# Amor de Perdição (Edição B1)

*Camilo Castelo Branco*

## AO ILUSTRÍSSIMO E EXCELENTÍSSIMO SENHOR

### *ANTÓNIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELO*

### DEDICA

O Autor.

*Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor,*

*Muita gente vai pensar que Vossa Excelência não dá valor nenhum a este livro. É a minha gratidão que lho dedica. Vão pensar isto porque muita gente está convencida de que os ministros do Estado não leem romances. É um engano.*

*Uma vez ouvi um colega de Vossa Excelência falar no parlamento sobre caminhos de ferro. Falava com muito talento! Enfeitou com tantas flores aquele assunto tão seco que eu tive muito prazer em ouvi-lo. Na noite desse mesmo dia, encontrei o colega de Vossa Excelência a ler a Fanny. Era aquela Fanny que sabia tanto de caminhos de ferro como eu.*

*Tenho a certeza de que Vossa Excelência tem romances na sua biblioteca. Também acredito que tem lá alguns que não leu, porque lhe falta o tempo. E tem outros que não leu porque não merecem tempo. Peço a Vossa Excelência que dê a este livro um lugar entre os segundos. Assim Vossa Excelência mostrará que o recebe e que lhe dá valor. E dá-lhe valor por uma razão: o livro leva o nome do mais agradecido e respeitador criado de Vossa Excelência.*

*Na cadeia da Relação do Porto,*

*aos 26 de Setembro de 1861.*

*Camilo Castelo Branco.*

### Glossário

- **dedicar**: oferecer um livro a uma pessoa, para lhe mostrar amizade ou gratidão.
- **Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor**: forma muito respeitosa de começar uma carta a uma pessoa importante.
- **Vossa Excelência**: forma muito respeitosa de falar com uma pessoa importante, como um ministro.
- **ministro do Estado**: pessoa que faz parte do governo do país.
- **parlamento**: lugar onde os deputados falam e fazem as leis do país.
- **caminhos de ferro**: linhas de comboio; os comboios e tudo o que lhes pertence.
- **Fanny**: título de um romance de amor daquele tempo.
- **criado**: aqui, forma educada de dizer «a pessoa que está ao seu serviço».
- **cadeia da Relação**: a prisão do tribunal superior do Porto.

## PREFÁCIO

Eu estava a folhear os livros de registos antigos, no arquivo das cadeias da Relação do Porto. No livro das entradas dos presos de 1803 a 1805, a folhas 232, li o seguinte:

*Simão António Botelho, que disse chamar-se assim. Disse ser solteiro e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa. Na altura da sua prisão, morava na cidade de Viseu. Idade: dezoito anos. Filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco. Altura normal, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba pretos. Vestia jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês. E fiz este assento, que assinei.*

*Filipe Moreira Dias.*

Na margem esquerda deste assento está escrito:

*Foi para a Índia em 17 de Março de 1807.*

Penso que não confio demasiado no bom coração do leitor, se acredito numa coisa. O degredo de um moço de dezoito anos havia de lhe causar pena.

Dezoito anos! É a aurora dourada e vermelha da manhã da vida! É a frescura do coração, que ainda não sonha com frutos e vive todo no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade! É a passagem do colo da família, dos braços da mãe e dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da jovem inocente. Ela abre-se ao lado dele como uma flor da mesma estação. Tem os mesmos perfumes e está na mesma hora da vida! Dezoito anos!… E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!… É triste!

O leitor, de certeza, ficaria comovido. E a leitora choraria, se lhe contassem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos! Não choraria? A mulher é a criatura mais cheia de ternura e de piedade. Às vezes traz consigo, do céu, um reflexo da misericórdia divina. Poderia ela ouvir esta história de olhos secos? A minha leitora é a amiga carinhosa de todos os infelizes. Imaginem que lhe diziam isto: o pobre moço perdeu tudo. Perdeu a honra, a reabilitação, a pátria, a liberdade, as irmãs, a mãe, tudo. E perdeu tudo por amor da primeira mulher que o acordou do seu sono de desejos inocentes. Não choraria ela?!

Chorava, chorava! Quem me dera saber contar-lhe o choque doloroso que aquelas linhas me causaram! Procurei-as de propósito. Li-as com amargura e com respeito, e ao mesmo tempo com ódio. Ódio, sim… Com o tempo, os leitores verão se este ódio se pode perdoar. Ou verão se não seria melhor eu desistir já desta história. Esta história pode trazer-me a raiva dos juízes frios do coração. E pode trazer-ma também por causa das sentenças que eu vou escrever aqui. Vou escrevê-las contra a falsa virtude de certos homens. São homens que se tornaram bárbaros em nome da sua honra.

* * * * *

### Glossário

- **cadeias da Relação**: a prisão do tribunal superior do Porto.
- **a folhas 232**: na folha (página) número 232 do livro.
- **assento**: registo escrito num livro oficial.
- **natural de**: nascido em.
- **jaqueta de baetão**: casaco curto feito de um pano de lã grosso.
- **colete de fustão**: peça de roupa sem mangas, feita de um tecido de algodão grosso.
- **pano pedrês**: pano cinzento com pequenas manchas de várias cores.
- **degredo / degredado**: castigo de ser mandado para longe da pátria; a pessoa castigada assim.
- **reabilitação**: voltar a ter o bom nome e os direitos que se tinham perdido.

## AMOR DE PERDIÇÃO

### PRIMEIRA PARTE

### I.

Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses era um fidalgo de boa linhagem. A sua família era uma das mais antigas famílias nobres de Vila Real de Trás-os-Montes. Em 1779, era juiz de fora de Cascais. Nesse mesmo ano, casou com uma dama do paço, D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco. Ela era filha de um capitão de cavalaria. Era também neta de outro capitão de cavalaria, António de Azevedo Castelo Branco Pereira da Silva. Este avô era famoso pela sua alta posição. Era famoso também por um livro sobre a Arte da Guerra, muito apreciado naquele tempo.

O bacharel da província passou dez anos em Lisboa apaixonado, mas sem sucesso. Para a bela dama de D. Maria I o amar, faltavam-lhe qualidades físicas: Domingos Botelho era extremamente feio. Para ser um bom partido para uma filha segunda, faltava-lhe fortuna. Os seus bens não passavam de trinta mil cruzados em propriedades no Douro. As qualidades de espírito também não o ajudavam. Tinha muito pouca inteligência. Na universidade, os colegas deram-lhe a alcunha de «brocas». Ainda hoje os seus descendentes em Vila Real são conhecidos por esse nome. Bem ou mal, a palavra *brocas* vem de *broa*. Os estudantes achavam que a falta de inteligência do colega tinha uma causa. Vinha do muito pão de milho que ele comia na sua terra.

Domingos Botelho devia ter alguma vocação. E tinha: era um excelente tocador de flauta. Foi a primeira flauta do seu tempo. Durante dois anos, em Coimbra, viveu do dinheiro que ganhava a tocar flauta. Nesse tempo, o pai deixou de lhe mandar a mesada. Os rendimentos da casa não chegavam para livrar outro filho de um crime de morte\[1\].

Domingos Botelho formou-se em 1767. Depois foi para Lisboa ler no desembargo do paço. Era o começo habitual de quem queria seguir a carreira de juiz. Fernão Botelho, pai do bacharel, também já tinha sido bem recebido em Lisboa. Era muito estimado sobretudo pelo duque de Aveiro. Por causa dessa amizade, Fernão Botelho quase perdeu a cabeça em 1758, na tentativa de matar o rei. Mas o fidalgo da província saiu das masmorras da Junqueira limpo dessa mancha vergonhosa. Saiu até estimado pelo conde de Oeiras. Fernão Botelho tinha ajudado o conde numa prova. O conde quis provar que a sua genealogia era melhor que a dos Pintos Coelhos do Bonjardim do Porto. Foi um processo ridículo, mas fez muito barulho. Começou porque o fidalgo do Porto recusou dar a filha ao filho de Sebastião José de Carvalho.

Não sei com que artes o bacharel flautista conseguiu ganhar a estima de D. Maria I e de Pedro III. Conta a tradição que ele fazia rir a rainha com as suas piadas. Talvez a fizesse rir também com caretas, que eram o melhor do seu espírito. O certo é que Domingos Botelho frequentava o palácio. E recebia da bolsa particular da rainha uma pensão muito grande. Com essa pensão, esqueceu-se de si e do futuro. Esqueceu-se até do ministro da justiça. Depois de muitos pedidos, o ministro tinha confiado nos seus estudos e tinha-lhe dado o cargo de juiz de fora de Cascais.

Já disse que ele se atreveu a namorar uma senhora do paço. Não o fez com poesia, como Luís de Camões ou Bernardim Ribeiro. Namorou na sua prosa de provinciano. E ganhou a simpatia da rainha para amolecer a dureza da dama. Na corte, chamavam-lhe o «doutor bexiga». O «doutor bexiga» devia ter sorte no fim. Assim não se desfazia a velha zanga entre o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com D. Rita Preciosa. Rita era tão bonita que, ainda aos cinquenta anos, podia orgulhar-se da sua beleza. Não tinha outro dote. A não ser que seja um dote uma série de antepassados: uns bispos, outros generais. Entre os generais, havia um que morreu frito num caldeirão, não sei em que terra de mouros. Era uma glória, na verdade, um pouco quente! Mas era uma glória tão grande que os descendentes do general frito assinavam *Caldeirões*.

A dama do paço não foi feliz com o marido. Tinha saudades da corte e do luxo das salas reais. Tinha saudades também dos amores do seu género e do seu meio, que sacrificou ao capricho da rainha. Esta vida triste, porém, não os impediu de terem dois filhos e quatro meninas. O mais velho era Manuel, o segundo Simão. Das meninas, uma chamava-se Maria, a segunda Ana. A última tinha o nome da mãe e alguns traços da beleza dela.

O juiz de fora de Cascais queria um lugar mais importante. Por isso, em 1784, vivia em Lisboa, na freguesia da Ajuda. Foi nesse ano que nasceu Simão, o penúltimo dos seus filhos. A sorte foi sempre amiga do juiz. Conseguiu ser transferido para Vila Real, que era a sua maior ambição.

A uma légua de Vila Real, a nobreza da vila esperava o seu conterrâneo. Cada família tinha a sua liteira com o brasão da casa. A liteira dos Correias de Mesquita era a mais antiquada de todas. E as fardas dos seus criados eram as mais gastas e roídas pela traça de todo o cortejo.

D. Rita viu ao longe a fila de liteiras. Pôs no olho direito a sua grande luneta de ouro e disse:

—Ó Meneses, aquilo que é?!

—São os nossos amigos e parentes, que vêm esperar-nos.

—Em que século estamos nós nesta montanha?—perguntou outra vez a dama do paço.

—Em que século?! O século é o dezoito, tanto aqui como em Lisboa.

—Ah! Sim? Pensei que o tempo tinha parado aqui no século doze.

O marido achou que devia rir-se da piada. Mas a piada não lhe agradou muito.

Fernão Botelho, pai do juiz de fora, saiu à frente do cortejo. Queria dar a mão à nora, que descia da liteira, e levá-la para a liteira da família. Antes de ver a cara do sogro, D. Rita observou-o com a luneta. Olhou para as fivelas de aço e para a bolsa do rabicho. Mais tarde, ela dizia que os fidalgos de Vila Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar na velha liteira da família do marido, fez uma pergunta, com uma seriedade muito falsa. Queria saber se não havia perigo em andar dentro daquela antiguidade. Fernão Botelho garantiu à nora que a liteira ainda não tinha cem anos. E garantiu que as mulas não tinham mais de trinta.

A nobreza da terra era velha: tinha vindo para ali no tempo de D. Dinis, o fundador da vila. D. Rita recebeu os cumprimentos dessa nobreza de um modo muito altivo. Por isso, o mais novo do cortejo, que ainda vivia há doze anos, disse-me uma vez: «Sabíamos que ela era dama da Senhora D. Maria I. Mas, pelo orgulho com que nos tratou, ficámos a pensar que era ela a própria rainha.» Os sinos da terra tocaram quando o cortejo apareceu na Senhora de Almudena. D. Rita disse ao marido que a receção dos sinos era a mais barulhenta e a mais barata.

Desceram à porta da velha casa de Fernão Botelho. A antiga dama do paço deitou um olhar rápido à fachada da casa. E disse para consigo: «É uma bonita casa para quem foi criada em Mafra e Sintra, na Bemposta e Queluz.»

Passados alguns dias, D. Rita queixou-se ao marido. Disse que tinha medo de ser comida pelas ratazanas. Disse que aquela casa era uma toca de feras. Os tetos estavam a cair e as paredes não iam aguentar o inverno. E as regras do casamento não obrigavam uma esposa delicada a morrer de frio. Ela estava habituada às almofadas do palácio dos reis!

Domingos Botelho fez a vontade à sua querida esposa e começou a construir um palacete. O dinheiro mal chegava para os alicerces. Então escreveu à rainha e recebeu dela uma ajuda generosa. Com essa ajuda, acabou a casa. As varandas das janelas foram a última oferta que a rainha viúva fez à sua dama. Parece-nos que esta oferta é uma prova, até hoje desconhecida, da loucura de D. Maria I.

Domingos Botelho tinha mandado esculpir em Lisboa a pedra de armas. Mas D. Rita teimou que no escudo se pusesse também um símbolo da sua família. Já era tarde: a obra já tinha chegado do escultor. O magistrado não podia pagar uma segunda despesa. E também não queria desgostar o pai, que tinha muito orgulho no seu brasão. Resultado: a casa ficou sem armas, e D. Rita ficou vitoriosa\[2\].

O juiz de fora tinha ali parentes ilustres. O orgulho da fidalga baixou-se até aos grandes da província. Ou melhor: ela achou por bem levantá-los até ela. D. Rita tinha uma corte de primos. Uns contentavam-se com ser primos. Outros invejavam a sorte do marido. O mais atrevido não tinha coragem de a olhar de frente, quando ela o fitava pela luneta. Fazia-o com tanto orgulho e com tanta troça! Por isso se pode dizer que a luneta de Rita Preciosa era a sentinela mais atenta da sua virtude.

Domingos Botelho duvidava de que as suas qualidades chegassem para encher o coração da mulher. Os ciúmes inquietavam-no. Mas ele abafava os suspiros, com medo de que Rita se sentisse ofendida pela suspeita. E ela teria razão para se ofender. A neta do general frito no caldeirão dos sarracenos ria-se dos primos. Por amor dela, eles frisavam e empoavam as cabeleiras com um cuidado sem graça. Ou então montavam os seus cavalos com muito barulho na calçada. Fingiam que os cavaleiros da província conheciam bem a arte de montar do marquês de Marialva.

Mas o juiz de fora não pensava assim. O inimigo que o enchia de ansiedade era o seu espelho. Via-se feio, com sinceridade. E via Rita cada vez mais bela, e cada vez mais aborrecida na vida íntima. Não se lembrava de nenhum exemplo da história antiga de amor perfeito entre um marido disforme e uma esposa linda. Lembrava-se só de um exemplo, que o fazia sofrer. Era da mitologia e era contra ele: o casamento de Vénus e Vulcano. Lembrava-se das redes que o ferreiro coxo fez para apanhar os deuses adúlteros. E admirava-se da paciência daquele marido. Dizia para si mesmo que, se fosse traído, não se queixaria a Júpiter. Também não armaria ratoeiras aos primos. Ao lado do bacamarte de Luís Botelho, que tinha deitado por terra o alferes, havia uma fila de bacamartes. O juiz de fora percebia muito mais de bacamartes do que do Digesto e das Ordenações do Reino.

Esta vida de sobressaltos durou seis anos, ou talvez mais. O juiz de fora pediu aos amigos que o ajudassem a mudar de lugar. E conseguiu mais do que queria: foi nomeado provedor em Lamego. Rita Preciosa deixou saudades em Vila Real. Deixou também uma memória duradoura do seu orgulho, da sua beleza e do seu espírito. O marido também deixou histórias que ainda hoje se contam. Vou contar só duas, para não aborrecer o leitor. Um dia, um lavrador mandou-lhe de presente uma vitela. E mandou com ela a vaca, para a filha não se perder pelo caminho. Domingos Botelho mandou guardar no curral a vitela e a vaca. Disse que quem dava a filha dava também a mãe. Outra vez, mandaram-lhe um presente de pastéis numa rica bandeja de prata. O juiz de fora repartiu os pastéis pelos meninos e mandou guardar a bandeja. Disse que receberia como um insulto um presente de doces de dez patacões. Por isso, os pastéis deviam ter vindo só como enfeite da bandeja. E é por isso que ainda hoje, em Vila Real, se usa um ditado. Quando alguém fica com o conteúdo e com aquilo que o contém, a gente da terra diz: «Aquele é como o doutor brocas.»

Não conheço histórias da tradição para contar pormenores da vida do provedor em Lamego. Sei apenas que D. Rita detestava a comarca. Ameaçava o marido de ir para Lisboa com os seus cinco filhos, se ele não saísse daquela terra insuportável. Parece que a fidalguia de Lamego sempre teve orgulho na sua antiguidade, que começa na aclamação de Almacave. Essa fidalguia desprezou a vaidade da dama do paço. Procurou com cuidado certos ramos podres da árvore dos Botelhos Correias de Mesquita. E até os ramos sãos foram desvalorizados por uma razão: ele tinha vivido dois anos em Coimbra a tocar flauta.

Em 1801, encontramos Domingos José Correia Botelho de Mesquita como corregedor em Viseu.

Manuel, o mais velho dos filhos, tem vinte e dois anos e anda no segundo ano de Direito. Simão, que tem quinze, estuda Humanidades em Coimbra. As três meninas são o prazer e toda a vida do coração da mãe.

O filho mais velho escreveu ao pai a queixar-se. Diz que não pode viver com o irmão, porque tem medo do seu génio violento e sanguinário. Conta que, a cada passo, a sua vida está ameaçada. Simão gasta em pistolas o dinheiro dos livros. Anda com os mais famosos desordeiros da academia. E corre as ruas de noite, a insultar os habitantes e a provocá-los para brigas. O corregedor admira a coragem do filho Simão. Diz à mãe, muito aflita, que o rapaz é igual ao bisavô Paulo Botelho Correia, na figura e no génio. Paulo Botelho Correia foi o fidalgo mais valente que Trás-os-Montes deu.

Manuel tem cada vez mais medo dos ataques de Simão. Sai de Coimbra antes das férias e vai a Viseu queixar-se. Pede ao pai que lhe dê outra carreira. D. Rita quer que o filho seja cadete de cavalaria. Manuel Botelho parte de Viseu para Bragança. Lá prova que é nobre pelos quatro avós, para poder ser cadete.

Entretanto, Simão volta a Viseu com os exames feitos e aprovados. O pai fica maravilhado com o talento do filho. Por amor desse talento, desculpa-lhe as extravagâncias. Pede-lhe explicações sobre a sua má vida com Manuel. Simão responde que o irmão o quer obrigar a viver como um frade.

Simão tem quinze anos, mas parece ter vinte. É forte de corpo. É um belo homem, com as feições da mãe e o corpo dela. Mas tem um génio completamente diferente. É entre o povo de Viseu que ele escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita o censura por essa má escolha, Simão troça das genealogias. E troça sobretudo do general Caldeirão, que morreu frito. Isto bastou para ganhar a antipatia da mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos da mulher. Partilhou o desgosto dela e a sua aversão ao filho. As irmãs tinham medo dele, menos Rita, a mais nova. Simão brincava com ela como uma criança. E obedecia-lhe quando ela lhe pedia, com mimos de criança, que não andasse com pessoas mecânicas.

As férias estavam a acabar quando o corregedor teve um grande desgosto. Um dos seus criados tinha ido levar as mulas a beber. Junto do chafariz, algumas vasilhas esperavam a sua vez em cima do parapeito. Por descuido ou de propósito, o criado partiu algumas. Os donos das vasilhas juntaram-se contra o criado e bateram-lhe. Simão passava nesse momento. Arrancou um fueiro de um carro e, armado com ele, partiu muitas cabeças. Acabou o espetáculo trágico com uma farsa: partiu todos os cântaros. O povo que não estava ferido fugiu cheio de medo, porque ninguém se atrevia contra o filho do corregedor. Mas os feridos juntaram-se e foram pedir justiça à porta do magistrado.

Domingos Botelho gritava contra o filho. Mandou o meirinho geral prendê-lo. D. Rita também estava zangada, mas zangada como mãe. Às escondidas, mandou dinheiro ao filho. Queria que ele fugisse logo para Coimbra e esperasse lá o perdão do pai.

O corregedor soube do plano da mulher. Fingiu-se zangado e prometeu mandar prender o filho em Coimbra. Mas D. Rita chamou-lhe bruto nas suas vinganças e juiz estúpido de uma brincadeira de rapazes. Então o magistrado desfranziu a testa e deixou a severidade fingida. E, sem dizer nada, confessou que era um bruto e um juiz estúpido.

### II.

Simão Botelho levou de Viseu para Coimbra a convicção orgulhosa da sua coragem. Gostava de recordar os pormenores da derrota dos trinta aguadeiros. Lembrava o som surdo das pancadas. Lembrava um que caía atordoado e outro que se levantava cheio de sangue. Lembrava a paulada que apanhou três ao mesmo tempo e a que deitou dois de cara no chão. Lembrava a gritaria de todos e, no fim, o barulho dos cântaros. Simão deliciava-se com estas lembranças, mais do que eu já vi em qualquer drama. Nos dramas, o velho soldado de cem batalhas recorda as glórias de cada uma. No fim, fica cansado de espantar os ouvintes, quando não os cansa a eles.

Mas o académico, com os seus entusiasmos, era muito mais perigoso do que o mata-mouros das tragédias. As recordações empurravam-no para novas façanhas. E, naquele tempo, a academia dava ocasião para elas. Grande parte dos jovens estudantes simpatizava com as teorias da liberdade, que ainda eram vagas e hesitantes. Simpatizavam mais por instinto do que por estudo. Os apóstolos da Revolução Francesa não tinham conseguido fazer ouvir o trovão dos seus gritos neste canto do mundo. Mas os livros dos enciclopedistas não eram completamente desconhecidos. Foi nesses livros que a geração seguinte bebeu o veneno que saiu no sangue de noventa e três. As ideias de renovar a sociedade pela guilhotina tinham alguns seguidores tímidos em Portugal. E, claro, esses seguidores deviam ser da geração nova. Além disso, o ódio à Inglaterra crescia no coração das classes que trabalhavam nas fábricas. Desde o princípio do século anterior, tratados ruinosos e traiçoeiros apertavam Portugal como cordas. Muitos bons portugueses queriam libertar-se desse jugo estrangeiro e humilhante. Preferiam ser aliados da França. Estes eram os pensadores que refletiam. Mas os seguidores da academia mostravam mais paixão pela novidade do que ideias bem pensadas.

No ano anterior, em 1800, António de Araújo de Azevedo, mais tarde conde da Barca, foi a Madrid e a Paris. Ia negociar a neutralidade de Portugal. As potências aliadas recusaram as suas propostas. Não deram importância nenhuma aos dezasseis milhões que o diplomata oferecia ao primeiro cônsul. Logo a seguir, os exércitos de Espanha e de França invadiram o território português. As nossas tropas, comandadas pelo duque de Lafões, nem chegaram a travar a luta desigual. Nesse tempo, Luís Pinto de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, tinha negociado em Badajoz uma paz vergonhosa. Portugal deu Olivença à Espanha e fechou os seus portos aos ingleses. E pagou à França uma indemnização de alguns milhões.

Estes acontecimentos tinham revoltado contra Napoleão aqueles que odiavam o aventureiro. Para outros, foram um motivo de alegria, porque Portugal rompia com a Inglaterra. Simão Botelho era deste segundo partido. E, na academia agitada e inquieta, a sua voz tinha muito peso, apesar dos seus dezasseis anos sem barba. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins e muitos outros carrascos e mártires do grande matadouro soavam-lhe como música. Falar mal deles na sua presença era ofendê-lo a ele. Era uma bofetada certa e pistolas apontadas à cara de quem falava. O filho do corregedor de Viseu defendia uma ideia: Portugal devia renascer num batismo de sangue. Assim, a hidra dos tiranos não levantaria mais nenhuma das suas mil cabeças debaixo da maça do Hércules popular.

Estes discursos eram uma imitação de algum discurso secreto e furioso de Saint-Just. Afastavam dele até aqueles que o tinham aplaudido, quando defendia ideias de liberdade mais razoáveis. Simão Botelho ficou odiado pelos colegas. Para se salvarem por meio de uma infâmia, eles denunciaram-no ao bispo-conde, reitor da universidade.

Um dia, o demagogo académico discursava na praça de Sansão. Falava aos poucos ouvintes que ainda lhe eram fiéis: uns por medo, outros porque tinham as mesmas inclinações que ele. O discurso ia no ponto mais alto da ideia de matar o rei. Nesse momento, uma escolta de verdeais arrefeceu-lhe o entusiasmo. O orador quis resistir e aperrou as pistolas. Mas os braços musculosos dos guardas do bispo-conde sabiam bem com quem estavam a lidar. O jacobino foi desarmado e fechado no meio da escolta de archeiros. Levaram-no para a prisão académica. Saiu de lá seis meses depois, graças aos muitos pedidos dos amigos do pai e dos parentes de D. Rita Preciosa.

Simão perdeu o ano escolar e foi para Viseu. O corregedor não o quis ver e ameaçou expulsá-lo de casa. A mãe pediu pelo filho, mais por dever do que por amor. E conseguiu que ele se sentasse à mesa com a família.

Em três meses, houve uma mudança maravilhosa nos costumes de Simão. Deixou de lado as más companhias. Saía de casa poucas vezes, sozinho ou com a irmã mais nova, a sua preferida. O campo, as árvores e os sítios mais escuros e solitários eram o seu divertimento. Nas noites doces de verão, ficava lá fora até ao nascer do dia. As pessoas que o viam assim admiravam o seu ar sonhador. Admiravam também o modo como ele se afastava da vida comum. Em casa, fechava-se no quarto. Só saía quando o chamavam para a mesa.

D. Rita estava espantada com a transformação. O marido também ficou convencido dela. Ao fim de cinco meses, deixou que o filho lhe falasse.

Simão Botelho amava. Aí está uma única palavra que explica tudo. Explica aquilo que parecia uma mudança absurda num rapaz de dezassete anos.

Simão amava uma vizinha, uma menina de quinze anos. Era uma rica herdeira, razoavelmente bonita e de boa família. Viu-a pela primeira vez da janela do seu quarto, e foi para a amar para sempre. Ela também não escapou à ferida que fez no coração do vizinho. Amou-o também, e com mais seriedade do que é costume na sua idade.

Os poetas cansam-nos a paciência quando falam do amor da mulher aos quinze anos. Dizem que é uma paixão perigosa, única e que não muda. Alguns autores de romances dizem o mesmo. Enganam-se uns e outros. O amor dos quinze anos é uma brincadeira. É a última forma do amor às bonecas. É como a tentativa do passarinho que experimenta voar fora do ninho. Tem sempre os olhos postos na mãe, que o chama do ramo mais próximo. A menina de quinze anos sabe o que é amar muito? Sabe tanto como o passarinho sabe o que é voar para longe.

Teresa de Albuquerque devia ser, talvez, uma exceção no seu amor.

O pai de Teresa odiava o magistrado e a sua família por causa de processos em tribunal. Domingos Botelho tinha-lhe dado sentenças contra. Além disso, no ano anterior, dois criados de Tadeu de Albuquerque tinham sido feridos na famosa pancadaria da fonte. Por isso é evidente que o amor de Teresa era verdadeiro e forte. Ela recusava obedecer ao justo rancor do pai e sacrificar-se por ele.

E este amor era muito discreto e cuidadoso. Viram-se e falaram durante três meses sem a vizinhança dar por isso. Nem as duas famílias desconfiaram. O futuro que os dois prometiam um ao outro era o mais honesto. Ele ia formar-se para a poder sustentar, se não tivessem outros meios. Ela esperava que o velho pai morresse. Então, já dona de si mesma, dar-lhe-ia o coração e a sua grande fortuna. É espantoso tanto juízo no carácter de Simão Botelho! E é espantoso em Teresa, que provavelmente não sabia nada das coisas materiais da vida, como é uma fortuna!

Na véspera da sua ida para Coimbra, Simão Botelho estava a despedir-se da menina, que suspirava. De repente, ela foi arrancada da janela. O moço, fora de si, ouviu gemidos daquela voz. Um momento antes, a mesma voz soluçava, comovida por lágrimas de saudade. O sangue subiu-lhe à cabeça. Contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades da jaula. Não podia ajudá-la, e por isso teve vontade de se matar. Passou o resto daquela noite em raivas e em planos de vingança. Com a manhã, o sangue arrefeceu-lhe. A esperança voltou, e com ela os cálculos.

Quando o chamaram para partir para Coimbra, saltou da cama com a cara muito transformada. A mãe soube do seu rosto amargurado e foi ao quarto fazer-lhe perguntas. Queria convencê-lo a não viajar enquanto estivesse com febre. Mas Simão, entre mil planos, tinha escolhido o melhor. Ia para Coimbra, esperava lá notícias de Teresa e depois vinha a Viseu às escondidas para falar com ela. Pensou com juízo que, se ficasse, tornaria pior a situação de Teresa.

O académico desceu ao pátio. Antes, abraçou a mãe e as irmãs e beijou a mão do pai. O pai tinha guardado para essa hora um aviso severo. Garantiu-lhe que o abandonaria de vez se ele voltasse a fazer novas extravagâncias. Quando Simão metia o pé no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga. Ela estendia-lhe a mão aberta, como quem pede esmola. E, na palma da mão, tinha um pequeno papel. O moço assustou-se. A poucos passos de casa, leu estas linhas:

«Meu pai diz que me vai fechar num convento, por tua causa. Sofrerei tudo por amor de ti. Não te esqueças de mim, e encontrar-me-ás no convento, ou no céu. Serei sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá te irão dar as minhas cartas. Na primeira, dir-te-ei em que nome hás de responder à tua pobre Teresa.»

A mudança do estudante maravilhou a academia. Se não o viam nas aulas, não o viam em parte nenhuma. Das antigas amizades restavam-lhe só os colegas sensatos. Esses aconselhavam-no bem. Tinham-no visitado na prisão durante os seis meses. Deram-lhe ânimo e ajuda, que o pai não lhe dava e a mãe mal lhe dava. Simão estudava com paixão. Era como se já estivesse a construir as bases da fama futura. Queria uma posição merecida, que chegasse para sustentar a esposa com dignidade. Não contava o segredo a ninguém, só às cartas que mandava a Teresa. Eram cartas longas, onde o espírito descansava do cansaço do estudo. A menina apaixonada escrevia-lhe muitas vezes. Já dizia que a ameaça do convento tinha sido só um susto. Já não tinha medo dele, porque o pai não podia viver sem ela.

Isto aumentou ainda mais o seu amor ao estudo. Os professores chamaram Simão a responder sobre pontos difíceis das matérias do primeiro ano. Respondeu tão bem que professores e colegas o consideraram o primeiro prémio.

Nesse tempo, Manuel Botelho era cadete em Bragança e estava destacado no Porto. Pediu licença para estudar Matemática na universidade. A notícia da mudança do irmão deu-lhe ânimo. Foi viver com ele. Encontrou-o sossegado, mas perdido numa ideia que o tornava solitário e difícil de outra maneira. Viveram juntos pouco tempo. A causa da separação foi um amor infeliz de Manuel Botelho. Apaixonou-se por uma açoriana casada com um estudante. A esposa apaixonada perdeu-se nas ilusões do amante cego. Deixou o marido e fugiu com ele para Lisboa, e daí para Espanha. Noutra parte desta narrativa, contarei o fim deste episódio.

No mês de Fevereiro de 1803, Simão Botelho recebeu uma carta de Teresa. Foi uma surpresa muito dolorosa para o académico. O amor tinha-o convertido ao dever, à honra, à sociedade e a Deus. No capítulo seguinte, conto em pormenor o acontecimento que obrigou a filha de Tadeu de Albuquerque a escrever aquela carta.

### III.

O pai de Teresa não se importaria com o «sangue impuro» do corregedor. O problema era outro: um casamento entre os filhos não combinava com o ódio de um e o desprezo do outro. O magistrado troçava do rancor do vizinho. E o vizinho acusava o magistrado de vender a justiça. Domingos Botelho sabia desta vingança insultuosa do vizinho. Fingia que as calúnias não o atingiam. Mas, de dia para dia, crescia-lhe a raiva. É de crer que, sem as razões de família, ele sofreria menos. Desabafaria pela boca de um bacamarte, a arma preferida dos Botelhos Correias de Mesquita. Reconciliar os dois vizinhos era uma obra sobre-humana.

Um dia, Rita, a filha mais nova, estava à janela do quarto de Simão. Viu a vizinha encostada aos vidros, com a testa apoiada nas mãos. Teresa sabia que aquela menina era a irmã mais querida de Simão. Era também a que mais se parecia com ele. Teresa deixou a sua indiferença fingida. Respondeu ao olhar de Rita com um gesto da mão e um sorriso. A filha do corregedor também sorriu. Mas fugiu logo da janela, porque a mãe tinha proibido as filhas de trocar olhares com alguém daquela casa.

No dia seguinte, à mesma hora, Rita voltou à janela. Vinha atraída pela simpatia daquele sorriso e daquele gesto. Lá viu Teresa com os olhos postos na sua janela, como se estivesse à espera dela. Sorriram com cuidado e afastaram-se ao mesmo tempo do parapeito das janelas. E assim, as duas de pé, dentro dos quartos, ficaram a olhar uma para a outra. A rua era estreita, por isso podiam ouvir-se a falar baixo. Teresa perguntou a Rita se era sua amiga, mais com o movimento dos lábios do que com palavras. A menina disse que sim com a cabeça e fugiu, a acenar-lhe um adeus. Estes encontros rápidos repetiram-se durante vários dias seguidos. Por fim, as duas perderam o maior medo e atreveram-se a conversar a meia voz. Teresa falava de Simão. Contava à menina de onze anos o segredo do seu amor. Dizia-lhe que um dia ela ainda havia de ser sua irmã. E pedia-lhe muito que não dissesse nada à família.

Numa dessas conversas, Rita distraiu-se e levantou tanto a voz que uma irmã a ouviu. A irmã foi logo contar ao pai. O corregedor chamou Rita e, com ameaças, obrigou-a a contar tudo o que tinha ouvido à vizinha. A raiva dele foi tão grande que não quis ouvir a esposa, que tinha vindo assustada com os gritos. Correu ao quarto de Simão e ainda viu Teresa à janela.

—Olé!—disse ele à menina pálida.—Não tenha o atrevimento de pôr os olhos em pessoa da minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um genro digno do seu pai.

Teresa não ouviu o fim desta frase brutal. Tinha fugido, atordoada e envergonhada. Mas o magistrado, furioso, ficou a gritar no quarto. Nesse momento, Tadeu de Albuquerque apareceu a uma janela. A raiva do corregedor dobrou. Os insultos, guardados durante muito tempo, saíram como uma torrente e bateram na cara do vizinho. O vizinho não se atreveu a responder.

Tadeu fez perguntas à filha. Acreditou que a fúria de Domingos Botelho tinha uma causa inocente. As duas meninas estavam só a conversar por gestos sobre coisas da sua idade. O velho desculpou a criancice de Teresa. Mas avisou-a de que não voltasse àquela janela.

O fidalgo era bravo por natureza. Esta brandura tem uma explicação: ele queria casar em breve a filha com o primo dela, Baltasar Coutinho, de Castro Daire. Baltasar era senhor de uma casa e era tão nobre como eles, da mesma linhagem. O velho achava-se um grande conhecedor do coração das mulheres. Pensava que a brandura era o meio mais seguro de fazer a filha esquecer aquele amor infantil por Simão. Tinha uma regra: aos quinze anos, o amor não é forte bastante para sobreviver a seis meses de ausência. O fidalgo não pensava mal, mas o erro existia. As exceções sempre enganaram os pensadores mais sensatos, tanto na filosofia como na ciência. Não admira que Tadeu de Albuquerque se enganasse em coisas de amor e de coração de mulher. Os corações das mulheres variam tanto e de modo tão caprichoso! Não sei se alguma regra nos pode guiar, a não ser esta: «Em cada mulher, há quatro mulheres incompreensíveis, que pensam à vez como hão de desmentir umas às outras.» Esta regra é a mais segura, mas não é infalível. Aí está Teresa, que parece ser única em si mesma. Dirão que as outras três da regra não podem viver com a quarta aos quinze anos? Também penso assim. Mas a firmeza e a constância daquele amor têm uma causa que não depende do coração. Teresa não vai à sociedade. Não tem todas as noites um altar na sala. Nunca provou o incenso de outros galãs. Ainda não teve uma hora para comparar duas imagens. Uma é a imagem do amado, apagada pela ausência. A outra é a imagem de um admirador presente. Ele tem amor nos olhos que a fitam e amor nas palavras. Essas palavras convencem-na de que há um coração para cada homem e uma só juventude para cada mulher. Imaginem que o fumo de quatro incensórios lhe tonteava a cabeça. Quem me diz que Teresa teria então as quatro mulheres da regra? Não é fácil decidir, nem é preciso. Vamos ao conto.

Tadeu de Albuquerque nunca disse uma palavra sobre Simão Botelho diante da filha. Não o fez antes nem depois do disparate do corregedor. O que fez logo foi chamar a Viseu o sobrinho de Castro Daire. Contou-lhe o seu plano. Queria que ele se portasse diante de Teresa como um verdadeiro apaixonado. Assim, os dois iam apaixonar-se um pelo outro e prometer um bom futuro ao casamento.

Do lado de Baltasar Coutinho, a paixão acendeu-se depressa. Com a mesma rapidez, o coração de Teresa gelou de terror e de nojo. O morgado de Castro Daire pensou que a frieza da prima era modéstia, inocência e timidez. Ficou encantado com a delicadeza pura daquela alma. E saboreou antes do tempo o prazer de uma conquista lenta, mas segura. É verdade que Baltasar nunca tinha falado de modo claro, para Teresa lhe dar uma resposta decisiva. Mas um dia, empurrado pelo tio, o feliz noivo atreveu-se a falar assim à menina melancólica:

—É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a ouvir-me?

—Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.

A indiferença aborrecida desta resposta abalou um pouco as certezas do fidalgo. Já não acreditava tanto na inocência, na modéstia e na timidez da prima. Mesmo assim, naquele momento, quis convencer-se de que a boa vontade não se podia mostrar de outro modo. E continuou:

—Penso que os nossos corações estão unidos. Agora é preciso que as nossas casas se unam.

Teresa ficou pálida e baixou os olhos.

—Disse-lhe alguma coisa desagradável?!—continuou Baltasar, perturbado com a cara transformada de Teresa.

—Disse-me uma coisa que é impossível—respondeu ela, calma.—O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa. Nem me lembrei de que o primo pensava nisso.

—Quer dizer que não gosta de mim, prima Teresa?—interrompeu o morgado, envergonhado.

—Não, senhor. Já lhe disse que o estimo muito. Por isso mesmo, não devo ser esposa de um amigo que não posso amar. A infelicidade não seria só minha…

—Muito bem… Posso saber—perguntou o primo, com um sorriso falso—quem é que me disputa o coração da minha prima?

—Que ganha em sabê-lo?

—Ganho, pelo menos, saber que a minha prima ama outro homem… É verdade?

—É.

—E com tanta paixão que desobedece ao seu pai?

—Não desobedeço. O coração é mais forte do que a vontade obediente de uma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade do meu pai. Mas eu não disse ao primo Baltasar que casava. Disse-lhe só que amava.

—Sabe, prima, estou espantado com o seu modo de falar!… Quem diria que os seus dezasseis anos tinham tantas palavras!…

—Não são só palavras, primo—respondeu Teresa com seriedade.—São sentimentos que merecem a sua estima, porque são verdadeiros. Se eu lhe mentisse, o primo pensaria melhor de mim?

—Não, prima Teresa. Fez bem em dizer a verdade, e em dizê-la toda. Ora, diga-me: não se importa de dizer quem é o mortal feliz que prefere?

—Que lhe importa saber isso?

—Importa muito, prima. Todos temos a nossa vaidade. Eu gostaria muito de ser vencido por alguém com méritos que eu não tenho aos seus olhos. Faz o favor de me contar o seu segredo? Conte-mo como o contaria ao seu primo Baltasar, se o considerasse seu amigo íntimo.

—Como amigo íntimo é que eu já não o posso considerar…—respondeu Teresa, a sorrir e a separar as sílabas das palavras, como ele fazia.

—Então nem como amigo me quer?!

—O primo não me perdoa a sinceridade que tive. De hoje em diante, vai ser meu inimigo.

—Pelo contrário…—disse ele, com uma ironia mal escondida.—Muito pelo contrário… Hei de provar-lhe que sou seu amigo, se um dia a vir casada com algum miserável indigno de si.

—Casada!…—interrompeu ela. Mas Baltasar cortou-lhe logo a resposta:

—Casada com algum famoso bêbedo ou jogador de pau, valentão de aguadeiros. Um cavalheiro distinto, que passa os anos de estudo fechado nas cadeias de Coimbra…

É evidente que Baltasar Coutinho conhecia o segredo de Teresa. O tio, naturalmente, tinha-lhe contado a criancice da prima. Talvez lha tivesse contado antes de a escolher para esposa dele.

Teresa ouviu o tom sarcástico daquelas palavras. Levantou-se e respondeu com orgulho:

—Não tem mais nada para me dizer, primo Baltasar?

—Tenho, prima. Faça o favor de se sentar mais um pouco. Não pense agora que está a falar com o namorado infeliz. Pense que está a falar com o seu parente mais próximo e o seu amigo mais sincero. Sou o guarda mais decidido da sua dignidade e da sua fortuna. Eu sabia que a prima tinha conversado algumas vezes da janela com o filho do corregedor. Fê-lo contra a vontade clara do seu pai. Não dei importância ao caso e pensei que era uma criancice. Há dois anos, quando eu fazia o meu último ano em Coimbra, conheci muito bem Simão Botelho. Quando cheguei e me contaram o seu afeto pelo académico, fiquei espantado com a boa-fé da priminha. Depois percebi que a sua própria inocência devia ser o seu anjo da guarda. Agora, como seu amigo, tenho pena de a ver ainda enfeitiçada pela maldade do seu vizinho. Não se lembra de ver Simão Botelho no meio da gente mais baixa desta terra? Não viu os criados da sua casa com as cabeças partidas por esse varredor de feiras? Não ouviu dizer o que ele fazia em Coimbra? Andava pelas ruas, cheio de vinho, armado como um salteador de estradas. E gritava à canalha que era preciso fazer guerra aos nobres, aos reis e à religião dos nossos pais. A prima não sabia disto?

—Não sabia uma parte, e não me aflige sabê-lo. Desde que conheço Simão, não sei que ele tenha dado o mínimo desgosto à família. Nem ouço falar mal dele.

—E por isso está convencida de que Simão deve ao seu amor a mudança de costumes?

—Não sei, nem penso nisso—respondeu Teresa, aborrecida.

—Não se zangue, prima. Vou dizer-lhe as minhas últimas palavras. Enquanto eu viver, hei de trabalhar para a salvar das garras de Simão Botelho. Se o seu pai lhe faltar, fico eu. Se as leis não a defenderem dos ataques do seu demónio, eu mostro uma coisa ao valentão. A vitória sobre os aguadeiros não o livra de ser posto a pontapé fora da casa do meu tio Tadeu de Albuquerque.

—Então o primo quer governar-me?—interrompeu ela, muito irritada.

—Quero guiá-la, enquanto a sua razão precisar de ajuda. Tenha juízo, e o seu destino ser-me-á indiferente. Não a aborreço mais, prima Teresa.

Baltasar Coutinho foi logo procurar o tio e contou-lhe o essencial da conversa. Tadeu ficou espantado com a coragem da filha. Sentiu-se ferido no coração e nos seus direitos de pai. Correu ao quarto dela, disposto a bater-lhe. Baltasar segurou-o. Explicou-lhe que a violência ia estragar tudo, porque era de esperar que Teresa fugisse de casa. O pai travou a raiva e pensou. Horas depois, chamou a filha e mandou-a sentar ao lado dele. Falou-lhe com calma e com um ar sereno. Disse que a sua vontade era casá-la com o primo. Mas já sabia que a filha não queria. Acrescentou que não a ia obrigar. Mas também não ia deixar que ela desse o coração ao filho do seu maior inimigo. Isso seria pisar a honra do pai. Disse ainda que já estava a escorregar para a sepultura. E desceria mais depressa se perdesse o amor da filha. Já a considerava morta. Por fim, perguntou a Teresa se recusava entrar num convento. Lá podia esperar que o pai morresse. Depois, seria infeliz à sua vontade.

Teresa respondeu, a chorar, que entraria num convento, se essa era a vontade do pai. Mas pediu-lhe que não se privasse da sua companhia. E que não a privasse a ela do seu carinho. Não devia ter medo de que a filha fizesse alguma ação indigna. Também não devia ter medo de que lhe desobedecesse quando obedecer era uma virtude. Prometeu considerar-se morta para todos os homens, menos para o pai.

Tadeu ouviu-a e não lhe respondeu.

### IV.

O coração de Teresa estava a mentir. Vão lá pedir sinceridade ao coração!

Para quem sabe entender, a conversa do capítulo anterior mostrou quem era a filha de Tadeu de Albuquerque. É uma mulher varonil. Tem força de carácter e um orgulho fortalecido pelo amor. Está livre dos preconceitos comuns. Isto, se for um preconceito uma filha entregar a sua vontade às vontades imprudentes e caprichosas do pai. A boa gente diz que não é. E eu estou sempre de acordo com a boa gente. Não será uma calúnia dizer que ela tem um pouco de astúcia, ou de hipocrisia, se quiserem. Seria mais correto dizer perspicácia. Teresa adivinha uma coisa: a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida. E os melhores fins alcançam-se por atalhos, onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes truques são raros na idade de Teresa, sem experiência. Mas a mulher do romance quase nunca é vulgar. E esta, de quem falam as minhas notas, não o era. Para eu acreditar na sua distinção, basta-me a fama que ela veio a ganhar por causa da desgraça.

Da carta que ela escreveu a Simão Botelho, a contar estas cenas, a crítica tira uma conclusão. A menina de Viseu estava a ganhar tempo com o pai. Tinha os olhos no futuro. Não queria passar pelo desgosto do convento, nem romper com o velho numa desobediência clara. Na história que contou ao académico, ela não falou das ameaças do primo Baltasar. Se lhe contasse essa parte, o moço vinha logo de Coimbra. Ele tinha orgulho de sobra e ferocidade bastante para o defender.

Mas esta ainda não é a carta que surpreendeu Simão Botelho.

O céu de Teresa parecia calmo. O pai não falava de convento nem de casamento. Baltasar Coutinho tinha voltado à sua casa de Castro Daire. A menina, tranquila, mandava todas as semanas estas boas notícias a Simão. E ele juntava as alegrias do coração às riquezas do espírito. Estudava sem parar. Passava as noites acordado, a construir o edifício da sua glória futura.

Ao nascer do dia, num domingo de Junho de 1803, Teresa foi chamada para ir com o pai à primeira missa da igreja da paróquia. A menina vestiu-se, assustada. Encontrou o velho na antecâmara, e ele recebeu-a com muito carinho. Perguntou-lhe se ela se tinha levantado bem disposta para dar ao pai um resto de velhice feliz. O silêncio de Teresa fazia uma pergunta.

—Hoje vais dar a mão de esposa ao teu primo Baltasar, minha filha. É preciso que te deixes levar cegamente pela mão do teu pai. Quando deres este passo difícil, vais perceber uma coisa. A tua felicidade é das que precisam de ser impostas pela força. Mas repara, minha querida filha: a violência de um pai é sempre amor. Também foi amor a minha paciência e a minha brandura contigo. Outro pai teria esmagado a tua desobediência com maus-tratos e com os rigores do convento. Talvez até te tirasse parte da tua grande fortuna. Eu não. Esperei que o tempo te clareasse a razão. E estou feliz por te ver livre do feitiço diabólico do maldito que acordou o teu coração inocente. Não te perguntei outra vez a tua opinião sobre este casamento. Tive medo de que a reflexão fizesse mal ao teu fervor de boa filha. Com esse fervor, vais abraçar o teu pai e agradecer-lhe o juízo com que respeitou o teu génio. Ele esperou sempre pela hora de te encontrar digna do seu amor.

Teresa não tirou os olhos do pai. Mas estava tão distraída que mal ouviu as primeiras palavras. E das últimas não ouviu nada.

—Não me respondes, Teresa?!—disse Tadeu, pegando-lhe nas mãos com carinho.

—Que hei de eu responder-lhe, meu pai?—gaguejou ela.

—Dás-me o que te peço? Enches de alegria os poucos dias que me restam?

—E o pai vai ser feliz com o meu sacrifício?

—Não digas sacrifício, Teresa… Amanhã, a esta hora, vais ver a transformação que se fez na tua alma. O teu primo é um conjunto de todas as virtudes. Até é um rapaz bonito! Como se a riqueza, o saber e as virtudes não bastassem para fazer um marido excelente.

—E ele quer-me, depois de eu o ter recusado?—disse ela, com uma ironia amarga.

—Ele está apaixonado, filha!… E tem bastante confiança em si para acreditar que tu o vais amar muito!…

—E não é mais certo que eu o odeie sempre?! Agora mesmo o detesto como nunca pensei que se pudesse detestar! Meu pai…—continuou ela, a chorar, com as mãos levantadas—mate-me, mas não me obrigue a casar com o meu primo! A violência é inútil, porque eu não caso!…

Tadeu mudou de cara e disse, furioso:

—Hás de casar! Quero que cases! Quero!… Se não casares, serás amaldiçoada para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para o teu primo! Nenhum infame há de pôr aqui um pé nos tapetes dos meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha. Não podes herdar apelidos honrados. Esses apelidos foram insultados pela primeira vez pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto. E espera que te arranquem daí para outro, onde não verás um raio de sol.

Teresa levantou-se sem lágrimas e entrou calmamente no seu quarto. Tadeu de Albuquerque foi ter com o sobrinho e disse-lhe:

—Não te posso dar a minha filha, porque já não tenho filha. A miserável a quem dei este nome perdeu-se para nós e para ela.

Na opinião do tio, Baltasar era um conjunto de qualidades excelentes. Tinha apenas um defeito: não tinha brio nenhum. A sua emboscada de amor tinha falhado. Então o primo de Teresa voltou para a sua terra. Disse ao velho que o ia livrar do cerco em que Simão Botelho tinha o coração da filha. Não aprovou a ideia de a fechar num convento. Explicou que a opinião pública ia inventar suposições vergonhosas. Aconselhou-o a deixá-la ficar em casa e a esperar que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

As razões de Baltasar convenceram o velho. Teresa ficou maravilhada com a calma inesperada do pai. Mas desconfiou desta mudança tão estranha. Escreveu a Simão. Não lhe escondeu nada do que tinha acontecido. Nem sequer, por delicadeza, deixou de fora as ameaças de Baltasar. No fim, contava-lhe as suas suspeitas. Temia alguma nova violência, mais bem preparada.

Quando o académico chegou à parte das ameaças, já não via bem para ler o resto da carta. Tremia de febre, e as veias da testa estavam inchadas e batiam com força. Não era o susto do coração apaixonado. Era o seu carácter orgulhoso que lhe queimava o sangue. A fúria do ódio deu-lhe um primeiro conselho: ir dali a Castro Daire e apunhalar o primo de Teresa na sua própria casa. Com esta ideia, saiu e alugou um cavalo. Depois voltou para casa para se vestir para a viagem. Já pronto, cada minuto de espera deixava-o em fúria. O cavalo demorou meia hora. Nesse tempo, o seu anjo bom veio falar-lhe. Vinha vestido com os enfeites com que ele vestia Teresa na imaginação. Trouxe-lhe saudades daqueles tempos. Trouxe-lhe saudades até das horas daquele mesmo dia. Nessas horas, ele sonhava com a felicidade que o amor lhe prometia, se a procurasse no caminho do trabalho e da honra. Olhou para os seus livros com muito carinho. Era como se cada um tivesse uma página da história do seu coração. Nunca tinha lido nenhuma daquelas páginas sem a imagem de Teresa lhe aparecer. Ela dava-lhe força para vencer o tédio do estudo contínuo. E dava-lhe força para vencer os impulsos de um génio inquieto, ansioso por emoções fortes.

«E há de tudo acabar assim?»—pensava ele, com a cara entre as mãos, encostado à sua mesa de estudo.—«Ainda há pouco eu era tão feliz!…»

«Feliz!»—repetiu ele, levantando-se de repente.—«Quem pode ser feliz com a desonra de uma ameaça sem castigo!… Mas eu perco-a! Nunca mais hei de vê-la… Fugirei como um assassino. O meu pai será o meu primeiro inimigo. E ela mesma há de ficar horrorizada com a minha vingança… Só ela ouviu a ameaça. Se os insultos do miserável me tivessem rebaixado aos olhos de Teresa, talvez ela não os repetisse…»

Simão Botelho releu a carta duas vezes. À terceira leitura, as bravatas do fidalgo ciumento pareceram-lhe menos ofensivas. O seu orgulho atormentava-o com uma suspeita: talvez tivesse perdido valor aos olhos dela. Mas as últimas linhas desmentiam claramente essa suspeita. Eram expressões ternas. Eram pedidos ao seu amor, como recompensa dos desgostos passados e futuros. Eram visões encantadoras do futuro, novos juramentos de constância e frases sentidas de saudade.

Quando o arrieiro bateu à porta, Simão Botelho já não pensava em matar o homem de Castro Daire. Mas tinha decidido ir a Viseu. Queria entrar de noite, esconder-se e ver Teresa. Faltava-lhe, porém, uma casa de confiança onde se esconder. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arrieiro se conhecia alguma casa em Viseu onde pudesse ficar escondido uma noite ou duas. Precisava de um sítio onde não tivesse medo de ser denunciado. O arrieiro respondeu que tinha um primo ferrador, a um quarto de légua de Viseu. Em Viseu, só conhecia os donos das estalagens. Simão achou bem aproveitar o parentesco do homem. Ali mesmo, deu-lhe de presente uma jaqueta de peles e uma faixa de seda escarlate. Prometeu-lhe coisas de maior valor, se ele o servisse bem num assunto de amor.

No dia seguinte, o académico chegou a casa do ferrador. O arrieiro contou ao seu parente o acordo que tinha feito com o estudante.

Simão Botelho ficou escondido com muito cuidado. No mesmo instante, o arrieiro partiu para Viseu com uma carta. A carta era para uma mendiga que morava no beco mais escondido e difícil da terra. A mendiga fez muitas perguntas sobre a pessoa que mandava a carta. Depois saiu e mandou o mensageiro esperar. Pouco depois, voltou com a resposta, e o arrieiro partiu a galope.

A resposta era um grito de alegria. Teresa respondeu a Simão sem pensar. Disse-lhe que naquela noite se festejavam os anos do pai e que os parentes se juntavam em casa. Disse-lhe também que, às onze horas em ponto, ia ao quintal e lhe abria a porta.

O académico não esperava tanto. O que ele pedia era falar-lhe da rua para a janela do quarto dela. E até isto lhe parecia impossível. Para ele, esse era o maior prazer. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o hálito, talvez abraçá-la, atrever-se a dar-lhe um beijo! Estas esperanças iam muito além das suas ambições modestas e honestas. Por isso, encantavam-no e assustavam-no ao mesmo tempo. Nos corações que estão a estrear-se na comédia humana, o encanto e o susto são sentimentos irmãos.

À hora da partida, Simão tremia. Pedia a si mesmo explicações da sua timidez. Não sabia que esses são os encantos da vida. Os momentos mais angélicos da alma são esses instantes de agitação misteriosa. Acontecem aos mais ricos de coração em todas as estações da vida. E acontecem a todos os homens, pelo menos uma vez.

Às onze horas em ponto, Simão estava encostado à porta do quintal. O arrieiro estava à distância combinada, a segurar o cavalo pela rédea. A música, que vinha das salas mais afastadas, agitava-o. A festa em casa de Tadeu de Albuquerque tinha-o surpreendido. Em três longos anos, nunca tinha ouvido música naquela casa. Se ele soubesse que era o dia de anos de Teresa, espantar-se-ia menos. Não estranharia tanto a alegria daquelas salas, sempre fechadas, como em dias de luto. Simão imaginou, como um louco, as fantasias que voam à volta de uma imaginação apaixonada. Umas são negras, outras são claras. Quando é o amor que as inventa, as ilusões belas e as horríveis não têm limite razoável. Simão Botelho, com o ouvido colado à fechadura, ouvia apenas o som das flautas e as batidas do coração assustado.

### Glossário

- **fidalgo**: pessoa nobre.
- **juiz de fora**: juiz enviado pelo rei para uma vila ou cidade.
- **dama do paço**: senhora nobre que servia a rainha no palácio.
- **ler no desembargo do paço**: fazer, em Lisboa, a prova que abria a carreira de juiz.
- **liteira**: cadeira fechada levada por mulas ou por homens, para viajar.
- **luneta**: lente com cabo, que as senhoras usavam para ver melhor.
- **pedra de armas / brasão**: símbolo de uma família nobre, esculpido na casa.
- **corregedor**: juiz importante que governava a justiça de uma região.
- **bacamarte**: arma de fogo antiga, de cano curto e largo.
- **chafariz**: fonte pública com água.
- **fueiro**: pau comprido que se põe nos lados de um carro de bois.
- **verdeais**: guardas da universidade de Coimbra.
- **bacharel**: pessoa que acabou o curso na universidade.
- **mesada**: dinheiro que os pais mandam ao filho todos os meses.
- **cadete**: jovem que se prepara para ser oficial do exército.
- **aperrar (as pistolas)**: preparar as pistolas para disparar.
- **jacobino**: revolucionário com ideias muito radicais, como os da Revolução Francesa.
- **morgado**: herdeiro principal das terras de uma família nobre.
- **jogador de pau**: homem que luta com um pau comprido, como desporto ou em brigas.
- **varredor de feiras**: homem que arranja brigas nas feiras e bate em toda a gente.
- **apelidos**: nomes de família.
- **mulher varonil**: mulher forte e corajosa.
- **galã**: homem que faz a corte a uma senhora.
- **incensório**: vaso onde se queima incenso; aqui, os elogios dos admiradores.
- **brio**: sentimento de honra e de orgulho.
- **arrieiro**: homem que aluga cavalos e mulas e acompanha os viajantes.
- **ferrador**: homem que põe ferraduras nos cavalos e trata os animais.
- **estalagem**: casa onde os viajantes podem comer e dormir, pagando.
- **mendiga**: mulher que vive de pedir esmola.
- **quintal**: jardim ou terreno atrás da casa.

## V.

Baltasar Coutinho estava na sala e fingia, por vingança, uma grande indiferença pela prima. As irmãs do fidalgo e as outras parentes da casa não deixavam Teresa respirar. Novas e velhas, todas ao mesmo tempo, repetiam o mesmo conselho. Diziam-lhe que fizesse as pazes com o primo. Diziam-lhe que desse ao pai a alegria que o pobre velho tanto pedia a Deus, antes de fechar os olhos. Teresa respondia que não queria mal ao primo. Nem sequer estava magoada com ele. Era sua amiga, e havia de o ser sempre, enquanto ele lhe deixasse o coração livre.

O velho esperava muito daquela noite de festa. Alguns parentes, que se julgavam prudentes, tinham-lhe dado um conselho. Seria bom alegrar a filha com os prazeres próprios da sua idade. Assim, ela ia espalhar o espírito, agora preso a uma só ideia, por vários divertimentos. Nesses divertimentos, a vaidade natural ocupa a cabeça. E a força do amor contrariado vai enfraquecendo pouco a pouco. Aconselharam-lhe também festas frequentes, umas em sua casa, outras em casa dos parentes. Desta maneira, Teresa ia mostrar-se a muitas pessoas e ser cortejada por todos. E ia dar menos valor ao único homem com quem falava e que julgava superior a todos. O fidalgo aceitou, mas com dificuldade. Tinha lá o seu próprio sistema para julgar as mulheres. Além disso, tinha vivido trinta anos de vida libertina e cara. E agora estava a gozar a poupança e o sossego. Os anos de Teresa eram festejados com barulho pela primeira vez. A morgada viu então o que era o minuete da corte. Viu também certos jogos de prendas. Naquele tempo, esses jogos alegravam os intervalos da dança, sem cansar o corpo nem ofender a moral.

Mas Teresa estava tão agitada que não partilhava o prazer dos convidados. Desde que bateram as dez horas daquela noite, a rainha da festa parecia muito distante. Senhoras e homens competiam em elogios, mas ela não os ouvia. Baltasar Coutinho reparou na inquietação da prima. E teve a modéstia de imaginar que ela estava ofendida com a indiferença dele. O morgado de Castro Daire era generoso ao ponto de perdoar. Pôs um ar grave e melancólico e foi ter com Teresa. Pediu-lhe desculpa da sua frieza. Disse que era uma frieza como a das montanhas, que têm vulcões por dentro e neve por fora. Teresa teve a sinceridade de responder que não tinha reparado na frieza do primo. E chamou uma menina para junto dela, para a montanha não se abrir em vulcões. Pouco depois, levantou-se e saiu da sala.

Eram dez horas e três quartos. Teresa correu ao fundo do quintal e abriu a porta. Como não viu ninguém, voltou a correr para a sala. Mas, no momento em que subia a escada que ligava o jardim à casa, Baltasar Coutinho chegou a uma das janelas sobre o jardim. Andava a espiá-la desde que ela saíra da sala. Estava bem longe de imaginar que a via. Retirou-se e entrou na sala ao mesmo tempo que Teresa, mas por outra porta. Passados alguns minutos, a menina saiu outra vez, e o primo também. Quando passou pelo patamar da escada, Teresa ouviu ao longe o barulho de um cavalo. Baltasar também o ouviu. Reparou que a prima levava uma capa ou um xaile a cobri-la toda. Tinha medo de ser vista e reconhecida pelo branco do vestido. O de Castro Daire deu um passo atrás, para não ser visto. Mas Teresa, num olhar rápido e cheio de medo, ainda viu um vulto a retirar-se. Assustou-se e voltou atrás para largar a capa. Entrou na sala ofegante de cansaço e pálida de medo.

—Que tens, minha filha?—perguntou-lhe o pai.—Já saíste duas vezes da sala e vens tão agitada! Sentes-te mal, Teresa?

—Tenho uma dor. Preciso de ir respirar de vez em quando… Não é nada, meu pai.

Tadeu acreditou e disse a toda a gente que a filha tinha uma dor. Só não o disse ao sobrinho, porque não o encontrou. Soube que ele tinha saído.

Teresa também reparou que o primo não estava. Fingiu que o ia procurar, e o velho gostou muito dessa ideia. Ela desceu ao jardim e correu à porta, onde Simão a esperava. Abriu-a e, com a voz cortada pela ansiedade, disse apenas:

—Vai-te embora. Vem amanhã às mesmas horas… Vai, vai!

Enquanto ouvia isto, Simão tinha os olhos postos num vulto. O vulto aproximava-se dele, encostado ao muro do quintal. O arrieiro tinha-o visto primeiro e fizera um sinal. Depois prendera as rédeas do cavalo entre umas pedras, para ficar com as mãos livres. Assim podia ajudar, se o estudante não conseguisse resolver o caso sozinho com o inimigo.

Simão Botelho não saiu do lugar. Baltasar Coutinho parou a seis passos de distância. O arrieiro tinha avançado devagar até meio caminho do patrão. Mas Simão disse-lhe que não se aproximasse. Depois caminhou para o vulto, aperrou duas pistolas e disse-lhe:

—Isto aqui não é caminho. Que quer?

O fidalgo não respondeu.

—Parece-me que lhe abro a boca com uma bala!—continuou Simão.

—Que lhe importa a si quem está aqui?!—disse Baltasar.—Se eu tiver um segredo, como o senhor parece ter o seu nestes sítios, sou obrigado a confessar-lho?!

Simão pensou um pouco e respondeu:

—Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família e uma só mulher.

—Estão nessa casa mais de quarenta mulheres esta noite—respondeu o primo de Teresa.—Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.

—Quem é o senhor?—perguntou o filho do corregedor, com arrogância.

—Não conheço a pessoa que me faz perguntas, nem quero conhecer. Fiquemos cada um com o nosso segredo. Boas noites.

Baltasar Coutinho voltou para trás, a dizer para si mesmo: «Que pode fazer uma espada contra dois homens e duas pistolas?»

Simão Botelho montou a cavalo e partiu para casa do ferrador que o hospedava.

O sobrinho de Tadeu de Albuquerque entrou na sala sem mostrar a mais pequena alteração. Viu que Teresa o observava de lado. E soube fingir tão bem que a sossegou. A pobre menina estava cansada de tantas emoções. Viu com prazer a primeira família levantar-se para sair. As outras famílias seguiram o exemplo. Ficaram só o de Castro Daire e as irmãs, que estavam hospedados em casa do tio. Tencionavam ficar oito dias em Viseu.

Teresa passou o resto da noite acordada, a escrever a Simão. Contou-lhe em pormenor a história dos seus medos. Pediu-lhe perdão por não o ter avisado do baile. Estava louca de alegria com a vinda dele e esqueceu-se. Quanto ao plano de se encontrarem na noite seguinte, a carta não mudava nada. Isto espantou o académico. Para ele, o vulto era Baltasar Coutinho. E o pai de Teresa devia ter sido avisado naquela mesma noite.

Simão respondeu e contou a história do encontro com o homem de capa. Mas teve medo de assustar Teresa e de estragar o encontro. Por isso, escreveu uma nova carta. Nela não se via medo de ser atacado, nem receio de manchar a fama dela. Simão Botelho achava que era assim que devia portar-se um amante corajoso.

O estudante passou aquele dia a contar as longas horas. Às vezes, pensava nos resultados terríveis que a sua visita imprudente podia ter. Talvez Baltasar Coutinho fosse aquele homem. Talvez estivesse a guardar a vingança para um momento melhor. Mas Simão dizia para si que pensar nisso era mais covardia do que prudência.

O ferrador tinha uma filha de vinte e quatro anos. Tinha um corpo bonito e um rosto belo e triste. Simão reparou que ela ficava muito tempo a olhar para ele. Perguntou-lhe porque é que o olhava com aquele ar melancólico. Mariana corou, sorriu com tristeza e respondeu:

—Não sei o que o meu coração adivinha a respeito de Vossa Senhoria. Alguma desgraça lhe vai acontecer.

—A menina não diria isso—respondeu Simão—sem saber alguma coisa da minha vida.

—Alguma coisa sei…—disse ela.

—Ouviu contar ao arrieiro?

—Não, senhor. É que o meu pai conhece o paizinho de Vossa Senhoria e também conhece o senhor. E ainda há bocadinho ouvi o meu pai a falar com o meu tio, que é o arrieiro que veio com Vossa Senhoria. Dizia que tinha as suas razões para saber que alguma desgraça lhe ia acontecer…

—Porquê?

—Por amor de uma fidalga de Viseu, que tem um primo em Castro Daire.

Simão ficou espantado por o seu segredo ser conhecido de toda a gente. Julgava que era um mistério entre duas famílias. Ia pedir mais pormenores, quando o mestre ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde estavam a conversar. A moça ouviu os passos do pai e saiu depressa por outra porta.

—Com sua licença—disse mestre João.

E, enquanto falava, fechou por dentro as duas portas e sentou-se em cima de uma arca.

—Ora, meu fidalgo—continuou ele. Desceu as mangas arregaçadas da camisa e abotoou-as com dificuldade nos pulsos grossos, como quem conhece as regras da cerimónia.—Há de desculpar eu vir assim em mangas de camisa, mas não encontrei a jaqueta…

—Está muito bem, senhor João—interrompeu o académico.

—Pois, senhor, eu devo um favor ao seu pai, e um favor daquela qualidade. Uma vez armou-se aqui à minha porta uma desordem. Foi por causa de um coice que o macho de um almocreve deu numa égua que eu estava a ferrar. Foi um coice tão bem dado que lhe partiu a perna mesmo aqui, com sua licença.

João da Cruz mostrou na sua própria perna o sítio onde se partira a perna da égua. E continuou:

—Eu tinha ali à mão o martelo. Não me aguentei e preguei-lho na cabeça do macho, que caiu logo por terra. O recoveiro de Carção, que era um valentão, agarrou num bacamarte que trazia no meio da carga. E disparou contra mim, sem mais nem menos. «Ó alma danada!», disse-lhe eu. «Tu vês que o teu macho me aleijou esta égua, que custou vinte peças ao dono, e que eu tenho de pagar. E dás-me um tiro só por eu te atordoar o macho!?»

—E o tiro acertou-lhe?—interrompeu Simão.

—Acertou. Mas saiba Vossa Senhoria que não me matou. Deu-me aqui neste braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou à cabeceira da cama e trago uma clavina. E disparo-lha mesmo no peito. O almocreve caiu como um tordo e não deu um pio. Prenderam-me e fui para Viseu. Já lá estava há três anos, no ano em que o paizinho de Vossa Senhoria veio para corregedor. Andava muita gente a trabalhar contra mim. Todos me diziam que eu ia acabar a espernear na forca. Estava lá na enxovia comigo um preso a cumprir sentença. Disse-me que o senhor corregedor tinha muita devoção às sete dores de Nossa Senhora. Uma vez, ele ia a passar com a família para a missa. E eu disse-lhe: «Senhor corregedor, peço a Vossa Senhoria pelas sete dores de Maria Santíssima, que me mande ir à sua presença, para eu explicar a minha culpa a Vossa Senhoria.» O paizinho de Vossa Senhoria chamou o meirinho geral e mandou tomar nota do meu nome. No outro dia, fui chamado ao senhor corregedor. Contei-lhe tudo e mostrei-lhe as cicatrizes do braço. O seu pai ouviu-me e disse-me: «Vai-te embora, que eu farei o que puder.» O caso é que eu saí absolvido, meu fidalgo. E muita gente dizia que eu havia de ser enforcado à minha porta. Faça favor de me dizer: não devo eu andar com a cara onde o seu paizinho põe os pés!?

—O senhor João tem motivo para lhe estar grato, não há dúvida nenhuma.

—Agora faça favor de ouvir o resto. Antes de ser ferrador, fui criado de farda em casa do fidalgo de Castro Daire, que é o senhor Baltasar. Vossa Senhoria conhece-o? Ora, se conhece!…

—Conheço de nome.

—Foi ele que me emprestou dez moedas de ouro para eu abrir a minha oficina. Mas paguei-lhas, Deus louvado. Há de haver seis meses, ele mandou-me chamar a Viseu. Disse-me que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe fizesse um serviço. «O que Vossa Senhoria quiser, fidalgo.» E vai ele, disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto mexeu cá por dentro comigo. Porque, para falar a verdade, um homem que mata outro num aperto não é um matador de ofício, acho eu. Não é assim?

—Com certeza…—respondeu Simão, que já adivinhava o fim da história.—Quem era o homem que ele queria morto?

—Era Vossa Senhoria… Ó homem!—disse o ferrador, espantado.—O senhor nem sequer mudou de cor!

—Eu nunca mudo de cor, senhor João—disse o académico.

—Estou pasmado!

—E vossemecê não aceitou o trabalho, pelo que vejo—continuou Simão.

—Não, senhor. Logo que ele me disse quem era, a minha vontade era bater-lhe com a cabeça numa esquina.

—E ele disse-lhe a razão por que me mandava matar?

—Não, meu fidalgo. Eu conto-lhe. Na semana seguinte, soube que o senhor Baltasar (raios o partam!) tinha saído de Viseu. Então fui falar com o senhor corregedor e contei-lhe tudo o que se tinha passado. O senhor corregedor ficou um bocadinho a pensar e disse-me uma coisa. Vossa Senhoria há de perdoar eu repetir tal e qual o que o seu pai me disse.

—Diga.

—O seu pai começou a esfregar o nariz e disse-me: «Eu sei o que é isso. Se aquele malandro do meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a prima desse assassino. Pensa o patife que eu deixava o meu filho ligar-se a uma filha de Tadeu de Albuquerque!…» Ainda disse mais coisas que já não me lembram. Mas eu fiquei a saber tudo. Ora aqui tem o que houve. Agora apareceu-me aqui Vossa Senhoria, e a noite passada foi a Viseu. Perdoe a minha confiança, mas Vossa Senhoria foi falar com a tal menina. Eu estive quase a segui-lo. Mas como ia o meu cunhado, que é homem para três, fiquei descansado. Ele contou-me o encontro que Vossa Senhoria teve à porta do quintal da menina. Se lá voltar, senhor Simão, vá preparado para alguma coisa maior. Eu bem sei que Vossa Senhoria não é medroso. Mas de uma traição ninguém se livra. Se quiser que eu vá também, estou às suas ordens. A clavina que deu conta do almocreve ainda ali está. E dá fogo debaixo de água, como diz o outro. Mas, se Vossa Senhoria me deixa dar a minha opinião, o melhor é não andar nessas encamisadas. Se quer casar com ela, vá pedir licença ao seu pai e deixe o resto por minha conta. Basta que ela queira. Num abrir e fechar de olhos, ponho-a em cima de uma égua de chupeta que ali tenho. E o pai e mais o primo ficam a ver navios.

—Obrigado, meu amigo—disse Simão.—Vou aproveitar os seus bons serviços quando forem necessários. Hoje à noite hei de ir a Viseu, como fui a noite passada. Se houver novidade, então veremos o que se há de fazer. Conto consigo, e acredite que tem em mim um amigo.

Mestre João da Cruz não respondeu. Foi dali examinar com cuidado o mecanismo da clavina. Combinou também com o cunhado as precauções necessárias. Enquanto isso, descarregou a arma e voltou a carregá-la com umas balas especiais, a que chamava «amêndoas de pimpões».

Entretanto, Mariana, a filha do ferrador, entrou no sobrado e disse com ternura a Simão Botelho:

—Então é mesmo certo que vai?

—Vou. Porque não hei de ir?

—Pois Nossa Senhora vá na sua companhia—respondeu ela, e saiu logo para esconder as lágrimas.

### Glossário

- **morgada / morgado**: herdeira ou herdeiro principal das terras de uma família nobre.
- **minuete**: dança antiga, lenta e elegante, dançada nas cortes.
- **jogos de prendas**: jogos de salão em que quem perde tem de dar ou fazer alguma coisa.
- **aperrar**: preparar a arma para disparar.
- **sobrado**: o andar de cima de uma casa, feito de tábuas.
- **almocreve / recoveiro**: homem que transporta mercadorias em animais de carga.
- **clavina**: arma de fogo antiga, comprida.
- **enxovia**: cela comum, escura, no rés do chão de uma prisão.
- **encamisadas**: aventuras arriscadas feitas de noite.
- **égua de chupeta**: égua muito rápida e boa.
- **ficar a ver navios**: ficar sem nada, enganado.
- **amêndoas de pimpões**: nome que João dá às suas balas especiais.

## VI.

Às dez horas e meia da noite desse dia, três vultos juntaram-se num sítio pouco frequentado. Era o sítio onde se abria a porta do quintal de Tadeu de Albuquerque. Ficaram ali alguns minutos a discutir e a fazer gestos. Um dos três falava, e os outros ouviam em silêncio, sem responder. Ele dizia a um dos outros dois:

—Não convém que estejas perto desta porta. Se o homem aparecesse aqui morto, as suspeitas caíam logo sobre mim ou sobre o meu tio. Afastem-se um do outro e estejam com o ouvido atento ao barulho do cavalo. Depois apressem o passo até o encontrarem. Os tiros devem ser dados longe daqui.

—Mas…—interrompeu um deles—quem nos diz que ele veio ontem a cavalo e hoje não vem a pé?

—É verdade!—acrescentou o outro.

—Se ele vier a pé, eu aviso-vos. Vocês seguem-no até o terem à mão para um tiro, mas longe daqui. Percebem?—disse Baltasar Coutinho.

—Sim, senhor. Mas e se ele sai de casa do pai e entra sem nos dar tempo?

—Tenho a certeza de que ele não está em casa do pai, já lho disse. Basta de conversa. Vão esconder-se atrás da igreja e não adormeçam.

O grupo separou-se, e Baltasar ficou alguns momentos encostado ao muro. Bateram as dez horas e três quartos. O de Castro Daire encostou o ouvido à porta. Depois retirou-se depressa, porque ouviu o barulho das folhas secas que Teresa vinha a pisar.

Mal Baltasar desapareceu, encostado ao muro, apareceu um vulto do outro lado, a passo rápido. Não parou. Foi direito a todos os pontos onde uma sombra podia esconder um homem. Deu a volta à igreja, que ficava a duzentos passos de distância. Viu os dois vultos de pé, no canto formado pela junção da capela-mor. Sobre esse canto caíam as sombras da torre. O homem olhou para eles ao passar e desconfiou. Não os reconheceu. Mas eles disseram um ao outro, depois de ele desaparecer:

—É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por ele!…

—Que fará ele a esta hora por aqui?!

—Sei lá eu!

—Não desconfias que ele está metido nisto?

—Agora! Se estivesse, era do nosso lado. Não sabes que ele foi mochila do nosso amo?

—E também sei que abriu a loja com dinheiro do nosso amo.

—Então de que tens medo?

—Não é medo. Mas também sei que foi o corregedor que o livrou da forca…

—E que tem isso! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o filho está cá…

—Assim será. Mas não estou muito contente… Ele é um homem dos diabos…

—Deixá-lo ser… As balas entram nele como em qualquer outro…

A conversa continuou com várias suposições. De tudo o que disseram, uma coisa era certíssima: o vulto era João da Cruz, o ferrador.

João tinha andado uns trezentos passos quando os criados de Baltasar ouviram ao longe o barulho de um cavalo. No momento em que eles saíam do esconderijo, João da Cruz saía ao encontro do cavaleiro. Simão aperrou as pistolas, e o arrieiro aperrou uma clavina.

—Não há novidade—disse o ferrador.—Mas saiba Vossa Senhoria que já podia estar caído do cavalo, com quatro zagalotes no peito.

O arrieiro reconheceu o cunhado e disse:

—És tu, João?

—Sou eu. Cheguei primeiro do que tu.

Simão estendeu a mão ao ferrador e disse, comovido:

—Dê cá a sua mão. Quero sentir na minha a mão de um homem honrado.

—É nas ocasiões que se conhecem os homens—respondeu o ferrador.—Ora vamos… Não há tempo para conversas. O senhor doutor tem uma emboscada à espera.

—Tenho?—perguntou Simão.

—Atrás da igreja estão dois homens que eu não consegui reconhecer. Mas era capaz de jurar que são criados do senhor Baltasar. Salte do cavalo, que vai haver sarilho. Eu disse-lhe que não viesse. Mas Vossa Senhoria veio, e agora é andar com a cara para a frente.

—Olhe que eu não tremo, mestre João—disse o filho do corregedor.

—Bem sei que não. Mas, quando virmos o inimigo, logo se vê.

Simão tinha descido do cavalo. O ferrador pegou nas rédeas, recuou alguns passos na rua e foi prender o cavalo à argola da parede de uma estalagem.

Voltou e disse a Simão que o seguisse a ele e ao cunhado, a vinte passos de distância. Se os visse parar perto do quintal de Albuquerque, não devia passar do sítio de onde os visse.

O académico quis protestar contra o plano. Sentia-se humilhado, como alguém protegido por dois homens. Mas o ferrador não aceitou resposta.

—Faça o que eu lhe digo, fidalgo—disse ele com energia.

João da Cruz e o cunhado espreitaram todas as esquinas e chegaram em frente do quintal de Teresa. Viram um vulto a desaparecer na esquina do muro.

—Vamos atrás deles—disse o ferrador.—Foram para o adro da igreja. Entretanto, o doutor chega à porta do quintal e entra. Depois voltamos para lhe guardar a saída.

Com esta ideia, puseram-se a andar depressa. E Simão Botelho caminhou para a porta com as pistolas aperradas.

Em frente do muro do jardim de Teresa havia uma encosta íngreme de cascalho. Mais abaixo, ela ficava plana e transformava-se numa alameda escura e cheia de sombra.

Quando o barulho do cavalo parou, os dois criados de Baltasar lembraram-se das ordens do amo para o caso de Simão vir a pé. Procuraram um bom sítio para o espreitar à saída. Entraram na alameda no momento em que o académico chegava à porta do quintal.

—Agora está seguro—disse um.

—Se não ficar lá dentro…—respondeu o outro, ao vê-lo entrar e ao ver a porta fechar-se.

—Mas além vêm dois homens…—disse o mais assustado, a olhar para a outra entrada da alameda.

—E vêm direitos a nós… Aperra lá a clavina…

—O melhor é retirarmo-nos. Nós estamos à espera de outro, e não destes. Vamos embora daqui…

Este não esperou convencer o companheiro. Desceu a encosta de cascalho. O mais corajoso teve também a prudência de todos os assassinos pagos. Seguiu o assustado e deu-lhe razão, quando ouviu atrás de si os passos rápidos dos perseguidores. Quando dobravam a esquina do quintal, o amo apareceu-lhes à frente e disse:

—Porque fogem vocês, seus covardes?

Os homens pararam, envergonhados, e aperraram os bacamartes.

João da Cruz e o arrieiro apareceram. Baltasar caminhou para eles e gritou:

—Alto aí!

O ferrador disse ao cunhado:

—Fala-lhe tu, que eu não quero que ele me reconheça.

—Quem manda parar?—disse o arrieiro.

—São três clavinas—respondeu Baltasar.

—Vê se os demoras, para dar tempo ao doutor de sair—disse João da Cruz ao ouvido do arrieiro.

—Pois nós cá estamos parados—respondeu o homem de Simão.—Que querem vocês de nós?

—Quero saber o que estão a fazer neste sítio.

—E vocês, que fazem por cá?

—Não aceito perguntas—disse o de Castro Daire. E deu alguns passos hesitantes para a frente.—Quero saber quem são.

Mestre João disse ao ouvido do cunhado:

—Diz-lhe que, se ele der mais um passo, o rebentas.

O arrieiro repetiu a frase, e Baltasar parou.

Um dos criados chamou Baltasar à parte. Disse-lhe que aquele dos dois que não falava parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou e quis tirar a dúvida. Mas o ferrador tinha ouvido as palavras do criado e disse ao cunhado:

—Vem comigo, que eles conhecem-me.

E, dizendo isto, virou as costas ao grupo e caminhou ao longo do quintal de Tadeu de Albuquerque. Os criados de Baltasar ficaram orgulhosos daquela retirada, como se fosse uma derrota certa do inimigo. Apressaram o passo atrás dos supostos fugitivos. O morgado ainda lhes disse que não os seguissem. Mas eles, que pouco antes eram covardes, queriam agora vingar-se. Corriam atrás do inimigo tanto como antes tinham fugido dele.

Simão Botelho tinha ouvido os passos rápidos dos seus homens. Empurrado pelo medo de Teresa, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem eles eram. João da Cruz, já à vista dos perseguidores, falou ao filho do corregedor em tom de brincadeira. Perguntou-lhe se o casamento estava combinado, porque já não havia pano para mangas.

Simão percebeu o perigo. Apertou com força a mão de Teresa e saiu. Queria reconhecer os dois vultos parados à distância. Mas João da Cruz, no tom de quem manda e quer ser obedecido, disse-lhe:

—Vá por onde veio e não olhe para trás.

Simão foi andando até encontrar o cavalo. Montou e esperou pelos seus dois guardas, que o seguiam devagar e com toda a calma. Eles estavam espantados com o desaparecimento repentino dos criados de Baltasar. Tinham medo de alguma emboscada fora da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os homens da emboscada até à estrada. Contou o seu receio a Simão. Disse-lhe que galopasse a toda a velocidade, que ele e o cunhado lá iriam ter. O académico ficou aborrecido com o aviso. Pediu-lhes que não o tivessem em tão pouca conta. E, de propósito, puxou as rédeas para ir devagar, para não obrigar os homens a apressar o passo.

—Vá como quiser—disse mestre João.—Nós vamos por fora do caminho.

Subiram por uma encosta de olivais. Depois desceram escondidos por moitas de giestas, sempre encostados às curvas de um muro paralelo à estrada.

—O atalho passa ali, onde a serra faz aquele cotovelo—disse o ferrador ao cunhado.—Hão de passar ali, ou já passaram. A estrada vai mesmo pela baixa daquele pequeno monte. É dali que os homens lhe vão atirar, escondidos pelos sobreiros. Vamos depressa…

Umas vezes um pouco à vista, outras vezes dobrados à sombra das sebes, chegaram a um valado. Dali ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um ribeiro.

—Já não chegamos a tempo—disse João da Cruz, aflito.—Os homens vão atirar-lhe, porque o cavalo vem a trote muito atrás.

E já corriam sem medo de ser vistos, porque os outros tinham dobrado o monte. A estrada passava no vale desse monte.

—Os homens vão atirar-lhe…—disse o ferrador.

—Gritemos daqui ao doutor que não vá para a frente.

—Já não há tempo… Quer o matem quer não, quando voltarem são nossos.

Já tinham passado o pontilhão e subiam a ladeira quando ouviram dois tiros.

—Depressa!—gritou João da Cruz.—Se mataram o fidalgo, que não vão eles fugir pela estrada.

Chegaram ao terreno plano, sem fôlego e ofegantes, com as clavinas aperradas. Os criados de Baltasar fizeram o contrário do que o ferrador pensava. Voltavam pelo mesmo atalho. Julgavam que os companheiros de Simão iam à frente, a procurar os sítios bons para emboscadas, ou que tinham ficado para trás.

—Aí vêm eles!—disse o arrieiro.

—Nós cá estamos—respondeu o ferrador, a sentar-se atrás de um monte de terra.—Senta-te também, que eu não estou para correr atrás deles.

A dez passos, os assassinos viram dois vultos levantarem-se à sua frente. Cada um fugiu para seu lado. Um subiu pelos socalcos de uma vinha. O outro atirou-se para o meio de umas silvas.

—Atira ao da esquerda!—disse João da Cruz.

Os dois tiros foram ao mesmo tempo. A pontaria do ferrador fez logo um cadáver. As balas do arrieiro não apanharam o outro, que se tinha metido no meio do mato.

Nesse momento, Simão apareceu no alto de onde lhe tinham atirado. Corria para o sítio onde ouvira os segundos tiros.

—É Vossa Senhoria, fidalgo?—gritou o ferrador.

—Sou.

—Não o mataram?

—Creio que não—respondeu Simão.

—Este malvado deixou fugir o melro—disse João da Cruz.—Mas o meu está ali a espernear na vinha. Quero ver-lhe a cara…

O ferrador desceu os três socalcos da vinha e curvou-se sobre o cadáver. E disse:

—Alma de cântaro, se eu tivesse duas clavinas, não ias sozinho para o inferno!

—Anda daí!—disse o arrieiro.—Deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido num ombro. Vamos depressa, que o sangue está a escorrer-lhe.

O ferrador, com a habilidade de um bom cirurgião, ligava com lenços o braço ferido de Simão. Entretanto, Simão contava:

—Vi duas cabeças a espreitar-me do cimo de uma ribanceira e pensei que eram vocês. Parei o cavalo e disse: «Olé! Há novidade?» Como não me responderam, saltei para o chão. Mas ainda tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quis subir a ribanceira, mas não consegui passar pelo mato. Dei uma volta grande para encontrar subida. Foi então que reparei que estava ferido…

—Isto é um arranhão—disse João da Cruz.—Olhe que eu percebo disto, fidalgo! Estou habituado a curar muitas feridas.

—Nos burros, mestre João?—disse o ferido, a sorrir.

—E nos cristãos também, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro médico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo, que é uma rede de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre, sou capaz de ressuscitar aquela alma do diabo que está ali estendida a escutar a cavalaria.

Nisto ouviu-se um leve barulho de folhas no mato para onde tinha saltado o companheiro do morto.

João da Cruz, como um galgo de bom faro, levantou a orelha e resmungou:

—Querem ver que a coisa se arma!… Será que o outro ainda está por ali a tremer de medo!…

O barulho continuou. Logo a seguir, um bando de pássaros saiu do meio das folhas, a chilrear.

—O homem está ali!—disse o ferrador.—Passe-me cá uma pistola, senhor Simão!

Mestre João correu. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grande barulho de ramos partidos entre as moitas de codesso e de urze.

—Ele parte a lenha como um porco do monte!—gritou o ferrador.—Ó cunhado, bate este mato com umas pedras grandes. Quero ver sair o javali da moita!…

Do outro lado do mato havia um campo plano e cultivado. Simão tinha dado a volta à sebe e conseguira saltar para o campo por cima da pedra de um rego de água.

—Tenha lá mão, mestre! Não vá você atirar-me!—gritou Simão ao ferrador.

—Então o fidalgo já anda por aí!? Então o cerco está fechado. Eu vou fazer de furão. Se este nos escapa, não há nada seguro neste mundo!

Não se enganavam. O criado de Baltasar Coutinho atirara-se ao mato sem cuidado. Deslocou um joelho e caiu atordoado. O arrieiro não foi ver o efeito do tiro. Tinha atirado ao acaso e achava natural que o fugitivo não estivesse ferido. Quando voltou a si do atordoamento da queda, o homem arrastou-se devagar. Chegou a um grupo fechado de árvores do campo, onde os pássaros passavam a noite. Como os melros começaram a gritar e a voar, o criado de Baltasar voltou para o mato. Pensava que ali ia escapar. Mas o arrieiro atirava pedras enormes em todas as direções. E algumas acertavam melhor do que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolso da jaqueta um podão. Começou a cortar o mato de carvalhos novos e de giestas que se enredavam à volta do esconderijo. Mas cansou-se e viu que o trabalho dava pouco resultado. Então disse ao arrieiro:

—Faz lume. Vai ali dentro buscar um pouco de restolho seco. Vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão há de morrer assado.

Quando ouviu isto, o perseguido encontrou no perigo maior a coragem para fugir. Rompeu pelo mato e saltou o muro da tapada para o campo de restolho. Ali, o arrieiro estava a apanhar palha, e Simão esperava o fim da caçada. O arrieiro e o académico correram ao mesmo tempo para ele. O fugitivo viu que estava apanhado. Pôs-se de joelhos, de mãos levantadas, a pedir perdão. Dizia que tinha sido o amo a obrigá-lo àquela desgraça. A coronha do bacamarte do arrieiro já ia direita ao peito dele, quando Simão lhe segurou o braço.

—Não se bate assim num homem!—disse o moço.—Levanta-te, rapaz!

—Não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada e fiquei aleijado para toda a vida.

Nesse momento chegou o ferrador e gritou:

—Então este tratante ainda está vivo!

E correu para ele com o podão.

—Não mate o homem, senhor João!—disse o filho do corregedor.

—Que não o mate! Essa é boa! Então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar… hem?

—Com a forca!?—interrompeu Simão.

—Pois claro! Quer que este homem fique vivo para ir contar a história? Acha bonito? Vossa Senhoria, como é filho de ministro, não corre perigo. Mas eu, que sou ferrador, posso contar que desta vez tenho a corda ao pescoço. O negócio não me convém. Deixe-me cá com o homem…

—Não o mate, senhor João. Peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos pode fazer mal.

—O quê?—respondeu o ferrador.—Vossa Senhoria saberá muito, mas de justiça não sabe nada. E há de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. Num instante, uma testemunha que viu e quatro que ouviram dizer, com o fidalgo de Castro Daire a mexer os cordelinhos, é forca certa. É tão certo como dois e dois serem quatro.

—Eu não digo nada! Não me matem, que eu nem volto para Castro Daire!—gritou o homem.

—Deixe-o ficar, João da Cruz… Vamos embora…

—Isso!—respondeu logo o ferrador.—Chame-me João da Cruz, para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz!… Na verdade, não sei o que me parece Vossa Senhoria querer deixar com vida uma alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar!

—Pois sim, você tem razão. Mas eu não sei castigar miseráveis que não me resistem.

—E se ele o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor!

—Vamos embora—disse Simão outra vez.—Deixemos aí esse miserável.

Mestre João ficou alguns momentos a pensar, a coçar a cabeça. E resmungou, descontente:

—Vamos lá… Quem poupa o seu inimigo morre nas mãos dele.

Já tinham saído do campo e saltado o muro da tapada. Iam a descer para a estrada, quando o ferrador disse de repente:

—Deixei lá a minha clavina encostada à sebe. Vão andando, que eu venho já.

O arrieiro levava o cavalo, que tinha estado sossegado a comer a erva dos muros da beira da estrada. Nesse momento, Simão ouviu gritos. Adivinhou com certeza o que era.

—O João está lá a fazer justiça!—disse o arrieiro.—Deixe-o lá, meu amo, que ele é homem que sabe o que faz.

João da Cruz apareceu pouco depois, a limpar com fetos o podão cheio de sangue.

—Você é cruel, senhor João!—disse o académico.

—Não sou cruel—disse o ferrador.—O fidalgo está enganado comigo. É que diz o ditado: «morrer por morrer, morra o meu pai, que é mais velho». Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como três. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é a gente não se meter nelas. Agora levo a minha consciência sossegada.

A justiça que prove o que quiser. Mas não há de ser porque lho contem aqueles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simão sentiu por um instante horror do assassino. E arrependeu-se de se ter ligado a um homem assim.

### Glossário

- **mochila**: criado que acompanhava o amo a pé ou a cavalo.
- **aperrar**: preparar a arma para disparar.
- **zagalote**: pequena bola de chumbo que a arma dispara.
- **alameda**: caminho com árvores dos dois lados.
- **socalco**: pequeno terreno plano numa encosta, como um degrau.
- **podão**: faca grande e curva para cortar ramos.
- **alveitar**: pessoa que trata animais doentes, sem estudos de medicina.
- **ceroto**: pomada feita de cera e óleo, para feridas.
- **restolho**: o que fica no campo depois de se cortar o trigo ou o centeio.
- **devassa**: investigação feita pela justiça sobre um crime.
- **não haver pano para mangas**: não haver tempo nem meios para mais nada.
- **alqueire**: antiga medida de cereais e farinha.

## VII.

A ferida de Simão Botelho era grave de mais para sarar depressa com o tratamento do ferrador. João estava cheio das receitas dos alveitares. A bala tinha atravessado de lado a parte musculosa do braço esquerdo. Mas tinha rompido alguma veia importante, e as compressas não chegavam para parar o sangue. Horas depois de ferido, o académico deitou-se com febre e deixou-se tratar pelo ferrador. O arrieiro partiu para Coimbra. Levava o encargo de espalhar a notícia de que Simão Botelho tinha ficado no Porto.

Mais do que as dores e o medo de lhe cortarem o braço, Simão sofria com a ânsia de ter notícias de Teresa. João da Cruz estava sempre de vigia. Tinha cuidado com alguma ação da justiça, se desconfiassem dele. As pessoas que vinham da feira da cidade contavam todas a mesma coisa. Tinham aparecido dois homens mortos. Dizia-se que eram criados de um fidalgo de Castro Daire. Mas ninguém tinha ouvido acusar do crime pessoas certas.

Na tarde desse dia, Simão recebeu esta carta de Teresa:

«Deus permita que tenhas chegado sem perigo a casa dessa boa gente. Eu não sei o que se passa, mas há uma coisa misteriosa que não consigo adivinhar. O meu pai esteve toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sair do quarto. Mandou tirar-me o tinteiro. Mas, felizmente, eu estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janela do meu quarto. Se não, eu nem tinha maneira de lhe fazer sinal para ela esperar por esta carta. Não sei o que ela me disse. Falou-me em criados mortos, mas eu não consegui perceber… A tua mana Rita está a acenar-me por trás dos vidros do teu quarto…

A tua mana disse-me que os moços do meu primo tinham aparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive quase a dizer-lhe que tu estás aí, mas não me deram tempo. O meu pai, de hora a hora, passeia no corredor e solta uns ais muito altos.

Ó meu querido Simão, que será feito de ti?… Estarás ferido? Serei eu a causa da tua morte?

Diz-me o que souberes. Eu já só peço a Deus a tua vida. Foge desses sítios. Vai para Coimbra e espera que o tempo melhore a nossa situação.

Tem confiança nesta desgraçada, que é digna da tua dedicação… Aí chega a pobre. Não a quero demorar mais… Perguntei-lhe se se dizia alguma coisa de ti, e ela respondeu que não. Deus o queira.»

Simão respondeu para sossegar Teresa. Falava da ferida tão de passagem que parecia que nem precisava de tratamento. Prometia partir para Coimbra logo que pudesse, sem medo de que Teresa sofresse na sua ausência. E pedia-lhe que o chamasse, logo que as ameaças de convento se tornassem realidade.

Entretanto, Baltasar Coutinho foi chamado pelas autoridades da justiça para ajudar na devassa. Respondeu que os homens mortos eram de facto seus criados. Tinham vindo com ele e com a família de Castro Daire. Acrescentou que não sabia que eles tivessem inimigos em Viseu. E não tinha a mais pequena suspeita de ninguém.

Os vizinhos mais próximos do sítio onde apareceram os cadáveres disseram pouca coisa. Alta noite, tinham ouvido dois tiros ao mesmo tempo e outro pouco depois. Só um deles acrescentou uma coisa, que não ajudava a justiça: o mato perto do local tinha sido cortado. Com tanta escuridão, a justiça não conseguia dar nenhum passo.

Tadeu de Albuquerque era cúmplice do ataque contra a vida de Simão Botelho. A ideia tinha sido dele. Surgiu quando o sobrinho lhe contou a razão das saídas frequentes de Teresa, na noite do baile. Ao velho e ao morgado convinha apagar qualquer sinal que os pudesse ligar ao mistério daquelas duas mortes. Os criados não mereciam uma vingança que manchasse a honra dos amos. Provas contra Simão Botelho não as podiam apresentar. Àquela hora, julgavam-no a caminho de Coimbra ou escondido em casa do pai. Restava-lhes ainda uma esperança. Talvez ele tivesse ficado ferido e fosse morrer longe do sítio onde o tinham atacado.

Quanto a Teresa, Albuquerque decidiu fechá-la num convento do Porto. Escolheu Monchique, onde uma parente próxima dele era prioresa. Escreveu à prelada para lhe preparar aposentos. Escreveu também ao seu procurador para tratar das licenças da Igreja para a entrada. Mas o velho tinha medo de algum incidente enquanto esperava pelas licenças. Por isso, decidiu não ficar com Teresa em casa. E pediu que ela ficasse, por algum tempo, num convento de Viseu.

Ao escurecer, a pobre tinha mandado a Teresa a resposta de Simão, pendurada de uma linha. Teresa acabava de a ler e de a esconder no peito, quando o pai entrou no quarto. Mandou-a vestir-se. A menina obedeceu e pegou numa capa e num lenço.

—Vista-se como quem é. Lembre-se de que ainda tem os meus apelidos—disse o velho com severidade.

—Pensei que não era preciso vestir-me melhor para sair à noite…—disse Teresa.

—E a senhora sabe para onde vai?

—Não sei… meu pai.

—Então vista-se e não me dê ordens.

—Mas, meu pai, ouça-me um momento.

—Diga.

—Se a sua ideia é obrigar-me a casar com o meu primo…

—E daí?

—Com certeza não caso. Morro, e morro contente, mas não caso.

—Nem ele a quer. A senhora é indigna de Baltasar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que fala de noite com os amantes nos quintais. Vista-se depressa, que vai para um convento.

—Imediatamente, meu pai. Muitas vezes lhe pedi eu esse destino.

—Não quero comentários. Daqui a pouco apareça-me vestida. As suas primas estão à espera para a acompanharem.

Quando ficou sozinha, Teresa desfez-se em lágrimas e quis escrever a Simão. Mas, àquela hora, quem lhe levaria a carta? Voltou-se para o retábulo da Virgem, a quem tinha confiado o seu amor. De joelhos, pediu-lhe que a protegesse. Pediu-lhe também que desse forças a Simão para aguentar o golpe e para lhe ser fiel em todos os sofrimentos que viessem. Depois vestiu-se. Apertava contra o peito um embrulho com o tinteiro, o papel e o maço das cartas de Simão. Saiu do quarto, a olhar com os olhos cheios de lágrimas para o quadro da Virgem. Quando encontrou o pai, pediu-lhe licença para levar consigo aquela imagem querida.

—Há de lá ir ter—respondeu ele.—Se tivesse tanta vergonha como devoção, seria mais feliz do que há de ser.

Uma das primas, irmãs de Baltasar, chamou-a à parte e disse-lhe em segredo:

—Ó menina! Ainda estava na tua mão dar remédio à desordem desta casa…

—Que remédio?!—perguntou Teresa, com uma seriedade fingida.

—Diz ao teu pai que aceitas casar com o mano Baltasar.

—O primo Baltasar não me quer—respondeu ela, a sorrir.

—Quem te disse isso, Teresinha?

—Disse-mo o meu pai.

—Deixa falar o teu pai, que está fora de si com o amor que te tem. Queres que eu lhe fale?

—Para quê?

—Para se remediar assim a desgraça de todos nós.

—Estás a brincar, prima!—respondeu Teresa.—Eu só hei de ser tua cunhada quando não tiver coração. O teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Eu queria viver para ele. Mas, se quiserem que eu morra por ele, abençoarei todos os meus carrascos. Podes dizer isto ao primo Baltasar, e diz-lho antes que te esqueças.

—Então, vamos?!—disse o velho.

—Estou pronta, meu pai.

Abriu-se a portaria do mosteiro. Teresa entrou sem uma lágrima. Beijou a mão do pai, e ele não se atreveu a recusar-lha diante das freiras. Abraçou as primas com cara de alegria. E, quando a porta se fechou, disse alto, para grande espanto das freiras:

—Estou mais livre do que nunca. A liberdade do coração é tudo.

As freiras olharam umas para as outras. Era como se na palavra «coração» ouvissem uma heresia, uma blasfémia dita na casa do Senhor.

—Que diz a menina?!—perguntou a prioresa. Olhava para ela por cima dos óculos e apanhava no lenço vermelho o pingo do esturrinho.

—Disse que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

—Não diga «minha senhora»—interrompeu a escrivã.

—Como hei de dizer?

—Diga «nossa madre prioresa».

—Pois sim, nossa madre prioresa. Disse que me sentia aqui muito bem.

—Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir bem—respondeu a nossa madre prioresa.

—Não?!—disse Teresa, com um espanto sincero.

—Quem vem para aqui, menina, há de mortificar o espírito e deixar lá fora as paixões do mundo. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de noviças. É ela que a deve guiar e orientar.

Teresa não respondeu. Fez um gesto de respeito à mestra de noviças e seguiu pelo caminho que a prelada lhe indicava.

A nossa madre entrou nos seus aposentos. Disse a Teresa que ela era sua hóspede enquanto ali estivesse. E acrescentou que não sabia se o pai escolheria aquele convento ou outro.

—Que importa que seja um ou outro?—disse Teresa.

—Depende. O seu pai pode querer que a menina professe numa ordem rica, das beneditinas ou das bernardas.

—Professe!—exclamou Teresa.—Eu não quero ser freira aqui, nem noutra parte.

—A senhora há de ser o que o seu pai quiser que seja.

—Freira!? A isso ninguém me pode obrigar!—teimou Teresa.

—Isso é verdade—respondeu a prioresa.—Mas a menina tem um ano de noviciado. Sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida. E vai ver que não há vida mais descansada para o corpo, nem mais saudável para a alma.

—Mas a nossa madre—disse Teresa, a sorrir, como se a ironia fosse um hábito seu—já disse que ninguém vem para estas casas para se sentir bem…

—É uma maneira de falar, menina. Todas temos as nossas mortificações. Temos obrigações de coro e de serviço, e nem sempre o espírito está bem disposto para elas. Ora aí tem. Mas, em comparação com o que vai pelo mundo, o convento é um paraíso. Aqui não há paixões nem preocupações que tirem o sono ou a vontade de comer, bendito seja o Senhor! Vivemos umas com as outras como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más-línguas é coisa que a menina não há de encontrar aqui. Nem intriguistas, nem mexericos. Enfim, Deus fará o que for servido. Eu vou à cozinha buscar a ceia da menina e já volto. Deixo-a aqui com a senhora madre organista, que é uma pomba. E com a nossa mestra de noviças, que sabe dizer melhor do que eu o que é a virtude nestas santas casas.

Mal a prioresa virou as costas, a organista disse à mestra de noviças:

—Que grande impostora!

—E que estúpida!—acrescentou a outra.—A menina não confie nesta trapalhona. Veja se o seu pai lhe dá outra companhia enquanto cá estiver. A prioresa é a maior intriguista do convento. Desde que fez sessenta anos, fala das paixões do mundo como quem as conhece por dentro e por fora. Enquanto foi nova, era a freira que mais escândalos dava na casa. Depois de velha, era a mais ridícula, porque ainda queria amar e ser amada. Agora, que está caduca, este monstro anda sempre a fazer missões e a curar indigestões.

Apesar da sua dor, Teresa não conseguiu conter uma gargalhada. Lembrou-se da *vida de Deus com os anjos* que as esposas do Senhor ali levavam, segundo a madre prioresa.

Pouco depois, a prelada entrou com a ceia, e as duas freiras saíram.

—Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?—perguntou ela a Teresa.

—Pareceram-me muito bem.

A velha esticou os lábios, manchados de riscos de esturrinho líquido, e resmungou com voz rouca:

—*Hum!*… Está feito, está feito!… Ainda não são das piores. Mas, se fossem melhores, não se perdia nada… Ora vamos a isto, menina. Aqui tem duas pernas de galinha e um caldo que até os anjos podiam comer.

—Eu não como nada, minha senhora—disse Teresa.

—Ora essa! Não come nada!? Há de comer. Sem comer, ninguém aguenta. Paixões!… Que as leve o porco-sujo!… As mulheres é que ficam enganadas, e eles não têm nada a perder!… Eu cá, até hoje, Deus louvado, não sei o que são paixões. Mas quem tem cinquenta e cinco anos de convento tem muita experiência do que vê as outras tontas sofrer. E, para não ir mais longe, estas duas que daqui saíram já pagaram bem o seu tributo à asneira, Deus me perdoe se peco. A organista já tem os seus quarenta bons e ainda vai ao locutório derreter-se em galanteios. A outra é mestra de noviças só porque não havia outra que quisesse sê-lo. Se eu não lhe andasse com o olho em cima, estragava-me as raparigas…

Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã. Vinha a palitar os dentes, pedir à prelada um copinho de um certo vinho estomacal. Todas as noites a prelada lho oferecia.

—Estava eu a dizer a esta menina que peças são a organista e a mestra—disse a prioresa.

—Oh! São do pior que há! Foram as duas para a cela da porteira. A esta hora, a menina está a ser cortada por aquelas línguas, que não perdoam a ninguém.

—Vais tu ver se ouves alguma coisa, minha flor?—disse a prelada.

A escrivã ficou contente com a missão. Foi sem fazer barulho ao longo dos dormitórios, até parar a uma porta. A porta não abafava o barulho agudo das gargalhadas.

Entretanto, a prelada dizia a Teresa:

—Esta escrivã não é má rapariga. Só tem o defeito de se dar à pinguleta, e depois não há quem a ature. Tem um bom rendimento, mas gasta tudo em vinho. Há ocasiões em que entra no coro a fazer *ss*, o que é mesmo uma desgraça. Não tem outro defeito. É uma alma limpa e amiga das suas amigas. É verdade que às vezes…

Aqui a prelada levantou-se a escutar para os dormitórios e fechou a porta por dentro.

—É verdade que, às vezes, quando está tocada pelo vinho, diz tudo o que lhe vem à cabeça e descobre os defeitos das amigas. A mim já me caluniou. Disse que eu, quando saía a ares, não ia só apanhar ares. Disse que andava por lá a fazer o que fazem as outras. Que falta de vergonha! Que outra falasse, vá. Mas ela, que tem sempre uns namorados malandros que bebem com ela na grade! Isso custa-me. Mas, enfim, ninguém é perfeito!… Boa rapariga é ela… Se não fosse aquele maldito vício…

Nesse momento, tocou para o coro. A venerável prioresa bebeu o segundo cálice do vinho estomacal. Disse a Teresa que esperasse um quarto de hora, que ela ia ao coro e pouco se demorava. Tinha acabado de sair quando a escrivã entrou. Teresa, com as mãos abertas sobre a cara, dizia para si mesma: «Um convento, meu Deus! Isto é que é um convento!»

—Está sozinha?—perguntou a escrivã.

—Estou, minha senhora.

—Então aquela grosseira vai-se embora e deixa uma hóspede sozinha? Bem se vê que é filha de funileiro!… Já tinha tempo de ter aprendido as maneiras do mundo, que andou por lá que farte… Eu devia ir ao coro. Mas não vou, para lhe fazer companhia, menina.

—Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sozinha—disse Teresa. Tinha esperança de poder desabafar a sua aflição em lágrimas.

—Não vou, não!… A menina aqui morria de medo. Mas a prelada não tarda aí. Se ela pode escapar-se do coro, não fica lá muito tempo. Aposto que ela esteve a falar mal de mim?

—Não, minha senhora, pelo contrário…

—Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não fala bem de ninguém. Para ela, todas são libertinas e bêbedas.

—Não, minha senhora. Não me disse nada a respeito de nenhuma freira.

—E se disse, deixá-la dizer. Ela não bebe o vinho, chupa-o. É uma esponja viva. Quanto à libertinagem, quem me dera ter tantos mil cruzados como os amantes que ela já teve! Faça lá uma pequena ideia, menina!…

A escrivã bebeu um cálice do vinho da sua prelada e continuou:

—Faça lá uma pequena ideia! Ela é velhíssima, como a sé. Quando eu professei, ela já era velha como agora, mais ou menos. Ora, eu sou freira há vinte e seis anos. Calcule a menina quantas arrobas de esturrinho ela já meteu naquele nariz! Pois olhe, acredite ou não, já lhe conheci mais de uma dúzia de chichisbéus. E não falo do padre capelão, que ainda hoje lhe enche a garrafeira, à nossa custa, claro. É uma esbanjadora dos rendimentos da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ela rouba. Tenho imensa pena de ver a menina hospedada em casa desta hipócrita. Não se deixe enganar pelas mentiras dela, meu anjinho. Eu sei que o seu pai lhe mandou recado. Encarregou-a de não a deixar escrever nem receber cartas. Mas olhe, minha filha, se quiser escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel e obreias. E dou-lhe o meu quarto, se quiser ir para lá escrever. Se tem alguém que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome. Eu chamo-me Dionísia da Imaculada Conceição.

—Muito agradecida, minha senhora—disse Teresa, animada com a oferta.—Quem me dera poder mandar um recado a uma pobre que mora no beco do…

—O que quiser, menina. Eu mando lá logo que for dia. Esteja descansada. Não confie em ninguém, só em mim. Olhe que a mestra de noviças e a organista são duas falsas. Não lhes dê confiança. Se as deixar entrar na sua confiança, está perdida. Aí vem a lesma… Falemos noutra coisa…

A prelada vinha a entrar, e a escrivã continuou assim:

—Não há, não há nada mais agradável do que a vida do convento, quando se tem a sorte de ter uma prelada como a nossa… Ai! Eras tu, menina? Olha, se estivéssemos a falar mal de ti!

—Eu sei que tu nunca falas mal de mim—disse a prelada, a piscar o olho a Teresa.—Esta menina que diga o que eu lhe estive a dizer das tuas boas qualidades…

—O que eu disse de ti—respondeu soror Dionísia da Imaculada Conceição—não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste. Oxalá se pudesse dizer o mesmo das outras, que desonram a casa. Trazem aqui tudo enredado em intrigas, que é mesmo coisa de pecado.

—Então não vais ao coro, nini?—perguntou a prioresa.

—Agora já é tarde… Tu perdoas-me a falta, sim?

—Perdoo, perdoo. Mas dou-te como penitência beberes um copinho…

—Do estomacal?

—Pois claro…

Dionísia cumpriu a penitência e saiu. Dizia ela que era para deixar a prelada na sua hora de oração.

Não vamos prolongar esta amostra da vida evangélica e exemplar do convento. Foi para ali que Tadeu de Albuquerque mandou a filha respirar o ar puríssimo dos anjos. Entretanto, preparava-lhe no convento de Monchique um cadinho que a limpasse melhor dos restos do vício.

Naquelas duas horas de vida de convento, o coração de Teresa encheu-se de amargura e de nojo. Ela não sabia que o mundo tinha coisas daquelas. Tinha ouvido falar dos mosteiros como de um refúgio da virtude, da inocência e das esperanças que não morrem. Tinha lido algumas cartas da tia, prelada em Monchique. Por essas cartas, tinha feito uma ideia do que devia ser uma santa. E daquelas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, tinha ouvido as velhas fidalgas devotas de Viseu contar virtudes, maravilhas de caridade e até milagres. Que desilusão tão triste! E, ao mesmo tempo, que vontade de fugir dali!

A cama de D. Teresa estava na mesma cela da prioresa, numa alcova separada, com cortinas de cassa.

A prelada disse-lhe que podia deitar-se, se quisesse. Então a menina perguntou-lhe se podia escrever ao pai. A freira respondeu que podia fazê-lo no dia seguinte, embora o senhor Albuquerque tivesse mandado que a filha não escrevesse. E acrescentou que não lho proibiria, se houvesse tinteiro e papel na cela.

Teresa deitou-se, e a prelada ajoelhou diante de um oratório. Rezava a coroa a meia voz. Se o murmúrio da oração incomodasse a hóspede, ela não teria muita razão de queixa. É que, ao segundo *Pai-Nosso*, a devota freira já cabeceava tanto que não acertou com a primeira *Ave-Maria*. Levantou-se, fez uma vénia às imagens do oratório, a cambalear, foi deitar-se e começou a ressonar.

Teresa afastou devagarinho as cortinas da alcova. Tirou do meio da roupa o tinteiro de tampa de rosca e o papel.

A lâmpada do oratório lançava um raio fraco sobre a cadeira onde Teresa tinha posto os vestidos. Ela desceu da cama, ajoelhou-se ao pé da cadeira e escreveu a Simão. Contou-lhe em pormenor os acontecimentos daquele dia. A carta acabava assim:

«Não tenhas medo nenhum por mim, Simão. Todos estes sofrimentos me parecem leves, se os comparo com o que tens sofrido por amor de mim. A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve assustar os teus projetos. São alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova decisão que o meu pai tome, dir-ta-ei logo que puder, ou quando puder. Se não tiveres notícias minhas, pensa sempre que foi impossível escrever. Ama-me assim, desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto. Vou ver se consigo esquecer-me, a dormir. Como isto é triste, meu querido amigo!… Adeus.»

### Glossário

- **alveitar**: pessoa que trata animais doentes, sem estudos de medicina.
- **devassa**: investigação feita pela justiça sobre um crime.
- **prioresa / prelada**: a freira que manda no convento.
- **professar**: fazer os votos para ser freira para sempre.
- **noviciado / mestra de noviças**: tempo em que uma mulher se prepara para ser freira / freira que ensina as noviças.
- **esturrinho**: tabaco em pó que se cheira pelo nariz.
- **escrivã**: freira que escreve e guarda as contas e os papéis do convento.
- **pinguleta**: vício de beber vinho.
- **sair a ares**: sair por algum tempo para mudar de ar e melhorar a saúde.
- **chichisbéus**: homens que fazem a corte a uma senhora.
- **obreia**: pequeno disco de massa que servia para fechar as cartas.
- **coroa**: oração feita com as contas de um rosário.

## VIII.

Mariana, a filha de João da Cruz, desmaiou quando viu o pai tratar a ferida do braço de Simão. O ferrador riu muito alto da fraqueza da moça. O académico achou estranha aquela sensibilidade numa mulher habituada a curar feridas. O pai voltava ferido de todas as feiras e romarias.

—Ainda não há um ano, fizeram-me três buracos na cabeça, quando fui à Senhora dos Remédios, a Lamego. E foi ela que me tosquiou e me rapou a cabeça à navalha—disse o ferrador.—Pelo que vejo, o sangue do fidalgo deu a volta ao estômago da rapariga!… Estamos então bem arranjados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ela fosse a enfermeira do meu doente… És ou não és, rapariga?—perguntou ele à filha, quando ela abriu os olhos, envergonhada da sua fraqueza.

—Serei com muito gosto, se o pai quiser.

—Pois então, moça, se ias costurar para a varanda, vem antes para o pé do senhor Simão. Dá-lhe caldos muitas vezes e trata-lhe da ferida. Vinagre e mais vinagre, quando ela estiver assim meio roxa. Conversa com ele. Não o deixes estar a pensar em maluquices, nem escrever muito, que isso não é bom quando se está fraco da cabeça. E Vossa Senhoria não tenha cerimónias com ela. Não me diga à Mariana «a menina isto, a menina aquilo». É «rapariga, dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as compressas». E nada de delicadezas. Ela está aqui como sua criada. Eu já lhe disse: se não fosse o pai de Vossa Senhoria, há muito tempo que ela andava por aí a pedir esmola, ou pior ainda. É verdade que eu lhe podia deixar uns bensinhos, ganhos ali a suar na bigorna há dez anos. E tenho ainda uns quatrocentos mil réis que herdei da minha mãe, que Deus tenha. Mas Vossa Senhoria bem sabe uma coisa. Se eu fosse para a forca ou pela barra fora, vinha a justiça e ficava com tudo para pagar as custas.

—Se vossemecê tem uma casinha razoável—interrompeu Simão—pode, se quiser, casar a sua filha numa boa casa de lavradores.

—Assim ela quisesse. Maridos não lhe faltam. Até o alferes da igreja a queria, se eu lhe desse tudo o que tenho. É pouco, mas ainda vale quatro mil cruzados bons. O caso é que a moça não tem querido casar. E eu, para falar a verdade, sou só eu e ela. Também não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como um mouro. Se não fosse ela, fidalgo, eu já tinha feito muita asneira! Quando vou às feiras ou às romarias, se a levo comigo, não bato nem apanho. Se vou sozinho, é briga certa. A rapariga já percebe quando o vinho me sobe à cabeça. Puxa-me pela jaqueta e, com bons modos, tira-me da festa. Se alguém me chama para beber mais um quartilho, ela não me deixa ir. E eu acho graça à obediência com que me deixo guiar pela moça. Ela pede-me que não vá, por alma da mãe. E eu, quando ela me pede pela alma da minha santa mulher, já não sei de que freguesia sou.

Mariana ouvia o pai e escondia meia cara no seu avental de linho, muito branco. Simão gozava a simplicidade daquele quadro do campo, cheio de poesia e de naturalidade.

Chamaram João da Cruz para ferrar um cavalo. Ele despediu-se assim:

—Está dito, rapariga. Entrego-te aqui o nosso doente. Trata-o como quem ele é, e como se fosse teu irmão ou teu marido.

A cara de Mariana ficou vermelha como uma cereja quando o pai disse esta última palavra. O pai disse-a com toda a naturalidade, como as outras.

A moça ficou encostada à porta da alcova de Simão.

—Não foi nada boa esta praga que lhe caiu em casa, Mariana!—disse o académico.—Fizeram-na enfermeira de um doente. E talvez a impeçam de ir costurar para a varanda e de conversar com as pessoas que passam…

—Que me importa a mim isso!—respondeu ela. Sacudiu o avental e baixou o cós até à cintura, com uma graça de criança.

—Sente-se, Mariana. O seu pai disse-lhe que se sentasse… Vá buscar a sua costura. E dê-me dali uma folha de papel e um lápis que está na carteira.

—Mas o pai também me disse que não o deixasse escrever…—respondeu ela, a sorrir.

—Um pouco não faz mal. Escrevo só algumas linhas.

—Veja lá o que faz…—disse ela, a dar-lhe o papel e o lápis.—Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo…

—Tudo, o quê, Mariana? Então sabe alguma coisa?!

—Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua amizade por uma menina fidalga da cidade?

—Disse. Mas que tem isso?

—Aconteceu o que eu receava. Vossa Senhoria está aí ferido, e toda a gente fala de uns homens que apareceram mortos.

—Que tenho eu com os homens que apareceram mortos?

—Para que está a fingir que não sabe?! Então eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que Vossa Senhoria desconfia de mim. Está a querer guardar um segredo que eu queria que ninguém soubesse, para o meu pai e o senhor Simão não terem trabalhos maiores…

—Tem razão, Mariana. Eu não lhe devia esconder o mau encontro que tivemos…

—E Deus queira que seja o último!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que dê remédio a essa paixão!… O pior, eu sei, ainda está para vir…

—Não, menina. Isto acaba assim: eu vou para Coimbra logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

—Se assim for, já prometi dois arráteis de cera ao Senhor dos Passos. Mas o coração não me diz que Vossa Senhoria faça o que diz…

—Estou-lhe muito agradecido—disse Simão, comovido—pelo bem que me deseja. Não sei o que lhe fiz para merecer a sua amizade.

—Basta ver o que o seu paizinho fez pelo meu—disse ela, a limpar as lágrimas.—O que seria de mim, se ele me faltasse e fosse para a forca, como toda a gente dizia!… Eu era ainda muito nova quando ele estava na enxovia. Teria treze anos. Mas estava decidida a atirar-me ao poço, se ele fosse condenado à morte. Se o degredassem, então ia com ele. Ia morrer onde ele fosse morrer. Não há dia nenhum em que eu não peça a Deus que dê ao seu pai tantas alegrias como as estrelas que há no céu. Fui de propósito à cidade para beijar os pés à sua mãezinha. Vi as suas manas. A mais nova deu-me uma saia de lapim, que eu ainda ali tenho guardada como uma relíquia. Depois, cada vez que ia à feira, dava uma grande volta para ver se encontrava a senhora D. Ritinha à janela. E muitas vezes vi o senhor Simão. Talvez não saiba que eu estava a beber na fonte quando Vossa Senhoria, há dois ou três anos, bateu muito nos criados. Era uma confusão que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pai, e ele até caiu ao chão a rir como um doido… Depois, nunca mais o vi, senão quando Vossa Senhoria entrou com o tio, vindo de Coimbra. Mas eu já sabia que vinha para esta desgraça. Tinha tido um sonho em que via muito sangue. E eu estava a chorar, porque via uma pessoa muito minha amiga a cair numa cova muito funda…

—Isso são sonhos, Mariana…

—São sonhos, são. Mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando o meu pai matou o almocreve, eu tinha sonhado que o via dar um tiro noutro homem. Antes de a minha mãe morrer, acordei a chorar por ela, e ela ainda viveu mais dois meses… A gente da cidade ri-se dos sonhos, mas Deus sabe o que isto é… Aí vem o meu pai… Senhor dos Passos! Que não seja alguma má notícia!…

João da Cruz entrou com uma carta que tinha recebido da pobre do costume. Enquanto Simão lia a carta escrita no convento, Mariana tinha os seus grandes olhos azuis postos na cara do académico. A cada ruga da testa dele, o coração dela ficava mais aflito. Não conseguiu conter a ansiedade e perguntou:

—É notícia má!

—Tu és muito atrevida, rapariga!—disse João da Cruz.

—Não é, não—interrompeu o estudante.—A notícia não é má, Mariana. Senhor João, deixe-me ter na sua filha uma amiga. Os desgraçados é que sabem dar valor aos amigos.

—Isso é verdade. Mas eu não me atrevia a perguntar o que diz a carta.

—Nem eu perguntei, meu pai. Foi porque me pareceu que o senhor Simão estava aflito quando lia.

—E não se enganou—disse o doente, voltando-se para o ferrador.—O pai arrastou Teresa para o convento.

—É mesmo um patife de uma vez!—disse o ferrador. E, sem pensar, fez com os braços o movimento de quem aperta um pescoço entre as mãos. Neste momento, um observador atento veria brilhar nos olhos de Mariana um clarão de alegria inocente.

Simão sentou-se e escreveu em cima de uma cadeira que Mariana, sem ninguém lhe pedir, lhe chegou. E ela disse:

—Enquanto escreve, vou ver o caldinho, que está a ferver.

«É preciso tirar-te daí—dizia a carta de Simão.—Esse convento há de ter uma saída. Procura-a e diz-me a noite e a hora em que devo esperar por ti. Se não puderes fugir, essas portas hão de abrir-se diante da minha raiva. Se daí te mandarem para outro convento mais longe, avisa-me. Eu irei sozinho, ou acompanhado, roubar-te no caminho. É indispensável que ganhes coragem, para não te assustares com as ousadias da minha paixão. És minha. Não sei para que me serve a vida, se não a sacrificar para te salvar. Acredito em ti, Teresa, acredito. Ser-me-ás fiel na vida e na morte. Não sofras com paciência; luta com heroísmo. A submissão é uma vergonha, quando o poder do pai é uma ofensa. Escreve-me sempre que puderes. Eu estou quase bom. Diz-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminui as forças do coração.»

Simão pediu a sua carteira e tirou dinheiro em prata. Deu-o ao ferrador e pediu-lhe que o entregasse à pobre, com a carta.

Depois, ficou a reler a carta de Teresa e a recordar a resposta que tinha dado.

Mestre João foi à cozinha e disse a Mariana:

—Desconfio de uma coisa, rapariga.

—Que é, meu pai?

—O nosso doente está sem dinheiro.

—Porquê? Como é que o pai sabe isso?

—É que ele pediu-me a carteira para tirar dinheiro. E ela pesava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto mexe cá por dentro comigo! Queria oferecer-lhe dinheiro e não sei como há de ser…

—Eu vou pensar nisso, meu pai—disse Mariana, pensativa.

—Pois sim. Pensa lá tu, que tens melhores ideias do que eu.

—E se o pai não quiser mexer nos seus quatrocentos, eu tenho aquele dinheiro dos meus bezerros. São onze moedas de ouro menos um quarto.

—Pois falaremos. Pensa tu na maneira de ele aceitar sem *remorsos*.

Na linguagem pouco cuidada de mestre João, «remorsos» queria dizer *escrúpulos* ou *repugnância*.

Mariana foi levar o caldo a Simão. Mas ele recusou-o, distraído, perdido em pensamentos profundos.

—Então não toma o caldinho?—disse ela, triste.

—Não posso, não tenho vontade, menina. Será mais logo. Deixe-me sozinho algum tempo. Vá, vá. Não passe o seu tempo ao pé de um doente aborrecido.

—Não me quer aqui? Eu vou, e volto quando Vossa Senhoria chamar.

Mariana disse isto com os olhos cheios de lágrimas.

Simão reparou nas lágrimas e pensou um momento na dedicação da moça. Mas não lhe disse nenhuma palavra.

E ficou a pensar na sua situação difícil. Deviam vir-lhe ideias aflitivas, das que os romancistas raramente dão aos seus heróis. No romance, todas as crises se explicam, menos a crise vergonhosa da falta de dinheiro. Os romancistas acham que o assunto é baixo e vulgar. O estilo vai de má vontade para coisas rasteiras. Balzac fala muito de dinheiro, mas de dinheiro aos milhões. Tenho cinquenta livros dele. Em nenhum conheço um galã que, num intervalo da sua tragédia, pense em como arranjar dinheiro para pagar ao alfaiate. Nem conheço nenhum que pense em fugir das redes de um agiota. O agiota lança-lhe essas redes desde a casa do juiz de paz até todas as esquinas. E delas o atacam o capital e os juros de oitenta por cento. Os mestres do romance fogem sempre disto. Eles sabem bem uma coisa. O interesse do leitor gela à medida que o herói encolhe até ao tamanho dos heroizinhos de café. O leitor com dinheiro foge deles por instinto. E o outro também foge, porque não tem nada a ver com eles. A coisa é miseravelmente prosaica, confesso-o de todo o coração. Não é bonito deixar o nosso herói ficar tão vulgar que pense na falta de dinheiro. E logo um momento depois de escrever à mulher amada uma carta como aquela de Simão Botelho! Quem a lesse diria que o rapaz tinha carroças e boas parelhas de mulas à espera em várias estações das estradas do país. Estavam ali para levar a bela fugitiva para Paris, para Veneza ou para o Japão! Naquele tempo, as estradas deviam ser boas para isso. Mas não tenho a certeza de que houvesse estradas para o Japão. Agora acredito que há, porque me dizem que há de tudo.

Pois eu já vos contei, leitores, pela boca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora digo-vos que era em dinheiro que ele pensava quando Mariana lhe trouxe o caldo recusado.

Na minha opinião, deviam atormentá-lo estes pensamentos:

Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?

Com que agradeceria os cuidados de Mariana?

Se Teresa fugisse, com que meios sustentaria os dois?

Ora, Simão Botelho tinha saído de Coimbra com a sua mesada, que não era grande. Quase toda se foi no aluguer do cavalo e na gorjeta generosa que deu ao arrieiro. Era ao arrieiro que devia ter conhecido aquele ferrador tão prestável.

O que sobrou desse dinheiro, deu-o naquele dia à mulher que levava a carta. Má situação!

Lembrou-se de escrever à mãe. Mas que lhe diria? Como explicaria que estava a viver naquela casa? Não iria assim dar pistas sobre a morte misteriosa dos dois criados de Baltasar Coutinho?

Além disso, sabia muito bem que a mãe não o amava. E, se ela lhe mandasse algum dinheiro em segredo, seria apenas o necessário para a viagem até Coimbra. Péssima situação!

Cansado de pensar, a providência dos infelizes deu-lhe um sono profundo.

E Mariana entrou na sala pé ante pé. Ouviu-lhe a respiração forte e atreveu-se a entrar na alcova. Pôs-lhe um lenço de cassa sobre a cara, porque à volta dela zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira em cima de um banquinho que enfeitava o quarto. Pegou nela e saiu pé ante pé. Abriu a carteira e viu papéis, que não sabia ler. Num dos bolsos, havia duas moedas de seis vinténs. Foi pôr a carteira no seu lugar. Depois tirou de um cabide as calças, o colete e a jaqueta à espanhola do hóspede. Procurou nos bolsos e não encontrou um ceitil.

Retirou-se para um canto escuro do sobrado e pensou. Ficou assim meia hora. A nobre rapariga pensava cheia de angústia. Depois levantou-se de repente e conversou muito tempo com o pai. João da Cruz ouviu-a e discutiu com ela. Mas era sempre vencido pelas respostas da filha. Até que, por fim, disse:

—Farei o que dizes, Mariana. Dá-me cá o teu dinheiro, que agora não vou levantar a pedra da lareira para mexer na caixa dos quatrocentos mil réis. Tanto faz um como o outro: é todo teu.

Mariana correu à arca. Tirou de lá uma bolsa de linho com dinheiro em prata e alguns cordões, anéis e brincos. Guardou o seu ouro numa caixinha e deu a bolsa ao pai.

João da Cruz aparelhou a égua e saiu. Mariana foi para a sala do doente.

Simão acordou.

—Não sabe!?—exclamou ela, com uma cara meio alegre e meio assustada, perfeitamente fingida.

—Que é, Mariana?

—A sua mãezinha sabe que Vossa Senhoria está aqui.

—Sabe?! Isso é impossível! Quem lho disse?

—Não sei. O que sei é que ela mandou chamar o meu pai.

—Isso espanta-me!… E não me escreveu?

—Não, senhor!… Agora me lembro: talvez ela soubesse que o senhor esteve aqui e pense que já cá não está. Por isso não lhe escreveu… Pode ser?

—Pode. Mas quem lho teria dito!? Se isto se sabe, podem suspeitar da morte dos homens.

—Pode ser que não. E, mesmo que desconfiem, não há testemunhas. O pai disse que não tinha medo nenhum. «O que for, soará.» Não esteja agora a pensar nisso… Vou buscar-lhe o caldinho, sim?

—Vá, se quiser, Mariana. O céu deu-me em si a amizade de uma irmã.

Na sua alma alegre, a moça não encontrou palavras para responder à doçura que a cara do rapaz mostrava.

Voltou com o «caldinho». A linguagem carinhosa aprova este diminutivo. Mas contra ele protestava a tigela branca, larga e funda. E, ao lado, a travessa com meia galinha dourada de tão gorda.

—Tanta coisa!—exclamou Simão, a sorrir.

—Coma o que puder—disse ela, a corar.—Eu bem sei que os senhores da cidade não comem em malgas tão grandes. Mas eu não tinha outra mais pequena. E coma sem nojo, que esta nunca foi usada. Fui eu que a comprei na loja. Pensei que Vossa Senhoria ontem não quis comer por ter nojo da outra.

—Não, Mariana, não seja injusta. Ontem não comi pela mesma razão por que não como agora. Não tinha vontade, nem tenho.

—Mas coma, porque eu lhe peço… Perdoe o meu atrevimento… Faça de conta que é uma irmã sua que lhe pede. Ainda agora me disse…

—Que o céu me dava em si a amizade de uma irmã…

—Pois aí está…

Simão achou que aquele sacrifício era necessário para a sua saúde e para a alegria da carinhosa Mariana. Passou-lhe pela cabeça, sem sombra de vaidade, uma suspeita: era amado por aquela doce criatura. Disse para si mesmo que seria uma crueldade mostrar que conhecia esse amor. Não tinha alma para o recompensar, nem para lhe mentir. Mesmo assim, longe de se afligir, os cuidados da gentil moça agradavam-lhe. Ninguém sente como um peso o amor que inspira e que não partilha. Nas maiores aflições, nas últimas horas do coração e da vida, ainda é agradável sentir-se amado. Mesmo quando o amor já não distrai das penas, nem pode soldar o último fio que se está a partir. Seja orgulho, seja um coração humano que nunca se satisfaz, é no amor que nos dão que medimos, na nossa consciência, o nosso valor.

Portanto, o amor de Mariana não desagradava ao amante apaixonado de Teresa. Isto será uma culpa no tribunal severo das minhas leitoras. Mas, se me deixam ter uma opinião, a culpa de Simão Botelho está na natureza fraca. A natureza é toda beleza no céu, no mar e na terra. E é toda incoerências, absurdos e vícios no homem, a quem chamam rei da criação!

### Glossário

- **alcova**: quarto pequeno, sem janela, onde fica a cama.
- **romaria**: festa religiosa do povo, com viagem a uma igreja ou capela.
- **bigorna**: bloco de ferro onde o ferreiro ou o ferrador bate o metal.
- **pela barra fora**: para fora do país, de barco, como castigo de degredo.
- **quartilho**: antiga medida de vinho, mais ou menos meio litro.
- **saia de lapim**: saia feita de um tecido de lã fino.
- **arrátel**: antiga medida de peso, quase meio quilo.
- **Senhor dos Passos**: imagem de Jesus Cristo a levar a cruz, muito venerada pelo povo.
- **agiota**: pessoa que empresta dinheiro e cobra juros muito altos.
- **gorjeta**: dinheiro que se dá a mais a quem fez um serviço.
- **ceitil**: moeda antiga de muito pouco valor.
- **malga**: tigela funda.

## IX.

João da Cruz esteve duas horas fora de casa. Quando chegou, a curiosidade do estudante já era sofrimento.

—Estará o seu pai preso?!—tinha ele perguntado a Mariana.

—O coração não mo diz, e o meu coração nunca me engana—tinha ela respondido.

E Simão tinha continuado:

—E que lhe diz o coração a meu respeito, Mariana? Os meus trabalhos acabam aqui?

—Vou dizer-lhe a verdade, senhor Simão… Mas não digo…

—Diga, que lho peço. Tenho fé no anjo bom que fala na sua alma. Diga…

—Pois sim… O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no começo…

Simão ouviu-a com atenção e não respondeu. Passou-lhe pela alma uma ideia escura, que era uma ofensa para a rapariga simples: «Pensará ela em afastar-me de Teresa para se fazer amar?»

Estava a pensar nisto quando o ferrador chegou.

—Aqui estou de volta—disse ele, com cara de festa.—A sua mãe mandou-me chamar…

—Já sei… E como soube ela que eu estava aqui?

—Ela sabia que o fidalgo tinha estado cá. Mas pensava que Vossa Senhoria já tinha ido para Coimbra. Quem lho disse não sei, nem perguntei. Porque a uma pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia o meu pai. Ela dizia que sabia porque é que o senhor se tinha vindo esconder aqui. Ralhou um bocado. Mas eu acalmei-a como pude, e não há novidade. Perguntou-me o que estava o menino a fazer aqui depois de a fidalguinha ter ido para o convento. Eu disse-lhe que Vossa Senhoria estava adoentado, por ter caído do cavalo. Ela perguntou-me então se o senhor tinha dinheiro. E eu disse que não sabia. E vai ela, foi lá dentro e voltou pouco depois com este embrulho, para eu lhe entregar. Aqui o tem, tal e qual. Não sei quanto é.

—E não me escreveu?

—Disse que não podia ir à escrivaninha, porque estava lá o senhor corregedor—respondeu mestre João com firmeza.—E também me disse que Vossa Senhoria só lhe escrevesse de Coimbra. Porque, se o seu pai soubesse que o menino estava cá, ia tudo abaixo lá em casa. Ora aí está.

—E não lhe falou nos criados de Baltasar?

—Nem um pio!… Lá na cidade, hoje já ninguém falava nisso.

—E que lhe disse da senhora D. Teresa?

—Nada, só que ela tinha ido para o convento. Agora deixe-me ir tapar a égua com a manta, que está a escorrer suor. Ó rapariga, traz-me cá a manta.

Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado com aquela generosidade tão estranha. Entretanto, Mariana abraçava o pai, na divisão ao lado da casa, e dizia:

—Arranjou muito bem a mentira!…

—Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Isso arranjaste-o tu, com essa tua cabecinha! Mas a coisa saiu perfeita, hem? Ele engoliu-a como se fossem confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros. Mas há de vir o tempo em que ele te dará bois em troca dos bezerros.

—Eu não fiz isto por interesse, meu pai…—respondeu ela, magoada.

—Olha o milagre! Isso sei eu. Mas, como diz o ditado, quem semeia colhe.

Mariana ficou pensativa e disse para si mesma: «Ainda bem que ele não pode pensar de mim o que o meu pai pensa. Deus sabe que não tenho nenhuma esperança interesseira no que fiz.»

Simão chamou o ferrador e disse-lhe:

—Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava os seus favores de boa vontade. E acredito que vossemecê mos faria sem esperança de ganhar com eles. Mas, como recebi este dinheiro, há de deixar que lhe dê uma parte para a minha comida. Há dívidas que não se pagam, e por elas fico ainda com muitos motivos de gratidão. Nunca me esquecerei de si nem da sua boa filha. Tome este dinheiro.

—As contas fazem-se no fim—respondeu o ferrador, a retirar a mão.—E ninguém nos há de ouvir, se Deus quiser. Se eu precisar de dinheiro, cá venho. Por enquanto, a capoeira ainda está cheia de galinhas, e o pão coze-se todas as semanas.

—Mas aceite—insistiu Simão.—E faça dele o que quiser.

—Em minha casa ninguém manda senão eu—respondeu mestre João, fingindo-se zangado.—Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não falemos mais nisso, se quer que o negócio vá direito até ao fim. *E victo-serio*!

Nos cinco dias seguintes, Simão recebeu cartas de Teresa com regularidade. Umas eram resignadas e davam conforto. Outras eram escritas com a violência desesperada da saudade. Numa delas, Teresa dizia:

«O meu pai deve saber que estás aí. E, enquanto aí estiveres, de certeza que não me tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra e deixássemos o meu pai esquecer os últimos acontecimentos. Se não, meu querido esposo, nem ele me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir deste inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu pudesse oferecer o meu coração a Deus, teria de procurar um ambiente com menos vícios do que este. Acredito que em toda a parte se pode rezar e ser virtuosa, menos neste convento.»

Noutra carta, escrevia assim: «Não me abandones, Simão, não vás para Coimbra. Tenho medo de que o meu pai me queira mudar deste convento para outro mais rigoroso. Uma freira disse-me que eu não ficava aqui. Outra garantiu-me que o pai está a tratar da minha ida para um convento do Porto. Sobretudo, o que me aterra, mas não me dobra, é saber que o pai tenciona fazer-me professar. Por mais violências e tiranias que imagine, não vejo nenhuma capaz de me arrancar os votos. Eu não posso professar sem ser noviça um ano e ir a perguntas três vezes. Hei de responder sempre que não. Se eu pudesse fugir daqui!… Ontem fui à cerca e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que aquela porta às vezes se abre para entrarem carros de lenha. Mas, infelizmente, só volta a abrir-se no princípio do inverno. Se não puder antes, meu Simão, fugirei nessa altura.»

Entretanto, os esforços de Tadeu de Albuquerque tiveram um resultado bom e rápido. A prelada de Monchique era uma freira de grandes virtudes. Pensou que a filha do seu primo entrava no mosteiro por devoção e por amor a Deus. Preparou-lhe aposentos e escreveu à sobrinha a dar-lhe os parabéns por uma decisão tão piedosa. Teresa não recebeu esta carta de parabéns, porque ela foi parar às mãos do pai. A carta tinha reflexões para a fazer desistir. A tia pensava que talvez algum desgosto passageiro a levasse à imprudência de procurar um refúgio onde as paixões ficavam ainda mais fortes.

Depois de tomar todas as precauções, Tadeu de Albuquerque mandou avisar a filha. A tia de Monchique queria tê-la algum tempo na sua companhia. A partida seria na madrugada do dia seguinte.

Quando recebeu esta notícia surpreendente, Teresa já tinha mandado a Simão a carta daquele dia. Na sua aflição, sem saber o que fazer, decidiu fingir-se doente. Mas estava com tanta febre das emoções que nem precisava de fingir. O velho não queria ceder à doença. Mas o médico do mosteiro opôs-se à desumanidade do pai e da prioresa, que também tinha interesse na violência. Nessa noite, Teresa quis escrever a Simão. Mas a criada da prelada, por ordem da ama, que desconfiava, não saiu do lado da cama da doente. Havia uma razão para esta espionagem. A escrivã, numa hora de má digestão daquele vinho estomacal, tinha dito uma coisa. Disse que Teresa passava as noites em oração mental e se correspondia com um anjo do céu por meio de uma mendiga. Algumas freiras tinham visto a mendiga no pátio do convento à espera da esmola de Teresa. Mas pensaram que aquela pobre era uma devoção da menina. As palavras irónicas da escrivã foram comentadas, e a mendiga recebeu ordem para sair da portaria. Quando Teresa soube isto, correu a uma janela, cheia de angústia. Chamou a pobre, que se ia embora assustada. E atirou-lhe para o pátio um bilhete com estas palavras: «A nossa correspondência é impossível. Vou ser tirada daqui para outro convento. Espera em Coimbra notícias minhas.» A prioresa soube disto logo. Por ordem dela, o hortelão partiu atrás da pobre. Seguiu-a até fora das portas, bateu-lhe e tirou-lhe o bilhete. Depois, a mando do convento, foi entregá-lo a Tadeu de Albuquerque. A mendiga não voltou para trás. Caminhou até casa do ferrador e contou a Simão o que tinha acontecido.

Simão saltou da cama e chamou João da Cruz. Naquele aperto, queria ouvir uma voz. Queria poder chamar amigo a um homem que lhe estendesse uma mão capaz de apertar o cabo de um punhal. O ferrador ouviu a história e deu a sua opinião: «esperar até ver». Simão recusou a frieza prudente do amigo e disse que partia para Viseu imediatamente.

Mariana estava ali. Tinha ouvido a conversa e achara certa a opinião do pai. Mas, vendo a impaciência do hóspede, pediu licença para falar onde não era chamada. E disse:

—Se o senhor Simão quiser, eu vou à cidade e procuro no convento a Brito. É uma rapariga minha conhecida, criada de uma freira. Dou-lhe uma carta sua para entregar à fidalga.

—Isso é possível, Mariana?!—exclamou Simão, quase a abraçar a moça.

—Pois então!—disse o ferrador.—O que se pode fazer, faz-se. Vai-te vestir, rapariga, que eu vou pôr a albarda à égua.

Simão sentou-se a escrever. As ideias vinham-lhe tão baralhadas que não conseguia encontrar o melhor plano para a situação dos dois. Depois de hesitar muito tempo, disse a Teresa que fugisse durante o dia, quando a porta estivesse aberta. Ou então que obrigasse a porteira a abrir-lha. Pedia-lhe que marcasse ela a hora do dia seguinte em que ele a devia esperar, com cavalos para a fuga. Em último caso, prometia atacar o mosteiro com homens armados. Ou pegar-lhe fogo, para se abrirem as portas. Este plano era o que mais se parecia com o espírito do académico: aquela pobre cabeça estava em fogo vivo! Depois de fechar a carta, começou a andar aos ziguezagues, como se obedecesse a impulsos contrários. Cravava as unhas na cabeça e arrancava cabelos. Batia com a cabeça nas paredes, como um cego. Sentava-se um momento, para se levantar com mais fúria. Sem pensar, agarrava nas pistolas e sacudia os braços, tonto. Abria a carta para a reler e estava quase a rasgá-la. Pensava que ia chegar tarde, ou que nem chegaria às mãos dela. No meio desta luta de planos contrários, Mariana entrou. Simão devia estar muito fora de si para não reparar nas lágrimas dela.

O que tu sofrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse moço é gratidão ao homem que salvou a vida do teu pai, que virtude tão rara a tua! Se o amas, se para lhe aliviar as dores tu mesma lhe abres o caminho por onde ele vai fugir de ti para sempre, que nome darei à tua virtude! Que anjo destinou o teu coração à santidade de um martírio escondido!

—Estou pronta—disse Mariana.

—Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça os possíveis por não vir sem resposta—disse Simão. E, com a carta, deu-lhe um embrulho de dinheiro.

—E o dinheiro também é para a senhora?—perguntou ela.

—Não, é para si, Mariana: compre um anel.

Mariana pegou na carta e virou as costas depressa. Não queria que Simão lhe visse a cara de despeito, se não de desprezo.

O académico não se atreveu a insistir. Viu-a descer à pressa para o quinteiro, onde o ferrador punha o freio à égua.

—Não lhe batas muito com a vara—disse João da Cruz a Mariana. Ela tinha-se sentado de um salto na albarda, coberta com uma colcha escarlate.—Tu vais amarela como uma cidra, moça!—exclamou ele, ao reparar na palidez da filha.—Que tens tu?

—Nada. Que hei de eu ter?! Dê-me cá a vara, meu pai.

A égua partiu a galope. O ferrador ficou no meio da estrada, todo orgulhoso da filha e da égua. E dizia para si mesmo, mas Simão ouviu:

—Vales mais tu, rapariga, do que todas as fidalgas que há em Viseu! Pela mais bonita, eu não dava a minha égua. E, se cá viesse o Miramolim de Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lha dava! Isto é que são mulheres, e o resto é conversa!

### Glossário

- **quartinho**: moeda antiga de ouro, que valia a quarta parte de uma moeda.
- **escrivaninha**: móvel com gavetas onde se escreve e se guardam papéis.
- **confeitos**: pequenos doces de açúcar.
- **professar**: fazer os votos para ser freira para sempre.
- **ir a perguntas**: ser interrogada formalmente antes de fazer os votos de freira.
- **cerca**: terreno com muro à volta do convento, com horta e jardim.
- **hortelão**: homem que trata da horta.
- **albarda**: sela simples, de pano grosso e palha, para animais de carga.
- **quinteiro**: pátio de uma casa do campo.
- **Miramolim de Marrocos**: nome antigo do rei dos mouros de Marrocos.

## X.

Mariana desceu da égua em frente do mosteiro e foi à portaria chamar a sua amiga Brito.

—Que boa moça!—disse o padre capelão. Estava ao ralo do lado da porta, a conversar com a prioresa. Falavam da salvação das almas e de uns pequenos barris de vinho do Pinhão. O padre tinha-os recebido naquele dia. Já tinha engarrafado um almude desse vinho para dar força ao estômago da prelada.

—Que boa moça!—repetiu ele, com um olho nela e outro no ralo. Ali, a prioresa, cheia de ciúmes, roía-se por dentro.

—Deixe lá a moça e diga quando há de ir a criada buscar o vinho.

—Quando quiser, senhora prioresa. Mas repare bem nos olhos, no corpo, em toda aquela rapariga!

—Pois repare o senhor padre João—respondeu a freira—que eu tenho mais que fazer.

E retirou-se com o coração ferido e o lábio de cima a escorrer lágrimas… de simonte.

—De onde é vossemecê?—perguntou o padre capelão, com doçura.

—Sou da aldeia—respondeu Mariana.

—Isso vejo eu. Mas de que aldeia é?

—Agora não me confesso.

—Mas não fazia mal confessar-se a mim, menina, que sou padre.

—Bem vejo.

—Que mau génio tem!…

—É isto que vê.

—Quem procura cá no convento?

—Já disse lá para dentro quem procuro.

—Mariana! És tu?! Anda cá!

A moça fez uma vénia com a cabeça ao padre capelão. E foi ao locutório, de onde vinha aquela voz.

—Eu queria falar contigo em particular, Joaquina—disse Mariana.

—Vou ver se arranjo uma grade. Espera aí.

O padre tinha saído do pátio. Enquanto esperava, Mariana olhou uma a uma para as janelas do mosteiro. Numa das janelas, através das grades de ferro, viu uma senhora sem hábito.

—Será aquela?—perguntou Mariana ao seu coração, que batia com força.—Se eu fosse amada como ela!…

—Sobe aquelas escadinhas, Mariana, e entra na primeira porta do corredor, que eu já lá vou—disse Joaquina.

Mariana deu alguns passos. Olhou outra vez para a janela onde tinha visto a senhora sem hábito e repetiu:

—Se eu fosse amada como ela!…

Mal entrou na grade, disse à amiga:

—Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, branca como leite, que estava ali agora a uma janela?

—Seria alguma noviça. Há cá duas muito lindas.

—Mas ela não tinha roupa nenhuma de freira.

—Ah! Já sei: é a D. Teresinha Albuquerque.

—Então não me enganei—disse Mariana, pensativa.

—Então tu conhece-la?

—Não. Mas foi por causa dela que eu vim cá falar contigo.

—Então que é?! Que tens tu a ver com a fidalga?

—Eu, cá por mim, nada. Mas conheço uma pessoa que gosta muito dela.

—O filho do corregedor?

—Esse mesmo.

—Mas esse está em Coimbra.

—Não sei se está, nem se não está. Fazes-me um favor?

—Se eu puder…

—Podes… Eu queria falar com ela.

—Ó diabo! Não sei se isso pode ser. As freiras trazem-na debaixo de olho, e ela vai-se embora amanhã.

—Para onde vai?

—Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os baús já estão prontos, e ela está morta por sair. E tu, que lhe queres?

—Não te posso dizer, porque não sei… Queria dar-lhe um papel… Faz com que ela venha cá, e eu dou-te chita para um vestido.

—Como tu estás rica, Mariana!…—interrompeu Joaquina, a rir.—Eu não quero a tua chita, rapariga. Se puder dizer-lhe que venha, sem ninguém me ouvir, digo-lho. E agora é boa ocasião, porque tocou para o coro… Deixa-me lá ir.

Joaquina saiu-se bem da difícil missão. Teresa estava sozinha, perdida nos seus pensamentos, com os olhos postos no sítio onde tinha visto Mariana.

—A menina faz favor de vir comigo, depressinha?—disse-lhe a criada.

Teresa seguiu-a e entrou na grade. Joaquina fechou-a e disse:

—Logo que puder, bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se perguntarem por Vossa Excelência, digo que a menina está no mirante.

A voz de Mariana tremia quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

—Trago esta carta para Vossa Excelência.

—É de Simão!—exclamou Teresa.

—Sim, minha senhora.

A reclusa leu a carta duas vezes, a tremer, e disse:

—Eu não lhe posso escrever, porque me roubaram o tinteiro e ninguém me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de Monchique, no Porto. Que não se aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque era inútil e muito perigoso. Que vá ver-me ao Porto, que eu hei de arranjar maneira de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?

—Sim, minha senhora.

—Não se esqueça, sim? Que não venha cá de maneira nenhuma. É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e o meu pai, e não sei quantos criados, para a bagagem e para as liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura que teria resultados terríveis. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse do lado de fora da porta:

—Menina! Olhe que a prioresa anda lá dentro à sua procura.

—Adeus, adeus—disse Teresa, assustada.—Tome esta lembrança, como prova da minha gratidão.

E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.

—Não aceito, minha senhora.

—Porque não aceita?

—Porque não fiz nenhum favor a Vossa Excelência. Se receber alguma paga, há de ser de quem me mandou cá. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá seja feliz.

Teresa saiu, e Joaquina entrou na grade.

—Já te vais embora, Mariana?

—Vou, que tenho pressa. Um dia venho conversar muito contigo. Adeus, Joaquina.

—Então não me contas o que é isto? O amor da fidalga está perto daqui? Conta, que eu não digo nada, rapariga!…

—Outra vez, outra vez. Obrigada, Joaquininha.

Durante a viagem rápida, Mariana foi repetindo o recado da fidalga. Quando se distraía deste exercício de memória, era para pensar nas feições da amada do seu hóspede. E dizia em segredo ao seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica. Além de tudo, é linda como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça dobrava-se ao que a consciência lhe ia dizendo, e chorava.

Simão espreitava o caminho por uma fresta do postigo do seu quarto. Ou escutava o barulho das patas do animal.

Quando viu Mariana, desceu ao quinteiro, sem cuidado nenhum. Já se tinha esquecido da ferida. E nesse dia, o oitavo depois do tiro, o perigo da ferida tinha piorado.

A filha do ferrador deu o recado, sem mudar uma palavra. Simão ouviu-a com calma até ao momento em que ela lhe disse que o primo Baltasar ia com Teresa para o Porto.

—O primo Baltasar!…—murmurou ele, com um sorriso sinistro.—Sempre este primo Baltasar a cavar a sua sepultura e a minha!…

—A sua, fidalgo?!—exclamou João da Cruz.—Morra ele, e que o levem trinta milhões de diabos! Mas Vossa Senhoria há de viver enquanto eu for João. Deixe-a ir para o Porto, que no convento não corre perigo. De hora a hora, Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra e fica lá algum tempo. E, de repente, quando o velho menos esperar, a fidalguinha engana-o, e é sua, como dois e dois são quatro.

—Eu hei de vê-la antes de partir para Coimbra—disse Simão.

—Olhe que ela me pediu muito que o senhor não fosse lá—disse logo Mariana.

—Por causa do primo?—perguntou o académico, com ironia.

—Acho que sim. E talvez porque não serviria de nada Vossa Senhoria ir lá—respondeu a moça, com timidez.

—Se ele quiser—gritou mestre João—a mulher vai-se-lhe tirar no caminho. Não há mais nada a dizer.

—Meu pai! Não meta este senhor em trabalhos maiores!—disse Mariana.

—Não há perigo, menina—interrompeu Simão.—Eu é que não quero meter ninguém em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que seja, hei de lutar sozinho.

João da Cruz pôs um ar sério, coisa que raramente se via na sua figura. E disse:

—Senhor Simão, Vossa Senhoria não sabe nada do mundo. Não meta a cabeça sozinho nos trabalhos. Como diz o outro, quando eles começam a enredar um homem, não o deixam respirar. Eu sou um homem do campo. Mas, por assim dizer, estou como aquele que dizia que as doenças dos seus burrinhos o fizeram alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem engorda com elas. Por causa de uma mulher, mesmo que seja filha do rei, um homem não se deve perder. Mulheres há tantas como a praga. São como as rãs no charco: mergulha uma, e aparecem quatro à superfície da água. Um homem rico e fidalgo como Vossa Senhoria encontra em qualquer lado uma com uma cara tão bonita como quiser. E com um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca. Se ela tiver de ser sua, há de vir-lhe parar à mão. Tanto faz andar para trás como para a frente, é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo. Tome atenção: João da Cruz sabe o que é pôr dois homens de uma vez a olhar para o sete-estrelo. Mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo e a um regimento, se for preciso, eu monto na égua. E daqui a três horas estou de volta com quatro homens que são quatro dragões.

Simão olhava com olhos de fogo para os olhos do ferrador. E Mariana exclamou, a juntar as mãos sobre o peito:

—Meu pai! Não lhe dê esses conselhos!…

—Cala-te aí, rapariga!—disse mestre João.—Vai tirar a albarda à égua, tapa-a com a manta e dá-lhe comida seca. Ninguém te chamou aqui.

—Não vá aflita, senhora Mariana—disse Simão à moça, que se retirava amargurada.—Eu não vou seguir nenhum dos conselhos do seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que me quer bem. Mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselharem.

Ao anoitecer, como estava sozinho, Simão escreveu uma carta longa. Dela tiramos as seguintes partes:

«Considero-te perdida, Teresa. Talvez eu não veja o sol de amanhã. Tudo, à minha volta, tem uma cor de morte. Parece que o frio da minha sepultura me está a passar o sangue e os ossos.

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não aceita a desgraça. Eras a minha vida. Tinha a certeza de que as contrariedades não me tiravam de ti. Só o medo de te perder me mata. O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não consigo suportá-la.

Poderia viver com a paixão infeliz. Mas este ódio sem vingança é um inferno. Não hei de vender barata a vida, não. Ficarás sem mim, Teresa. Mas não haverá aí um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho ciúmes de todas as tuas horas. Hás de pensar com muita saudade no teu esposo do céu. E nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para veres ao pé de ti o miserável que nos matou a realidade de tantas esperanças bonitas.

Tu vais ver esta carta quando eu já estiver noutro mundo, à espera das orações das tuas lágrimas. As orações! Espanto-me com esta faísca de fé que me ilumina nas minhas trevas!… Com o amor, tu deste-me a religião, Teresa. Ainda acredito. Não se apaga a luz que é tua. Mas a providência divina abandonou-me.

Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, porque é que me atraíste para um abismo. Ouvirás com glória a voz do mundo a dizer que eras digna de mim.

À hora em que leres esta carta…………»

As lágrimas não o deixaram continuar, e depois também não o deixou a presença de Mariana. Ela vinha pôr a mesa para a ceia. Enquanto desdobrava a toalha, disse em voz abafada, como se falasse só para si:

—É a última vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!

—Porque diz isso, Mariana?

—Porque mo diz o coração.

Desta vez, o académico pensou com superstição no que o coração da moça lhe dizia. E, com o seu silêncio pensativo, deu-lhe antes do tempo a prova de que a profecia era certa.

Quando voltou com a travessa da galinha, a filha de João da Cruz vinha a chorar.

—Chora com pena de mim, Mariana?—perguntou Simão, comovido.

—Choro, porque me parece que não o vou voltar a ver. Ou, se o vir, será de uma maneira que mais valia eu morrer antes.

—Talvez não seja assim, minha amiga…

—Vossa Senhoria não me faz uma coisa que eu lhe peço?…

—Veremos o que pede, menina.

—Não saia esta noite, nem amanhã.

—Pede o impossível, Mariana. Hei de sair, porque, se não saísse, matava-me.

—Então perdoe o meu atrevimento. Deus o tenha na sua mão.

A rapariga foi contar ao pai as intenções do académico. Mestre João veio logo combater a ideia da saída, falando muito dos perigos da ferida. Depois, como não o conseguiu convencer, decidiu ir com ele. Simão agradeceu a companhia, mas recusou-a com firmeza. O ferrador não desistia. Já estava a preparar a clavina e a dar à égua ração a dobrar, «para o que desse e viesse», dizia ele. Foi então que o estudante lhe disse que tinha mudado de ideias. Pensara melhor e já não ia a Viseu. Ia seguir Teresa para o Porto, depois de passarem os dias da convalescença. João da Cruz acreditou facilmente. Mas Mariana, sempre obediente ao que o coração lhe segredava, duvidou da mudança. E disse ao pai que vigiasse o fidalgo.

Às onze horas da noite, o académico levantou-se e escutou os movimentos dentro de casa. Não ouviu o mais pequeno barulho, a não ser a égua a ranger na manjedoura. Pôs pólvora nova nas duas pistolas. Escreveu um bilhete dirigido a João da Cruz e juntou-o à carta que tinha escrito a Teresa. Abriu as portadas da janela do quarto e passou dali para a varanda de pau. Da varanda, o salto para a estrada não tinha perigo. Saltou. Tinha dado alguns passos, quando a pequena janela ao lado da porta da varanda se abriu. E a voz de Mariana disse-lhe:

—Então adeus, senhor Simão. Eu fico a pedir a Nossa Senhora que vá na sua companhia.

O académico parou e ouviu uma voz dentro de si a dizer-lhe: «O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher. Ela não tem outra inteligência senão a do coração, iluminado pelo seu amor.»

—Dê um abraço ao seu pai, Mariana—disse-lhe Simão.—E adeus… até logo, ou…

—Até ao juízo final…—interrompeu ela.

—O destino há de cumprir-se… Seja o que o céu quiser.

Simão tinha desaparecido nas trevas quando Mariana acendeu a lamparina do oratório. E ajoelhou-se a rezar, com o fervor das lágrimas.

Era uma hora, e Simão estava em frente do convento, a olhar uma a uma para as janelas. Em nenhuma viu um clarão de luz. A única luz era a da lâmpada do Santíssimo, que passava fraca e pálida pelo vidro de uma janela estreita da igreja. Sentou-se nos degraus da igreja e, ali imóvel, ouviu bater as quatro horas. Muitas visões lhe passaram pelo espírito atormentado. A que mais se repetia era a de Mariana a suplicar, de mãos postas. Mas, ao mesmo tempo, ele julgava ouvir os gemidos de Teresa. Ela estava torturada pela saudade e pedia ao céu que a salvasse das mãos dos seus carrascos. A figura de Tadeu de Albuquerque, a arrastar a filha para um convento, não lhe acendia a sede de vingança. Mas, cada vez que lhe vinha à cabeça a imagem odiosa de Baltasar Coutinho, as mãos do académico, sem ele pensar, procuravam as pistolas.

Às quatro horas e um quarto, toda a natureza acordou em hinos e aplausos à luz da madrugada. Os passarinhos cantavam na cerca do mosteiro. As suas melodias eram interrompidas pelo toque solene das Ave-Marias na torre. O horizonte tinha passado de vermelho a esbranquiçado. A cor púrpura da aurora, como uma chama enorme, desfez-se em partículas de luz. Essas partículas ondulavam pelas encostas das montanhas e espalhavam-se pelas planícies e pelos campos. Era como se o anjo do Senhor, à voz de Deus, viesse mostrar às criaturas as maravilhas do nascer de um dia de verão.

E nenhuma destas belezas do céu e da terra encantava os olhos do jovem poeta!

Às quatro horas e meia, Simão ouviu o tilintar de liteiras que se dirigiam para ali. Mudou de sítio e foi para uma rua estreita, em frente do convento.

As liteiras vazias pararam na portaria. Logo depois chegaram três senhoras vestidas para viagem, que deviam ser as irmãs de Baltasar. Vinham acompanhadas de dois mochilas, que traziam as mulas pela rédea. As damas foram sentar-se nos bancos de pedra, ao lado da portaria. Depois, a porta grossa abriu-se, a ranger nas dobradiças, e as três senhoras entraram.

Momentos depois, Simão viu chegar à portaria Tadeu de Albuquerque, apoiado no braço de Baltasar Coutinho. O velho mostrava, de vez em quando, cansaço e fraqueza. O de Castro Daire tinha boa figura e estava vestido com cuidado, à moda castelhana. Gesticulava com a segurança de quem dá razões que ninguém pode negar. E consolava o tio, rindo-se da dor dele.

—Nada de lamúrias, meu tio!—dizia ele.—Desgraça seria vê-la casada! Prometo-lhe que, antes de um ano, lha devolvo curada. Um ano de convento é um ótimo vomitório do coração. Não há nada como isso para limpar a sujidade do vício nos corações das meninas criadas com demasiada liberdade. Se o meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediência cega, agora ela era submissa. E não se julgaria com direito a escolher marido.

—Era uma filha única, Baltasar!—dizia o velho, a soluçar.

—Pois por isso mesmo—respondeu o sobrinho.—Se tivesse outra, sentiria menos a perda, e a desobediência seria menos grave. Fazia a sua casa na filha mais querida, mesmo que tivesse de pedir ao rei licença para deserdar a mais velha. Assim, agora, não vejo outro remédio senão queimar a ferida com ferro quente. Com pomadas é que não se faz nada.

A portaria abriu-se outra vez. Saíram as três senhoras e, atrás delas, Teresa.

Tadeu limpou as lágrimas e deu alguns passos para cumprimentar a filha. Ela não levantou os olhos do chão.

—Teresa…—disse o velho.

—Aqui estou, senhor—respondeu a filha, sem olhar para ele.

—Ainda vais a tempo—continuou Albuquerque.

—A tempo de quê?

—A tempo de seres boa filha.

—A minha consciência não me acusa de não o ser.

—Ainda mais?!… Queres ir para tua casa e esquecer o maldito que nos torna a todos desgraçados?

—Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo, nem depois de morta. Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.

Teresa olhou à sua volta e viu Baltasar. Estremeceu e exclamou:

—Nem aqui!

—Fala comigo, prima Teresa?—disse Baltasar, a sorrir.

—Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua presença odiosa?

—Sou um dos criados que a minha prima leva na sua companhia. Ainda há dias eu tinha dois, dignos de acompanharem a minha prima. Mas houve aí um assassino que mos matou. Na falta deles, sou eu que me ofereço.

—Dispenso a sua delicadeza—respondeu Teresa com força.

—Eu é que não me dispenso de a servir, na falta dos meus dois criados fiéis, que um criminoso me matou.

—Assim devia ser—respondeu ela, também com ironia—porque os covardes escondem-se atrás dos criados, que se deixam matar.

—Ainda não se fizeram as contas finais…, minha querida prima—respondeu o morgado.

Esta conversa passou-se depressa, enquanto Tadeu de Albuquerque cumprimentava a prioresa e outras freiras. As quatro senhoras, seguidas por Baltasar, tinham saído do átrio do convento. E deram de cara com Simão Botelho, encostado à esquina da rua em frente.

Teresa viu-o… Adivinhou-o, antes de todos, e exclamou:

—Simão!…

O filho do corregedor não se mexeu.

Baltasar ficou aterrado com o encontro. Olhava para ele e ainda duvidava.

—Será possível que esse infame tenha vindo aqui!—exclamou o de Castro Daire.

Simão deu alguns passos e disse calmamente:

—*Infame…* eu! E porquê?

—Infame, e infame assassino!—respondeu Baltasar.—Fora já da minha presença!

—Este homem é parvo!—disse o académico.—Eu não discuto com Sua Senhoria… Minha senhora—disse ele a Teresa. Tinha a voz comovida, e só os sentimentos do coração lhe mudavam a cara.—Sofra com resignação, e eu estou a dar-lhe o exemplo. Leve a sua cruz sem amaldiçoar a violência. E pode bem ser que, a meio do caminho do seu calvário, a misericórdia divina lhe dobre as forças.

—Que diz este patife?!—exclamou Tadeu.

—Vem aqui insultá-lo, meu tio!—respondeu Baltasar.—Tem o descaramento de se apresentar à sua filha para a confortar na sua maldade! Isto é demais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilão!

—Vilão é o desgraçado que me ameaça e não se atreve a dar um passo na minha direção—respondeu o filho do corregedor.

—Se não o fiz—gritou Baltasar, furioso—é porque acho que me rebaixo se te castigar diante dos criados do meu tio. Tu podias pensar que eles eram os meus defensores, canalha!

—Se é assim—respondeu Simão, a sorrir—espero nunca encontrar Sua Senhoria cara a cara. Considero-o tão covarde e tão sem dignidade que o hei de mandar chicotear pelo primeiro carregador das esquinas.

Baltasar Coutinho atirou-se de repente a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta com as mãos. Mas depressa perdeu a força nos dedos. Quando as damas conseguiram meter-se entre os dois, Baltasar tinha o alto da cabeça aberto por uma bala, que lhe entrara pela testa. Vacilou um segundo e caiu, sem apoio, aos pés de Teresa.

Tadeu de Albuquerque gritava muito alto. Os homens das liteiras e os criados rodearam Simão, que mantinha o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos gritos do velho, iam atirar-se ao assassino, mesmo com risco de vida. Nesse momento, um homem com um lenço a tapar a cara veio a correr da rua em frente. E pôs-se ao lado de Simão, com o bacamarte aperrado. Os homens pararam.

—Fuja, que a égua está ao fundo da rua—disse o ferrador ao seu hóspede.

—Não fujo… Salve-se, e depressa—respondeu Simão.

—Fuja, que o povo está a juntar-se, e os soldados não tardam aí.

—Já lhe disse que não fujo—respondeu o amante de Teresa. Tinha os olhos postos nela, que tinha caído desmaiada nos degraus da igreja.

—Está perdido!—disse João da Cruz.

—Já estava. Vá-se embora, meu amigo, peço-lho pela sua filha. Olhe que ainda me pode ser útil. Fuja…

Abriam-se todas as portas e janelas, quando o ferrador fugiu e montou na égua.

Um dos vizinhos do mosteiro foi o primeiro a sair à rua, por causa da sua profissão. Era o meirinho geral.

—Prendam-no, prendam-no, que é um assassino!—gritava Tadeu de Albuquerque.

—Qual?—perguntou o meirinho geral.

—Sou eu—respondeu o filho do corregedor.

—Vossa Senhoria!—disse o meirinho, espantado. E, aproximando-se, acrescentou a meia voz:—Venha, que eu deixo-o fugir.

—Eu não fujo—respondeu Simão.—Estou preso. Aqui tem as minhas armas.

E entregou as pistolas.

Quando se recompôs do choque, Tadeu de Albuquerque mandou levar a filha para uma das liteiras. E ordenou que dois criados a acompanhassem ao Porto.

As irmãs de Baltasar seguiram o cadáver do irmão para casa do tio.

### Glossário

- **ralo / grade**: grade de ferro onde as freiras falam com as visitas.
- **almude**: antiga medida de vinho, com mais ou menos vinte litros.
- **simonte**: tabaco em pó que se cheira pelo nariz.
- **locutório**: sala das visitas num convento.
- **chita**: tecido de algodão barato, com flores ou desenhos de cores.
- **mirante**: sala ou terraço alto de onde se vê a paisagem.
- **sete-estrelo**: grupo de estrelas; «pôr a olhar o sete-estrelo» é deitar por terra, matar.
- **dragões**: soldados de cavalaria muito fortes e valentes.
- **mochilas**: criados que acompanham os viajantes e tratam das mulas.
- **meirinho geral**: oficial que prendia pessoas por ordem da justiça.
- **bacamarte**: arma de fogo antiga, de cano curto e largo.

## I.

### SEGUNDA PARTE

O corregedor acordou com a grande confusão que havia em casa. Perguntou à esposa o que era aquele barulho. Julgava que ela também estava acordada, no quarto ao lado. Como ninguém lhe respondeu, tocou a campainha com força e, ao mesmo tempo, começou a gritar. Estava aterrado com a ideia de haver um incêndio em casa. Quando D. Rita chegou, ele já estava a vestir os calções do avesso.

—Que barulho é este? Quem é que grita?—exclamou Domingos Botelho.

—Quem grita mais é o senhor—respondeu D. Rita.

—Sou eu!? Mas quem é que chora?

—São as suas filhas.

—E porquê? Diga numa palavra.

—Pois sim, digo: o Simão matou um homem.

—Em Coimbra?… E fazem tanto barulho por isso!

—Não foi em Coimbra, foi em Viseu—respondeu D. Rita.

—A senhora está a gozar comigo?! Então o rapaz está em Coimbra e mata em Viseu! Aí está um caso que as Ordenações do Reino não previram.

—Parece que está a brincar, Meneses! O seu filho matou esta madrugada Baltasar Coutinho, sobrinho do Tadeu de Albuquerque.

Domingos Botelho mudou completamente de cara.

—Foi preso?—perguntou o corregedor.

—Está em casa do juiz de fora.

—Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa morte?!… Mande chamar o meirinho, sem demora.

—Porque é que o senhor não se veste e não vai a casa do juiz?

—Que vou eu fazer a casa do juiz?

—Saber pelo seu filho como isto foi.

—Eu não sou pai: sou corregedor. Não me cabe a mim interrogá-lo. Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras. Diga às meninas que se calem, ou que vão chorar para o quintal.

O meirinho foi chamado e contou em pormenor o que sabia. Disse que já se tinha confirmado a causa daquela desgraça: o amor pela filha do Albuquerque.

Depois de ouvir a história, Domingos Botelho disse ao meirinho:

—O juiz de fora que cumpra as leis. Se ele não for rigoroso, eu obrigo-o a sê-lo.

Quando o meirinho saiu, D. Rita Preciosa disse ao marido:

—O que quer dizer essa maneira de falar do seu filho?

—Quer dizer que sou corregedor desta comarca. E que não protejo assassinos por ciúmes. Ainda por cima, ciúmes por causa da filha de um homem que eu detesto. Eu preferia ver Simão morto mil vezes a vê-lo ligado a essa família. Escrevi-lhe muitas vezes a dizer que o expulsava de minha casa, se alguém me garantisse que ele se correspondia com essa mulher. A senhora não há de querer que eu sacrifique a minha integridade por um filho desobediente. E, ainda por cima, assassino.

D. Rita discutiu durante muito tempo. Fê-lo um pouco por amor de mãe e bastante por espírito de contradição. Mas acabou por desistir, perante a teimosia e a raiva invulgares do marido. Nunca o tinha visto tão furioso e com palavras tão duras. Ele disse-lhe: «Senhora, em coisas de pouca importância, o seu domínio era tolerável. Em questões de honra, o seu domínio acabou. Deixe-me!» Quando ouviu isto e olhou para a cara de Domingos Botelho, D. Rita sentiu-se mulher e retirou-se.

Foi nesse momento que o juiz de fora entrou na sala de espera. O corregedor foi recebê-lo. Mas não ia com a cara amável de quem vai agradecer a delicadeza e pedir indulgência. Ia tão carrancudo que parecia ir repreender o juiz. Era como se a visita desse a entender que a balança da justiça às vezes lhe tremia na mão.

—Começo por dar a Vossa Senhoria os meus sentimentos pela desgraça do seu filho—disse o juiz de fora.

—Obrigado. Sei tudo. O processo já começou?

—Eu não podia deixar de aceitar a querela.

—Se não a aceitasse, eu obrigá-lo-ia a cumprir os seus deveres.

—A situação do senhor Simão Botelho é péssima. Confessa tudo. Diz que matou o carrasco da mulher que amava…

—Fez muito bem—interrompeu o corregedor, com uma pequena gargalhada seca e rouca.

—Perguntei-lhe se foi em legítima defesa. E fiz-lhe sinal para responder que sim. Respondeu que não. Disse que, para se defender, usaria a ponta da bota e não um tiro. Procurei todas as maneiras honestas de o levar a dar respostas que mostrassem loucura ou delírio. Mas ele responde com tanta calma e tanta presença de espírito que é impossível pensar outra coisa. O crime foi cometido com toda a intenção e em perfeito juízo. Aqui tem Vossa Senhoria uma posição muito especial e triste. Eu queria ajudá-lo e não posso.

—E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fora. Ele está na cadeia?

—Ainda não. Está em minha casa. Venho saber se Vossa Senhoria quer que lhe preparem uma prisão decente.

—Eu não mando nada. Faça de conta que o preso Simão não tem aqui nenhum parente.

—Mas, senhor doutor corregedor—disse o juiz de fora, triste e com pena—Vossa Senhoria é pai.

—Sou um magistrado.

—A severidade é demasiada. Perdoe-me o comentário, que é de amigo. A lei lá está para o castigar. Não o castigue Vossa Excelência com o seu ódio. A desgraça quebra o ódio dos estranhos. Quanto mais o ressentimento cheio de afeto de um pai!

—Eu não odeio, senhor doutor. Não conheço esse homem de quem me fala. Cumpra os seus deveres, que o corregedor lho ordena. E, mais tarde, o amigo há de agradecer-lhe a delicadeza.

O juiz de fora saiu. Foi encontrar Simão com a mesma calma com que o tinha deixado.

—Venho de falar com o seu pai—disse o juiz.—Encontrei-o mais zangado do que era natural esperar. Penso que, por enquanto, não pode esperar nada da influência ou da proteção dele.

—Que importa isso?—respondeu Simão com calma.

—Importa muito, senhor Botelho. Se o seu pai quisesse, havia maneiras de, mais tarde, lhe tornar a sentença mais leve.

—Que me importa a mim a sentença?—respondeu o filho do corregedor.

—Pelo que vejo, não se importa de ir para a forca?

—Não, senhor.

—Que diz, senhor Simão!—respondeu o juiz, espantado.

—Digo que o meu coração é indiferente ao destino da minha cabeça.

—E sabe que o seu pai nem sequer lhe dá proteção? Nem a proteção das primeiras necessidades na cadeia?

—Não sabia. Que tem isso? Que importa morrer de fome ou morrer na forca?

—Porque não escreve à sua mãe? Peça-lhe que…

—Que hei de eu pedir à minha mãe?—interrompeu Simão.

—Peça-lhe que acalme a raiva do seu pai. Se não, o senhor Botelho não tem quem o alimente.

—Vossa Senhoria está a julgar-me um miserável, preocupado em saber onde vai almoçar hoje. Penso que essas miudezas do estômago não são assunto do senhor juiz de fora.

—Com certeza que não—respondeu o juiz, irritado.—Faça o que quiser.

E chamou o meirinho geral e entregou-lhe o réu. Dispensou o oficial de pedir guardas para o acompanhar.

O carcereiro recebeu o preso com respeito. Pô-lo num dos melhores quartos da cadeia. Mas o quarto estava nu e vazio de tudo.

Outro preso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou os braços e ficou a pensar.

Pouco depois, um criado do pai trouxe-lhe o almoço. Disse que era a mãe que lho mandava às escondidas. E entregou-lhe uma carta dela, cujo conteúdo é importante conhecer. Antes de tocar no almoço, cujo cesto estava no chão, Simão leu o seguinte:

«Desgraçado, que estás perdido!

Eu não te posso ajudar, porque o teu pai não tem piedade. É às escondidas dele que te mando o almoço. E não sei se te poderei mandar o jantar!

Que destino o teu! Oxalá tivesses morrido ao nascer!

Disseram-me que tinhas nascido morto. Mas o teu destino fatal não quis largar a vítima \[3\].

Para que saíste de Coimbra? A que vieste, infeliz? Agora sei que vives fora de Coimbra há quinze dias, e nunca tiveste uma palavra para dizer à tua mãe!…»

Simão parou de ler e disse para si mesmo:

—Como se entende isto?! Então a minha mãe não mandou chamar João da Cruz? E não foi ela que me mandou o dinheiro?

—Olhe que o almoço arrefece, menino!—disse o criado.

Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:

«Deves estar sem dinheiro. E eu, infelizmente, hoje não te posso mandar um pinto. O teu irmão Manuel, desde que fugiu para Espanha, leva-me todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer. Mas tenho muito medo de que o teu pai saia de Viseu e nos leve para Vila Real. Assim abandona completamente o teu julgamento à severidade das leis.

Meu pobre Simão! Onde estiveste escondido quinze dias?! Foi hoje mesmo que o teu pai recebeu a carta de um lente. Contava que faltavas às aulas e que tinhas ido para o Porto, segundo dizia o arrieiro que te acompanhou.

Não posso mais. O teu pai já bateu à Ritinha, porque ela queria ir à cadeia.

Conta com a pouca força da tua pobre mãe ao pé de um homem tão furioso como está o teu pai.»

Simão Botelho pensou alguns minutos e convenceu-se de que o dinheiro recebido era de João da Cruz. Quando saiu destes pensamentos, tinha os olhos cheios de lágrimas.

—Não chore, menino—disse o criado.—Os trabalhos são para os homens, e Deus há de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.

—Leva o almoço—disse ele.

—Então não quer almoçar?!

—Não. E não voltes cá. Eu não tenho família. Não quero absolutamente nada da casa dos meus pais. Diz à minha mãe que estou sossegado, bem instalado, feliz e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.

O criado saiu e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava doido. D. Rita achou que a suspeita do criado era provável. E viu nas palavras do filho a prova da loucura.

Quando o carcereiro voltou ao quarto de Simão, vinha acompanhado de uma rapariga do campo. Era Mariana. Até àquele momento, a filha de João da Cruz nem sequer apertava a mão do hóspede. Agora correu para ele de braços abertos e com a cara banhada em lágrimas. O carcereiro retirou-se, a dizer para si mesmo: «Esta é bem mais bonita do que a fidalga!»

—Não quero ver lágrimas, Mariana—disse Simão.—Aqui, se alguém deve chorar, sou eu. Mas lágrimas dignas de mim, lágrimas de gratidão pelos favores que recebi de si e do seu pai. Acabo de saber que a minha mãe nunca me mandou dinheiro nenhum. Era do seu pai aquele dinheiro que recebi.

Mariana escondeu a cara no avental com que limpava as lágrimas.

—O seu pai correu algum perigo?—perguntou Simão, numa voz que só ela podia ouvir.

—Não, senhor.

—Está em casa?

—Está. E parece furioso. Queria vir aqui, mas eu não o deixei.

—Alguém o perseguiu?

—Não, senhor.

—Diga-lhe que não se assuste. E vá depressa sossegá-lo.

—Eu não posso ir sem fazer o que ele me disse. Vou sair e volto daqui a pouco.

—Mande-me comprar uma mesa, uma cadeira, um tinteiro e papel—disse Simão, a dar-lhe dinheiro.

—Vai já tudo chegar. Já cá podia estar. Mas o pai disse-me que não comprasse nada sem saber se a sua família lhe mandava o necessário.

—Eu não tenho família, Mariana. Tome o dinheiro.

—Não recebo dinheiro sem licença do meu pai. Para essas compras, trouxe eu que chegue. E a sua ferida, como estará?

—Só agora me lembro de que tenho uma ferida!—disse Simão, a sorrir.—Deve estar boa, porque não me dói… Soube alguma coisa de D. Teresa?

—Soube que foi para o Porto. Estavam ali a contar que o pai a mandou meter na liteira sem sentidos. E está muito povo à porta do fidalgo.

—Está bem, Mariana… Não há desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu hóspede. Seja o seu anjo de misericórdia.

As lágrimas voltaram a saltar dos olhos da moça. E, entre soluços, disse estas palavras:

—Tenha paciência. Não há de morrer abandonado. Faça de conta que hoje lhe apareceu uma irmã.

E, dizendo isto, tirou dos bolsos largos um embrulho de biscoitos e uma garrafa de licor de canela. Pô-los em cima da cadeira.

—É um mau almoço, mas não encontrei mais nada pronto—disse ela. E saiu à pressa, como para poupar ao infeliz as palavras de agradecimento.

### Glossário

- **corregedor**: juiz importante que governava a justiça de uma região.
- **juiz de fora**: juiz enviado pelo rei para uma vila ou cidade.
- **meirinho geral**: oficial que prendia pessoas por ordem da justiça.
- **Ordenações do Reino**: o grande livro das leis de Portugal daquele tempo.
- **querela**: queixa contra alguém num tribunal.
- **legítima defesa**: fazer mal a alguém para se defender de um ataque.
- **réu**: pessoa acusada num tribunal.
- **carcereiro**: homem que guarda os presos numa cadeia.
- **lente**: professor da universidade.
- **pinto**: moeda antiga de pouco valor.

## II.

Nesse mesmo dia, o corregedor mandou que a mulher e as filhas se preparassem para sair de Viseu no dia seguinte. Deviam levar tudo o que pudesse ser transportado em cavalos e mulas.

Vou copiar a recordação simples e dolorosa de uma senhora daquela família. Tenho-a numa carta que recebi há alguns meses:

«Já lá vão cinquenta e sete anos, e ainda me lembro dos tristes acontecimentos da minha juventude como se fossem de ontem. Não sei porque é que hoje tenho a memória mais clara das coisas da infância. Parece-me que, há trinta anos, não me lembrava delas com tantas circunstâncias e pormenores.

Quando a mãe disse a mim e às minhas irmãs que preparássemos os nossos baús, desatámos todas a chorar. Isso aumentou a raiva do pai. As manas, por serem mais velhas ou mais habituadas ao castigo, calaram-se logo. Mas eu só tinha sido castigada uma vez, e só por causa de Simão. Por isso continuei a chorar. E tive a coragem inocente de pedir ao pai que me deixasse ir ver o mano à cadeia, antes de sairmos de Viseu.

Então fui castigada pela segunda vez, e com dureza.

O criado que levou o jantar à cadeia voltou com ele. Contou-nos que Simão já tinha alguns móveis no quarto e estava a jantar com um ar sossegado. Àquela hora, todos os sinos de Viseu tocavam a finados pela alma de Baltasar.

O criado disse que, ao lado dele, estava uma bonita rapariga da aldeia, triste e coberta de lágrimas. O criado olhava para ela, e Simão apontou-lha e disse: «A minha família é esta.»

No dia seguinte, ao nascer do dia, partimos para Vila Real. A mãe chorava sempre. O pai ficou furioso com isso. Saiu da liteira onde vinha com ela, mandou-me passar para o lugar dele e fez toda a viagem no meu cavalo.

Logo que chegámos a Vila Real, havia tantas brigas em casa por causa do Simão que o meu pai abandonou a família. Foi viver sozinho para a quinta de Montezelos. A mãe também nos quis deixar e ir para casa dos primos de Lisboa. Queria pedir a libertação do mano. Mas o pai tinha mudado espantosamente de génio. Quando soube disto, ameaçou a minha mãe de a obrigar pela justiça a não sair da casa do marido e das filhas.

A mãe escrevia a Simão e não recebia resposta. Pensava que o filho não respondia. Anos depois, encontrámos entre os papéis do meu pai todas as cartas que ela tinha escrito. Já se vê que o pai as mandava tirar do correio.

Uma senhora de Viseu escreveu à mãe. Elogiava-a pelo grande amor e pela caridade com que ajudava o seu infeliz filho nas suas necessidades. Esta carta foi-lhe entregue por um almocreve. Se não, teria tido o destino das outras. A minha mãe espantou-se com a ideia que a amiga fazia dela. E confessou-lhe que não o tinha ajudado, porque o filho recusara o pouco que ela quisera fazer por ele. A senhora de Viseu respondeu-lhe que vivia perto da cadeia uma rapariga, filha de um ferrador. Ela tratava do preso sem lhe deixar faltar nada, e com limpeza. E dizia a toda a gente que estava ali por ordem e à custa da senhora D. Rita Preciosa. A amiga da minha mãe acrescentava que algumas vezes tinha mandado chamar a bela moça. Quisera dar-lhe uns cozinhados mais finos para Simão. Mas ela recusava-os e dizia que o senhor Simão não aceitava nada.

De tempos a tempos, recebíamos estas notícias, sempre tristes, porque, na ausência do meu pai, quase todas as pessoas importantes de Viseu conspiravam contra o meu desgraçado irmão, como era de esperar.

A mãe escrevia aos seus parentes da capital, a pedir o perdão do rei para o filho. Mas essas cartas não saíam do correio. Iam todas parar às mãos do meu pai.

E o que fazia ele, entretanto, na quinta, sem família, sem glória, sem nenhuma recompensa por tantas faltas? Rodeado de trabalhadores do campo, cultivava aquela grande propriedade no monte. Ainda hoje, no meio do tojo e da urze que voltaram com o abandono, se podem ver restos das videiras que ele plantou. A mãe escrevia-lhe com pena do filho. O meu pai só respondia que a justiça não era uma brincadeira. E que, na Antiguidade, eram os próprios pais que condenavam os filhos criminosos.

Um dia, a minha mãe teve a coragem de se apresentar diante dele. Pediu-lhe licença para ir a Viseu. O meu pai, sem piedade, recusou e insultou-a com fúria.

Passados sete meses, soubemos que Simão tinha sido condenado a morrer na forca, levantada no sítio onde tinha matado. Fecharam-se as janelas durante oito dias. Vestimo-nos todas de luto, e a minha mãe adoeceu.

Quando isto se soube em Vila Real, todas as pessoas ilustres da terra foram a Montezelos. Queriam convencer o pai, com brandura, a usar a sua influência para salvar o filho condenado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar contra a vergonha que uma desonra tão grande ia trazer à família. O meu pai respondia a todos com estas palavras: «A forca não foi inventada só para os que não sabem o nome do avô. A vergonha das famílias são as más ações. A justiça só desonra aquele que castiga.»

Nós tínhamos um tio-avô muito velho e respeitado, chamado António da Veiga. Foi ele quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se ao meu pai e disse-lhe: "Deus guardou-me a vida até aos oitenta e três anos. Poderei viver mais dois ou três? Isto já nem é vida. Mas foi vida, e honrada, e sem mancha até agora. E agora há de acabar assim. Os meus olhos não hão de ver a desonra da tua família. Domingos Botelho, ou me prometes aqui que salvas o teu filho da forca, ou eu mato-me na tua presença." E, dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. O meu pai segurou-lhe o braço e disse que Simão não seria enforcado.

No dia seguinte, o meu pai foi para o Porto, onde tinha muitos amigos na Relação, e de lá para Lisboa\[4\].

No princípio de Março de 1805, a minha mãe soube, com grande alegria, que Simão tinha sido mudado para as cadeias da Relação do Porto. Foi preciso vencer os grandes obstáculos que os queixosos puseram a essa mudança. Os queixosos eram Tadeu de Albuquerque e as irmãs do morto.

Depois……»

Paramos aqui a cópia da carta. Não queremos contar antes do tempo acontecimentos que, por respeito à arte, devem ser ligados ao fio que ficou cortado.

Simão Botelho viu chegar o dia do julgamento sem se perturbar. Sentou-se no banco dos assassinos sem advogado e sem testemunhas de defesa. Respondeu às perguntas com a mesma frieza das respostas que dera ao juiz no interrogatório. Obrigado a explicar a causa do crime, explicou-a com toda a lealdade. Mas não disse o nome de Teresa Clementina de Albuquerque. Quando o advogado da acusação disse esse nome, Simão Botelho levantou-se de repente e exclamou:

—Que vem fazer o nome de uma senhora a este antro de infâmia e de sangue? Que acusador miserável está aí, que não sabe provar a necessidade do carrasco com a confissão do réu, sem sujar a reputação de uma mulher? A minha acusação está feita: fui eu que a fiz. Agora, que fale a lei, e que se cale o vilão que não sabe acusar sem desonrar.

O juiz mandou-o calar. Simão sentou-se, a murmurar:

—Miseráveis, todos!

O réu ouviu a sentença: «morte natural para sempre na forca levantada no local do crime». Ao mesmo tempo, ouviram-se no meio da multidão uns gritos de cortar o coração. Simão voltou a cara para a multidão e disse:

—Ides ter um belo espetáculo, senhores! A forca é a única festa do povo! Levai daí essa pobre mulher que chora. É a única criatura para quem o meu suplício não será um passatempo.

Mariana foi levada nos braços para a sua casinha, perto da cadeia. Os braços fortes que a levaram eram os do pai.

Simão Botelho ia do tribunal para a cadeia com toda a agilidade e a força dos dezoito anos. Pelo caminho, ouviu algumas vozes que se alternavam assim:

—Quando é que ele vai padecer?

—É bem feito! Vai pagar pelos inocentes que o pai mandou enforcar.

—Queria apanhar a morgada à força de balas!

—Pois estes fidalgos pensam que basta matar!…

—Matasse ele um pobre, e tu verias como ele estava em casa!

—Também é verdade!

—E como ele vai de cara no ar!

—Deixa-o ir, que não tarda quem lha faça cair ao chão!…

—Dizem que o carrasco já vem a caminho.

—Já chegou de noite, e trazia dois cutelos num saco.

—Tu viste-o?

—Não. Mas disse a minha comadre que lho tinha dito a vizinha do cunhado da irmã. E disse que o carrasco está escondido numa enxovia.

—Tu vais levar os teus pequenos a ver o condenado?

—Pois claro! Estes exemplos não se devem perder.

—Eu cá já vi enforcar três, que me lembre, todos por assassinos.

—Por isso é que tu, há dois anos, não mandaste a vida do Amaro Lampreia para casa do diabo!…

—Assim foi. Mas, se eu não o matasse, ele matava-me.

—Então de que serve o exemplo?!

—Sei lá eu de que serve! O frei Anselmo dos franciscanos é que prega aos pais que levem os filhos a ver os enforcados.

—Isso há de ser para não o esfolarem a ele, quando ele nos esfola com os pedidos de esmola.

O espírito de Simão ia tão livre que, algumas vezes, lhe passou pelos lábios um sorriso, provocado pela filosofia do povo sobre a forca.

Quando voltou para o quarto, foi avisado de que podia apelar dentro do prazo da lei. Respondeu que não apelava. Disse que estava contente com a sua sorte e de bem com a justiça.

Perguntou por Mariana, e o carcereiro disse-lhe que a mandava chamar. Veio João da Cruz. A chorar, queixou-se de que ia perder a filha. Via-a em delírio, a falar da forca e a pedir que a matassem primeiro. A dor do académico foi então agudíssima. Compreendeu, como se a verdade lhe brilhasse de repente, que Mariana o amava até à morte. Por momentos, a imagem de Teresa apagou-se do seu coração, se é possível pensar assim. Talvez a visse como um anjo salvo, a contemplar com serenidade o seu criador. E via Mariana como o símbolo da tortura, a morrer aos bocados. Ela não tinha momentos de amor correspondido que lhe dessem a glória do martírio. Uma morria amada. A outra agonizava sem ter ouvido a palavra «amor». Os lábios dele mal lhe diziam frias palavras de gratidão.

E então aquele homem de ferro chorou. Chorou lágrimas que valiam bem as amarguras de Mariana.

—Cuide da sua filha, senhor Cruz!—pediu Simão ao ferrador, com fervor.—Deixe-me a mim, que estou forte e bem. Vá consolar essa criatura, que nasceu debaixo da minha má estrela. Tire-a de Viseu, leve-a para sua casa. Salve-a, para que fiquem neste mundo duas irmãs que chorem por mim. Os favores que me tem feito já não são precisos, porque a minha vida vai ser curta. Daqui a uns dias, mandam-me para o oratório. Será bom que a sua filha não saiba.

Quando voltou, João da Cruz encontrou a filha caída no chão, com a cara ferida, a chorar e a rir. Estava louca. Levou-a para casa amarrada e deixou a outra pessoa o encargo de sustentar o condenado.

Foram então terríveis as horas solitárias do infeliz. Até àquele dia, Mariana era estimada pelo carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita Preciosa. Por isso, podia entrar na cadeia a qualquer hora do dia. E raras vezes deixava o preso sozinho. Costurava enquanto ele escrevia, ou tratava da arrumação e da limpeza do quarto. Às vezes, Simão estava na cama, doente ou abatido. Então Mariana, que tinha aprendido um pouco a escrever, sentava-se à mesa. E escrevia cem vezes o nome *Simão*, muitas vezes apagado pelas lágrimas. Foi assim durante sete meses, sem nunca dizer nem ouvir a palavra amor. Foi assim depois das noites sem dormir, umas vezes a rezar, outras a trabalhar, outras no caminho de casa, quando ia visitar o pai a horas mortas.

Nunca mais o preso, com a forca à sua frente, viu aquela doce criatura passar a soleira da porta de ferro. Aquela porta media-lhe o ar, calculado de modo a deixar à corda da forca a honra de o sufocar. Nunca mais!

E, quando ele chamava a imagem de Teresa, os seus olhos cansados mostravam-lhe também Mariana ao lado dela. E via as duas a chorar. Então saltava da cama, agarrava-se às grossas grades da janela e pensava em partir a cabeça contra elas.

Não o segurava nenhuma esperança na terra nem no céu. Nunca nenhum raio de luz divina entrou na sua masmorra. O anjo da piedade tinha encarnado naquela criatura celestial, que enlouquecera ou voltara para o céu com o espírito dela. O que o salvava do suicídio não era, portanto, a esperança em Deus nem nos homens. Era este pensamento: «Afinal, *covarde*! Que coragem é morrer quando não há esperança de vida!? A forca é um triunfo, quando se encontra no fim do caminho da honra!»

### Glossário

- **baú**: caixa grande, com tampa, para guardar e transportar roupa.
- **tocar a finados**: tocar os sinos de forma triste, porque alguém morreu.
- **quinta**: propriedade no campo, com casa e terras.
- **tojo / urze**: plantas selvagens baixas, que crescem nos montes e nos terrenos abandonados.
- **desonra / infâmia**: grande vergonha, perda do bom nome.
- **antro**: lugar mau e escuro, onde acontecem coisas más.
- **padecer**: sofrer; aqui, ser executado na forca.
- **martírio**: grande sofrimento que se aguenta por amor ou por fé.
- **tio-avô**: irmão do avô ou da avó.
- **queixoso**: pessoa que apresenta uma queixa contra alguém no tribunal.
- **cutelo**: faca grande e larga.
- **enxovia**: cela comum, escura, no rés do chão de uma prisão.
- **apelar**: pedir a um tribunal superior que mude a sentença.
- **oratório**: capela onde o condenado passava os últimos dias antes de morrer.
- **masmorra**: prisão escura e fechada.

## III.

E Teresa?

Perguntam na altura certa, minhas senhoras. E não me vou queixar se me acusarem de a ter esquecido e de a ter sacrificado a acontecimentos menos importantes.

Esquecida, não. Há muito tempo que aquela ave do céu brilha e voa nesta minha quase escuridão\[5\], com asas, como o querubim ideal dos santos. Parece pedir-me que lhe cubra de flores o rasto de sangue que deixou na terra. Deixaste mais lágrimas do que sangue, ó filha da amargura! As tuas lágrimas são flores. Diz-me do céu se o perfume delas não vale mais aos pés do teu Deus do que as orações de muitas devotas. Essas morrem e são feitas santas. Mas o seu cheiro de santidade não passa do nariz hipócrita ou estúpido dos mortais.

Viram bem Teresa Clementina ser levada da escadaria da igreja, onde tinha caído, para a liteira que a levou ao Porto. Quando recuperou os sentidos, viu à sua frente uma criada. A criada dizia-lhe palavras de consolo banais e frias. Se alguma criada do pai era amiga dela, com certeza não era aquela, que o velho tinha escolhido de propósito. A menina aflita nem sequer tinha a confiança para desabafar aos gritos.

Teresa perguntava a si mesma se aquela situação horrível seria um sonho! Sentia-se outra vez a perder as forças. E voltava à vida, sacudida pela consciência da sua desgraça. A criada teve pena dela. Chorou com ela, pediu-lhe que respirasse e disse-lhe:

—Pode falar, menina, que ninguém nos segue.

—Ninguém?!

—As suas primas ficaram. Só vêm os dois lacaios.

—E o meu pai não?

—Não, fidalga… Pode chorar e falar à vontade.

—E eu vou para o Porto?

—Vamos, sim, minha senhora.

—E tu viste tudo como foi, Constança?

—Infelizmente, vi…

—Como foi? Conta-me tudo.

—A menina bem sabe que o seu primo morreu.

—Morreu?! Vi-o cair quase aos meus pés, mas…

—Morreu logo. Depois, os criados quiseram prender o senhor Simão, porque o seu pai mandou. Mas ele, com a outra pistola…

—E fugiu?—interrompeu Teresa, com força e alegria.

—Afinal, foi ele que se entregou à prisão.

—Está preso?!

E, sufocada pelos soluços, com a cara no lenço, não ouvia as palavras de conforto de Constança.

Quando a crise violenta de gemidos e de choro acalmou um pouco, Teresa propôs à criada um plano louco. Queria que a deixasse fugir da primeira estalagem onde parassem. Assim, ela ia a Viseu dizer o último adeus a Simão.

Com dificuldade, a criada convenceu-a a desistir. Mostrou-lhe os novos perigos que ela ia juntar à desgraça do seu amante. E deu-lhe ânimo com uma esperança: Simão podia livrar-se do crime graças à influência do pai, apesar da perseguição do fidalgo.

Devagar, estas razões entraram no espírito de Teresa, apesar das resistências do coração.

A chorar, doente, às vezes desmaiada, Teresa foi vencendo a distância que a separava de Monchique. Chegou ao quinto dia de viagem.

A prelada já sabia o que tinha acontecido, por mensageiros que chegaram antes da liteira, que andava devagar.

A tia recebeu Teresa com brandura. E, no entanto, Tadeu de Albuquerque tinha recomendado clausura rigorosa. E proibira-lhe completamente os meios de escrever fosse a quem fosse.

A prelada ouviu da boca da sobrinha a verdadeira história dos acontecimentos. Teresa mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas. Mas a prelada secou as suas lágrimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa. Falou e aconselhou como freira. E era uma freira que castigava o corpo com as pontas do cilício. E castigava o coração com as privações dolorosas de quarenta anos.

Teresa não tinha forças para a revolta. Deixou à tia a santa vaidade de afastar o demónio das paixões. E sorriu ao anjo da morte. O anjo da morte punha a sua asa negra entre o amor e a esperança dela. Essa asa, às vezes, brilha com uma luz muito forte nos corações infelizes.

Teresa quis escrever.

—A quem, minha filha?—perguntou a prelada.

Teresa não respondeu.

—Escrever-lhe para quê?—continuou a freira.—Pensas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegam às mãos? Só vais aumentar a raiva do teu pai contra ti e contra o infeliz preso! Se o amas, como acredito, apesar de tudo, trata de o salvar. Se não ouves a minha razão, finge que o esqueceste. Se consegues dominar a tua dor, disfarça. Faz tudo para que o teu pai saiba que lhe obedecerás em tudo, se ele tiver piedade do teu pobre amigo.

Teresa não teimou. Sorriu outra vez ao anjo da morte. E pediu-lhe que a envolvesse a ela, ao seu amor e à sua esperança, completamente, no negro das suas asas.

Todos os meses, a abadessa de Monchique recebia uma carta do primo. Estas cartas eram um desabafo da vingança. Em todas, o velho dizia que o assassino ia para a forca, sem remédio. A sobrinha não via as cartas. Mas reparava nas lágrimas da freira, cheia de compaixão.

A saúde fraca de Teresa piorava depressa. A ciência condenou-a a uma morte breve. Tadeu de Albuquerque foi informado disto e respondeu: «Que não a desejava morta. Mas, se Deus a levasse, morreria mais tranquilo e com a sua honra sem mancha.» Tão pura era a honra do fidalgo de Viseu!… A HONRA! Dizem que vem em linha reta da virtude de Sócrates, da virtude de Jesus Cristo e da virtude de milhões de mártires. Esses mártires entregaram-se às garras das feras quando pregavam aos homens a caridade e o perdão!

As freiras exemplares de Monchique usaram todos os carinhos que a simpatia e a piedade inventaram. Todas competiram para refrescar a febre que consumia depressa a reclusa. Tudo foi inútil. Teresa agradecia a compaixão com lágrimas. E, ao mesmo tempo, alegrava-se. Pelos carinhos, tinha a certeza de que os médicos a achavam incurável.

Um dia, uma freira distraída disse-lhe uma coisa. Uma amiga sua do convento dos Remédios de Lamego tinha-lhe contado que Simão fora condenado à morte.

Teresa estremeceu e murmurou, já sem forças para exclamar:

—E eu ainda vivo!

Depois rezou e chorou. Mas os hábitos da sua vida de crises continuaram iguais.

Perguntou à freira que lhe tinha dado a notícia se a sua amiga do convento dos Remédios lhe faria a caridade de fazer chegar uma carta às mãos de Simão. A freira aceitou, depois de ouvir a opinião da prelada. A prelada achou que a última conversa entre duas pessoas a morrer não lhes podia fazer mal, nem na vida da terra nem na vida eterna.

Esta é a carta que Simão leu quinze dias depois do seu julgamento:

«Simão, meu esposo. Sei tudo… A morte está connosco. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, porque me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua morte próxima. Então percebi porque é que estou a morrer de hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!… Olha as nossas esperanças! Quando tu me contavas os teus sonhos de felicidade, e eu te contava os meus!… Que mal fariam a Deus os nossos desejos inocentes!… Porque não merecemos nós o que tanta gente tem!… Acabaria tudo assim, Simão? Não posso acreditar! A eternidade parece-me escura, porque a esperança era a luz que me guiava de ti para a fé. Mas o nosso destino não pode acabar assim. Vê se consegues prender o último fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-emos noutro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus poder contemplar-te? Eu rezo, suplico. Mas fico fraca na fé quando me lembro das últimas agonias do teu martírio. As minhas são suaves, quase não as sinto. A morte não deve custar a quem tiver o coração tranquilo. O pior é a saudade. É a saudade daquelas esperanças que tu encontravas no meu coração, a adivinhar as tuas. Não importa, se não há nada para além desta vida. Ao menos, morrer é esquecer. Se tu pudesses viver agora, de que te serviria? Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenhas saudades da vida, não tenhas. Mesmo que a razão te diga que podias ser feliz se não me tivesses encontrado no caminho por onde te levei à morte… E que morte, meu Deus!… Aceita-a! Não te arrependas. Se houve crime, a justiça de Deus há de perdoar-te pelas angústias que tens de sofrer na cadeia… e nos últimos dias, e na presença da…»

Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da mão. Uma convulsão sacudiu-lhe o corpo todo durante muito tempo. Não escreveu a palavra. Mas a ideia da *forca* parou-lhe a vida. A freira entrou na cela a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Teresa apontou para ela e disse:

—Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu não consigo.

Nos três dias seguintes, Teresa não saiu da cama. A cada hora, as freiras que a acompanhavam esperavam que ela fechasse os olhos.

—Custa muito morrer!—dizia algumas vezes a doente.

Não faltavam discursos piedosos para lhe afastar o espírito do mundo.

Teresa ouvia-os e dizia com ansiedade:

—Mas a esperança do céu, sem ele!… O que é o céu, meu Deus?

E o santo capelão do mosteiro não sabia dizer se os bens do céu tinham alguma coisa em comum com as delícias que, falsamente, se chamam assim na terra.

Há certos tipos de tísica que trazem consigo umas finezas de espírito, como os últimos clarões da chama da vida. A doente tinha-as quando as freiras lhe falavam da felicidade eterna. Às vezes, o capelão, animado pela lucidez de Teresa, entrava na filosofia. Tratava a imortalidade da alma como um problema. Então a senhora, sem estudos, discutia em poucas palavras, mas com razões muito claras. Defendia a união eterna das almas que já eram esposas neste mundo. E o padre ficava na dúvida: seria uma heresia contestar uma regra que não estava escrita em nenhum dos quatro evangelhos?

A medicina já se espantava com a teimosia daquela vida. A abadessa tinha escrito ao primo Tadeu. Pedia-lhe que viesse depressa ver o anjo a despedir-se da terra. O velho ficou tocado pela piedade, e talvez pelo amor de pai. Decidiu tirar a filha do convento, com esperança de ainda a salvar. Havia ainda uma razão forte: o condenado ia ser mudado para as cadeias do Porto. O fidalgo apressou-se, portanto. Chegou ao Porto no momento em que a freira, amiga da outra de Lamego, entregava à doente esta carta de Simão:

«Não fujas de mim ainda, Teresa. Já não vejo a forca, nem a morte. O meu pai protege-me, e a salvação é possível. Prende ao coração os últimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto eu te disser que tenho esperança. Amanhã vou para as cadeias do Porto. Lá hei de esperar a absolvição ou a comutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte há céu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre. A pedra da sepultura é que nunca se levanta. Vive, Teresa, vive! Há dias, eu pensava que as tuas lágrimas haviam de lavar da minha cara as manchas do sangue do enforcado. Esse pesadelo horrível passou. Agora, neste inferno, já se respira. A corda do carrasco já não me aperta a garganta nos sonhos. Já levanto os olhos para o céu e reconheço a providência dos infelizes. Ontem vi as nossas estrelas, as dos nossos segredos, nas noites da ausência. Voltei à vida e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, filha da minha alma!»

Já ia alta a noite quando Teresa, sentada na cama, leu esta carta. Chamou a criada para a ajudar a vestir-se. Mandou abrir a janela do quarto e encostou a cara às grades de ferro. Esta janela dava para o mar. Nessa noite, o mar era uma imensa chama de prata. E a lua, esplêndida, apagava o brilho de umas estrelas que Teresa procurava no céu.

—São aquelas!—exclamou ela.

—Aquelas quê, minha senhora?—perguntou Constança.

—As minhas estrelas!… Pálidas como eu… A vida! Ai, a vida!—gritou ela. Levantou-se e passou pela testa as mãos de cadáver.—Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!

—Há de viver, menina! Há de viver, que Deus é piedoso!—disse a criada.—Mas não apanhe o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe muito mal.

—Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver… Há tanto tempo que não vejo o céu! Sinto-me a ressuscitar aqui, Constança! Porque não respirei eu este ar todas as noites?! Poderei viver alguns anos? Poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito à minha Virgem Santíssima! Vamos rezar as duas!… Vamos, que o Simão não morre… O meu Simão vive e quer que eu viva. Amanhã está no Porto. E talvez já esteja…

—Quem, minha senhora?!

—Simão. O Simão vem para o Porto.

A criada pensou que a ama estava a delirar. Mas não a contrariou.

—A fidalga recebeu carta dele?—perguntou ela, pensando que assim alimentava aquele momento de alegria febril.

—Recebi… Queres ouvir?… Eu leio…

E leu a carta. Constança ficou muito espantada e convenceu-se.

—Agora vamos rezar, sim?… Tu não és inimiga dele, pois não? Olha, Constança, se eu casar com ele, tu vens viver connosco. Vais ver como és feliz. Queres ir, não queres?

—Sim, minha senhora, vou. Mas ele vai conseguir livrar-se da morte?

—Livra-se. Vais ver que se livra. O pai dele há de livrá-lo… E a Virgem Santíssima é que nos há de unir. Mas, se eu morrer… Se eu morrer, meu Deus!

E, com as mãos apertadas uma na outra sobre o peito, Teresa ofegava a chorar.

—Se eu já não tenho forças!… Todos dizem que eu morro, e o médico já nem me receita nada!… Então mais valia ter acabado antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!…

E ajoelhou-se diante do retábulo da sua devoção, que trouxera do seu quarto de Viseu. A mãe e a avó dela já tinham rezado diante dele. E, no seu rosto cheio de compaixão, as duas senhoras, ao morrer, tinham fixado os últimos raios de luz dos seus olhos.

### Glossário

- **liteira**: cadeira fechada levada por mulas ou por homens, para viajar.
- **querubim**: anjo; nas pinturas, uma criança com asas.
- **austeridade**: vida dura e severa, sem prazeres.
- **martírio / mártir**: grande sofrimento ou morte por uma fé ou um amor; a pessoa que sofre ou morre assim.
- **lacaio**: criado que acompanha os amos.
- **clausura**: vida fechada dentro de um convento, sem sair.
- **cilício**: cinto ou peça com pontas que magoam, usado como castigo religioso.
- **abadessa / prelada**: a freira que manda no convento.
- **reclusa**: pessoa fechada num lugar, sem poder sair.
- **tísica**: doença grave dos pulmões (tuberculose).
- **heresia**: ideia contrária ao que a Igreja ensina.
- **comutação da sentença**: troca de um castigo por outro menos grave.
- **degredo**: castigo de ser mandado para longe da pátria.
- **retábulo**: quadro ou painel religioso, colocado num altar.

## IV.

No dia seguinte a estes acontecimentos, Tadeu de Albuquerque apresentou-se na portaria de Monchique.

A prima foi a primeira senhora que veio ao locutório. Vinha a limpar lágrimas de alegria.

—Não pense que choro de aflita, meu primo—disse ela.—O nosso anjo, se Deus quiser, pode salvar-se. Logo de manhã, vi-a a passear pelo seu pé nos dormitórios. Que diferença de cara ela tem hoje! Isto, meu primo, é milagre de duas santas que temos inteiras no claustro. Algumas criaturas perfeitas desta casa pediram-lhes ajuda. Se as melhoras continuarem assim, temos Teresa. O céu deixa que aquele anjo fique entre nós mais alguns anos…

—Fico muito contente com o que me diz, minha boa prima—interrompeu o fidalgo.—A minha decisão é levá-la já para Viseu. Lá vai recuperar com os ares da sua terra, que são muito mais saudáveis que os do Porto.

—Ainda é cedo para uma viagem tão longa e tão difícil, meu primo. Não pense o senhor que ela está capaz de se pôr ao caminho. Lembre-se de que ainda ontem pensávamos encontrá-la hoje morta. Deixe-a ficar mais alguns meses. Depois não digo que não a leve. Mas, por enquanto, não deixo fazer uma imprudência dessas.

—Maior imprudência—respondeu o velho—é deixá-la no Porto, onde a esta hora já deve estar o malvado que matou o meu sobrinho. Talvez a prima não saiba?… Pois é verdade: o patife do corregedor saiu a defendê-lo. Conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a apelação da sentença, depois de passado o prazo da lei. E, não contente com isto, fez que o filho fosse mudado para as cadeias do Porto. Eu agora trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero consegui-lo. Mas, enquanto o assassino estiver aqui, não quero a minha filha no Porto.

—O primo é pai, e eu sou apenas uma parente—disse a abadessa.—Faça-se a sua vontade. Quer ver a menina, não é assim?

—Quero, se for possível.

—Pois bem. Enquanto eu a vou chamar, faça favor de entrar na primeira grade à sua direita. Teresa vai lá ter.

Quando Teresa soube que o pai estava à espera dela, a cor saudável que alegrava as freiras desapareceu logo. E ficou outra vez com a palidez do costume. Ao vê-la assim, a tia quis que ela não saísse do quarto. Ela própria se encarregava de adiar a visita do pai.

—Tem de ser—disse Teresa.—Eu vou, minha tia.

Quando a viu, o pai estremeceu e ficou pálido. Esperava encontrá-la mudada, mas não tanto. Pensou que nem a teria reconhecido, se não o avisassem de que ia ver a filha.

—Como eu te encontro, Teresa!—exclamou ele, comovido.—Porque não me disseste há mais tempo como estavas?

Teresa sorriu e disse:

—Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.

—Terás forças para ir comigo para Viseu?

—Não, meu pai. Nem sequer tenho forças para lhe dizer em poucas palavras que não volto a Viseu.

—Porque não?! E se a tua saúde depender disso!…

—A minha saúde depende do contrário. Aqui viverei ou morrerei.

—Não é bem assim, Teresa—respondeu Tadeu, com uma brandura fingida.—Se eu achar que estes ares fazem mal à tua saúde, hás de ir. É minha obrigação guiar e corrigir a tua má sorte.

—Já está corrigida, meu pai. A morte corrige todos os erros da vida.

—Bem sei. Mas eu quero-te viva. Portanto, ganha forças para o caminho. Logo que tiveres feito meio dia de viagem, vais ver como a saúde volta, como por milagre.

—Não vou, meu pai.

—Não vais?!—exclamou o velho, irritado. E agarrou as grades com as mãos a tremer de raiva.

—Estes ferros, onde o meu pai se encosta, separam-nos. E separam-nos para sempre.

—E as leis? Pensas que eu não tenho direitos legítimos para te obrigar a sair do convento? Não sabes que só tens dezoito anos?

—Sei que tenho dezoito anos. As leis, não sei quais são, nem me incomoda não as saber. Se uma mão violenta me vier arrancar daqui, o meu pai pode ter a certeza de uma coisa: essa mão há de encontrar um cadáver. Depois, façam de mim o que quiserem. Mas, enquanto eu puder dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pai.

—Já sei o que é!—gritou o velho.—Já sabes que o assassino está no Porto?

—Sei, sim, senhor.

—E ainda o dizes sem vergonha nem horror de ti mesma! Ainda…

—Meu pai—interrompeu Teresa—não posso continuar a ouvi-lo, porque me sinto mal. Dê-me licença… e vingue-se como puder. A minha glória, neste longo sofrimento, seria uma forca levantada ao lado da do assassino.

Teresa saiu da grade. Deu alguns passos em direção à sua cela e encostou-se à parede, sem forças. A tia e a criada correram para a amparar. Mas ela afastou-as com suavidade e murmurou:

—Não é preciso… Estou boa… Estes golpes dão vida, minha tia.

E caminhou sozinha, com passos hesitantes.

Tadeu batia à porta do mosteiro com uma fúria ridícula, pancada atrás de pancada. A porteira e as outras madres tinham muito medo e estavam espantadas com aquele disparate tão invulgar.

—Que é isso, primo?—perguntou a prelada com severidade.

—Quero Teresa cá fora.

—Como, cá fora? Quem é que a vai pôr fora?!

—A senhora, que não pode prender aqui uma filha contra a vontade do pai.

—Isso é verdade. Mas tenha prudência, primo.

—Não há prudência, nem meia prudência. Quero a minha filha cá fora.

—Então ela não quer ir?

—Não, senhora.

—Então espere que a convençamos a sair a bem. Não lha vamos levar arrastada.

—Se for preciso, vou eu buscá-la—respondeu ele, cada vez mais furioso.—Abram-me estas portas, que eu trago-a!

—Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A Regra do mosteiro não pode ser quebrada para servir uma paixão cheia de rancor. Acalme-se, senhor! Vá descansar dessa fúria e venha noutra altura combinar comigo o que for digno de todos nós.

—Já percebi!—exclamou o velho, a gesticular contra a grade do locutório.—Conspiram todas contra mim! Pois descansem, que eu hei de dar-lhes uma boa lição. Fique a senhora abadessa a saber que não quero que a minha filha receba mais cartas do assassino, percebeu?

—Eu acho que Teresa nunca recebeu cartas de assassinos. E não penso que as receba de hoje em diante.

—Não sei se sabe ou se não sabe. Eu vou vigiar o convento. E a criada que está com ela, ponham-na fora, percebeu?

—Porquê?—perguntou a prelada, aborrecida.

—Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ela não me contou nada.

—Se não tinha nada para lhe dizer, senhor!

—Não me conte histórias, prima! Quero ver a criada sair do convento, e já!

—Não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se Vossa Senhoria quiser que a sua filha tenha outra criada, mande-lha. Mas, quanto a esta, logo que deixe de servir a sua filha, há muitas senhoras nesta casa que a querem. E ela própria quer ficar aqui.

—Já percebi!—gritou ele.—Querem matar-me! Pois não matam. Primeiro há de o diabo rebentar!

Tadeu de Albuquerque saiu do átrio do mosteiro aos saltos, como um animal furioso. Era horrível aquela raiva que lhe contraía as faces, duras como couro. Os olhos fundos pareciam escorrer suor e sangue.

Foi ter com o intendente da polícia. Pediu-lhe medidas para que lhe entregassem a filha. O intendente respondeu que não era a ele que devia pedir essas medidas. Tadeu insistiu que o carcereiro da cadeia não deixasse sair nenhuma carta de um assassino vindo da comarca de Viseu, chamado Simão Botelho. O intendente disse que não podia impedir o preso de escrever a quem quisesse, sem motivos ligados a alguma devassa.

Com o dobro da fúria, foi dali ao corregedor do Porto, com os mesmos pedidos e num tom arrogante. O corregedor, amigo íntimo de Domingos Botelho, mandou embora o maçador, aborrecido. Disse-lhe que a velhice sem juízo era coisa tanto para rir como para ter pena. Tadeu de Albuquerque esteve então quase a perder a cabeça. Andava de um lado para o outro pelas ruas do Porto. Não encontrava uma saída digna da sua linhagem e da sua vingança. No dia seguinte, bateu à porta de alguns desembargadores. Achou-os mais inclinados à clemência do que à justiça em relação a Simão Botelho. Um deles era amigo de infância de D. Rita Preciosa, e ela tinha-lhe pedido ajuda. Falou assim ao fidalgo furioso:

—É preciso pouco para alguém se tornar assassino, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria Vossa Senhoria feito hoje, se alguns adversários se opusessem à sua raiva? Esse moço infeliz, contra quem o senhor pede violências loucas, mantém a honra à altura da sua imensa desgraça. O pai abandonou-o e deixou-o ser condenado à forca. E ele, na sua extrema humilhação, nunca soltou um grito a pedir misericórdia. Um estranho deu-lhe de esmola o sustento durante oito meses de cadeia. E ele aceitou a esmola, que era uma honra para si e para quem lha dava. Hoje fui ver esse desgraçado filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis. Encontrei-o vestido de baetão e de pano pedrês. Perguntei-lhe se estava assim tão falto de roupa. Respondeu-me que se vestia de acordo com os seus meios. E disse que devia à caridade de um ferrador aquelas calças e aquela jaqueta. Eu disse-lhe que escrevesse ao pai, para o vestir com decência. Disse-me que não pedia nada a quem deixou que os «crimes» do seu coração, da sua dignidade e da honra do seu nome fossem pagos numa forca. Há grandeza neste homem de dezoito anos, senhor Albuquerque. Se Vossa Senhoria tivesse deixado a sua filha amar Simão Botelho Castelo Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se meteu no caminho dele. Esse homem ofendeu-o com insultos e com ataques ao corpo tão graves que Simão ficaria desonrado se não os repelisse, como homem de alma e de brio. Se Vossa Senhoria não se tivesse oposto aos afetos honestíssimos e inocentes da sua filha, a justiça não teria mandado levantar uma forca. E a vida do seu sobrinho não teria sido sacrificada aos seus caprichos de mau pai. E se a sua filha casasse com o filho do corregedor de Viseu, pensa Vossa Senhoria que o seu brasão ficava manchado? Não sei de que século vem a nobreza do senhor Tadeu de Albuquerque. Mas, do brasão de D. Rita Teresa Margarida Preciosa Caldeirão Castelo Branco, posso dar-lhe informações tiradas das páginas das genealogias mais verdadeiras e ilustres do reino. Do lado do pai, Simão Botelho tem do melhor sangue de Trás-os-Montes. E não tem medo de se comparar com o dos Albuquerques de Viseu. Esses não são, com certeza, os *Albuquerques terríveis* de que fala Luís de Camões…

Ofendido até ao fundo por esta última ironia, Tadeu levantou-se de repente. Pegou no chapéu e na enorme bengala com punho de ouro e fez a vénia de despedida.

—As verdades são amargas, não é assim?—disse-lhe, a sorrir, o desembargador Mourão Mosqueira.

—Vossa Excelência sabe o que diz, e eu sei o que hei de pensar disso—respondeu o fidalgo, em tom irónico. Sentia-se ferido na sua honra e na honra dos seus quinze avós.

O desembargador respondeu:

—Pense o que quiser. Mas vá com a certeza, se isso lhe serve de alguma coisa, de que Simão Botelho não vai para a forca.

—Veremos…—resmungou o velho.

### Glossário

- **locutório**: sala das visitas num convento.
- **patife**: homem sem honra, malandro.
- **claustro**: pátio interior de um convento, com arcos à volta.
- **apelação**: pedido a um tribunal superior para mudar uma sentença.
- **grade**: grade de ferro onde as freiras falam com as visitas.
- **Regra**: o conjunto de leis que as freiras de um convento têm de cumprir.
- **intendente da polícia**: chefe da polícia do reino.
- **devassa**: investigação feita pela justiça sobre um crime.
- **desembargador**: juiz de um tribunal superior, como a Relação.
- **baetão e pano pedrês**: panos grossos e baratos, de lã, usados pela gente pobre.
- **brasão**: símbolo de uma família nobre.

## V.

Estamos a treze do mês de Março de 1805.

Simão está num quarto de malta das cadeias da Relação. A sua mobília é esta: uma cama de tábuas, um colchão de embarque, uma mesa e uma cadeira de pinho. E, no lugar do travesseiro, um pequeno embrulho de roupa. Em cima da mesa tem uma caixa de madeira preta. Lá dentro estão as cartas de Teresa, ramos de flores secas e os seus manuscritos da cadeia de Viseu. E está também um avental de Mariana. Foi o último com que ela limpou as lágrimas. Arrancou-o de si no primeiro momento da loucura.

Simão relê as cartas de Teresa. Abre os papéis que guardam as flores secas. Olha para o avental de linho e procura nele os sinais visíveis das lágrimas. Depois encosta a cara e o peito às grades da janela. Daí vê os horizontes arredondados pelas serras de Valongo e da Gralheira. Vê também as margens bonitas de Gaia, do Candal, de Oliveira e o mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo. No azul do céu brilham as mil cores da primavera. O ar tem perfumes. A brisa foge dos jardins e espalha no ar os perfumes que roubou aos canteiros. Há uma alegria vaga, que parece brilhar nas multidões de espíritos que nascem ao sol de Março. Essa alegria enche a natureza. Toda cheia de luz e de flores, a natureza está apaixonada pelo calor que a torna fértil.

Era um dia de amor e de esperanças, aquele que o Senhor mandava a todos. Mandava-o à cabana metida na garganta da serra. Mandava-o ao palácio esplêndido, que refletia o sol nas suas janelas. Mandava-o ao rico, que passeava nas suas carruagens macias, a respirar o cheiro forte das silvas. E mandava-o ao mendigo, que aquecia os membros encostado às colunas das igrejas.

E Simão Botelho fugia da claridade da luz e do voo das aves. Pensava, chorava e escrevia assim os seus pensamentos:

«O pão do trabalho de cada dia, e o teu peito para descansar uma hora a cara, limpa de manchas. Não pedi mais ao céu.

Senti-me homem aos dezasseis anos. Vi a virtude à luz do teu amor. Pensei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou que as purificava com o seu fogo sagrado.

Nunca os meus pensamentos foram manchados por um desejo que eu não possa confessar em voz alta diante de todo o mundo. Diz tu, Teresa, se os meus lábios ofenderam a pureza dos teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quis eu fazer do meu amor a tua vergonha.

Nunca, Teresa! Nunca, ó mundo que me condenas!

Se o teu pai quisesse que eu me arrastasse aos pés dele para te merecer, eu beijar-lhos-ia. Se tu me mandasses morrer para não te impedir de ser feliz com outro homem, eu morreria, Teresa!

Mas tu estavas sozinha e infeliz. E eu pensei que o teu carrasco não devia viver mais do que tu. Aqui estou eu, assassino, e sem remorsos. A loucura do crime atordoa a consciência. Não a minha, que não tinha medo dos degraus da forca. Nesses dias, eu acordava sempre a debater-me, como quem sufoca.

A cada hora, eu esperava que me chamassem para o oratório. E dizia para mim: Falarei a Jesus Cristo.

Sem medo, eu pensava antes do tempo nas setenta horas dessa agonia moral. E imaginava consolações que o crime não se atreve a esperar sem ofender a justiça de Deus.

Mas chorava por ti, Teresa! O sabor amargo do meu cálice tinha, por cima da sua amargura, as mil amarguras das tuas lágrimas.

Gemias aos meus ouvidos, mártir! Nos teus delírios, havias de me ver sacudido pelas convulsões da morte. A própria morte tem terror da maior desgraça. Morrerias tarde. A minha imagem não te acenaria com a palma do martírio. Seria para ti um fantasma levantado das tábuas de uma forca.

Que morte a tua, ó minha santa amiga!»

E continuou a escrever até ao momento em que João da Cruz entrou no quarto, com uma ordem do intendente geral da polícia.

—Aqui!—exclamou Simão, a abraçá-lo.—E Mariana? Deixou-a sozinha?! Morta, talvez?!

—Nem sozinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atrás da porta… Mariana voltou ao seu juízo.

—Fala verdade, senhor João?

—Podia lá mentir!… Aquilo, para mim, foi coisa de bruxaria… Sangrias, sedenhos, água fria na cabeça e os exorcismos do missionário, não lhe digo nada. A rapariga está sã. E, assim que tiver um bocadinho de forças, põe-se a caminho.

—Bendito seja Deus!—exclamou Simão.

—*Ámen*—acrescentou o ferrador.—Então que arranjo de casa é este? Que raio de tarimba é esta?! É preciso aqui uma cama de gente e alguma coisa onde um cristão se possa sentar.

—Isto assim está excelente.

—Bem vejo… E a barriga? Como vamos nós de barriga?

—Ainda tenho dinheiro, meu amigo.

—Há de ter muito, não há dúvida. Mas eu tenho mais, e Vossa Senhoria tem crédito aberto. Veja lá este papel.

Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escrita ao ferrador. Nela, ela autorizava-o a pagar ao filho as despesas necessárias. E prometia pagar todas as contas que lhe fossem apresentadas com a sua assinatura.

—É justo—disse Simão, a devolver a carta—porque eu devo ter uma legítima.

—Então já vê que só tem de pedir por boca. Eu vou comprar-lhe umas coisas…

—Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso—interrompeu o preso.

—Diga lá, fidalgo.

Simão pediu-lhe que entregasse uma carta a Teresa de Albuquerque, em Monchique.

—Parece-me que o diabo as arma!—disse o ferrador.—Venha de lá a carta. O pai dela está cá, já sabia?

—Não.

—Pois está. E, se o diabo o traz para o pé de mim, não sei se não lhe bato com a cabeça numa esquina. Já me lembrei de o esperar no caminho e de o pendurar pelo pescoço no galho de um sobreiro… A carta tem resposta?

—Se lha derem, meu bom amigo.

O ferrador chegou a Monchique no momento em que um oficial de justiça, dois médicos e Tadeu de Albuquerque entravam no pátio do convento.

O aguazil falou à prelada. Exigiu, em nome do juiz de fora, que dois médicos entrassem no convento para examinar a doente D. Teresa Clementina de Albuquerque, a pedido do pai.

A prelada perguntou aos médicos se tinham a licença da Igreja necessária para entrar em Monchique. Eles responderam que não. Então a abadessa disse que as portas do convento não se abriam. Os médicos de Tadeu de Albuquerque disseram que era esse o costume dos mosteiros. E não houve resposta a dar à prelada rigorosa.

Saíram. Só então o ferrador pensou na maneira de entregar a carta. A primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou-se à grade e disse:

—Ó senhora freira!

—Que quer vossemecê?—perguntou a prelada.

—A senhora faz favor de dizer à senhora D. Teresinha de Viseu que está aqui o pai daquela rapariga da aldeia, que ela sabe?

—E quem é vossemecê?

—Sou o pai da tal rapariga que ela sabe.

—Já sei!—exclamou lá de dentro a voz de Teresa, que corria para o locutório.

A prelada afastou-se para um lado e disse:

—Vê lá o que fazes, minha filha…

—A sua filha escreveu-me?—perguntou Teresa a João da Cruz.

—Sim, senhora, aqui está a carta.

E pôs a carta na roda. A abadessa reparou e disse, a sorrir:

—O amor é muito engenhoso, Teresinha… Deus permita que as notícias da rapariga da aldeia te alegrem o coração. Mas olha, filhinha, não penses que a tua velha tia é menos esperta do que o *pai da rapariga da aldeia*.

Teresa respondeu com beijos às brincadeiras carinhosas da santa senhora. E desapareceu, para ler a carta e lhe responder. Quando entregou a resposta, disse ao ferrador:

—Não vê ali, sentada naquela escadinha, uma pobre?

—Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio esta mulher aqui parar? Pensei que, depois de o hortelão lhe ter batido, a pobrezinha já não tinha pernas que a trouxessem cá! Pelos vistos, a mulher é feita de fibra rija!

—Fale baixo—disse Teresa.—Pois olhe… quando trouxer as cartas, entregue-lhas a ela, sim? Eu já a mandei à cadeia, mas não a deixaram entrar.

—Está bem, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

Esta boa notícia alegrou Simão. A Providência divina tinha tido pena dele naquele dia. Mariana tinha recuperado o juízo, e ele podia corresponder-se com Teresa. Eram as maiores alegrias que podiam descer do céu à sua desgraça fechada.

Simão estava a dar graças a Deus em voz alta, diante de João da Cruz. O ferrador arrumava no quarto uns móveis em segunda mão que tinha comprado. De repente, parou o trabalho e disse:

—Então vou dizer-lhe outra coisa, que não tencionava dizer-lhe, para o apanhar de *súpeto*.

—Que é?

—A minha Mariana veio comigo. Ficou na estalagem, porque não se podia mexer com as dores. Mas amanhã está cá, para lhe fazer a comida e varrer a casa.

Simão guardou dentro de si o sentimento estranho que esta notícia lhe causou. Depois de uma pausa melancólica, disse:

—É então certo que a minha má estrela arrasta a sua desgraçada filha para todos os meus abismos! Pobre anjo de caridade, como és digna do céu!

—Que está o senhor aí a pregar?—interrompeu o ferrador.—Parece que ficou meio triste com a notícia!…

—Senhor João—disse o preso, com solenidade—não deixe aqui a sua querida filha. Deixe-ma ver, traga-a uma vez a esta casa. Mas não a deixe cá, porque eu não posso estragar o destino de Mariana. Como há de ela viver no Porto, sozinha, sem conhecer ninguém, tão bonita como é, e perseguida como vai ser!?…

—Perseguida! *Tó carocha*! Ela é mesmo das que se importam de ser perseguidas!… Que vão atrás dela, mas que deixem o focinho em casa. Meu amigo, as mulheres são como as peras verdes. Um homem apalpa-as e, se o dedo as acha duras, deixa-as e não as come. É assim mesmo. A rapariga sai à mãe. A minha mulher, que Deus tenha, quando eu a namorava, dei-lhe um dia um beliscão numa perna. E vai ela, põe-se direita na minha frente e deu-me dois murros no focinho, que ainda hoje os sinto. A Mariana!… Aquilo é da pele de Satanás! Pergunte o senhor, se algum dia falar com aquele fidalguinho Mendes de Viseu, pelas pancadas que ele levou com as rédeas da égua. Só por lhe mexer na chinela, quando ela estava em cima da burra!

Simão sorriu deste elogio franco à coragem da moça. E sentiu, em segredo, orgulho nos carinhos suaves com que ela o tinha tratado em oito meses de convivência quase contínua.

—E vossemecê vai privar-se da companhia da sua filha?—insistiu o preso.

—Eu lá me arranjo como puder. Tenho uma cunhada velha e levo-a para minha casa, para me fazer o caldo. E Vossa Senhoria vai estar aqui pouco tempo… O senhor corregedor anda a tratar de o pôr na rua. E que o senhor sai, para mim, são favas contadas. E, já agora, vou dizer-lhe tudo de uma vez. Se eu não deixasse a rapariga vir para o Porto, ela rebentava como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ela tem uma paixão de alma por Vossa Senhoria, isso é tão certo como eu ser João. É a sorte dela. Que hei de eu fazer? Deixá-la. Do senhor Simão não lhe há de vir mal, ou então já não há honra neste mundo.

Simão atirou-se para os braços do ferrador, a exclamar:

—Quem me dera ser o marido da sua filha, meu nobre amigo!

—Qual marido!…—disse o ferrador, com os olhos vidrados das primeiras lágrimas que Simão lhe via.—Eu nunca pensei nisso, nem ela!… Eu sei que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e mais nada, senhor Simão. Mas, sabe que mais? Eu não quero que os meus amigos sejam desgraçados, como o senhor havia de ser se casasse com a pobre rapariga! Não falemos nisto, que eu só choro por milagre. Mas, quando começo a chorar, sou um chafariz… Vamos ao arranjo. A mesa deve ficar aqui. A cómoda, ali. Duas cadeiras deste lado, e duas daquele. A cama, acolá. O baú, debaixo da cama. A bacia e a bilha da água em cima desta coisa, que não sei como se chama. Os lençóis e o resto da roupa da casa, tem-nos lá a rapariga. Amanhã é que o quarto vai ficar como uma capela. Olhe que a Mariana já me disse que comprasse duas daquelas… Como se chamam aquelas vasilhas de pôr ramos?

—Jarras.

—É como diz, duas jarras para flores. Mas eu não sei onde se vende isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça há de pensar que não me deixam sair da cadeia. Ainda não lhe contei que ontem à tarde não me deixaram entrar aqui. Mas eu trazia uma cartinha da sua mãe para um senhor desembargador. Fui ter com ele, e hoje de manhã já tinha na estalagem a ordem do senhor intendente geral da polícia. Até logo.

### Glossário

- **quarto de malta**: quarto comum de uma prisão, partilhado por vários presos.
- **mártir / martírio**: pessoa que sofre ou morre por uma fé ou um amor; esse sofrimento.
- **colchão de embarque**: colchão simples e fino, como os que se usavam nos navios.
- **oratório**: capela onde o condenado passava os últimos dias antes de morrer.
- **sedenho**: fio passado por baixo da pele para tirar humores, um tratamento antigo.
- **tarimba**: cama dura, feita de tábuas.
- **legítima**: parte da herança que a lei dá a cada filho.
- **aguazil**: oficial de justiça.
- **roda**: caixa que gira na parede do convento, para passar objetos.
- **de súpeto**: de repente (maneira de falar de João).
- **são favas contadas**: é coisa certa.
- **bilha**: vaso de barro, com asa, para água.

## VI.

Lembro-me agora de um episódio. Não está muito ligado à continuação da história. Mas vem a propósito para mostrar um lado do carácter do antigo corregedor de Viseu, que nessa altura já tinha deixado o cargo.

Já se sabe que Manuel Botelho, o filho mais velho, voltou a estudar matemática em Coimbra. E já se sabe que fugiu de lá para Espanha com uma senhora que enganava o marido. O marido era um estudante dos Açores, que estudava medicina.

Manuel Botelho viveu um ano na Corunha com a fugitiva. Vivia do dinheiro que a mãe lhe mandava, porque ela gostava muito dele. Para isso, D. Rita vendia pouco a pouco as suas joias. E tirava às filhas os enfeites próprios da idade e da sua condição.

Estas fontes secaram, e não havia outras. Por fim, D. Rita disse ao filho que tinha deixado de ajudar Simão por falta de meios. E disse que agora, das pequenas poupanças que fazia, não lhe podia mandar nada. Tinha a obrigação de pagar a comida de Simão à pessoa que, por compaixão, lha tinha dado em Viseu e lha estava a dar no Porto. Para consolar o filho, acrescentava que viesse para Vila Real e trouxesse com ele a infeliz senhora. Ele ia para casa, e deixava-a a ela numa estalagem, até se lhe arranjar uma casa. A ocasião era boa, porque o pai estava na quinta de Montezelos, quase separado da família.

Manuel Botelho voltou pelo Minho. Chegou ao Porto com a senhora quinze dias depois de Simão ter entrado na cadeia.

Noutro ponto já dissemos que os dois irmãos nunca se deram bem nem se estimaram. Mas a desgraça de Simão apagava as culpas do seu génio fatal. Esse génio tinha-o deixado órfão de pai e mãe. Só da irmã Rita lhe tinha deixado uma lembrança saudosa.

Manuel foi à cadeia. Abriu os braços ao irmão, mas foi recebido com muita frieza.

Manuel perguntou-lhe a história da sua desgraça.

—Está no processo—respondeu Simão.

—E tem esperança de ficar livre?—perguntou Manuel.

—Não penso nisso.

—Eu posso oferecer-lhe pouco, porque vou para casa obrigado pela falta de dinheiro. Mas, se precisa de roupa, divido a minha consigo.

—Não preciso de nada. Esmolas, só as recebo daquela mulher.

Manuel já tinha reparado em Mariana. Pela beleza da moça, tirou conclusões e fez juízos falsos.

—E quem é esta menina?—perguntou Manuel.

—É um anjo… Não lhe sei dizer mais nada.

Mariana sorriu e disse:

—Sou uma criada do senhor Simão e de Vossa Senhoria.

—É cá do Porto?

—Não, meu senhor, sou dos arredores de Viseu.

—E tem feito sempre companhia ao meu irmão?

Mariana respondeu a gaguejar, mas Simão interrompeu-a assim:

—A sua curiosidade incomoda-me, mano Manuel.

—Pensei que não era ofensiva—respondeu o outro, a pegar no chapéu.—Quer alguma coisa para a mãe?

—Nada.

Na tarde desse dia, Manuel Botelho estava a fechar as malas para seguir viagem para Vila Real. Foi então visitado pelo desembargador Mourão Mosqueira e pelo corregedor do crime.

—Soubemos pela espionagem da polícia—disse o corregedor—que estava nesta estalagem um filho do meu velho amigo, colega de escola e colega de profissão, Domingos Correia Botelho. Viemos dar-lhe um abraço e oferecer a nossa ajuda. Esta senhora é sua esposa?—continuou o magistrado, a reparar na senhora dos Açores.

—Não é minha esposa…—gaguejou Manuel—é… a minha irmã.

—Sua irmã!…—disse Mosqueira.—Qual das três? Há cinco anos que as vi em Viseu. E esta senhora mudou muito, porque não me lembro nada das suas feições! É a senhora D. Ana Amália?

—Exatamente—disse Manuel.

—Garanto-lhe que está bonita, minha senhora. Mas a sua cara ficou muito diferente do que era!…

—Vieram ver o infeliz Simão?—interrompeu o corregedor.

—Sim, senhor… viemos ver o meu pobre irmão.

—Aquele rapaz foi um raio que caiu sobre a família!…—acrescentou Mosqueira.—Mas pode ter a certeza de que a sentença não se vai cumprir. Diga à sua mãe que me ouviu isto da minha boca. O meu tribunal está preparado para lhe diminuir a pena para dez anos de degredo na Índia. E o seu pai, segundo me disse quando passou para Vila Real, já preparou as coisas na Suplicação e no Desembargo do Paço. E isto apesar de o morto ter parentes poderosos nesses dois tribunais. Gostávamos de o absolver e de o devolver à família. Mas isso é impossível. Simão matou e confessa com orgulho que matou. Nem sequer deixa que se diga que o fez para se defender. É um louco desgraçado, com sentimentos muito nobres! Chovem cartas de pessoas importantes a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz com uma falta de vergonha que revolta a alma.

—E essa menina que foi a causa da desgraça?—perguntou Manuel.

—Essa é uma heroína!—respondeu o corregedor do crime.—Quando Simão chegou aqui, já a davam como morta. Mas, desde que soube que a pena podia ser mudada, deu um pontapé na morte. E está salva, segundo me disse o médico.

—Conhece-a muito bem, minha senhora?—disse o desembargador à senhora, a suposta irmã de Manuel.

—Muito bem—respondeu ela, a olhar depressa para o amante.

—Dizem que é lindíssima!

—Claro—acudiu Manuel.—É lindíssima.

—Muito bem—disse o corregedor, a levantar-se.—Leve este abraço ao seu pai. E diga-lhe que o colega de escola cá está, leal e dedicado como sempre. Tenho de lhe escrever em breve.

—E outro abraço à sua virtuosa mãe—acrescentou o desembargador.

—Vou desconfiado!—disse Mosqueira ao colega.—Há coisa de um ano, Manuel Botelho fugiu para Espanha com uma senhora casada. Aquela mulher que vimos não é irmã dele.

—Pois, se nos mentiu, é um malandro, porque nos obrigou a fazer cumprimentos a uma amante!… Eu vou informar-me…—disse o corregedor, ofendido na sua honra severa.

E no correio seguinte escreveu a Domingos Botelho. No fim da carta dizia: «Tive o gosto de conhecer o teu filho Manuel e uma das tuas filhas. Por ele te mandei um abraço. E por ela te mandaria outro, se ficasse bem aos velhos ensinarem às meninas bonitas como se dão os abraços aos pais.»

Manuel já estava em casa dos avós. Tratava de mobilar uma casa modesta para a senhora dos Açores, com a ajuda da sua mãe, bondosa e indulgente. O pai soube da sua vinda. Disse que não queria ver o filho. E avisou-o de que era considerado desertor da cavalaria seis, desde que tinha abandonado os estudos, para os quais tinha licença.

Depois recebeu a carta do corregedor do crime. Mandou logo, em segredo, investigar se estava em Vila Real a senhora de que a carta falava. Os espiões confirmaram que ela estava na estalagem, enquanto Manuel Botelho tratava dos enfeites de uma casa. O magistrado escreveu ao juiz de fora. Este mandou chamar a mulher suspeita à sua presença. Ela contou-lhe a sua história com sinceridade e com lágrimas. O juiz teve pena e contou ao colega o que tinha descoberto. Domingos Botelho foi a Vila Real e ficou em casa do juiz de fora. A senhora foi chamada outra vez. Ao mesmo tempo, o general da província escrevia uma ordem de prisão contra o cadete desertor da cavalaria de Bragança.

Em vez do juiz, a senhora dos Açores encontrou um homem feio, de cara carrancuda e com ar de más intenções.

—Eu sou o pai de Manuel—disse Domingos Botelho.—Sei a história da senhora. O infame é ele. Vossa Senhoria é a vítima. O castigo da senhora começou no momento em que a sua consciência lhe disse que fez uma coisa indigna. Se a consciência ainda não lho disse, há de dizer. De onde é?

—Da ilha do Faial—respondeu a senhora, a tremer.

—Tem família?

—Tenho mãe e irmãs.

—A sua mãe aceitava-a, se a senhora lhe pedisse abrigo?

—Creio que sim.

—Sabe que Manuel é um desertor e que, a esta hora, está preso ou fugido?

—Não sabia…

—Isto quer dizer que a senhora não tem a proteção de ninguém.

A pobre mulher soluçava. Estava sufocada de angústia e desfeita em lágrimas.

—Porque não vai para a sua mãe?

—Não tenho dinheiro nenhum—respondeu ela.

—Quer partir hoje mesmo? À porta da estalagem vai encontrar uma liteira e uma criada para a acompanhar até ao Porto. Lá, entrega uma carta. A pessoa a quem escrevo vai tratar da sua viagem para Lisboa. Em Lisboa, outra pessoa vai levá-la a bordo do primeiro navio que sair para os Açores. Estamos combinados? Aceita?

—E beijo as mãos de Vossa Senhoria… Uma desgraçada como eu não podia esperar tanta caridade.

Poucas horas depois, a esposa do médico….

—Que tinha morrido de paixão e de vergonha, talvez!—exclama uma leitora sensível.

Não, minha senhora. Nesse ano, o estudante continuava a frequentar a Universidade. E, como já sabia muito de patologia, escapou à morte de vergonha. Essa é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no *Frei Luís de Sousa*. E escapou também à morte de paixão. Essa é outra morte, inventada pelos namorados nas cartas zangadas. E não pega nos maridos a quem o século deu um pouco de filosofia. Filosofia grega e romana, porque eles sabem bem que os filósofos da Antiguidade davam as mulheres de presente aos amigos, quando os amigos não lhas tiravam, por favor. E esta filosofia, hoje então…\[6\] Pois o médico não morreu, nem sequer emagreceu. Nem levou um *r* que mostrasse preocupação da sua alma, insensível às coisas agradáveis da terapêutica.

A esposa estava, sem dúvida, muito mais abatida e doente do que o marido. Banhada em lágrimas, morta de saudades, sem futuro, sem esperanças, sem uma voz humana que a consolasse, entrou na liteira. Chegou ao Porto e procurou o corregedor do crime, para lhe entregar uma carta do doutor Domingos Botelho. Uma parte dessa carta dizia assim:

«Deste-me notícia de uma filha que eu não conhecia nem reconheço. A mãe desta senhora está no Faial, e ela vai para lá. Trata tu, ou manda tratar, da sua viagem para Lisboa. E encarrega lá alguém de tratar da sua passagem para os Açores, no primeiro navio. Depois diz-me quanto foram as despesas. O meu filho Manuel teve ao menos a virtude de não matar ninguém para se fazer amante. Do modo como correm os tempos, é muito virtuoso um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se consegues do general, que está aí, o perdão para o rapaz. É desertor da cavalaria seis, e sei que está escondido em casa de um parente. Quanto a Simão, creio que não é possível salvá-lo do degredo por algum tempo… Livrá-lo da forca já é uma lança em África. Em Lisboa, há grandes poderes a mexer-se contra o desgraçado. E o intendente geral não gosta de mim, porque abandonei o cargo… etc.»

A senhora dos Açores partiu para Lisboa, e de lá para a sua terra e para o abrigo da sua mãe. A mãe julgava-a morta. E deu-lhe anos de vida, que não foram felizes, mas foram sossegados e sem ilusões.

Manuel Botelho conseguiu o perdão graças à influência do corregedor do crime. Mudou de regimento, para Lisboa, e ficou lá até à morte do pai. Depois pediu a baixa e voltou para a província.

### Glossário

- **primogénito**: o filho mais velho.
- **estalagem**: casa onde os viajantes comiam e dormiam, uma pensão antiga.
- **desembargador**: juiz de um tribunal superior.
- **degredo**: castigo de viver longe da pátria, numa terra distante.
- **Suplicação e Desembargo do Paço**: os tribunais mais altos do reino, em Lisboa.
- **desertor**: soldado que abandona o exército sem licença.
- **liteira**: cadeira fechada, levada por animais, para viajar.
- **uma lança em África**: uma coisa muito difícil de conseguir.
- **dar baixa**: sair do exército.
- **patologia / terapêutica**: o estudo das doenças / a maneira de as tratar.

## VII.

No dia 4 de Agosto de 1805, João da Cruz sentou-se à mesa com ar triste. Não tinha nenhum apetite para o almoço.

—Não comes, João?—perguntou-lhe a cunhada.

—O bocado não passa daqui—respondeu ele, a pôr o dedo na garganta.

—Que tens tu?

—Tenho saudades da rapariga… Dava agora tudo o que tenho para a ver aqui ao pé de mim. Com aqueles olhos que pareciam ir direitos aos desgostos que um homem tem lá dentro. Malditas sejam as desgraças da minha vida, que ma fizeram perder! Deus sabe se por pouco tempo, se para sempre!… Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não ficava em dívida com o corregedor. E não me importava que o filho vivesse ou morresse…

—Mas, se tens saudades—interrompeu a senhora Josefa—manda buscar a rapariga. Tem-na cá algum tempo, e depois ela volta para o pé do senhor Simão.

—Isso não é coisa de um homem que faz a barba, Josefa. Se ela lhe falta, o rapaz morre de tristeza dentro daqueles ferros. Isto é uma mania que me deu hoje… Sabes que mais? Que se dane o dinheiro: amanhã vou ao Porto.

—Pois é isso que tu deves fazer.

—Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anéis e fiquem os dedos. Até agora, tenho aguentado tudo com o meu braço. Se a rapariga ficar com menos, que se arranje. Ela quer assim, pois que assim o tenha.

A cara do mestre ferrador animou-se. E parecia que o aperto da garganta ia desaparecendo, à medida que ele planeava a sua ida ao Porto.

Tinha acabado de almoçar e ficou pensativo, encostado à mesa, junto ao banco da lareira.

—Ainda estás a cismar?!—disse outra vez Josefa.

—Parece coisa do demónio, mulher!… Estará a rapariga doente ou morta?

—Anjo bendito da Santíssima Trindade!—exclamou a cunhada, a levantar as mãos.—Que dizes tu, João!

—Estou cá por dentro negro como aquela frigideira!

—Isso é uma indisposição, homem! Vai apanhar ar, trabalha um bocadinho para te distraíres.

João da Cruz foi para o alpendre, onde tinha o armário das ferragens e a bigorna. E começou a preparar cravos de ferradura.

Passaram alguns conhecidos, que conversavam com ele como era costume. Achavam-no calado e sem vontade de brincadeiras.

—Que tens tu, João?—dizia um.

—Não tenho nada. Vai à tua vida e deixa-me, que não estou para conversas.

Outro parava e dizia:

—Deus o guarde, senhor João.

—E a vossemecê também. Que novidades há?

—Não sei nada.

—Pois então vá com Nossa Senhora, que eu estou cá de mau humor.

O ferrador largava o martelo. Sentava-se, aos poucos, no tronco e coçava a cabeça com nervosismo. Depois recomeçava o trabalho. Mas fazia-o tão distraído que estragava o cravo ou martelava os dedos.

—Isto é coisa do diabo!—exclamou ele.

E foi à cozinha buscar a bilha do vinho. Bebeu-a toda de uma vez, como um elegante de paixões delicadas se atordoa com absinto.

—Hei de afogar-te, coisa má, que me estás a apertar a alma!—continuou o ferrador, a sacudir os braços e a bater com o pé no chão.

Voltou para o alpendre. Nesse momento, ia a passar um viajante, montado numa mula forte. O cavaleiro estava embrulhado num grande capote à moda espanhola, apesar do calor que fazia. Viam-se-lhe as botas de couro cru, com esporas amarelas presas com fivelas. E tinha o chapéu caído sobre os olhos.

—Ora viva!—disse o viajante.

—Viva!—respondeu mestre João.

E deitou um olhar rápido às quatro patas da mula, para ver se havia trabalho com que distrair o espírito.

—A mula é bonita e cheia de força!

—Não é má. É vossemecê o senhor João da Cruz?

—Para o servir.

—Venho aqui pagar-lhe uma dívida.

—A mim? Que eu saiba, o senhor não me deve nada.

—Não sou eu que devo. É o meu pai, e foi ele que me encarregou de lhe pagar.

—E quem é o seu pai?

—O meu pai era um recoveiro de Carção, chamado Bento Machado.

A meio destas palavras, o cavaleiro abriu depressa as abas do capote. E disparou um bacamarte contra o peito do ferrador. O ferido recuou e exclamou:

—Mataram-me!… Mariana, não te vejo mais!…

A mula, assustada, correu a todo o galope. O assassino tinha andado uns cinquenta passos, quando João da Cruz, caído sobre o banco, deu o último suspiro. Tinha a cara posta no chão, no mesmo sítio de onde, dez anos antes, apontara ao peito do almocreve.

As pessoas que iam a passar tinham-se cruzado com o cavaleiro sem reparar nele. Juntaram-se à volta do cadáver. Josefa acudiu ao barulho do tiro, mas já não ouviu as últimas palavras do cunhado. Quis levá-lo para dentro e correr a chamar um cirurgião. Mas estava um cirurgião no meio da gente, e ele declarou que o homem estava morto.

—Quem o matou?—exclamavam trinta vozes ao mesmo tempo.

Nesse mesmo dia, vieram as autoridades de Viseu escrever o auto e investigar. Não encontraram nenhum indício que lhes desse o fio do misterioso assassínio. O escrivão dos órfãos fez a lista dos objetos encontrados. E fechou as portas quando os sinos davam o último toque de finados, ao cair a pedra da sepultura sobre João da Cruz.

Deus terá descontado a nobreza da tua alma dos instintos sanguinários do teu temperamento! Penso nas contradições do teu carácter, homem que me explicas a Providência. E fico espantado com os contrastes caprichosos que a mão de Deus põe na alma das criaturas. Dorme o teu sono infinito, se nenhum outro tribunal te chama para responderes pelas vidas que tiraste e pelo uso que fizeste da tua. Mas, se há um lugar de castigo e de misericórdia, as lágrimas da tua filha terão sido os teus méritos, diante do Juiz Supremo.

Josefa mandou escrever uma carta a Mariana, a dar-lhe a notícia da morte do pai. Mas, para maior segurança, pôs na carta o endereço de Simão Botelho. Mariana estava no quarto do preso quando a carta lhe foi entregue.

—Não conheço a letra, Mariana… E o selo é preto…

Mariana examinou o envelope e ficou pálida.

—Eu conheço a letra—disse ela.—É do Joaquim da loja.

—Abra depressa, senhor Simão… Terá morrido o meu pai?

—Que ideia! Pois não recebeu carta dele há três dias? E não lhe disse que estava bem?

—Que tem isso?… Veja quem assina.

Simão procurou a assinatura e disse:

—*Josefa Maria*… É a sua tia que lhe escreve.

—Leia… leia… Que diz ela?

O preso lia em silêncio, e Mariana insistiu:

—Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer… E Vossa Senhoria está a ficar pálido… Que é, meu Deus?

Simão deixou cair a carta e sentou-se, sem forças. Mariana correu a apanhar a carta. Ele pegou-lhe na mão e murmurou:

—Pobre amigo!… Choremo-lo os dois… Choremo-lo, Mariana, que o amávamos como filhos…

—Então morreu?—gritou ela.

—Morreu… Mataram-no!…

A moça soltou um grito agudo e bateu com a cara contra os ferros das grades. Simão puxou-a para o peito e disse-lhe, com muita ternura e força:

—Mariana, lembre-se de que é o meu apoio. Lembre-se de que as últimas palavras do seu pai deviam ser para lhe pedir que cuidasse deste desgraçado, que recebe das suas mãos generosas o pão da vida. Mariana, minha querida irmã, vença a dor que a pode matar. E vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga da minha alma?

Mariana exclamou:

—Deixe-me chorar, por caridade!… Ai, meu Deus, e se eu volto a ficar louca!

—Que seria de mim!—interrompeu Simão.—A quem deixaria Mariana o seu nobre coração, para me tornar mais leve este sofrimento? Quem me levaria ao exílio uma palavra amiga, que me desse coragem para acreditar em Deus!… Não há de enlouquecer, Mariana. Eu sei que me estima, que me ama, e que vai enfrentar com coragem a maior desgraça que o inferno ainda me pode mandar! Chore, minha irmã, chore. Mas veja-me através das suas lágrimas!

### Glossário

- **almocreve**: homem que transportava mercadorias em animais de carga.
- **vão-se os anéis e fiquem os dedos**: perde-se o dinheiro, mas fica o mais importante.
- **alpendre**: telhado à frente da casa, aberto dos lados.
- **bigorna**: bloco de ferro onde o ferrador bate o metal.
- **cravo**: prego para pregar a ferradura no casco do animal.
- **recoveiro**: homem que levava encomendas e recados de terra em terra.
- **bacamarte**: espingarda antiga, curta e de boca larga.
- **selo preto**: o selo da carta, de cor preta, era sinal de luto.

## VIII.

Passados alguns dias, Mariana foi a Viseu receber a herança do pai. Para a sua condição, o trabalhador ferrador tinha-a deixado bem rica. Além dos campos, cujo rendimento chegava para a sustentar, havia mais. Mariana levantou a laje da lareira, que ela conhecia, e encontrou os quatrocentos mil réis. Com esse dinheiro, João da Cruz contava pagar os pequenos luxos da sua velhice sem trabalho. Mariana vendeu as terras. E deixou a casa à tia, que tinha nascido nela, e onde o pai tinha casado.

Arrumada a herança, voltou para o Porto. E deixou o seu dinheiro nas mãos de Simão Botelho. Disse que tinha medo de ser roubada na casinha onde vivia, em frente da Relação, na rua de S. Bento.

—Porque vendeu as suas terras, Mariana?—perguntou o preso.

—Vendi-as porque não tenciono voltar lá.

—Não tenciona?… Para onde há de ir Mariana, quando eu for para o degredo? Fica no Porto?

—Não, senhor, não fico—gaguejou ela, como admirada com esta pergunta. O seu coração pensava que já lhe tinha respondido há muito tempo.

—Então?

—Vou para o degredo, se Vossa Senhoria me quiser na sua companhia.

Se fingisse surpresa, Simão seria ridículo aos seus próprios olhos.

—Esperava essa resposta, Mariana, e sabia que não me dava outra. Mas sabe o que é o degredo, minha amiga?

—Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão… É uma terra mais quente do que a nossa. Mas lá também há pão, e vive-se…

—E morre-se queimado pelo sol doentio daquele céu. Morre-se de saudades da pátria. E morre-se muitas vezes dos maus tratos dos chefes das galés, que tratam um condenado como uma fera.

—Não há de ser tanto assim. Tenho perguntado muito sobre isso à mulher de um preso. Ele cumpriu dez anos de sentença na Índia e viveu muito bem numa terra chamada Solor, onde teve uma loja. E ela diz que, se não fossem as saudades, não vinha, porque lá a vida lhe corria melhor do que cá. Se for vontade do senhor Simão, eu também vou abrir uma lojinha. Vai ver como eu arranjo a vida. Eu estou habituada ao calor. Vossa Senhoria não está. Mas, se Deus quiser, não vai precisar de andar ao sol.

—E imagine, Mariana, que eu morro logo que chegar ao degredo?

—Não falemos nisso, senhor Simão…

—Falemos, minha amiga. Na hora da morte, vou sentir pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino… E se eu morrer?

—Se o senhor morrer, eu saberei morrer também.

—Ninguém morre quando quer, Mariana…

—Oh! Se morre!… E também vive quando quer… Não mo disse já a senhora D. Teresa?

—Que lhe disse ela?

—Que estava a morrer quando Vossa Senhoria chegou ao Porto, e que a sua chegada lhe deu vida. Pois há muita gente assim, senhor Simão… E a fidalga ainda por cima é fraquinha. Eu sou mulher do campo, habituada a todos os trabalhos. Se fosse preciso meter uma lanceta no braço e deixar correr o sangue até morrer, fazia-o sem pensar duas vezes.

—Ouça-me, Mariana. Que espera de mim?

—Que hei de eu esperar!… Porque me diz isso, senhor Simão?

—Os sacrifícios que Mariana tem feito, e quer fazer, por mim só podiam ter um pagamento. Mesmo que não os faça à espera de recompensa. Abre-me o seu coração, Mariana?

—Que quer que eu lhe diga?

—Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?

—Conheço, e que tem isso?

—Sabe que eu estou ligado, na vida e na morte, àquela desgraçada senhora?

—E então? Quem lhe diz o contrário?!

—Os sentimentos do coração, só os posso agradecer com amizade.

—E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!

—Não me pediu nada, Mariana. Mas faz tanto por mim que o peso desta dívida me torna mais infeliz.

Mariana não respondeu. Chorou.

—E porque chora?—perguntou Simão, com carinho.

—Isso é ingratidão… E eu não mereço que me diga que o faço infeliz.

—Não me compreendeu… Sou infeliz por não poder fazer de si a minha mulher. Eu queria que Mariana pudesse dizer: «Sacrifiquei-me pelo meu marido. No dia em que o vi ferido em casa do meu pai, passei as noites acordada ao seu lado. Quando a desgraça o fechou entre ferros, dei-lhe o pão que nem os seus pais ricos lhe davam. Quando o vi condenado à forca, enlouqueci. Quando a luz da razão me voltou, num raio de compaixão divina, corri para a segunda cadeia. Alimentei-o, vesti-o e enfeitei as paredes nuas da sua cela. Quando o desterraram, acompanhei-o. Fiz-me a pátria daquele pobre coração. Trabalhei à luz do sol assassino para ele se proteger do clima, do trabalho e do abandono, que o matariam…»

O espírito de Mariana não conseguia subir à altura das palavras do preso. Mas o coração, esse sim, adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e chorava ao mesmo tempo. Simão continuou:

—Tem vinte e seis anos, Mariana. Viva, porque esta sua existência só pode ser um sofrimento escondido. Viva, porque não deve dar tudo a quem só lhe pode devolver as lágrimas que eu lhe tenho custado. O tempo do meu desterro não pode estar longe. Esperar outro destino melhor seria uma loucura. Se eu ficasse na pátria, livre ou preso, pedia à minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão. Pedia-lhe que esperasse até eu lhe dar a última palavra da minha vida. Mas não vá comigo para África ou para a Índia. Eu sei que voltará sozinha para a pátria, depois de eu fechar os olhos. Se o meu degredo for temporário, e a morte me guardar para maiores naufrágios, um dia voltarei à pátria. E é preciso que Mariana esteja aqui. Assim, posso dizer que venho para a minha família, que tenho aqui uma alma carinhosa à minha espera. Se a encontrar com marido e filhos, a sua família será a minha. Se a vir livre e sozinha, irei viver com a minha irmã. Que me responde, Mariana?

A filha de João da Cruz levantou os olhos do chão e disse:

—Eu vou ver o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o degredo….

—Pense desde já, Mariana.

—Não tenho nada que pensar… A minha decisão está tomada…

—Fale, minha amiga. Diga qual é a sua decisão.

Mariana hesitou alguns segundos e respondeu, com calma:

—Quando eu vir que não lhe faço falta, acabo com a vida. Acha que me custa muito matar-me? Não tenho pai, não tenho ninguém. A minha vida não faz falta a ninguém. O senhor Simão pode viver sem mim? Paciência!… Eu é que não posso…

Não acabou a ideia, como quem tem vergonha de um atrevimento. O preso apertou-a nos braços, com muita emoção, e disse:

—Irá, irá comigo, minha irmã. A partir de agora, pense muito na desgraça de nós dois, porque ela é comum. É um veneno que havemos de beber juntos. E lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da pátria.

Desde esse dia, uma alegria secreta enlouquecia o coração de Mariana. Não inventemos maravilhas de renúncia. O coração de Mariana era um coração de mulher. Ela amava, como a fantasia gosta de imaginar o amor de certos anjos. Esses anjos batem as asas de baile em baile e só ficam o tempo necessário para serem vistos e adorados, num reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciúmes de Teresa. Não eram ciúmes que se acalmam a desabafar ou a ficar zangada. Eram infernos silenciosos, que não saíam como chamas pelos lábios, porque os olhos se abriam logo em lágrimas para os apagar. Sonhava com as delícias do desterro, porque lá nenhuma voz humana ia gemer à cabeceira do desgraçado. Se a obrigassem a renunciar à sua missão sem glória, de irmã daquele homem, renunciaria. Mas diria: «Ninguém o vai amar como eu. Ninguém lhe vai adoçar as penas com tão pouco interesse como eu fiz.»

E, no entanto, nunca hesitou em aceitar as cartas para Simão, das mãos de Teresa ou da mendiga. A leitura daquelas cartas abria rugas de dor na testa do preso. A cada ruga, Mariana, que o observava às escondidas, tremia em todas as fibras do coração. E dizia para si: «Para que há de aquela senhora amargurar-lhe a vida!»

E a infeliz menina amargurava-a muito!

Naquela alma voltaram a nascer esperanças. Não iam durar mais do que o tempo necessário para a desilusão tornar a sua desgraça ainda mais pura. Ela tinha imaginado a liberdade, o perdão, o casamento, a felicidade, a coroa do seu martírio. As suas amigas pintavam-lhe de cores a tela da fantasia. Umas, porque não conheciam a realidade terrível das coisas. Outras, porque confiavam demasiado nas orações das freiras virtuosas do mosteiro. Se as profecias destas profetisas se cumprissem, Simão sairia da cadeia. Tadeu de Albuquerque morreria de velhice e de raiva. O casamento seria uma coisa certa. E o céu dos desgraçados começaria neste mundo.

Mas Simão Botelho, ao fim de cinco meses de cadeia, já sabia o seu destino. E achou útil prevenir Teresa, para ela não morrer com o golpe certo da separação. Ele bem queria iluminar com esperanças a paisagem negra do degredo. Mas eram fracas e frias as consolações em que não entravam nem a convicção nem o sentimento. Teresa nem sequer podia enganar-se. Tinha no peito um despertador que a acordava sempre para a hora final, embora a sua cara enganasse a pena dos estranhos.

E então desabafava em lamentos nas cartas que escrevia ao seu amigo. Havia invocações a Deus e palavras ímpias contra o destino. Havia momentos de paciência mansa e ataques de raiva contra o pai. Havia o apego à vida que lhe fugia, e súplicas à morte, que não a livrava das torturas da alma e do corpo.

Ao fim de sete meses, o tribunal de segunda instância mudou a pena de morte para dez anos de degredo na Índia. Tadeu de Albuquerque seguiu a apelação até Lisboa. E ofereceu a sua casa a quem conseguisse manter de pé a forca de Simão Botelho. O pai do condenado tinha recebido um aviso assustador do seu filho Manuel. Foi para Lisboa lutar contra o dinheiro e as fortes influências que Tadeu de Albuquerque tinha ganhado na Casa da Suplicação e no Desembargo do Paço. Domingos Botelho venceu. Levado mais pelo seu capricho do que pelo amor de pai, conseguiu do príncipe regente uma graça: o condenado podia cumprir a sentença na prisão de Vila Real.

Comunicaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do regente. O preso respondeu que não aceitava a graça. Queria a liberdade do degredo. Disse que ia protestar diante dos tribunais contra um favor que não tinha pedido, e que considerava mais cruel do que a morte.

Domingos Botelho soube que o filho tinha recusado. Respondeu que ele fizesse a sua vontade. Mas que a sua vitória, a dele, contra os protetores e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Viseu, estava completamente ganha.

O intendente geral da polícia foi avisado. E o nome de Simão Botelho foi escrito na lista dos degredados para a Índia.

### Glossário

- **herança**: bens que uma pessoa deixa aos filhos quando morre.
- **réis**: antiga moeda portuguesa.
- **galés**: navios onde os condenados eram obrigados a remar; aqui, o castigo dos presos.
- **lanceta**: pequena faca de médico, para fazer sangrias.
- **ímpio**: que ofende Deus ou a religião.
- **martírio**: grande sofrimento que se aguenta por amor ou por fé.
- **abnegação / renúncia**: deixar o seu próprio bem pelo bem de outra pessoa.
- **segunda instância**: tribunal mais alto, que volta a julgar um processo.
- **apelação / recurso**: pedido para um tribunal mais alto mudar a sentença.
- **príncipe regente**: o príncipe que governava o reino em nome da rainha.

## IX.

A verdade é, algumas vezes, o rochedo onde um romance naufraga.

Na vida real, aceitamos a verdade como ela sai dos acasos que se cruzam, ou da lógica implacável das coisas. Mas, num romance, custa-nos aguentar que o autor, se inventa, não invente melhor. E que, se copia, não minta por amor à arte.

Um romance que põe o seu valor na verdade é frio e aborrecido. É uma coisa que não sacode os nervos. Nem nos tira, por um tempo, enquanto o lemos, deste jogo de nora em que nós somos os baldes. Uns sobem, outros descem, movidos pela manivela do egoísmo.

A verdade! Se ela é feia, para que mostrá-la ao público em quadros!?

A verdade do coração humano! O coração humano pode ter fios de ferro que o prendem ao barro de onde saiu. Ou fios que pesam nele e o afundam no charco da primeira culpa. Se é assim, para que tirá-lo de lá, retratá-lo e pô-lo à venda!?

Estas críticas são de quem tem o juízo no seu lugar. Mas eu perdi o meu a estudar a verdade. E agora a minha única vingança é pintá-la como ela é, feia e repugnante.

A desgraça aquece ou quebra o amor?

Isso deixo à decisão do leitor inteligente. Trago para aqui factos, e não teorias. O pintor retrata uns olhos, mas não explica como funciona o aparelho da vista.

Ao fim de dezanove meses de cadeia, Simão Botelho desejava muito um raio de sol. Desejava um sopro de ar que não passasse por entre ferros. Desejava o teto do céu, porque o teto curvo da sua cela lhe pesava sobre o peito.

O seu desejo era viver. Já não era o desejo de amar.

Seis meses de sustos diante da forca deviam ter afrouxado as fibras do seu coração. E, para o amor, o coração precisa de ser forte e tenso, com uma certa dureza. Essa dureza ganha-se com o bom sangue, com as ânsias das esperanças e com as alegrias. As alegrias enchem o coração e dão-lhe força para as desgraças.

Diante dos olhos de Simão, a terrível forca caiu. Mas os pulsos ficaram presos em ferros. Os pulmões ficaram no ar mortal das cadeias. E o espírito ficou gelado na frieza estúpida das paredes cheias de salitre. Ficou num chão onde ainda ecoam os últimos passos do último condenado. E debaixo de um teto que deixa cair a morte, gota a gota.

Que é o coração ao fim de dezoito meses de vida parada? O coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito que deseja a glória?

O coração é um órgão ferido de paralisia. É o primeiro a morrer, sufocado pelas revoltas da alma. A alma sente-se parte da natureza, quer a natureza e devora-se no desejo dela. Torce-se nas dores de quem perdeu um membro. Para essas dores, a saudade da felicidade morta é como um ferro em brasa. E o amor, que leva ao abismo pelo caminho da felicidade sonhada, nem sequer é um alívio.

Quando tiraram da sua garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora de alívio. Era como se sentisse a forca partir-se entre os seus braços. Então convidou o coração da mulher que o tinha perdido. Convidou-a a assistir ao seu segundo casamento: o casamento da sua vida com a esperança.

Depois, a passo certo, a esperança fugia-lhe para as areias da Ásia. O coração enchia-se de amargura, e o amor afogava-se nela. É uma morte inevitável, quando não há nenhuma abertura por onde a esperança entre, a brilhar na escuridão de dentro.

Que esperança havia para Simão Botelho?

A Índia, a humilhação, a miséria, a pobreza.

E os desejos daquela alma tinham apontado para a ambição de um nome. Pela felicidade do amor, ele apostava as forças do seu talento. Mas, além do amor, estavam a glória, a fama e a imortalidade vã. Essa imortalidade só não é loucura nas grandes almas e nos génios que sentem que vão viver nas gerações futuras e já brilham nelas. Mas as coroas de amor que escorrem sangue dos espinhos põem um veneno que corrói o pensamento. Apagam no peito a faísca das coragens nobres. Tornam pequena a ideia que antes abraçava mundos. E paralisam, num espasmo mortal, os impulsos do coração.

Assim te sentias tu, infeliz. Dezoito meses de cadeia, com a forca ou o degredo no teu futuro, tinham-te matado o melhor da alma.

Perguntavas a ti mesmo pelo teu passado. E o coração, se se atrevia a responder, encolhia-se, censurado pelas ordens da razão.

De longe, daquele convento onde outra vida agonizava, vinham queixas e gemidos. Espremiam amargura sobre a tua ferida. E tu, que não sabias nem podias consolar, pedias ao anjo da compaixão palavras para ela. E recebias, para ti, as palavras do demónio do desespero.

Os dez anos de ferros, com que lhe quiseram diminuir a pena, eram para ele mais horríveis do que a forca. E aceitá-los-ias, talvez, se amasses o céu onde Teresa respirava. Mas esse ar, nos pulmões dela, transformava-se em veneno. Eu creio nisto: antes a masmorra, onde se pode ouvir o som abafado de uma voz amiga. Antes as agonias de dez anos sobre as lajes húmidas de uma cela imunda. Isto se, na última hora, a última faísca da paixão, ao tremer antes de se apagar, nos iluminar o caminho do céu. É o caminho por onde subiu o anjo do amor infeliz, para dar contas de si a Deus e pedir a alma de quem ficou.

Teresa tinha pedido a Simão Botelho que aceitasse dez anos de cadeia. E que esperasse lá que ela o salvasse.

«Dez anos!—dizia-lhe a reclusa de Monchique.—Em dez anos, o meu pai terá morrido. Eu serei tua esposa e irei pedir ao rei que te perdoe, se ainda não tiveres cumprido a sentença. Se vais para o degredo, perdi-te para sempre, Simão. Porque vais morrer, ou não te vais lembrar de mim quando voltares.»

Como a pobre se enganava, nas horas em que as fracas forças da sua vida se juntavam no coração!

As ânsias, a palidez e o enfraquecimento tinham voltado. O sangue novo que tinha criado já lhe saía em golfadas com a tosse.

O condenado podia aceitar, por amor ou por pena, os ferrolhos fechados três mil seiscentas e cinquenta vezes sobre as suas longas noites solitárias. Mas nem assim Teresa conseguiria aguentar a pedra da sepultura, que a dobrava de hora a hora.

«Não esperes nada, mártir—escrevia-lhe ele.—A luta contra a desgraça é inútil, e eu já não posso lutar. O nosso encontro foi um engano terrível. Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte… Há um segredo que só se sabe na sepultura. Ver-nos-emos?

Eu vou. Detesto a pátria, detesto a minha família. Aos meus olhos, toda esta terra está coberta de forcas. E creio ouvir todos os homens que falam a minha língua a gritar as maldições do carrasco. Em Portugal, não quero nem a liberdade com a riqueza. Nem agora a realização das esperanças que o teu amor me dava, Teresa!

Esquece-te de mim e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Que se apague a luz dos meus olhos. Mas a luz do céu, essa quero-a! Quero ver o céu no meu último olhar.

Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade presa durante dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses. As únicas vozes que tenho ouvido são duas. A da mulher piedosa que me dá, por esmola, o pão de cada dia. E a do aguazil que veio trazer-me a boa notícia irónica de uma graça real. Essa graça troca a morte rápida da forca pelas agonias de dez anos de cadeia.

Salva-te, se puderes, Teresa. Renuncia ao prestígio de um grande desgraçado. Se o teu pai te chamar, vai. Se tem de nascer de novo para ti uma madrugada de paz, vive para a felicidade desse dia. Senão, morre, Teresa, morre. Porque a felicidade é a morte. É as fibras rasgadas pela dor desfazerem-se em pó. É o esquecimento, que salva das ofensas a memória dos que sofrem.»

Esta carta mostrava a perturbação do infeliz. Teresa respondeu-lhe apenas com estas palavras: «Vou morrer, Simão, vou morrer. Perdoa tu ao meu destino… Perdi-te… Bem sabes que sorte eu te queria dar… E morro, porque não posso, e nunca poderei, salvar-te. Se puderes, vive. Não te peço que morras, Simão. Quero que vivas para chorares por mim. O meu espírito vai consolar-te… Estou tranquila… Vejo a madrugada da paz… Adeus até ao céu, Simão.»

A esta carta seguiram-se muitos dias de um silêncio terrível. Simão Botelho não respondia às perguntas de Mariana. Diríeis que estava perdido nas angústias, quase doces, da sua própria destruição. A criatura que Deus pôs ao lado daqueles dezoito anos tão sofridos chorava. Mas, se Simão via as lágrimas, saía do seu silêncio calmo para ataques de aflição. E esses ataques acabavam por o esgotar, à força de convulsões.

Passaram ainda seis meses.

E Teresa vivia. Dizia às companheiras, tristes, que sabia com certeza o dia da sua morte.

Simão Botelho tinha visto duas primaveras pelas grades da sua cadeia. A terceira já enchia de flores as hortas e tornava verdes as florestas do Candal.

Era Março de 1807.

No dia 10 desse mês, o condenado recebeu a ordem de partir no primeiro navio que levantasse âncora do Douro para a Índia. Nesse tempo, os navios vinham aqui buscar os degredados. E em Lisboa recebiam os que tinham o mesmo destino.

Nada impedia o embarque de Mariana. Ela apresentou-se ao corregedor do crime como criada do degredado, com a passagem paga pelo seu amo.

—E bem vale a passagem!—disse o magistrado brincalhão.

Simão assistiu à arrumação da sua bagagem nas caixas, com uma calma terrível, como se não soubesse o seu destino.

Muitas vezes quis escrever a última carta à moribunda Teresa. Mas já nem conseguia mandar-lhe no papel sinais de lágrimas.

—Que escuridão, meu Deus!—exclamava ele, e arrancava os cabelos às mãos cheias.—Dai-me lágrimas, Senhor! Deixai-me chorar, ou matai-me, porque este sofrimento é insuportável!

Mariana olhava, assustada, para estas e outras cenas de loucura. Ou para as cenas, não menos medonhas, de letargia.

—E Teresa!—gritava ele, a sair de repente do seu espasmo.—E aquela infeliz menina, que eu matei! Não a vou ver mais, nunca mais! Ninguém me vai levar ao degredo a notícia da sua morte! E, quando eu a chamar para me ver morrer digno dela, quem te vai dizer que eu morri, ó mártir!

### Glossário

- **nora**: roda com baldes que tira água de um poço; os baldes sobem e descem sem parar.
- **manivela**: peça que se roda com a mão para pôr uma máquina a andar.
- **repugnante**: que causa nojo.
- **golfada**: quantidade de líquido que sai de repente pela boca.
- **mártir**: pessoa que sofre muito ou morre por uma fé ou por um amor.
- **aguazil**: oficial de justiça.
- **salitre**: sal branco que aparece nas paredes húmidas.
- **masmorra**: prisão escura, muitas vezes debaixo da terra.
- **enxovia**: a parte mais baixa e suja de uma cadeia.
- **ferrolho**: barra de ferro que fecha uma porta.
- **letargia**: estado de quem está como adormecido, sem reagir.
- **degredado**: pessoa condenada ao degredo.
- **espasmo**: contração forte e de repente; aqui, uma crise.

## X.

A 17 de Março de 1807, Simão António Botelho saiu das cadeias da Relação. Embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do antigo corregedor de Viseu não ia amarrado com cordas ao braço de nenhum companheiro. Era assim a pedido do desembargador Mourão Mosqueira e por ordem do regedor das justiças. Desceu da cadeia até ao embarque ao lado de um meirinho. Seguia-o Mariana, que vigiava as caixas da bagagem. O magistrado, amigo fiel de D. Rita Preciosa, foi a bordo do navio. Pediu ao comandante que tratasse o degredado Simão de modo especial: que o deixasse estar na tolda e o sentasse à sua mesa. Chamou Simão à parte e deu-lhe um rolo de moedas de ouro, que a mãe lhe mandava. Simão Botelho aceitou o dinheiro. E, diante de Mourão Mosqueira, pediu ao comandante que distribuísse esse dinheiro pelos seus companheiros de degredo.

—O senhor Simão está louco?!—disse o desembargador.

—Tenho a loucura da dignidade. Perdi-me por amor da minha dignidade. Agora quero ver até que ponto de desgraça ela pode levar os que a amam. A caridade só não me humilha quando vem do coração, e não do dever. Não conheço a pessoa que me mandou este dinheiro.

—É a sua mãe—respondeu Mosqueira.

—Não tenho mãe. Vossa Excelência quer devolver-lhe esta esmola recusada?

—Não, senhor.

—Então, senhor comandante, faça o que lhe peço. Ou eu atiro isto ao rio.

O comandante aceitou o dinheiro. E o desembargador saiu de bordo, espantado com o carácter sombrio do moço.

—Onde é Monchique?—perguntou Simão a Mariana.

—É ali, senhor Simão—respondeu ela.

E mostrou-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia.

Simão cruzou os braços. Através das grades do mirante, viu um vulto.

Era Teresa.

Na véspera, ela tinha recebido o adeus de Simão. E tinha respondido com a trança dos seus cabelos.

Ao anoitecer desse dia, Teresa pediu os sacramentos. Comungou à grade do coro, aonde foi apoiada na sua criada. Passou parte da noite sentada ao pé do oratório da tia, que rezou a noite toda. Algumas vezes pediu que a levassem à janela virada para o mar. Ali, não sentia o frio da brisa. Conversava com calma com as freiras. E despediu-se de todas, uma a uma. Foi pelo seu pé às celas das senhoras paralisadas, para lhes dar o beijo de despedida.

Todas tentavam animá-la. Teresa sorria, sem responder aos truques piedosos com que aquelas boas almas queriam fingir esperanças a si mesmas. Ao nascer do dia, Teresa leu, uma a uma, as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego faziam-na chorar muito. Eram hinos à felicidade esperada. Eram tudo o que de mais bonito pode dar o coração humano, quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma natureza bela e inspiradora lhe empresta as suas cores. Então vinham-lhe lembranças vivas daqueles dias. A sua alegria louca, as suas tristezas doces, as esperanças a apagar as saudades. As conversas sem palavras com a irmã querida de Simão. O céu perfumado que se abria ao seu desejo ansioso de coisas vagas. Tudo, enfim, de que os desgraçados se lembram.

Depois juntou as cartas num maço. E atou-as com fitas de seda, que desatou de pequenos ramos de flores murchas. Eram os ramos que Simão, dois anos antes, lhe tinha atirado da sua janela para o quarto dela.

Quase todas as pétalas das flores soltas se desfizeram. Teresa olhou para elas e disse: «Como a minha vida…» E chorou, a beijar os cálices sem pétalas das primeiras flores que tinha recebido.

Deu as cartas a Constança. E deu-lhe uma ordem sobre elas, que vamos ver cumprida mais à frente.

Depois foi rezar. Esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo encostado a uma cadeira. Quando se levantou, quase à força, aceitou uma chávena de caldo. E murmurou, com um sorriso: «Para a viagem…»

Às nove horas da manhã, pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante. Sentou-se, em ânsias de morte. E nunca mais tirou os olhos do navio, que já tinha as velas prontas, à espera da leva dos degredados.

Viu os condenados entrarem no convés, amarrados, dois a dois. Então Teresa teve um breve desmaio. A luz dos olhos, já fraca, apagou-se. E as mãos, a tremer, pareciam querer agarrar a luz que fugia.

Foi nesse momento que Simão Botelho a viu.

Ao mesmo tempo, encostou ao navio um bote. Nele vinha a pobre de Viseu, a chamar por Simão. Ele foi à abertura do costado do navio e estendeu o braço à mendiga. Recebeu o pequeno pacote das suas cartas. Pelo papel liso, viu que a primeira carta não era dele. Mas não a abriu.

Ouviu-se a ordem de levantar âncora e soltar as amarras. Simão encostou-se à borda do navio, com os olhos fixos no mirante.

Viu um lenço a mexer-se. E ele respondeu com o seu lenço àquele aceno. O navio começou a descer o rio para o mar e passou em frente do convento. Simão viu claramente uma cara e uns braços pendurados das grades de ferro. Mas aquela cara não era de Teresa. Parecia antes um cadáver que tinha subido do claustro ao mirante, com os ossos da cara ainda cobertos das feridas da sepultura.

—É Teresa?—perguntou Simão a Mariana.

—É, senhor, é ela—disse, com um gemido abafado, a generosa criatura.

O seu coração dizia-lhe que a alma do condenado iria em breve atrás daquela por quem se tinha perdido.

De repente, o lenço que se agitava no mirante parou. Simão viu um movimento rápido de alguns braços. E viu desaparecer Teresa e o vulto de Constança, que ele só tinha visto, meio escondido, depois de ver Teresa.

O navio parou em frente de Sobreiras. Havia uma nuvem no horizonte da barra, e as ondas tinham crescido de repente. Por isso, o comandante mandou parar. A seguir, veio da Foz um pequeno barco à vela, com o piloto-mor. Ele mandou deitar âncora até novas ordens. Mais tarde, a saída foi adiada para o dia seguinte.

E, entretanto, Simão Botelho parecia um cadáver embalsamado, com os olhos brilhantes cravados, imóveis, num ponto. Tinha-os mergulhados na escuridão de dentro do mirante. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram, até que o último raio de sol se apagou nas grades do mosteiro.

Ao escurecer, o comandante voltou de terra. Com os olhos turvos de lágrimas, olhou para o desterrado, que olhava para as primeiras estrelas, por cima do mirante.

—Procura-a no céu?—disse o marinheiro.

—Se a procuro no céu!—repetiu Simão, sem pensar.

—Sim!… No céu deve ela estar.

—Quem, senhor?

—Teresa.

—Teresa!… Morreu?!

—Morreu, além, no mirante, de onde lhe estava a acenar.

Simão debruçou-se sobre a borda do navio e fixou os olhos na corrente. O comandante agarrou-o nos braços e disse:

—Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar acreditam em Deus! Espere que o céu se abra para si, pelas orações daquele anjo!

Mariana estava um passo atrás de Simão, com as mãos levantadas.

—Acabou-se tudo!…—murmurou Simão.—Aqui estou livre… para a morte… Senhor comandante—continuou ele, com força—eu não me vou matar. Pode deixar-me.

—Peço-lhe que vá para a câmara. A sua cama está ao pé da minha.

—Sou obrigado a ir?

—Para Vossa Senhoria não há obrigações, há pedidos. Peço-lho, não lho mando.

—Vou, e agradeço a compaixão.

Mariana seguiu-o com aquele olhar triste e meigo do jau, quando o poeta desembarcava, como o imaginou, apaixonado, o poeta que cantou Camões.

Simão olhou para ela e disse ao comandante:

—E esta infeliz?

—Que o siga…—respondeu o compassivo homem do mar, que acreditava em Deus.

Simão foi para a sua cama. O comandante sentou-se em frente dele. E Mariana ficou no escuro da câmara, a chorar.

—Fale, senhor Simão!—disse o comandante.—Desabafe e chore.

—Já chorei, senhor!

—Eu nunca tinha imaginado uma angústia igual à sua. A imaginação humana ainda não criou um quadro tão terrível. Arrepiam-se-me os cabelos, e eu tenho visto espetáculos horríveis na terra e no mar.

O comandante estava, de propósito, a tentar que Simão desabafasse. O degredado não respondia. Ouvia os soluços de Mariana e tinha os olhos postos no maço das cartas, que tinha posto sobre um banquinho.

O capitão continuou:

—Em Miragaia, contaram-me a morte daquela senhora. Então pedi a uma pessoa que conhecia gente do convento que me levasse a ouvir a triste história de alguma freira. Uma religiosa contou-ma. Mas eram mais os gemidos do que as palavras. Soube que, quando nós descíamos à altura do Ouro, ela disse em voz alta: «Simão, adeus até à eternidade!» E caiu nos braços de uma criada. A criada gritou. Outras foram ao mirante e trouxeram-na para baixo meio morta. Ou morta, é melhor dizer, porque não lhe ouviram mais nenhuma palavra. Depois contaram-me o que ela sofreu em dois anos e nove meses naquele mosteiro. O amor que ela lhe tinha, e as mil mortes que lá sofreu, de cada vez que a esperança lhe morria. Que menina tão desgraçada, e que moço tão desgraçado o senhor é!

—Por pouco tempo…—disse Simão, como se falasse para si mesmo, ou como se a sua própria imaginação conversasse com ele.

—Creio, creio, por pouco tempo—continuou o capitão.—Mas, se os amigos o pudessem salvar, senhor, eu dava-lhos na Índia, mais fiéis do que em Portugal. Prometo-lhe, pela minha palavra de honra, conseguir do vice-rei que fique a viver em Goa. Prometo garantir-lhe um começo de vida decente e as comodidades que tornam a vida tão saudável como ela é na Ásia. Não tenha medo da ideia do degredo, senhor Simão. Viva, tente vencer-se a si mesmo, e vai ser feliz!

—O seu silêncio, por piedade, senhor…—interrompeu o degredado.

—Bem sei que ainda é cedo para fazer planos para o futuro. Desculpe a minha indiscrição, por causa da simpatia que me inspira. Mas aceite um amigo nesta hora difícil.

—Aceito, e preciso dele…. Mariana!—chamou Simão.—Venha aqui, se este cavalheiro o permite.

Mariana entrou no quarto.

—Esta mulher tem sido a minha providência—disse Simão.—Foi graças a ela que eu não senti a fome em dois anos e nove meses de cadeia. Vendeu tudo o que tinha para me sustentar e vestir. Esta criatura vai comigo. Respeite-a, senhor, porque ela é tão pura como deve ser a verdade nos lábios de um moribundo. Se eu morrer, senhor comandante, aceite a missão de a proteger com a sua caridade, como se ela fosse minha irmã. Se ela quiser voltar à pátria, seja o seu protetor na viagem.

E, a estender-lhe a mão, disse com emoção:

—Promete-me isto, senhor?

—Juro-lho.

O comandante teve de subir ao convés e deixou Simão com Mariana.

—Estou tranquilo quanto ao seu futuro, minha amiga.

—Eu já estava, senhor Simão—respondeu ela.

Durante muito tempo, não trocaram uma palavra. Simão encostou a cara à mesa e apertou com as mãos as fontes, que latejavam. Mariana, de pé ao lado dele, tinha os olhos fixos na luz fraca da lâmpada, que balançava. E pensava, como ele, na morte.

E o vento do nordeste assobiava, como um gemido, nas velas altas do navio.

### Glossário

- **meirinho**: oficial de justiça que acompanhava os presos.
- **tolda**: a parte de cima do navio, coberta, onde ficavam os passageiros importantes.
- **mirante**: sítio alto, com janelas ou grades, de onde se vê a paisagem.
- **leva**: grupo de presos ou soldados levados juntos.
- **convés**: o chão de cima do navio.
- **piloto-mor**: o chefe dos pilotos que guiavam os navios na barra.
- **câmara**: no navio, a sala onde dormem o comandante e os passageiros.
- **jau**: o criado de Camões, que veio de Java; aparece no poema *Camões*, de Garrett.
- **vice-rei**: quem governava a Índia portuguesa em nome do rei.
- **regedor das justiças**: um dos juízes mais altos do reino, chefe da Casa da Suplicação, em Lisboa.
- **sacramentos / comungar**: os ritos da Igreja para quem vai morrer / receber a hóstia na missa.
- **cálice (da flor)**: a parte verde da flor, por baixo das pétalas.
- **embalsamado**: corpo morto tratado com substâncias para não apodrecer.
- **fontes**: os dois lados da testa, ao pé dos olhos.

## CONCLUSÃO.

Às onze horas da noite, o comandante foi deitar-se num beliche de passageiro. Mariana estava sentada no chão, com a cara sobre os joelhos. Parecia vencida pelo cansaço das horas duras e aflitas daquele dia.

Simão Botelho estava acordado no camarote, sem forças, com os braços cruzados sobre o peito. Tinha os olhos fixos na luz que balançava, pendurada de um arame. Talvez tivesse o ouvido atento ao assobio do vento. Aquele assobio agudo devia soar-lhe como um ai triste, a única voz no silêncio da terra e do céu.

À meia-noite, Simão estendeu o braço, a tremer, para o maço das cartas que Teresa lhe tinha mandado. Olhou um pouco para a carta que estava por cima, que era dela. Partiu a obreia e pôs-se no camarote de maneira a apanhar a luz fraca da lâmpada.

A carta dizia assim:

«Já é o meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se Deus não me engana, está em descanso.

Eu devia poupar-te a esta última tortura. Não devia escrever-te. Mas perdoa esta culpa à tua esposa do céu. Sinto tanta consolação em conversar contigo a esta hora, a hora final da noite da minha vida.

Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? Daqui a pouco, vais perder de vista este mosteiro. Vais correr milhares de léguas. E não vais encontrar, em parte nenhuma do mundo, uma voz humana que te diga: "A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que te salve."

Se te pudesses enganar, meu amigo, preferias pensar que eu ficava viva e com esperança de te ver na volta do degredo? Pode ser. Mas, mesmo agora, neste momento solene, domina-me a vontade de te fazer sentir que eu não podia viver. Parece que a própria infelicidade tem às vezes a vaidade de mostrar que o é, até não poder ser mais! Quero que digas: Está morta, e morreu quando eu lhe tirei a última esperança.

Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez eu pudesse resistir à morte alguns dias, se tu ficasses. Mas, de um modo ou de outro, era inevitável fechar os olhos quando se partisse o último fio. Este último fio, que se está a partir, e eu mesma o ouço partir.

Que estas palavras não aumentem a tua pena. Deus me livre de juntar um remorso injusto à tua saudade.

Se eu ainda pudesse ver-te feliz neste mundo! Se Deus permitisse à minha alma esta visão!… *Feliz*, tu, meu pobre condenado!… Sem querer, o meu amor ofendia-te agora, ao julgar-te capaz de felicidade! Tu vais morrer de saudade, se o clima do desterro não te matar ainda antes de caíres vencido pela dor do espírito.

A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas, que li há pouco. Estou a ver a casinha que tu descrevias, em frente de Coimbra, rodeada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo nas margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer. O céu enchia-se de estrelas, e a lua fazia brilhar a água. Eu respondia ao teu silêncio com o silêncio do coração. E, animada pelo teu sorriso, encostava a cara ao teu peito, como se fosse ao da minha mãe. Li tudo isto nas tuas cartas. E parece que a agonia deixa de me despedaçar enquanto a alma se está a lembrar. Noutra carta, falavas-me de triunfos, de glórias e da imortalidade do teu nome. Eu também seguia o teu sonho, ou ia à frente dele. Porque eu queria que a maior parte das tuas alegrias de espírito fosse minha. Há três anos eu era uma criança, Simão. E já entendia os teus desejos de glória. Imaginava-os realizados como obra minha, quando tu me dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem a força do meu amor.

Ó Simão, de que céu tão lindo caímos! À hora em que te escrevo, estás tu para entrar no navio dos degredados, e eu na sepultura.

Que importa morrer, se nunca podemos ter nesta vida a nossa esperança de há três anos?! Conseguirias tu aguentar a falta de esperança e a vida, Simão? Eu não conseguia. Os momentos de sono eram os poucos benefícios que Deus me dava. A morte é mais do que uma necessidade. É uma misericórdia divina, uma felicidade do céu para mim.

E que farias tu da vida sem a tua companheira de martírio? Onde irás tu dar vida nova ao coração que a desgraça te esmagou? A desgraça não pôde esmagar a imagem desta mulher dócil, que seguiu cegamente a estrela da tua sorte infeliz.

Tu nunca vais amar, pois não, meu esposo? Terias vergonha de ti mesmo, se uma vez visses passar depressa a minha imagem diante dos teus olhos secos? Aguenta, aguenta, pelo coração da tua amiga, estas últimas perguntas. Vais responder-lhes no alto mar, quando leres esta carta.

Rompe a manhã. Vou ver a minha última madrugada… a última dos meus dezoito anos!

Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja e te livre de uma agonia longa. Ofereço-Lhe todas as minhas angústias, para pagar as tuas culpas. Se a justiça divina me condenar por algumas impaciências, oferece tu a Deus, meu amigo, os teus sofrimentos, para que eu seja perdoada.

Adeus. À luz da eternidade, parece-me que já te vejo, Simão.»

Simão Botelho levantou-se e olhou à sua volta. Depois fixou, num espasmo, os olhos em Mariana. Ela levantava a cabeça ao mais pequeno movimento dele.

—Que tem, senhor Simão?—disse ela, a levantar-se.

—Estava aqui, Mariana?… Não se vai deitar?!

—Não vou. O comandante deu-me licença para ficar aqui.

—Mas vai passar a noite assim?! Peço-lhe que vá, porque o seu sacrifício não é necessário.

—Se não o incomodo, deixe-me ficar aqui, senhor Simão.

—Fique, minha amiga, fique… Posso subir ao convés?

—Quer ir ao convés, senhor Botelho?—disse o comandante, a saltar do beliche.

—Queria, senhor comandante.

—Vamos juntos.

Simão juntou a carta de Teresa ao maço das suas e subiu, a cambalear. No convés, sentou-se num monte de cordas. E ficou a olhar para o mirante de Monchique, que se levantava negro, ao pé do monte de rochas onde hoje passa a rua da Restauração.

O capitão andava da proa à popa. Mas tinha o ouvido atento aos movimentos do degredado. Tinha medo de que ele se quisesse matar, porque Mariana lhe tinha posto essa suspeita. O marinheiro queria dizer-lhe palavras de consolação. Mas pensava: «Que se há de dizer a um homem que sofre assim?» E algumas vezes parava junto dele, como para lhe afastar o espírito daquele mirante.

—Eu não me vou matar!—exclamou de repente Simão Botelho.—Se a sua generosidade, senhor capitão, quer que eu viva, pode dormir descansado esta noite. Eu não me vou matar.

—Mas faz-me o favor de descer comigo à câmara?

—Vou. Mas lá sofro mais, senhor.

O comandante não respondeu. E continuou a andar no convés, apesar das rajadas de vento.

Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distância de Simão. O comandante viu-a, falou-lhe e afastou-se.

Às três horas da manhã, Simão Botelho segurou entre as mãos a testa, que lhe queimava de febre.

Não conseguiu ficar sentado e deixou cair meio corpo. Ao descair, a cabeça pousou no peito de Mariana.

—O anjo da compaixão sempre comigo!—murmurou ele.—Teresa foi muito mais desgraçada…

—Quer descer ao camarote?—perguntou ela.

—Não vou conseguir… Ajude-me, minha irmã.

Deu alguns passos para o alçapão e ainda olhou para o mirante. Desceu a escada íngreme, agarrado às cordas. Atirou-se para cima do colchão e pediu água. Bebeu sem parar, como se nunca matasse a sede. Seguiram-se a febre, as contorções e as ânsias, com momentos de delírio.

De manhã, veio a bordo um médico, a convite do capitão. Examinou o condenado e disse que a doença era «maligna». E disse que ele bem podia encontrar a sepultura no caminho da Índia.

Mariana ouviu o que o médico disse e não chorou.

Às onze horas, o navio saiu da barra para o mar. Às ânsias da doença juntaram-se as do enjoo. A pedido do comandante, Simão tomava remédios. Mas vomitava-os logo, com as contrações do vómito.

No segundo dia de viagem, Mariana disse a Simão:

—Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer àquelas cartas que vão na caixa?

Que calma espantosa a desta pergunta!

—Se eu morrer no mar—disse ele—Mariana atira ao mar todos os meus papéis. Todos. E também estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro.

Teve uma crise de ânsia, que lhe cortou a voz. Depois, Simão continuou:

—Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana!

—Morro também, senhor Simão.

—Morre?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!…

A febre aumentava. Os sinais da morte eram visíveis aos olhos do capitão. Ele tinha muita experiência: tinha visto morrer centenas de condenados, atacados pela febre no mar e sem nenhum remédio.

No quarto dia, o navio andava devagar em frente de Cascais. Veio então uma tempestade de repente. O navio afastou-se muitas milhas da costa. Perdeu o rumo de Lisboa e navegou sem direção para o sul. No sexto dia desta navegação incerta, no meio de nevoeiros espessos, partiu-se o leme em frente de Gibraltar. Logo a seguir a este desastre, as rajadas acalmaram e as ondas baixaram. Com a madrugada do dia seguinte, nasceu um lindo dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da doença de Simão Botelho.

Mariana tinha envelhecido. O comandante olhou para ela e exclamou:

—Parece que volta da Índia, com os dez anos de trabalhos já passados!…

—Já acabados… de certeza…—disse ela.

Ao anoitecer desse dia, o condenado delirou pela última vez. E dizia assim no seu delírio:

«A casinha, em frente de Coimbra, rodeada de árvores, flores e aves. Passeavas comigo nas margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer. O céu enchia-se de estrelas, e a lua fazia brilhar a água. Eu respondia ao teu silêncio com o silêncio do coração. E, animada pelo teu sorriso, encostava a cara ao teu peito, como se fosse ao da minha mãe… De que céu tão lindo caímos… A tua amiga morreu… A tua pobre Teresa………………………..

E que farias tu da vida sem a tua companheira de martírio?… Onde irás tu dar vida nova ao coração que a desgraça te esmagou… Rompe a manhã… Vou ver a minha última madrugada… a última dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus sofrimentos, para que eu seja perdoada… Mariana…»

Mariana pensou ouvir o seu nome. Então encostou o ouvido aos lábios roxos do moribundo.

«Tu vais ter connosco. Seremos teus irmãos no céu… O anjo mais puro serás tu… se és deste mundo, irmã; se és deste mundo, Mariana…»

A passagem do delírio para a letargia completa era o sinal certo da morte.

Ao romper da manhã, a lâmpada apagou-se. Mariana saiu para pedir luz e ouviu um gemido torturado. Voltou às escuras, com os braços estendidos para procurar a cara do moribundo. Encontrou a mão dele, a tremer. A mão apertou uma das suas e, de repente, os dedos largaram-na.

O comandante entrou com uma lâmpada. Aproximou-a da boca de Simão. A respiração não embaciou nada o vidro.

—Está morto!…—disse ele.

Mariana debruçou-se sobre o cadáver e beijou-lhe a cara. Era o primeiro beijo. Depois ajoelhou-se ao pé do camarote, com as mãos levantadas. Não rezava nem chorava.

Algumas horas depois, o comandante disse a Mariana:

—Agora é tempo de dar sepultura ao nosso feliz amigo… É uma sorte morrer, quando se vem a este mundo com tal estrela… Passe a senhora Mariana para a câmara, ali, porque o morto vai ser levado daqui.

Mariana tirou o maço das cartas de debaixo do travesseiro. E foi a uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental que ele guardava, o das lágrimas que ela chorou no dia da sua loucura. E prendeu o embrulho à cintura.

O cadáver foi embrulhado num lençol e levado para o convés.

Mariana foi atrás dele.

Do porão do navio trouxeram uma pedra. Um marinheiro atou-a às pernas do morto com um pedaço de corda. O comandante olhava para a cena triste, com os olhos húmidos. E os soldados que guardavam o navio sentiram um respeito tão fúnebre que, sem darem por isso, tiraram os chapéus.

Entretanto, Mariana estava encostada ao lado do navio. Parecia olhar, como uma estúpida, para os puxões que o marinheiro dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.

Dois homens levantaram o cadáver por cima da borda do navio. Balançaram-no para o atirar para longe. E, antes de se ouvir o barulho do morto a cair na água, todos viram Mariana atirar-se ao mar. E já ninguém a pôde segurar.

O comandante deu uma ordem. Os homens soltaram depressa o bote e saltaram para dentro, para salvar Mariana.

Salvá-la!…

Viram-na, por um momento, a mexer os braços. Não era para resistir à morte. Era para se abraçar ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou para os braços. O comandante olhou para o sítio de onde Mariana se tinha atirado. Viu o avental, preso nas cordas do navio. E viu, à superfície da água, um rolo de papéis, que os marinheiros apanharam para o barco. Eram, como sabem, as cartas de Teresa e de Simão.

* * * * *

Da família de Simão Botelho, ainda vive em Vila Real de Trás-os-Montes a senhora D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a sua irmã preferida. A última pessoa da família que morreu, há vinte e seis anos, foi Manuel Botelho, pai do autor deste livro.

### FIM.

* * * * *

### Notas do autor

\[1\] Há vinte anos, ouvi a história deste assassínio a um homem do tempo em que ele aconteceu. Contou-ma assim: Era Quinta-Feira Santa. Marcos Botelho, irmão de Domingos, estava na festa das endoenças, em São Francisco. Estava em frente de uma senhora, sua namorada, que era uma namorada infiel. Noutro ponto da igreja estava um alferes de infantaria, com os olhos e o coração na mesma mulher. Marcos conteve o seu ciúme até ao fim da cerimónia da Paixão. À saída da igreja, olhou de frente para o militar e provocou-o. O alferes puxou da espada, e o fidalgo do espadim. Lutaram muito tempo, sem que nenhum perdesse e sem sangue. Os amigos dos dois já tinham conseguido acalmá-los. Foi então que Luís Botelho, outro irmão de Marcos, disparou uma clavina contra o peito do alferes. E, ali mesmo, à entrada da «rua do Jogo da Bola», deitou-o morto. O assassino ficou livre, por perdão do rei.

\[2\] É a casa-palacete da «rua da Piedade», que hoje pertence ao doutor António Girardo Monteiro.

\[3\] Estas palavras de D. Rita são explicadas pela certidão de idade de Simão, que tenho aqui à minha frente. Foi tirada por Herculano Henrique Garcia Camilo Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, folhas 159 verso. Diz assim:

«Aos dois dias do mês de maio de 1784, o reverendo padre cura João Domingues Chaves pôs os santos óleos a Simão. Simão foi *batizado em casa em perigo de vida* pelo Reverendo Frei António de S. Pelágio, etc.»

\[4\] Em alguns papéis do corregedor de Viseu, que temos connosco, encontrámos esta carta: «Meu amigo, colega e senhor. Entregue ao portador desta carta, que é o senhor padre Manuel de Oliveira, as cinquenta moedas de que lhe falei quando passou para Lisboa. A apelação do seu filho está ao meu cuidado. E está segura, apesar das grandes forças contrárias. Seu amigo—O desembargador *António José Dias Mourão Mosqueira*. Porto, 11 de fevereiro de 1805.—Sobrescrito: Ilustríssimo Senhor Doutor Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses.—Lisboa.»

(*Nota do autor*).

\[5\] Este romance foi escrito numa das celas da cadeia da Relação do Porto. Foi escrito a uma luz que passava por entre ferros e era abafada pelas sombras das abóbadas. Ano da Graça de 1861.

\[6\] *Hoje então!…* Vou contar-lhes um episódio memorável de um filósofo dos nossos dias. Foi o único episódio pelo qual fiquei a conhecer essa pessoa. Hoje (21 de Setembro de 1861) eu estava no escritório do ilustre advogado Joaquim Marcelino de Matos. Entrou um cliente, que contou o seguinte:

«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***. A minha mulher roubou-me oitocentos mil réis e fugiu com um amante para Viana. Venho saber se posso fazer uma querela e receber o meu dinheiro.»

—Pode fazer a querela, se tiver testemunhas—respondeu o advogado.—O senhor quer fazer uma querela por adultério?

O queixoso responde: «O que eu quero é o meu dinheiro.»

—Mas—responde o advogado—o senhor pode fazer querela contra os dois. Contra ela, por adúltera, e contra ele, por ter recebido o dinheiro roubado.

«E vou receber o meu dinheiro?»

—Depende. Sei lá eu se ele ainda tem o seu dinheiro?! O que sei é que ela não pode ser acusada como ladra.

«Mas os meus oitocentos mil réis?!»

—Ah! O senhor não se importa que a sua mulher fuja e não volte?

«Não, senhor doutor, que a leve o diabo. O que eu quero é o meu dinheiro.»

—Pois faça querela contra os dois, e depois veremos.

«Mas não é certo que eu receba o meu dinheiro?!»

—Certo não é. Vamos ver se, depois da acusação, as autoridades apanham o ladrão com o seu dinheiro.

«E se ele já não o tiver?»—responde o marido, desanimado.

—Se já não o tiver, o senhor vinga-se com a querela por adultério.

«E gasta-se alguma coisa?»

—Gasta-se, sim. Mas o senhor vinga-se.

«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor. A mulher, deixá-la ir, que tem cinquenta anos.»

—Cinquenta anos!—acudiu o doutor.—O senhor já está vingado do amante. Vá para casa e deixe-se de querelas, porque o mais desgraçado é ele.

### Glossário

- **beliche**: cama estreita no navio.
- **camarote**: quarto pequeno no navio.
- **obreia**: pequeno disco de massa que servia para fechar as cartas.
- **alçapão**: porta no chão que dá para a parte de baixo do navio.
- **febre maligna**: febre muito grave, que pode matar.
- **leme**: peça atrás do navio que serve para lhe dar a direção.
- **porão**: a parte mais baixa do navio, onde vai a carga.
- **endoenças**: cerimónias religiosas da Quinta-Feira Santa.
- **alferes / espadim**: oficial do exército de posto baixo / espada pequena.
- **querela**: queixa contra alguém num tribunal.
- **letargia**: estado de quem está como adormecido, sem reagir.
- **martírio**: grande sofrimento que se aguenta por amor ou por fé.
