Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu ficou calma depressa, tão depressa que, quando a mãe apareceu à porta, ela balançava a cabeça e ria. Não havia nela nenhuma palidez, nenhum sinal de vergonha. Era um riso espontâneo e claro, que ela explicou com estas palavras alegres:

— Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. Pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!

— Que tem? — disse logo a mãe, cheia de bondade. — Está muito bem, ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear.

— O quê, mamãe? Isto? — respondeu Capitu, desfazendo as tranças. — Ora, mamãe!

E com um aborrecimento gracioso e voluntário que às vezes tinha, pegou o pente. Alisou os cabelos para refazer o penteado. D. Fortunata chamou-a de tonta. Disse-me que não ligasse, não era nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ela. Depois, parece-me que desconfiou. Viu-me calado, sem jeito, colado à parede. Achou talvez que havia entre nós algo mais que penteado. E sorriu, para disfarçar...

Como eu queria falar também, para disfarçar o meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro. Elas vieram logo, mas todas ao mesmo tempo, e encheram-me a boca, sem que nenhuma pudesse sair. Uma exclamação, um simples artigo, por mais força que fizessem, não conseguiam sair. E todas as palavras voltaram para o coração. Murmuravam: «Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por pouco que as emoções o dominem...»

Assim, surpreendidos pela mãe, éramos dois e contrários: ela escondia com a palavra o que eu mostrava com o silêncio. D. Fortunata me tirou daquela hesitação. Disse que minha mãe mandara me chamar para a lição de latim, porque o padre Cabral estava à minha espera. Era uma saída. Despedi-me e entrei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava as maneiras da filha, mas a filha não dizia nada.

Corri ao meu quarto e peguei os livros, mas não passei para a sala da lição. Sentei-me na cama, lembrando o penteado e pensando que agora eu era namorado de Capitu. Estava muito nervoso. Tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas à minha volta. Vivia não sei onde nem como. E voltava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão. Ouvia algum som de fora, vago, próximo ou distante. Logo perdia tudo de novo e só pensava nisto: Capitu e eu éramos namorados. De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:

— Sou homem!

Supus que alguém tivesse ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e corri à porta do quarto. Não havia ninguém fora. Voltei para dentro e, baixinho, repeti que era homem. Ainda hoje tenho o eco nos ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não teve gosto maior ao descobrir a América; perdoe a banalidade, porque a comparação cabe bem. De fato, há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro. Fiz outras descobertas mais tarde; nenhuma me deslumbrou tanto. A denúncia de José Dias me agitara, a lição do velho coqueiro também. A vista dos nossos nomes, abertos por ela no muro do quintal, me deu um grande abalo, como você viu. Nada disso valeu a certeza de que éramos namorados. Aquilo tudo podia ser mentira ou ilusão. Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não a verdade viva. Até as nossas mãos, tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.

— Sou homem!

Quando repeti isto pela terceira vez, pensei no seminário. Mas pensei como se pensa num perigo que já passou, um mal evitado, um pesadelo extinto. Meu coração e minha cabeça me disseram que homens não são padres. Talvez eu abuse um pouco destas lembranças; mas a saudade é isto mesmo: é o passar e repassar das memórias antigas. Ora, de todas as lembranças daquele tempo, creio que a mais doce é esta. É a mais nova, a mais completa, a que me revelou inteiramente a mim mesmo. Tenho outras, vastas e numerosas, doces também, de vários tipos, muitas intelectuais, igualmente intensas. Por grande homem que eu fosse, a lembrança seria menor que esta.

### Glossário

- **tonta**: pessoa boba, que faz coisas sem pensar.
- **maluquices**: coisas sem juízo.
- **censurava**: do verbo "censurar": dizer que uma pessoa agiu mal.
- **banalidade**: coisa muito comum, que todo mundo já disse.
- **encoberto**: escondido, ainda não descoberto.
- **almirante**: chefe de navios; aqui lembra Colombo, que chegou à América em outubro.
- **coqueiro**: árvore alta que dá coco.
- **abalo**: emoção muito forte.

## XXXV. O protonotário apostólico.

Enfim, peguei os livros e corri para a lição. Na verdade, não corri exatamente. No meio do caminho parei, porque devia ser muito tarde, e podiam ler alguma coisa no meu rosto. Pensei em mentir. Podia dizer que tinha sentido uma tontura e caído no chão. Mas o susto que isso daria a minha mãe me fez desistir da ideia. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. Mas eu já tinha outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos ver. Continuei a andar e ouvi vozes alegres. Conversavam alto. Quando entrei na sala, ninguém brigou comigo.

Padre Cabral tinha recebido na véspera um recado do internúncio. Foi falar com ele e soube a notícia: por decreto do papa, acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Esta distinção do papa lhe deu grande contentamento, e a todos os nossos também. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. Era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos, acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios e internúncios. Mas o que era um protonotário apostólico? Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria, mas só as honras do cargo. Tio Cosme sentia que ele mesmo subia com o seu parceiro de voltarete, e repetia:

— Protonotário apostólico!

E, voltando-se para mim:

— Prepara-te, Bentinho. Tu podes vir a ser protonotário apostólico.

Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Estava de pé, dava alguns passos, sorria ou batia com os dedos na tampa da sua caixinha. O tamanho do título parecia dobrar a sua grandeza. Mas, para juntar ao nome, era comprido demais. Foi tio Cosme que fez esta segunda reflexão. Padre Cabral respondeu logo que não era preciso dizer tudo. Bastava que o chamassem de protonotário Cabral. O "apostólico" ficava subentendido.

— Protonotário Cabral.

— Sim, tem razão: protonotário Cabral.

— Mas, Sr. protonotário — disse prima Justina, para se ir acostumando ao título —, isto o obriga a ir a Roma?

— Não, D. Justina.

— Não, são só as honras — observou minha mãe.

— Agora, não impede — disse Cabral, que continuava a refletir. — Não impede que, nos casos de maior formalidade, se use o título inteiro: protonotário apostólico. Falo de atos públicos, cartas de cerimônia etc. No uso comum, basta protonotário.

— Justamente — concordaram todos.

José Dias entrou pouco depois de mim. Aplaudiu a distinção e lembrou, a propósito, os primeiros atos políticos de Pio IX, grandes esperanças da Itália. Mas ninguém continuou o assunto. O principal, naquela hora e naquele lugar, era o meu velho mestre de latim. Eu já tinha perdido o medo e achei que devia cumprimentá-lo também. Este aplauso tocou o coração dele tanto como os outros. Bateu-me na bochecha, como um pai, e acabou me dando férias. Era muita felicidade para uma só hora. Uma namorada e férias! Creio que o meu rosto disse isso mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, me chamou de peralta. Mas José Dias corrigiu a alegria:

— Não tem que festejar a vadiação. O latim sempre lhe há de ser preciso, *ainda que não venha a ser padre.*

Reconheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu logo:

— Há de ser padre, e padre bonito.

— Não esqueça, mana Glória, e protonotário também. Protonotário apostólico.

— O protonotário Santiago — destacou Cabral.

Não sei bem se o meu mestre de latim queria ir acostumando os outros ao título junto com o nome. Só sei que, quando ouvi o meu nome ligado a tal título, tive vontade de dizer um desaforo. Mas aqui a vontade foi antes uma ideia, uma ideia sem língua. Ficou quieta e muda, como outras ideias, pouco depois... Mas essas pedem um capítulo especial. Terminemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação, ainda que sem grande interesse. Ele procurava um assunto alheio para parecer esquecido da própria glória. Mas era essa glória que o deslumbrava naquela ocasião. Era um velho magro, sereno, com boas qualidades. Tinha alguns defeitos, e o maior deles era ser guloso. Não era um comilão; comia pouco, mas gostava do fino e do raro. A nossa cozinha era simples, mas era menos pobre que a dele. Assim, minha mãe o convidou para jantar, para brindarem à saúde dele, e ele aceitou. Os olhos com que aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E, para agradar a minha mãe, voltou a falar de mim. Descreveu o meu futuro na Igreja. Queria saber se eu ia para o seminário agora, no ano seguinte. Oferecia-se para falar ao «senhor bispo». E tudo isso vinha enfeitado com o «protonotário Santiago».

### Glossário

- **internúncio**: representante do papa em um país, abaixo do núncio.
- **cúria**: grupo de pessoas que ajudam o papa a governar a Igreja.
- **protonotário apostólico**: título de honra dado pelo papa.
- **voltarete**: jogo de cartas.
- **subentendido**: que não se diz, mas se compreende.
- **peralta**: menino travesso; também rapaz vaidoso.
- **vadiação**: vida sem trabalho e sem estudo.
- **desaforo**: palavra grosseira, sem respeito.
- **ordenação**: cerimônia em que um homem se torna padre.
- **guloso**: que gosta muito de comer coisas boas.

## XXXVI. Ideia sem pernas e ideia sem braços.

Deixei-os, com o pretexto de ir brincar, e fui pensar outra vez naquela manhã. Era o melhor que eu podia fazer, sem latim, e até com latim. Depois de cinco minutos, tive a ideia de ir correndo à casa vizinha para ver Capitu. É isto, vamos, é isto... Ideia só! ideia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito depois é que saíram devagar e me levaram à casa de Capitu. Quando cheguei lá, encontrei-a na sala, na mesma sala, sentada na marquesa, com uma almofada no colo, costurando em paz. Não me olhou de frente, mas às escondidas e com medo. Ou, se você prefere a linguagem do agregado, oblíqua e dissimulada. As mãos pararam, com a agulha presa no pano. Eu, do outro lado da mesa, não sabia o que fazer. E outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastamos alguns minutos compridos. Por fim, ela deixou de todo a costura, levantou-se e esperou. Fui até ela e perguntei se a mãe tinha dito alguma coisa. Respondeu que não. Cuido que fiz um gesto para chegar mais perto. O certo é que Capitu recuou um pouco.

Ideia só! ideia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos. As atitudes de Capitu eram agora tão reservadas que não sei se eu sairia do lugar. Foi ela, entretanto, que me tirou daquela situação.

### Glossário

- **pretexto**: razão falsa que se dá para fazer alguma coisa.
- **marquesa**: sofá antigo e largo, com assento de palhinha.
- **almofada**: saco macio para apoiar o corpo ou um trabalho.
- **colo**: parte de cima das pernas de quem está sentado.
- **às escondidas**: de um modo que os outros não percebem.
- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **oblíqua**: que olha de lado, não de frente.
- **dissimulada**: que esconde o que pensa ou sente.
- **cuido**: penso, suponho.
- **recuou**: deu um passo para trás.
- **reservadas**: fechadas, de quem guarda distância.

## XXXVII. A alma é cheia de mistérios.

— Padre Cabral estava esperando há muito tempo?

— Hoje não dei lição; tive férias.

Expliquei o motivo das férias. Contei também que o padre Cabral tinha falado da minha entrada no seminário, apoiando a decisão de minha mãe. E disse dele coisas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo e acabou me perguntando se podia ir cumprimentar o padre, à tarde, na minha casa.

— Pode, mas para quê?

— Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à casa do padre; é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça — concluiu rindo.

O riso me animou. As palavras pareciam uma brincadeira dela consigo mesma. Achei graça. Peguei de leve na mão direita dela, depois na esquerda, e fiquei assim, espantado e trêmulo. Era a ideia com mãos. Contudo, senti-me forte e corajoso. Não imitava ninguém. Não vivia com rapazes que me ensinassem histórias de amor. Dos romanos, eu sabia apenas que falavam pela gramática do padre Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos.

Capitu recuou e quis tirar as mãos das minhas, mas eu as segurei com força. Eu já fazia esforços para não as soltar, leitor amigo. Ficamos assim, sem barulho. Não perdíamos a cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro. A alma é cheia de mistérios.

Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu, que voltava da repartição um pouco mais cedo, como às vezes fazia. «Abre, Nanata! Capitu, abre!» Aparentemente era o mesmo caso da manhã, quando a mãe nos encontrou. Mas só aparentemente; na verdade, era outro. Considere que, de manhã, os passos de D. Fortunata foram um aviso. Agora estávamos com as mãos presas.

Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno. Era a mãe que abria. Uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga. Pensei nisso e cheguei a tentar. Mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, tirou as mãos das minhas e se afastou. Repito, a alma é cheia de mistérios.

### Glossário

- **meia moça**: quase moça; menina que já está crescendo.
- **trêmulo**: que está tremendo.
- **gramática**: livro com as regras de uma língua.
- **patrícios**: pessoas do mesmo povo ou da mesma terra.
- **recuou**: foi para trás.
- **cautela**: cuidado para evitar um problema.
- **repartição**: escritório do governo.
- **ferrolho**: peça de ferro que fecha uma porta por dentro.

## XXXVIII. Que susto, meu Deus!

Quando Pádua entrou na sala de visitas, vindo pelo interior da casa, Capitu estava de pé, de costas para mim. Inclinada sobre a costura, como se fosse guardá-la, perguntava em voz alta:

— Mas, Bentinho, que é protonotário apostólico?

— Ora, vivam! — exclamou o pai.

— Que susto, meu Deus!

Agora, sim, o caso é o mesmo. Se conto aqui, tais como foram, as duas cenas de há quarenta anos, é para mostrar uma coisa. Capitu não se dominava só na presença da mãe. O pai não lhe meteu mais medo. No meio de uma situação que me prendia a língua, ela falava com a maior inocência deste mundo. Estou convencido de que o coração dela não batia nem mais nem menos. Disse que tinha levado um susto e fez uma cara meio perturbada. Mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Ela foi logo falar com o pai, que apertou a minha mão. Ele quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico. Capitu repetiu o que tinha ouvido de mim. E disse logo que o pai devia ir cumprimentar o padre na casa dele; ela iria à minha. Depois juntou as coisas da costura e entrou pelo corredor, gritando como uma criança:

— Mamãe, jantar, papai chegou!

### Glossário

- **costura**: trabalho de fazer ou consertar roupa com agulha e linha.
- **protonotário apostólico**: título de honra dado pelo papa.
- **Ora, vivam!**: saudação alegre, antiga.
- **se dominava**: controlava o que sentia e mostrava.
- **prendia a língua**: não deixava falar.
- **inocência**: jeito de quem não sabe o mal nem finge.
- **perturbada**: nervosa, sem calma.
- **inveja**: desejo de ter o que outra pessoa tem.

## XXXIX. A vocação.

Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que os menores parabéns valem como poemas. Chega um tempo em que os homens que têm honras recebem os elogios como um imposto comum. Recebem de cara morta, sem agradecer. A alegria da primeira hora é melhor. Nesse estado, a alma vê no arbusto que o vento dobra os parabéns de todas as plantas do mundo. Isso traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outra coisa. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer.

— Obrigado, Capitu, muito obrigado. Gosto de saber que você também está contente. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta; essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de rezas?

Capitu ia respondendo a todas as perguntas, depressa e bem. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade de costume. Parou um instante à porta da sala, antes de ir beijar a mão de minha mãe e do padre. Ela deu ao padre, duas vezes em cinco minutos, o título de protonotário. Por isso, José Dias quis se vingar da concorrência. Fez um pequeno discurso em honra «ao coração paternal e augustíssimo de Pio IX».

— Você é um grande *prosa* — disse tio Cosme, quando ele acabou.

José Dias sorriu sem se envergonhar. Padre Cabral confirmou os elogios do agregado, mas sem os seus superlativos. O agregado acrescentou que o cardeal Mastai, evidentemente, tinha sido feito para a tiara desde o princípio dos tempos. E, piscando o olho para mim, concluiu:

— A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. Elas também são úteis e honradas.

Padre Cabral respondia:

— A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem pode não gostar da igreja e até persegui-la. Um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo. Veja São Paulo.

— Não discuto, mas o que eu digo é outra coisa. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre, cá fora. Pode-se ou não se pode?

— Pode-se.

— Pois então! — exclamou José Dias, em triunfo, olhando em volta de si. — Sem vocação é que não há bom padre. E em qualquer profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.

— Perfeitamente, mas a vocação não vem só do berço.

— Homem, a do berço é a melhor.

— Um moço sem nenhum gosto pela vida da Igreja pode acabar sendo muito bom padre. Basta que Deus o determine. Não me quero dar como modelo, mas aqui estou eu, que nasci com a vocação da medicina. Meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, insistiu com meu pai para me pôr no seminário. Meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tanto gosto pelos estudos e pela companhia dos padres que acabei me ordenando. Mas suponha que não fosse assim, e que eu não mudasse de vocação. O que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber. E são sempre mais bem ensinadas naquelas casas.

Prima Justina interveio:

— Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre?

Padre Cabral respondeu que sim, que se podia. Voltando-se para mim, falou da minha vocação, que era clara. As minhas brincadeiras sempre tinham sido de igreja, e eu adorava os ofícios divinos. A prova não provava nada, pois todas as crianças do meu tempo eram devotas. Cabral acrescentou que tinha contado há pouco a promessa de minha mãe ao reitor de São José. O reitor tinha o meu nascimento por milagre, e ele era da mesma opinião. Capitu, colada às saias de minha mãe, não respondia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava. Também não parecia escutar a conversa sobre o seminário e suas consequências. No entanto, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui à janela, esperando que ela fosse também. Assim podíamos ficar à vontade, sozinhos, até acabar o mundo, se ele acabasse. Mas Capitu não apareceu. Só deixou minha mãe para ir embora. Eram ave-marias, e ela se despediu.

— Vai com ela, Bentinho — disse minha mãe.

— Não precisa, não, D. Glória — respondeu ela rindo. — Eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotário...

— Adeus, Capitu.

Eu tinha dado um passo para atravessar a sala. É claro que o meu dever era atravessá-la de todo. Era também o meu gosto, e o que pediam a idade e a ocasião. Devia seguir a vizinha pelo corredor, descer à chácara, entrar no quintal, falar-lhe ainda uma vez e me despedir. Não me importei com a recusa, que cuidei fingida, e entrei pelo corredor. Mas Capitu, que ia depressa, parou e me fez sinal para voltar. Não obedeci; cheguei perto dela.

— Não venha, não; amanhã falaremos.

— Mas eu queria dizer a você...

— Amanhã.

— Escuta!

— Fica!

Falava baixinho. Pegou na minha mão e pôs o dedo na boca. Uma preta, que veio de dentro acender o lampião do corredor, nos viu naquela posição, quase às escuras. Riu de simpatia e murmurou, em voz que podíamos ouvir, alguma coisa que não entendi nem bem nem mal. Capitu me disse em segredo que a escrava tinha desconfiado, e talvez fosse contar às outras. Mandou de novo que eu ficasse e se retirou. Eu fiquei parado, pregado, agarrado ao chão.

### Glossário

- **arbusto**: planta menor que uma árvore, com muitos galhos.
- **familiaridade**: jeito de quem se sente em casa.
- **paternal**: de pai.
- **augustíssimo**: muito digno de respeito e admiração.
- **prosa**: pessoa que fala muito e gosta de se mostrar.
- **superlativos**: palavras no grau mais alto, como "augustíssimo".
- **tiara**: coroa do papa.
- **eclesiástico**: da Igreja, dos padres.
- **perfeitíssimo**: perfeito no mais alto grau.
- **letras humanas**: estudos de língua, literatura e história.
- **exclamou**: disse em voz alta e com força.
- **coadjutor**: padre que ajuda o padre principal de uma igreja.
- **ofícios divinos**: cerimônias e rezas da Igreja.
- **reitor**: diretor de um seminário ou escola.
- **ave-marias**: hora do fim da tarde, quando se rezava a ave-maria.
- **cuidei**: pensei, supus.
- **lampião**: lâmpada antiga, a óleo ou gás.
- **preta**: palavra antiga para pessoa negra; hoje pode ofender.
- **murmurou**: falou baixo.
- **tinha desconfiado**: tinha suspeitado de alguma coisa.

## XL. Uma égua.

Quando fiquei só, refleti algum tempo e tive uma fantasia. Você já conhece as minhas fantasias. Contei a da visita do imperador. Falei da fantasia desta casa do Engenho Novo, que reproduz a de Matacavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha vida. Era viva, rápida, inquieta. Às vezes era tímida e gostava de empacar. Na maior parte das vezes, era capaz de engolir campos e campos, correndo. Creio ter lido em Tácito que as éguas ibéricas concebiam pelo vento. Se não foi nele, foi em outro autor antigo, que quis guardar essa crendice nos seus livros. Neste ponto, a minha imaginação era uma grande égua ibérica. A menor brisa lhe dava um potro, que logo saía cavalo de Alexandre. Mas deixemos metáforas ousadas e impróprias dos meus quinze anos. Digamos o caso com simplicidade. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe o meu amor, para lhe dizer que não tinha vocação para padre. A conversa sobre vocação me voltava agora inteira. Ao mesmo tempo que me assustava, abria uma porta de saída. «Sim, é isto», pensei. «Vou dizer a mamãe que não tenho vocação e confesso o nosso namoro. Se ela duvidar, conto o que se passou outro dia, o penteado.»

### Glossário

- **empacar**: parar e não querer andar, como um animal teimoso.
- **éguas**: fêmeas do cavalo.
- **ibéricas**: da Península Ibérica, onde ficam Portugal e Espanha.
- **concebiam**: ficavam esperando um filhote.
- **crendice**: crença sem fundamento.
- **potro**: cavalo novo.
- **cavalo de Alexandre**: o cavalo famoso de Alexandre, o Grande.
- **metáforas**: imagens usadas para dizer uma coisa por meio de outra.
- **vocação**: chamado que uma pessoa sente para uma vida ou um trabalho.

## XLI. A audiência secreta.

Esse pensamento me fez ficar mais algum tempo no corredor. Vi entrar o doutor João da Costa, e logo prepararam o voltarete de costume. Minha mãe saiu da sala, me encontrou ali e perguntou se eu tinha acompanhado Capitu.

— Não, senhora, ela foi sozinha.

E, quase avançando para ela:

— Mamãe, eu queria lhe dizer uma coisa.

— O que é?

Muito assustada, quis saber o que me doía, se a cabeça, se o peito, se o estômago. E apalpava a minha testa para ver se eu tinha febre.

— Não tenho nada, não, senhora.

— Mas então o que é?

— É uma coisa, mamãe... Mas, escute, olhe, é melhor depois do chá; logo... Não é nada mau. Mamãe se assusta com tudo; não é coisa de cuidado.

— Não é doença?

— Não, senhora.

— É, sim, é o resfriado que voltou. Disfarças para não tomar suadouro, mas tu estás resfriado; conhece-se pela voz.

Tentei rir, para mostrar que não tinha nada. Ainda assim, ela não deixou adiar a confidência. Pegou em mim, levou-me ao quarto dela, acendeu uma vela e mandou que eu lhe dissesse tudo. Então, para começar, perguntei quando é que eu ia para o seminário.

— Agora só no ano que vem, depois das férias.

— Vou... para ficar?

— Como ficar?

— Não volto para casa?

— Voltas aos sábados e nas férias; é melhor. Quando te ordenares padre, vens morar comigo.

Enxuguei os olhos e o nariz. Ela me acariciou, depois quis me repreender. Mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinha os olhos úmidos. Disse-lhe que eu também sentia a nossa separação. Ela negou que fosse separação. Era só uma ausência por causa dos estudos, e só nos primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres, e acabaria gostando de viver com eles.

— Eu só gosto de mamãe.

Não houve cálculo nesta palavra, mas gostei de dizê-la, porque fazia crer que ela era a minha única afeição. Assim afastava as suspeitas de cima de Capitu. Quantas intenções viciosas embarcam assim, no meio do caminho, numa frase inocente e pura! Isso chega a fazer suspeitar que a mentira é, muitas vezes, tão involuntária como o suor. Por outro lado, leitor amigo, note uma coisa. Eu queria afastar as suspeitas de cima de Capitu, quando tinha chamado minha mãe justamente para confirmá-las. Mas as contradições são deste mundo. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora, anterior ao primeiro pecado. Nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. Isto é, não concluiria da minha súbita oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu, como José Dias lhe dissera. Ficou calada alguns instantes. Depois me respondeu sem imposição nem autoridade, e isso foi me animando a resistir. Daí passei a falar da vocação que tinham discutido naquela tarde, e confessei que não a sentia em mim.

— Mas tu gostavas tanto de ser padre — disse ela. — Não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de São José, com as suas batinas? Em casa, quando José Dias te chamava Reverendíssimo, tu rias com tanto gosto! Como é que agora...? Não creio, não, Bentinho. E depois... Vocação? Mas a vocação vem com o costume — continuou, repetindo as reflexões que tinha ouvido ao meu professor de latim.

Tentei contestá-la, e ela me repreendeu sem dureza, mas com alguma força. Voltei a ser o filho submisso que era. Depois ainda falou, séria e longamente, sobre a promessa que tinha feito. Não me disse as circunstâncias, nem a ocasião, nem os motivos dela, coisas que só vim a saber mais tarde. Afirmou o principal, isto é, que havia de cumpri-la, em pagamento a Deus.

— Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua vida. Não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho. São coisas que não se fazem sem pecado. E Deus, que é grande e poderoso, não me deixaria assim, não, Bentinho. Eu sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é bom e santo. Conheces muitos, como o padre Cabral, que vive tão feliz com a irmã. Um tio meu também foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa de manha, Bentinho.

Creio que os olhos que lancei a ela foram tão queixosos que ela logo corrigiu a palavra. Manha, não, não podia ser manha. Sabia muito bem que eu era amigo dela, e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. Moleza é o que queria dizer. Que eu deixasse de moleza, que me fizesse homem e obedecesse ao meu dever. Era para o bem dela e da minha alma. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco depressa, umas por cima das outras. A voz não lhe saía clara, mas velada e apertada. Vi que a emoção dela era outra vez grande, mas que não recuava dos seus propósitos. Arrisquei perguntar:

— E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa?

— Não, não peço. Estás tonto, Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava?

— Talvez em sonho; eu sonho às vezes com anjos e santos.

— Também eu, meu filho; mas é inútil... Vamos, é tarde; vamos para a sala. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem, irás para o seminário. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando. É bonito, não só para ti, como para o padre Cabral. No seminário têm interesse em te conhecer, porque o padre Cabral fala de ti com entusiasmo.

Ela caminhou para a porta, e saímos os dois. Antes de sair, voltou-se para mim. Quase a vi se atirar nos meus braços e dizer que eu não seria padre. Este já era o seu desejo íntimo, à medida que o tempo se aproximava. Queria um modo de pagar a dívida, outra moeda que valesse tanto ou mais, e não achava nenhuma.

### Glossário

- **voltarete**: jogo de cartas.
- **suadouro**: remédio caseiro para fazer o doente suar.
- **confidência**: coisa que se conta em segredo.
- **te ordenares**: te tornares padre em uma cerimônia da Igreja.
- **cálculo**: plano feito de propósito.
- **cândida**: pura, sem malícia.
- **batinas**: roupas compridas e pretas de padre.
- **manha**: fingimento para conseguir alguma coisa.
- **moleza**: falta de força e de vontade.

## XLII. Capitu refletindo.

No dia seguinte, fui à casa vizinha assim que pude. Capitu estava se despedindo de três amigas que tinham ido visitá-la, Paula e Sancha, colegas de escola. Paula tinha quinze anos, Sancha dezessete. A primeira era filha de um médico, a segunda de um comerciante de objetos americanos. Capitu estava abatida e trazia um lenço amarrado na cabeça. A mãe me contou que era excesso de leitura na véspera. Tinha lido antes e depois do chá, na sala e na cama, até muito depois da meia-noite, e com lamparina...

— Se eu acendesse vela, mamãe se zangava. Já estou boa.

E, como ela soltou o lenço, a mãe disse com timidez que era melhor amarrá-lo. Mas Capitu respondeu que não era preciso, estava boa.

Ficamos sós na sala. Capitu continuou a narração da mãe. Acrescentou que tinha passado mal por causa do que ouvira na minha casa. Eu também contei o que tinha acontecido comigo: a conversa com minha mãe, as minhas súplicas, as lágrimas dela. E, por fim, as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses eu iria para o seminário. Que faríamos agora? Capitu me ouvia com atenção ansiosa, depois sombria. Quando acabei, respirava com dificuldade, como se fosse explodir de raiva, mas se conteve.

Isto aconteceu há tanto tempo que não posso dizer com segurança se ela chorou de verdade. Talvez só tenha secado os olhos. Cuido que só os secou. Vendo o gesto dela, peguei na sua mão para animá-la, mas eu também precisava ser animado. Caímos no canapé e ficamos olhando para o ar. Minto; ela olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi assim... Mas creio que Capitu olhava para dentro de si mesma. Eu olhava de verdade para o chão: as fendas roídas, duas moscas andando e um pé de cadeira lascado. Era pouco, mas me distraía da aflição. Quando tornei a olhar para Capitu, vi que não se mexia. Fiquei com tanto medo que a sacudi de leve. Capitu voltou a si e me pediu que contasse outra vez o que tinha acontecido com minha mãe. Fiz a vontade dela, mas deixei o texto mais leve desta vez, para não a deixar triste. Não me chames dissimulado, chama-me compassivo. É certo que eu tinha medo de perder Capitu, se morressem todas as suas esperanças. Mas doía-me vê-la sofrer. Agora, a verdade última, a verdade das verdades, é que eu já me arrependia de ter falado a minha mãe. Tinha falado antes de qualquer trabalho efetivo de José Dias. Pensando bem, eu não queria ter ouvido uma desilusão que julgava certa, ainda que demorada. Capitu refletia, refletia, refletia...

### Glossário

- **abatida**: fraca e sem ânimo.
- **lamparina**: lâmpada pequena, de luz fraca, a óleo.
- **se zangava**: ficava com raiva.
- **súplicas**: pedidos feitos com muita humildade.
- **faríamos**: íamos fazer.
- **canapé**: sofá antigo.
- **fendas**: aberturas estreitas e compridas.
- **roídas**: gastas, como se algo as tivesse comido aos poucos.
- **lascado**: com um pedaço quebrado.
- **dissimulado**: que esconde o que pensa ou sente.
- **compassivo**: que sente pena do sofrimento dos outros.
- **doía**: causava dor, fazia sofrer.

## XLIII. Você tem medo?

De repente, ela parou de refletir, fixou em mim os olhos de ressaca e me perguntou se eu tinha medo.

— Medo?

— Sim, pergunto se você tem medo.

— Medo de quê?

— Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar...

Não entendi. Se ela me dissesse simplesmente «Vamos embora!», talvez eu obedecesse, talvez não. Em todo caso, entenderia. Mas aquela pergunta assim, vaga e solta, eu não conseguia compreender.

— Mas... não entendo. De apanhar?

— Sim.

— Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?

Capitu fez um gesto de impaciência. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Eu não sabia de mim e não queria perguntar de novo. Comecei a pensar de onde me viriam pancadas, e por quê. Pensei também por que seria preso e quem havia de me prender. Valha-me Deus! Vi na imaginação o aljube, uma casa escura e imunda. Vi também a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. E os olhos de ressaca de Capitu não deixavam de crescer para mim. Cresceram tanto que me fizeram esquecê-las de todo. O erro de Capitu foi não deixar os olhos crescerem infinitamente. Pelo contrário, diminuiu-os até o tamanho normal e lhes deu o movimento de costume. Capitu voltou a ser o que era. Disse que estava brincando, que eu não precisava me afligir. E, com um gesto cheio de graça, bateu-me na cara sorrindo, e disse:

— Medroso!

— Eu? Mas...

— Não é nada, Bentinho. Pois quem é que há de dar pancada em você ou prender você? Desculpe, hoje estou meio maluca. Quero brincar, e...

— Não, Capitu, você não está brincando. Nesta ocasião, nenhum de nós tem vontade de brincar.

— Tem razão, foi só maluquice. Até logo.

— Como até logo?

— A dor de cabeça está voltando. Vou botar uma rodela de limão nas têmporas.

Fez o que disse e amarrou outra vez o lenço na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir. Mas ainda ali ficamos alguns minutos, sentados na borda do poço. Ventava, e o céu estava coberto. Capitu falou de novo da nossa separação, como de um fato certo e definitivo. E falava assim por mais que eu, que temia isso mesmo, procurasse agora razões para animá-la. Quando não falava, Capitu riscava no chão, com um pedaço de taquara, narizes e perfis. Desde que começara a desenhar, era uma das suas diversões. Tudo lhe servia de papel e lápis. Lembrei-me dos nossos nomes, que ela tinha gravado no muro. Por isso quis fazer o mesmo no chão e pedi a taquara. Ela não me ouviu ou não me atendeu.

### Glossário

- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como o movimento forte do mar quando a onda volta.
- **apanhar**: receber pancadas.
- **pancada**: golpe dado em alguém.
- **aljube**: antiga prisão da Igreja no Rio de Janeiro.
- **presiganga**: antigo navio usado como prisão.
- **Casa de Correção**: antiga prisão do Rio de Janeiro.
- **têmporas**: os dois lados da testa, perto dos olhos.
- **taquara**: espécie de bambu.
- **perfis**: desenhos do rosto visto de lado.

## XLIV. O primeiro filho.

— Dê cá, deixe escrever uma coisa.

Capitu olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias: oblíquo e dissimulado. Levantou o olhar, sem levantar os olhos. Com a voz um pouco fraca, perguntou-me:

— Diga-me uma coisa, mas fale a verdade, não quero disfarce. Há de responder com o coração na mão.

— Que é? Diga.

— Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?

— Eu?

Fez-me sinal que sim.

— Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.

— Pois sim, mas eu pergunto. Suponha que você está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer...

— Não diga isso!

— ... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não quiser que você venha. Diga-me, você vem?

— Venho.

— Contra a ordem de sua mãe?

— Contra a ordem de mamãe.

— Você deixa o seminário, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?

— Não fale em morrer, Capitu!

Capitu deu um risinho pálido e incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão. Inclinei-me e li: *mentiroso*.

Tudo aquilo era tão estranho que não achei resposta. Não entendia a razão do que ela tinha escrito, nem a razão do que tinha falado. Se me viesse à cabeça uma ofensa, grande ou pequena, talvez eu a escrevesse também, com a mesma taquara. Mas não me lembrava de nada. Tinha a cabeça vazia. Ao mesmo tempo, fiquei com medo de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se estávamos sós? D. Fortunata tinha chegado uma vez à porta da casa, mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembro-me de que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. Ninguém mais. Ao longe, havia vozes vagas e confusas. Na rua passava um grupo de mulas, com grande barulho. Do lado da casa, cantavam os passarinhos do Pádua. Nada mais, a não ser este fenômeno curioso. O nome escrito por ela me espiava do chão com ar de zombaria. E até me pareceu que ecoava no ar. Tive então uma ideia ruim. Disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e que eu podia aceitá-la sem grande pena. Como vingança, era coisa de criança. Mas eu tinha a esperança secreta de vê-la atirar-se a mim, banhada em lágrimas. Capitu apenas abriu muito os olhos, e acabou por dizer:

— Padre é bom, não há dúvida; melhor que padre só cônego, por causa das meias roxas. O roxo é cor muito bonita. Pensando bem, é melhor cônego.

— Mas não se pode ser cônego sem ser primeiro padre — disse-lhe eu, mordendo os lábios.

— Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova. Avise-me a tempo para eu fazer um vestido da moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A igreja há de ser grande, Carmo ou São Francisco.

— Ou Candelária.

— Candelária também. Qualquer uma serve, contanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer uma grande figura. Muita gente há de perguntar: «Quem é aquela moça elegante que está ali com um vestido tão bonito?» — «Aquela é D. Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavalos...»

— Que morou? Você vai mudar-se?

— Quem sabe onde é que há de morar amanhã? — disse ela, com um tom leve de melancolia. Mas voltou logo ao sarcasmo: — E você no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... *Pater noster*...

Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico, para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus golpes e os dela, a graça de um e a rapidez do outro. Contaria o sangue correndo e o furor na alma, até ao meu golpe final, que foi este:

— Pois sim, Capitu, você ouvirá a minha missa nova, mas com uma condição.

Ao que ela respondeu:

— Vossa Reverendíssima pode falar.

— Promete uma coisa?

— Que é?

— Diga se promete.

— Não sabendo o que é, não prometo.

— Para falar a verdade, são duas coisas — continuei eu, porque me veio outra ideia.

— Duas? Diga quais são.

— A primeira é que você só há de se confessar comigo, para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é que...

— A primeira está prometida — disse ela, vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda.

Foi uma palavra difícil de dizer, e antes não tivesse saído da minha boca. Eu não ouviria o que ouvi. E não escreveria aqui uma coisa que talvez vá encontrar incrédulos.

— A segunda... sim... é que... Promete-me que seja eu o padre que case você?

— Que me case? — disse ela, um tanto comovida.

Logo depois deixou cair os lábios e abanou a cabeça.

— Não, Bentinho — disse. — Seria esperar muito tempo. Você não vai ser padre já amanhã, leva muitos anos... Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.

### Glossário

- **oblíquo**: que olha de lado, não de frente.
- **dissimulado**: que esconde o que pensa ou sente.
- **taquara**: tipo de bambu; aqui, uma vara fina usada para escrever no chão.
- **cônego**: padre de categoria mais alta, ligado a uma catedral.
- **missa nova**: a primeira missa que um padre reza depois de ser ordenado.
- **saia balão**: saia muito larga e redonda, moda daquele tempo.
- **alva**: roupa branca e comprida que o padre veste na missa.
- **Vossa Reverendíssima**: forma de muito respeito para falar com um padre.
- **risinho**: riso pequeno e leve.
- **mulas**: animais de carga, filhos de jumento e égua.
- **espiava**: olhava com atenção, sem ser visto.
- **zombaria**: modo de rir de alguém para o ofender.
- **ecoava**: soava de novo, como um som que volta.
- **banhada**: aqui, coberta de lágrimas.
- **Pater noster**: "Pai nosso", em latim; começo de uma oração.
- **penitência**: o que o padre manda fazer para pagar pelos pecados.
- **absolvição**: perdão dos pecados dado pelo padre.
- **abanou**: moveu de um lado para o outro.

## XLV. Abane a cabeça, leitor.

Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de quem não acredita. Chegue a jogar este livro fora, se o tédio já não o obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se não o fez antes e só o faz agora, confio em que você volte a pegar no livro. Confio em que o abra na mesma página, sem acreditar por isso que o autor diz a verdade. Contudo, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho como se fosse a primeira boneca.

Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio misturado com uma sensação esquisita. Senti um fluido correr por mim. Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu! Queria dizer o casamento dela com outro, e portanto a separação absoluta, a perda, a destruição. Tudo isso produzia tal efeito que não achei palavra nem gesto. Fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...

### Glossário

- **abanar a cabeça**: mover a cabeça de um lado para o outro, para dizer que não.
- **tédio**: sensação de cansaço e falta de interesse.
- **espanto**: grande surpresa.
- **esquisita**: muito estranha.
- **fluido**: aqui, uma espécie de corrente estranha que se sente passar pelo corpo.
- **ameaça**: aviso de um mal que pode acontecer.
- **estúpido**: aqui, parado, sem conseguir pensar nem reagir.
- **boneca**: brinquedo com forma de menina ou de bebê.

## XLVI. As pazes.

As pazes foram feitas como a guerra: depressa. Se eu buscasse neste livro a minha glória, diria que as negociações partiram de mim. Mas não, foi ela que as começou. Alguns instantes depois, como eu estava de cabeça baixa, ela também baixou a cabeça. Mas voltou os olhos para cima, para ver os meus. Fiz-me de rogado. Depois quis levantar-me para ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitu pôs em mim uns olhos tão ternos, e a posição os fazia tão suplicantes, que eu fiquei. Ela pegou-me na ponta dos dedos.

Outra vez D. Fortunata apareceu à porta da casa. Não sei para quê, porque desapareceu logo. Podia ser um simples alívio da consciência, uma cerimônia, como as rezas de obrigação, sem devoção, que se dizem depressa. A não ser que fosse para confirmar com os próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia.

Fosse o que fosse, foi assim que fizemos as pazes. O bonito é que agora cada um de nós queria a culpa para si, e pedíamos perdão um ao outro. Capitu dava como razão a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito e, finalmente, «os seus calundus». Eu, que chorava muito naquele tempo, sentia os olhos molhados... Era amor puro, era o efeito dos sofrimentos da amiguinha, era a ternura da reconciliação.

### Glossário

- **pazes**: o fim de uma briga, quando duas pessoas voltam a ficar bem.
- **negociações**: conversas para chegar a um acordo.
- **fazer-se de rogado**: fingir que não quer, para que o outro insista.
- **suplicantes**: que pedem com humildade e muita vontade.
- **rezas de obrigação**: orações que se dizem por dever, sem sentir.
- **insônia**: dificuldade de dormir.
- **abatimento**: tristeza e falta de força.
- **calundus**: mau humor, tristeza sem razão clara.

## XLVII. «A senhora saiu.»

— Está bom, acabou — disse eu finalmente. — Mas explique-me só uma coisa: por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar?

— Não foi por nada — respondeu Capitu, depois de alguma hesitação. — Para que mexer nisso?

— Diga assim mesmo. Foi por causa do seminário?

— Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não? Eu também não creio.

A explicação me agradou; não tinha outra. Se, como penso, Capitu não disse a verdade, é preciso reconhecer que não podia dizê-la. E a mentira é como certas criadas. Elas correm a dizer às visitas que «a senhora saiu», quando a senhora não quer falar com ninguém. Há nessa cumplicidade um gosto particular. O pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas. Isso sem contar o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as costas delas quando descem a escada... A verdade não saiu; ficou em casa, no coração de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci triste nem zangado. Achei a criada graciosa, melhor que a patroa.

As andorinhas vinham agora em sentido contrário, ou talvez não fossem as mesmas. Nós é que éramos os mesmos. Ali ficamos somando as nossas ilusões, os nossos temores, e começando já a somar as nossas saudades.

### Glossário

- **apanhar**: receber golpes como castigo.
- **pancada**: golpe dado em alguém.
- **criadas**: mulheres que trabalham nos serviços de uma casa.
- **cumplicidade**: acordo entre pessoas que fazem juntas algo errado.
- **cochilando**: dormindo um sono leve.
- **patroa**: dona da casa, a mulher para quem a criada trabalha.
- **andorinhas**: pequenos pássaros que voam em grupo.
- **temores**: medos.

## XLVIII. Juramento do poço.

— Não! — exclamei de repente.

— Não quê?

Tinha havido alguns minutos de silêncio, em que pensei muito e acabei por ter uma ideia. Mas o tom da exclamação foi tão alto que assustou a minha vizinha.

— Não há de ser assim — continuei. — Dizem que não estamos em idade de casar, que somos crianças, criançolas. Já ouvi dizer criançolas. Bem; mas dois ou três anos passam depressa. Você jura uma coisa? Jura que só há de casar comigo?

Capitu não hesitou em jurar, e até lhe vi o rosto vermelho de alegria. Jurou duas vezes e uma terceira:

— Ainda que você case com outra, cumprirei o meu juramento, não casando nunca.

— Que eu case com outra?

— Tudo pode ser, Bentinho. Você pode achar outra moça que goste de você, apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião?

— Mas eu também juro! Juro, Capitu, juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Basta isto?

— Devia bastar — disse ela. — Eu não me atrevo a pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos de outro modo; juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.

Você compreende a diferença. Era mais que escolher o cônjuge, era afirmar o casamento. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. Realmente, a fórmula anterior era limitada, apenas exclusiva. Podíamos acabar solteirões, como o sol e a lua, sem mentir ao juramento do poço. Esta fórmula era melhor, e tinha a vantagem de fortalecer o meu coração contra a ordenação de padre. Juramos pela segunda fórmula, e ficamos tão felizes que todo o medo de perigo desapareceu. Éramos religiosos, tínhamos o céu por testemunha. Eu já nem temia o seminário.

— Se teimarem muito, irei; mas faço de conta que é um colégio qualquer. Não tomo ordens.

Capitu temia a nossa separação, mas acabou aceitando esta solução, que era a melhor. Não afligiríamos minha mãe, e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse ser feito. Pelo contrário, qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. Esta reflexão não foi minha, mas dela.

### Glossário

- **juramento**: promessa muito séria, feita com Deus por testemunha.
- **criançolas**: crianças já grandes; palavra usada com pouco respeito.
- **haja o que houver**: aconteça o que acontecer.
- **cônjuge**: o marido ou a mulher de alguém.
- **fórmula**: aqui, as palavras certas de um juramento.
- **solteirões**: pessoas que ficam sem casar até velhas.
- **tomar ordens**: receber da Igreja o direito de ser padre.
- **denúncia**: aqui, o que José Dias contou à mãe de Bentinho sobre ele e Capitu.
- **juremos**: façamos um juramento.
- **atrevo**: tenho coragem; "não me atrevo" quer dizer "não tenho coragem".
- **teimarem**: insistirem muito, sem aceitar outra coisa.
- **afligiríamos**: faríamos sofrer, deixaríamos preocupada.

## XLIX. Uma vela aos sábados.

Eis aqui como, depois de tantos cansaços, chegávamos ao porto onde nos devíamos ter abrigado logo. Não nos censures, piloto de má sorte; não se navegam corações como os outros mares deste mundo. Estávamos contentes e começamos a falar do futuro. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela, no campo ou fora da cidade. Viríamos aqui uma vez por ano. Se fosse num subúrbio, seria longe, onde ninguém nos fosse aborrecer. A casa, na minha opinião, não devia ser grande nem pequena, mas um meio-termo. Plantei-lhe flores, escolhi móveis, uma sege e um oratório. Sim, havíamos de ter um oratório bonito, alto, de jacarandá, com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me mais nisto que no resto. Em parte, porque éramos religiosos. Em parte, para compensar a batina que eu ia jogar fora. Mas ainda restava outra parte, que atribuo à intenção secreta e inconsciente de conquistar a proteção do céu. Havíamos de acender uma vela aos sábados...

### Glossário

- **porto**: lugar onde os navios param; aqui, lugar seguro, fim de uma viagem difícil.
- **censures**: critiques, condenes.
- **piloto**: quem conduz um navio.
- **meio-termo**: coisa que fica entre dois extremos.
- **sege**: carro antigo, puxado por animais.
- **oratório**: pequeno móvel com imagens de santos, para rezar em casa.
- **jacarandá**: árvore brasileira de madeira escura e nobre.
- **batina**: roupa longa e preta usada por padres e seminaristas.

## L. Um meio-termo.

Meses depois fui para o seminário de São José. Chorei muito na véspera e naquela manhã. Se eu pudesse contar essas lágrimas, seriam mais que todas as derramadas desde Adão e Eva. Há nisto algum exagero. Mas é bom ser enfático uma vez ou outra, para compensar esta preocupação com a exatidão, que me aflige. Contudo, se eu ficar só com a lembrança da sensação, não estou longe da verdade. Aos quinze anos, tudo é infinito. Realmente, por mais preparado que estivesse, sofri muito. Minha mãe também sofreu, mas sofria com alma e coração. Além disso, o padre Cabral tinha achado um meio-termo: experimentar a minha vocação. Se no fim de dois anos eu não mostrasse vocação eclesiástica, seguiria outra carreira.

— As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. Suponha que a vida do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. Então é que a vontade divina é outra. A senhora não podia pôr em seu filho, antes de nascido, uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou...

Era uma concessão do padre. Dava à minha mãe um perdão antecipado, fazendo o próprio credor perdoar a dívida. Os olhos dela brilharam, mas a boca disse que não. José Dias, como não tinha conseguido ir comigo para a Europa, agarrou-se ao mais próximo. Apoiou a «sugestão do Sr. protonotário»; só lhe parecia que um ano era bastante.

— Estou certo — disse ele, piscando-me o olho. — Dentro de um ano, a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Há de dar um padre de mão cheia. Também, se não vier em um ano...

E a mim, mais tarde, em particular:

— Vá por um ano; um ano passa depressa. Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, como diz o padre. E nesse caso, meu amiguinho, o melhor remédio é a Europa.

Capitu deu-me igual conselho, quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário:

— Minha filha, você vai perder o seu companheiro de criança...

Era a primeira vez que minha mãe lhe dava o nome de *filha*. Este tratamento fez-lhe tão bem que ela nem teve tempo de ficar triste. Beijou-lhe a mão e disse-lhe que já sabia daquilo por mim mesmo. Em particular, animou-me a suportar tudo com paciência. No fim de um ano as coisas estariam mudadas, e um ano andava depressa. Não foi ainda a nossa despedida. Esta foi feita na véspera, de um modo que pede capítulo especial. Digo aqui apenas isto: ao mesmo tempo que nos prendíamos um ao outro, ela ia prendendo minha mãe. Tornou-se mais presente e terna, vivia ao pé dela, com os olhos nela. Minha mãe era simpática por natureza, e igualmente sensível; tanto sofria como se alegrava com qualquer coisa. Começou a achar em Capitu uma porção de graças novas, de dons finos e raros. Deu-lhe um anel dos seus e alguns pequenos presentes. Não aceitou tirar uma fotografia, como a menina lhe pedia, para lhe dar um retrato. Mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco anos, e, depois de algumas hesitações, resolveu dá-la. Os olhos de Capitu, quando recebeu o presente, não se descrevem. Não eram oblíquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, lúcidos. Beijou o retrato com paixão, e minha mãe fez a mesma coisa a ela. Tudo isto me lembra a nossa despedida.

### Glossário

- **meio-termo**: solução que fica entre duas posições opostas.
- **vocação eclesiástica**: chamado interior para a vida de padre.
- **enfático**: que fala com muita força, para dar importância ao que diz.
- **credor**: pessoa a quem se deve alguma coisa.
- **protonotário**: título de honra dado pelo papa; aqui, o padre Cabral.
- **de mão cheia**: muito bom, excelente.
- **miniatura**: retrato pintado em tamanho muito pequeno.
- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como o mar quando a onda volta da praia.

## LI. Entre luz e fusco.

Entre luz e fusco, tudo há de ser breve como esse instante. A nossa despedida também não durou muito. Foi o máximo que pôde, em casa dela, na sala de visitas, antes de acenderem as velas. Foi ali que nos despedimos de uma vez. Juramos novamente que havíamos de casar um com outro, e o aperto de mão selou o contrato, como no quintal. Despedimo-nos como namorados. Talvez eu risque isto na impressão, se até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é que não juremos *em vão* pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminário, porque levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei. Puro entrei na aula de São José, a buscar na aparência a investidura de padre, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.

### Glossário

- **entre luz e fusco**: no fim da tarde, quando já quase não há luz do dia.
- **selou**: confirmou de modo definitivo.
- **contrato**: acordo sério entre duas partes.
- **risque**: apague, passando uma linha sobre o texto escrito.
- **mandamento**: regra que vem de Deus.
- **em vão**: sem razão séria, à toa.
- **cartório**: lugar onde se registram documentos oficiais.
- **investidura**: ato de receber um cargo; aqui, tornar-se padre.

## LII. O velho Pádua.

Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. Veio à nossa casa logo cedo. Minha mãe disse-lhe que fosse falar comigo no quarto.

— Dá licença? — perguntou, metendo a cabeça pela porta.

Fui apertar-lhe a mão; ele abraçou-me com ternura.

— Seja feliz! — disse-me. — Creia que, para mim e para toda a minha gente, ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe disserem outra coisa, não acredite. São intrigas. Também eu, quando me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio... coisa que eu, por esta luz que me ilumina, não desejo, porque são boas pessoas, excelentes pessoas. E eu sou grato às finezas recebidas... Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desunir as famílias, bajuladores baixos, não. Eu sou de outra espécie. Não vivo comendo os jantares dos outros nem morando em casa alheia... Enfim, são os mais felizes!

— Por que falará assim? — pensei. — Naturalmente sabe que José Dias fala mal dele.

— Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, pode contar com a nossa companhia. Não tem muita importância, mas a afeição é imensa, creia. Mesmo que seja padre, a nossa casa está às suas ordens. Quero só que não me esqueça; não esqueça o velho Pádua...

Suspirou e continuou:

— Não esqueça o seu velho Pádua. E, se tem algum trapinho que me deixe de lembrança, um caderno de latim, qualquer coisa, um botão de colete, coisa que já não lhe sirva para nada. O que vale é a lembrança.

Tive um susto. Tinha embrulhado num papel um cacho dos meus cabelos, tão grandes e tão bonitos, cortados na véspera. A intenção era levá-los a Capitu, ao sair. Mas tive a ideia de dá-los ao pai; a filha saberia tomá-los e guardá-los. Peguei no embrulho e dei-o a ele.

— Aqui está, guarde.

— Um cachinho dos seus cabelos! — exclamou Pádua, abrindo e fechando o embrulho. — Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha, para guardá-lo, ou à pequena, que é mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!

Tinha os olhos úmidos de verdade. Levava a cara dos desiludidos. Era como quem gasta em um só bilhete de loteria todas as suas economias de esperanças. E vê sair branco o maldito número, um número tão bonito!

### Glossário

- **intrigas**: histórias contadas para criar problemas entre as pessoas.
- **finezas**: gestos delicados, favores.
- **parasitas**: pessoas que vivem à custa de outras.
- **bajuladores**: pessoas que elogiam muito para ganhar alguma coisa.
- **alheia**: que é de outra pessoa.
- **colete**: peça de roupa sem mangas, usada por cima da camisa.
- **cacho**: porção de cabelo que forma uma curva.
- **sair branco**: não ganhar nenhum prêmio na loteria.
- **ternura**: carinho, amor suave.
- **desfizeram-se**: acabaram, desapareceram.
- **embrulhado**: coberto com papel, formando um pacote.
- **embrulho**: pacote feito com papel.
- **cachinho**: pequeno cacho.
- **desiludidos**: pessoas que perderam a esperança.

## LIII. A caminho!

Fui para o seminário. Poupe-me as outras despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse pouco ou nada. Há pessoas a quem as lágrimas não vêm logo nem nunca; dizem que sofrem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus sofrimentos íntimos. Corrigia os descuidos de minha mãe, fazia-me recomendações, dava ordens. Tio Cosme, quando lhe beijei a mão em despedida, disse-me rindo:

— Anda lá, rapaz, volta-me papa!

José Dias, sério e grave, não dizia nada a princípio. Tínhamos falado na véspera, no quarto dele, onde fui ver se ainda era possível evitar o seminário. Já não era, mas ele me deu esperanças e principalmente me animou muito. Antes de um ano estaríamos a bordo. Como achei o prazo muito curto, ele se explicou.

— Dizem que não é bom tempo para atravessar o Atlântico; vou informar-me. Se não for, iremos em março ou abril.

— Posso estudar medicina aqui mesmo.

José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência e apertou os lábios. Por fim, rejeitou formalmente a ideia.

— Não duvidaria aprovar a ideia — disse ele — se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão alopata. A alopatia é o erro dos séculos, e vai morrer; é o assassinato, é a mentira, é a ilusão. Se lhe disserem que pode aprender lá a parte da ciência comum a todos os sistemas, é verdade. A alopatia é erro na terapêutica. Fisiologia, anatomia e patologia não são alopáticas nem homeopáticas. Mas é melhor aprender logo tudo de uma vez, por livros e pela língua de homens que cultivam a verdade...

Assim tinha falado na véspera, no quarto. Agora não dizia nada, ou pronunciava alguma frase sobre a religião e a família. Lembro-me desta: «Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo.» Quando minha mãe me deu o último beijo: «Quadro amantíssimo!», suspirou ele. Era manhã de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas pediam a bênção: «Bênção, nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!» Na rua, José Dias insistiu nas esperanças:

— Aguente um ano; até lá tudo estará arranjado.

### Glossário

- **a bordo**: dentro de um navio.
- **suspensórios**: tiras que passam pelos ombros e seguram as calças.
- **alopatia**: medicina comum, contrária à homeopatia.
- **terapêutica**: modo de tratar as doenças.
- **homeopáticas**: ligadas à homeopatia, tratamento com doses muito pequenas de remédio.
- **moleques**: antigo: meninos negros escravizados; nesse sentido é ofensivo.
- **nhô**: forma antiga com que pessoas escravizadas falavam com os senhores.
- **vosmecê**: forma antiga e respeitosa de dizer "você".
- **suspirava**: soltava o ar com força, de tristeza ou de cansaço.
- **alopata**: ligada à alopatia.
- **alopáticas**: ligadas à alopatia.
- **amantíssimo**: muito cheio de amor.
- **cochichavam**: falavam muito baixo, um perto do outro.

## LIV. Panegírico de Santa Mônica.

No seminário... Ah! não vou contar o seminário, nem um capítulo me bastaria para isso. Não, senhor meu amigo. Algum dia, sim, talvez eu escreva um resumo do que ali vi e vivi. Falaria das pessoas que conheci, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cinquenta anos, não larga mais. Na mocidade é possível um homem curar-se dela. Sem ir mais longe, aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos, à maneira dos de Junqueira Freire. O livro desse frade poeta era recente. Meu companheiro ordenou-se. Anos depois encontrei-o no coro de São Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.

— Que versos? — perguntou, meio espantado.

— Os seus. Pois não se lembra de que no seminário...

— Ah! — sorriu ele.

Sorriu, e continuou a procurar num livro aberto a hora em que devia cantar no dia seguinte. Confessou-me que não tinha feito mais versos depois de ordenado. Foram cócegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia: a vida cara, um sermão do padre X..., uma paróquia em Minas...

O contrário disso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; basta o caso. Tinha composto um *Panegírico de Santa Mônica*, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Conseguiu licença para imprimi-lo e dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é história velha. O que é mais novo é isto: um dia, em 1882, fui tratar de certo negócio numa repartição da marinha. Ali encontrei este meu colega, agora chefe de uma seção administrativa. Tinha deixado o seminário, tinha deixado as letras, tinha casado e esquecido tudo. Só não esqueceu o *Panegírico de Santa Mônica*, umas vinte e nove páginas, que foi distribuindo pela vida afora. Como eu precisava de algumas informações, fui pedi-las a ele. Seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade; deu-me tudo, claro, certo, abundante. Naturalmente, conversamos do passado, memórias pessoais, casos de estudo, incidentes de nada: um livro, um verbo, um mote. Toda a velha palha saiu cá para fora, e rimos juntos, e suspiramos juntos. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. Ou porque as lembranças eram do seminário, ou porque éramos moços então, traziam um grande poder de felicidade. Por isso, se houve então alguma sombra contrária, não apareceu agora. Ele me confessou que tinha perdido de vista todos os companheiros do seminário.

— Também eu, quase todos. Uma vez ordenados, voltaram naturalmente às suas províncias, e os daqui tomaram paróquias fora.

— Bom tempo! — suspirou ele.

E, depois de refletir um pouco, pôs em mim uns olhos murchos e teimosos e perguntou-me:

— Conservou o meu *Panegírico*?

Não achei o que dizer. Tentei mover os lábios, mas não tinha palavra. Afinal, perguntei:

— Panegírico? Que panegírico?

— O meu *Panegírico de Santa Mônica*.

Não me lembrei logo, mas a explicação devia bastar. Depois de alguns instantes de pesquisa mental, respondi que o tinha conservado por muito tempo, mas as mudanças, as viagens...

— Hei de levar-lhe um exemplar.

Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto. Era um velho folheto de vinte e seis anos, sujo e manchado do tempo, mas sem nenhuma falta. Tinha uma dedicatória manuscrita e respeitosa.

— É o penúltimo exemplar — disse-me. — Agora só me resta um, que não posso dar a ninguém.

E como me viu folhear o opúsculo:

— Veja se se lembra de algum pedaço — disse-me.

Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e constantes. Mas era cortesia, era quase caridade recordar alguma página. Li uma delas, acentuando certas frases, para lhe dar a impressão de que tinham eco na minha memória. Concordou que eram belas, mas preferia outras, e apontou-as.

— Recorda-se bem?

— Perfeitamente. *Panegírico de Santa Mônica*! Como isto me faz voltar aos anos da minha mocidade! Nunca me esqueci do seminário, creia. Os anos passam, os acontecimentos vêm uns sobre os outros, e as sensações também. Vieram amizades novas, que depois também se foram, como é lei da vida... Pois, meu caro colega, nada apagou aquele tempo da nossa convivência: os padres, as lições, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...

Ele, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia. Mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de silêncio. Recolheu os olhos e um suspiro:

— Tem agradado muito este meu *Panegírico*!

### Glossário

- **panegírico**: texto escrito para elogiar alguém.
- **sarna**: doença da pele que faz coçar muito; aqui, vontade que não passa.
- **ordenou-se**: tornou-se padre.
- **coro**: parte da igreja onde se canta.
- **repartição**: escritório do governo.
- **mote**: frase curta usada como tema de versos.
- **opúsculo**: livro muito pequeno.
- **dedicatória**: palavras escritas num livro para oferecê-lo a alguém.
- **frade**: homem religioso que vive numa ordem, como os franciscanos.
- **cócegas**: sensação na pele que faz rir ou dá vontade de coçar.
- **coçou-se**: passou as unhas na pele onde sentia cócegas.
- **seminarista**: aluno de um seminário.
- **seminaristas**: alunos de um seminário.
- **suspiramos**: soltamos o ar com força, de saudade.
- **murchos**: sem vida, sem brilho.
- **teimosos**: que insistem e não desistem.
- **penúltimo**: o que vem logo antes do último.
- **folhear**: passar as páginas.
- **acentuando**: aqui, lendo com mais força.

## LV. Um soneto.

Depois de dizer essa palavra, ele apertou as minhas mãos com toda a força de um grande agradecimento. Despediu-se e saiu. Fiquei sozinho com o *Panegírico*. O que as suas folhas me lembraram foi tanto que merece um capítulo ou mais. Antes, porém, vou contar a história de um soneto que nunca fiz, porque eu também tive o meu *Panegírico*. Foi no tempo do seminário, e o primeiro verso é este que você vai ler:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

Como e por que este verso saiu da minha cabeça, não sei. Saiu assim, quando eu estava na cama, como uma exclamação solta. Notei que ele tinha a medida de um verso. Então pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos bem abertos, não me deixou dormir durante uma longa hora ou duas. As cócegas me pediam unhas, e eu me coçava com alma. Não escolhi o soneto logo de início. No começo pensei em outra forma, tanto com rima como em verso solto, mas afinal fiquei com o soneto. Era um poema curto e útil. Quanto à ideia, o primeiro verso ainda não era uma ideia, era uma exclamação. A ideia viria depois. Assim, na cama, enrolado no lençol, comecei a fazer poesia. Eu tinha a agitação da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta. Ia competir com aquele monge da Bahia, revelado pouco antes e então na moda. Eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele tinha dito as suas no claustro. Decorei bem o verso e o repetia em voz baixa para os lençóis. Francamente, eu o achava bonito, e ainda agora não me parece mau:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

Quem era a flor? Capitu, naturalmente. Mas podia ser a virtude, a poesia, a religião. Podia ser qualquer outra ideia que coubesse na metáfora da flor, e flor do céu. Esperei o resto, sempre recitando o verso. Eu me deitava ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo. Por fim fiquei de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então lembrei que os sonetos mais elogiados eram os que terminavam com chave de ouro. Chave de ouro é um desses versos principais, no sentido e na forma. Pensei em fabricar uma dessas chaves, porque o verso final vinha, pela ordem do tempo, depois dos treze anteriores. Assim, dificilmente teria a perfeição louvada. Imaginei que essas chaves eram feitas antes da fechadura. Por isso resolvi compor primeiro o último verso do soneto. Depois de muito suar, saiu este:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento: a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento elevado e nobre. Talvez não fosse novidade, mas também não era vulgar. Ainda agora não explico por que caminho misterioso entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião eu o achei sublime. Recitei a chave de ouro uma e muitas vezes. Depois repeti os dois versos um atrás do outro e me preparei para ligá-los pelos doze do meio. A ideia agora, diante do último verso, me pareceu melhor não ser Capitu. Seria a justiça. Era mais próprio dizer que, na luta pela justiça, talvez se perdesse a vida, mas a batalha ficava ganha. Também pensei em aceitar a batalha no sentido natural e fazer dela a luta pela pátria, por exemplo. Nesse caso, a flor do céu seria a liberdade. Mas o poeta era um seminarista, e este sentido talvez não coubesse tanto como o primeiro. Gastei alguns minutos escolhendo entre um e outro. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei de vez uma ideia nova, a caridade. E recitei os dois versos, cada um a seu modo, um em tom doce e cansado:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

e o outro com grande energia:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

A sensação que tive foi que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, lembrei alguns sonetos célebres. Notei que a maior parte deles era facílima. Os versos saíam uns dos outros, junto com a ideia, tão naturalmente que ninguém podia saber uma coisa. Seria ela que os tinha feito, ou seriam eles que a faziam nascer? Então eu voltava ao meu soneto. Repetia de novo o primeiro verso e esperava o segundo. O segundo não vinha, nem o terceiro, nem o quarto. Não vinha nenhum. Tive alguns ataques de raiva. Mais de uma vez pensei em sair da cama e procurar tinta e papel. Pode ser que, escrevendo, os versos viessem, mas...

Cansado de esperar, tive a ideia de mudar o sentido do último verso. Bastava trocar duas palavras de lugar, assim:

Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

O sentido ficava justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia. Sem praticar a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei novas forças e esperei. Eu não tinha janela. Se tivesse, talvez fosse pedir uma ideia à noite. E quem sabe? Os vaga-lumes, brilhando cá embaixo, talvez fossem para mim como rimas das estrelas. E esta metáfora viva talvez me desse os versos fugitivos, com as suas rimas e os seus sentidos próprios.

Trabalhei em vão. Procurei, catei, esperei, e os versos não vieram. Com o passar do tempo, escrevi algumas páginas em prosa, e agora estou compondo esta narração. Não acho maior dificuldade em escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas eu creio que os sonetos já existem feitos, por uma razão de ordem metafísica. O mesmo vale para as odes, os dramas e as outras obras de arte. Por isso dou estes dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ele pode tentar num domingo, num dia de chuva ou na roça, em qualquer hora de lazer. Talvez o soneto saia. Basta dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.

### Glossário

- **soneto**: poema de catorze versos, com forma fixa.
- **cândida**: branca, pura, inocente.
- **musa**: figura que dá inspiração aos poetas.
- **claustro**: parte fechada de um convento; vida de monge.
- **chave de ouro**: verso final muito bonito, que fecha bem um poema.
- **vaga-lumes**: pequenos insetos que brilham à noite.
- **metafísica**: parte da filosofia que estuda o que está além das coisas físicas.
- **desocupado**: pessoa que não tem nada para fazer.

## LVI. Um seminarista.

Aquele diabo de opúsculo ia me repetindo tudo, com as suas letras velhas e as suas citações latinas. Vi sair daquelas folhas os perfis de muitos seminaristas. Vi os irmãos Albuquerques, por exemplo. Um deles é cônego na Bahia. O outro seguiu medicina, e dizem que descobriu um remédio contra a febre amarela. Vi o Bastos, um magricela, que é vigário em Meia-Ponte, se já não morreu. Luís Borges, apesar de padre, entrou na política e acabou senador do império... Quantas outras caras me olhavam das páginas frias do *Panegírico!* Não, não eram frias. Traziam o calor da juventude nascente, o calor do passado, o meu próprio calor. Eu queria lê-las outra vez. Conseguia entender algum texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que mais curto. Era um encanto ir por ele. Às vezes, sem perceber, eu virava a folha como se estivesse lendo de verdade. Creio que isso acontecia quando os olhos caíam na palavra do fim da página. Então a mão, acostumada a ajudá-los, fazia o seu ofício...

Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com ele podia talvez sentir-se mal, sem saber por onde pegá-lo. Não olhava de frente, não falava claro nem seguido. As mãos não apertavam as dos outros, nem se deixavam apertar, porque os dedos eram finos e curtos. Quando a gente pensava que os tinha entre os seus, já não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que estavam aqui e logo estavam lá. Esta dificuldade em ficar parado foi o maior obstáculo que ele encontrou para aprender os costumes do seminário. O sorriso era instantâneo, mas ele também ria à vontade, com uma risada larga. Uma coisa talvez não fosse tão fugitiva como o resto: a reflexão. Muitas vezes nós o encontrávamos com os olhos metidos em si mesmo, pensando. Sempre nos respondia que meditava algum ponto espiritual, ou que lembrava a lição da véspera. Quando ficou meu amigo íntimo, ele me pedia muitas vezes explicações e repetições em detalhe. Tinha memória para guardar tudo, até as palavras. Talvez esta capacidade prejudicasse alguma outra.

Era três anos mais velho que eu. Era filho de um advogado de Curitiba, parente de um comerciante do Rio, que servia de correspondente ao pai. Este era homem de fortes sentimentos católicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia ele.

— Não é só na beleza que é um anjo, mas também na bondade. Não imagina que boa criatura ela é. Ela me escreve muitas vezes, e vou lhe mostrar as cartas dela.

De fato, eram simples e afetuosas, cheias de carinhos e conselhos. Escobar me contava histórias interessantes dela. Todas mostravam a bondade e o espírito daquela criatura. Eram tais que me fariam capaz de acabar casando com ela, se não fosse Capitu. Ela morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras dele, estive quase a lhe contar logo a minha história. No começo fui tímido, mas ele entrou na minha confiança. Aqueles modos fugitivos paravam quando ele queria, e o ambiente e o tempo os fizeram mais calmos. Escobar foi abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como você sabe, é uma casa assim. Muitas vezes tem janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também há almas fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e com grades, como conventos e prisões. Há também capelas e bazares, simples alpendres ou palácios luxuosos.

Não sei como era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro. O medo é que me impedia a franqueza. Mas, como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar as empurrou e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...

### Glossário

- **opúsculo**: livro muito pequeno.
- **cônego**: padre que tem um cargo numa catedral.
- **vigário**: padre responsável por uma paróquia.
- **magricela**: pessoa muito magra.
- **esbelto**: magro e elegante.
- **fugitivos**: que fogem; que não ficam parados.
- **bazares**: lojas onde se vendem muitas coisas diferentes.
- **alpendres**: pequenos tetos na entrada de uma casa, abertos dos lados.
- **casmurro**: homem calado e fechado.

## LVII. De preparação.

Ah! mas não eram só os seminaristas que iam saindo daquelas folhas velhas do *Panegírico*. Elas me trouxeram também sensações passadas. Eram tantas que eu não poderia contá-las todas sem tirar espaço do resto. Uma dessas, e das primeiras, eu queria contar aqui. A matéria acha termos honestos na nossa língua, que é casta para os castos. Sim, leitora castíssima, como diria o meu finado José Dias, podeis ler o capítulo até ao fim, sem susto nem vexame.

Agora ponho a história em outro capítulo. Por mais cuidado que eu tenha com este, há sempre no assunto alguma coisa menos séria. Ela pede umas linhas de repouso e preparação. Que este capítulo sirva de preparação. E isto é muito, leitor meu amigo. O coração examina o que pode vir, o tamanho dos acontecimentos e o número deles. Então fica robusto e preparado, e o mal é menor mal. Também, se não fica assim nessa hora, não fica nunca. E aqui você verá alguma esperteza minha.

### Glossário

- **panegírico**: discurso que elogia uma pessoa.
- **casta**: pura.
- **castíssima**: muito pura.
- **finado**: morto.
- **podeis ler**: forma antiga de «podem ler».
- **vexame**: vergonha.
- **robusto**: forte.

## LVIII. O tratado.

Aconteceu que, numa segunda-feira, eu voltava para o seminário com José Dias e vi uma senhora cair na rua. Várias pessoas correram para ajudar, mas não tiveram tempo de levantá-la. Ela se ergueu muito envergonhada, sacudiu-se, agradeceu e entrou pela rua próxima.

— Este gosto de imitar as francesas da rua do Ouvidor é evidentemente um erro — dizia-me José Dias. Ele ia andando e comentando a queda. — As nossas moças devem andar como sempre andaram, com a sua calma e paciência. Não com este tique-tique afrancesado...

Quando chegamos à esquina, olhei para a outra rua e vi, ao longe, a nossa desastrada. Ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique...

— Parece que não se machucou — disse eu.

— Tanto melhor para ela, mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos; aquela presteza é manha...

Por alguns dias, a minha imaginação me deu noites ruins. Eu rezava padre-nossos, ave-marias e credos. Por fim, fiz um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação.

### Glossário

- **tratado**: acordo entre duas partes.
- **rua do Ouvidor**: rua elegante do Rio de Janeiro, com lojas de moda.
- **tique-tique**: som de passos curtos e rápidos.
- **afrancesado**: que imita os costumes da França.
- **desastrada**: pessoa a quem aconteceu um acidente.
- **presteza**: rapidez.
- **manha**: truque; jeito esperto de enganar os outros.
- **credos**: orações em que o cristão diz aquilo em que acredita.

## LIX. Convivas de boa memória.

Há dessas lembranças que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia que detestava o conviva que tem boa memória. A vida é cheia desses convivas, e eu talvez seja um deles. Mas a prova de que a minha memória é fraca é esta: não me vem agora o nome desse antigo. Era um antigo, e basta.

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é como alguém que tivesse vivido em hospedarias. Dessas casas ele não guardou nem caras nem nomes, só raras circunstâncias. Quem passa a vida na mesma casa de família tem sempre os mesmos móveis e costumes, pessoas e afetos. Essa pessoa, sim, grava tudo, pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não consigo lembrar a cor das que vesti ontem. Juro só que não eram amarelas, porque detesto essa cor. Mas isso mesmo pode ser esquecimento e confusão.

E antes seja esquecimento que confusão. Eu me explico. Nada se corrige bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Quando leio algum livro desta outra espécie, nunca me aflijo. O que faço, ao chegar ao fim, é fechar os olhos e chamar todas as coisas que não achei nele. Quantas ideias finas me vêm então! Quantas reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas me aparecem agora. Têm as suas águas, as suas árvores, os seus altares. Os generais tiram as espadas que tinham ficado na bainha. Os clarins soltam as notas que dormiam no metal. E tudo marcha com uma alma imprevista.

É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim pode também preencher as minhas.

### Glossário

- **conviva**: pessoa que participa de uma refeição ou festa.
- **pena**: objeto antigo usado para escrever.
- **hospedarias**: casas simples onde os viajantes dormem e pagam por isso.
- **omissos**: que deixam de dizer alguma coisa.
- **bainha**: capa onde se guarda a espada.
- **clarins**: instrumentos de metal usados pelos soldados.
- **falho**: que tem faltas ou defeitos.
- **lacunas**: partes que faltam em um texto.

## LX. Querido opúsculo!

Foi o que fiz com o *Panegírico de Santa Mônica*, e fiz mais. Pus nele não só o que faltava da santa, mas ainda coisas que não eram dela. Você viu o soneto, a senhora da rua, o seminarista Escobar e vários outros. Agora vai ver o mais que naquele dia foi saindo das páginas amarelas do opúsculo.

Querido opúsculo, tu não servias para nada, mas para que serve um velho par de chinelos? Entretanto, muitas vezes há no par de chinelos uma espécie de aroma e calor de dois pés. Gastos e rotos, eles ainda lembram uma pessoa. Ela os calçava de manhã, ao levantar da cama, e os tirava à noite, ao entrar nela. Talvez a comparação não valha, porque os chinelos ainda são uma parte da pessoa e tocaram os seus pés. Então aqui estão outras lembranças: a pedra da rua, a porta da casa, um assobio particular, um pregão de quitanda. Lembro aquele pregão das cocadas que contei no capítulo XVIII.

Justamente, quando contei o pregão das cocadas, fiquei tão cheio de saudades que tive uma ideia. Um amigo, mestre de música, ia escrever as notas, e eu ia colá-las às pernas do capítulo. Depois cortei essas pernas, porque mostrei o trecho a outro músico. Ele me confessou com simplicidade que não achava ali nada que lhe acordasse saudades. O mesmo pode acontecer aos outros profissionais que talvez me leiam. Por isso é melhor poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. Você vê que não pus nada, nem ponho. Já agora creio numa coisa. Os pregões de rua, como os opúsculos de seminário, guardam casos, pessoas e sensações, mas isso não basta. É preciso que a gente os tenha conhecido e sofrido no seu tempo. Sem isso, tudo é calado e sem cor.

Mas vamos ao mais que foi saindo das páginas amarelas.

### Glossário

- **opúsculo**: livro muito pequeno.
- **panegírico**: discurso que elogia uma pessoa.
- **seminarista**: rapaz que estuda no seminário para ser padre.
- **chinelos**: sapatos leves e abertos, para usar em casa.
- **rotos**: rasgados, velhos.
- **assobio**: som agudo que a pessoa faz com os lábios.
- **pregão**: grito com que um vendedor anuncia na rua o que vende.
- **quitanda**: pequena loja de frutas e verduras; também coisas para vender na rua.
- **cocadas**: doces feitos de coco e açúcar.
- **mestre de música**: professor de música.
- **gravura**: imagem impressa em um livro.

## LXI. A vaca de Homero.

O mais foi muito. Vi sair os primeiros dias da separação, duros e opacos. Foram assim apesar das palavras de conforto dos padres e dos seminaristas. Foram assim também apesar das palavras de minha mãe e de tio Cosme, que José Dias trazia ao seminário.

— Todos estão com saudades — disse-me ele —, mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. E qual é ele? — perguntou, escrevendo a resposta nos olhos.

— Mamãe — acudi eu.

José Dias apertou as minhas mãos com alegria e logo pintou a tristeza de minha mãe. Ela falava de mim todos os dias, quase a todas as horas. Ele sempre a aprovava e acrescentava alguma palavra sobre os dons que Deus me dera. O orgulho de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. E ele me contava tudo isso cheio de uma admiração com lágrimas. Tio Cosme também se comovia muito.

— Ontem até aconteceu um caso interessante. Eu disse à Excelentíssima que Deus lhe dera, não um filho, mas um anjo do céu. O doutor ficou tão comovido que só achou um modo de vencer o choro. Fez-me um daqueles elogios de brincadeira que só ele sabe. Nem é preciso dizer que D. Glória enxugou às escondidas uma lágrima. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo!

— Mas, Sr. José Dias, e a minha saída daqui?

— Isso é negócio meu. O que é preciso é a viagem à Europa. Mas ela pode ser feita daqui a um ou dois anos, em 1859 ou 1860...

— Tão tarde!

— Era melhor que fosse este mesmo ano, mas vamos dar tempo ao tempo. Tenha paciência, vá estudando. Não se perde nada em ir sabendo já alguma coisa. Além disso, mesmo não acabando padre, a vida do seminário é útil. Vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia...

Neste ponto — lembro-me como se fosse hoje — os olhos de José Dias brilharam tanto que me encheram de espanto. As pálpebras caíram depois e assim ficaram por alguns instantes. Então se ergueram de novo, e os olhos se fixaram na parede do pátio. Pareciam presos a alguma coisa, se não era a si mesmos. Depois se soltaram da parede e começaram a vagar por todo o pátio. Eu podia compará-lo aqui à vaca de Homero. Ela andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. Não lhe perguntei o que tinha, em parte por timidez. Em parte porque dois professores, um deles de teologia, vinham caminhando na nossa direção. Ao passarem por nós, o agregado, que os conhecia, cumprimentou-os com o respeito devido e pediu notícias minhas.

— Por enquanto nada se pode garantir — disse um deles —, mas parece que dará conta da mão.

— É o que eu lhe dizia agora mesmo — acudiu José Dias. — Conto ouvir-lhe a missa nova. Mas ainda que não chegue a ordenar-se, não pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da existência — concluiu, demorando mais as palavras —, irá ungido com os santos óleos da teologia...

Desta vez o brilho dos olhos foi menor. As pálpebras não caíram, nem as pupilas fizeram os movimentos de antes. Ao contrário, ele era todo atenção e pergunta. Quando muito, um sorriso claro e amigo andava nos seus lábios. O professor de teologia gostou da metáfora e disse isso a ele. José Dias agradeceu e explicou que eram ideias que lhe escapavam na conversa. Não escrevia nem fazia discursos. Eu é que não gostei nada. Assim que os professores se foram, sacudi a cabeça:

— Não quero saber dos santos óleos da teologia. Desejo sair daqui o mais cedo que puder, ou já...

— Já, meu anjo, não pode ser. Mas pode acontecer muito antes do que imaginamos. Quem sabe se neste mesmo ano de 58? Tenho um plano feito e já penso nas palavras com que vou explicá-lo a D. Glória. Estou certo de que ela cederá e irá conosco.

— Duvido que mamãe embarque.

— Veremos. Mãe é capaz de tudo. Mas, com ela ou sem ela, tenho por certa a nossa ida. Não haverá esforço que eu não faça, deixe estar. É preciso paciência. E não faça aqui nada que dê lugar a censuras ou queixas. Muita docilidade e toda a aparência de satisfação. Não ouviu o elogio do professor? É que você tem se comportado bem. Pois continue.

— Mas 1859 ou 1860 é muito tarde.

— Será este ano — respondeu José Dias.

— Daqui a três meses?

— Ou seis.

— Não; três meses.

— Pois sim. Agora tenho um plano que me parece melhor que qualquer outro. É combinar a ausência de vocação religiosa e a necessidade de mudar de ares. Você por que não tosse?

— Por que não tusso?

— Agora não, mas eu vou avisar você para tossir quando for preciso. Aos poucos, uma tossezinha seca e alguma falta de apetite. Eu vou preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. O filho não pode servir à igreja como ela deve ser servida. Então o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O mundo também é igreja para os bons...

Pareceu-me outra vez a vaca de Homero. Este «mundo também é igreja para os bons» parecia outro bezerro, irmão dos «santos óleos da teologia». Mas não dei tempo à ternura materna e respondi:

— Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?

José Dias hesitou um pouco e depois se explicou:

— Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, há meses que desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve umas febres e uma rouquidão... Passou tudo, mas há dias em que está mais pálido. Não digo que já seja o mal, mas o mal pode vir depressa. Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora não quiser ir conosco... ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a tosse há de vir de verdade, melhor é apressá-la... Deixe estar, eu aviso...

— Bem, mas saindo daqui não vou embarcar logo. Saio primeiro, depois cuidamos do embarque. O embarque é que pode ficar para o ano que vem. Não dizem que o melhor tempo é abril ou maio? Pois seja maio. Primeiro deixo o seminário, daqui a dois meses...

E como a palavra estava me arranhando na garganta, dei uma volta rápida e perguntei à queima-roupa:

— Capitu como vai?

### Glossário

- **opacos**: sem brilho, sem luz.
- **seminaristas**: rapazes que estudam no seminário para ser padres.
- **acudi**: respondi depressa.
- **indescritível**: que não se pode descrever com palavras.
- **enxugou**: secou.
- **amantíssimo**: que ama muito.
- **ungido**: tocado com óleo santo, numa cerimônia religiosa.
- **teologia**: estudo de Deus e da religião.
- **pálpebras**: as peles que se fecham sobre os olhos.
- **gemia**: fazia sons baixos de dor.
- **cria**: filhote de um animal.
- **parir**: ter um filho (fala-se sobretudo de animais).
- **dará conta da mão**: fará bem o seu trabalho; terá bom resultado.
- **missa nova**: primeira missa de um padre.
- **ordenar-se**: tornar-se padre numa cerimônia da igreja.
- **pupilas**: os pontos pretos no centro dos olhos.
- **docilidade**: jeito de quem obedece com calma, sem reclamar.
- **tusso**: forma do verbo «tossir» com «eu»: eu tusso.
- **ternura**: amor doce e delicado.
- **hesitou**: ficou em dúvida por um momento.
- **rouquidão**: estado de quem está com a voz fraca e áspera.
- **pálido**: sem cor no rosto.
- **apressá-la**: fazê-la vir mais depressa.
- **à queima-roupa**: de repente e de muito perto, sem preparar.

## LXII. Uma ponta de Iago.

A pergunta era imprudente, no momento em que eu tratava de adiar o embarque. Era o mesmo que confessar que o motivo principal, ou único, da minha aversão ao seminário era Capitu. E fazia crer que a viagem era improvável. Compreendi isso depois que falei. Quis corrigir-me, mas não soube como, nem ele me deu tempo.

— Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...

Creio que empalideci. Pelo menos, senti um frio correr pelo corpo todo. Ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites. Esta notícia produziu em mim aquele efeito, com um bater de coração tão violento que ainda agora penso ouvi-lo. Há algum exagero nisto. Mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes pequenas, que se compensam e se ajustam. Por outro lado, se entendermos que aqui quem ouve não são as orelhas, mas a memória, chegaremos à verdade exata. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueça que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a pedir a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu. Queria saber o que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando. Mas me contive a tempo, e depois outra ideia...

Outra ideia, não: um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Foi isso o que me mordeu quando repeti para mim as palavras de José Dias: «Algum peralta da vizinhança.» Na verdade, eu nunca tinha pensado em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela que a intervenção de um peralta era como uma ideia sem realidade. Nunca me ocorreu que havia peraltas na vizinhança, de várias idades e jeitos, grandes passeadores das tardes. Agora me lembrava que alguns olhavam para Capitu. E eu me sentia tão dono dela que era como se olhassem para mim. Era um simples dever de admiração e de inveja. Estávamos separados pelo espaço e pelo destino, e o mal me aparecia agora não só possível, mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita. Se ela vivia alegre, é que já namorava outro. Iria segui-lo com os olhos na rua, falaria com ele à janela, às ave-marias, trocariam flores.

Tremi, e tive um ímpeto de me atirar pelo portão afora. Queria descer o resto da ladeira, correr, chegar à casa do Pádua, agarrar Capitu e obrigá-la a confessar a verdade. Não fiz nada. Os mesmos sonhos que agora conto não tiveram, naqueles três ou quatro minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados e mal emendados, com o desenho cortado e torto. Eram uma confusão, um turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando voltei a mim, José Dias terminava uma frase. Não ouvi o começo, e o próprio fim era vago: «A conta que dará de si.» Que conta, e quem? Cuidei naturalmente que ele ainda falava de Capitu e quis perguntar-lhe. Mas a vontade morreu ao nascer, como tantas outras gerações de vontades. Limitei-me a perguntar ao agregado quando eu iria a casa ver minha mãe.

— Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?

— Vai no sábado.

— Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar no sábado! Sábado! Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.

### Glossário

- **Iago**: personagem de *Otelo*, de Shakespeare, que faz nascer o ciúme em outro homem.
- **peralta**: rapaz vaidoso que passeia pelo bairro.
- **tontinha**: mocinha sem juízo, que não pensa muito.
- **entranhas**: a parte mais funda do corpo e da alma.
- **ave-marias**: a hora em que começa a anoitecer.
- **ímpeto**: vontade forte e repentina.
- **ladeira**: rua muito inclinada.
- **turbilhão**: movimento forte e confuso, como de um vento que gira.
- **cuidei**: pensei.

## LXIII. Metades de um sonho.

Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos me perseguiam, mesmo quando eu estava acordado. Não vou contá-los aqui, para não alongar esta parte do livro. Vou pôr um só, com o menor número de palavras possível. Ou melhor, vou pôr dois, porque um nasceu do outro. A não ser que os dois formem duas metades de um só. Tudo isto é obscuro, dona leitora. Este livro seria talvez um simples sermão de paróquia, se eu fosse padre. Seria uma carta pastoral, se eu fosse bispo, ou uma encíclica, se eu fosse papa. Era o que tio Cosme me tinha recomendado: «Anda lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! Por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, que foi tenente e imperador, todos os destinos cabem neste século.

Quanto ao sonho, foi isto. Eu estava espiando os peraltas da vizinhança, e vi um deles conversando com a minha amiga, junto à janela. Corri até lá, e ele fugiu. Avancei para Capitu, mas ela não estava sozinha. O pai estava ao lado dela, enxugando os olhos e olhando um triste bilhete de loteria. Aquilo não me pareceu claro, e eu ia pedir uma explicação, mas ele mesmo a deu. O peralta tinha ido levar-lhe a lista dos prêmios da loteria, e o bilhete tinha saído branco. Tinha o número 4004. Ele me disse que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela. Provavelmente a roda tinha andado mal, porque era impossível que o bilhete não devesse ter a sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu me dava com os olhos todas as sortes, grandes e pequenas. E aqui entra a segunda parte do sonho. Pádua desapareceu, como as suas esperanças no bilhete. Capitu se inclinou para fora, e eu olhei depressa pela rua, que estava deserta. Peguei nas mãos dela, resmunguei não sei que palavras, e acordei sozinho no dormitório.

O interesse do que você acabou de ler não está na matéria do sonho. Está nos esforços que fiz para dormir de novo e pegar o sonho outra vez. Nunca, nunca mesmo você poderá saber a energia e a teimosia com que fechei os olhos. Eu os apertava bem, tentava esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho me fez perder o sono até a madrugada. De madrugada consegui dormir. Mas então não veio nada: nem peraltas, nem bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas, nada de nada. Não sonhei mais naquela noite, e dei mal as lições daquele dia.

### Glossário

- **carta pastoral**: carta que um bispo escreve aos fiéis.
- **encíclica**: carta que o papa escreve a toda a Igreja.
- **peraltas**: rapazes vaidosos que passeiam pelo bairro.
- **saído branco**: diz-se do bilhete de loteria que não ganhou nenhum prêmio.
- **sorte grande**: o maior prêmio da loteria.
- **simetria**: igualdade entre as duas metades de uma coisa.
- **algarismos**: os sinais com que se escrevem os números.
- **resmunguei**: falei baixo, de um modo que mal se entendia.

## LXIV. Uma ideia e um escrúpulo.

Ao reler o capítulo passado, tive uma ideia e um escrúpulo. O escrúpulo é justamente o de escrever a ideia, porque não há outra mais banal na terra. Mas é a banalidade do sol e da lua, que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. Deixei o manuscrito e olhei para as paredes. Você sabe que esta casa do Engenho Novo é uma cópia da minha antiga casa de Matacavalos. Tem as mesmas medidas, a mesma disposição e as mesmas pinturas. E, como lhe disse no capítulo II, imitei a outra casa para ligar as duas pontas da vida. Aliás, não consegui. Pois o mesmo aconteceu com aquele sonho do seminário, por mais que eu tentasse dormir, e dormisse. Daí concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos. Ele faz isso para ver se continua, pela noite velha, o sonho cortado da noite moça. Tal é a ideia banal e nova que eu não queria pôr aqui, e só provisoriamente a escrevo.

Antes de concluir este capítulo, fui à janela. Queria perguntar à noite por que os sonhos são tão frágeis. Eles se desfazem ao menor abrir de olhos ou à menor volta do corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros brilhavam pálidos de luar, e o espaço morria de silêncio. Como insisti, ela me declarou que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Antes eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. Ali ficava o palácio da noite, e de lá ela os fazia sair, com as suas caras de várias feições. Naquele tempo ela poderia me dar as explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, mesmo que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo. A ilha dos sonhos e a dos amores são como todas as ilhas de todos os mares. Agora são objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.

Era uma alusão às Filipinas. Eu não amo a política, e menos ainda a política internacional. Por isso fechei a janela e vim acabar este capítulo, para ir dormir. Agora não peço os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão. Basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com o fresco, continuarei a contar a minha história e as suas pessoas.

### Glossário

- **escrúpulo**: dúvida de consciência; medo de fazer uma coisa errada.
- **banal**: muito comum, sem nada de especial.
- **manuscrito**: texto escrito à mão.
- **provisoriamente**: por algum tempo, não para sempre.
- **jurisdição**: área em que uma pessoa ou autoridade tem poder.
- **Luciano**: escritor grego antigo; ele imaginou uma ilha onde moravam os sonhos.
- **alusão**: palavra que faz pensar em alguma coisa sem falar dela diretamente.
- **Filipinas**: ilhas da Ásia que passaram da Espanha para os Estados Unidos em 1898.

## LXV. A dissimulação.

Chegou o sábado, chegaram outros sábados, e eu acabei gostando da vida nova. Eu alternava a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No fim de cinco semanas, quase contei a ele as minhas penas e esperanças. Capitu me segurou.

— Escobar é muito meu amigo, Capitu!

— Mas não é meu amigo.

— Pode vir a ser. Ele já me disse que há de vir aqui para conhecer mamãe.

— Não importa. Você não tem direito de contar um segredo que não é só seu, é também meu. E eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma.

Era justo; calei-me e obedeci. Obedeci às reflexões dela também em outra coisa. Foi logo no primeiro sábado, quando fui à casa dela. Depois de alguns minutos de conversa, ela me aconselhou a ir embora.

— Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, que eu vou lá logo. É natural que D. Glória queira estar com você muito tempo, ou todo, se puder.

Em tudo isso a minha amiga mostrava tanta lucidez que eu podia deixar de citar um terceiro exemplo. Mas os exemplos só foram feitos para ser citados, e este é tão bom que a omissão seria um crime. Foi na minha terceira ou quarta vinda a casa. Minha mãe me fez mil perguntas, e eu respondi a todas. Perguntou sobre o tratamento que me davam, os estudos, as amizades, a disciplina. Perguntou se me doía alguma coisa e se eu dormia bem. Era tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. Depois ela se voltou para José Dias e concluiu:

— Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?

— Excelentíssima...

— E você, Capitu? — interrompeu minha mãe, voltando-se para a filha do Pádua, que estava na sala com ela. — Você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre?

— Acho que sim, senhora — respondeu Capitu, cheia de convicção.

Não gostei da convicção. Disse isso a ela na manhã seguinte, no quintal dela, recordando as palavras da véspera. Pela primeira vez, também lhe joguei no rosto a alegria que ela mostrava desde a minha entrada no seminário. E isso quando eu vivia cheio de saudades. Capitu ficou muito séria. Perguntou-me como eu queria que ela se portasse, uma vez que suspeitavam de nós. Ela também tinha tido noites tristes, e os dias na casa dela foram tão tristes como os meus. Eu podia perguntar ao pai e à mãe dela. A mãe tinha chegado a dizer-lhe, com palavras encobertas, que não pensasse mais em mim.

— Com D. Glória e D. Justina eu me mostro naturalmente alegre. Assim não parece que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de nos separar mais, e talvez acabassem não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro.

Era isso mesmo. Devíamos dissimular para matar qualquer suspeita. Ao mesmo tempo, devíamos aproveitar toda a liberdade de antes e construir tranquilos o nosso futuro. Mas o exemplo se completa com o que ouvi no dia seguinte, no almoço. Tio Cosme disse que ainda queria ver com que mão eu ia abençoar o povo na missa. Minha mãe então contou uma conversa de dias antes, sobre moças que se casam cedo. Capitu lhe tinha dito: «Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho; eu espero que ele se ordene!» Tio Cosme riu da graça, José Dias manteve o sorriso, e só prima Justina franziu a testa. Ela olhou para mim com uma pergunta nos olhos. Eu, que tinha olhado para todos, não pude resistir ao gesto da prima e tratei de comer. Mas comi mal. Estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. Logo que almocei, corri a contar-lhe a conversa e a louvar a sua astúcia. Capitu sorriu, agradecida.

— Você tem razão, Capitu — concluí eu —, vamos enganar toda esta gente.

— Não é? — disse ela com ingenuidade.

### Glossário

- **dissimulação**: o ato de esconder o que se pensa ou sente.
- **dissimular**: esconder o que se pensa ou sente.
- **lucidez**: capacidade de ver e pensar com clareza.
- **omissão**: o ato de deixar de dizer ou fazer alguma coisa.
- **palavras encobertas**: palavras que dizem uma coisa sem dizê-la abertamente.
- **denúncia**: acusação; aviso de que alguém fez algo errado.
- **se ordene**: se torne padre, numa cerimônia da Igreja.
- **astúcia**: inteligência usada para enganar ou conseguir alguma coisa.

## LXVI. Intimidade.

Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam juntas a maior parte do tempo. Falavam de mim, a propósito do sol e da chuva, ou de nada. Capitu ia lá costurar de manhã, e às vezes ficava para jantar.

Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas gentilezas, mas não tratava de todo mal a minha amiga. Ela era bastante sincera para dizer o mal que sentia de alguém, e não sentia bem de pessoa alguma. Talvez do marido, mas o marido estava morto. Em todo caso, nunca tinha existido homem capaz de competir com ele. Ninguém o vencia no afeto, no trabalho, na honestidade, nas maneiras e na agudeza de espírito. Segundo tio Cosme, esta opinião era póstuma, pois em vida os dois andavam brigando. Nos últimos seis meses, acabaram separados. Tanto melhor para a justiça dela: o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. Ela também gostaria de minha mãe. Ou, se pensou algum mal dela, foi sozinha, com o travesseiro. Compreende-se que, na aparência, lhe desse a estima devida. Não penso que ela desejasse alguma herança. As pessoas com esse desejo fazem mais do que os serviços naturais. Ficam mais risonhas, mais presentes, multiplicam os cuidados, chegam antes dos criados. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina, feita de azedume e de implicância. Como vivia de favor na casa, explica-se que não quisesse mal à dona e calasse os seus ressentimentos. Ou que só falasse mal dela a Deus e ao diabo.

Se tinha ressentimentos de minha mãe, isso não era uma razão a mais para detestar Capitu. Aliás, ela não precisava de razões suplementares. Contudo, a intimidade de Capitu tornou a menina mais antipática à minha parenta. Se a princípio não a tratava mal, com o tempo mudou de maneiras e acabou fugindo dela. Capitu, atenta, quando não a via, perguntava por ela e ia procurá-la. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de desobedecer sem vergonha. Além disso, Capitu usava uma certa magia que cativa. Prima Justina acabava sorrindo, ainda que azedo. Mas, a sós com minha mãe, achava alguma palavra ruim para dizer da menina.

Como minha mãe pegou uma febre que a pôs às portas da morte, quis que Capitu fosse a sua enfermeira. Isto aliviava prima Justina de cuidados penosos, mas ela não perdoou a minha amiga por essa intervenção. Um dia, perguntou-lhe se não tinha o que fazer em casa. Outro dia, rindo, soltou-lhe esta frase afiada: «Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir.»

### Glossário

- **agudeza de espírito**: inteligência rápida e fina.
- **póstuma**: que vem depois da morte da pessoa.
- **azedume**: mau humor; jeito amargo de falar e de tratar os outros.
- **implicância**: vontade de achar defeito em tudo e em todos.
- **vivia de favor**: morava na casa de outra pessoa sem ter direito a isso, por bondade dela.
- **ressentimentos**: mágoas guardadas por muito tempo.
- **às portas da morte**: muito perto de morrer.
- **às mãos lhe há de ir**: vai chegar até você de qualquer jeito, sem esforço.

## LXVII. Um pecado.

Agora não tiro a doente da cama sem contar o que aconteceu comigo. Depois de cinco dias, minha mãe amanheceu tão perturbada que mandou me buscar no seminário. Tio Cosme tentou acalmá-la, em vão:

— Mana Glória, você se assusta sem motivo, a febre passa...

— Não! Não! Mandem buscá-lo! Posso morrer, e a minha alma não se salva, se Bentinho não estiver ao meu lado.

— Vamos assustá-lo.

— Pois não lhe digam nada, mas vão buscá-lo, já, já, não se demorem.

Pensaram que fosse delírio. Mas trazer-me não custava nada, e José Dias ficou encarregado do recado. Ele entrou tão atordoado que me assustou. Contou em particular ao reitor o que havia, e recebi licença para ir para casa. Na rua, íamos calados. Ele não mudava o passo de costume: a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Mas ia de cabeça baixa, suspirando. Eu temia ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. Ele só me tinha falado da doença, como de um caso simples. Mas o chamado, o silêncio, os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. O coração me batia com força, as pernas me tremiam, e mais de uma vez pensei que ia cair...

A ânsia de escutar a verdade se misturava em mim com o medo de sabê-la. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. Ela me envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais eu andava naquela rua dos Barbonos, mais me aterrava a ideia de chegar em casa. Aterrava-me entrar, ouvir os choros, ver um corpo morto... Oh! Eu nunca poderia expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. José Dias andava superlativamente devagar, mas a rua parecia fugir debaixo dos meus pés. As casas voavam de um lado e de outro. Uma corneta tocava então no quartel dos Municipais Permanentes. Soava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final.

Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavalos. A casa não era logo ali, mas muito além da rua dos Inválidos, perto da rua do Senado. Três ou quatro vezes quis fazer perguntas ao meu companheiro, sem ter coragem de abrir a boca. Mas agora nem tinha mais esse desejo. Eu ia só andando, aceitando o pior, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana. Foi então que a Esperança, para combater o Terror, segredou ao meu coração. Não disse estas palavras, pois não articulou nada parecido com palavras. Foi uma ideia que poderia ser traduzida por elas: «Mamãe defunta, acaba o seminário.»

Leitor, foi um relâmpago. Iluminou a noite e sumiu, muito depressa. A escuridão ficou mais fechada, pelo efeito do remorso que me ficou. Foi uma sugestão do egoísmo. A piedade filial desmaiou um instante, diante da perspectiva da liberdade certa, com o desaparecimento da dívida e do devedor. Foi um instante, menos que um instante, o centésimo de um instante. Ainda assim, foi o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso.

José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu ter-me adivinhado. Eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém, que eu ia me castigar, etc. Mas a pena trazia tanto amor que não podia ser tristeza pelo meu pecado. Então era mesmo a morte de minha mãe... Senti uma angústia grande, um nó na garganta, e não aguentei mais: chorei de uma vez.

— Que é, Bentinho?

— Mamãe...?

— Não! Não! Que ideia é essa? O estado dela é gravíssimo, mas não é mal de morte, e Deus pode tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. Não há de ser nada, uma febre... As febres, assim como vêm com força, assim também vão embora... Com os dedos, não; onde está o lenço?

Enxuguei os olhos, mas de todas as palavras de José Dias só uma me ficou no coração. Foi aquele *gravíssimo*. Vi depois que ele só queria dizer *grave*. Mas o uso do superlativo faz a boca longa, e, por amor da frase, José Dias fez crescer a minha tristeza. Se achar neste livro algum caso da mesma família, avise-me, leitor, para que eu o corrija na segunda edição. Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ansioso agora por chegar em casa. Queria pedir perdão a minha mãe pelo mau pensamento que tive. Enfim chegamos, entramos, e subi tremendo os seis degraus da escada. Pouco depois, inclinado sobre a cama, eu ouvia as palavras ternas de minha mãe. Ela me apertava muito as mãos e me chamava seu filho. Estava queimando, os seus olhos ardiam nos meus, e toda ela parecia consumida por um vulcão interno. Ajoelhei-me ao pé da cama, mas, como esta era alta, fiquei longe das suas carícias:

— Não, meu filho, levanta, levanta!

Capitu estava na alcova. Segundo me disse depois, ela gostou de ver a minha entrada, os meus gestos, palavras e lágrimas. Mas naturalmente não suspeitou de todas as causas da minha aflição. Ao entrar no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha mãe, logo que ela ficasse boa. Mas esta ideia não me mordia. Era um simples desejo sem força, uma ação que eu nunca faria, por mais que o pecado me doesse. Então, levado pelo remorso, usei ainda uma vez o meu velho meio das promessas espirituais. Pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe, e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. Padre que me lê, perdoe este recurso; foi a última vez que o usei. A crise em que eu estava, tanto quanto o costume e a fé, explica tudo. Eram mais dois mil; onde estavam os antigos? Não paguei uns nem outros. Mas essas promessas, quando saem de almas cândidas e verdadeiras, são como a moeda fiduciária. Mesmo que o devedor não as pague, valem a soma que dizem.

### Glossário

- **premissa**: ideia de que se parte para chegar a uma conclusão.
- **atordoado**: confuso, sem saber bem o que fazer.
- **suspirando**: respirando fundo, com tristeza.
- **ânsia**: desejo forte e aflito.
- **aterrava**: dava muito medo, enchia de terror.
- **voavam**: aqui, passavam muito depressa.
- **corneta**: pequeno instrumento de sopro usado pelos soldados.
- **Municipais Permanentes**: soldados que guardavam a ordem na cidade do Rio.
- **trombeta**: instrumento de sopro, de som forte.
- **juízo final**: o último dia do mundo, quando Deus vai julgar todos os homens, segundo a fé cristã.
- **defunta**: morta.
- **piedade filial**: amor e respeito de um filho pelos pais.
- **suspirava**: respirava fundo, com tristeza.
- **longuíssimas**: muito longas.
- **brevíssimas**: muito curtas.
- **alcova**: pequeno quarto interno, sem janela.
- **cândidas**: puras, inocentes.
- **moeda fiduciária**: dinheiro que tem valor porque as pessoas confiam nele.

## LXVIII. Adiemos a virtude.

Poucas pessoas teriam coragem de confessar aquele meu pensamento da rua de Matacavalos. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. Montaigne escreveu sobre si mesmo: *ce ne sont pas mes gestes que j'écris; c'est moi, c'est mon essence.* Ora, só há um modo de escrever a própria essência: é contá-la toda, o bem e o mal. É o que faço, à medida que me lembro do que serve à construção ou reconstrução de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um pecado, contaria com muito gosto alguma bela ação da mesma época, se me lembrasse. Mas não me lembro; fica adiada para melhor oportunidade.

Você não perderá nada em esperar, meu amigo. Ao contrário, lembro-me agora de que... As belas ações são belas em qualquer ocasião. Além disso, são possíveis e prováveis, pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes, tão simples quanto clara. Ela se reduz a isto: cada pessoa nasce com um certo número deles e delas. Uns e outros estão unidos por matrimônio, para se compensarem na vida. Quando um dos cônjuges é mais forte que o outro, só ele guia o indivíduo. Ninguém pode se dizer livre de um ou de outro só porque não praticou essa virtude ou esse pecado. Mas a regra é que os dois sejam praticados ao mesmo tempo, com vantagem para quem os carrega. E algumas vezes isso acontece com maior brilho da terra e do céu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos de outras pessoas; falta-me tempo.

Quanto a mim, é certo que nasci com alguns daqueles casais, e naturalmente ainda os tenho. Já me aconteceu, aqui no Engenho Novo, estar uma noite com muita dor de cabeça. Por isso desejei que o trem da Central explodisse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. Desejei isso ainda que morresse alguém. No dia seguinte, perdi o trem da mesma estrada. É que fui dar a minha bengala a um cego que não tinha bordão. *Voilà mes gestes, voilà mon essence.*

### Glossário

- **Montaigne**: escritor francês antigo, que escreveu muito sobre si mesmo.
- **c'est moi, c'est mon essence**: palavras em francês: «sou eu, é a minha essência».
- **essência**: o que uma pessoa é de verdade, no fundo.
- **matrimônio**: casamento.
- **cônjuges**: o marido e a mulher.
- **fundamentar**: mostrar que uma ideia é certa, com razões ou exemplos.
- **bordão**: bastão em que uma pessoa se apoia para andar.
- **Voilà mes gestes, voilà mon essence**: palavras em francês: «eis os meus gestos, eis a minha essência».

## LXIX. A missa.

Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a minha devoção no domingo seguinte. Corri a ouvir missa em Santo Antônio dos Pobres. O agregado quis ir comigo e começou a se vestir. Mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas que não pude esperar por ele. Além disso, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer conversa que desviasse o meu pensamento do fim a que ia. Esse fim era me reconciliar com Deus, depois do que se passou no capítulo LXVII. Eu não ia só pedir perdão do pecado. Ia também agradecer a melhora de minha mãe. E, já que digo tudo, ia fazer Deus desistir do pagamento da minha promessa. Jeová, embora divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano. Ele não faz moratórias. Perdoa as dívidas por inteiro, desde que o devedor queira de verdade emendar a vida e cortar as despesas. Ora, eu não queria outra coisa. Dali em diante, não faria mais promessas que não pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.

Ouvi a missa. Quando o padre levantou a hóstia, agradeci a vida e a saúde de minha mãe. Depois pedi perdão do pecado e o perdão da dívida. Recebi a bênção final do padre como um ato solene de reconciliação. No fim, lembrei que a Igreja criou no confessionário um cartório seguro. A confissão é o mais autêntico dos documentos para o acerto de contas morais entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. Tive medo de não achar palavras para dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo.

### Glossário

- **presilhas**: tiras que prendem a calça por baixo do pé.
- **reconciliar**: fazer as pazes.
- **Rothschild**: nome de uma família de banqueiros muito ricos da Europa.
- **moratórias**: mais tempo dado a quem deve dinheiro para pagar a dívida.
- **hóstia**: pedaço fino de pão usado na missa.
- **confessionário**: lugar da igreja onde o padre ouve os pecados das pessoas.
- **cartório**: escritório onde se fazem e guardam documentos oficiais.
- **confessor**: padre que ouve os pecados de uma pessoa.

## LXX. Depois da missa.

Rezei ainda, fiz o sinal da cruz, fechei o livro de missa e caminhei para a porta. Não havia muita gente, mas a igreja também não é grande, e não pude sair logo. Saí devagar. Havia homens e mulheres, velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e belos. Mas eu não vi uns nem outros. Eu ia na direção da porta, com a onda de gente, ouvindo as saudações e os cochichos. No adro, onde havia mais luz, parei e olhei para todos. Vi então uma moça e um homem, que saíam da igreja e pararam. A moça olhava para mim falando com o homem, e o homem olhava para mim ouvindo a moça. E me chegaram estas palavras:

— Mas que queres?

— Queria saber dela; papai pergunte.

Era sinhazinha Sancha, a companheira de colégio de Capitu, que queria notícias de minha mãe. O pai veio até mim, e eu lhe disse que ela estava recuperada. Depois saímos. Ele me mostrou a casa dele, e, como eu ia na mesma direção, fomos juntos. Gurgel era um homem de quarenta anos ou pouco mais, com tendência a engordar a barriga. Era muito gentil. Ao chegar à porta da casa, quis por força que eu almoçasse com ele.

— Obrigado; mamãe me espera.

— Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais tarde.

— Venho outro dia.

Sinhazinha Sancha, voltada para o pai, ouvia e esperava. Não era feia. Só se podia notar nela a semelhança do nariz com o do pai, que também acabava grosso. Mas há feições que tiram a graça de uns para dá-la a outros. Vestia-se com simplicidade. Gurgel era viúvo e morria de amor pela filha. Como recusei o almoço, ele quis que eu descansasse alguns minutos. Não pude recusar, e subi. Quis saber a minha idade, os meus estudos, a minha fé. Dava-me conselhos para o caso de eu vir a ser padre. Disse-me o número do armazém, na rua da Quitanda. Enfim me despedi, e ele veio até o patamar da escada. A filha me deu recomendações para Capitu e para minha mãe. Da rua olhei para cima. O pai estava à janela e me fez um gesto largo de despedida.

### Glossário

- **chitas**: tecidos simples e baratos de algodão, com desenhos coloridos.
- **cochichos**: conversas em voz muito baixa.
- **adro**: espaço aberto em frente à igreja.
- **sinhazinha**: forma antiga com que as pessoas escravizadas falavam com a filha dos senhores.
- **preto**: palavra antiga para pessoa negra; aqui, um homem escravizado; hoje pode ofender.
- **feições**: as formas do rosto de uma pessoa.
- **armazém**: loja ou depósito grande de mercadorias.
- **patamar**: parte plana no alto de uma escada.
- **recomendações**: cumprimentos que se mandam a alguém por outra pessoa.

## LXXI. Visita de Escobar.

Em casa, já tinham mentido a minha mãe, dizendo que eu tinha voltado e estava mudando de roupa.

«A missa das oito já há de ter acabado... Bentinho devia estar de volta... Teria acontecido alguma coisa, mano Cosme?... Mandem ver...» Assim falava ela, de minuto a minuto. Mas eu entrei, e comigo entrou a tranquilidade.

Era o dia das boas sensações. Escobar foi me visitar e saber da saúde de minha mãe. Até ali ele nunca tinha me visitado, nem as nossas relações eram tão estreitas como vieram a ser depois. Mas sabia a razão da minha saída, três dias antes. Por isso, aproveitou o domingo para ir me ver e perguntar se o perigo continuava ou não. Quando eu lhe disse que não, ele respirou.

— Tive receio — disse ele.

— Os outros souberam?

— Parece que sim: alguns souberam.

Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. O agregado lhe disse que tinha visto uma vez o pai dele no Rio de Janeiro. Escobar era muito educado. Falava mais do que veio a falar depois, mas, ainda assim, não tanto como os rapazes da nossa idade. Naquele dia eu o achei um pouco mais aberto que de costume. Tio Cosme quis que ele jantasse conosco. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. Eu me lembrei das palavras do Gurgel e as repeti:

— Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.

— Tanto incômodo!

— Incômodo nenhum — interveio tio Cosme.

Escobar aceitou e jantou. Notei que ele dominava agora, na sala como na mesa, os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que tinha. Ele gostou muito do retrato de meu pai. Depois de alguns instantes olhando para o quadro, virou-se e me disse:

— Vê-se que era um coração puro!

Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos. Foi assim que José Dias os definiu, depois que ele saiu. Mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que ela traz em cima de si. Nisso não houve exagero do agregado. A cara rapada mostrava uma pele branca e lisa. A testa é que era um pouco baixa, e a risca do cabelo vinha quase em cima da sobrancelha esquerda. Mas tinha sempre a altura necessária para não ofender as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente, tinha um rosto interessante, a boca fina e zombeteira, o nariz curvo e delgado. Ele tinha o tique de sacudir o ombro direito, de vez em quando. Perdeu-o depois que um de nós lhe falou disso, um dia, no seminário. Foi o primeiro exemplo que vi de que um homem pode se corrigir muito bem dos pequenos defeitos.

Nunca deixei de sentir um certo orgulho quando os meus amigos agradavam a todos. Em casa, todos ficaram querendo bem a Escobar. A própria prima Justina achou que ele era um moço muito apreciável, apesar... Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias, ao ver que ela não acabava a frase. Não teve resposta, nem podia ter. Prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. O *apesar* era uma espécie de ressalva, para algum defeito que viesse a descobrir um dia. Ou então foi obra de um velho costume, que a levou a restringir onde não tinha achado restrição.

Escobar se despediu logo depois do jantar. Fui levá-lo à porta, onde esperamos a passagem de um ônibus. Disse-me que o armazém do correspondente era na rua dos Pescadores e ficava aberto até as nove horas da noite. Ele é que não queria se demorar fora. Nós nos separamos com muito afeto. De dentro do ônibus, ele ainda me disse adeus com a mão. Fiquei à porta, para ver se, ao longe, ele ainda olharia para trás, mas não olhou.

— Que amigo é esse tamanho? — perguntou alguém de uma janela ali perto.

Não é preciso dizer que era Capitu. São coisas que se adivinham na vida, como nos livros, sejam romances, sejam histórias verdadeiras. Era Capitu, que nos espiava fazia algum tempo, por dentro da veneziana. Agora tinha aberto a janela inteira e aparecido. Ela viu as nossas despedidas tão calorosas e afetuosas, e quis saber quem merecia tanto de mim.

— É o Escobar — disse eu, indo me pôr embaixo da janela, olhando para cima.

### Glossário

- **correspondente**: comerciante que cuidava dos negócios de alguém de fora e, às vezes, do filho dessa pessoa na cidade.
- **dulcíssimos**: muito doces.
- **risca**: linha que divide o cabelo.
- **zombeteira**: que gosta de rir dos outros, de brincar com eles.
- **tique**: movimento que uma pessoa repete sem querer.
- **ressalva**: palavra que limita ou corrige o que se disse.
- **ônibus**: naquele tempo, carro grande para várias pessoas, puxado por cavalos.
- **esse tamanho**: tão grande, tão importante.
- **veneziana**: janela ou porta de tiras de madeira, que deixa passar o ar.

## LXXII. Uma reforma dramática.

Nem eu, nem você, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. É que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam no seu tempo, até que o pano cai, as luzes se apagam, e os espectadores vão dormir. Nesse gênero talvez haja alguma coisa a reformar. Eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo mataria a si mesmo e a Desdêmona no primeiro ato. Os três atos seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. O último ficaria só com as cenas iniciais: a ameaça dos turcos e as explicações de Otelo e Desdêmona. Teria também o bom conselho do fino Iago: «Mete dinheiro na bolsa.» Desta maneira, por um lado, o espectador acharia no teatro a charada de sempre, que os jornais lhe dão. É que os últimos atos explicariam o desfecho do primeiro, que seria uma espécie de pergunta. Por outro lado, ele iria para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

Ela amou o que me afligira, / Eu amei a piedade dela.

### Glossário

- **dramaturgos**: pessoas que escrevem peças de teatro.
- **peripécias**: acontecimentos inesperados de uma história.
- **desfecho**: o fim de uma história.
- **pano**: grande cortina que se abre e se fecha no teatro.
- **ensaio**: tentativa, experiência.
- **decrescente**: que vai ficando menor ou mais fraco.
- **charada**: jogo em que se deve adivinhar uma palavra ou uma resposta.
- **piedade**: pena que se sente pela dor de outra pessoa.

## LXXIII. O contrarregra.

O destino não é só dramaturgo. É também o seu próprio contrarregra. Ele marca a entrada dos personagens em cena e lhes dá as cartas e outros objetos. E faz lá dentro os sinais que acompanham o diálogo: uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, apresentaram por aí, em não sei que teatro, um drama que acabava com o juízo final. O personagem principal era Ashaverus. No último quadro, ele terminava um monólogo com esta exclamação: «Ouço a trombeta do arcanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu as palavras, agora mais alto, para avisar o contrarregra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo do palco. Fingia um ar trágico, mas o que queria mesmo era falar para o bastidor. E disse em voz baixa: «O pistom! o pistom! o pistom!» O público ouviu esta palavra e começou a rir. Por fim, a trombeta tocou de verdade, e Ashaverus gritou pela terceira vez que era a do arcanjo. Mas um gaiato da plateia corrigiu cá de baixo: «Não, senhor, é o pistom do arcanjo!»

Assim se explica a minha presença debaixo da janela de Capitu. Assim se explica também a passagem de um cavaleiro, um *dandy*, como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme na sela. Trazia a rédea na mão esquerda e a direita na cintura. Usava botas de verniz, e a figura e a postura eram elegantes. A cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atrás; todos iam ver as suas namoradas. Era costume do tempo namorar a cavalo. Releia Alencar. Veja o que dizia um dos seus personagens de teatro, em 1858. «Porque um estudante não pode estar sem estas duas coisas, um cavalo e uma namorada.» Releia Álvares de Azevedo. Uma das suas poesias conta (1851) que ele morava no Catumbi. Para ver a namorada no Catete, tinha alugado um cavalo por três mil-réis... Três mil-réis! Tudo se perde na noite dos tempos!

Ora, o *dandy* do cavalo baio não passou como os outros. Era a trombeta do juízo final, e tocou na hora certa. Assim faz o Destino, que é o seu próprio contrarregra. O cavaleiro não se contentou em ir andando. Virou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu. Olhou para Capitu, e Capitu para ele. O cavalo andava, e a cabeça do homem ia virando para trás. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. A rigor, era natural admirar as belas figuras. Mas aquele sujeito costumava passar ali, às tardes. Morava no antigo Campo da Aclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração em brasa, como era o meu!

Nem disse nada a Capitu. Saí da rua às pressas e entrei pelo meu corredor. Quando dei por mim, estava na sala de visitas.

### Glossário

- **dramaturgo**: pessoa que escreve peças de teatro.
- **contrarregra**: pessoa que, no teatro, controla as entradas em cena, os objetos e os sons.
- **juízo final**: para os cristãos, o dia em que Deus vai julgar todas as pessoas.
- **monólogo**: fala longa de um personagem sozinho em cena.
- **exclamação**: frase dita em voz alta, com emoção.
- **trombeta**: instrumento de sopro, de som forte.
- **arcanjo**: anjo de posição mais alta.
- **bastidor**: parte do teatro atrás do palco, que o público não vê.
- **pistom**: instrumento musical de sopro, parecido com a trombeta.
- **gaiato**: pessoa brincalhona, que gosta de fazer rir.
- **dandy**: homem muito elegante, que cuida muito da roupa.
- **alazão**: cavalo de cor castanho-avermelhada.
- **rédea**: correia com que o cavaleiro guia o cavalo.
- **verniz**: camada que deixa o couro brilhante.
- **baio**: cavalo de cor amarelada.
- **raciocinar**: pensar com lógica.

## LXXIV. A presilha.

Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. Ver José Dias me lembrou o que ele me dissera no seminário. «Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...» Era certamente uma referência ao cavaleiro. Essa lembrança agravou a impressão que eu trazia da rua. Mas não seria essa palavra, guardada sem eu saber, que me preparou para crer na malícia daqueles olhares? Tive vontade de pegar José Dias pela gola e levá-lo ao corredor. Queria perguntar se tinha falado de verdade ou só por hipótese. Mas José Dias, que tinha parado ao me ver entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir à casa ao lado. Imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não demorasse a aparecer, para perguntar e explicar... E os dois falavam, até que tio Cosme se levantou para ir ver a doente. José Dias veio então ter comigo, no vão da outra janela.

Um instante antes, eu tinha desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. Agora, imaginando que ele vinha justamente me dizer isso, fiquei com medo de ouvir. Quis tapar-lhe a boca. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão de sempre, e perguntou com interesse:

— Que é, Bentinho?

Para não olhar para ele, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. Como ele insistia em saber o que eu tinha, respondi, apontando com o dedo:

— Olhe a presilha, abotoe a presilha.

José Dias se inclinou, e eu saí correndo.

### Glossário

- **presilha**: tira com botão que prendia as calças e as mantinha bem esticadas.
- **peralta**: rapaz vaidoso que passeia pelo bairro.
- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **agravou**: tornou mais forte ou pior.
- **malícia**: intenção escondida, geralmente má.
- **gola**: parte da roupa em volta do pescoço.
- **hipótese**: coisa que se imagina, sem saber se é verdade.
- **vão**: espaço aberto na parede, onde fica a janela.

## LXXV. O desespero.

Escapei ao agregado, escapei a minha mãe, não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava comigo, eu me perseguia, eu me atirava na cama e rolava comigo. E chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e me fazer padre de uma vez. Já me via ordenado, diante dela. Ela choraria de arrependimento e me pediria perdão. Mas eu, frio e sereno, só teria desprezo, muito desprezo; virava-lhe as costas. Chamava-a de perversa. Duas vezes me surpreendi mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.

Da cama, eu ouvia a voz dela. Tinha vindo passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes. Mas, por maior que fosse o abalo, isso não me fez sair do quarto. Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse. Eu continuava surdo, a sós comigo e com o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. Queria enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue...

### Glossário

- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **abafava**: fazia ficar menos forte, para ninguém ouvir.
- **soluços**: sons curtos e fortes de quem chora muito.
- **ordenado**: feito padre, numa cerimônia da Igreja.
- **sereno**: calmo, tranquilo.
- **desprezo**: sentimento de quem acha que outra pessoa não vale nada.
- **perversa**: má, que gosta de fazer o mal.
- **abalo**: emoção forte e súbita.
- **cravar**: enfiar com força.

## LXXVI. Explicação.

Ao fim de algum tempo, eu estava calmo, mas abatido. Estava estendido na cama, com os olhos no teto. Então me lembrei da recomendação de minha mãe: não me deitar depois de jantar, para evitar alguma congestão. Levantei-me de repente, mas não saí do quarto. Capitu agora ria menos e falava mais baixo. Devia estar aflita com a minha reclusão, mas nem isso me abalou.

Não comi nada à noite e dormi mal. Na manhã seguinte não estava melhor, estava diferente. A minha dor agora vinha junto com um receio: talvez eu tivesse ido longe demais, sem examinar o caso. A cabeça me doía um pouco, mas fingi um mal maior. Assim eu não iria ao seminário e poderia falar com Capitu. Ela podia estar zangada comigo, podia não me querer agora e preferir o cavaleiro. Quis resolver tudo, ouvi-la e julgá-la. Talvez ela tivesse defesa e explicação.

Tinha as duas coisas. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera, disse-me que era uma grande injúria que eu lhe fazia. Não podia crer que, depois da nossa troca de juramentos, eu a julgasse tão leviana que pudesse acreditar... E aqui lhe vieram lágrimas, e ela fez um gesto de separação. Mas eu acudi logo e peguei-lhe as mãos. Ela enxugou os olhos com os dedos; depois suspirou, depois abanou a cabeça. Confessou que não conhecia o rapaz. Só o conhecia como os outros que passavam ali às tardes, a cavalo ou a pé. Se tinha olhado para ele, isso provava exatamente que não havia nada entre os dois. Se houvesse, o natural seria dissimular.

— E que poderia haver, se ele vai casar? — concluiu.

— Vai casar?

Ia casar, e ela me disse com quem: com uma moça da rua dos Barbonos. Esta razão me convenceu mais que todas, e ela percebeu isso no meu gesto. Mesmo assim, disse que, para evitar novo engano, não iria mais à janela.

— Não! não! não! não lhe peço isto!

Ela concordou em retirar a promessa, mas fez outra. À primeira suspeita da minha parte, tudo estaria acabado entre nós. Aceitei a ameaça e jurei que ela nunca teria de cumpri-la: era a primeira suspeita e a última.

### Glossário

- **abatido**: sem força e sem ânimo.
- **congestão**: mal-estar súbito do corpo, que se temia depois de comer.
- **reclusão**: ato de ficar fechado, longe das outras pessoas.
- **abalou**: emocionou; tirou da calma.
- **injúria**: ofensa grave.
- **leviana**: pouco séria, que não pensa antes de agir.
- **acudi**: corri para ajudar.
- **dissimular**: esconder o que se pensa ou sente.

## LXXVII. Prazer das dores velhas.

Contando aquela crise do meu amor de adolescente, sinto uma coisa que não sei se explico bem. As dores daquele tempo ficaram tão espirituais com os anos que chegam a se dissolver no prazer. Isto não é claro, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. A verdade é que sinto um gosto especial em contar esse desgosto. E, no entanto, ele me lembra outros que eu não queria lembrar por nada.

### Glossário

- **crise**: momento difícil, de muita perturbação.
- **adolescente**: pessoa que já não é criança, mas ainda não é adulta.
- **espirituais**: ligadas à alma e não ao corpo; mais leves.
- **dissolver**: misturar-se até desaparecer, como o açúcar na água.
- **gosto**: prazer.
- **desgosto**: tristeza, aborrecimento.

## LXXVIII. Segredo por segredo.

De resto, naquele mesmo tempo senti certa necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. Não contei tudo, só uma parte, e foi Escobar quem a ouviu. Quando voltei ao seminário, na quarta-feira, achei-o inquieto. Disse-me que pretendia ir me ver, se eu ficasse mais um dia em casa. Perguntava com interesse o que eu tivera, e se já estava bom de todo.

— Estou.

Ele ouvia, espetando os olhos em mim. Três dias depois, disse que estavam me achando muito distraído. Era bom disfarçar o mais que eu pudesse. Ele também tinha razões para andar distraído, mas procurava ficar atento.

— Então lhe parece...?

— Sim, às vezes você fica sem ouvir nada, olhando para ontem; disfarce, Santiago.

— Tenho motivos...

— Creio; ninguém se distrai à toa.

— Escobar...

Hesitei; ele esperou.

— Que é?

— Escobar, você é meu amigo, e eu sou seu amigo também. Aqui no seminário, você é a pessoa que mais entrou no meu coração. Lá fora, a não ser a gente da família, não tenho propriamente um amigo.

— Se eu disser a mesma coisa — respondeu ele, sorrindo —, perde a graça; parece que estou repetindo. Mas a verdade é que aqui não tenho relações com ninguém. Você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.

Comovido, senti que a voz me saltava da garganta.

— Escobar, você é capaz de guardar um segredo?

— Se você pergunta, é porque duvida, e nesse caso...

— Desculpe, é um modo de falar. Eu sei que você é moço sério, e faço de conta que me confesso a um padre.

— Se precisa de absolvição, está absolvido.

— Escobar, eu não posso ser padre. Estou aqui, os meus acreditam, esperam; mas eu não posso ser padre.

— Nem eu, Santiago.

— Nem você?

— Segredo por segredo. Eu também tenho a intenção de não acabar o curso. Meu desejo é o comércio, mas não diga nada, absolutamente nada; fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso. Sou religioso, mas o comércio é a minha paixão.

— Só isso?

— Que mais há de ser?

Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. Saiu tão fraca e abafada que eu mesmo não a ouvi. Sei, porém, que disse «uma pessoa...» e parei. Uma pessoa...? Não foi preciso mais para que ele entendesse. Uma pessoa devia ser uma moça. Nem pense que ficou espantado de me ver namorado. Achou até natural e espetou outra vez os olhos em mim. Então lhe contei por alto o que podia, mas devagar, para ter o gosto de repetir o assunto. Escobar escutava com interesse. No fim da nossa conversa, declarou que era segredo enterrado em cemitério. Aconselhou-me a não me fazer padre. Eu não podia levar para a igreja um coração que não era do céu, mas da terra. Seria um mau padre, nem seria padre. Ao contrário. Deus protegia os sinceros. Já que eu só podia servi-lo no mundo, era no mundo que eu devia ficar.

Você não calcula o prazer que me deu essa confidência. Era como mais uma felicidade. Aquele coração moço, que me ouvia e me dava razão, dava a este mundo um aspecto extraordinário. Era um grande e belo mundo, e a vida era uma carreira excelente. E eu era, nem mais nem menos, um protegido do céu. Esta era a minha sensação. Note que eu não lhe disse tudo, nem o melhor. Não lhe contei o capítulo do penteado, por exemplo, nem outros assim; mas o que contei já era muito.

Que voltamos ao assunto, não é preciso dizer. Voltamos uma e muitas vezes. Eu louvava as qualidades morais de Capitu, matéria própria para a admiração de um seminarista. Falava da simplicidade, da modéstia, do amor ao trabalho e dos costumes religiosos. Não falava das graças físicas dela, nem ele me perguntava por elas. Apenas sugeri que seria bom ele a conhecer de vista.

— Agora não é possível — disse-lhe na primeira semana, ao voltar de casa. — Capitu vai passar uns dias com uma amiga da rua dos Inválidos. Quando ela voltar, você irá lá. Mas pode ir antes, pode ir sempre. Por que não foi ontem jantar comigo?

— Você não me convidou.

— Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você.

— Também eu fiquei gostando de todos. Mas, se é possível fazer distinção, confesso que sua mãe é uma senhora adorável.

— Não é verdade? — respondi, cheio de alegria.

### Glossário

- **seminário**: escola onde se estuda para ser padre.
- **espetando os olhos**: olhando fixamente, como se os olhos entrassem na pessoa.
- **disfarçar**: esconder o que se sente, fingir outra coisa.
- **absolvição**: perdão dos pecados, dado pelo padre.
- **confidência**: coisa secreta que se conta a uma pessoa de confiança.
- **por alto**: sem muitos detalhes.
- **louvava**: elogiava.
- **graças físicas**: a beleza de uma pessoa.

## LXXIX. Vamos ao capítulo.

Com efeito, gostei de ouvi-lo falar assim. Você sabe a opinião que eu tinha de minha mãe. Ainda agora, interrompi esta linha para olhar o retrato dela, que está pendurado na parede. E acho que ela trazia aquela qualidade impressa no rosto. Só assim se explica a opinião de Escobar, que apenas trocara com ela quatro palavras. Uma só bastava para chegar à essência íntima dela. Sim, sim, minha mãe era adorável. Ela estava então me obrigando a uma carreira que eu não queria. Mesmo assim, eu não podia deixar de sentir que era adorável, como uma santa.

E era mesmo certo que ela me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto que eu esperava deixar para depois. Tanto que já procurava em que altura lhe daria um capítulo. Realmente, não cabia dizer agora o que só mais tarde pensei descobrir. Mas, já que toquei no ponto, é melhor acabar com ele. É grave e complexo, delicado e sutil. Num ponto assim, o autor tem de atender ao filho, e o filho tem de ouvir o autor. Isso para que um e outro digam a verdade, só a verdade, mas toda a verdade. Cabe ainda notar que é esse ponto que torna a santa mais adorável. E isso sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. Basta de prefácio ao capítulo; vamos ao capítulo.

### Glossário

- **com efeito**: de fato, realmente.
- **impressa**: marcada, como as letras num papel.
- **essência**: aquilo que uma pessoa é no mais fundo.
- **carreira**: profissão que se segue pela vida.
- **eclesiástica**: da Igreja; de padre.
- **sutil**: difícil de perceber, muito fino.
- **sem prejuízo**: sem fazer mal, sem diminuir.
- **terrestre**: da terra, deste mundo.
- **prefácio**: texto que vem antes do texto principal.

## LXXX. Venhamos ao capítulo.

Venhamos ao capítulo. Minha mãe temia a Deus. Você sabe disso, e conhece as suas práticas religiosas e a fé pura que as animava. Também sabe que a minha carreira eclesiástica era objeto de uma promessa, feita quando fui concebido. Tudo foi contado no momento certo. Sabe ainda que ela quis apertar o laço moral da obrigação. Para isso, contou os seus projetos e motivos a parentes e pessoas da casa. A promessa, feita com fervor, aceita com misericórdia, foi guardada por ela, com alegria, no mais íntimo do coração. Penso que senti o sabor dessa felicidade no leite que ela me deu. Meu pai, se vivesse, talvez mudasse os planos. Como tinha vocação para a política, é provável que me levasse só para a política. No entanto, os dois ofícios não eram nem são incompatíveis. Mais de um padre entra na luta dos partidos e no governo dos homens. Mas meu pai tinha morrido sem saber nada, e ela ficou diante do contrato como única devedora.

Um dos aforismos de Franklin diz que, para quem tem de pagar na Páscoa, a Quaresma é curta. A nossa Quaresma não foi mais longa que as outras. Minha mãe me mandou ensinar latim e doutrina, mas começou a adiar a minha entrada no seminário. É o que se chama, em linguagem de comércio, reformar uma letra. O credor era arquimilionário e não dependia daquela quantia para comer. Consentiu em adiar os pagamentos, sem sequer aumentar a taxa de juro. Um dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes da letra falou da necessidade de entregar o preço ajustado. Isso está num dos primeiros capítulos. Minha mãe concordou, e fui para São José.

Ora, nesse mesmo capítulo, ela derramou umas lágrimas, que enxugou sem explicar. Nenhum dos presentes as entendeu absolutamente, nem tio Cosme, nem prima Justina, nem o agregado José Dias. Eu, que estava atrás da porta, não as entendi mais que eles. Bem examinadas, apesar da distância, vê-se que eram saudades antecipadas, a mágoa da separação. E pode ser também (é o princípio do ponto), pode ser que fosse arrependimento da promessa. Católica e devota, ela sentia muito bem que as promessas se cumprem. A questão é saber se é oportuno e adequado fazê-las todas, e naturalmente ela se inclinava a dizer que não. Por que Deus a puniria, negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida, sem necessidade de dedicá-la a Deus *ab ovo*. Era um raciocínio tardio; devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma primeira conclusão. Mas concluir não basta para destruir. Tudo se manteve, e eu fui para o seminário.

Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor. Mas a fé vigiava com os seus grandes olhos ingênuos. Se pudesse, minha mãe faria uma troca de promessa. Daria parte dos seus anos para me conservar consigo, fora do clero, casado e pai. É o que presumo. Suponho também que rejeitou essa ideia, porque lhe pareceu uma deslealdade. Assim a senti sempre na corrente da vida comum.

Aconteceu que a minha ausência foi logo suavizada pela presença constante de Capitu. Ela começou a se tornar necessária a minha mãe. Pouco a pouco, minha mãe se convenceu de que a pequena me faria feliz. Então (é o final do ponto anunciado) nasceu uma esperança. Ela esperava que o nosso amor me tornasse de todo incompatível com o seminário. Assim eu não ficaria lá nem por Deus nem pelo diabo. Esta esperança íntima e secreta começou a invadir o coração de minha mãe. Nesse caso, eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. Ela ficaria comigo sem um ato propriamente seu. Era como se ela tivesse dado a alguém o valor de uma dívida, para levá-lo ao credor. E o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. Na vida comum, o ato de terceiro não livra o contratante. Mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro.

Você deve ter tido conflitos parecidos com esse. E, se é religioso, terá procurado alguma vez conciliar o céu e a terra, de modo idêntico ou parecido. O céu e a terra acabam se conciliando. São quase irmãos gêmeos, pois o céu foi feito no segundo dia e a terra no terceiro. Como Abraão, minha mãe levou o filho ao monte da Visão. Levou também a lenha para o holocausto, o fogo e a faca. E amarrou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou a faca e a levantou bem alto. No momento de fazê-la cair, ouve a voz do anjo, que lhe ordena da parte do Senhor: «Não faças mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus.» Tal seria a esperança secreta de minha mãe.

Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. A verdade é que minha mãe não podia agora tê-la longe de si. A afeição crescente se mostrava em atos extraordinários. Capitu passou a ser a flor da casa, o sol das manhãs, o frescor das tardes, a lua das noites. Ficava lá horas e horas, ouvindo, falando e cantando. Minha mãe lhe examinava o coração, olhava bem dentro dos olhos dela. E o meu nome era, entre as duas, como a senha da vida futura.

### Glossário

- **concebido**: gerado; diz-se do momento em que uma vida começa na mãe.
- **incompatíveis**: que não podem existir juntos.
- **aforismos**: frases curtas que ensinam alguma coisa.
- **Quaresma**: os quarenta dias de penitência antes da Páscoa.
- **reformar uma letra**: mudar para mais tarde a data de pagamento de uma dívida escrita.
- **credor**: pessoa a quem se deve dinheiro.
- **arquimilionário**: riquíssimo, muito mais rico que um milionário.
- **endossantes**: pessoas que assinam uma letra e respondem pelo pagamento.
- **enxugou**: secou.
- **antecipadas**: que vêm antes da hora.
- **mágoa**: tristeza, dor da alma.
- **inclinava**: com *se*: tendia a pensar assim, sem ter certeza.
- **ab ovo**: expressão latina: desde o começo.
- **cochilo**: sono curto e leve.
- **ingênuos**: simples, que não veem o mal.
- **presumo**: penso, sem ter certeza.
- **deslealdade**: falta de fidelidade a quem se deve respeitar.
- **suavizada**: tornada mais leve, mais fácil de suportar.
- **incompatível**: que não pode existir junto com outra coisa.
- **conciliar**: pôr de acordo, fazer ficar em paz.
- **conciliando**: ficando de acordo, ficando em paz.
- **holocausto**: antigo sacrifício, em que um animal era queimado para Deus.
- **afeição**: carinho, amizade.
- **senha**: palavra secreta que só alguns conhecem.

## LXXXI. Uma palavra.

Contado assim o que descobri mais tarde, posso trazer para aqui uma palavra de minha mãe. Agora se entenderá por que ela me disse isto no primeiro sábado. Eu tinha chegado a casa e soube que Capitu estava na rua dos Inválidos, com Sinhazinha Gurgel.

— Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa?

— Ofereceu.

— Pois então? Mas é se queres. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo; certamente a amiga lhe pediu que dormisse lá.

— Talvez ficassem namorando — insinuou prima Justina.

Não a matei por não ter na mão ferro nem corda, pistola nem punhal. Mas os olhos que lhe lancei, se pudessem matar, teriam substituído tudo isso. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem só os braços e os dentes como armas de ataque. E deixou-lhe as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam para o ataque. Um movimento deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. Seria uma vingança rápida. E havia mais: para enganar a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a vítima. Prima Justina escapou aos meus. Eu é que não escapei ao efeito da insinuação, e no domingo, às onze horas, corri à rua dos Inválidos.

O pai de Sancha me recebeu em desalinho e triste. A filha estava doente: tinha caído na véspera com uma febre, que ia piorando. Como gostava muito da filha, já a imaginava morta, e me anunciou que também se mataria. Eis aqui um capítulo fúnebre como um cemitério: mortes, suicídios e assassinatos. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. Foi Capitu que os trouxe à porta da sala, vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o chamava.

— Está pior? — perguntou Gurgel, assustado.

— Não, senhor, mas quer falar com o senhor.

— Fique aqui um bocadinho — disse-lhe ele. E, voltando-se para mim: — É a enfermeira de Sancha, que não quer outra; eu já volto.

Capitu trazia sinais de cansaço e emoção. Mas, assim que me viu, ficou toda outra, a mocinha de sempre, fresca e lépida, e não menos espantada. Custou a crer que fosse eu. Falou comigo, quis que eu lhe falasse, e de fato conversamos por alguns minutos. Mas tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram, elas que têm ouvidos. De resto, se ouviram alguma coisa, nada entenderam, nem elas nem os móveis, que estavam tão tristes como o dono.

### Glossário

- **insinuou**: disse uma coisa sem dizer claramente, deixando a pessoa imaginar.
- **ferro**: aqui, arma de metal, como a espada.
- **punhal**: faca pequena e pontuda, usada como arma.
- **Providência**: Deus, enquanto cuida do mundo.
- **piedosos**: cheios de pena e de compaixão.
- **em desalinho**: com a roupa e o cabelo em desordem.
- **fúnebre**: ligado à morte; muito triste.
- **lépida**: alegre e cheia de vida.

## LXXXII. O canapé.

Deles, só o canapé pareceu ter compreendido a nossa situação moral. Pois nos ofereceu os serviços da sua palhinha com tanta insistência que aceitamos e nos sentamos. Daí vem a opinião particular que tenho do canapé. Ele une a intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império, e duas mulheres a graça de um vestido. Mas um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais falarão de outra coisa além de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitu e eu. Vagamente me lembro de que lhe perguntei se ela ia demorar muito ali...

— Não sei; a febre parece que cede... mas...

Também me lembro, vagamente, de que lhe expliquei a minha visita à rua dos Inválidos. Disse a pura verdade: fui a conselho de minha mãe.

— Conselho dela? — murmurou Capitu.

E acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

— Seremos felizes!

Repeti estas palavras, só com os dedos, apertando os dela. O canapé, visse ou não, continuou a prestar os seus serviços. Servia às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas.

### Glossário

- **canapé**: sofá antigo, com encosto e braços.
- **palhinha**: palha fina e trançada, usada no assento de móveis.
- **intimidade**: estado de quem está muito perto e tem muita confiança.
- **decoro**: bom comportamento; respeito ao que é correto.
- **aberração**: coisa contrária ao que é natural.
- **cede**: fica menos forte.
- **vagamente**: de modo pouco claro.
- **murmurou**: falou muito baixo.

## LXXXIII. O retrato.

Gurgel voltou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. Eu me levantei depressa e não achei compostura; metia os olhos pelas cadeiras. Capitu, ao contrário, levantou-se naturalmente e perguntou se a febre tinha aumentado.

— Não — disse ele.

Nem sobressalto nem nada, nenhum ar de mistério da parte de Capitu. Voltou-se para mim e disse que eu levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina, e que até breve. Estendeu-me a mão e entrou pelo corredor. Todas as minhas invejas foram com ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente, e eu não?

— Está uma moça — observou Gurgel, olhando também para ela.

Murmurei que sim. Na verdade, Capitu ia crescendo depressa; moralmente, a mesma coisa. Esse crescimento era mais rápido, agora que eu a via de tempos em tempos. Cada vez que vinha a casa, achava-a mais alta. Os olhos pareciam ter outra reflexão. Gurgel se voltou para a parede da sala, onde estava pendurado um retrato de moça. Perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável de quem fala comigo. Isso desde que o assunto não me ofenda, aborreça ou obrigue. Antes de examinar se Capitu era mesmo parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. As pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Ele também achava as feições semelhantes, principalmente a testa e os olhos. Quanto ao gênio, era um só; pareciam irmãs.

— Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha; a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.

### Glossário

- **compostura**: modo calmo e correto de se comportar.
- **sobressalto**: susto; movimento súbito de medo.
- **lembranças**: saudações mandadas a alguém.
- **se governasse**: controlasse a si mesma.
- **moralmente**: no modo de pensar e de ser.
- **reflexão**: ato de pensar com atenção.
- **feições**: as partes e as linhas do rosto.
- **gênio**: modo de ser de uma pessoa; temperamento.

## LXXXIV. Chamado.

No saguão e na rua, examinei ainda comigo se ele teria mesmo desconfiado de alguma coisa. Achei que não, e comecei a andar. Ia satisfeito com a visita, com a alegria de Capitu, com os elogios de Gurgel. Tão satisfeito que não atendi logo a uma voz que me chamava:

— Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!

Só depois que a voz cresceu, e o dono dela chegou à porta, é que eu parei. Vi então o que era e onde estava. Estava já na rua de Matacavalos. A casa era uma loja de louça, pequena e pobre. Tinha as portas meio fechadas, e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido.

— Sr. Bentinho — disse-me ele, chorando —, sabe que meu filho Manduca morreu?

— Morreu?

— Morreu há meia hora, enterra-se amanhã. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. Ela me fez a caridade de mandar algumas flores para pôr no caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre dói. Que vida que ele teve!... Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se estava no seminário... Quer vê-lo? Entre, venha vê-lo...

Custa-me dizer isto, mas é melhor pecar por excesso que por falta. Quis responder que não, que não queria ver o Manduca, e fiz até um gesto para fugir. Não era medo. Em outra ocasião, pode ser até que eu entrasse com facilidade e curiosidade. Mas agora eu ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada... Há coisas que não se ajustam nem combinam. A simples notícia já era uma grande perturbação. As minhas ideias de ouro perderam todas a cor e o metal. Trocaram-se em cinza escura e feia, e não distingui mais nada. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. Mas provavelmente não falei com palavras claras, nem sequer humanas. Porque ele, encostado ao portal, me abria espaço com o gesto. Eu, sem alma para entrar nem para fugir, deixei o corpo fazer o que pudesse. E o corpo acabou entrando.

Não culpo o homem. Para ele, a coisa mais importante do momento era o filho. Mas também não me culpem a mim. Para mim, a coisa mais importante era Capitu. O mal foi que os dois casos se juntaram na mesma tarde. E a morte de um veio meter o nariz na vida do outro. Eis todo o mal. Eu podia passar antes ou depois, ou o Manduca podia esperar algumas horas para morrer. Então nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é boa para morrer; morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde.

### Glossário

- **saguão**: entrada ampla de uma casa.
- **louça**: pratos, xícaras e outros objetos de mesa.
- **grisalho**: com o cabelo meio branco.
- **caixão**: caixa onde se põe o corpo de um morto.
- **pecar por excesso**: errar por fazer ou dizer demais.
- **defunto**: pessoa morta.
- **perturbação**: confusão; perda da calma.
- **portal**: a abertura e a armação de uma porta.

## LXXXV. O defunto.

Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. A loja era escura. O interior da casa tinha ainda menos luz, agora que as janelas da área estavam fechadas. Num canto da sala de jantar, vi a mãe chorando. À porta da alcova, duas crianças olhavam espantadas para dentro, com o dedo na boca. O cadáver estava na cama; a cama...

Paremos a pena e vamos à janela espairecer a memória. Realmente, o quadro era feio, tanto pela morte como pelo defunto, que era horrível... Isto aqui, sim, é outra coisa. Tudo o que vejo lá fora respira vida. A cabra que rumina ao pé de uma carroça. A galinha que cisca no chão da rua. O trem da Estrada Central, que bufa, assobia, solta fumaça e passa. A palmeira que sobe para o céu. E, finalmente, aquela torre de igreja, apesar de não ter músculos nem folhagem. Um rapaz, que ali no beco solta um papagaio de papel, não morreu nem morre, embora também se chame Manduca.

Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este, pouco mais velho. Teria dezoito ou dezenove anos, mas você podia lhe dar tanto quinze como vinte e dois. A cara não deixava ver a idade, antes a escondia nas dobras da... Vá, digamos tudo. Ele está morto, os seus parentes estão mortos. Se existe algum, não é tão conhecido que sinta vergonha ou dor. Digamos tudo: Manduca sofria de uma doença cruel, nada menos que a lepra. Vivo era feio; morto, pareceu-me horrível. Quando vi, estendido na cama, o triste corpo daquele meu vizinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não sei que mão oculta me obrigou a olhar outra vez, ainda que depressa. Cedi, olhei, tornei a olhar, até que recuei de todo e saí do quarto.

— Sofreu muito! — suspirou o pai.

— Coitado de Manduca! — soluçava a mãe.

Eu cuidei de sair. Disse que me esperavam em casa e me despedi. O pai me perguntou se eu lhe faria o favor de ir ao enterro. Respondi com a verdade: não sabia, faria o que minha mãe quisesse. E saí rápido, atravessei a loja e saltei para a rua.

### Glossário

- **área**: parte aberta, sem teto, dentro ou atrás da casa.
- **alcova**: quarto pequeno, sem janelas.
- **espairecer**: distrair-se, descansar a cabeça.
- **rumina**: mastiga de novo a comida, como fazem a vaca e a cabra.
- **cisca**: mexe a terra com os pés, procurando comida.
- **beco**: rua estreita e curta.
- **papagaio de papel**: brinquedo de papel que voa preso a uma linha.
- **lepra**: doença grave; hoje se diz hanseníase.
- **apavorado**: com muito medo.

## LXXXVI. Amai, rapazes!

Era tão perto que, em menos de três minutos, eu já estava em casa. Parei no corredor para tomar fôlego. Queria esquecer o defunto, pálido e deformado. Queria esquecer também o resto, que não contei para não dar a estas páginas um aspecto repugnante. Mas você pode imaginar. Afastei tudo dos olhos em poucos segundos. Bastou-me pensar na outra casa, na vida e na cara fresca e lépida de Capitu... Amai, rapazes! E, principalmente, amai moças lindas e graciosas. Elas dão remédio ao mal, perfume ao que cheira mal, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!

### Glossário

- **tomar fôlego**: respirar fundo para descansar depois de correr.
- **defunto**: pessoa morta.
- **deformado**: que perdeu a forma normal do corpo ou do rosto.
- **repugnante**: que causa nojo.
- **lépida**: alegre, viva e leve.
- **graciosas**: que têm graça e encanto.
- **amai**: forma antiga do verbo amar, usada para pedir ou mandar a várias pessoas.

## LXXXVII. A sege.

Eu tinha chegado ao último degrau, e uma ideia me entrou na cabeça. Parecia que estava à minha espera entre as grades da cancela. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca, que me pedia para ir ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Refleti um instante. Sim, eu podia ir ao enterro. Pediria a minha mãe que me alugasse um carro...

Não pense que era o desejo de andar de carro, por mais que eu gostasse disso. Lembro-me de que, em pequeno, ia muitas vezes assim com minha mãe. Íamos às visitas de amizade ou de cerimônia, e à missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pai, que ela conservou o mais que pôde. O cocheiro era nosso escravo, tão velho como a sege. Quando me via à porta, vestido, à espera de minha mãe, dizia-me rindo:

— Pai João vai levar nhonhô!

E era raro que eu não lhe pedisse:

— João, demora muito as bestas; vai devagar.

— Nhã Glória não gosta.

— Mas demora!

Fique claro que era para saborear a sege. Não era por vaidade, porque ela não deixava ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege fora de moda, de duas rodas, estreita e curta. Tinha duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha uma janelinha de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.

— Senta, Bentinho!

— Deixa espiar, mamãe!

Quando eu era menor, ficava em pé e encostava a cara no vidro. Via o cocheiro com as suas grandes botas, montado na mula da esquerda e segurando a rédea da outra. Na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo era incômodo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava, e eu também. Dos lados eu via passar as casas, com lojas ou sem lojas, abertas ou fechadas, com gente ou sem gente. Na rua via as pessoas que iam e vinham, ou que atravessavam diante da sege, com passos largos ou miúdos. Quando gente ou animais impediam a passagem, a sege parava, e então o espetáculo era especialmente interessante. As pessoas paradas na calçada ou à porta das casas olhavam para a sege e falavam entre si. Falavam, naturalmente, sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo, imaginei que adivinhavam e diziam: «É aquela senhora da rua de Matacavalos, que tem um filho, Bentinho...»

A sege combinava muito com a vida recolhida de minha mãe. Por isso, quando já não havia nenhuma outra, continuamos a andar nela. Era conhecida na rua e no bairro como a «sege antiga». Afinal minha mãe aceitou deixá-la, mas não a vendeu logo. Só se desfez dela porque as despesas da cocheira a obrigaram. A razão de guardar uma coisa inútil foi apenas sentimental: era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele. Era um resto da pessoa, a mesma alma inteira e pura. Mas o uso da sege vinha também do gosto pelas coisas antigas, que ela confessava aos amigos. Minha mãe mostrava bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o seu museu de relíquias. Eram pentes que ninguém usava mais, um pedaço de mantilha, umas moedas de cobre de 1824 e 1825. E, para que tudo fosse antigo, ela mesma queria fazer-se velha. Mas já disse que, neste ponto, não conseguia tudo o que queria.

### Glossário

- **sege**: carro antigo, puxado por animais.
- **cancela**: pequeno portão de madeira ou ferro.
- **cocheiro**: homem que conduz um carro puxado por animais.
- **nhonhô**: forma antiga com que pessoas escravizadas falavam com o filho do senhor.
- **nhã**: forma antiga com que pessoas escravizadas falavam com a senhora.
- **bestas**: aqui, as mulas que puxam a sege.
- **rédea**: correia que serve para guiar o animal.
- **mantilha**: pano leve que as mulheres usavam na cabeça e nos ombros.
- **relíquias**: coisas antigas guardadas com muito carinho.

## LXXXVIII. Um pretexto honesto.

Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e das suas doçuras. A origem era outra. Se eu acompanhasse o enterro no dia seguinte, não iria ao seminário. Assim podia fazer outra visita a Capitu, um pouco mais demorada. Aí está o que era. A lembrança do carro podia vir depois, como coisa secundária, mas a principal e imediata foi aquela. Eu voltaria à rua dos Inválidos, com o pretexto de saber de Sinhazinha Gurgel. Contava que tudo me saísse como naquele dia: Gurgel aflito, Capitu comigo no canapé, as mãos presas, o penteado...

— Vou pedir a mamãe.

Abri a cancela. Antes de passar, assim como tinha ouvido da memória a palavra do pai do morto, ouvi agora a da mãe. E repeti a meia-voz:

— Coitado de Manduca!

### Glossário

- **pretexto**: motivo falso que se dá para esconder o motivo verdadeiro.
- **doçuras**: coisas agradáveis.
- **sinhazinha**: forma antiga de falar com a moça filha de um senhor.
- **aflito**: muito preocupado e nervoso.
- **canapé**: sofá antigo.
- **penteado**: modo de arrumar o cabelo.
- **cancela**: pequeno portão de madeira ou ferro.
- **a meia-voz**: em voz baixa.

## LXXXIX. A recusa.

Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.

— Perder um dia de seminário...

Mostrei-lhe a amizade que Manduca tinha por mim. Além disso, era gente pobre... Tudo o que me lembrei de dizer, eu disse. Prima Justina deu opinião contrária.

— Você acha que não deve ir? — perguntou-lhe minha mãe.

— Acho que não. Que amizade é essa que eu nunca vi?

Prima Justina venceu. Quando contei o caso ao agregado, ele sorriu. Disse-me que o motivo escondido da prima era, provavelmente, não dar ao enterro «o lustre da minha pessoa». Fosse o que fosse, fiquei amuado. No dia seguinte, pensando no motivo, não me desagradou. Mais tarde achei nele um sabor particular.

### Glossário

- **perplexa**: sem saber o que pensar ou fazer.
- **enterro**: cerimônia em que se leva um morto para a sepultura.
- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **lustre**: brilho, honra.
- **fosse o que fosse**: qualquer que fosse o motivo.
- **amuado**: triste e aborrecido, sem querer falar.
- **sabor**: aqui, um gosto especial, um pequeno prazer.

## XC. A polêmica.

No dia seguinte, passei pela casa do defunto sem entrar nem parar. Ou, se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em que digo isto a você. Se não me engano, andei até mais depressa, com medo de que me chamassem como na véspera. Já que eu não ia ao enterro, melhor longe que perto. Fui andando e pensando no pobre-diabo.

Não éramos amigos, nem nos conhecíamos havia muito tempo. Intimidade, que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Nossas relações foram breves e distantes. Fui pensando nelas, lembrando algumas. Todas se reduziam a uma polêmica entre nós, dois anos antes, sobre... Você mal pode acreditar sobre o quê. Foi a guerra da Crimeia.

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo para passar o tempo. Aos domingos, no fim da tarde, o pai lhe vestia uma camisola escura. Depois o trazia para o fundo da loja. Dali ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era toda a sua diversão. Foi ali que o vi uma vez, e fiquei bastante espantado. A doença ia comendo parte das suas carnes, os dedos queriam fechar-se. O aspecto, certamente, não atraía. Eu tinha entre treze e quatorze anos. Da segunda vez que o vi ali, falamos da guerra da Crimeia, que então ardia e andava nos jornais. Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que não.

— Pois veremos — disse ele. — Só se a justiça não vencer neste mundo, o que é impossível. E a justiça está com os aliados.

— Não, senhor, a razão está com os russos.

Naturalmente, seguíamos o que nos diziam os jornais da cidade, que copiavam os de fora. Mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Sempre fui um tanto moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da Rússia, e Manduca defendeu o dos aliados. No terceiro domingo em que entrei na loja, tocamos outra vez no assunto. Então Manduca propôs trocar os argumentos por escrito. Na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel. Continham a exposição e defesa do direito dos aliados e da integridade da Turquia. Terminavam com esta frase profética:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Li o texto e comecei a refutá-lo. Não me lembro de um só dos argumentos que usei. Talvez nem interesse conhecê-los, agora que o século está a expirar. Mas a ideia que me ficou deles é que não tinham resposta. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde ele estava estendido na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos. Talvez fosse o gosto da polêmica, ou outra causa que não alcanço. O fato é que não senti toda a repugnância que saía da cama e do doente. E o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Quanto a Manduca, por mais nojenta que estivesse então a cara, o sorriso que a acendeu escondeu o mal físico. Recebeu o papel e disse que ia ler e responder. A convicção com que fez isso não tem palavras, nossas ou alheias, que a digam por inteiro e com verdade. Não era exaltada, não era barulhenta, não tinha gestos, nem a doença os permitiria. Era simples, grande, profunda, uma alegria infinita de vitória, antes de conhecer os meus argumentos. Já tinha papel, pena e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a réplica. Não me lembro se trazia coisas novas ou não. O calor é que crescia, e o final era o mesmo:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Respondi de novo, e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. Nenhum de nós cedia, e cada um defendia os seus clientes com força e brio. Manduca escrevia mais longamente e mais depressa que eu. Naturalmente, a mim sobravam mil coisas que me distraíam: o estudo, os recreios, a família. A própria saúde me chamava a outros exercícios. Manduca, fora o palmo de rua no domingo à tarde, tinha só esta guerra. Era assunto da cidade e do mundo, mas ninguém ia falar dela com ele. O acaso lhe deu em mim um adversário. Ele, que gostava de escrever, atirou-se ao debate como a um remédio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. Os olhos desaprenderam de chorar, se é que choravam antes. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe.

— O senhor não imagina como ele anda agora — dizia-me o dono da loja, uma vez, à porta da rua. — Depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis, fala e ri muito. Logo que mando o caixeiro levar os papéis dele, começa a perguntar pela resposta. Quer saber se vai demorar muito, e manda perguntar ao moleque, quando ele passar. Enquanto espera, lê de novo jornais e toma notas. Mas também, mal recebe os seus papéis, atira-se a lê-los e começa logo a escrever a resposta. Há ocasiões em que não come ou come mal. Por isso eu queria pedir-lhe uma coisa: que não os mande à hora do almoço ou do jantar...

Fui eu que me cansei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não dei mais nenhuma. Ele ainda insistiu duas ou três vezes depois do meu silêncio. Mas não recebeu resposta nenhuma. Por cansaço também, ou para não incomodar, acabou de vez com as suas defesas. A última, como a primeira, como todas, afirmava a mesma predição eterna:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Não entraram, de fato, nem então, nem depois, nem até agora. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. O próprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou três anos de dissolução. Tão certo é que a natureza, como a história, não se faz brincando. A vida dele resistiu como a Turquia. Se afinal cedeu, foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. O simples acordo da medicina e da farmácia não se pode considerar uma aliança assim. Morreu afinal, como morrem os Estados. No nosso caso particular, a questão não é saber se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa ninguém. A questão é saber se os russos entrarão algum dia em Constantinopla. Essa era a questão para o meu vizinho leproso, debaixo da triste, rasgada e infecta colcha de retalhos...

### Glossário

- **polêmica**: discussão forte, em geral por escrito.
- **espiava**: olhava com atenção, sem ser visto.
- **quatorze**: catorze, o número 14.
- **ardia**: queimava; aqui, a guerra acontecia com muita força.
- **moscovita**: de Moscou; aqui, que tem ideias a favor da Rússia.
- **hão**: forma do verbo haver; «não hão de entrar» quer dizer «não vão entrar».
- **refutá-lo**: mostrar que um texto ou uma ideia está errada.
- **expirar**: acabar; também quer dizer morrer.
- **alcova**: pequeno quarto de dormir, no interior da casa.
- **colcha de retalhos**: coberta de cama feita de pedaços de pano.
- **repugnância**: nojo forte.
- **exaltada**: agitada, com emoção forte.
- **brio**: coragem e orgulho.
- **desaprenderam**: perderam o hábito que tinham.
- **caixeiro**: empregado de loja.
- **moleque**: antigo: menino negro escravizado; nesse sentido é ofensivo.
- **predição**: o que alguém diz que vai acontecer no futuro.
- **leproso**: palavra antiga e ofensiva para pessoa com lepra, doença grave que hoje se chama hanseníase.
- **infecta**: muito suja e com mau cheiro.

## XCI. Achado que consola.

É claro que as reflexões que deixei aí não foram feitas então, a caminho do seminário. Foram feitas agora, no gabinete do Engenho Novo. Naquele tempo não fiz propriamente nenhuma, a não ser esta: que um dia servi de alívio ao meu vizinho Manduca. Hoje, pensando melhor, acho que não só servi de alívio, mas até lhe dei felicidade. E esse achado me consola. Agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo. Fiz com que ele esquecesse o mal e o resto. É alguma coisa na liquidação da minha vida. Pode haver no outro mundo algum prêmio para as virtudes sem intenção. Se houver, esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. Quanto a Manduca, não creio que fosse pecado ter opinião contra a Rússia. Mas, se era, ele estará há quarenta anos no purgatório, pagando a felicidade que alcançou em dois ou três meses. Daí concluirá (já tarde) que era ainda melhor ter apenas gemido, sem dar opinião nenhuma.

### Glossário

- **achado**: coisa que alguém encontra ou descobre.
- **gabinete**: sala de uma casa onde se lê e se escreve.
- **alívio**: o que faz uma dor ou uma tristeza diminuir.
- **pobre-diabo**: homem infeliz, que causa pena.
- **liquidação**: conta final do que se deve e do que se tem.
- **virtudes**: boas qualidades, boas ações.
- **purgatório**: para os católicos, lugar onde as almas pagam os pecados antes de ir para o céu.
- **gemido**: do verbo gemer: fazer sons de dor.

## XCII. O diabo não é tão feio como se pinta.

Manduca foi enterrado sem mim. A muitos outros aconteceu a mesma coisa, sem que eu sentisse nada. Mas este caso me afligiu particularmente, pela razão que já disse. Também senti não sei que melancolia ao lembrar a primeira polêmica da vida. Lembrava o gosto com que ele recebia os meus papéis e se preparava para refutá-los. E não conto o gosto do carro... Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições. Nem foi só ele. Duas pessoas vieram ajudá-lo: Capitu, cuja imagem ficou comigo naquela mesma noite, e outra que direi no próximo capítulo. O resto deste capítulo é só para pedir uma coisa. Alguém talvez leia o meu livro com mais atenção do que exige o preço do exemplar. Essa pessoa não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. Quero dizer...

Quero dizer que o meu vizinho de Matacavalos temperava o mal com a opinião contra a Rússia. Assim dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Há consolações maiores, certamente. Uma das melhores é não sofrer esse nem outro mal algum. Mas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. Aos mais nojentos ou mais aflitos ela acena com uma flor. E talvez assim saia a flor mais bela. O meu jardineiro afirma que as violetas, para terem um cheiro superior, precisam de estrume de porco. Não examinei, mas deve ser verdade.

### Glossário

- **afligiu**: causou dor e tristeza.
- **melancolia**: tristeza suave e longa.
- **ressurreições**: coisas passadas que voltam à vida; aqui, lembranças que voltam.
- **refutá-los**: mostrar que textos ou ideias estão errados.
- **exemplar**: cada livro de uma edição.
- **o diabo não é tão feio como se pinta**: ditado: as coisas ruins não são tão ruins como parecem.
- **temperava**: tornava mais suave ou mais fácil de suportar.
- **podridão**: estado do que está podre.
- **consolava**: dava alívio na dor.
- **consolações**: coisas que dão alívio na dor.
- **acena**: faz um sinal com a mão; aqui, oferece.
- **jardineiro**: homem que cuida do jardim.
- **estrume**: sujeira de animais usada para adubar a terra.

## XCIII. Um amigo por um defunto.

Quanto à outra pessoa que teve a força de apagar tudo, foi o meu colega Escobar. No domingo, antes do meio-dia, ele veio até Matacavalos. Um amigo substituía assim um defunto. E que amigo! Durante cerca de cinco minutos, ficou com a minha mão entre as suas. Parecia que não me via havia longos meses.

— Você janta comigo, Escobar?

— Vim para isso mesmo.

Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que tinha por mim. Ele respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atrapalhado, como se lhe faltasse a palavra pronta. Você já viu que não era assim: a palavra lhe obedecia. Mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. Em resumo, disse que gostava de mim pelas minhas boas qualidades e pela minha educação fina. No seminário todos gostavam de mim, nem podia ser de outro modo, acrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, «na doce e rara mãe» que o céu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e trêmula.

Todos ficaram gostando dele. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. José Dias lhe disparou dois superlativos, tio Cosme dois capotes, e prima Justina não achou defeito para apontar. Depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, ela veio nos confessar uma coisa. O meu amigo Escobar era um tanto intrometido e tinha uns olhos policiais, a que nada escapava.

— São os olhos dele — expliquei.

— Nem eu digo que sejam de outro.

— São olhos refletidos — opinou tio Cosme.

— Seguramente — acudiu José Dias. — Entretanto, pode ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma coisa não impede outra. A reflexão se casa muito bem com a curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...

— A mim me parece um mocinho muito sério — disse minha mãe.

— Justamente! — confirmou José Dias, para não discordar dela.

Quando contei a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem as outras, naturalmente), vi que o prazer dele foi extraordinário. Agradeceu, dizendo que eram bondades. Elogiou também minha mãe, senhora séria, distinta e moça, muito moça... Que idade teria?

— Já fez quarenta — respondi vagamente, por vaidade.

— Não é possível! — exclamou Escobar. — Quarenta anos! Nem parece trinta; está muito moça e bonita. Também a alguém você há de puxar, com esses olhos que Deus lhe deu; são exatamente os dela. Ficou viúva há muitos anos?

Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. Escobar escutava atento, perguntava mais, pedia explicação das partes que faltavam ou que estavam escuras. Eu lhe disse que não me lembrava de nada da roça, pois tinha vindo de lá muito pequeno. Então ele me contou duas ou três lembranças dos seus três anos de idade, ainda agora frescas. E não pensávamos em voltar à roça?

— Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquele preto que vai passando ali é de lá. Tomás!

— Nhonhô!

Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço. Chegou perto de nós e esperou.

— É casado — disse eu para Escobar. — Maria onde está?

— Está socando milho, sim, senhor.

— Você ainda se lembra da roça, Tomás?

— Alembra, sim, senhor.

— Bem, vá embora.

Mostrei outro, mais outro, e ainda outro: este Pedro, aquele José, aquele outro Damião...

— Todas as letras do alfabeto — interrompeu Escobar.

De fato, eram letras diferentes, e só então reparei nisso. Apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes. Distinguiam-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação, como Pedro Benguela, Antônio Moçambique...

— E estão todos aqui em casa? — perguntou ele.

— Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.

— O que me admira é que D. Glória se acostumasse logo a viver em casa da cidade. Aqui tudo é apertado; a de lá é naturalmente grande.

— Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta, mas diz que há de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem grandes, como a da rua da Quitanda...

— Conheço essa; é bonita.

— Tem também no Rio Comprido, na Cidade Nova, uma no Catete...

— Não lhe hão de faltar tetos — concluiu ele, sorrindo com simpatia.

Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro. Ele parou ali um instante, olhando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões sobre a limpeza. Depois continuamos. Não me lembro agora de quais foram as reflexões. Lembro só que as achei engenhosas e ri, e ele riu também. A minha alegria acordava a dele. O céu estava tão azul e o ar tão claro que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse acordo do interior com o exterior, com palavras tão finas e altas que me comoveram. Depois falou da beleza moral que combina com a física. A propósito disso, voltou a falar de minha mãe, «um anjo dobrado», disse ele.

### Glossário

- **superlativos**: palavras de elogio muito forte, como "belíssimo".
- **capotes**: vitórias grandes no jogo.
- **intrometido**: que se mete nos assuntos dos outros.
- **roça**: terra do campo onde se planta; aqui, a antiga fazenda da família.
- **preto**: palavra antiga para pessoa negra; hoje pode ofender.
- **nhonhô**: forma antiga com que pessoas escravizadas falavam com o filho do senhor.
- **socando**: batendo com força para quebrar ou moer.
- **andam ganhando na rua**: trabalham na rua e entregam o dinheiro ao dono.
- **lavadouro**: lugar onde se lava roupa.

## XCIV. Ideias aritméticas.

Não digo o resto, que foi muito. Ele não sabia só elogiar e pensar; sabia também calcular depressa e bem. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2+2=4). Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. A divisão sempre foi uma das operações difíceis para mim, mas para ele não era nada. Fechava um pouco os olhos, virados para cima, e sussurrava os nomes dos algarismos: estava pronto. Isso com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. Achava que os algarismos, sendo poucos, eram muito mais ricos de sentido que as vinte e cinco letras do alfabeto.

— Há letras inúteis e letras dispensáveis — dizia ele. — Que serviço diferente prestam o *d* e o *t*? Têm quase o mesmo som. O mesmo digo do *b* e do *p*. O mesmo do *s*, do *c* e do *z*, o mesmo do *k* e do *g*, etc. São confusões de caligrafia. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se escreve 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por igual número, dá 484, e assim por diante. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do *zero*. O valor do *zero*, em si mesmo, é nada. Mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um 5; ponha-lhe dois 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito. É coisa que as letras dobradas não fazem, pois eu tanto *aprovo* com um *p* como com dois *pp*.

Criado na ortografia de meus pais, custava-me ouvir tais blasfêmias, mas não tinha coragem de refutá-lo. Contudo, um dia, disse algumas palavras de defesa. Ele respondeu que era um preconceito. Acrescentou que as ideias aritméticas podiam ir ao infinito, com a vantagem de serem mais fáceis de manejar. Assim, eu não era capaz de resolver no momento um problema filosófico ou linguístico. Ele, ao contrário, podia somar em três minutos quaisquer quantias.

— Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes... Olhe, dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma. Se eu não disser a soma total em dois, em um minuto, enforque-me!

Aceitei a aposta. Na semana seguinte levei-lhe escritos num papel os algarismos das casas e dos aluguéis. Escobar pegou o papel e passou os olhos pelos números, para os decorar. Enquanto eu olhava fixamente o relógio, ele erguia as pupilas, fechava as pálpebras e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito. Em meio minuto gritou-me:

— Dá tudo 1:070$000 mensais.

Fiquei pasmado. Considere que eram nada menos de nove casas. Os aluguéis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Eu gastaria nisso três ou quatro minutos, e teria de ser no papel. Pois Escobar fez tudo de cor, brincando. Olhava-me com ar de vitória e perguntava se não estava exato. Eu, só para lhe mostrar que sim, tirei do bolso o papelzinho que levava com a soma total e mostrei-lhe. Era aquilo mesmo, nem um erro: 1:070$000.

— Isso prova que as ideias aritméticas são mais simples e, portanto, mais naturais. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.

Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio. Outros colegas do seminário notaram a nossa efusão, e um padre que estava com eles não gostou.

— A modéstia — disse-nos — não permite esses gestos excessivos; podem gostar um do outro com moderação.

Escobar me observou que os outros e o padre falavam por inveja, e propôs viver separados. Interrompi-o dizendo que não. Se era inveja, tanto pior para eles.

— Quebremos-lhe a castanha na boca!

— Mas...

— Fiquemos ainda mais amigos do que até aqui.

Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tanta força que ainda me doem os dedos. É ilusão, certamente, se não é efeito das longas horas que tenho passado a escrever sem parar. Suspendamos a pena por alguns instantes...

### Glossário

- **aritméticas**: dos números e das contas.
- **multiplicava**: fazia contas como 3 vezes 4.
- **de cor**: de memória, sem ler nem escrever.
- **sussurrava**: falava muito baixo.
- **algarismos**: sinais que representam os números, como 1, 2 e 3.
- **dispensáveis**: que não são necessárias.
- **caligrafia**: modo de escrever as letras à mão.
- **multiplique**: faça a conta de vezes; aqui, 22 vezes 22.
- **blasfêmias**: palavras que ofendem o que é sagrado; aqui, a ortografia.
- **refutá-lo**: mostrar que alguém está errado.
- **enforque-me**: mate-me pendurado por uma corda no pescoço.
- **pupilas**: parte escura no centro do olho; aqui, os olhos.
- **pálpebras**: pele que cobre o olho quando ele se fecha.
- **pasmado**: muito espantado.
- **efusão**: demonstração forte de sentimentos.
- **modéstia**: aqui, decência, moderação nos gestos.
- **Quebremos-lhe a castanha na boca**: vamos vencer quem nos ataca e fazê-lo calar.
- **Suspendamos a pena**: vamos parar de escrever; a pena era o instrumento usado para escrever.

## XCV. O papa.

A amizade de Escobar ficou grande e fecunda, e a de José Dias não quis ficar atrás. Na primeira semana, ele me disse em casa:

— Agora é certo que você vai sair logo do seminário.

— Como?

— Espere até amanhã. Vou jogar com eles, que me chamaram. Amanhã, lá no quarto, no quintal, ou na rua, indo à missa, conto-lhe o que há. A ideia é tão santa que não está mal no santuário. Amanhã, Bentinho.

— Mas é coisa certa?

— Certíssima!

No dia seguinte revelou-me o mistério. No primeiro momento, confesso que fiquei deslumbrado. A ideia trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era nada menos que isto. Minha mãe, na opinião dele, estava arrependida do que tinha feito, e desejaria ver-me aqui fora. Mas entendia que o laço moral da promessa a prendia para sempre. Era preciso rompê-lo, e para isso valia a Escritura, com o poder de desligar dado aos apóstolos. Assim, ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me parecia?

— Parece-me bem — respondi depois de alguns segundos de reflexão. — Pode ser um bom remédio.

— É o único, Bentinho, é o único! Vou hoje mesmo conversar com D. Glória, explico-lhe tudo, e podemos partir daqui a dois meses, ou antes...

— Melhor é falar no domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...

— Oh! Bentinho! — interrompeu o agregado. — Pensar em quê? Você o que quer... Digo? Não se zanga com o seu velho? Você o que quer é consultar uma pessoa.

Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar, mas neguei de pés juntos que quisesse consultar alguém. E que pessoa, o reitor? Não era natural confiar-lhe tal assunto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguém. Era só o tempo de refletir, uma semana. No domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.

— Não?

— Não.

— Pois resolvamos hoje mesmo.

— Não se vai a Roma brincando.

— Quem tem boca vai a Roma, e boca, no nosso caso, é a moeda. Ora, você pode muito bem gastar consigo... Comigo, não; um par de calças, três camisas e o pão de cada dia, não preciso de mais. Serei como São Paulo, que vivia do seu ofício enquanto pregava a palavra divina. Pois eu vou, não para pregá-la, mas para buscá-la. Levaremos cartas do internúncio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos... Bem sei a objeção que se pode fazer a esta ideia. Dirão que se pode pedir a dispensa daqui de longe. Mas, além do mais que não digo, basta refletir numa coisa. É muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano o próprio objeto do favor. É o levita prometido, que se ajoelha aos pés do papa. Ele vai pedir a dispensa de Deus para sua mãe terníssima e dulcíssima. Considere o quadro: você beijando o pé do príncipe dos apóstolos. Sua Santidade, com o sorriso evangélico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam. A Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos. E que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu...

Não digo mais, porque é preciso acabar o capítulo, e ele não acabou o discurso. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. Vi a alma aliviada de minha mãe, vi a alma feliz de Capitu, ambas em casa. Vi-me com elas, e ele conosco, tudo por meio de uma pequena viagem a Roma. Eu só sabia geograficamente onde ficava Roma. Espiritualmente também, mas não sabia a distância que estaria da vontade de Capitu. Eis o ponto essencial. Se Capitu achasse longe, eu não iria. Mas era preciso ouvi-la, e também a Escobar, que me daria um bom conselho.

### Glossário

- **fecunda**: que produz muitos frutos, muitos bons resultados.
- **deslumbrado**: muito impressionado, como quem vê uma luz forte.
- **absolvição**: perdão dado pela Igreja.
- **de pés juntos**: com toda a força, como quem jura.
- **Quem tem boca vai a Roma**: ditado: quem pergunta chega aonde quer.
- **internúncio**: representante do papa em um país.
- **capuchinhos**: frades de uma ordem católica.
- **dispensa**: permissão para não cumprir uma obrigação.
- **levita**: na Bíblia, homem que servia no templo; aqui, futuro padre.

## XCVI. Um substituto.

Contei a Capitu a ideia de José Dias. Ela me ouviu com atenção e acabou triste.

— Você indo — disse ela —, me esquece inteiramente.

— Nunca!

— Esquece. A Europa, dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é de lá que vêm as cantoras? Você me esquece, Bentinho. E não haverá outro meio? D. Glória está morrendo de vontade de que você saia do seminário.

— Sim, mas se acha presa pela promessa.

Capitu não achava outra ideia, nem acabava de aceitar esta. De passagem, pediu-me que, se eu fosse a Roma, jurasse voltar no fim de seis meses.

— Juro.

— Por Deus?

— Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.

— Mas se o papa ainda não tiver soltado você?

— Mando dizer isso mesmo.

— E se você mentir?

Esta palavra me doeu muito, e não achei logo o que responder. Capitu levou o negócio na brincadeira, rindo e chamando-me disfarçado. Depois, declarou que acreditava que eu cumpriria o juramento. Mas, mesmo assim, não concordou logo. Ia ver se não haveria outra coisa, e eu que visse também do meu lado.

Quando voltei ao seminário, contei tudo ao meu amigo Escobar. Ele me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de costume fugidios, quase me comeram de tanto me contemplar. De repente, vi no seu rosto um clarão, um reflexo de ideia. E ouvi-o dizer, muito depressa:

— Não, Bentinho, não é preciso isso. Há melhor. Não digo melhor, porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. Mas há coisa que produz o mesmo efeito.

— Que é?

— Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote que não seja você. Ela pode muito bem tomar conta de algum mocinho órfão e fazê-lo ordenar à sua custa. Está dado um padre ao altar, sem que você...

— Entendo, entendo, é isso mesmo.

— Não acha? — continuou ele. — Consulte sobre isso o protonotário; ele lhe dirá se não é a mesma coisa. Ou eu mesmo consulto, se você quiser. E se ele hesitar, fala-se ao senhor bispo.

Eu, refletindo:

— Sim, parece que é isso; realmente, a promessa se cumpre, não se perdendo o padre.

Escobar observou que, pelo lado econômico, a questão era fácil. Minha mãe gastaria o mesmo que comigo, e um órfão não precisaria de grandes confortos. Citou a soma dos aluguéis das casas, 1:070$000, além dos escravos...

— Não há outra coisa — disse eu.

— E saímos juntos.

— Você também?

— Também eu. Vou melhorar o meu latim e saio; nem estudo teologia. O próprio latim não é preciso; para quê, no comércio?

— *In hoc signo vinces* — disse eu, rindo.

Sentia-me brincalhão. Oh! como a esperança alegra tudo. Escobar sorriu, parecendo gostar da resposta. Depois ficamos pensando em nós mesmos, cada um com os olhos perdidos, provavelmente. Os dele estavam assim quando voltei de longe. Agradeci de novo o plano que ele tinha lembrado; não podia haver outro melhor. Escobar me ouviu contentíssimo.

— Ainda uma vez — disse ele gravemente —, a religião e a liberdade fazem boa companhia.

### Glossário

- **substituto**: pessoa que fica no lugar de outra.
- **disfarçado**: que esconde o que pensa ou sente.
- **fugidios**: que fogem, que não ficam parados.
- **clarão**: luz forte e rápida.
- **sacerdote**: padre.
- **ordenar**: dar a alguém o título de padre, em cerimônia da Igreja.
- **protonotário**: título de honra dado pelo papa; aqui, o padre Cabral.
- **In hoc signo vinces**: frase latina: "com este sinal vencerás".

## XCVII. A saída

Tudo foi feito desse modo. Minha mãe hesitou um pouco, mas acabou cedendo depois que o padre Cabral consultou o bispo. Ele voltou para dizer a ela que sim, que podia ser. Saí do seminário no fim do ano.

Tinha então pouco mais de dezessete... Aqui devia ser o meio do livro. Mas a falta de experiência me fez ir atrás da pena. Agora chego quase ao fim do papel, com o melhor da história por contar. Só me resta levá-la a grandes passos, capítulo sobre capítulo, com pouca correção, pouca reflexão, tudo em resumo. Esta página já vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegaremos ao fim.

Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. Não sei se você alguma vez teve dezessete anos. Se teve, deve saber que nessa idade a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. Eu era um curiosíssimo, diria o meu agregado José Dias, e não diria mal. O que essa qualidade superlativa me deu, eu nunca poderia dizer aqui sem cair no erro que acabo de condenar. A análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano.

Eu era filho do seminário e de minha mãe. Mesmo assim, debaixo da minha vida quieta e recolhida, já sentia uns assomos de petulância e de atrevimento. Eles vinham das moças que, na rua ou da janela, não me deixavam viver sossegado. Achavam-me lindo e me diziam isso, e a vaidade é um princípio de corrupção.

### Glossário

- **hesitou**: ficou em dúvida antes de decidir.
- **bispo**: padre importante, que dirige a Igreja numa região.
- **a grandes passos**: depressa, sem parar nos detalhes.
- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **assomos**: primeiros sinais de um sentimento.
- **petulância**: atitude de quem se acha mais do que é e fala sem respeito.
- **atrevimento**: coragem de fazer o que não se deve.
- **corrupção**: perda dos bons costumes e dos bons princípios.

## XCVIII. Cinco anos

A razão venceu, e fui estudar. Passei os dezoito anos, os dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e dois era bacharel em direito.

Tudo tinha mudado em volta de mim. Minha mãe tinha resolvido envelhecer. Ainda assim, os cabelos brancos vinham de má vontade, aos poucos e espalhados. A touca, os vestidos, os sapatos baixos e silenciosos eram os mesmos de antigamente. Ela já não andaria tanto de um lado para outro. Tio Cosme sofria do coração e ia descansar. A prima Justina estava apenas mais velha. José Dias também, mas não tanto que não me fizesse a gentileza de assistir à minha formatura. Ainda desceu a serra comigo, ágil e cheio de vida, como se o bacharel fosse ele. A mãe de Capitu tinha morrido. O pai tinha se aposentado no mesmo cargo em que um dia quis pedir demissão da vida.

Escobar começava a negociar em café, depois de trabalhar quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. Prima Justina achava que ele tinha pensado com carinho em convidar minha mãe para um segundo casamento. Mas, se houve essa ideia, não se deve esquecer a grande diferença de idade. Talvez ele só pensasse em fazê-la sócia dos seus primeiros negócios. De fato, a meu pedido, minha mãe lhe adiantou algum dinheiro. Ele devolveu tudo logo que pôde, não sem esta ironia: «D. Glória é medrosa e não tem ambição.»

A separação não nos esfriou. Ele foi o terceiro na troca de cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu, me animou muito no nosso amor. As relações que fez com o pai de Sancha o aproximaram mais de Capitu, que ele já conhecia. E isso o fez servir a nós dois, como amigo. No princípio, foi difícil para ela aceitá-lo. Preferia José Dias, mas eu não queria José Dias, por um resto de respeito de criança. Escobar venceu. Embora envergonhada, Capitu lhe entregou a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado ele deixou de fazer esse favor... Porque ele casou — adivinhe com quem — casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela. Tanto que, alguma vez, ao me escrever, chamava Capitu de «sua cunhadinha». Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros.

### Glossário

- **bacharel**: pessoa que terminou o curso de direito.
- **formatura**: festa em que o estudante recebe o título do curso.
- **a serra**: região de montanhas; aqui, o caminho de São Paulo para o Rio.
- **pedir demissão da vida**: querer morrer, como quem deixa um emprego.
- **sócia**: mulher que participa de um negócio com outra pessoa.
- **adiantou**: emprestou ou deu antes do tempo.
- **parentescos**: ligações entre pessoas da mesma família.
- **cunhadinha**: forma carinhosa de "cunhada", a irmã da esposa ou do marido.

## XCIX. O filho é a cara do pai

Quando voltei bacharel, minha mãe quase explodiu de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias, lembrando o evangelho de São João, ao nos ver abraçados:

— Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí a tua mãe!

Minha mãe, entre lágrimas:

— Mano Cosme, é a cara do pai, não é?

— Sim, tem alguma coisa, os olhos, o jeito do rosto. É o pai, um pouco mais moderno — concluiu tio Cosme, brincando. — E diga-me agora, mana Glória, não foi melhor que ele não insistisse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz.

— Como vai o meu substituto? — perguntei.

— Vai indo, ordena-se no ano que vem — respondeu tio Cosme. — Tens de ir ver a ordenação. Eu também vou, se o meu senhor coração deixar. É bom que te sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagração.

— Justamente! — exclamou minha mãe. — Mas veja bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu defunto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora é muito mais. O bigode é que muda um pouco...

— Sim, mana Glória, o bigode realmente... mas é muito parecido.

E minha mãe me beijava com uma ternura que não sei escrever. Tio Cosme, para alegrá-la, me chamava de doutor. José Dias também. E todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha e minha própria mãe repetiam o título.

### Glossário

- **bacharel**: pessoa que terminou o curso de direito.
- **evangelho**: livro da Bíblia que conta a vida de Jesus.
- **eis aí**: olhe aqui, veja.
- **peralta**: rapaz vaidoso que passeia pelo bairro.
- **substituto**: pessoa que fica no lugar de outra; aqui, o órfão que vai ser padre no lugar de Bentinho.
- **ordena-se**: torna-se padre numa cerimônia da Igreja.
- **sagração**: cerimônia que torna uma pessoa sagrada; aqui, a de fazer um padre.
- **defunto**: pessoa morta; aqui, o marido dela.

## C. «Tu serás feliz, Bentinho!»

No quarto, eu desfazia a mala e tirava o diploma de bacharel de dentro da lata. Ia pensando na felicidade e na glória. Via o casamento e a carreira ilustre, enquanto José Dias me ajudava, calado e cuidadoso. Uma fada invisível desceu ali. E me disse, com voz igualmente macia e cálida: «Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz.»

— E por que não seria feliz? — perguntou José Dias, endireitando o corpo e olhando para mim.

— Você ouviu? — perguntei, levantando-me também, espantado.

— Ouvi o quê?

— Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?

— Essa é boa! Você mesmo é que está dizendo...

Ainda hoje sou capaz de jurar que a voz era da fada. Naturalmente as fadas, expulsas dos contos e dos versos, entraram no coração da gente e falam de dentro para fora. Esta, por exemplo, ouvi muitas vezes, clara e distinta. Deve ser prima das feiticeiras da Escócia: «Tu serás rei, Macbeth!» — «Tu serás feliz, Bentinho!» No fim, é a mesma previsão, no mesmo tom universal e eterno. Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso de José Dias:

— ... Há de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma que está ali, que não é favor de ninguém. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. Já lhe contei que ouvi da boca dos professores, em particular, os maiores elogios. Além disso, a felicidade não é só a glória, é também outra coisa... Ah! você não contou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí num canto, é caju chupado, não vale nada. Agora são os novos, os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distinto, e trabalhador, e marido de primeira. Mas, enfim, velho também sabe amar...

— Mas o que é?

— Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?... Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto, que é verdadeiramente uma bênção do céu. Porque ela é um anjo, é um *anjíssimo*... Perdoe o erro, Bentinho, foi um modo de acentuar a perfeição daquela moça. Antigamente pensei o contrário. Confundi os modos de criança com expressões de caráter. Não vi que essa menina travessa, já de olhos pensativos, era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce... Por que é que não me contou também o que outros sabem? E isso aqui em casa já está mais que adivinhado e aprovado.

— Mamãe aprova de verdade?

— Pois então? Temos falado sobre isso, e ela me fez o favor de pedir a minha opinião. Pergunte a ela o que eu lhe disse, em termos claros e positivos; pergunte a ela. Disse que não podia desejar melhor nora para si: boa, discreta, cheia de qualidades, amiga da gente... E uma dona de casa que nem lhe digo. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo. Pádua, agora que se aposentou, só recebe o ordenado e o entrega à filha. A filha é que distribui o dinheiro, paga as contas, faz a lista das despesas. Cuida de tudo, comida, roupa, luz; você a viu no ano passado. E quanto à beleza, você sabe melhor que ninguém...

— Mas, de verdade, mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento?

— Positivamente, não; ela me fez o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. Eu é que, na resposta, falei em nora. D. Glória não negou, e até deu um ar de riso.

— Mamãe, sempre que me escrevia, falava de Capitu.

— Você sabe que elas se dão muito, e é por isso que sua prima anda cada vez mais amuada. Talvez agora case mais depressa.

— Prima Justina?

— Não sabe? São histórias, naturalmente. Mas enfim, o doutor João da Costa ficou viúvo há poucos meses. E dizem... não sei, foi o protonotário que me contou. Dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez, casando-se um com o outro. Verá que não há nada, mas não é absurdo, embora ela sempre achasse o doutor um feixe de ossos... Só se ela é um cemitério — comentou, rindo; e logo, sério: — Digo isto por brincadeira...

Não ouvi o resto. Ouvia só a voz da minha fada interior, que me repetia, mas agora sem palavras: «Tu serás feliz, Bentinho!» E a voz de Capitu me disse a mesma coisa, com outros termos, e a de Escobar também. Os dois me confirmaram a notícia de José Dias, pela impressão de cada um. Enfim, algumas semanas depois, fui pedir licença a minha mãe para me casar. Além do consentimento, me deu a mesma profecia, só com a redação própria de mãe: «Tu serás feliz, meu filho!»

### Glossário

- **feiticeiras**: mulheres que fazem magia; aqui, as da peça *Macbeth*, de Shakespeare.
- **caju chupado**: fruta já sem suco; aqui, pessoa velha que não serve mais para nada.
- **anjíssimo**: palavra inventada por José Dias: superlativo de "anjo".
- **caprichosa**: que muda de ideia e faz o que quer.
- **nora**: esposa do filho.
- **amuada**: de mau humor, sem querer falar.
- **feixe de ossos**: pessoa muito magra.
- **protonotário**: título de honra dado pelo papa; aqui, o padre Cabral.

## CI. No céu

Pois sejamos felizes de uma vez. Façamos isso antes que o leitor, morto de esperar, se levante e vá se distrair em outro lugar. Casemo-nos. Foi em 1865, numa tarde de março, e lembro que chovia. Chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos. Então o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. Acendeu não só as já conhecidas, mas também as que só serão descobertas daqui a muitos séculos.

Foi grande gentileza, e não foi a única. São Pedro, que tem as chaves do céu, nos abriu as portas dele e nos fez entrar. Depois, nos tocou com o báculo. E recitou alguns versículos da sua primeira epístola: «As mulheres sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro. Seja o homem que está escondido no coração... Do mesmo modo, vós, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais fracos. Elas são herdeiras convosco da graça da vida...»

Em seguida, fez sinal aos anjos, e eles cantaram um trecho do *Cântico*. Cantaram tão bem, e tão juntos, que desmentiriam a hipótese do tenor italiano, se a execução fosse na terra. Mas era no céu. A música ia com o texto, como se tivessem nascido juntos, à maneira de uma ópera de Wagner. Depois, visitamos uma parte daquele lugar infinito. Fique tranquilo, não farei nenhuma descrição; a língua humana não tem formas próprias para isso.

No fim, pode ser que tudo fosse um sonho. Nada mais natural para um antigo seminarista que ouvir por toda parte latim e Escritura. É verdade que Capitu, que não sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras. Estas, por exemplo: «Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado.» Quanto às de São Pedro, ela me disse no dia seguinte que concordava com tudo. Disse que eu era a única renda e o único enfeite que ela jamais poria em si. A isso respondi que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo.

### Glossário

- **ninho de noivos**: lugar onde os recém-casados vivem os primeiros dias.
- **báculo**: bastão de bispo ou de santo.
- **recitou**: disse em voz alta um texto que sabia de memória.
- **versículos**: pequenas partes de um texto da Bíblia.
- **epístola**: carta; aqui, uma das cartas da Bíblia.
- **enfeite**: coisa que se usa para ficar mais bonita.
- **riçados**: muito enrolados, crespos.
- **coabitai**: morai juntos, vivei como marido e mulher.
- **vasos**: aqui, recipientes frágeis; imagem da Bíblia para as pessoas.
- **Cântico**: o *Cântico dos Cânticos*, poema de amor da Bíblia.
- **desmentiriam**: mostrariam que uma coisa é falsa.
- **seminarista**: rapaz que estuda para ser padre.
- **Escritura**: os textos da Bíblia.

## CII. De casada

Imagine um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Assim foi aquela semana da Tijuca.

De vez em quando, voltávamos ao passado e nos divertíamos lembrando as nossas tristezas e desgraças. Mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. Assim revivemos a nossa longa espera de namorados, os anos da adolescência, a denúncia que está nos primeiros capítulos. E ríamos de José Dias, que conspirou para nos separar e acabou festejando o nosso casamento. Uma ou outra vez, falávamos em descer. Mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. E nós esperávamos um dia nublado, que insistia em não vir.

Mesmo assim, achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. Concordava em ficar, mas ia falando do pai e de minha mãe, da falta de notícias nossas, disto e daquilo. Chegamos a brigar um pouco. Perguntei se ela já estava cansada de mim.

— Eu?

— Parece.

— Você há de ser sempre criança — disse ela. Fechou o meu rosto entre as mãos e chegou muito os olhos aos meus. — Então eu esperei tantos anos para me cansar em sete dias? Não, Bentinho. Digo isto porque é realmente assim. Creio que eles podem estar com vontade de nos ver e imaginar alguma doença. E, confesso, da minha parte, queria ver papai.

— Então vamos amanhã.

— Não; há de ser com tempo nublado — respondeu ela, rindo.

Aceitei o riso e a palavra dela, mas a impaciência continuou, e descemos com sol.

Ela pôs o seu chapéu de casada com alegria. Com ar de casada, me deu a mão para entrar e sair do carro. E me deu o braço para andar na rua. Tudo isso me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também. E quando me vi lá embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa. Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem.

Na rua, muitos viravam a cabeça, curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: «Quem são?» E alguém que sabia explicava: «Este é o doutor Santiago. Casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças. Moram na Glória, as famílias moram em Matacavalos.» E os dois juntos: «É uma mocetona!»

### Glossário

- **pêndulo**: peça do relógio que vai de um lado para outro.
- **mostrador**: parte do relógio onde se veem as horas.
- **denúncia**: aqui, o que José Dias disse a D. Glória sobre Bentinho e Capitu.
- **conspirou**: agiu em segredo contra alguém.
- **descer**: aqui, sair da Tijuca, no alto, e voltar à cidade.
- **chapéu de casada**: chapéu de mulher casada, sinal do novo estado.
- **invejassem**: desejassem ter o que outra pessoa tem.
- **mocetona**: moça bonita, forte e cheia de vida.

## CIII. A felicidade tem boa alma

Mocetona é vulgar; José Dias achou coisa melhor. Foi a única pessoa aqui de baixo que nos visitou na Tijuca. Levava abraços dos nossos e palavras suas, mas palavras que eram verdadeiras músicas. Não as ponho aqui, para ir poupando papel, mas foram deliciosas. Um dia, nos comparou a aves criadas em dois vãos de telhado vizinhos. Imagine o resto: as aves criando penas nas asas e subindo ao céu. E o céu agora mais largo para poder contê-las também. Nenhum de nós riu. Ouvíamos os dois comovidos e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858... A felicidade tem boa alma.

### Glossário

- **mocetona**: moça bonita, forte e cheia de vida.
- **vulgar**: comum, sem elegância.
- **poupando**: gastando pouco, guardando.
- **vãos de telhado**: espaços vazios debaixo do telhado.
- **penas**: o que cobre o corpo das aves.
- **contê-las**: ter lugar para elas dentro de si.
- **comovidos**: tocados por um sentimento forte.

## CIV. As pirâmides

José Dias agora se dividia entre mim e minha mãe, alternando os jantares da Glória com os almoços de Matacavalos. Tudo corria bem. Depois de dois anos de casado, fora o grande desgosto de não ter um filho, tudo corria bem. Tinha perdido o meu sogro, é verdade, e o tio Cosme estava por pouco. Mas a saúde de minha mãe era boa, e a nossa, excelente.

Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos iam chegando. Escobar tinha contribuído muito para os meus primeiros passos no foro. Falou com um advogado célebre para que me admitisse no seu escritório. E me arranjou algumas procurações, tudo espontaneamente.

Além disso, as nossas relações de família já estavam feitas. Sancha e Capitu continuavam, depois de casadas, a amizade da escola; Escobar e eu, a do seminário. Eles moravam em Andaraí e queriam que fôssemos lá muitas vezes. Não podíamos ir tantas vezes como desejávamos. Por isso, íamos lá jantar alguns domingos, ou eles vinham jantar conosco. Jantar é pouco. Íamos sempre muito cedo, logo depois do almoço, para aproveitar bem o dia. Só nos separávamos às nove, dez e onze horas, quando não podia ser mais. Agora penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. E lamento que a vida e o resto não sejam tão duros como as Pirâmides.

Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em certo tempo, ouvi falar de uma aventura do marido, negócio de teatro, não sei que atriz ou bailarina. Mas, se foi verdade, não deu escândalo. Sancha era modesta, o marido, trabalhador. Um dia, eu disse a Escobar que lamentava não ter um filho, e ele me respondeu:

— Homem, deixa lá. Deus os dará quando quiser. Se não der nenhum, é que os quer para si, e melhor será que fiquem no céu.

— Uma criança, um filho é o complemento natural da vida.

— Virá, se for necessário.

Não vinha. Capitu pedia um filho nas suas orações. Eu, mais de uma vez, me surpreendia rezando e pedindo também. Já não era como em criança: agora pagava adiantado, como o aluguel da casa.

### Glossário

- **sogro**: pai da esposa ou do marido.
- **estava por pouco**: estava perto de morrer.
- **casas**: aqui, casas de comércio, empresas.
- **foro**: lugar onde se fazem os processos da justiça; o mundo dos advogados.
- **procurações**: papéis que dão a um advogado o direito de agir por alguém.
- **espontaneamente**: por vontade própria, sem ninguém pedir.
- **Pirâmides**: grandes construções de pedra do antigo Egito.
- **complemento**: o que torna uma coisa completa.

## CV. Os braços

No mais, tudo corria bem. Capitu gostava de rir e de se divertir. Nos primeiros tempos, quando íamos a passeios ou espetáculos, era como um pássaro que saísse da gaiola. Arrumava-se com graça e modéstia. Embora gostasse de joias, como as outras moças, não queria que eu comprasse muitas nem caras. Um dia ficou tão aflita que prometi não comprar mais nenhuma; mas foi só por pouco tempo.

A nossa vida era mais ou menos tranquila. Às vezes estávamos com a família ou amigos, ou íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros). Nas outras noites, ficávamos à nossa janela da Glória. Olhávamos o mar e o céu, a sombra das montanhas e dos navios, ou a gente que passava na praia. Às vezes, eu contava a Capitu a história da cidade; outras vezes, lhe dava notícias de astronomia. Eram notícias de amador, que ela ouvia atenta e curiosa, mas nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Como não sabia piano, aprendeu depois de casada, e depressa. Pouco tempo depois, tocava nas casas de amigos. Na Glória, era uma das nossas diversões. Também cantava, mas pouco e raramente, por não ter voz. Um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada, e cumpriu a decisão. Gostava de dançar, e se enfeitava com amor quando ia a um baile; os braços é que... Os braços merecem um parágrafo.

Eram belos. Na primeira noite em que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade. Eram os mais belos da noite, a ponto de me encherem de orgulho. Eu conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los. E os via mesmo quando se enlaçavam aos braços de outros homens de casaca.

Já não foi assim no segundo baile. Nesse, vi que os homens não se cansavam de olhar para eles, de os procurar, quase de os pedir. Vi também que as mangas pretas roçavam neles. Então fiquei envergonhado e aborrecido. Ao terceiro baile não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem contei com sinceridade o meu desgosto. Ele concordou logo comigo.

— Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas; o contrário me parece indecente.

— Não é? Mas não diga o motivo; vão nos chamar de seminaristas. Capitu já me chamou assim.

Mesmo assim, contei a Capitu a aprovação de Escobar. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu depressa, e não foi ao baile. A outros foi, mas levou os braços meio vestidos de escomilha ou não sei quê. Aquilo nem cobria nem descobria inteiramente, como o sendal de Camões.

### Glossário

- **aflita**: muito preocupada e nervosa.
- **serão**: festa ou reunião à noite.
- **amador**: pessoa que estuda ou faz algo por gosto, não por profissão.
- **cochilasse**: dormisse um pouco.
- **enfeitava**: arrumava com coisas bonitas.
- **enlaçavam**: uniam, como num laço.
- **casaca**: paletó elegante e preto dos homens, com a parte de trás mais longa.
- **roçavam**: tocavam de leve, ao passar.
- **aborrecido**: irritado, de mau humor.
- **seminaristas**: rapazes que estudam para ser padres.
- **escomilha**: tecido muito leve e fino.
- **sendal de Camões**: pano leve e transparente de um verso de Camões, que cobre sem esconder tudo.

## CVI. Dez libras esterlinas

Já disse que ela era poupada, ou fica dito agora. Não só de dinheiro, mas também de coisas usadas, dessas que se guardam por tradição, por lembrança ou por saudade. Por exemplo, uns sapatinhos baixos de fitas pretas, que se cruzavam no peito do pé e no princípio da perna. Foram os últimos que usou antes de calçar botinas. Trouxe-os para casa e, de longe em longe, os tirava da gaveta da cômoda, com outras coisas velhas. Dizia-me que eram pedaços de criança. Minha mãe, que tinha o mesmo gênio, gostava de ouvi-la falar assim e de vê-la fazer assim.

Quanto à pura economia de dinheiro, contarei um caso, e basta. Foi justamente durante uma lição de astronomia, na praia da Glória. Você sabe que algumas vezes a fiz cochilar um pouco. Uma noite, ela se perdeu olhando o mar, com tanta força e concentração que me deu ciúmes.

— Você não me ouve, Capitu.

— Eu? Ouço perfeitamente.

— O que é que eu dizia?

— Você... você falava de Sirius.

— Qual Sirius, Capitu. Há vinte minutos que falei de Sirius.

— Falava de... falava de Marte — corrigiu ela, apressada.

De fato, era de Marte, mas é claro que ela só tinha pegado o som da palavra, não o sentido. Fiquei sério, e o meu impulso foi sair da sala. Capitu percebeu e ficou a mais carinhosa das criaturas. Pegou a minha mão e confessou que estava contando, isto é, somando uns dinheiros. Queria descobrir certa parcela que não achava. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. No princípio, supus que era um recurso para me tirar o mau humor. Mas, pouco depois, eu mesmo estava calculando também, já com papel e lápis, sobre o joelho. E dava a diferença que ela procurava.

— Mas que libras são essas? — perguntei no fim.

Capitu me olhou rindo e respondeu que a culpa de romper o segredo era minha. Levantou-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas na mão. Eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava todo mês para as despesas.

— Tudo isto?

— Não é muito, dez libras só. É o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar, em alguns meses — concluiu, fazendo tinir o ouro na mão.

— Quem foi o corretor?

— O seu amigo Escobar.

— Como é que ele não me disse nada?

— Foi hoje mesmo.

— Ele esteve aqui?

— Pouco antes de você chegar; eu não disse para que você não desconfiasse.

Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente para festejar, mas Capitu me impediu. Pelo contrário, me consultou sobre o que devíamos fazer com aquelas libras.

— São suas — respondi.

— São nossas — corrigiu ela.

— Então guarde-as você.

No dia seguinte, fui falar com Escobar no armazém e ri do segredo dos dois. Escobar sorriu e me disse que estava para ir ao meu escritório contar tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) lhe tinha falado naquilo durante a nossa última visita a Andaraí. E lhe tinha dito a razão do segredo.

— Quando contei isto a Sanchinha — concluiu ele —, ela ficou espantada. «Como é que Capitu pode economizar, agora que tudo está tão caro?» — «Não sei, filha; sei que arranjou dez libras.»

— Veja se ela aprende também.

— Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas também não é poupada. O que lhe dou chega, mas só chega.

Eu, depois de alguns instantes de reflexão:

— Capitu é um anjo!

Escobar concordou com a cabeça, mas sem entusiasmo, como quem lamentava não poder dizer o mesmo da mulher. Você pensaria assim também, tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão certa vaidade, orgulho ou consolação.

### Glossário

- **poupada**: que gasta pouco e guarda o que tem.
- **botinas**: sapatos altos, de mulher adulta.
- **gênio**: jeito de ser de uma pessoa.
- **parcela**: parte de uma soma.
- **conversão de papel em ouro**: troca de notas de papel por moedas de ouro.
- **libras esterlinas**: moedas da Inglaterra.
- **avarenta**: pessoa que não gosta de gastar dinheiro.
- **corretor**: pessoa que faz negócios de dinheiro para outra.

## CVII. Ciúmes do mar

Se não fosse a astronomia, eu não descobriria tão cedo as dez libras de Capitu. Mas não é por isso que volto a ela. É para que você não pense que foi a vaidade de professor. Não foi ela que me fez sofrer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. Não, meu amigo. Venho explicar que tive esses ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela.

É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. Podem ser metade culpadas, um terço, um quinto, um décimo de culpadas. Pois, em matéria de culpa, a graduação é infinita. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deliciem com a imaginação deles. Não é preciso pecado real e mortal, nem papel trocado. Não é preciso nem simples palavra, aceno, suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. Um desconhecido ou uma desconhecida que passe na esquina da rua faz com que metamos Sirius dentro de Marte. E você sabe, leitor, a diferença que há de um a outro na distância e no tamanho. Mas a astronomia tem dessas confusões.

Foi isto que me fez empalidecer, calar e querer fugir da sala, para voltar. Deus sabe quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, eu estaria outra vez na sala, ao piano ou à janela, continuando a lição interrompida:

— Marte está à distância de...

Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez minutos. Os meus ciúmes eram intensos, mas curtos. Com pouco eu derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco, ou menos, reconstruiria o céu, a terra e as estrelas.

A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu, se era possível. Ela ficou ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. Também não foi o sentimento de economia que elas mostravam, e que eu já conhecia. Foram as precauções que Capitu tomou para me revelar um dia o cuidado de todos os dias. Escobar também ficou mais ligado ao meu coração. As nossas visitas foram ficando mais frequentes, e as nossas conversas mais íntimas.

### Glossário

- **desatenção**: falta de atenção.
- **graduação**: divisão em muitos níveis, do maior ao menor.
- **recordação**: lembrança.
- **pecado real e mortal**: para a Igreja, falta muito grave.
- **aceno**: gesto feito com a mão ou a cabeça.
- **Sirius**: a estrela mais brilhante do céu da noite.
- **empalidecer**: ficar pálido, sem cor no rosto.
- **meiga**: doce e carinhosa.

## CVIII. Um filho.

Mas nem tudo isso matava a minha sede de um filho. Podia ser um pobre menino, amarelo e magro, mas um filho, um filho da minha própria pessoa. Quando íamos ao Andaraí, víamos a filha de Escobar e Sancha. Em família a chamavam de Capituzinha, para diferenciá-la da minha mulher, porque lhe deram o mesmo nome no batismo. Ao vê-la, ficávamos cheios de inveja. A pequena era graciosa e gordinha, faladeira e curiosa. Os pais, como os outros pais, contavam as travessuras e as respostas espertas da menina. E nós, quando voltávamos à noite para a Glória, vínhamos suspirando a nossa inveja. Pedíamos ao céu, em pensamento, que matasse essa inveja...

...A inveja morreu, a esperança nasceu, e logo veio ao mundo o seu fruto. Não era magro nem feio, como eu já pedia. Era um rapagão forte e lindo.

Não sei dizer a minha alegria quando ele nasceu. Nunca tive outra igual. Não creio que possa haver outra idêntica, nem que de longe ou de perto se pareça com ela. Foi uma vertigem e uma loucura. Não cantava na rua por vergonha natural. Não cantava em casa para não incomodar Capitu, que ainda estava se recuperando. Também não caía, porque há um deus para os pais novos. Fora de casa, vivia com o espírito no menino. Em casa, vivia com os olhos nele. Eu o observava, olhava-o, perguntava-lhe de onde vinha. Perguntava também por que é que eu estava tão inteiramente nele. E perguntava várias outras tolices sem palavras, mas pensadas ou deliradas a cada instante. Talvez tenha perdido algumas causas no tribunal por descuido.

Capitu não era menos terna com ele e comigo. Dávamos as mãos um ao outro. Quando não olhávamos para o nosso filho, conversávamos sobre nós, o nosso passado e o nosso futuro. As horas de maior encanto e mistério eram as da amamentação. Eu via o meu filho chupando o leite da mãe. Via toda aquela união da natureza para alimentar e fazer viver um ser. Esse ser não tinha sido nada, mas o nosso destino afirmou que ele existiria. A nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a existir. Quando via tudo isso, eu ficava de um modo que não sei dizer nem digo. Positivamente não me lembro, e receio que, se dissesse alguma coisa, saísse obscuro.

Perdoem-me os detalhes que deixo de lado. Assim, não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha. Sancha também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. Quis recusar o favor de Sancha, mas ela me respondeu que eu não tinha nada com isso. Capitu, quando solteira, também tinha ido cuidar dela na rua dos Inválidos.

— O senhor não se lembra de que foi lá vê-la? — disse Sancha.

— Lembro-me; mas Escobar...

— Eu virei jantar com vocês — disse Escobar —, e às noites sigo para o Andaraí. Oito dias, e está tudo passado. Bem se vê que você é pai de primeira viagem.

— Você também; onde está a segunda?

Usávamos então essas brincadeiras em família. Hoje, que me recolhi à minha casmurrice, não sei se ainda existe essa linguagem, mas deve existir. Escobar cumpriu o que disse: jantava conosco e ia embora à noite. No fim da tarde, descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. Ele fazia os seus cálculos, e eu, os meus sonhos. Eu via o meu filho médico, advogado, negociante. Coloquei-o em várias universidades e bancos, e até aceitei a hipótese de ser poeta. Pensei também na possibilidade de ser político. Acreditei que ele me sairia orador, e grande orador.

— Pode ser — respondia Escobar. — Ninguém diria o que veio a ser Demóstenes.

Escobar acompanhava muitas vezes as minhas criancices, e também interrogava o futuro. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a sua filha. A amizade existe. Esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar, quando ouvi isso. Esteve também na falta total de palavras com que ali assinei o pacto. As palavras vieram depois, apressadas, afinadas pelo coração, que batia com grande força. Aceitei a ideia. Propus que os encaminhássemos para esse fim, com uma educação igual e comum, com uma infância unida e correta.

Era minha ideia que Escobar fosse padrinho do pequeno. A madrinha devia ser e seria a minha mãe. Mas a primeira parte mudou por intervenção do tio Cosme. Ao ver a criança, ele lhe disse, entre outros carinhos:

— Anda, pede a bênção a teu padrinho, velhaco.

E, voltando-se para mim:

— Não desisto do favor. E o batizado há de ser depressa, antes que a minha doença me leve de vez.

Contei discretamente a história a Escobar, para que ele me compreendesse e desculpasse. Ele riu e não se magoou. Fez mais: quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele, e foi. Eu ainda tentei adiar a cerimônia, para ver se tio Cosme morria primeiro da doença. Mas parece que a doença era mais de aborrecer que de matar. Não houve remédio senão levar o menino à pia batismal, onde lhe deram o nome de Ezequiel. Era o nome de Escobar, e eu quis compensar deste modo a falta de compadrio.

### Glossário

- **faladeira**: que fala muito.
- **travessuras**: brincadeiras de criança, às vezes contra as regras.
- **rapagão**: menino ou rapaz grande e forte.
- **vertigem**: sensação forte de perder o equilíbrio; aqui, grande emoção.
- **deliradas**: imaginadas como num sonho louco.
- **amamentação**: ato de dar leite do peito ao bebê.
- **pai de primeira viagem**: homem que é pai pela primeira vez.
- **casmurrice**: jeito de quem é calado e fechado.
- **criancices**: coisas de criança, sem muita seriedade.
- **velhaco**: espertinho; aqui, palavra dita com carinho.
- **pia batismal**: lugar da igreja com a água usada no batismo.
- **compadrio**: laço entre o pai de uma criança e o padrinho dela.

## CIX. Um filho único.

Quando o capítulo anterior começou, Ezequiel ainda não tinha sido gerado. Quando acabou, já era cristão e católico. Este outro capítulo serve para fazer o meu Ezequiel chegar aos cinco anos. Era um rapagão bonito, com os seus olhos claros, já inquietos.

Agora, considere que ele foi único. Nenhum outro veio, certo nem incerto, morto nem vivo. Foi um só e único. Se considerar isso, você vai imaginar os cuidados que nos deu e o sono que nos tirou. Vai imaginar os sustos que nos deram as crises dos dentes e outras, até a menor febre. Era toda a vida comum das crianças. Nós atendíamos a tudo, como era nosso dever e como a pressa pedia. Não era necessário dizer isso. Mas há leitores tão obtusos que não entendem nada, se não lhes contam tudo e o resto. Vamos ao resto.

### Glossário

- **gerado**: que começou a existir na barriga da mãe.
- **rapagão**: menino ou rapaz grande e forte.
- **inquietos**: que não ficam parados, sempre em movimento.
- **crises dos dentes**: dores e febres de quando nascem os dentes da criança.
- **obtusos**: que demoram muito para entender as coisas.

## CX. Rasgos da infância.

O resto ainda me come muitos capítulos. Há vidas que têm menos capítulos e, mesmo assim, ficam completas e acabadas.

Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da praia da Glória. Ao contrário, podiam-se adivinhar nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio está aqui no bom sentido, no sentido de homem que pensa e se cala. Às vezes ele se fechava em si mesmo, e nisso lembrava a mãe, desde pequena. Assim também, ele se agitava todo e insistia em ir falar com as vizinhas. Queria convencê-las de que os doces que eu lhe trazia eram doces de verdade. Só fazia isso depois de estar cheio deles. Mas os apóstolos também só levam a boa doutrina quando já a têm toda no coração. Escobar, bom negociante, tinha uma opinião sobre a causa principal dessa outra inclinação. Talvez o menino quisesse convidar as vizinhas, sem dizer nada, a fazer igual apostolado quando os pais lhes trouxessem doces. Escobar ria da própria graça e me anunciava que faria dele seu sócio.

Ele gostava de música tanto quanto de doce. Eu disse a Capitu que lhe tocasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos...

— Não me lembro.

— Não diga isso. Você não se lembra daquele preto que vendia doce, às tardes...

— Lembro-me de um preto que vendia doce, mas não sei mais a toada.

— Nem as palavras?

— Nem as palavras.

A leitora ainda se lembrará das palavras, se me leu com atenção. Ficará espantada com tamanho esquecimento, ainda mais porque se lembra das vozes da sua infância e adolescência. Terá esquecido algumas, mas nem tudo fica na cabeça. Foi isso que Capitu me respondeu, e não achei resposta. Porém fiz o que ela não esperava: corri aos meus papéis velhos. Em São Paulo, quando estudante, pedi a um professor de música que me escrevesse a toada do pregão. Ele o fez com prazer; bastou-me repeti-la de memória. Eu guardei o papelzinho e agora fui procurá-lo. Pouco depois, com o pedacinho de papel na mão, interrompi uma música que ela tocava. Expliquei-lhe o caso, e ela tocou as dezesseis notas.

Capitu achou na toada um sabor particular, quase delicioso. Contou ao filho a história do pregão, e assim o cantava e tocava. Ezequiel aproveitou a música para me pedir que desmentisse a letra, dando-lhe algum dinheiro.

Ele brincava de médico, de militar, de ator e de bailarino. Nunca lhe dei oratórios, mas cavalos de pau e espada à cintura eram com ele. Não falo dos batalhões que passavam na rua e que ele corria para ver: todas as crianças fazem isso. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma vi a ânsia de prazer com que ele olhava a tropa passar. Do mesmo modo ouvia a marcha dos tambores.

— Olha, papai! olha!

— Estou vendo, meu filho!

— Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados!

Um dia acordou tocando corneta com a mão, e eu lhe dei uma cornetinha de metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo e gravuras de batalhas, que ele olhava por muito tempo. Queria que eu lhe explicasse uma peça de artilharia, um soldado caído, outro de espada levantada. Todos os seus amores iam para o de espada levantada. Um dia (idade ingênua!) perguntou-me impaciente:

— Mas, papai, por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez?

— Meu filho, é porque é pintado.

— Mas então por que é que ele se pintou?

Ri do engano. Expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador. Tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu, em resumo.

Tais são os principais rasgos da infância. Mais um, e acabo o capítulo. Um dia, na chácara de Escobar, ele encontrou um gato com um rato atravessado na boca. O gato nem largava a presa, nem via por onde fugir. Ezequiel não disse nada. Parou, agachou-se e ficou olhando. Ao vê-lo tão atento, perguntamos-lhe de longe o que era. Ele nos fez sinal para nos calarmos. Escobar concluiu:

— Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a invadir a minha casa, é o diabo. Vamos ver.

Capitu quis também ver o filho, e eu os acompanhei. De fato, era um gato e um rato, caso banal, sem interesse nem graça. A única circunstância particular era que o rato estava vivo, esperneando, e o meu pequeno estava encantado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que sentiu mais gente, preparou-se para correr. O menino, sem tirar os olhos dele, fez-nos outro sinal de silêncio, e o silêncio não podia ser maior. Ia dizer religioso. Risquei a palavra, mas aqui a ponho outra vez. Não é só porque significa a totalidade do silêncio. É também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa ligada a um ritual. O único barulho eram os últimos guinchos do rato, aliás muito fracos. As pernas dele mal se moviam, e sem ordem. Um tanto aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. Os outros nem tiveram tempo de me impedir. Ezequiel ficou abatido.

— Ora, papai!

— Que foi? A esta hora o rato já está comido.

— Pois sim, mas eu queria ver.

Os dois riram; eu mesmo achei graça nele.

### Glossário

- **rasgos**: traços, ações que mostram como uma pessoa é.
- **vadio**: quem não trabalha e passa o tempo sem fazer nada.
- **apóstolo**: pessoa que ensina e espalha uma doutrina.
- **pregão**: grito ou canto do vendedor na rua.
- **cocadas**: doces feitos de coco.
- **toada**: melodia simples de uma canção.
- **oratórios**: pequenos altares para imagens de santos, que também servem de brinquedo.
- **soldadinhos de chumbo**: pequenos soldados de metal, usados como brinquedo.
- **gravuras**: imagens impressas no papel.
- **esperneando**: do verbo espernear: agitar as pernas com força.
- **guinchos**: gritos agudos de um animal.
- **abatido**: triste, sem ânimo.

## CXI. Contado depressa.

Achei graça nele, e ainda agora não nego isso. O tempo passou, muitas coisas aconteceram, e acho em mim certa simpatia pelo rato. Mesmo assim, teve graça. Não me pesa dizer isso. Os que amam a natureza como ela quer ser amada não acham nela nada inferior. Amam sem rejeitar uma parte e sem exclusões injustas. Amo o rato e não desamo o gato. Já pensei em fazê-los viver juntos, mas vi que são incompatíveis. Na verdade, um me rói os livros, o outro, o queijo. Mas não é muito que eu lhes perdoe. Afinal, já perdoei a um cachorro que me tirou o descanso em piores circunstâncias. Contarei o caso depressa.

Foi quando Ezequiel nasceu. A mãe estava com febre, Sancha vivia ao lado dela, e três cães na rua latiam a noite toda. Procurei o fiscal, e foi como se procurasse o leitor, que só agora sabe disto. Então resolvi matá-los. Comprei veneno, mandei fazer três bolas de carne, e eu mesmo pus nelas a droga. De noite, saí. Era uma hora. Nem a doente nem a enfermeira podiam dormir, com o barulho dos cães. Quando eles me viram, afastaram-se. Dois desceram para o lado da praia do Flamengo. Um ficou a curta distância, como se esperasse. Fui até ele, assobiando e estalando os dedos. O diabo ainda latiu, mas confiou nos sinais de amizade e foi se calando, até que se calou de todo. Como eu continuava, ele veio até mim, devagar, mexendo o rabo, que é o modo de rir dos cães. Eu já tinha na mão as bolas envenenadas e ia jogar-lhe uma delas. Mas aquele riso especial, carinho, confiança ou o que quer que seja, prendeu a minha vontade. Fiquei não sei como, tocado de pena, e guardei as bolas no bolso. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que fez o cão ficar em silêncio. Não digo que não. Eu cuido que ele não quis ver traição no meu gesto, e se entregou a mim. A conclusão é que se salvou.

### Glossário

- **não me pesa**: não me custa, não me incomoda.
- **desamo**: do verbo desamar: deixar de amar, não amar.
- **rói**: do verbo roer: corta aos poucos com os dentes.
- **fiscal**: funcionário público que cuida de fazer cumprir as regras da cidade.
- **latiam**: do verbo latir: fazer a voz do cão.
- **estalando os dedos**: fazendo um barulho curto com os dedos.
- **envenenadas**: que têm veneno.
- **cuido**: do verbo cuidar: aqui, penso, acredito.

## CXII. As imitações de Ezequiel.

Ezequiel não faria assim. Não prepararia bolas envenenadas, suponho, mas também não as recusaria. O que faria com certeza era ir atrás dos cães, a pedradas, até onde as pernas dele aguentassem. E, se tivesse um pau, iria a pau. Capitu era louca por aquele futuro batalhador.

— Não sai a nós, que gostamos da paz — disse-me ela um dia —, mas papai, quando moço, era assim também; mamãe é que contava.

— Sim, não vai sair maricas — respondi. — Só lhe descubro um defeitozinho: gosta de imitar os outros.

— Imitar como?

— Imitar os gestos, os modos, as atitudes. Imita prima Justina, imita José Dias. Já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos...

Capitu ficou pensando e olhando para mim, e disse afinal que era preciso corrigi-lo. Agora reparava que aquilo era mesmo um costume do filho. Mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. Isso acontece com muitas pessoas grandes, que tomam as maneiras dos outros. E, para que não fosse mais longe...

— Também não vamos fazê-lo sofrer. Sempre há tempo de corrigi-lo.

— Há, vou ver. Você também não era assim, quando se zangava com alguém...

— Quando me zangava, concordo; vingança de menino.

— Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.

— E naquele tempo você gostava de mim? — disse eu, dando-lhe um tapinha no rosto.

A resposta de Capitu foi um riso doce de zombaria. Era um desses risos que não se descrevem e só se podem pintar. Depois estendeu os braços e jogou-os sobre os meus ombros. Eram tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. Fiz o mesmo com os meus. Lamentei não haver ali um escultor que passasse aquela atitude para um pedaço de mármore. Só o artista brilharia, é certo. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem, ninguém quer saber do modelo, mas da obra. E a obra é que fica. Não importa; nós saberíamos que éramos nós.

### Glossário

- **a pedradas**: jogando pedras.
- **batalhador**: quem gosta de lutar e não desiste.
- **não sai a nós**: não é parecido conosco.
- **maricas**: palavra antiga e ofensiva para homem considerado pouco valente.
- **se zangava**: do verbo zangar-se: ficava com raiva.
- **zombaria**: brincadeira de quem ri de alguém.
- **escultor**: artista que faz figuras em pedra ou outro material.
- **mármore**: pedra dura e bonita, usada em estátuas.

## CXIII. Embargos de terceiro.

Por falar nisto, é natural que você me pergunte uma coisa. Antes eu tinha tantos ciúmes dela: será que não continuei a tê-los, apesar do filho e dos anos? Sim, senhor, continuei. Continuei a tal ponto que o menor gesto me afligia, a palavra mais íntima, uma insistência qualquer. Muitas vezes bastava só a indiferença. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança. É certo que Capitu gostava de ser vista. E o melhor meio para isso (disse-me uma senhora, um dia) é ver também. E não há ver sem mostrar que se vê.

Cuido que a senhora que me disse isso gostou de mim. Eu não respondi aos seus afetos. Foi naturalmente por isso que ela me explicou daquele modo os seus olhos teimosos. Outros olhos também me procuravam, não muitos, e não digo nada sobre eles. Confessei no princípio as minhas aventuras futuras, é verdade, mas naquele tempo ainda eram futuras. Naquele tempo, por mais mulheres bonitas que eu achasse, nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha por Capitu. A minha própria mãe não queria mais que metade. Capitu era tudo e mais que tudo. Eu não vivia nem trabalhava sem pensar nela. Ao teatro íamos juntos. Só me lembro de ter ido duas vezes sem ela: uma festa em benefício de um ator e uma estreia de ópera. Ela não foi à ópera porque ficou doente, mas fez questão de que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. Saí, mas voltei no fim do primeiro ato. Encontrei Escobar à porta do corredor.

— Vinha falar com você — disse-me ele.

Expliquei-lhe que tinha saído para o teatro e que tinha voltado com receio por Capitu, que tinha ficado doente.

— Doente de quê? — perguntou Escobar.

— Queixava-se da cabeça e do estômago.

— Então, vou-me embora. Vinha por aquele negócio dos embargos...

Eram uns embargos de terceiro. Tinha acontecido um incidente importante. Ele tinha jantado na cidade e não quis ir para casa sem me dizer o que era. Mas agora falaria depois...

— Não, falemos já. Suba; ela pode estar melhor. Se estiver pior, você desce.

Capitu estava melhor, e até boa. Confessou-me que tinha tido apenas uma pequena dor de cabeça. Mas tinha aumentado o seu mal para que eu fosse me divertir. Não falava alegre, o que me fez desconfiar que mentia, para não me assustar. Mas jurou que era a pura verdade. Escobar sorriu e disse:

— A cunhadinha está tão doente como você ou eu. Vamos aos embargos.

### Glossário

- **embargos de terceiro**: pedido feito à justiça por alguém de fora de um processo, para proteger os seus bens.
- **ciúmes**: medo de perder a pessoa amada para outra.
- **par de valsa**: pessoa que dança com outra numa valsa.
- **cuido**: do verbo cuidar: aqui, penso, acredito.
- **afetos**: sentimentos de carinho ou amor.
- **teimosos**: que insistem e não desistem.
- **benefício**: espetáculo cujo dinheiro vai para uma pessoa, como um ator.
- **estreia**: primeira apresentação de um espetáculo.
- **camarote**: lugar separado para poucas pessoas no teatro.
- **cunhadinha**: modo carinhoso de dizer cunhada, a irmã do marido ou da mulher.

## CXIV. Em que se explica o explicado.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Você viu (cap. CX) que pedi a um professor de música de São Paulo para me escrever uma toada. Era a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, o assunto é sem graça e não vale um capítulo, quanto mais dois. Mas há assuntos que trazem ensinamentos interessantes, se não agradáveis. Expliquemos o explicado.

Capitu e eu tínhamos jurado nunca mais esquecer aquele pregão. Foi num momento de grande ternura. O tabelião divino sabe as coisas que se juram nesses momentos, ele que as registra nos livros eternos.

— Você jura?

— Juro — disse ela, estendendo o braço de modo trágico.

Eu ainda estava no seminário. Quando fui para São Paulo, quis um dia lembrar a toada e vi que a estava perdendo inteiramente. Consegui lembrá-la e corri ao professor, que me fez o favor de escrevê-la no pedacinho de papel. Fiz isso para não faltar ao juramento. Mas você vai acreditar numa coisa? Quando corri aos papéis velhos, naquela noite da Glória, também já não me lembrava da toada nem da letra. Fingi ser fiel ao juramento, e esse foi o meu pecado; esquecer, qualquer um esquece.

Ao certo, ninguém sabe se vai manter ou não um juramento. Coisas futuras! Por isso, a nossa constituição política, que trocou o juramento pela simples afirmação, é profundamente moral. Acabou com um pecado terrível. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. Mas há quem tenha mais temor a Deus que aos homens. A essa pessoa não importará mentir, uma vez ou outra, desde que isso não mande a alma para o purgatório. Não confundam purgatório com inferno, que é o naufrágio eterno. O purgatório é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juros altos e prazo curto. Mas os prazos se renovam, até que um dia uma ou duas virtudes médias pagam todos os pecados, grandes e pequenos.

### Glossário

- **toada**: melodia simples de uma canção.
- **pregão**: grito ou canto do vendedor na rua.
- **tabelião**: funcionário que registra documentos e contratos; aqui, Deus.
- **ternura**: carinho, amor delicado.
- **juramento**: promessa muito séria.
- **purgatório**: para os católicos, lugar onde a alma paga os pecados antes do céu.
- **naufrágio**: perda de um navio no mar.
- **casa de penhores**: lugar que empresta dinheiro e guarda objetos como garantia.
- **prazo**: tempo marcado para pagar uma dívida.

## CXV. Dúvidas sobre dúvidas.

Vamos agora aos embargos... E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los, quanto mais contá-los. Da circunstância nova que Escobar me trazia, digo apenas o que lhe disse então: que não valia nada.

— Nada?

— Quase nada.

— Então vale alguma coisa.

— Para reforçar as razões que já temos, vale menos que o chá que você vai tomar comigo.

— É tarde para tomar chá.

— Tomaremos depressa.

Tomamos depressa. Durante o chá, Escobar olhava para mim desconfiado. Parecia pensar que eu recusava a circunstância nova para evitar o trabalho de escrevê-la. Mas essa suspeita não combinava com a nossa amizade.

Quando ele saiu, contei as minhas dúvidas a Capitu. Ela as desfez com a arte fina que tinha, um jeito, uma graça toda sua. Era capaz de dissipar as próprias tristezas de Olímpio.

— Devia ser o negócio dos embargos — concluiu ela. — E ele, que veio até aqui a esta hora, é que está impressionado com a causa.

— Você tem razão.

Uma palavra puxa outra, e falei de outras dúvidas. Eu era então um poço delas. Elas coaxavam dentro de mim como verdadeiras rãs, a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. Disse-lhe que começava a achar a minha mãe um tanto fria e distante com ela. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu!

— Já disse a você o que é; coisas de sogra. Mamãezinha tem ciúmes de você. Logo que eles passem e as saudades aumentem, ela volta a ser o que era. Quando o neto lhe faltar...

— Mas tenho notado que ela já é fria também com Ezequiel. Quando ele vai comigo, mamãe não lhe faz os mesmos carinhos.

— Quem sabe se não anda doente?

— Vamos jantar com ela amanhã?

— Vamos... Não... Pois vamos.

Fomos jantar com a minha velha. Já podia chamá-la assim, embora os cabelos não estivessem todos brancos, nem totalmente, e o rosto estivesse relativamente fresco. Era uma espécie de mocidade de cinquenta anos, ou de velhice viçosa, à escolha... Mas nada de melancolias. Não quero falar dos olhos molhados, na entrada e na saída. Ela pouco entrou na conversa, que também não era diferente da de costume. José Dias falou do casamento e das suas belezas, da política, da Europa e da homeopatia. Tio Cosme falou das suas doenças. Prima Justina falou da vizinhança, ou de José Dias, quando ele saía da sala.

Quando voltamos, à noite, viemos a pé por ali, falando das minhas dúvidas. Capitu de novo me aconselhou a esperar. Sogras eram todas assim; um dia mudavam. Enquanto me falava, ia ficando mais terna. Dali em diante, foi cada vez mais doce comigo. Não me esperava à janela, para não despertar os meus ciúmes. Mas, quando eu subia, via uma coisa no alto da escada, entre as grades da cancela. Era a cara deliciosa da minha amiga e esposa, risonha como toda a nossa infância. Às vezes Ezequiel estava com ela. Nós o tínhamos acostumado a ver o beijo da chegada e da saída, e ele me enchia a cara de beijos.

### Glossário

- **embargos**: pedido feito à justiça dentro de um processo.
- **dissipar**: fazer desaparecer.
- **tristezas de Olímpio**: lembrança de um poema do francês Victor Hugo sobre uma grande tristeza.
- **coaxavam**: do verbo coaxar: fazer a voz das rãs.
- **viçosa**: forte e cheia de vida.
- **cancela**: portão baixo de madeira ou de grades.

## CXVI. Filho do homem.

Sondei José Dias sobre os novos modos da minha mãe, e ele ficou espantado. Não havia nada, nem podia haver coisa nenhuma. Eram tantos os elogios incessantes que ele ouvia «à bela e virtuosa Capitu.»

— Agora, quando os ouço, entro também no coro, mas no princípio ficava envergonhadíssimo. Eu cheguei a detestar a ideia deste casamento. Por isso, era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu. Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Matacavalos! O pai dela é que nos separou um pouco, enquanto não nos conhecíamos, mas tudo acabou bem. Pois sim, senhor, quando D. Glória elogia a sua nora e comadre...

— Então mamãe?...

— Perfeitamente!

— Mas por que é que ela não nos visita há tanto tempo?

— Creio que tem andado mais doente dos seus reumatismos. Este ano tem feito muito frio... Imagine a aflição dela, que andava o dia inteiro. Agora é obrigada a ficar quieta, ao pé do irmão, que lá tem o seu mal...

Quis observar-lhe que essa razão explicava a interrupção das visitas, e não a frieza quando nós íamos a Matacavalos. Mas não estendi tão longe a intimidade com o agregado. José Dias pediu para ver o nosso «profetazinho» (assim chamava Ezequiel) e fez-lhe os carinhos de costume. Desta vez falou ao modo bíblico. Na véspera, tinha estado folheando o livro de Ezequiel, como soube depois. E perguntava-lhe: «Como vai isso, filho do homem?» «Dize-me, filho do homem, onde estão os teus brinquedos?» «Queres comer doce, filho do homem?»

— Que filho do homem é esse? — perguntou-lhe Capitu, irritada.

— São modos de dizer da Bíblia.

— Pois eu não gosto deles — respondeu ela com aspereza.

— Tem razão, Capitu — concordou o agregado. — Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar... Tu, como vais, meu anjo? Meu anjo, como é que eu ando na rua?

— Não — cortou Capitu. — Já lhe estou tirando esse costume de imitar os outros.

— Mas tem muita graça. A mim, quando ele copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de D. Glória, tão bom que ela lhe deu um beijo como pagamento. Vamos, como é que eu ando?

— Não, Ezequiel — disse eu —, mamãe não quer.

Eu mesmo achava feio esse costume. Alguns gestos já se repetiam mais nele, como o das mãos e dos pés de Escobar. Ultimamente, tinha apanhado até o modo de Escobar virar a cabeça, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria. Capitu ralhava. Mas o menino era travesso como o diabo. Logo que começamos a falar de outra coisa, saltou para o meio da sala e disse a José Dias:

— O senhor anda assim.

Não pudemos deixar de rir, eu mais que ninguém. A primeira pessoa que fechou a cara, que o repreendeu e o chamou para perto de si foi Capitu.

— Não quero isso, ouviu?

### Glossário

- **sondei**: do verbo sondar: tentar saber algo sem perguntar diretamente.
- **agregado**: pessoa que vive com uma família, sem ser parente.
- **travessa**: que faz muitas brincadeiras e às vezes desobedece.
- **comadre**: a madrinha de um filho, em relação aos pais da criança.
- **profetazinho**: pequeno profeta; profeta é quem fala em nome de Deus.
- **folheando**: do verbo folhear: virar as páginas de um livro.
- **filho do homem**: expressão da Bíblia; no livro de Ezequiel, é como Deus chama o profeta.
- **aspereza**: modo duro de falar.
- **ralhava**: do verbo ralhar: dava bronca, repreendia.
- **fechou a cara**: ficou com o rosto sério e zangado.

## CXVII. Amigos próximos.

Naquele tempo Escobar já tinha deixado o Andaraí e comprado uma casa no Flamengo. Ainda vi essa casa ali, há alguns dias. Foi quando me deu vontade de experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou apenas dormiam. Não posso dizer bem, porque o sono, quando é pesado, confunde vivos e mortos, a não ser pela respiração. Eu respirava um pouco, mas pode ser que fosse por causa do mar, meio agitado. Enfim, passei, acendi um charuto e me vi no Catete. Tinha subido pela rua da Princesa, uma rua antiga... Ó ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos, e não é preciso dizer que no mau sentido, no sentido de velho e acabado.

Velha é a casa, mas não lhe mudaram nada. Não sei nem se ainda tem o mesmo número. Não digo que número é, para não irem procurar e cavar a história. Não é que Escobar ainda more lá, nem sequer que viva. Morreu pouco depois, de um modo que hei de contar. Enquanto viveu, como estávamos tão próximos, tínhamos, por assim dizer, uma só casa. Eu vivia na dele, ele na minha. O pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. Fazia-me pensar nas duas casas de Matacavalos, com o muro no meio.

Um historiador da nossa língua, creio que João de Barros, põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. Foi quando os portugueses lhe propunham construir ali perto uma fortaleza. O rei dizia que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros, não perto. Assim não se zangariam como as águas do mar, que batiam furiosas na rocha que eles viam dali. Que a sombra do escritor me perdoe, se duvido que o rei tenha dito tal coisa e que ela seja verdadeira. Provavelmente foi o próprio escritor que a inventou para enfeitar o texto. E não fez mal, porque é bonita; realmente, é bonita. Eu creio que o mar então batia na pedra, como é seu costume, desde Ulisses e antes. Mas que a comparação seja verdadeira, isso não. Certamente há inimigos vizinhos, mas também há amigos de perto e do peito. E o escritor esquecia (a não ser que o ditado ainda não fosse do seu tempo). Esquecia o ditado: longe dos olhos, longe do coração. Nós não podíamos ter agora os corações mais perto. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. Nós passávamos as noites cá ou lá, conversando, jogando ou olhando o mar. Os dois pequenos passavam dias, ora no Flamengo, ora na Glória.

Observei que podia acontecer com eles o que tinha acontecido entre mim e Capitu. Todos acharam que sim, e Sancha acrescentou que até já estavam ficando parecidos. Eu expliquei:

— Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos outros.

Escobar concordou comigo. Insinuou que às vezes as crianças que convivem muito acabam ficando parecidas umas com as outras. Dei a minha opinião com a cabeça, como fazia nos assuntos que eu não sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo é que eles gostavam muito um do outro e podiam acabar casados, mas não acabaram casados.

### Glossário

- **charuto**: rolo de folhas de tabaco que se fuma.
- **rei bárbaro**: rei de um povo que os europeus consideravam não civilizado.
- **palavras mansas**: palavras calmas e pacíficas.
- **fortaleza**: construção forte para defender um lugar.
- **a sombra do escritor**: o espírito do escritor morto.
- **amigos de perto e do peito**: amigos que estão próximos e são muito queridos.
- **ditado**: frase popular que ensina alguma coisa.
- **insinuou**: do verbo insinuar: disse uma coisa de modo indireto.

## CXVIII. A mão de Sancha.

Tudo acaba, leitor. É uma verdade velha, que todos conhecem. Podemos acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte não encontra quem acredite nela com facilidade. Ao contrário: as pessoas acham que um castelo de vento dura mais que o próprio vento de que é feito. Essa ideia dificilmente sai da cabeça. E é bom que seja assim, para não se perder o costume dessas construções quase eternas.

O nosso castelo era sólido, mas um domingo... Na véspera, tínhamos passado a noite no Flamengo. Estavam lá os dois casais inseparáveis, e também o agregado e prima Justina. Foi então que Escobar me falou à janela. Disse que fôssemos jantar lá no dia seguinte. Precisávamos falar de um projeto em família, um projeto para os quatro.

— Para os quatro? Uma contradança.

— Não. Não és capaz de adivinhar o que é, e eu não digo. Vem amanhã.

Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, no canto da janela. Quando o marido saiu, ela veio falar comigo. Perguntou de que tínhamos falado. Eu disse que era um projeto, mas que não sabia qual. Ela me pediu segredo e me revelou o que era: uma viagem à Europa, dali a dois anos. Disse isso de costas para a sala, quase suspirando. O mar batia com grande força na praia; havia ressaca.

— Vamos todos? — perguntei por fim.

— Vamos.

Sancha levantou a cabeça. Olhou para mim com tanto prazer que, pela amizade dela com Capitu, eu não me importaria de beijá-la na testa. No entanto, os olhos de Sancha não convidavam a carinhos de irmão. Pareciam quentes e insistentes, diziam outra coisa. Não demoraram a se afastar da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.

Dali mesmo procurei os olhos de Sancha, ao pé do piano. Encontrei-os no caminho. Os quatro olhos pararam e ficaram uns diante dos outros. Uns esperavam que os outros passassem, mas nenhum passava. O mesmo acontece na rua entre dois teimosos. A cautela nos separou, e eu me virei de novo para fora. E assim, virado para fora, comecei a cavar na memória. Queria saber se alguma vez tinha olhado para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma só certeza: um dia pensei nela como se pensa na bela desconhecida que passa. Mas então talvez ela tivesse adivinhado... Talvez o simples pensamento tivesse aparecido no meu rosto. Talvez ela tivesse fugido de mim, antigamente, irritada ou tímida, e agora, por um movimento invencível... Invencível: esta palavra foi como a bênção do padre na missa, que a gente recebe e repete dentro de si.

— O mar amanhã vai desafiar a gente — disse a voz de Escobar, ao meu lado.

— Você entra no mar amanhã?

— Já entrei com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar numa hora brava. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões — disse ele, batendo no peito —, e estes braços. Apalpa.

Apalpei os braços dele, como se fossem os de Sancha. É difícil para mim fazer esta confissão, mas não posso eliminá-la; seria cortar a verdade. E não os apalpei só com essa ideia. Senti também outra coisa: eram mais grossos e fortes que os meus, e tive inveja deles. Além disso, sabiam nadar.

Quando saímos, voltei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha e demorou-se mais do que de costume.

A modéstia pedia então, como pede agora, que eu visse uma coisa naquele gesto de Sancha. Devia ver nele uma aprovação ao projeto do marido e um agradecimento. Assim devia ser. Mas um fluido especial correu por todo o meu corpo e me afastou dessa conclusão. Ainda senti os dedos de Sancha entre os meus, apertando-se uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo. Quando encostei o relógio ao ouvido, só trabalhavam os minutos da virtude e da razão.

— ...Uma senhora deliciosíssima — disse José Dias, para concluir um discurso que vinha fazendo.

— Deliciosíssima! — repeti com algum ardor, mas moderei logo o tom e me corrigi: — Realmente, uma bela noite!

— Como devem ser todas naquela casa — continuou o agregado. — Aqui fora, não. Aqui fora o mar está zangado. Escute.

Ouvia-se o mar forte, como já se ouvia da casa. A ressaca era grande, e, ao longe, viam-se as ondas crescer. Capitu e prima Justina, que iam na frente, pararam numa das voltas da praia, e fomos conversando os quatro. Mas eu conversava mal. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. Ora eu achava neles uma coisa, ora outra. Os instantes do diabo se misturavam aos minutos de Deus. E assim o relógio foi marcando, um de cada vez, a minha perdição e a minha salvação. José Dias se despediu de nós à porta. Prima Justina dormiu em nossa casa; ia embora no dia seguinte, depois do almoço e da missa. Eu fui para o meu gabinete, onde fiquei mais tempo do que de costume.

O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao lado do de minha mãe, me falou. Falou como se fosse a própria pessoa. Lutei sinceramente contra os impulsos que trazia do Flamengo. Rejeitei a figura da mulher do meu amigo e me chamei de desleal. Além disso, quem me garantia que houvesse alguma intenção daquele tipo no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia estar ligado ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer a mais para elas irem juntas. E se houvesse alguma intenção sexual? Quem me provaria que era só um relâmpago, uma sensação destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem duram mais do que isso. Agarrei-me a esta hipótese. Ela combinava com a mão de Sancha. Eu a sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, apertada e apertando...

Sinceramente, eu me sentia mal entre um amigo e a atração. Talvez a timidez fosse outra causa daquela crise. Não é só o céu que nos dá as virtudes; a timidez também dá, sem contar o acaso. Mas o acaso é um simples acidente; a melhor origem delas é o céu. No entanto, a timidez vem do céu, que nos dá o temperamento. Assim, a virtude, filha dela, é, por família, o mesmo sangue celestial. Assim eu pensaria, se pudesse; mas no começo andei perdido, sem rumo. Paixão não era, nem inclinação. Seria capricho, ou o quê? Ao fim de vinte minutos, não era nada, inteiramente nada. O retrato de Escobar pareceu falar comigo. Vi a sua atitude franca e simples, sacudi a cabeça e fui me deitar.

### Glossário

- **castelo de vento**: coisa imaginada, sem base real, como um sonho.
- **contradança**: dança antiga, com pares que ficam uns diante dos outros.
- **ressaca**: movimento forte do mar, quando a onda volta da praia e puxa para dentro.
- **cautela**: cuidado para evitar um perigo.
- **Apalpa**: do verbo "apalpar": tocar com a mão para sentir como uma coisa é.
- **vertigem**: sensação de tontura; aqui, perda do controle por um momento.
- **gabinete**: sala de trabalho em casa.
- **desleal**: pessoa que trai a confiança de alguém.

## CXIX. Não faça isso, querida.

A leitora é minha amiga. Abriu este livro para descansar da cavatina de ontem antes da valsa de hoje. Agora quer fechá-lo às pressas, ao ver que estamos à beira de um abismo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.

### Glossário

- **cavatina**: canção curta de ópera, para uma só voz.
- **valsa**: música e dança de salão, com pares que giram.
- **às pressas**: muito rápido, com urgência.
- **à beira de**: muito perto de.
- **abismo**: buraco muito fundo; aqui, um perigo muito grande.
- **rumo**: direção, caminho.

## CXX. Os autos.

Na manhã seguinte, acordei livre das abominações da véspera. Chamei-as de alucinações, tomei café, li rapidamente os jornais e fui estudar uns autos. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove, na Lapa. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte contrária, que eu ia lendo nos autos. Eram alegações falsas, impossíveis de aceitar, sem apoio na lei nem nos costumes dos tribunais. Vi que era fácil ganhar a causa; consultei Dalloz, Pereira e Souza...

Só uma vez olhei para o retrato de Escobar. Era uma bela fotografia, tirada um ano antes. Ele estava de pé, de sobrecasaca abotoada. A mão esquerda estava nas costas de uma cadeira, a direita metida no peito. O olhar ia longe, para a esquerda de quem via o retrato. Tinha elegância e naturalidade. A moldura que mandei pôr não cobria a dedicatória. Estava escrita embaixo, não nas costas do cartão: «Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.» Estas palavras fortaleceram os meus pensamentos daquela manhã e expulsaram de vez as lembranças da véspera. Naquele tempo, a minha vista era boa; eu podia lê-las do lugar em que estava. Voltei aos autos.

### Glossário

- **abominações**: coisas horríveis, que causam nojo moral.
- **alucinações**: coisas que a pessoa pensa ver ou sentir, mas que não são reais.
- **autos**: conjunto dos documentos de um processo na Justiça.
- **alegações**: razões que uma parte apresenta na Justiça.
- **parte contrária**: o outro lado em um processo.
- **causa**: processo na Justiça.
- **sobrecasaca**: casaco masculino comprido e fechado, usado antigamente.
- **abotoada**: fechada com botões.
- **moldura**: peça de madeira ou metal que fica em volta de um retrato.
- **dedicatória**: palavras escritas para oferecer uma foto ou um livro a alguém.

## CXXI. A catástrofe.

Eu estava na melhor parte dos autos quando ouvi passos rápidos na escada. A campainha tocou, bateram palmas, deram golpes na cancela, houve vozes. Todos correram, e eu também corri. Era um escravo da casa de Sancha, que me chamava:

— Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.

Não disse mais nada, ou eu não ouvi o resto. Vesti-me, deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo.

No caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar entrou no mar para nadar, como costumava fazer. Arriscou-se um pouco mais longe que de costume, apesar do mar bravo. Foi enrolado e morreu. As canoas que correram para ajudar mal puderam trazer o cadáver dele.

### Glossário

- **autos**: conjunto dos documentos de um processo na Justiça.
- **campainha**: pequeno sino da porta, para chamar quem está em casa.
- **cancela**: portão baixo; aqui, o portãozinho no alto da escada.
- **sinhô**: forma antiga com que pessoas escravizadas falavam com o senhor.
- **recado**: mensagem deixada para outra pessoa.
- **Arriscou-se**: do verbo "arriscar-se": fazer uma coisa perigosa.
- **mar bravo**: mar agitado, com ondas fortes.
- **Foi enrolado**: foi pego e virado pelas ondas.
- **cadáver**: corpo de uma pessoa morta.

## CXXII. O enterro.

A viúva... Vou poupar vocês das lágrimas da viúva, das minhas, das de outras pessoas. Saí de lá por volta das onze horas. Capitu e prima Justina me esperavam, uma com o rosto abatido e atordoado, a outra apenas entediada.

— Vão fazer companhia à pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.

Assim fizemos. Quis que o enterro fosse grandioso, e vieram muitos amigos. Na praia, nas ruas, na praça da Glória, só se viam carros, muitos deles particulares. A casa não era grande, e não podiam caber todos lá. Muitos estavam na praia. Falavam do desastre, apontavam o lugar em que Escobar tinha morrido, ouviam contar a chegada do morto. José Dias ouviu também falar dos negócios do falecido. Alguns discordavam sobre o valor dos bens, mas todos concordavam que as dívidas deviam ser pequenas. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco; estávamos em março de 1871. Nunca esqueci o mês nem o ano.

Como eu tinha resolvido falar no cemitério, escrevi algumas linhas e as mostrei em casa a José Dias. Ele achou que eram realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as palavras, e confirmou a primeira opinião. No Flamengo, espalhou a notícia. Alguns conhecidos vieram me perguntar:

— Então, vamos ouvi-lo?

— Quatro palavras.

Não seriam muitas mais. Eu as tinha escrito com medo de que a emoção me impedisse de improvisar. Tinha andado uma ou duas horas de tílburi. Nesse tempo, só tinha lembrado os anos do seminário, as relações de Escobar, as nossas simpatias. Tinha lembrado também a nossa amizade, começada, continuada e nunca interrompida. Até que um golpe da sorte separou para sempre duas criaturas que prometiam ficar unidas por muito tempo. De vez em quando, eu enxugava os olhos. O cocheiro arriscou duas ou três perguntas sobre o meu estado de espírito. Como não me arrancou nada, continuou o seu trabalho. Chegando a casa, pus aquelas emoções no papel; esse seria o discurso.

### Glossário

- **abatido**: muito triste, sem forças.
- **atordoado**: confuso, sem entender bem o que acontece.
- **entediada**: cansada e sem interesse.
- **falecido**: pessoa que morreu.
- **gabinete Rio Branco**: o governo novo, formado pelo visconde do Rio Branco.
- **improvisar**: falar sem preparar antes.
- **tílburi**: carro leve de duas rodas, puxado por um cavalo, com cocheiro.
- **cocheiro**: homem que dirige um carro puxado por animais.

## CXXIII. Olhos de ressaca.

Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis se despedir do marido, e o desespero daquele momento abalou a todos. Muitos homens choravam também, e todas as mulheres. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver. Olhou tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira que lhe saltassem algumas lágrimas, poucas e caladas...

As minhas pararam logo. Fiquei olhando as dela. Capitu as enxugou depressa, olhando às escondidas para as pessoas que estavam na sala. Redobrou os carinhos com a amiga e quis levá-la; mas o cadáver parece que a prendia também. Houve um momento em que os olhos de Capitu se fixaram no morto, como os da viúva. Não tinham o choro nem as palavras dela, mas estavam grandes e abertos. Eram como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.

### Glossário

- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como o movimento forte do mar.
- **encomendação**: orações do padre por um morto, antes de levá-lo ao cemitério.
- **abalou**: do verbo "abalar": causar grande tristeza ou choque.
- **amparando**: do verbo "amparar": segurar uma pessoa para ela não cair; dar apoio.
- **cadáver**: corpo de uma pessoa morta.
- **às escondidas**: sem que os outros percebam.
- **vaga**: onda grande do mar.
- **tragar**: engolir de uma vez.

## CXXIV. O discurso.

— Vamos, são horas...

Era José Dias, que me convidava a fechar o caixão. Fechamos, e eu peguei numa das argolas; começaram os últimos gritos e choros. Dou minha palavra: quando cheguei à porta, vi o sol claro, tudo cheio de gente e carros, as cabeças descobertas. Tive então um daqueles meus impulsos que nunca chegavam a ser executados: jogar na rua caixão, defunto e tudo. No carro, disse a José Dias que se calasse. No cemitério, tive de repetir a cerimônia da casa: desatar as correias e ajudar a levar o caixão à cova. Imagine o que isto me custou. Depois que o cadáver desceu à cova, trouxeram a cal e a pá. Você sabe disso, deve ter ido a mais de um enterro. Mas há uma coisa que você não sabe, leitor, nem pode saber nenhum dos seus amigos, nem qualquer estranho. É a crise que voltou quando vi todos os olhos em mim, os pés quietos, as orelhas atentas. Depois de alguns instantes de silêncio total, ouvi um sussurro vago e algumas vozes que perguntavam. Vi sinais. E alguém, José Dias, me disse ao ouvido:

— Então, fale.

Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham direito ao discurso anunciado. Mecanicamente, pus a mão no bolso, tirei o papel e li aos tropeços, não todo, nem seguido, nem claro. A voz me parecia entrar em vez de sair, as mãos me tremiam. Não era só a emoção nova que me deixava assim. Era o próprio texto: as memórias do amigo, as saudades confessadas, os elogios à pessoa e aos seus méritos. Tudo isso eu era obrigado a dizer, e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a verdade, fazia força para escondê-la bem. Creio que poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de compreensão e de aprovação. As mãos que me apertaram eram de solidariedade. Alguns diziam: «Muito bonito! muito bem! magnífico!» José Dias achou que a eloquência tinha estado à altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista, me pediu licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. Só a minha grande perturbação recusaria um favor tão simples.

### Glossário

- **argolas**: anéis de metal; aqui, as peças do caixão por onde se pega.
- **correias**: tiras de couro que seguram alguma coisa.
- **cova**: buraco feito na terra para enterrar um morto.
- **cal**: pó branco que se joga sobre o caixão na cova.
- **aos tropeços**: com dificuldade, parando a toda hora.
- **eloquência**: arte de falar bem e convencer.
- **piedade**: sentimento de carinho e respeito religioso pelos outros.
- **manuscrito**: texto escrito à mão.

## CXXV. Uma comparação.

Príamo se julga o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Quem conta isso é Homero, que é um bom autor, embora o conte em verso. Mas há narrações exatas em verso, e até em mau verso. Compare você a situação de Príamo com a minha. Eu acabava de elogiar as virtudes do homem que tinha recebido, já morto, aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação um efeito muito melhor, ou pelo menos igual. E não diga que nos faltam Homeros pela causa apontada em Camões. Não, senhor. Eles nos faltam, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se eles as têm, são enxugadas atrás da porta. É para que os rostos apareçam limpos e serenos. Os discursos são mais de alegria que de melancolia. E tudo se passa como se Aquiles não matasse Heitor.

### Glossário

- **Príamo**: velho rei de Troia, pai de Heitor, na história de Homero.
- **Homero**: antigo poeta grego, autor da *Ilíada*.
- **Camões**: grande poeta português, autor de *Os Lusíadas*.
- **Aquiles**: herói grego; matou Heitor na guerra de Troia.
- **Heitor**: filho de Príamo, morto por Aquiles.
- **narrações**: histórias contadas.
- **serenos**: calmos, tranquilos.
- **melancolia**: tristeza profunda e sem causa clara.

## CXXVI. Cismando.

Pouco depois de sair do cemitério, rasguei o discurso e joguei os pedaços pela janela do carro. Fiz isso apesar dos esforços de José Dias para me impedir.

— Não presta para nada — disse-lhe eu. — E como posso ter a tentação de mandar imprimi-lo, fica logo destruído de uma vez. Não presta, não vale nada.

José Dias demonstrou longamente o contrário. Depois elogiou o enterro. Por último, fez o panegírico do morto: uma grande alma, espírito ativo, coração reto, amigo, bom amigo. Era digno da esposa amantíssima que Deus lhe tinha dado...

Neste ponto do discurso, deixei-o falar sozinho e comecei a cismar comigo. O que cismei foi tão escuro e confuso que não consegui encontrar chão firme. No Catete, mandei parar o carro. Disse a José Dias que fosse buscar as senhoras no Flamengo e as levasse para casa; eu iria a pé.

— Mas...

— Vou fazer uma visita.

A razão disso era acabar de cismar e escolher uma decisão adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as pernas. As pernas podiam ir devagar ou não, diminuir o passo, parar, voltar atrás. E podiam deixar que a cabeça cismasse à vontade. Fui andando e cismando. Já tinha comparado o gesto de Sancha na véspera com o desespero daquele dia; os dois não combinavam de modo algum. A viúva era realmente amantíssima. Assim desapareceu de todo a ilusão da minha vaidade. Não seria o mesmo caso de Capitu? Procurei reconstruir os olhos dela, a posição em que a vi, o grupo de pessoas à volta. Esse grupo devia naturalmente obrigá-la à dissimulação, se houvesse algo a dissimular. O que aqui vai em ordem lógica e dedutiva tinha sido antes uma confusão de ideias e sensações. A culpa era dos solavancos do carro e das interrupções de José Dias. Agora, porém, eu pensava e lembrava com clareza. Concluí comigo mesmo que era a antiga paixão que ainda me cegava e me fazia delirar, como sempre.

Quando cheguei a esta conclusão final, cheguei também à porta de casa. Mas voltei para trás e subi outra vez a rua do Catete. Eram as dúvidas que me afligiam, ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Digamos que eram as duas causas. Andei muito tempo, até que me senti sossegar, e fui direto para casa. Batiam oito horas numa padaria.

### Glossário

- **cismar**: pensar muito e por muito tempo na mesma coisa, com preocupação.
- **panegírico**: discurso de grande elogio a uma pessoa.
- **amantíssima**: que ama muito.
- **chão firme**: aqui, uma ideia clara e segura.
- **dissimulação**: o ato de esconder o que se pensa ou sente.
- **solavancos**: movimentos bruscos de um carro em andamento.
- **delirar**: pensar coisas sem razão, longe da realidade.
- **afligir**: causar preocupação e sofrimento.

## CXXVII. O barbeiro.

Perto de casa havia um barbeiro, que me conhecia de vista. Ele amava a rabeca e não tocava inteiramente mal. No momento em que eu ia passando, tocava não sei que peça. Parei na calçada para ouvi-lo (tudo é pretexto para um coração aflito). Ele me viu e continuou a tocar. Não atendeu um freguês, e logo depois outro. Eles tinham ido ali, apesar da hora e de ser domingo, entregar o rosto à navalha. Perdeu os dois sem perder uma nota; estava tocando para mim. Este pensamento me fez chegar francamente até a porta da loja, virado para ele. Ao fundo, uma moça trigueira levantou a cortina de chita que fechava o interior da casa. Usava vestido claro e tinha uma flor no cabelo. Era a mulher dele. Creio que me viu de dentro e veio me agradecer, com a presença, o favor que eu fazia ao marido. Se não me engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor. Não via a mulher, não via os fregueses. Colava o rosto ao instrumento, passava a alma para o arco, e tocava, tocava...

Divina arte! Estava se formando um grupo. Deixei a porta da loja e vim andando para casa. Entrei pelo corredor e subi as escadas sem ruído. Nunca esqueci o caso deste barbeiro. Talvez por estar ligado a um momento grave da minha vida. Talvez por esta máxima, que os compiladores podem tirar daqui e colocar nos livros de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e na verdade nunca as esquece. Pobre barbeiro! Perdeu duas barbas naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido por um passante. Imagine agora que este passante, em vez de ir embora, como eu fui, ficasse à porta. Imagine que ficasse a ouvi-lo e a namorar a mulher dele. Aí é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!

### Glossário

- **rabeca**: instrumento musical parecido com o violino.
- **arco**: vara com fios usada para tocar a rabeca.
- **freguês**: pessoa que compra sempre na mesma loja ou usa o mesmo serviço.
- **navalha**: faca muito afiada usada para fazer a barba.
- **trigueira**: palavra antiga para pessoa de pele morena.
- **chita**: tecido simples de algodão, com desenhos coloridos.
- **máxima**: frase curta que ensina uma regra de vida.
- **compiladores**: pessoas que reúnem textos de vários autores em um livro.

## CXXVIII. Punhado de sucessos.

Como eu ia dizendo, subi as escadas sem ruído e empurrei a cancela, que estava apenas encostada. Encontrei prima Justina e José Dias jogando cartas na pequena sala ao lado. Capitu se levantou do canapé e veio até mim. O rosto dela agora estava sereno e puro. Os outros pararam o jogo, e todos falamos do desastre e da viúva. Capitu criticou a imprudência de Escobar e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei por que não tinha ficado com Sancha aquela noite.

— Tem muita gente lá. Mesmo assim me ofereci, mas ela não quis. Também disse a ela que era melhor vir para cá e passar aqui uns dias conosco.

— Também não quis?

— Também não.

— No entanto, a vista do mar há de ser penosa para ela, todas as manhãs — observou José Dias. — E não sei como poderá...

— Mas passa; o que é que não passa? — cortou prima Justina.

Como começamos a trocar palavras em torno desta ideia, Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. Ao passar pelo espelho, arrumou os cabelos. Fez isso tão demoradamente que pareceria afetação, se não soubéssemos que ela gostava muito de si mesma. Quando voltou, trazia os olhos vermelhos. Disse que, ao olhar o filho dormindo, tinha pensado na filhinha de Sancha e na aflição da viúva. E, sem se importar com as visitas, nem reparar se havia algum criado, abraçou-me. Disse-me que, se quisesse pensar nela, era preciso pensar primeiro na minha vida. José Dias achou a frase «lindíssima» e perguntou a Capitu por que não fazia versos. Tentei transformar o caso em brincadeira, e assim acabamos a noite.

No dia seguinte, me arrependi de ter rasgado o discurso. Não que quisesse mandar imprimi-lo, mas era uma lembrança do falecido. Pensei em reconstruí-lo, mas só encontrei frases soltas, que juntas não tinham sentido. Também pensei em fazer outro, mas já era difícil. E eu podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. Quanto a recolher os pedacinhos de papel jogados na rua, era tarde; já deviam estar varridos.

Fiz a lista das lembranças de Escobar. Havia livros, um tinteiro de bronze, uma bengala de marfim e um pássaro. Havia o álbum de Capitu, duas paisagens do Paraná e outras. Ele também tinha lembranças dadas por mim. Vivemos assim, trocando memórias e presentes, ora em dia de aniversário, ora sem razão especial. Tudo isso me embaçava os olhos... Vieram os jornais do dia. Davam notícia do desastre e da morte de Escobar, dos seus estudos e negócios. Falavam das suas qualidades pessoais e da simpatia do comércio. Também falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Tudo isso foi na segunda-feira. Na terça-feira, foi aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro; o primeiro lugar cabia à mulher. Não me deixava nada, mas as palavras que me tinha escrito em carta separada eram sublimes de amizade e estima. Capitu desta vez chorou muito; mas compôs-se depressa.

Testamento, inventário, tudo andou quase tão depressa como estou dizendo aqui. Pouco tempo depois, Sancha foi para a casa dos parentes no Paraná.

### Glossário

- **sucessos**: aqui, acontecimentos, fatos.
- **cancela**: portão baixo; aqui, o portãozinho no alto da escada.
- **canapé**: sofá antigo.
- **penosa**: que faz sofrer.
- **afetação**: jeito falso, de quem quer ser notado.
- **varridos**: do verbo "varrer": limpar o chão com vassoura; aqui, levados embora da rua.
- **tinteiro**: pequeno pote de tinta para escrever.
- **embaçava**: do verbo "embaçar": deixar pouco claro, como um vidro com vapor.
- **testamento**: documento em que a pessoa diz quem recebe os seus bens depois da morte.
- **testamenteiro**: pessoa encarregada de cumprir um testamento.
- **compôs-se**: do verbo "compor-se": voltar a ficar calmo e controlado.
- **inventário**: lista oficial dos bens de quem morreu.

## CXXIX. A D. Sancha.

D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro. Ou, se já o leu até aqui, abandone o resto. Basta fechá-lo; melhor será queimá-lo, para não ter a tentação de abri-lo outra vez. Se, apesar do aviso, quiser ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo mal que receber. O mal que já lhe tiver feito, ao contar os gestos daquele sábado, esse acabou. Acabou porque os acontecimentos, e eu com eles, desmentimos a minha ilusão. Mas o mal que a alcançar agora, esse não se apaga nunca. Não, minha amiga, não leia mais. Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma coisa. É ainda o melhor que se pode fazer depois da juventude. Um dia, iremos daqui até a porta do céu. Lá nos encontraremos renovados, como as plantas novas, *come piante novelle*,

Rinovellate di novelle fronde.

O resto em Dante.

### Glossário

- **tentação**: vontade forte de fazer uma coisa que não se deve.
- **não respondo**: não aceito a responsabilidade.
- **desmentimos**: do verbo "desmentir": mostrar que uma coisa não é verdade.
- **ilusão**: ideia falsa que a pessoa acredita ser verdadeira.
- **renovados**: feitos novos outra vez.
- **come piante novelle**: palavras de Dante, em italiano: "como plantas novas".
- **Rinovellate di novelle fronde**: verso de Dante, em italiano: "renovadas com folhas novas".
- **Dante**: grande poeta italiano, autor da *Divina Comédia*.

## CXXX. Um dia...

Porque, um dia, Capitu quis saber o que me fazia andar calado e aborrecido. E me propôs a Europa, Minas, Petrópolis, uma série de bailes, mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. Eu não sabia o que responder; recusei as diversões. Como ela insistia, respondi que os meus negócios andavam mal. Capitu sorriu para me animar. Que importava que andassem mal? Voltariam a andar bem. Até lá, as joias e os objetos de algum valor seriam vendidos, e iríamos morar em algum beco. Viveríamos sossegados e esquecidos; depois voltaríamos à tona da água. A ternura com que me disse isso era de comover as pedras. Pois nem assim. Respondi secamente que não era preciso vender nada. Continuei calado e aborrecido. Ela me propôs jogar cartas ou damas, um passeio a pé, uma visita a Matacavalos. Como eu não aceitava nada, foi para a sala, abriu o piano e começou a tocar. Eu aproveitei a ausência dela, peguei o chapéu e saí.

...Perdão, mas este capítulo devia vir depois de outro, em que eu contasse um incidente. Aconteceu poucas semanas antes, dois meses depois da partida de Sancha. Vou escrevê-lo. Podia colocá-lo antes deste, antes de mandar o livro para a impressão, mas custa muito alterar o número das páginas. Vai assim mesmo; depois a narração seguirá direta até o fim. Além disso, é curto.

### Glossário

- **aborrecido**: chateado, de mau humor.
- **aconselhados**: indicados como coisa boa para alguém.
- **melancólicos**: pessoas tristes, sem ânimo.
- **iríamos**: forma do verbo "ir": nós iríamos, nesse caso.
- **beco**: rua muito estreita e pobre.
- **sossegados**: calmos, em paz.
- **voltaríamos**: forma do verbo "voltar": nós voltaríamos, nesse caso.
- **à tona da água**: na superfície da água; aqui, de volta a uma vida boa.
- **de comover as pedras**: tão forte que até uma pedra sentiria emoção.
- **secamente**: de modo frio, com poucas palavras.
- **damas**: jogo de tabuleiro para duas pessoas.
- **incidente**: fato pequeno que acontece de repente.

## CXXXI. Anterior ao anterior.

O caso foi que a minha vida era outra vez doce e tranquila. A minha banca de advogado me rendia bastante, Capitu estava mais bela, Ezequiel ia crescendo. Começava o ano de 1872.

— Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? — perguntou-me Capitu. — Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado de papai, não precisa revirar os olhos, assim, assim...

Era depois do jantar; ainda estávamos à mesa. Capitu brincava com o filho, ou ele com ela, ou um com o outro. Era porque, na verdade, eles se queriam muito, mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. Aproximei-me de Ezequiel e achei que Capitu tinha razão. Eram os olhos de Escobar, mas não me pareceram esquisitos por isso. Afinal, não devia haver mais que meia dúzia de expressões no mundo, e muitas semelhanças aconteceriam naturalmente. Ezequiel não entendeu nada. Olhou espantado para ela e para mim, e afinal saltou para o meu colo:

— Vamos passear, papai?

— Logo, meu filho.

Capitu, alheia aos dois, olhava agora fixamente para a outra borda da mesa. Mas eu lhe disse que, em beleza, os olhos de Ezequiel puxavam aos da mãe. Capitu sorriu, abanando a cabeça, com um ar que nunca encontrei em mulher alguma. Provavelmente foi porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. É daí que mestre Povo tirou aquele ditado: quem o feio ama, bonito lhe parece. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. Aquele entrou pela minha alma dentro. Assim fica explicado que eu corresse para minha esposa e amiga e lhe enchesse o rosto de beijos. Mas este outro incidente não é realmente necessário para compreender o capítulo passado e os futuros. Fiquemos nos olhos de Ezequiel.

### Glossário

- **banca de advogado**: o trabalho e o escritório de um advogado.
- **esquisita**: estranha, diferente do normal.
- **defunto**: que morreu; o morto.
- **revirar os olhos**: mover os olhos para cima ou para os lados.
- **alheia**: distante, sem prestar atenção ao que acontece.
- **abanando**: do verbo "abanar": mover de um lado para o outro.
- **ditado**: frase conhecida que o povo repete como ensinamento.
- **mestre Povo**: o povo, tratado com ironia como um professor.
- **afeição**: carinho, amizade.

## CXXXII. O debuxo e o colorido.

Não foram só os olhos. As outras feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira iam ficando mais claras com o tempo. Eram como um primeiro debuxo, que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. A figura começa a ver, a sorrir, a palpitar, quase a falar. Por fim, a família coloca o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui podia ser e era.

O costume valeu muito contra o efeito da mudança. Mas a mudança se fez. Não se fez à maneira de teatro. Fez-se como a manhã, que nasce devagar. Demora até que se possa ler uma carta. Depois lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janelas. A luz que passa pelas persianas basta para distinguir as letras. Li a carta, mal a princípio e não toda; depois fui lendo melhor. Fugia dela, é certo. Metia o papel no bolso, corria para casa, fechava-me, não abria as janelas, chegava a fechar os olhos. Quando abria de novo os olhos e a carta, a letra era clara e a notícia, claríssima.

Assim Escobar vinha surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo. Vinha sentar-se comigo à mesa e receber-me na escada. Vinha beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume. Todas essas ações me causavam nojo. Eu as tolerava e praticava, para não me descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular diante do mundo, não podia dissimular diante de mim. Ninguém vivia mais perto de mim do que eu. Quando nem a mãe nem o filho estavam comigo, o meu desespero era grande. Eu jurava matar os dois, ora de golpe, ora devagar. Devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, voltava para casa, via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. Então ficava desarmado e adiava o castigo de um dia para outro.

O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios não será anotado aqui. É coisa tão miúda e repetida, e já é tão tarde, que não se poderá dizê-la sem falha nem cansaço. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. Antes de descobrirmos aquela má terra da verdade, tivemos outros temporais, de pouca duração. Logo o céu se fazia azul, o sol claro e o mar calmo. Por esse mar abríamos de novo as velas, que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. Até que outro pé de vento destruía tudo. Então nós baixávamos as velas e esperávamos outra bonança. Não era tardia nem duvidosa; era total, próxima e firme.

Desculpe-me estas metáforas. Cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. Assim, embora sempre fosse homem de terra, conto aquela parte da minha vida como um marinheiro contaria o seu naufrágio.

Já entre nós só faltava dizer a última palavra. Mas nós a líamos nos olhos um do outro, vibrante e decisiva. E sempre que Ezequiel vinha para nós, não fazia mais que separar-nos. Capitu propôs metê-lo em um colégio, de onde só viesse aos sábados. Custou muito ao menino aceitar esta situação.

— Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! — gritava ele.

Fui eu mesmo que o levei, um dia de manhã, uma segunda-feira. Era no antigo largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como levara o caixão do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo: se voltaria para casa, e quando, se eu iria vê-lo...

— Vou.

— Papai não vai!

— Vou, sim.

— Jura, papai!

— Pois sim.

— Papai não diz que jura.

— Pois juro.

E lá o levei e deixei. A ausência temporária não impediu o mal. Toda a arte fina de Capitu para ao menos diminuí-lo foi como se não fosse. Eu me sentia cada vez pior. A própria situação nova agravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora mais longe da minha vista. Mas a volta dele, ao fim das semanas, era a volta de Escobar, mais vivo e barulhento. Talvez fosse porque eu perdia o costume de vê-lo. Ou talvez porque o tempo ia andando e completando a semelhança. Até a voz; dali a pouco, já me parecia a mesma. Aos sábados, procurava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. Mas não escapava no domingo, no gabinete, quando estava entre jornais e autos. Ezequiel entrava agitado, expansivo, cheio de riso e de amor. É que o diabo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, para falar a verdade, sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ela como aos outros. Não podendo esconder inteiramente esta disposição moral, tratava de não me encontrar com ele, ou só o menos que pudesse. Às vezes tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. Outras vezes saía no domingo, para levar o meu mal secreto a passear pela cidade e pelos subúrbios.

### Glossário

- **debuxo**: desenho simples, feito antes da pintura.
- **gabinete**: sala de trabalho dentro de casa.
- **persianas**: tiras de madeira diante da janela, que deixam passar pouca luz.
- **claríssima**: muito clara.
- **dissimular**: esconder o que se pensa ou sente.
- **embaçada**: sem brilho, sem clareza, como um vidro sujo.
- **criaturinha**: pequena criatura; aqui, o menino.
- **desarmado**: sem armas; aqui, sem força para fazer o mal.
- **temporais**: tempestades fortes.
- **bonança**: tempo calmo no mar, depois da tempestade.
- **comborço**: palavra antiga; homem que se relaciona com a mulher de outro. É o nome que o narrador dá a Escobar.
- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como o movimento forte do mar quando a onda volta da praia.
- **líamos**: forma do verbo "ler": nós líamos.
- **autos**: papéis de um processo na justiça.
- **expansivo**: que mostra com alegria tudo o que sente.
- **aversão**: sentimento forte de não gostar de alguém, quase nojo.

## CXXXIII. Uma ideia.

Um dia — era uma sexta-feira — não pude mais. Certa ideia, que escurecia dentro de mim, abriu as asas. Começou a batê-las de um lado para outro, como fazem as ideias que querem sair. Creio que o fato de ser sexta-feira foi acaso, mas também pode ter sido de propósito. Fui educado no terror daquele dia. Ouvi cantar baladas em casa, vindas da roça e da antiga metrópole. Nelas a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto, não há almanaques no cérebro. Por isso é provável que a ideia batesse as asas por uma só razão. Ela sentia a necessidade de vir ao ar e à vida. A vida é tão bela que a própria ideia da morte precisa vir primeiro a ela, antes de se cumprir. Você já vai me entendendo; leia agora outro capítulo.

### Glossário

- **acaso**: coisa que acontece sem causa conhecida.
- **de propósito**: com intenção, porque se quis.
- **baladas**: canções antigas que contam histórias.
- **roça**: o campo, longe da cidade.
- **metrópole**: país que governava uma colônia; aqui, Portugal.
- **agouro**: sinal de que algo ruim vai acontecer.
- **almanaques**: livros com o calendário do ano e os dias da semana.
- **cérebro**: parte da cabeça com que pensamos.

## CXXXIV. O dia de sábado.

A ideia saiu finalmente do cérebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Também nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu quando eu pensava que eram só uma ou duas horas. Saí, supondo deixar a ideia em casa; ela veio comigo. Cá fora tinha a mesma cor escura, as mesmas asas trêmulas. Embora voasse com elas, era como se estivesse parada. Eu a levava na retina. Não que ela me cobrisse as coisas de fora. Mas eu as via através dela, mais pálidas que de costume, e elas não se demoravam nada.

Não me lembro bem do resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas. Comprei uma substância, que não digo qual é, para não despertar o desejo de prová-la. A farmácia faliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me vi com a morte no bolso, senti tanta alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. Ou ainda maior, porque o prêmio da loteria se gasta, e a morte não se gasta. Fui à casa de minha mãe para me despedir, com o pretexto de uma visita. De verdade ou por ilusão, tudo ali me pareceu melhor nesse dia. Minha mãe estava menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina esquecida da língua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projeto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa, ou prender aquela hora a mim mesmo...

### Glossário

- **trêmulas**: que tremem.
- **retina**: parte de dentro do olho, que recebe a luz e as imagens.
- **substância**: matéria; aqui, um veneno.
- **faliu**: fechou o negócio porque não podia pagar as dívidas.
- **prospera**: vai bem, ganha dinheiro.
- **sorte grande**: o maior prêmio da loteria.
- **pretexto**: razão falsa, dada para esconder a verdadeira.
- **abrir mão**: desistir de uma coisa.

## CXXXV. Otelo.

Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente *Otelo*, que eu nunca tinha visto nem lido. Sabia apenas o assunto, e gostei da coincidência. Vi as grandes raivas do mouro por causa de um lenço — um simples lenço! E aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes. Pois não pude deixar de observar uma coisa. Um lenço bastou para acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços se perderam; hoje são precisos os próprios lençóis. Alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas. Enquanto isso, o mouro rolava em convulsões, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria arriscar-me a encontrar algum conhecido. Quase todas as senhoras ficavam nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. Vinham outras incoerências, até que o pano subia e a peça continuava. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro. Ouvi a morte que ele lhe deu, entre aplausos frenéticos do público.

— E era inocente — vinha eu dizendo rua abaixo. — Que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. Era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo e a reduzisse a pó. E o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção...

Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade, quase nada, mas o bastante para ir até a manhã. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. Vi os últimos passeadores e os primeiros varredores, as primeiras carroças, os primeiros ruídos, as primeiras luzes. Era um dia que vinha depois do outro, e que me veria ir para nunca mais voltar. As ruas por onde eu andava pareciam fugir de mim por si mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Glória, nem a serra dos Órgãos. Não veria mais a fortaleza de Santa Cruz e as outras. A gente que passava não era tanta como nos dias comuns da semana, mas já era numerosa. Ia a algum trabalho, que repetiria depois; eu é que não repetiria mais nada.

Cheguei em casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé e me meti no gabinete. Iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso e fiquei em mangas de camisa. Escrevi ainda uma carta, a última, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela. Senti necessidade de lhe dizer uma palavra que lhe deixasse o remorso da minha morte. Escrevi dois textos. O primeiro eu queimei, por ser longo e confuso. O segundo continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas que tivemos, nem alegria alguma. Falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer.

### Glossário

- **mouro**: homem do norte da África; aqui, Otelo.
- **sublime**: muito belo e elevado.
- **calúnia**: mentira que se diz para fazer mal a alguém.
- **camarotes**: pequenas salas abertas no teatro, de onde se vê a peça.
- **jazesse**: estivesse morto e enterrado.
- **súplicas**: pedidos feitos com muita dor.
- **ceei**: comi à noite, tarde, a última refeição do dia.
- **remorso**: dor de quem sabe que fez mal; aqui, a dor que ele quer deixar em Capitu.

## CXXXVI. A xícara de café.

O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e bebê-la. Não tinha esquecido de todo a minha história romana. Por isso, enquanto esperava, lembrei-me de que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo. Mas tinha um tomo incompleto de Plutarco, em que se contava a vida do célebre romano. Bastou para ocupar aquele pouco tempo. E, para imitá-lo em tudo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso. Eu tinha necessidade de pôr em mim a coragem dele. Assim também ele precisara dos sentimentos do filósofo para morrer sem medo. Um dos males da ignorância é não ter este remédio na última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e morre com nobreza. Mas creio que muito mais gente acabaria com a vida, se achasse essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, eu queria fugir de qualquer suspeita de imitação. Lembro-me bem de uma decisão que tomei. Não queria que o livro de Plutarco fosse encontrado perto de mim. Nem queria que os jornais dessem a notícia junto com a cor das calças que eu então vestia. Por isso resolvi colocá-lo de novo no seu lugar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o café. Levantei-me, guardei o livro e fui para a mesa onde ficara a xícara. A casa já estava cheia de rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara. Comecei a mexer o café, com os olhos vagos e a memória em Desdêmona inocente. O espetáculo da véspera vinha meter-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando. Lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe...

— Acabemos com isto — pensei.

Quando ia beber, pensei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. Beberia depois; era melhor. Assim decidido, comecei a andar pelo gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr para mim, gritando:

— Papai! papai!

Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo, porque o esqueci inteiramente. Mas acredite que foi belo e trágico. De fato, a figura do pequeno me fez recuar até bater de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos e esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume. E repetia, puxando-me:

— Papai! papai!

### Glossário

- **dissolver**: misturar uma coisa num líquido até ela desaparecer.
- **tomo**: cada um dos volumes de uma obra.
- **canapé**: sofá antigo e estreito.
- **ignorância**: falta de conhecimento e de leitura.
- **copeiro**: empregado que serve a mesa e as bebidas.
- **rumores**: ruídos leves de pessoas e de vozes.
- **ânimo**: coragem, força para fazer alguma coisa.
- **véspera**: o dia anterior.

## CXXXVII. Segundo impulso.

Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. Porque o meu primeiro impulso foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume. A vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso, que me custa dizer aqui. Mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desminta ou contradiga. O meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

— Já, papai; vou à missa com mamãe.

— Toma outra xícara, meia xícara só.

— E papai?

— Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei. Mas estava disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. Faria isso caso o sabor lhe desagradasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não sei o que senti, que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino.

— Papai! papai! — exclamava Ezequiel.

— Não, não, eu não sou teu pai!

### Glossário

- **impulso**: vontade forte e repentina de fazer alguma coisa.
- **vá lá**: seja; expressão de quem aceita fazer algo difícil.
- **assassino**: pessoa que mata outra.
- **desminta**: diga que não é verdade.
- **entornei**: deixei o líquido cair para fora.
- **goela**: parte de dentro do pescoço, por onde passa a comida.
- **recuar**: andar para trás.
- **dei por mim**: percebi de repente o que estava fazendo.

## CXXXVIII. Capitu que entra.

Quando levantei a cabeça, dei com a figura de Capitu diante de mim. Eis aí outro lance, que parecerá de teatro. E é tão natural como o primeiro. É que a mãe e o filho iam à missa, e Capitu não saía sem falar comigo. Já era um falar seco e breve; na maior parte das vezes, eu nem olhava para ela. Ela olhava sempre, esperando.

Desta vez, ao dar com ela, não sei se era dos meus olhos, mas Capitu me pareceu lívida. Seguiu-se um daqueles silêncios que, sem mentir, se podem chamar de um século. Tal é a extensão do tempo nas grandes crises. Capitu se recompôs. Disse ao filho que fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse...

— Não há que explicar — disse eu.

— Há tudo; não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. Que houve entre vocês?

— Não ouviu o que lhe disse?

Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente. Mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação. Por isso negou que tivesse ouvido e confirmou apenas que tinha visto. Sem lhe contar o episódio do café, repeti-lhe as palavras do final do capítulo.

— O quê? — perguntou ela, como se tivesse ouvido mal.

— Que não é meu filho.

Grande foi o espanto de Capitu, e não menor a indignação que veio depois. Ambos foram tão naturais que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. Já ouvi dizer que as há para vários casos, questão de preço. Eu não creio, tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira. A própria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar dela. Assim, não atendi à linguagem de Capitu, aos seus gestos, à dor que a retorcia, a coisa nenhuma. Repeti as palavras ditas duas vezes, com tal resolução que a fizeram afrouxar. Após alguns instantes, ela me disse:

— Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. Entretanto, você, que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga — continuou, vendo que eu não respondia nada —, diga tudo. Depois do que ouvi, posso ouvir o resto, não pode ser muito. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro.

— Há coisas que se não dizem.

— Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.

Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. Podia estar um tanto confusa, mas o porte não era de acusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.

— Não, Bentinho. Ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa. Ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!

— A separação é coisa decidida — respondi, aceitando logo a proposta dela. — Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio; cada um iria com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e é tudo.

Não disse tudo; mal pude aludir aos amores de Escobar, sem lhe dizer o nome. Capitu não pôde deixar de rir, de um riso que sinto não poder transcrever aqui. Depois, em um tom ao mesmo tempo irônico e melancólico:

— Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!

Arrumou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou. Enquanto isso, eu não pedia outra coisa senão a plena justificação dela. Disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. Capitu olhou para mim com desdém, e murmurou:

— Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se? É natural; apesar do seminário, não acredita em Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos fica bem dizer mais nada.

### Glossário

- **lívida**: muito pálida, sem cor no rosto.
- **foro**: lugar onde a justiça trabalha; os tribunais.
- **demanda**: processo na justiça.
- **injúria**: palavra que ofende muito.
- **cioso**: muito atento e com medo de perder o que é seu.
- **aludir**: falar de uma coisa sem dizê-la claramente.
- **desdém**: modo frio de mostrar que não se dá valor a alguém.
- **casualidade**: coisa que acontece por acaso.

## CXXXIX. A fotografia.

Dou minha palavra: estive a ponto de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma visão de louco. Mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando «Mamãe! mamãe! é hora da missa!», devolveu-me a consciência da realidade. Capitu e eu, sem querer, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada. Repetiu as últimas palavras, puxou o filho e saíram para a missa.

### Glossário

- **a ponto de**: quase, muito perto de fazer alguma coisa.
- **vítima**: pessoa que sofre um mal.
- **ilusão**: coisa que parece real, mas não é.
- **repentina**: que acontece de repente.
- **consciência**: o saber claro do que está acontecendo.
- **confissão**: ato de dizer a própria culpa.
- **por força**: sem outra possibilidade, necessariamente.
- **de boca**: com palavras, falando.

## CXL. Volta da igreja.

Ficando só, era natural pegar o café e bebê-lo. Pois, não, senhor; tinha perdido o gosto pela morte. A morte era uma solução. Eu acabava de achar outra, tanto melhor porque não era definitiva. Deixava a porta aberta à reparação, se devesse havê-la. Não disse *perdão*, mas *reparação*, isto é, justiça. Qualquer que fosse a razão do ato, rejeitei a morte e esperei a volta de Capitu. Demorou mais que de costume. Cheguei a temer que ela tivesse ido à casa de minha mãe, mas não foi.

— Confiei a Deus todas as minhas amarguras — disse-me Capitu ao voltar da igreja. — Ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável, e estou às suas ordens.

Os olhos com que me disse isto eram velados, como vigiando um gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha fraqueza, ou com a própria incerteza que eu podia ter sobre a paternidade do outro. Mas tudo falhou. Haveria acaso em mim um homem novo, um que aparecia agora, porque impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso, era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e que faríamos o que eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito.

No intervalo, eu tinha lembrado as palavras do finado Gurgel. Foi quando me mostrou em sua casa o retrato da mulher, parecido com Capitu. Você há de se lembrar delas. Se não, leia de novo o capítulo. Não ponho aqui o número, porque já não me lembro qual é, mas não fica longe. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis... Pelo dia adiante, e nos outros dias, Ezequiel ia ter comigo no gabinete. As feições do pequeno davam ideia clara das do outro, ou eu ia prestando mais atenção nelas. Junto com isso, lembrava-me de episódios vagos e remotos, palavras, encontros e incidentes. Eram coisas em que a minha cegueira não pôs malícia, e a que faltou o meu velho ciúme. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados, um segredo que me fez rir, uma palavra dela sonhando. Todas essas lembranças vieram agora, em tal atropelo que me deixaram tonto... E por que não os esganei um dia? Foi quando desviei os olhos da rua, onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico. Dentro, as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar, os olhos enfiados nos olhos. Mas eram tão cautelosos que se desenfiaram logo, dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora, e eles acharam graça. Escobar declarou que, para ele, as andorinhas estariam melhor à mesa do jantar, cozidas, do que no fio de arame. «Nunca comi os ninhos delas — continuou —, mas devem ser bons, se os chins os inventaram.» E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. Enquanto isso, Capitu, confessando que a cansávamos, foi a outros cuidados. Agora me lembrava de tudo o que então me pareceu nada.

### Glossário

- **reparação**: ato de corrigir um mal feito; justiça.
- **amarguras**: grandes tristezas.
- **velados**: meio escondidos, que não mostram o que sentem.
- **paternidade**: o fato de ser pai.
- **faríamos**: forma do verbo "fazer": nós faríamos, nesse caso.
- **finado**: morto.
- **inexplicáveis**: que não se podem explicar.
- **atropelo**: confusão de coisas que vêm todas ao mesmo tempo.
- **esganei**: apertei o pescoço de alguém para matar.
- **andorinhas**: pequenos pássaros pretos e brancos, de asas compridas.
- **trepadas**: subidas e paradas num lugar alto.
- **telegráfico**: do telégrafo, que mandava mensagens por um fio.
- **desenfiaram**: tiraram de onde estavam enfiados; aqui, os olhos pararam de se olhar.
- **chins**: forma antiga de "chineses".

## CXLI. A solução.

Aqui está o que fizemos. Pegamos em nós e fomos para a Europa, não para passear, nem para ver nada, novo nem velho. Paramos na Suíça. Uma professora do Rio Grande, que foi conosco, ficou de companhia a Capitu. Ensinava a língua materna a Ezequiel, que aprenderia o resto nas escolas do país. Assim regulada a vida, voltei ao Brasil.

Ao cabo de alguns meses, Capitu tinha começado a escrever-me cartas, a que respondi com brevidade e secura. As dela eram submissas, sem ódio, talvez afetuosas, e para o fim saudosas. Pedia-me que a fosse ver. Embarquei um ano depois, mas não a procurei, e repeti a viagem com o mesmo resultado. Na volta, os que se lembravam dela queriam notícias, e eu as dava, como se acabasse de viver com ela. Naturalmente, as viagens eram feitas com a intenção de simular isto mesmo e enganar a opinião. Um dia, finalmente...

### Glossário

- **língua materna**: a primeira língua de uma pessoa, a do seu país.
- **Ao cabo de**: no fim de, depois de.
- **brevidade**: com poucas palavras.
- **secura**: falta de carinho no modo de falar ou escrever.
- **submissas**: de quem obedece e não reclama.
- **saudosas**: cheias de saudade.
- **simular**: fingir, fazer parecer verdade.
- **opinião**: aqui, o que as pessoas pensam e dizem.

## CXLII. Uma santa.

Entenda-se uma coisa. Nas viagens que fiz à Europa, José Dias não foi comigo, mas não é que lhe faltasse vontade. Ficava fazendo companhia a tio Cosme, quase inválido, e a minha mãe, que ficou velha depressa. Também ele estava velho, embora forte. Ia a bordo despedir-se de mim. As palavras que me dizia, os gestos de lenço, os próprios olhos que secava, tudo isso me comovia também. A última vez não foi a bordo.

— Venha...

— Não posso.

— Está com medo?

— Não; não posso. Agora, adeus, Bentinho, não sei se me verá mais; creio que vou para a outra Europa, a eterna...

Não foi logo; minha mãe embarcou primeiro. Procure no cemitério de São João Batista uma sepultura sem nome, com esta única indicação: *Uma santa.* É aí. Mandei fazer essa inscrição com alguma dificuldade. O escultor achou-a esquisita. O administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. Este me fez notar que as santas estão no altar e no céu.

— Mas, perdão — interrompi —, eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. Minha ideia é dar com essa palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada teve na vida. Tanto é assim que, como a modéstia foi uma delas, desejo conservá-la depois da morte, não escrevendo o nome.

— Todavia, o nome, a filiação, as datas...

— A quem importarão datas, filiação ou nomes, depois que eu acabar?

— Quer dizer que era uma santa senhora, não?

— Justamente. O protonotário Cabral, se fosse vivo, confirmaria aqui o que lhe digo.

— Nem eu contesto a verdade, hesito só na fórmula. Conheceu então o protonotário?

— Conheci-o. Era um padre-modelo.

— Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso — continuou o vigário.

— E tinha alguns talentos de sociedade — disse eu. — Lá em casa sempre ouvi que era um grande parceiro ao gamão...

— Tinha muito bom dado! — suspirou lentamente o vigário. — Um dado de mestre!

— Então, parece-lhe...?

— Uma vez que não há outro sentido, nem poderia havê-lo, sim, senhor, admite-se...

José Dias assistiu a estas diligências com grande melancolia. No fim, quando saímos, falou mal do padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe, nem ele nem os outros homens do cemitério.

— Não a conheceram; se a conhecessem, mandariam esculpir *santíssima.*

### Glossário

- **inválido**: que, por doença ou idade, não consegue andar ou cuidar de si.
- **vigário**: padre responsável por uma paróquia.
- **canonizada**: pessoa que a Igreja declarou santa.
- **modéstia**: qualidade de quem não se mostra nem se acha importante.
- **filiação**: os nomes do pai e da mãe de uma pessoa.
- **protonotário**: título de honra dado pelo papa.
- **hesito**: fico em dúvida, não me decido.
- **canonista**: padre que conhece bem as leis da Igreja.
- **caridoso**: que ajuda os pobres e os que sofrem.
- **gamão**: jogo de mesa com peças e dados.
- **diligências**: esforços e passos para conseguir uma coisa.
- **meticuloso**: que olha cada pequeno detalhe, com exagero.
- **esculpir**: gravar na pedra.

## CXLIII. O último superlativo.

Não foi o último superlativo de José Dias. Teve outros, que não vale a pena escrever aqui. Até que veio o último, o melhor deles, o mais doce, o que lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava comigo. Minha mãe lhe deixou uma pequena lembrança. Mesmo assim, veio dizer-me que, com legado ou sem ele, não se separaria de mim. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capitu, a quem pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. Mas Capitu ia adiando a remessa, de correio a correio. Até que ele não pediu mais nada, a não ser o coração do jovem estudante. Pedia-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô. Era um amigo «destinado pelo céu a amar o mesmo sangue.» Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração; mas a morte veio antes de Ezequiel. A doença foi rápida. Mandei chamar um médico homeopata.

— Não, Bentinho — disse ele. — Basta um alopata; em todas as escolas se morre. Além disso, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me à fé de meus pais. A alopatia é o catolicismo da medicina...

Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco antes, ouviu que o céu estava lindo, e pediu que abríssemos a janela.

— Não, o ar pode fazer-lhe mal.

— Que mal? Ar é vida.

Abrimos a janela. Realmente, estava um céu azul e claro. José Dias levantou-se um pouco e olhou para fora. Após alguns instantes, deixou cair a cabeça, murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que disse neste mundo. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele?

### Glossário

- **superlativo**: forma da palavra que indica o grau mais alto, como "lindíssimo".
- **legado**: dinheiro ou bem que um morto deixa a alguém.
- **remessa**: ato de mandar alguma coisa pelo correio.
- **homeopata**: médico da homeopatia, tratamento feito com doses muito pequenas.
- **alopata**: médico que trata as doenças do modo mais comum.
- **mocidade**: tempo em que se é jovem.
- **converto-me**: mudo de crença ou de ideia.
- **agonia**: os últimos momentos antes da morte.

## CXLIV. Uma pergunta tardia.

Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo, mas não é provável. Tenho me feito esquecer. Moro longe e saio pouco. Não é que eu tenha de fato ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, embora reproduza a de Matacavalos, apenas me lembra aquela. E lembra mais por efeito de comparação e de reflexão do que de sentimento. Já disse isto mesmo.

Eu tinha a própria casa velha, na mesma rua antiga. Hão de me perguntar por que razão não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. A pergunta devia ser feita no princípio, mas aqui vai a resposta. A razão é esta. Logo que minha mãe morreu, quis ir para lá. Antes fiz uma longa visita de inspeção, por alguns dias, e toda a casa me desconheceu. No quintal, a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. Mas o tronco, em vez de reto como antigamente, tinha agora um ar de ponto de interrogação. Naturalmente se espantava com o intruso. Corri os olhos pelo ar, procurando algum pensamento que tivesse deixado ali, e não achei nenhum. Ao contrário, os ramos começaram a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. Parece que era a cantiga das manhãs novas. Junto dessa música sonora e alegre, ouvi também o grunhir dos porcos, espécie de zombaria concentrada e filosófica.

Tudo me era estranho e adverso. Deixei que demolissem a casa. Mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrei-me de fazer esta reprodução. Fiz isso com as explicações que dei ao arquiteto, como contei em tempo.

### Glossário

- **demolissem**: derrubassem uma casa ou um prédio.
- **aroeira**: árvore do Brasil, comum nos quintais antigos.
- **pitangueira**: árvore que dá pitanga, uma pequena fruta vermelha.
- **caçamba**: balde usado para tirar água do poço.
- **lavadouro**: lugar onde se lava roupa.
- **casuarina**: árvore alta, de ramos finos.
- **intruso**: pessoa que entra onde não é chamada.
- **grunhir**: a voz dos porcos.

## CXLV. O regresso.

Ora, foi já nesta casa que um dia, quando me vestia para almoçar, recebi um cartão com este nome:

EZEQUIEL A. DE SANTIAGO

— A pessoa está aí? — perguntei ao criado.

— Sim, senhor; ficou esperando.

Não fui logo, logo; fiz com que esperasse uns dez ou quinze minutos na sala. Só depois me lembrei de que devia mostrar certa agitação e correr, abraçá-lo, falar-lhe da mãe. A mãe — creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de me vestir às pressas. Quando saí do quarto, tomei ares de pai, um pai entre manso e áspero, metade Dom Casmurro. Ao entrar na sala, dei com um rapaz de costas, olhando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz barulho. Apesar disso, ele ouviu os meus passos e voltou-se depressa. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi. Era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de São José. Era um pouco mais baixo, menos cheio de corpo. E, salvo as cores, que eram vivas, tinha o mesmo rosto do meu amigo. Vestia-se à moderna, naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos.

— Papai não mudou nada desde os últimos retratos — disse-me ele.

A voz era a mesma de Escobar; o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. Comecei um interrogatório, para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. E o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui, diante de mim, com igual riso e maior respeito; em resumo, a mesma gentileza e a mesma graça. Ansiava por me ver. A mãe falava muito em mim e me elogiava extraordinariamente. Dizia que eu era o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.

— Morreu bonita — concluiu.

— Vamos almoçar.

Se você pensa que o almoço foi amargo, engana-se. Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade. A princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho, que não me completasse e continuasse. Se o rapaz tivesse saído à mãe, eu acabaria crendo em tudo. E seria mais fácil ainda, porque ele parecia ter me deixado na véspera. Evocava a meninice, cenas e palavras, a ida para o colégio...

— Papai ainda se lembra de quando me levou para o colégio? — perguntou, rindo.

— Pois não hei de me lembrar?

— Era na Lapa. Eu ia desesperado, e papai não parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas... Sim, senhor, aceito.

Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu um gole e continuou a comer. Escobar comia assim também, com a cara metida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de arqueologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor. Contava o Egito e os seus milhares de séculos, sem se perder nos números; tinha a cabeça aritmética do pai. Eu, embora a ideia da paternidade do outro já me fosse familiar, não gostava da ressurreição. Às vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada. Mas o diabinho falava e ria, e o defunto falava e ria por ele.

Não havendo remédio senão ficar com ele, fiz-me pai deveras. Capitu podia ter levado consigo, por descuido, alguma fotografia de Escobar, e Ezequiel podia tê-la visto. Esta ideia não me ocorreu; nem, se ocorresse, persistiria. Ezequiel acreditava em mim como na mãe. Se José Dias fosse vivo, acharia nele a minha própria pessoa. Prima Justina quis vê-lo, mas, como estava doente, pediu-me que o levasse lá. Eu conhecia aquela parenta. Creio que o desejo de ver Ezequiel era para verificar no moço o debuxo que talvez tivesse achado no menino. Seria um último prazer; cortei-o a tempo.

— Está muito mal — disse eu a Ezequiel, que queria ir vê-la. — Qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. Iremos vê-la quando ficar melhor.

Não fomos; a morte a levou dentro de poucos dias. Ela descansa no Senhor, ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a reconheceu. Nem podia, tão outra a fizeram os anos e a morte. No caminho para o cemitério, ia se lembrando de uma porção de coisas. Era alguma rua, alguma torre, um trecho de praia, e ele era todo alegria. Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao fim do dia. Contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se de que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara, como se as casas morressem meninas.

Ao cabo de seis meses, Ezequiel falou-me de uma viagem à Grécia, ao Egito e à Palestina. Era uma viagem científica, promessa feita a alguns amigos.

— De que sexo? — perguntei, rindo.

Sorriu, envergonhado. Respondeu que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca entenderiam uma ruína de trinta séculos. Eram dois colegas da universidade. Prometi-lhe recursos, e dei-lhe logo o primeiro dinheiro necessário. Pensei: uma das consequências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. Antes lhe pagasse a lepra... Quando esta ideia me atravessou o cérebro, senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz. Quis apertá-lo ao coração, mas recuei. Depois encarei-o, como se faz a um filho de verdade. Os olhos que ele me lançou foram ternos e agradecidos.

### Glossário

- **luto**: roupa preta e tristeza pela morte de alguém.
- **comborço**: palavra antiga; homem que se relaciona com a mulher de outro. É o nome que o narrador dá a Escobar.
- **sotaque**: modo de pronunciar as palavras, próprio de um lugar.
- **afrancesado**: parecido com o modo de falar dos franceses.
- **arqueologia**: estudo dos povos antigos pelos objetos e ruínas que deixaram.
- **debuxo**: desenho simples, feito antes da pintura.
- **furtivos**: feitos em segredo, às escondidas.
- **lepra**: doença grave; hoje se diz hanseníase.

## CXLVI. Não houve lepra.

Não houve lepra, mas há febres por todas essas terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifoide. Foi enterrado perto de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo. Tinha esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.» Mandaram-me os dois textos, grego e latino, e o desenho da sepultura. Mandaram também a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava. Pagaria o triplo para não tornar a vê-lo.

Como eu quis verificar o texto, consultei a minha Vulgata. Achei que era exato, mas tinha ainda um complemento. «Tu eras perfeito nos teus caminhos, *desde o dia da tua criação.*» Parei e perguntei calado: «Quando seria o dia da criação de Ezequiel?» Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para juntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.

### Glossário

- **lepra**: doença grave; hoje se diz hanseníase.
- **febre tifoide**: doença grave, com febre alta, que vem da água ou da comida.
- **túmulo**: construção sobre a sepultura.
- **inscrição**: palavras escritas ou gravadas na pedra.
- **profeta**: homem que, segundo a Bíblia, fala em nome de Deus.
- **triplo**: três vezes mais.
- **Vulgata**: a Bíblia em latim.
- **complemento**: parte que completa uma frase ou um texto.

## CXLVII. A exposição retrospectiva.

Você já sabe uma coisa. A minha alma, por mais ferida que tenha sido, não ficou aí num canto, como uma flor lívida e solitária. Não lhe dei essa cor ou falta de cor. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca duração, é verdade. Elas é que me deixavam, como pessoas que visitam uma exposição retrospectiva. Ou se cansam de vê-la, ou a luz da sala fica mais fraca. Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré. As outras iam modestamente, *calcante pede*. E, se chovia, eu é que ia buscar um carro de praça e as metia dentro. Havia grandes despedidas e maiores recomendações:

— Levas o catálogo?

— Levo; até amanhã.

— Até amanhã.

Não voltavam mais. Eu ficava à porta, esperando. Ia até a esquina, espiava, consultava o relógio, e não via nada nem ninguém. Então, se aparecia outra visita, dava-lhe o braço e entrávamos. Mostrava-lhe as paisagens, os quadros históricos ou de gênero, uma aquarela, um pastel, uma *gouache*. E também esta se cansava, e ia embora com o catálogo na mão...

### Glossário

- **lívida**: muito pálida, sem cor.
- **consolassem**: tirassem a tristeza ou a dor de alguém.
- **caprichos**: vontades que passam depressa.
- **exposição retrospectiva**: mostra de obras antigas de um artista, de toda a sua vida.
- **cocheiro de libré**: homem que conduz o carro, com uniforme de casa rica.
- **calcante pede**: expressão latina: a pé.
- **carro de praça**: carro de aluguel que espera os clientes na rua.
- **catálogo**: lista das obras de uma exposição.
- **espiava**: olhava com atenção, procurando ver alguém.
- **aquarela**: pintura feita com tinta e água.
- **gouache**: pintura feita com tinta grossa misturada com água.

## CXLVIII. E bem, e o resto?

Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber uma coisa. A Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos? Ou esta foi mudada naquela, por efeito de algum caso incidente? Jesus, filho de Sirac, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, me diria estas palavras do seu capítulo IX, versículo 1. «Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.» Mas eu creio que não, e você concordará comigo. Se você se lembra bem da Capitu menina, há de reconhecer uma coisa. Uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica. É a suma das sumas, ou o resto dos restos. Falo da minha primeira amiga e do meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também. Quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à *História dos subúrbios.*

### Glossário

- **caprichosas**: mulheres de vontades que mudam depressa.
- **olhos de ressaca**: olhos que parecem puxar quem olha, como o movimento forte do mar quando a onda volta da praia.
- **cigana**: mulher do povo cigano.
- **oblíqua**: que olha de lado, não de frente.
- **dissimulada**: que esconde o que pensa ou sente.
- **malícia**: modo de pensar que busca o mal ou o engano.
- **suma**: o principal de tudo, o resumo.
- **extremosos**: muito carinhosos e dedicados.
