# A Cidade e as Serras (Edição B1)

*Eça de Queirós*

## I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda. Essa renda vinha de terras de cultivo, de vinha, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, sebes densas subiam e desciam por colinas e vales. Muros altos de boa pedra, ribeiras e estradas marcavam os limites dos campos desta velha família agrícola. Já no tempo do rei D. Dinis esta família guardava grão e plantava videiras. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco largas léguas, toda a terra lhe pagava renda. E os seus pinheiros cerrados estendiam-se, escuros, desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto tinha nascido, e onde sempre tinha vivido, ficava em Paris, nos Campos Elísios, n.º 202.

O seu avô era aquele Jacinto muito gordo e muito rico a quem em Lisboa chamavam o *D. Galião*. Uma tarde, descia ele pela travessa da Trabuqueta, junto ao muro de um quintal coberto por uma parreira. Escorregou numa casca de laranja e caiu pesadamente sobre as pedras do chão. Nesse momento saía da portinha da horta um homem moreno e sem barba. Trazia um grosso casaco de pano verde e botas altas de cavaleiro. A rir e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto. Até lhe apanhou a bengala de punho de ouro, que tinha rolado para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pretos de longas pestanas:

— Oh Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rolar pelas pedras?

E Jacinto, tonto e maravilhado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca tinha amado a sua barriga, apesar de gostar tanto de comer. Amou-o mais do que ao seu Deus, apesar de ser tão devoto! Na sala nobre da sua casa, à Pampulha, pendurou sobre os damascos o retrato do «seu Salvador». Enfeitou-o com palmas, como um altar. Por baixo pendurou a bengala que as generosas mãos reais tinham levantado do lixo. Enquanto o adorável e desejado Infante sofria no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria na sua sege amarela. Ia, todo sacudido, do botequim do Zé-Maria, em Belém, à botica do Plácido, nos Algibebes. Ia chorar as saudades do *anjinho* e tramar o regresso do *anjinho*.

Chegou enfim o dia mais abençoado de todos, em que a *Pérola* apareceu à entrada do rio com o Messias. Nesse dia, Jacinto encheu a Pampulha de flores. No Caneiro levantou um monumento de cartão e pano grosso. Nele, D. Miguel tinha-se tornado S. Miguel, todo branco, com auréola e asas de Arcanjo. Do alto do seu cavalo de Alter, furava o Dragão do Liberalismo, que se torcia a vomitar a Carta.

Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre», mandava homens a Santo Tirso e a S. Gens. Levavam ao Rei fiambres, caixas de doces e garrafas do seu vinho de Tarrafal. Levavam também bolsas de seda cheias de moedas, que ele ensaboava para dar mais brilho ao ouro. E um dia soube que o Sr. D. Miguel tinha tomado o caminho de Sines e do último desterro. Levava dois velhos baús atados sobre uma mula. Ao saber isto, Jacinto *Galião* correu pela casa, fechou todas as janelas, como num luto, e gritou furiosamente:

— Também cá não fico! também cá não fico!

Não, não queria ficar naquela terra perversa! Dali partia, roubado e expulso, aquele Rei de Portugal que levantava os Jacintos na rua! Embarcou para França com a mulher, a Sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã). Levou também o filho, o 'Cintinho, um menino amarelinho e molezinho, coberto de caroços e furúnculos. E levou a aia e o moleque.

Nas costas da Cantábria o navio encontrou um mar muito bravo. Por isso a Sr.ª D. Angelina, despenteada, ajoelhou-se na enxerga do beliche. Prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos de ouro. As gotas de sangue seriam de rubis do Pegu.

Em Baiona, onde desembarcaram, o 'Cintinho teve icterícia. Na estrada de Orleans, numa noite agreste, partiu-se o eixo da carruagem em que viajavam. O senhor gordo, a delicada senhora da casa da Avelã e o menino caminharam três horas. Foram na chuva e na lama do exílio, até uma aldeia. Aí bateram como mendigos a portas que não respondiam e dormiram nos bancos de uma taberna.

No «Hotel dos Santos Padres», em Paris, sofreram o terror de um incêndio. Começou na cavalariça, por baixo do quarto de *D. Galião*. O digno fidalgo rolou pelas escadas em camisa até ao pátio e enterrou o pé nu num pedaço de vidro. Então levantou amargamente para o céu o punho peludo e rugiu:

— Irra! É de mais!

Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto *Galião* comprou aquele palacete dos Campos Elísios, n.º 202. O vendedor foi um Príncipe polaco que, depois da tomada de Varsóvia, tinha entrado para frade cartuxo. E sob o pesado ouro dos tetos, entre as sedas cheias de ramagens, encolheu-se a descansar de tantas agitações. Levou uma vida tranquila e de boa mesa, com alguns companheiros de emigração. Eram o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena e outros menores. Assim viveu até morrer de indigestão, por causa de uma lampreia de escabeche. Tinha-lha mandado o seu procurador em Montemor.

Os amigos pensavam que a Sr.ª D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora tinha medo da viagem, dos mares e das carruagens que se partem. E não queria separar-se do seu Confessor nem do seu Médico. Eles compreendiam tão bem os seus escrúpulos e a sua asma.

— Eu, por mim, aqui fico no 202 — declarou ela — ainda que me faz falta a boa água de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em crescendo, que decida.

O 'Cintinho cresceu. Era um rapaz mais magro e pálido do que uma vela de igreja. Tinha cabelos compridos e lisos e nariz grande. Era silencioso e andava metido em roupas pretas, muito largas e moles. De noite não dormia, por causa da tosse e das sufocações. Andava então em camisa pelo 202, com uma lamparina, e os criados da copa chamavam-lhe sempre a *Sombra*.

Nesse seu silêncio e indecisão de sombra tinha nascido, no fim do luto pelo pai, um gosto muito vivo. Era o gosto de trabalhar madeira ao torno. Mais tarde, na doce flor dos seus vinte anos, nasceu nele outro sentimento, de desejo e de espanto. Era pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada num convento de Paris. Era tão habilidosa que esmaltava, dourava, consertava relógios e fabricava chapéus de feltro.

No outono de 1851, quando as folhas já caíam dos castanheiros dos Campos Elísios, o 'Cintinho cuspiu sangue. O médico acariciou o queixo, com uma ruga séria na testa imensa, e deu-lhe um conselho. O menino devia partir para o Golfe Juan ou para as areias mornas de Arcachon.

Mas o 'Cintinho, na sua teimosia de sombra, não quis afastar-se de Teresinha Velho. Por toda a Paris, tinha-se tornado a sombra muda e lenta dela. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

Três meses e três dias depois do seu enterro, o meu Jacinto nasceu.

Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e âmbar para afastar a *Sorte-Ruim*, Jacinto cresceu com segurança. Tinha a força e a seiva rica de um pinheiro das dunas.

Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada e o Latim entraram nele tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os colegas, nos pátios dos colégios, levantava a sua espada de lata e dava um grito de comando. Foi logo o vencedor, o Rei que todos adulam e a quem dão a fruta das merendas. Na idade em que se lê Balzac e Musset, nunca passou pelos tormentos da sensibilidade. Os fins de tarde quentes nunca o prenderam, solitário, a uma janela. Nunca sofreu ali de um desejo sem forma e sem nome.

Todos os seus amigos (éramos três, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e certas. Nunca o facto de partilharem o seu luxo as tornou mais vivas. Nunca as provas do seu egoísmo as desanimaram.

Não tinha o coração bastante forte para sentir um amor forte. Estava contente com esta incapacidade, que o deixava livre. Do amor só provou o mel. É esse mel que o amor guarda para quem o recolhe como as abelhas: com ligeireza, mobilidade e a cantar.

Era forte, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens. Nunca lhe conhecemos outra ambição além de compreender bem as Ideias Gerais. A sua inteligência, nos anos alegres de escolas e discussões, movia-se nas Filosofias mais densas. Movia-se nelas como uma enguia lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, verdadeiro e de boa qualidade, nunca foi ignorado nem desprezado. Qualquer opinião ou simples piada que lançasse encontrava logo uma brisa de simpatia e de concordância. Essa brisa levantava-a, embalava-a e fazia-a brilhar nas alturas.

As coisas serviam-no com docilidade e carinho. Não me lembro de lhe ter saltado alguma vez um botão da camisa. Nem de um papel se ter escondido maliciosamente dos seus olhos. Nem de uma gaveta pérfida ter ficado presa perante a sua vivacidade e pressa. Um dia riu-se da Fortuna e da sua Roda, sem acreditar nelas. E comprou a um sacristão espanhol um Décimo de Lotaria. Logo a Fortuna, ligeira e risonha sobre a sua Roda, correu num brilho para lhe trazer quatrocentas mil pesetas. E no céu as Nuvens iam pesadas e lentas. Se viam Jacinto sem guarda-chuva, guardavam com respeito as suas águas até ele passar...

Ah! o âmbar e o funcho da Sr.ª D. Angelina tinham expulsado do seu destino, triunfalmente e para sempre, a *Sorte-Ruim*! A bondosa avó (que eu conheci obesa e com barba) costumava citar um soneto de aniversário do desembargador Nunes Velho. Tinha um verso de boa lição:

Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...

Pois imaginemos um rio de verão, manso e transparente, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e branca. Corre entre árvores perfumadas e aldeias felizes. Alguém o desce num barco de cedro, com toldo e almofadas, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo. Um Anjo governa o leme, e outros Anjos puxam o barco com uma corda. Pois nem esse rio daria mais segurança e doçura do que a Vida dava ao meu amigo Jacinto.

Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe da Grã-Ventura»!

Jacinto e eu, José Fernandes, encontrámo-nos e tornámo-nos camaradas em Paris, nas Escolas do Bairro Latino. Foi para lá que me mandou o meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande. Mandou-me quando aqueles malvados me riscaram da Universidade. É que eu, numa tarde de procissão, na Sofia, tinha esmagado a cara sórdida do Dr. Pais Pita.

Ora nesse tempo Jacinto tinha concebido uma Ideia... Este Príncipe tinha tido a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia o seguinte. É aquele que fortalece a sua força de pensar com todas as noções adquiridas desde Aristóteles. É aquele que multiplica o poder corporal dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados desde Teramenes, criador da roda. Assim se torna um magnífico Adão, quase omnipotente e quase omnisciente. Fica portanto capaz de recolher todos os prazeres e todos os proveitos que vêm de Saber e de Poder. Fá-lo dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso, tal como ele estava em 1875... Pelo menos era assim que Jacinto explicava longamente a sua Ideia. Fazia-o quando conversávamos sobre os fins e os destinos humanos. Bebíamos então canecas poeirentas, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no Boulevard Saint-Michel.

Esta ideia de Jacinto impressionou os camaradas do nosso grupo. Tinham nascido para a vida intelectual de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan. Desde então ouviam sempre a mesma coisa aos técnicos e aos filósofos. Em Sadowa tinha vencido a Espingarda-de-agulha, e em Sedan tinha vencido o Mestre-de-escola. Por isso estavam bem preparados para acreditar numa coisa. A felicidade dos indivíduos, como a das nações, nasce do desenvolvimento ilimitado da Mecânica e da Erudição. Um desses rapazes era o nosso inventivo Jorge Carlande. Quis facilitar a circulação da teoria de Jacinto e concentrar o seu brilho. Por isso reduziu-a a uma forma algébrica:

Suma ciência × Suma potência = Suma felicidade

E durante dias, do Odéon à Sorbonne, a juventude positiva louvou a *Equação Metafísica de Jacinto*.

Para Jacinto, porém, a sua ideia não era apenas metafísica nem um prazer elegante da razão. Era uma regra real e útil, que guiava a conduta e dava forma à vida. Já nesse tempo, de acordo com esta regra, tinha comprado a *Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos Universais*. Tinha setenta e cinco volumes. E tinha instalado um telescópio sobre os telhados do 202, num mirante com vidraças. Foi com esse telescópio que ele me tornou palpável a sua ideia, numa noite de agosto. Era uma noite de calor mole e dormente. Nos céus distantes brilhavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolavam para a frescura do Bosque. Iam lentos, abertos, cansados, a transbordar de vestidos claros.

— Aqui tens tu, Zé Fernandes — começou Jacinto, encostado à janela do mirante — a teoria que me governa, bem provada. Temos estes olhos que recebemos da Mãe Natureza, rápidos e sãos. Com eles só podemos distinguir ali adiante, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça iluminada. Mais nada! Mas se eu juntar aos meus olhos os dois vidros simples de um binóculo de corridas, vejo outra coisa. Vejo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, frascos de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção. Tu, com os olhos desarmados, vês só o brilho da vidraça. Por isso tenho sobre ti uma vantagem positiva. Agora, em vez destes vidros simples, eu podia usar os do meu telescópio, de composição mais científica. Veria então, lá longe, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos. Veria toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui portanto o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência de visão. Portanto, pelo lado do olho, eu, civilizado, já sou mais feliz do que o incivilizado. É que descubro realidades do Universo de que ele nem suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreendes o meu princípio. Quanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela acumulação incansável das noções, só te peço uma coisa. Compara Renan e o Grilo... É claro, portanto, que devemos cercar-nos de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

Não me parecia absolutamente certo que Renan fosse mais feliz do que o Grilo. Nem eu percebia que vantagem espiritual ou terrena se tira de distinguir manchas num astro, através do espaço. Ou presuntos numa vidraça, através da Avenida dos Campos Elísios. Mas concordei, porque sou bom. E nunca expulsarei um espírito da ideia onde ele encontra segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete e fiz um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

— Vamos então beber, nas máximas proporções, *brandy and soda*, com gelo!

Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade. Era uma enorme Cidade, com todos os seus vastos órgãos a funcionar com poder. Este meu amigo supercivilizado não compreendia que o homem do século XIX pudesse viver longe de tudo isto. Longe de Armazéns servidos por três mil caixeiros. Longe de Mercados onde se despejam os pomares e os campos de trinta províncias. Longe de Bancos onde toca o ouro universal. Longe de Fábricas que fumegam com ânsia e inventam com ânsia. Longe de Bibliotecas cheias a rebentar com a papelada dos séculos. Longe de fundas milhas de ruas, cortadas por baixo e por cima. Cortadas por fios de telégrafos, por fios de telefones, por canos de gás, por canos de fezes. Longe da fila ensurdecedora dos ónibus, *tramways*, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo. E longe de dois milhões de uma vaga humanidade, a fervilhar e a ofegar no meio da Polícia. Uns iam na dura busca do pão, outros sob a ilusão do prazer. Sem isto, o homem do século XIX não podia saborear plenamente a delícia de viver!

Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os lilases, desenrolava-me estas imagens. E então crescia todo, iluminado. Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por ela pode o homem afirmar soberbamente a sua alma!...

— Oh Jacinto, e a religião? Então a religião não prova a alma?

Ele encolhia os ombros. A religião! A religião é o desenvolvimento sumptuoso de um instinto primitivo, comum a todos os brutos: o terror. Um cão lambe a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote. Esse cão já é toscamente um devoto. É como o devoto consciente, de joelhos a rezar diante do Deus que distribui o céu ou o inferno!... Mas o telefone! o fonógrafo!

— Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz sentir verdadeiramente a minha superioridade de ser pensante. Só ele me separa do bicho. Acredita! Não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade!

E depois, acrescentava, só a Cidade lhe dava a sensação da solidariedade humana, tão necessária à vida como o calor. No 202, olhava em redor, para as densas massas de casas de Paris. Pensava nos dois milhões de seres a ofegar na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!). Sentia então um sossego, um aconchego, só comparáveis aos do peregrino que atravessa o deserto. O peregrino levanta-se no seu dromedário e avista a longa fila da caravana a caminhar, cheia de luzes e de armas...

Eu murmurava, impressionado:

— Caramba!

Pelo contrário, no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia. Tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão. Sentia-se ali perdido, como num mundo que lhe não fosse fraternal. Nenhum silvado encolheria os espinhos para ele passar. Se gemesse de fome, nenhuma árvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um ramo.

Depois, no meio da Natureza, assistia à súbita e humilhante inutilidade de todas as suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos, ser um Génio ou ser um Santo? As searas não compreendem as *Geórgicas*. Foi preciso o socorro ansioso de Deus, a inversão de todas as leis naturais e um violento milagre. Só assim o lobo de Gúbio não devorou S. Francisco de Assis. E o Santo sorria-lhe, estendia-lhe os braços e chamava-lhe «meu irmão lobo»!

Nos campos, toda a inteligência fica estéril e só resta a bestialidade. Nesses reinos grosseiros do Vegetal e do Animal, só duas funções se mantêm vivas. São a de comer e a de procriar. A sua pobre alma ficava isolada e sem ocupação, entre focinhos e raízes que não param de sugar e de pastar. Faltava-lhe o ar no bafo quente da fecundação universal. Encolhia-se toda, reduzia-se a uma migalha de alma. Era uma faíscazinha espiritual a tremer, como morta, sobre um pedaço de matéria. E nessa matéria nasciam dois instintos fortes e dolorosos: o de devorar e o de gerar. Ao fim de uma semana no campo, de todo o seu ser tão nobre só restava um estômago. E, por baixo, um falo! A alma? Desaparecida sob a besta. Então precisava de correr e de voltar à Cidade. Precisava de mergulhar nas ondas purificadoras da Civilização e de largar nelas a crosta vegetal. Queria ressurgir re-humanizado, de novo espiritual e Jacíntico!

E estas metáforas requintadas do meu amigo exprimiam sentimentos reais. Eu próprio os testemunhei, e muito me diverti com eles, no único passeio que demos ao campo. Fomos à bem amável e bem sociável floresta de Montmorency. Oh, que comédia deliciosa, Jacinto no meio da Natureza! Mal se afastava dos pavimentos de madeira e do macadame, qualquer chão que pisasse o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais seca que estivesse, lhe parecia transpirar uma humidade mortal. Temia o ataque de lacraus, de víboras, de formas rastejantes e viscosas. Esperava-os debaixo de cada torrão, da sombra de cada pedra. No silêncio do bosque sentia um lúgubre despovoamento do Universo. Não suportava a familiaridade dos ramos que lhe tocavam na manga ou na cara. Saltar uma sebe era para ele um ato degradante, que o fazia regressar ao macaco inicial. Inquietavam-no, como venenosas, todas as flores que não tivesse já encontrado em jardins. Ali estavam domesticadas por longos séculos de servidão ornamental. E achava de uma melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado. Eram a pressa esperta e vã dos regatinhos e a careca das rochas. Eram todas as contorções das árvores e o seu resmungar solene e tonto.

Depois de uma hora naquele honesto bosque de Montmorency, faltava o ar ao meu pobre amigo, apavorado. Já sentia esse lento diminuir e desaparecer da alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só se animou quando entrámos nas pedras e no gás de Paris. A nossa vitória quase se despedaçou então contra um ónibus barulhento, cheio de cidadãos. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar aquela materialização na sua grossa sociabilidade. Sentia a cabeça pesada e vaga como a de um boi. E exigiu que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades. Queria sacudir, com os refrães da *Femme à Papa*, o ruído importuno que lhe tinha ficado na cabeça. Era o dos melros a cantar nos choupos altos.

Este delicioso Jacinto tinha então feito vinte e três anos. Era um rapaz soberbo, em quem tinha reaparecido a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz fino pertencia às delicadezas do século XIX. Tinha narinas quase transparentes, sempre inquietas, como se andasse a farejar perfumes. O cabelo ainda se conservava, como nas eras rudes, crespo e quase lanoso. E o bigode, como o de um Celta, caía em fios sedosos, que ele precisava de aparar e frisar. Toda a sua roupa vinha de Londres em caixotes de cedro. Assim vinham as grossas gravatas de cetim escuro presas por uma pérola. Assim vinham as luvas de pele branca e o verniz das botas. E usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta com habilidade pela sua florista. Era feita com pétalas de flores diferentes, cravo, azálea, orquídea ou tulipa. Estavam unidas na mesma haste, entre uma leve folhagem de funcho.

Em 1880, em fevereiro, numa manhã de chuva, cinzenta e gelada, recebi uma carta do meu bom tio Afonso Fernandes. Primeiro lamentava os seus setenta anos e os seus males de hemorroidas. Lamentava também a pesada gestão dos seus bens, «que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas». Depois ordenava-me que voltasse para a nossa casa de Guiães, no Douro! Estava encostado ao mármore partido da lareira. Ali, na véspera, a minha Nini tinha deixado um espartilho embrulhado no *Jornal dos Debates*. Censurei severamente o meu tio, que assim cortava em botão, antes de abrir, a flor do meu Saber Jurídico. Depois, num *Post-Scriptum*, ele acrescentava: «O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar de rosas. A tua santa tia muito se recomenda. Anda lá pela cozinha, porque faz hoje trinta e seis anos que casámos. Temos cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada.»

Deitei um pau de lenha ao lume e pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa! Com um tempo tão lindo, as mimosas do nosso pátio já deviam estar dobradas sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães, que não há outro tão lustroso e macio, entrou pelo quarto. Iluminou, sobre a tristeza gasta do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo, que faziam falta aos meus olhos. E por entre as cortinas de sarja passou um ar fino, forte e perfumado de serra e de pinhal.

A assobiar um *fado* meigo, tirei de debaixo da cama a minha velha mala. Meti com cuidado, entre calças e peúgas, um Tratado de Direito Civil. Queria aprender enfim, nos vagares da aldeia, deitado sob a faia, as leis que governam os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O meu camarada recuou com um gemido surdo de espanto e de piedade:

— Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!

E toda essa semana me lembrou, com cuidado, os confortos que eu devia levar. Assim podia conservar, naqueles desertos selvagens, tão longe da Cidade, um pouco de alma dentro de um pouco de corpo. «Leva uma poltrona! Leva a *Enciclopédia Geral*! Leva caixas de espargos!...»

Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era um arbusto sem raízes. Não voltaria a viver. A mágoa com que me acompanhou ao comboio serviria excelentemente para o meu funeral. Fechou a porta da carruagem sobre mim, grave e solene, como se fecha a grade de uma sepultura. Então eu quase solucei, com saudades de mim próprio.

Cheguei a Guiães. Ainda havia flores nas mimosas do nosso pátio. Comi com delícia a sopa dourada da tia Vicência. De tamancos nos pés, assisti à ceifa dos milhos. E assim passaram docemente por mim sete anos, de colheitas a lavouras. Queimei-me ao sol das eiras e cacei a perdiz nos matos gelados. Abri a melancia fresca na poeira das festas de aldeia e juntei-me aos magustos. Fiz serões à luz da candeia, acendi fogueiras de S. João, enfeitei presépios de Natal. Foram anos tão ocupados que nunca consegui abrir o Tratado de Direito Civil. E foram tão simples que só me lembro de um caso. Nas vésperas de S. Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás das Cortes.

De Jacinto só recebia raramente algumas linhas, escritas à pressa no meio do tumulto da Civilização. Depois, num setembro muito quente, durante a vindima, o meu bom tio Afonso Fernandes morreu. Morreu tão quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um passarinho. Cala-se assim no fim do seu dia, bem cantado e bem voado. Acabei de gastar na aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco. Fizeram-se obras no nosso telhado. Voltei a Paris.

### Glossário

- **contos**: um conto é um milhão de réis; muito dinheiro.
- **renda**: dinheiro que vem das terras.
- **sege**: carruagem antiga de duas rodas.
- **desterro**: castigo de viver longe do seu país.
- **pedreiro livre**: nome antigo de maçon.
- **aia**: criada que cuida de crianças.
- **moleque**: palavra antiga e ofensiva; rapaz negro ao serviço de uma família.
- **icterícia**: doença que deixa a pele e os olhos amarelos.
- **escudeiro**: palavra antiga; criado de uma casa nobre.
- **preto**: pessoa de pele negra. Hoje é muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **léguas**: uma légua são cerca de 5 km.
- **pendurou**: prendeu no alto, de modo a ficar suspenso.
- **anjinho**: pequeno anjo; aqui, nome carinhoso dado a D. Miguel.
- **cuspiu**: deitou pela boca.
- **funcho**: planta de cheiro forte e folhas muito finas.
- **âmbar**: substância de cheiro agradável, usada em perfumes.
- **vidraça**: vidro de uma janela ou de uma loja.
- **civilizado**: que tem a cultura e os progressos da vida moderna.
- **telescópio**: tubo com vidros especiais para ver os astros.
- **ânsia**: pressa nervosa, desejo aflito.
- **ónibus**: carro grande, puxado por cavalos, para muitos passageiros.
- **ofegar**: respirar com dificuldade.
- **encolhia**: fazia ficar mais pequeno; «encolher os ombros» é levantá-los, sem interesse.
- **fonógrafo**: aparelho antigo que grava e repete sons.
- **peregrino**: pessoa que viaja até um lugar santo.
- **sebes**: filas de arbustos que separam os campos.
- **mimosas**: árvores com pequenas flores amarelas.

## II

Era de novo fevereiro, um fim de tarde gelado e cinzento, quando desci os Campos Elísios à procura do 202. À minha frente caminhava, levemente curvado, um homem. Das botas brilhantes às abas curvas do chapéu, de onde fugiam anéis de cabelo encaracolado, tudo nele mostrava elegância. Tudo mostrava o hábito das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas e calçadas de luvas brancas, segurava uma bengala grossa com punho de cristal. E só quando parou no portão do 202 reconheci o nariz fino e os fios lisos e macios do bigode.

— Oh Jacinto!

— Oh Zé Fernandes!

O abraço foi tão agitado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos dizíamos baixinho, comovidos, ao entrar pela grade:

— Há sete anos!...

— Há sete anos!...

E, no entanto, nada tinha mudado durante esses sete anos no jardim do 202! Entre os dois caminhos bem cobertos de areia ainda havia uma relva redonda. Era mais lisa e limpa do que a lã de um tapete. No meio, o vaso de estilo grego esperava abril para brilhar com tulipas, e depois junho para transbordar de margaridas. Ao lado da escada de entrada, coberta por uma vidraça, estavam as duas magras Deusas de pedra. Eram do tempo de D. Galião e seguravam as antigas lâmpadas de globos sem brilho, onde o gás já soprava.

Mas dentro, no peristilo, surpreendeu-me logo um elevador instalado por Jacinto. E o 202 só tinha dois andares! Estavam ligados por uma escadaria tão suave que nunca tinha ofendido a asma da Sr.ª D. Angelina. Era espaçoso e tinha tapetes. Para aquela viagem de sete segundos oferecia numerosos confortos. Tinha um divã, uma pele de urso, um guia das ruas de Paris. Tinha também prateleiras com grades, cheias de charutos e livros.

Na sala de entrada, onde desembarcámos, encontrei a temperatura macia e morna de uma tarde de maio em Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro do que um piloto à bússola, regulava com habilidade a boca dourada do aquecedor. E entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, perfumadores espalhavam um vapor. Esse vapor perfumava aquele ar delicado e superfino, e humedecia-o de modo saudável.

Eu murmurei, nas profundezas do meu ser espantado:

— Eis a Civilização!

Jacinto empurrou uma porta e entrámos numa nave cheia de majestade e de sombra. Reconheci a Biblioteca porque tropecei numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo tocou de leve com o dedo na parede. Uma coroa de luzes elétricas brilhou entre os trabalhos do teto e iluminou as estantes monumentais, todas de ébano. Nelas descansavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro. Estavam hirtos na sua pompa e na sua autoridade, como Doutores num Concílio.

Não contive a minha admiração:

— Oh Jacinto! Que depósito!

Ele murmurou, com um sorriso pálido:

— Há que ler, há que ler...

Reparei então que o meu amigo tinha emagrecido. O nariz tinha ficado mais fino, entre duas rugas muito fundas, como as de um ator cansado. Os anéis do seu cabelo lanoso eram mais raros sobre a testa. Esta tinha perdido a antiga serenidade de mármore bem polido. Já não frisava o bigode murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.

Ele levantou uma tapeçaria e entrámos no seu gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre os tapetes grossos e sombrios, os nossos passos perderam logo o som e como que a realidade. O damasco das paredes, os divãs e as madeiras eram verdes, de um verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as luzes elétricas, espalhadas em candeeiros. Eram tão baixos que lembravam estrelas caídas sobre as mesas, a arrefecer e a morrer. Só uma brilhava, nua e clara, no alto de uma estante quadrada e estreita. Essa estante estava solitária como uma torre numa planície, e a luz parecia o seu farol melancólico. Um biombo de laca verde, de um verde fresco de relva, protegia a lareira. A lareira era de mármore verde, de um verde de mar sombrio. Nela morriam as brasas de uma lenha aromática. E entre aqueles verdes brilhava, sobre bases e pedestais, toda uma Mecânica sumptuosa. Eram aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, frieza e rigidez de metais...

Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se tinha enterrado, com um modo cansado que eu não lhe conhecia:

— Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! Temos de juntar outra vez estas nossas vidas, tão separadas há sete anos!... Em Guiães, sete anos! Que fizeste tu?

— E tu, que tens feito, Jacinto?

O meu amigo encolheu molemente os ombros. Tinha vivido. Tinha cumprido com serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que pertencem ao espírito...

— E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202!

Ele espalhou em redor um olhar onde já não brilhava a antiga vivacidade:

— Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.

De repente, a um canto, tocou a campainha do telefone. O meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente: «*Está lá? Está lá?*» Entretanto examinei com curiosidade a sua imensa mesa de trabalho. Sobre ela havia um estranho e miúdo exército de instrumentozinhos. Eram de níquel, de aço, de cobre, de ferro, com lâminas, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes. Todos tinham um ar expressivo e utilidades misteriosas. Peguei num e tentei manejá-lo, e logo uma ponta maldosa me picou um dedo. Nesse instante saiu de outro canto um «tic-tic-tic» apressado, quase ansioso. Jacinto disse logo, com a cara no telefone:

— Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr.

E, com efeito, havia uma redoma de vidro sobre uma coluna, com um aparelho esperto e diligente lá dentro. Dela escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com letras impressas. Eu, homem das serras, apanhei-a, maravilhado. A linha, escrita a azul, anunciava ao meu amigo Jacinto uma notícia. A fragata russa *Azoff* tinha entrado em Marselha com uma avaria!

Ele já tinha largado o telefone. Quis saber, inquieto, se aquela avaria da *Azoff* o prejudicava diretamente.

— Da *Azoff*?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.

Depois olhou para o fundo da Biblioteca. Ali estava o relógio monumental que marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas.

— Preciso de escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé Fernandes? Tens aí os jornais de Paris, da noite, e os de Londres, desta manhã. As Ilustrações estão além, naquela pasta de couro com ferragens.

Mas preferi fazer o inventário do gabinete, que dava à minha ignorância serrana todos os prazeres de uma iniciação. Aos lados da cadeira de Jacinto pendiam grossos tubos acústicos. Por eles soprava com certeza as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa, cordões inchados e moles corriam sobre o tapete. Iam para os cantos de sombra, como cobras assustadas. Sobre uma mesinha, refletida no seu verniz como na água de um poço, estava uma Máquina de Escrever. Mais adiante havia uma imensa Máquina de Calcular, com filas de buracos. Deles espreitavam, à espera, números rígidos de ferro.

Depois parei em frente da estante que me preocupava, solitária como uma torre numa planície, com o seu alto farol. Uma das suas faces estava cheia de Dicionários, outra de Manuais, outra de Atlas, a última de Guias. Entre estes abri um grande volume e encontrei o Guia das ruas de Samarcanda. Que maciça torre de informação! Nas prateleiras admirei aparelhos que não compreendia. Um era feito de lâminas de gelatina, onde desmaiavam, meio apagadas, as linhas de uma carta, talvez de amor. Outro levantava uma faca funesta sobre um pobre livro de capa mole, como para o cortar. Outro abria a boca de uma tuba, toda aberta para as vozes do invisível. Presos às portas e às cornijas, brilhavam arames que fugiam pelo teto para o espaço. Todos mergulhavam em forças universais, todos transmitiam forças universais. A Natureza vinha, disciplinada, servir o meu amigo, e tinha entrado no seu serviço doméstico!...

Jacinto lançou uma exclamação impaciente:

— Oh, estas penas elétricas!... Que seca!

Amarrotou com cólera a carta começada, e eu escapei, a respirar, para a Biblioteca. Que armazém majestoso dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali estavam mais de trinta mil volumes, todos certamente essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, a ouro numa lombada verde, o nome de Adam Smith. Era portanto a região dos Economistas. Avancei e percorri, espantado, oito metros de Economia Política. Depois avistei os Filósofos e os seus comentadores, que cobriam uma parede inteira. Iam desde as escolas Pré-socráticas até às escolas Neopessimistas. Naquelas tábuas erguiam-se, como castelos, mais de dois mil sistemas, e todos se contradiziam. Pelas capas logo se adivinhavam as doutrinas. Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro. Platão, em cima, brilhava, numa pele pura e branca.

Mais adiante começavam as Histórias Universais. Mas aí subia contra a estante uma imensa pilha de livros de capa mole. Cheiravam a tinta nova e a documentos novos. Era como a terra fresca que um rio deixa a tapar uma margem muito antiga. Contornei essa colina e mergulhei na secção das Ciências Naturais. Passei, num espanto crescente, da Orografia para a Paleontologia e da Morfologia para a Cristalografia. Essa estante acabava junto de uma janela aberta sobre os Campos Elísios. Afastei as cortinas de veludo e descobri atrás delas outra pilha prodigiosa de volumes. Eram todos de História Religiosa e de Exegese Religiosa. Subiam como montanhas até aos últimos vidros. Tapavam, nas manhãs mais claras, o ar e a luz do Senhor.

Mas depois brilhava, em couros claros, a estante amável dos Poetas. Como repouso para o espírito cansado de todo aquele saber positivo, Jacinto tinha preparado ali um cantinho. Tinha um divã e uma mesa de limoeiro, mais lustrosa do que um fino esmalte. A mesa estava coberta de charutos, de cigarros do Oriente, de tabaqueiras do século XVIII. Sobre um cofre de madeira lisa estava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do Japão. Cedi à sedução das almofadas. Trinquei um damasco, abri um volume, e senti estranhamente, ao meu lado, um zumbido. Parecia de um inseto de asas harmoniosas. Sorri à ideia de que fossem abelhas, a fazer o seu mel naquele maciço de versos em flor. Depois percebi que o sussurro distante e dormente vinha do cofre de mogno, de aspeto tão discreto. Afastei uma *Gazeta de França* e descobri um cordão. Saía de um buraco do cofre e acabava num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha orelha confiada, habituada à simplicidade dos ruídos da serra. E logo uma Voz, muito mansa mas muito decidida, aproveitou a minha curiosidade para me invadir. Apoderou-se do meu entendimento e sussurrou com astúcia:

— ...«E assim, pela disposição dos cubos diabólicos, eu chego a verificar os espaços hipermágicos!...»

Saltei, com um berro.

— Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro de uma caixa!

O meu camarada, habituado aos prodígios, não se agitou:

— É o Conferençofone... Exatamente como o Teatrofone, só que aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!... Que diz o homem, Zé Fernandes?

Eu olhava para o cofre, ainda de olhos arregalados:

— Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, toda a espécie de horrores...

Senti, vindo lá de dentro, o sorriso superior de Jacinto:

— Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre a Quarta Dimensão... Conjeturas, uma maçada! Ouve lá, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Zé Fernandes?

— Não, Jacinto... Ainda estou vestido pelo alfaiate da serra!

E voltei ao gabinete para mostrar ao meu camarada o casaco de flanela grossa. Mostrei-lhe também a gravata de pintinhas escarlates com que, ao domingo, em Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacinto garantiu que esta simplicidade de montanha ia interessar os seus convidados, que eram dois artistas... Quem? O autor do *Coração Triplo*, um Psicólogo Feminista de inteligência transcendente. Era um Mestre muito experimentado e muito consultado em Ciências Sentimentais. E Vorcan, um pintor mítico. Este tinha interpretado etereamente, havia um ano, o simbolismo rapsódico do cerco de Troia, numa vasta composição, *Helena Devastadora*...

Eu coçava a barba:

— Não, Jacinto, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso de entrar em toda esta civilização, lentamente, com cautela, senão rebento. Logo na mesma tarde a eletricidade, e o Conferençofone, e os espaços hipermágicos! E o feminista, e o etéreo, e a simbologia devastadora! É excessivo! Volto amanhã.

Jacinto dobrava devagar a sua carta. Tinha metido nela, sem segredo (como convinha à nossa fraternidade), duas violetas brancas, tiradas do ramo que trazia ao peito.

— Amanhã, Zé Fernandes, vens antes do almoço, com as tuas malas num fiacre. Instalas-te no 202, no teu quarto. No Hotel são embaraços e privações. Aqui tens o telefone, o Teatrofone, livros...

Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, a falar para dentro de um tubo acústico, murmurou:

— Grilo!

A parede coberta de damasco abriu-se de repente, sem ruído. Dela saiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que tinha vindo com *D. Galião*). Alegrei-me de o encontrar tão rijo, mais negro, brilhante e venerável. Trazia uma gravata tesa e um colete branco de botões de ouro. Ele também gostou de ver de novo «o siô Fernandes». E quando soube que eu ia ocupar o quarto do avô Jacinto, teve um sorriso claro de preto. Esse sorriso envolveu também o seu senhor, porque o sentia enfim com uma família outra vez.

— Grilo — dizia Jacinto — esta carta a Madame d'Oriol... Escuta! Telefona para casa dos Trèves a dizer que os espíritas só estão livres no domingo... Escuta! Tomo um duche antes de jantar, morno, a 17. Fricção com malva-rosa.

E caindo pesadamente sobre o divã, com um bocejo arrastado e vago:

— Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como há sete anos, neste velho Paris...

Mas eu não me afastava da mesa, com desejo de completar a minha iniciação:

— Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já aí um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis?

Jacinto fez, com languidez, um gesto que os elevava.

— Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela simplificação que dão ao trabalho! Assim...

E apontou. Este arrancava as penas velhas. O outro numerava rapidamente as páginas de um manuscrito. Aquele outro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar selos, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos...

— Mas, com efeito — acrescentou — é uma seca. Com as molas, com os bicos, às vezes magoam, ferem... Já me aconteceu estragar cartas, por as ter sujado com dedadas de sangue. É uma maçada!

Então o meu amigo olhou outra vez para o relógio monumental. Por isso não quis atrasar-lhe a consolação do duche e da malva-rosa.

— Bem, Jacinto, já te revi, já fiquei contente... Agora até amanhã, com as malas.

— Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de jantar. Talvez te tentes!

E, através da Biblioteca, entrámos na sala de jantar, que me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada, mais lustrosa e macia do que cetim, cobria as paredes. Emoldurava medalhões de damasco cor de morango, de morango muito maduro e esmagado. Os aparadores, discretamente trabalhados em flores e volutas, brilhavam com a mesma laca de neve. E damascos cor de morango forravam também as cadeiras, brancas e muito largas. Eram feitas para a lentidão de gulas delicadas, de gulas intelectuais.

— Viva o meu Príncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito compreensível e muito repousante, Jacinto!

— Então janta, homem!

Mas eu já começava a inquietar-me, ao reparar que cada lugar tinha seis garfos, todos de formas astuciosas. E mais me impressionei quando Jacinto me revelou para que serviam. Um era para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes. Outro era para os legumes, outro para as frutas, outro para o queijo! Ao mesmo tempo, com uma sobriedade que Salomão louvaria, havia só dois copos, para dois vinhos. Eram um Bordéus rosado em jarros de cristal e Champanhe a gelar em baldes de prata. Mas todo um aparador se dobrava sob o luxo excessivo, quase assustador, das águas. Havia águas oxigenadas, águas carbonatadas, águas fosfatadas, águas esterilizadas, águas de sais, e outras ainda. Estavam em garrafas bojudas, com tratados terapêuticos impressos nos rótulos.

— Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és ainda o mesmo tremendo bebedor de água, hein?... *Un aquatico*! como dizia o nosso poeta chileno, que andava a traduzir Klopstock.

Ele espalhou, por toda aquela garrafaria com tampas de metal, um olhar desconsolado:

— Não... É por causa das águas da Cidade, contaminadas, cheias de micróbios... Mas ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que me satisfaça... Até sofro sede.

Quis então conhecer o jantar do Psicólogo e do Simbolista. Estava escrito a tinta vermelha, ao lado dos talheres, em lâminas de marfim. Começava honradamente por ostras clássicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...

— É bom?

Jacinto encolheu os ombros, sem interesse:

— Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há tempos... Já há anos.

Do outro prato só compreendi que tinha frangos e trufas. Depois aqueles senhores saboreariam um filete de veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E para sobremesa, simplesmente, laranjas geladas em éter.

— Em éter, Jacinto?

O meu amigo hesitou e desenhou com os dedos a ondulação de um aroma que sobe no ar.

— É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aparecer a alma das frutas...

Curvei a cabeça ignorante e murmurei nas minhas profundezas:

— Eis a Civilização!

E desci os Campos Elísios, encolhido no casaco, a pensar neste prato simbólico. Pensava na rudeza e no fundo atraso da minha Guiães. Lá, desde há séculos, a alma das laranjas fica ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos. É assim em todos aqueles pomares que dão sombra e perfume ao vale, da Roqueirinha a Sandofim! Mas agora, bendito seja Deus, eu tinha a companhia de um tão grande iniciado como Jacinto. Compreenderia todas as finuras e todos os poderes da Civilização.

E (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de um homem que concebe uma ideia da Vida e a realiza. E através dela, e por ela, recolhe a felicidade perfeita.

Este Jacinto tinha-se afirmado bem, na verdade, como o Príncipe da Grã-Ventura!

### Glossário

- **peristilo**: entrada de um edifício, com colunas.
- **corcovava**: dobrava as costas, andava curvado.
- **damasco**: tecido rico de seda, com desenhos. Também é o nome de um fruto.
- **ténia**: verme muito comprido que vive nos intestinos.
- **moleque**: palavra antiga e ofensiva; rapaz negro ao serviço de uma família.
- **negro, preto**: pessoa de pele negra. "Preto" é hoje muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **escudeiro**: palavra antiga; criado de uma casa nobre.
- **comedoiro**: lugar onde se come; palavra rústica, dita aqui por brincadeira.
- **éter**: líquido químico de cheiro forte, que evapora depressa.
- **charutos**: rolos de folhas de tabaco, para fumar.
- **murmurei**: disse em voz baixa.
- **murmurou**: disse em voz baixa.
- **profundezas**: a parte mais funda de uma coisa.
- **espantado**: muito admirado.
- **laca**: verniz duro e muito brilhante.
- **encolheu**: levantou um pouco (os ombros), sem interesse.
- **impaciente**: que não quer esperar.
- **avaria**: dano num navio ou numa máquina.
- **lustrosa**: que brilha.
- **diabólicos**: do diabo; muito maus.
- **hipermágicos**: mais do que mágicos.
- **maçada**: coisa aborrecida; também se diz «seca».
- **duche**: banho de água que cai de cima.
- **gulas**: prazeres de comer; a gula é o grande gosto pela comida.
- **desembarcámos**: saímos de um navio; aqui, do elevador, por brincadeira.

## III

No 202, todas as manhãs, às nove horas, eu entrava no quarto de Jacinto. Ia depois do meu chocolate e ainda de chinelos. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete. Estava diante da sua mesa de toilette, toda de cristal (por causa dos micróbios). A mesa estava cheia de utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola. O homem do século XIX precisa deles para não desfear o conjunto sumptuoso da Civilização. Precisa deles para manter nela o seu Tipo.

As escovas, sobretudo, renovavam todos os dias o meu prazer e o meu espanto. Porque as havia largas como a roda maciça de um carro sabino. Havia-as estreitas e mais curvas do que a espada de um mouro. Havia-as côncavas, em forma de telha de aldeia, e pontiagudas, em forma de folha de hera. Havia-as rijas como cerdas de javali e macias como penugem de rola! De todas se servia fielmente o meu Jacinto, como um amo que não despreza nenhum servo. E assim ficava este Príncipe diante do espelho, com moldura de folhas de prata. Passava pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.

Entretanto o Grilo e outro escudeiro estavam por trás dos biombos de Kioto, de sedas trabalhadas. Manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório. O lavatório era apenas um resumo das máquinas monumentais da Sala de Banho, a maior maravilha do 202. Nestes mármores simplificados havia só dois jatos, graduados desde *zero* até *cem*. Havia os dois duches, fino e grosso, para a cabeça. Havia a fonte esterilizada para os dentes e o repuxo borbulhante para a barba. E havia ainda botões discretos que, com um leve toque, soltavam esguichos, cascatas cantantes ou um leve orvalho de verão.

Naquele canto temível, tubos delgados mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas. Dali saía enfim o meu Jacinto, a enxugar as mãos. Enxugava-as a uma toalha de felpo e a uma toalha de linho. Enxugava-as a outra de corda entrançada, para restabelecer a circulação. E enxugava-as a outra de seda macia, para polir a pele. Depois deste rito final, que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto estendia-se num divã. Folheava então uma Agenda, onde estavam escritas, pelo Grilo ou por ele, as ocupações do seu dia. Eram às vezes tão numerosas que cobriam duas páginas.

Todas elas se prendiam à sua vida social, à sua civilização muito complexa, ou a interesses do meu Príncipe. Tinha-os criado nesses sete anos, para viver em comunhão mais consciente com todas as funções da Cidade. (Jacinto, com efeito, era presidente do Club da *Espada e Alvo* e sócio capitalista do jornal o *Boulevard*. Era diretor da *Companhia dos Telefones de Constantinopla* e sócio dos *Bazares Unidos da Arte Espiritualista*. Era membro do *Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas*, etc.)

Nenhuma destas ocupações parecia porém agradar ao meu amigo. Porque, apesar da mansidão e da harmonia dos seus modos, muitas vezes atirava a Agenda para o tapete. Fazia-o numa rebelião de homem livre, contra aquele livro que o escravizava. Numa dessas manhãs (de vento e neve), apanhei o livro opressivo. Estava encadernado em pele fina, de um carinhoso tom de rosa murcha. Descobri o que o meu Jacinto devia fazer depois do almoço. Tinha uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, outra entre as árvores distantes da Muette. Devia assistir por fidelidade a uma votação no Club e acompanhar Madame d'Oriol a uma exposição de leques. Devia escolher um presente de noivado para a sobrinha dos Trèves e comparecer no funeral do velho conde de Malville. Devia presidir a um tribunal de honra, numa questão de roubalheira ao *écarté*, entre cavalheiros...

E ainda se acumulavam outras indicações, rabiscadas por Jacinto a lápis: «Carroceiro — *Five-o'clock* dos Efraim — A pequena das *Variedades* — Levar a nota ao jornal...» Olhei para o meu Príncipe. Estendido no divã, de olhos miseravelmente fechados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.

Mas as ocupações de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do banho. Desde as oito horas, a campainha do telefone tocava por ele, com impaciência, quase com cólera. Tocava como por um escravo atrasado. E mal enxuto, no seu roupão de pelo de cabra do Tibete, saía constantemente ao corredor. Outras vezes saía em grossos pijamas de pelúcia cor de ouro-velho. Ia cochichar com sujeitos tão apressados que conservavam na mão o guarda-chuva, a pingar sobre o tapete.

Um deles, sempre presente (e que pertencia certamente aos *Telefones de Constantinopla*), era temível. Era todo magro e escuro, com maus dentes, e levava debaixo do braço uma enorme pasta sebenta. Tinha a gola alta de uma pelissa gasta. Dali, como da abertura de um covil, lançava dois olhinhos sinistros de ave de rapina. Sem cessar, implacavelmente, um escudeiro aparecia com cartões de visita numa bandeja... Depois eram fornecedores de Indústria e de Arte, e negociantes de cavalos, vermelhos e de casaco branco. Eram inventores com grossos rolos de papel. Eram vendedores de livros antigos, com uma edição «única», quase inacreditável, de Ulrich Zell ou do *Lapidanus* no bolso. Jacinto circulava atordoado pelo 202, a rabiscar na carteira, a tocar o telefone, a desatar nervosamente pacotes. Ao passar, sacudia algum homem emboscado, que saía das sombras da antecâmara. Esse homem estendia-lhe, como uma arma, o seu memorial ou o seu catálogo!

Ao meio-dia, um tam-tam prateado e melancólico soava a chamar para o almoço. Com o *Figaro* ou as *Novidades* abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe. Ele entrava como uma rajada, a consultar o relógio, e soltava, com a cara cansada, a sua eterna queixa:

— Que maçada! E depois uma noite abominável, enrolada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina... Uma seca!

Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, o seduzia. No seu tumulto da manhã fumava inúmeros cigarros, que o secavam. Por isso começava por se encharcar com um imenso copo de água. Era água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada com um conhaque raro e muito caro. Esse conhaque era horrivelmente adocicado, de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa e sem gosto, picava aqui e além com a ponta incerta do garfo. Era uma lasca de fiambre, uma fibra de lagosta. E exigia impacientemente o café. Era um café de Moka, mandado todos os meses por um feitor do Dedjah. Era fervido à turca, muito espesso, e ele mexia-o com um pau de canela!

— E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?

— Eu?

Recostado na cadeira, com delícia, os dedos metidos nas cavas do colete:

— Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!

O meu dedicado amigo, a mexer o café com o pau de canela, procurava uma ocupação que me encantasse. Procurava-a em toda a numerosa Civilização da Cidade. Mas logo que sugeria uma Exposição, ou uma Conferência, ou monumentos, ou passeios, encolhia os ombros, desconsolado:

— Por fim nem vale a pena, é uma seca!

Acendia outro dos cigarros russos, onde brilhava o seu nome, impresso a ouro no papel. Torcia, numa pressa nervosa, os fios do bigode. À porta da Biblioteca ainda ouvia o seu procurador, o gordo e majestoso Laporte. E enfim saía, seguido de um criado que levava um molho tremendo de jornais para o seu coupé. O Príncipe da Grã-Ventura mergulhava na Cidade.

Às vezes o dia social de Jacinto estava mais livre. O céu de março dava-nos caridosamente um pouco de azul aguado. Saíamos então a pé depois do almoço, através de Paris. Estes passeios lentos e sem destino eram outrora, no nosso tempo de Estudantes, um prazer muito querido de Jacinto. Porque neles saboreava a Cidade mais intensamente e mais minuciosamente. Mas agora, apesar da minha companhia, só lhe davam impaciência e fadiga, tão tristemente diferentes do antigo êxtase iluminado.

Fiz uma descoberta na primeira tarde em que descemos aos Boulevards. Fi-la com espanto, e mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crença. O denso formigueiro humano sobre o asfalto e a torrente sombria dos carros sobre o macadame afligiam o meu amigo. Afligiam-no pela brutalidade da sua pressa, do seu egoísmo e do seu barulho. Encostado e como refugiado no meu braço, este Jacinto novo começou a lamentar-se. Queria que as ruas, na nossa Civilização, fossem calçadas de guta-percha! A guta-percha representava claramente, para o meu amigo, a substância discreta que amortece o choque e a rudeza das coisas. Oh maravilha! Jacinto a querer borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções da Cidade! Depois, nem me deixou pasmar diante daquelas lojas douradas e cheias de espelhos. Outrora considerava-as os «preciosos museus do século XIX»...

— Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!

Eu arregalava os olhos para este Jacinto transformado. E impressionava-me sobretudo o seu horror pela Multidão, por certos efeitos da Multidão que só ele sentia. Chamava-lhes os «sulcos».

— Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois são o grande inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e atrevido que uma mulher larga ao passar. Instala-se no nariz e estraga para todo o dia o ar que se respira. É uma frase que se apanha num grupo e que revela um mundo de velhacaria, de pedantismo ou de estupidez. Fica colada à alma, como um salpico, e lembra a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, pelo mau gosto, pela impertinência, pela vulgaridade, pela dureza. E nunca mais se consegue sacudir essa visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!

Tudo isto era rebuscado, talvez infantil. Mas para mim revelava, naquele devoto ardente da Cidade, o arrefecimento da devoção. Nessa mesma tarde, se bem me lembro, sob uma luz macia e fina, entrámos nos centros de Paris. Eram ruas longas, milhas de casas de cal parda, cheias de chaminés de lata negra. As janelas estavam sempre fechadas e as cortininhas sempre corridas, a abafar e a esconder a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque; linhas hirtas, ângulos ásperos; tudo seco, tudo rígido. E do chão aos telhados, por toda a fachada, a tapar as varandas, a comer os muros, Tabuletas, Tabuletas...

— Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro bazar!

E, mais para sondar o meu Príncipe do que por convicção, insisti na fealdade e na tristeza destes prédios. Eram duros armazéns, cujos andares são prateleiras onde se empilha humanidade! E uma humanidade catalogada e arrumada sem piedade! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de trabalho nas altas, nos sótãos, sobre tábuas de pinho nu, entre o pó e a traça...

Jacinto murmurou, com a cara arrepiada:

— É feio, é muito feio!

E acrescentou logo, a sacudir no ar a luva de pele de anta:

— Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que produção!

Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase religiosa afeição pelo Bosque de Bolonha. Quando era moço, tinha construído sobre o Bosque teorias complicadas e consideráveis. Sustentava, com olhos brilhantes de fanático, que a Cidade ia todas as tardes ao Bosque renovar saudavelmente a sua força. Via ali as suas Duquesas, as suas Cortesãs, os seus Políticos, os seus Financeiros, os seus Generais. Via os seus Académicos, os seus Artistas, os seus Clubistas, os seus Judeus. E ficava com a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se mantinha em número, em vitalidade, em função. Nenhum elemento da sua grandeza tinha desaparecido ou enfraquecido! «Ir ao Bois» era então para o meu Príncipe um ato de consciência. E voltava sempre do Bosque a confirmar com orgulho que a Cidade possuía todos os seus astros. Eles garantiam a eternidade da sua luz!

Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me levava ao Bosque. Eu aproveitava a clemência de abril e tentava enganar ali a minha saudade de árvores. Subíamos, ao trote nobre das suas éguas lustrosas, a Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque. Estavam rejuvenescidas pela relva tenra e pelo verde fresco dos rebentos. Entretanto Jacinto soprava o fumo do cigarro pelas vidraças abertas do coupé. Continuava o bom camarada, de veia amável, com quem era doce filosofar através de Paris.

Mas logo que passávamos as grades douradas do Bosque, entrávamos na Avenida das Acácias. Seguíamos na lenta fila das carruagens de luxo e de aluguer. Havia um silêncio decente, só cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas a esmagar a areia. Então o meu Príncipe emudecia, molemente encolhido no fundo das almofadas. Só levantava a cara para abrir bocejos de fartura. Pelo antigo hábito de verificar a presença consoladora do «pessoal, dos astros», ainda apontava às vezes para um coupé. Ou apontava para uma vitória, a rodar com ruído noutra fila arrastada. E murmurava um nome.

Foi assim que fui conhecendo a barba hebraica encaracolada do banqueiro Efraim. Conheci o longo nariz patrício de Madame de Trèves, a abrigar um sorriso perene. Conheci as bochechas flácidas do poeta neoplatónico Dornan, sempre afundado no interior dos fiacres. Conheci os longos bandós pré-rafaelitas e negros de Madame Verghane, e o monóculo fumado do diretor do *Boulevard*. Conheci o bigodinho vencedor do Duque de Marizac, a reinar do alto do seu faetonte de guerra. E havia ainda outros sorrisos imóveis, e barbichas à Renascença, e pálpebras amortecidas. Havia olhos farejantes e peles empoadas de arroz. Eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe.

Mas, do topo da Avenida das Acácias, recomeçávamos a descer, a passo lento, a esmagar devagar a areia. A fila vagarosa subia, calhambeque atrás de landau, vitória atrás de fiacre. Fatalmente, víamos outra vez o binóculo sombrio do homem do *Boulevard* e os bandós furiosamente negros de Madame Verghane. Víamos a barriga mole do neoplatónico e a barba talmúdica. Eram todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, superconhecidas do meu camarada. Cruzava-se com elas todas as tardes, havia muitos anos, sempre com os mesmos sorrisos. Era sempre o mesmo pó de arroz, na mesma imobilidade de cera. Então Jacinto não se continha e gritava ao cocheiro:

— Para casa, depressa!

E era, pela Avenida do Bosque e pelos Campos Elísios, uma fuga ardente das éguas. A lentidão forçada, a roer os freios, entre outras éguas também superconhecidas delas, lançava-as numa exasperação comparável à de Jacinto.

Para o sondar, eu falava mal do Bosque:

— Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...

Ele respondia, timidamente:

— Não, é agradável, não há nada mais agradável; mas...

E acusava o frio das tardes ou o despotismo das suas ocupações. Voltávamos então ao 202. Em breve, com efeito, estava embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de cristal, entre o exército das escovas. Com toda a eletricidade a brilhar, o meu Príncipe começava a enfeitar-se para o serviço social da noite.

E foi justamente numa dessas noites (um sábado) que passámos por um terror brutal, naquele quarto tão civilizado e protegido. Era um desses terrores revoltos que só a ferocidade dos Elementos produz. Já era tarde, e estávamos com pressa. Íamos jantar com Marizac no Club, para depois o acompanhar ao *Lohengrin*, na Ópera. Jacinto apertava o nó da gravata branca. De repente, no lavatório, rompeu-se o tubo ou soltou-se a torneira. O jato de água a ferver rebentou furiosamente, a fumegar e a silvar. Uma névoa densa de vapor quente abafou as luzes. Perdidos nela, ouvíamos os gritos do escudeiro e do Grilo. Ouvíamos o jato devastador a bater nos muros e a espalhar uma chuva que escaldava. Debaixo dos pés, o tapete encharcado era uma lama ardente.

Era como se todas as forças da natureza, submetidas ao serviço de Jacinto, se agitassem. Animava-as aquela rebelião da água. Ouvimos roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios das luzes elétricas correram faíscas ameaçadoras! Eu tinha fugido para o corredor, onde a névoa grossa se espalhava. Por todo o 202 havia um tumulto de desastre. Diante do portão, atraídas pelo fumo que saía das janelas, estavam a polícia e uma multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de chapéu para a nuca e carteira aberta. Gritava, ansioso, «se havia mortos?»

Dominada a água, clareada a névoa, encontrei Jacinto no meio do quarto, em ceroulas, lívido:

— Oh Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que impotência, que impotência! Pela segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...

— E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

Em redor, as nobres sedas bordadas e os brocados Luís XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Príncipe, muito pálido, enxugava uma fotografia de Madame d'Oriol, de ombros nus. O jato bruto tinha-a enchido de bolhas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a água aquecia em panelas seguras. E subia ao meu lavatório, pela mão forte da Catarina, em jarros seguros! Não jantámos com o duque de Marizac no Club. E, na Ópera, nem saboreei Lohengrin, a sua alma branca, o seu cisne branco e as suas armas brancas. Estava entalado, apertado, cortado nos sovacos pela casaca que Jacinto me tinha emprestado. E essa casaca cheirava estonteantemente a flores de Nessari.

No domingo, muito cedo, o Grilo entrou no meu quarto. Na véspera tinha escaldado as mãos e trazia-as embrulhadas em seda. Abriu as cortinas e, à beira da cama, com o seu radiante sorriso de preto:

— Vem no *Figaro*!

Desdobrou o jornal, triunfante. Eram doze linhas, nos *Ecos*. Nelas as nossas águas rugiam e saltavam com tanta magnificência e tanta publicidade que também sorri, deliciado.

— E toda a manhã o telefone, siô Fernandes! — exclamava o Grilo, a brilhar em ébano. — A quererem saber, a quererem saber... «Está lá? Está escaldado?» Paris aflito, siô Fernandes!

O telefone, com efeito, tocava sem parar. E quando desci para o almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas. O meu Príncipe abria-os com a faca, enrugado, a resmungar contra a «maçada». Só se animou ao ler um desses papéis azuis, que atirou para cima do meu prato. Tinha o mesmo sorriso agradado com que de manhã tínhamos sorrido, o Grilo e eu:

— É do Grão-Duque Casimiro... Brincalhão amável! Coitado!

Saboreei, entre os ovos, o telegrama de S. Alteza. «O quê! o meu Jacinto inundado! Muito chique, nos Campos Elísios! Não volto ao 202 sem boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei também, com respeito: «Amável! Coitado!» Depois, a remexer devagar no monte de telegramas que se estendia até ao meu copo:

— Oh Jacinto! Quem é esta Diana que te escreve sem parar, te telefona, te telegrafa, te...?

— Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

— Tua?

— Minha, minha... Não! tenho um bocado.

Lamentei que o meu Príncipe, um senhor tão rico e de tão fino orgulho, quisesse poupar numa gamela própria. Chafurdava assim com outros numa gamela pública! E como eu lamentava isto, Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado no garfo:

— Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa de ter cortesãs de grande pompa e grande luxo. Ora, em Paris tudo é tremendamente caro. Para montar uma cocotte, são precisos os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos. São precisos os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete. São precisas a sua publicidade e a sua insolência. Para isso é necessário que se juntem umas poucas de fortunas e se forme um sindicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas apenas por Civismo, para dar à cidade uma cocotte monumental. De resto, não chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.

Arregalei um olho divertido:

— Dos ombros para baixo?... E para cima?

— Oh, para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos por mês, além das flores... Uma maçada!

As duas rugas do meu Príncipe ficavam aos lados do seu nariz fino, curvado sobre a salada. Eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.

Acabávamos o almoço quando um escudeiro, muito discretamente, num murmúrio, anunciou Madame d'Oriol. Jacinto pousou tranquilamente o charuto. Eu quase me engasguei, num gole agitado de café. Ela apareceu entre os reposteiros de damasco cor de morango. Vinha toda de negro, de um negro liso e austero de Semana Santa. Com o regalo fez um lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa conversa doce e rápida:

— É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, não me contive, quis ver os estragos... Uma inundação em Paris, nos Campos Elísios! Não há senão este Jacinto. E vem no *Figaro*! O que eu estava assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver, como no Vesúvio... Mas é de uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou a morrer por admirar as ruínas!

Jacinto não me pareceu comovido nem agradecido com aquele interesse. Voltou a pegar no charuto, a sorrir:

— Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora, que pena não ter ao menos caído uma parede!

Mas ela insistia. Não era todos os dias que se gozavam em Paris os destroços de uma inundação. O *Figaro* tinha contado... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos Elísios!

Toda ela se agitava e vibrava, das plumazinhas encaracoladas do chapéu até à ponta brilhante das botinas de verniz. Era como um ramo tenro sob o movimento de um pássaro a chilrear. Só o sorriso, atrás do véu espesso, conservava um brilho imóvel. E já no ar se tinha espalhado um aroma, uma doçura, que vinham de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

Jacinto entretanto cedeu, alegremente. Pelo corredor, Madame d'Oriol ainda louvava o amável *Figaro* e confessava quanto tinha tremido... Eu voltei ao meu café. Felicitava mentalmente o Príncipe da Grã-Ventura por aquela perfeita flor de Civilização que lhe perfumava a vida. Pensei então na harmonia apurada em que se movia essa flor. E corri à antecâmara, a verificar diante do espelho o meu penteado e o nó da minha gravata. Depois voltei à sala de jantar. Junto da janela, a folhear languidamente a *Revista do Século XIX*, tomei uma atitude de elegância e de alta cultura.

Quase imediatamente eles reapareceram. Madame d'Oriol, sempre a sorrir, dizia-se roubada: não tinha encontrado nada que lembrasse as águas furiosas. Passou junto à mesa, onde Jacinto procurava alguma coisa para lhe oferecer. Podiam ser tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.

Ela recusava, com as mãos guardadas no regalo. Não era alta nem forte. Mas cada prega do vestido e cada curva da capa caíam e ondulavam harmoniosamente, como perfeições a cobrir perfeições. Sob o véu fechado, só percebi a brancura da cara empoada e a escuridão dos olhos largos. Tinha sedas e veludos negros, e as peles negras rodeavam-lhe o pescoço. Sobre elas estava torcido com força um pouco de cabelo louro, de um louro quente. Com tudo isto, toda ela espalhava uma sensação de macio e de fino.

Eu teimava em considerá-la uma flor de Civilização. Pensava no trabalho de séculos e na cultura superior exigidos pelo terreno onde ela tinha nascido tão delicadamente. Tinha brotado já aberta, em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforço e de estufa. E trazia nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de quase murcho.

Entretanto, com a sua conversa rápida de pássaro, a falar para mim, a falar para Jacinto, mostrava o seu lindo espanto. Espantava-a aquele monte de telegramas sobre a toalha.

— Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacinto é hoje o homem, o único homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas?

Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe empurrou para a sua amiga o telegrama do Grão-Duque. Então Madame d'Oriol soltou um *ah!* muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. Alteza, que os seus dedos acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre séria:

— É brilhante!

Oh, certamente! naquele desastre tudo se tinha passado com muito brilho, num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar, porque tinha mandado marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermão!

Jacinto exclamou com inocência:

— Sermão?... Já é a estação dos sermões?

Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e de dor. O quê! nem na austera casa dos Trèves tinha dado pela entrada da Quaresma? De resto, não se admirava: Jacinto era um turco! E imediatamente celebrou o pregador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh, que eloquência! que violência! No último sermão tinha pregado sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tinha dito coisas de uma inspiração, de uma brutalidade! Depois, que gesto, um gesto terrível, esmagador! A manga arregaçava-se-lhe toda e mostrava o braço nu, um braço soberbo, muito branco, muito forte!

O seu sorriso continuava claro, sob o olhar que se tinha tornado mais negro dentro do véu negro. E Jacinto, a rir:

— Um bom braço de diretor espiritual, hein? Para dobrar, para espancar almas...

Ela respondeu logo:

— Não! infelizmente o Père Granon não confessa!

E de repente mudou de ideias: aceitava um biscoito e um cálice de Tokai. Era preciso um cordial para enfrentar as emoções do Père Granon! Ambos nos precipitámos, um a agarrar na garrafa, outro a oferecer o prato de bombons. Levantou o véu até aos olhos e chupou à pressa um bolo que tinha molhado no Tokai. Jacinto reparou por acaso no chapéu que ela trazia e curvou-se com curiosidade, impressionado. Então Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda séria perante uma coisa séria:

— Elegante, não é verdade?... É uma criação inteiramente nova de Madame Vial. Muito respeitoso e muito sugestivo, agora na Quaresma.

O seu olhar, que me tinha envolvido, convidava-me também a admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criação suprema do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas encaracoladas, estava aninhada entre rendas uma Coroa de Espinhos. Pousava delicadamente, presa por um prego, e era feita de azeviche!

Ambos ficámos em êxtase. E Madame d'Oriol, num movimento e num sorriso que espalharam mais aroma e mais claridade, partiu para a Madalena.

O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E bruscamente, a levantar os ombros com uma determinação imensa, como se deslocasse um mundo:

— Oh Zé Fernandes, vamos passar este domingo em alguma coisa simples e natural...

— Em quê?

Jacinto fez girar em redor os olhos muito abertos. Parecia procurar ansiosamente, em toda a Vida Universal, uma coisa natural e simples. Depois pousou em mim os mesmos olhos largos, que voltavam de muito longe, cansados e com pouca esperança:

— Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!

### Glossário

- **mouro**: nome antigo dado aos muçulmanos do Norte de África.
- **sulcos**: palavra de Jacinto; aquilo que a multidão deixa nos sentidos, como um cheiro ou uma frase feia.
- **bandós**: cabelo dividido ao meio e colado aos lados da cara.
- **guta-percha**: substância parecida com a borracha.
- **cocotte**: palavra francesa; mulher sustentada por homens ricos.
- **gamela**: recipiente de madeira onde comem os porcos.
- **regalo**: peça de pele, em forma de tubo, para aquecer as mãos.
- **azeviche**: pedra muito negra e brilhante.
- **turco**: aqui, como brincadeira antiga; pessoa sem religião cristã.
- **preto**: pessoa de pele negra. Hoje é muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **Judeus**: pessoas do povo ou da religião judaica. O narrador fala com os preconceitos do seu tempo; o livro é de 1901.
- **enxugava**: secava.
- **bocejo**: ato de abrir muito a boca, com sono ou aborrecimento.
- **antecâmara**: sala de entrada, antes das outras salas da casa.
- **maçada**: coisa aborrecida.
- **espesso**: grosso, denso.
- **coupé**: pequena carruagem fechada, puxada por cavalos.
- **afligiam**: faziam sofrer, perturbavam.
- **éguas**: fêmeas do cavalo.
- **névoa**: espécie de nuvem junto ao chão, que não deixa ver bem.
- **siô**: maneira de Grilo dizer «senhor».
- **neoplatónico**: seguidor de uma filosofia antiga que vem de Platão.

## IV

Nessa fecunda semana, uma noite, voltávamos ambos da Ópera, quando Jacinto, a bocejar, me anunciou uma festa no 202.

— Uma festa?...

— Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu queria um almoço curto. O Grão-Duque exigiu uma ceia. É um bárbaro, untado de literatura do século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reúno no domingo três ou quatro mulheres, e uns dez homens bem típicos, para o divertir. Também aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma maçada amarga!

Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se cansou a prepará-la com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes. (Nesses tempos distantes, os Tziganes, os seus casacos vermelhos e a melancolia áspera das Czardas ainda emocionavam Paris.) E mandou ligar, na Biblioteca, o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia Francesa, com o Alcazar e com os Bufos. Assim previa todos os gostos, do trágico ao picaresco.

Depois, no domingo, ao entardecer, fomos ambos visitar a mesa da ceia, que brilhava com as velhas baixelas de D. Galião. Havia uma profusão faustosa de orquídeas, em longas silvas sobre a toalha bordada a seda. Estavam enroladas às fruteiras de Saxe e transbordavam de cristais trabalhados, com filigranas de ouro. Tudo isto espalhava uma sensação tão fina de luxo e de gosto que eu murmurei: «Caramba, bendito seja o dinheiro!»

Pela primeira vez admirei também a copa e a sua instalação abundante e minuciosa. Admirei sobretudo os dois ascensores que subiam do fundo da cozinha. Um era para os peixes e as carnes, aquecido por tubos de água a ferver. O outro era para as saladas e os gelados, coberto de placas frigoríficas. Oh, este 202!

Às nove horas, porém, desci ao gabinete de Jacinto para escrever à minha boa tia Vicência. Ele tinha ficado no quarto de vestir, com o manicuro que lhe polia as unhas. Foi então que, naquele delicioso palácio, florido e em festa, passámos por um susto bem banal! Todas as luzes elétricas, de repente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiança daquelas forças universais, saltei logo para a porta. Tropeçava nas trevas e gania um *Aqui-d'el-Rei!* que cheirava a Guiães. Jacinto, lá em cima, berrava, com o manicuro agarrado aos pijamas. E de novo, como uma criada preguiçosa que volta, a arrastar os chinelos, a luz reapareceu devagar.

Mas o meu Príncipe, que tinha descido pálido, mandou buscar um engenheiro à Companhia Central da Eletricidade Doméstica. Por precaução, outro criado correu à mercearia a comprar pacotes de velas. E o Grilo já desenterrava dos armários os candelabros abandonados. Desenterrava também os pesados castiçais antigos dos tempos não científicos de D. Galião. Era uma reserva de veteranos fortes. Serviria para o caso terrível de as forças inexperientes da Civilização falharem traiçoeiramente, mais tarde, à ceia. O Eletricista, que chegou sem fôlego, garantiu, porém, que a Eletricidade se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, escondi no bolso dois cotos de vela.

A Eletricidade ficou fiel, sem amuos. Desci do meu quarto tarde, porque tinha perdido o colete de baile. Só o encontrei depois de uma busca furiosa, cheia de pragas, caído atrás da cama! Quando cheguei lá abaixo, todo o 202 brilhava. Os Tziganes, na antecâmara, sacudiam as guedelhas e atiravam as arcadas de uma valsa muito arrastadora. Tão arrastadora que, nas paredes, os imensos Personagens das tapeçarias, Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, mexiam os pés veneráveis!

Timidamente, sem ruído, a puxar os punhos da camisa, entrei no gabinete de Jacinto. Fui logo recebido pelo sorriso da condessa de Trèves. Acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa), ela percorria, maravilhada, os Aparelhos e os Instrumentos. Percorria toda a sumptuosa Mecânica do meu supercivilizado Príncipe. Nunca me tinha parecido tão majestosa, naquelas sedas cor de açafrão, com rendas cruzadas no peito à Maria Antonieta. O cabelo crespo e ruivo estava levantado em rolo sobre a testa dominadora. E o curvo nariz patrício abrigava o sorriso sempre luzidio, sempre corrente. Abrigava-o como um arco abriga a corrente e o brilho de um regato.

Estava direita como num trono, com a longa luneta de tartaruga junto dos olhos pequenos, de um azul turvo. Diante do Grafofone, depois diante do Microfone, ouvia os comentários que Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade penosa. Ouvia-os como melodias superiores. Diante de cada roda, de cada mola, eram espantos e louvores finamente feitos. Com astuta inocência, atribuía a Jacinto todas aquelas invenções do Saber! Os utensílios misteriosos que enchiam a mesa de ébano foram para ela uma iniciação que a encantou. Oh, o «numerador de páginas»! oh, o «colador de selos»! A carícia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os endereços dos fabricantes, para se abastecer de todas aquelas utilidades adoráveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e fácil! Mas era preciso o talento, o gosto de Jacinto, para escolher, para «criar»!

E não era só ao meu amigo (que o recebia com resignação) que ela oferecia o fino mel. A afagar o Telégrafo com o cabo da luneta, achou maneira de recordar a eloquência do Historiador. Mesmo para mim (de quem não sabia o nome) arranjou uma lisonjazinha. Foi junto do Fonógrafo, a propósito de «vozes de amigos que é doce colecionar». Era redondinha e lustrosa, e eu chupei-a como um doce celeste. Era como uma boa caseira que atira o grão aos frangos com fome. A cada passo, maternalmente, ela alimentava uma vaidade. Ansioso por outro doce, segui a sua cauda sussurrante, cor de açafrão. Ela parou diante da Máquina de Calcular, de que Jacinto já lhe tinha dado pacientemente uma explicação sábia. De novo tocou nos buracos de onde espreitam os números negros. E com o seu sorriso encantado, murmurou: «Prodigiosa, esta prensa elétrica!...»

Jacinto acudiu:

— Não! Não! Esta é...

Mas ela sorria e seguia... Madame de Trèves não tinha compreendido nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame de Trèves não tinha ouvido nenhuma explicação do meu Príncipe! Naquele gabinete de sumptuosa Mecânica só se tinha ocupado a exercer, com proveito e perfeição, a Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. Não escondi a Danjon a admiração que me enchia.

O eloquente Académico revirou os olhos salientes:

— Oh! e um gosto, uma inteligência, uma sedução!... E depois, como se janta bem em casa dela! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, verdadeiramente superior!

Deslizei para a Biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, junto da estante dos Padres da Igreja, alguns senhores conversavam. Parei a saudar o diretor do *Boulevard* e o Psicólogo Feminista, o autor do *Coração Triplo*. Tinha-me familiarizado com ele na véspera, ao almoço, no 202. Recebeu-me como um pai. E, como se precisasse da minha presença, segurou com força e com gula a minha grossa palma serrana. Segurou-a na sua mão ilustre, brilhante de anéis.

Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu Romance, *A Couraça*. Tinha sido lançado nessa semana, entre gritinhos de prazer e um quente rumor de saias agitadas. Um deles sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van Dyck que parecia postiça, levantava-se na ponta das botas. Proclamava que nunca a ponta da Psicologia Experimental tinha penetrado tão fundo na velha alma humana! Todos concordavam, apertavam-se contra o Psicólogo, tratavam-no por «mestre». Eu próprio nem sequer tinha visto de longe a capa amarela da *Couraça*. Mas ele voltava para mim os olhos pedintes, com fome de mais mel. E eu murmurei com um leve assobio: «uma delícia!»

E o Psicólogo brilhava, de lábio húmido, entalado num colarinho alto onde se enrolava uma gravata à 1830. Confessava modestamente que tinha dissecado todas aquelas almas da *Couraça* com «algum cuidado». Tinha-o feito sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a sangrar... Foi então que Marizac, o duque de Marizac, falou. Tinha um sorriso mais afiado do que o brilho de uma navalha e não tirou as mãos dos bolsos:

— No entanto, meu caro, nesse livro tão profundamente estudado há um erro bem estranho, bem curioso!...

O Psicólogo atirou vivamente a cabeça para trás:

— Um erro?

Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão experiente!... Era dar à esplêndida amorosa da *Couraça*, uma duquesa do gosto mais puro, *um espartilho de cetim preto*! Esse espartilho, assim preto, de cetim, aparecia numa bela página de análise e paixão. Era a página em que ela se despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos bolsos, mais grave, chamava aqueles senhores a julgar. A duquesa era uma mulher estética, pré-rafaelita, que se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais. Era verosímil, numa mulher assim, um espartilho de cetim preto?

O Psicólogo ficou mudo, apanhado, ferido! Marizac era uma autoridade suprema sobre a roupa íntima das duquesas. À tarde, em quartos de rapazes, por impulsos idealistas e ânsias de alma dolorida, ficam de espartilho e saia branca!... De resto, o diretor do *Boulevard* condenou logo sem piedade, com uma experiência firme, aquele espartilho. Só era possível em alguma merceeira atrasada, que ainda procurasse efeitos de carne gorda sobre cetim negro. Para não me julgarem alheio às coisas dos adultérios ducais e do luxo, acudi, a meter os dedos pelo cabelo:

— Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo pai!

O pobre mestre da *Couraça* desabou. Era a sua glória de Doutor em Elegâncias Femininas destruída. E Paris ia supor que ele nunca tinha visto uma duquesa desapertar o espartilho no seu quarto de Psicólogo! Então passou o lenço sobre os lábios, que a angústia tinha secado, e confessou o erro. Atribuiu-o, arrependido, a uma improvisação tumultuosa:

— Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com efeito! é absurdo, um espartilho preto!... Mesmo por harmonia com o estado da alma da duquesa, devia ser lilás. Talvez cor de reseda muito desmaiada, com umas rendas soltas, antigas, de Malines... É prodigioso como me escapou! E tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem documentadas!...

Na sua amargura, acabou por suplicar a Marizac que espalhasse a confissão por toda a parte, no Club, nas salas. Tinha sido um engano de artista, que trabalha na febre, a vasculhar as almas, perdido no fundo negro das almas! Não tinha reparado no espartilho, tinha confundido os tons... E gritou, com os braços estendidos para o diretor do *Boulevard*:

— Estou pronto a fazer uma retificação, numa *interview*, meu caro mestre! Mande um dos seus redatores... Amanhã, às dez horas! Fazemos uma *interview*, fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um dos seus homens, meu caro mestre! É também ocasião para eu confessar, bem alto, os serviços que o *Boulevard* tem feito às ciências psicológicas e feministas!

Assim suplicava ele, encostado à estante, às lombadas dos Santos Padres. E eu fugi, ao ver Jacinto ao fundo da Biblioteca, a debater-se e a recusar entre dois homens.

Eram os dois homens de Madame de Trèves. Um era o marido, o conde de Trèves, descendente dos reis de Candia. O outro era o amante, o terrível banqueiro judeu, David Efraim. Atacavam o meu Príncipe com tanto empenho que nem me reconheceram. Ambos, num aperto de mão mole e vago, me trataram por «caro conde»! Num relance, enquanto procurava charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a *Companhia das Esmeraldas da Birmânia*. Era uma empresa medonha, onde brilhavam milhões. Para ela, os dois aliados da bolsa e do quarto pediam, desde o começo do ano, o nome de Jacinto. Pediam também a influência e o dinheiro dele. Ele tinha resistido, aborrecido dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas enterradas num vale da Ásia.

E agora o conde de Trèves falava ao meu pobre Príncipe. Era um homem magro e comprido, de cara chupada e barba rala, com uma testa redonda e amarela como um melão. Garantia que no Prospeto já preparado, que mostrava a grandeza do negócio, passava um brilho das *Mil e Uma Noites*. Mas aquela escavação de esmeraldas convidava sobretudo todo o espírito culto, pela sua ação civilizadora. Era uma corrente de ideias ocidentais a invadir e a educar a Birmânia. Ele tinha aceitado a direção por patriotismo...

— De resto, é um negócio de joias, de arte, de progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre amigos...

E do outro lado, o terrível Efraim passava a mão curta e gorda sobre a sua bela barba. Era mais frisada e negra do que a de um Rei Assírio. Garantia o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam: os Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacinto franzia o nariz, irritado:

— Mas, ao menos, os estudos estão feitos? Já se provou que há esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Efraim:

— Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja acionistas!

E eu admirava a grandeza daquela máxima quando apareceu um dos familiares do 202, Todelle (António de Todelle). Vinha sem fôlego, a desdobrar um lenço muito perfumado. Era um moço já calvo, de infinitos talentos. Dirigia Cotillons, imitava cantores de Café-Concerto, temperava saladas raras, conhecia todos os enredos de Paris.

— Já veio?... Já cá está o Grão-Duque?

Não, S. Alteza ainda não tinha chegado. E Madame de Todelle?

— Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.

— Oh!

— Quase nada... Caiu do velocípede!

Jacinto, logo interessado:

— Ah! Madame de Todelle já anda de velocípede?

— Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na Quaresma, é que se aplicou mais, no velocípede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.

E na sua própria coxa, com a unha, desenhou vivamente o esfolão. Efraim, brutal e sério, murmurou: «Diabo! é no melhor sítio!» Mas Todelle nem o ouviu. Corria já para o diretor do *Boulevard*, que avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro semelhante a um penso. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo.

Jacinto e eu entrámos então no bilhar, forrado de velhos couros de Córdova, onde se fumava. Ao canto de um divã, estava afundado nas almofadas o grande Dornan. Era o poeta neoplatónico e místico, o Mestre subtil de todos os ritmos. Tinha um dos pés debaixo da coxa gorda, como um Deus indiano, e dois botões do colete desabotoados. A papada caía-lhe sobre o largo decote do colarinho, e mamava majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele, também sentado, estava um velho que eu nunca tinha encontrado no 202. Era esbelto, de cabelos brancos em anéis passados por trás das orelhas. Tinha a cara coberta de pó de arroz e um bigodinho muito negro e arrebitado.

Tinha acabado certamente alguma história de bom e grosso sal. É que diante do divã, de pé, Joban, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva vermelha de prazer. E um moço muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos como asas e gania: «delicioso! divino!» Só o poeta idealista ficou impassível, na sua majestade obesa. Mas quando nos aproximámos, esse Mestre do ritmo perfeito soprou uma grande fumarada. Saudou-me com um pesado mover das pálpebras. Depois começou, numa voz de rico e sonoro metal:

— Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas nádegas...

Infelizmente para o meu prazer, Todelle invadiu o bilhar, a chamar por Jacinto com alarido. Eram as senhoras, que desejavam ouvir no Fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros, numa irritação surda:

— Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhum trabalha!

— Bem! — disse alegremente Todelle. — Canto eu a *Pauvre fille*... É mais de ceia! *Oh, la pauv', pauv', pauv'*...

Agarrou-me no braço e arrastou a minha timidez serrana para o salão cor-de-rosa pálido. Ali brilhavam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a Princesa de Carman e uma outra loura. Pareciam Deusas num círculo escolhido do Olimpo. A loura tinha grandes brilhantes nas grandes madeixas. E tinha ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus! Tão nus que o seu vestido branco, com bordados de ouro pálido, parecia uma camisa a escorregar. Impressionado, ainda segurei Todelle e rugi baixinho: «Quem é?» Mas o homem festivo já tinha corrido para Madame d'Oriol. Com ela riam, numa familiaridade superior e fácil, Marizac (o duque de Marizac) e outro moço. Este tinha uma barba cor de milho, mais leve do que uma penugem. Balouçava-se graciosamente sobre os pés, como uma espiga ao vento.

E eu, encalhado contra o piano, esfregava devagar as mãos, a amassar o meu embaraço. Então Madame Verghane levantou-se do sofá onde conversava com um velho (que tinha a Grã-Cruz de Santo André). Avançou, deslizou no tapete, pequena e gorda, na sua grande cauda de veludo verde-negro. A cintura era tão fina, entre as ancas fecundas e a vastidão do peito, todo nu e cor de pérola! Por isso eu receava que ela se partisse ao meio, no seu lento ondular. Os seus famosos bandós negros, de um negro furioso, tapavam-lhe inteiramente as orelhas. No grande aro de ouro que os rodeava brilhava uma estrela de brilhantes, como na testa dos anjos de Botticelli. Conhecia sem dúvida a minha autoridade no 202. Lançou-me ao passar, como um raio benéfico, um sorriso que lhe tornava mais líquidos os olhos líquidos. E murmurou:

— O Grão-Duque vem, com certeza?

— Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

— P'ra o peixe?...

Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo anunciava:

— S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!

Madame Verghane, com um curto suspiro de emoção, levantou o peito, como para lhe mostrar melhor a magnificência de marfim. E o homem do *Boulevard*, o velho da Grã-Cruz e Efraim quase me empurraram. Correram para a porta, na imensa ânsia de Pessoa Real.

Precedido por Jacinto, o Grão-Duque apareceu. Era um homem possante, de barba em bico já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, com um balanço lento sobre os pés pequeninos. Calçava sapatos rasos, quase escondidos sob as calças muito largas. Depois, pesado e risonho, veio apertar a mão às senhoras, que mergulhavam nos veludos e sedas, em vénias de Corte. E imediatamente, a bater com jovialidade carinhosa no ombro de Jacinto:

— E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?

Um murmúrio de Jacinto tranquilizou S. Alteza.

— Ainda bem, ainda bem! — disse ele, no seu vozeirão de comando. — É que eu não jantei, absolutamente não jantei! Está-se a jantar deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai ainda jantar ao Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?» Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo, galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da galinhola!

Os seus olhos azulados, de um azul sujo, brilhavam, alargados pela indignação:

— Paris está a perder todas as suas superioridades. Já se não janta, em Paris!

Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o diretor do *Boulevard* empurrava-se todo para S. Alteza. Atribuía a decadência da cozinha, em França, à República e ao gosto democrático e torpe pelo barato.

— No Paillard, todavia... — começou Efraim.

— No Paillard! — gritou logo o Grão-Duque. — Mas os Borgonhas são tão maus! os Borgonhas são tão maus!...

Deixou cair os braços e os ombros, desanimado. Depois, com o seu andar lento e balançado como o de um velho piloto, foi saudar Madame d'Oriol. Atirava um pouco para trás as lapelas da casaca. Ela brilhou toda, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prega das suas sedas cor de salmão. A clara e macia criatura, a bater o leque como uma asa alegre, começou a tagarelar. Mas logo S. Alteza reparou no aparelho do Teatrofone, pousado sobre uma mesa, entre flores. Chamou Jacinto:

— Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?

— Certamente, meu senhor.

Excelente! Muito chique! Ele tinha ficado com pena de não ouvir a Gilberte numa cançoneta nova, *Les Casquettes*. Onze e meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no último ato da *Revista Elétrica*... Colou às orelhas os dois «recetores» do Teatrofone e ficou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, num comando forte:

— É ela! Chut! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! Princesa de Carman, para aqui! Todos! É ela! Chut...

Jacinto tinha instalado, com generosidade, dois Teatrofones, cada um com doze fios. Por isso as senhoras e todos aqueles senhores se apressaram a encostar, submissos, um recetor ao ouvido. E ficaram imóveis, para saborear *Les Casquettes*. No salão cor-de-rosa pálido e na nave da Biblioteca espalhou-se um silêncio augusto. Só eu fiquei desligado do Teatrofone, com as mãos nos bolsos, sem fazer nada.

O relógio monumental marcava a hora de todas as Capitais e o movimento de todos os Planetas. Nele, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a imobilidade muda e pensativa daquelas costas e decotes, a Eletricidade brilhava com uma tristeza de sol gelado. E de cada orelha atenta, tapada pela mão, pendia um fio negro, como uma tripa. Dornan, caído sobre a mesa, tinha fechado as pálpebras, numa meditação de monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o «recetor» na ponta delicada dos dedos, levantava o nariz agudo e triste. Cumpria gravemente um dever de palácio. Madame d'Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio lhe murmurasse doçuras.

Para desentorpecer as pernas, arrisquei um passo tímido. Mas caiu logo sobre mim um *chut* severo do Grão-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Filólogo da *Couraça*, longe da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia o lábio, num esforço de penetração. A felicidade de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado, o peito de Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação cuidadosa, debruçava-se sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre uma sepultura.

Então olhei para aqueles seres de superior civilização. Bebiam, num silêncio devoto, as obscenidades que a Gilberte lhes gania por debaixo do solo de Paris. Chegavam através de fios mergulhados nos esgotos, presos aos canos das fezes. E pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e as chaminés negras dos Campos Elísios. Também lá andava a fugir, mais lustroso e mais doce, por cima dos pinhais. As rãs coaxavam ao longe no Pego da Dona. A ermidazinha de S. Joaquim branquejava no monte, nuazinha e cândida...

Uma das senhoras murmurou:

— Mas, não é a Gilberte!...

E um dos homens:

— Parece um cornetim...

— Agora são palmas...

— Não, é o Paulin!

O Grão-Duque lançou um *chut* feroz... No pátio da nossa casa ladravam os cães. De além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como é que me encontrei a descer por um caminho estreito, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num ar fino e macio, o cheiro das pinhas a estalar nas lareiras. Sentia o calor dos currais, através das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...

Acordei com um grito que não vinha nem dos campos nem das sombras. Era o Grão-Duque, que se tinha levantado e encolhia furiosamente os ombros:

— Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que maçada!... E é uma beleza, a cançoneta:

*Oh les casquettes, Oh les casque-e-e-tes!...*

Todos largaram os fios e proclamaram a Gilberte deliciosa. E o mordomo bendito, a abrir largamente as duas portas, anunciou:

— *Monseigneur est servi!*

A mesa mereceu os louvores ruidosos de S. Alteza, pelo esplendor das orquídeas. Fiquei entre o etéreo poeta Dornan e aquele moço de penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Dornan desdobrou o guardanapo e acomodou-o regaladamente sobre os joelhos. Depois soltou da corrente do relógio uma enorme luneta, para percorrer o *menu*, que aprovou. E inclinando para mim a sua cara de Apóstolo obeso:

— Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser autêntico... Hein?

Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o «Porto» tinha envelhecido nas adegas clássicas do avô Galião. Ele afastou, numa preparação metódica, os longos e densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os escudeiros serviram um *consommé* frio com trufas. O moço cor de milho espalhou pela mesa o seu olhar azul e doce. E murmurou com uma desconsolação risonha:

— Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!

Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas do meu Jacinto... Mas em frente Madame d'Oriol lançou um riso mais cantado do que um gorjeio. O Grão-Duque tinha notado, numa silva de orquídeas à volta do seu lugar, uma flor sombria e horrenda. Parecia um lacrau esverdeado, de asas lustrosas, gordo e inchado de veneno. E muito delicadamente ofereceu a flor monstruosa a Madame d'Oriol. Ela, com um riso em trinado, colocou-a solenemente no seio.

Colado àquela carne macia, de uma brancura de nata fina, o lacrau inchou, mais verde, com as asas a tremer. Todos os olhos se acendiam e se cravavam no lindo peito. A flor disforme, de cor venenosa, apimentava-lhe o sabor. Ela brilhava, triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea, os seus dedos alargaram o decote e mostraram mais belezas. Guiavam assim aquelas curiosidades em chamas que a despiam. A cara vincada de Jacinto pendia para o prato vazio. E o alto lírico do *Crepúsculo Místico*, a passar a mão pelas barbas, rosnou com desprezo:

— Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas!

Entretanto o moço de penugem loura voltou à sua estranha mágoa. Não termos um general com a sua espada e um bispo com o seu báculo!...

— Para quê, meu caro senhor?

Ele fez um gesto suave, em que todos os seus anéis faiscaram:

— Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de Civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!

Eu olhava para ele, assombrado. Por isso, a beber uns golos de Château-Yquem, declarou que hoje a única emoção verdadeiramente fina seria aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor podiam já dar um gosto intenso e real. As nossas almas estavam saciadas. Todo o prazer que se tinha tirado de *criar* estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de *destruir*!

Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. Mas eu não ouvia o gentil pedante, preso por outro cuidado. Reparava que em redor, de repente, todo o serviço tinha parado, como no conto do Palácio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! Jacinto, nervoso, esmagava uma flor entre os dedos. E todos os escudeiros tinham desaparecido!

Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma caçada, nas coutadas de Sarvan. Uma senhora, mulher de um banqueiro, tinha saltado bruscamente do cavalo, num descampado sem árvores. Ele e todos os caçadores param, e a galante senhora, lívida, com a saia arregaçada, corre para trás de uma pedra... Mas nunca soubemos o que fazia a banqueira nesse descampado, agachada atrás da pedra. É que justamente o mordomo apareceu, a brilhar de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto. Jacinto mordeu o lábio, ferido. O Grão-Duque calou-se. Todos se olhavam uns aos outros, numa ansiedade alegre. Então o meu Príncipe, com paciência, com heroísmo, a forçar palidamente o sorriso:

— Meus amigos, há uma desgraça...

Dornan saltou na cadeira:

— Fogo?

Não, não era fogo. Era o elevador dos pratos. Inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, tinha-se avariado. Não se movia, encalhado!

O Grão-Duque atirou o guardanapo. Toda a sua delicadeza estalava, como um esmalte mal posto:

— Essa é forte!... Um peixe que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque não o trouxeram à mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?

E correu furiosamente para a copa. Ia conduzido pelo mordomo, que tropeçava e dobrava os ombros perante esta cólera esmagadora de Príncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu não me contive e também me atirei para a copa, a contemplar o desastre. Entretanto Dornan, a bater na coxa, exigia que se ceasse sem peixe!

O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador. Tinha lá mergulhado uma vela, que lhe tornava mais vermelha a cara em brasa. Espreitei por cima do seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso branquejava. Estava deitado na travessa, ainda a fumegar, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque que, com os pulsos peludos, deu um puxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Em vão! O aparelho tinha endurecido numa inércia de bronze eterno.

Sedas roçaram à entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atrás Madame Verghane, com os olhos a faiscar. Estavam curiosas daquele caso em que o Príncipe tinha mostrado tanta paixão. Marizac, nosso íntimo, apareceu também, risonho, a propor uma descida ao poço com escadas. Depois foi o Psicólogo, que se aproximou e psicologou: atribuía intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Grão-Duque, muito vermelho, mostrava com dedo trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos baixavam a cara e murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação, quase caiu lá dentro. O periquito descendente de Coligny batia as asas, a ganir: «Que cheiro ele deita, que delícia!» Na copa cheia, os decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó de arroz meteu o pé num balde de gelo, com um berro feroz. E o Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz bicudo e triste.

De repente, Todelle teve uma ideia!

— É muito simples... É pescar o peixe!

O Grão-Duque deu uma palmada triunfal na coxa. Está claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela piada, tão rara e tão nova, toda a sua cólera desapareceu. Tornou-se de novo o Príncipe amável, de magnífica delicadeza. Quis que as senhoras se sentassem para assistir à pesca milagrosa! Ele mesmo seria o pescador! Para a divertida façanha só era preciso uma bengala, uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos do cabelo. Amontoados à volta dela, a sentir o seu perfume e o calor da sua pele, todos exaltámos a sua amável dedicação. E o Psicólogo proclamou que nunca se tinha pescado com um anzol tão divino!

Dois escudeiros atordoados voltaram com uma bengala e um cordel. Nessa altura já o Grão-Duque, radiante, tinha dobrado o gancho em anzol. Jacinto, com uma paciência lívida, levantava um candeeiro sobre a escuridão do poço fundo. Os senhores mais graves sorriam, amontoados à porta. Eram o Historiador, o diretor do *Boulevard*, o conde de Trèves, o homem de cabeça à Van Dyck. Mostravam um interesse reverente pela fantasia de S. Alteza. Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre luneta, a instalação da copa. Só Dornan não se tinha levantado da mesa. Estava com os punhos fechados sobre a toalha e o gordo pescoço encolhido. Tinha o tédio sombrio de uma fera a quem tiraram a carne.

Entretanto S. Alteza pescava com fervor! Mas em vão! O gancho, pouco agudo, sem presa, balançava na ponta da guita frouxa e não fisgava.

— Oh Jacinto, erga essa luz! — gritava ele, inchado e suado. — Mais!... Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! Não vai!

Tirou a cara do poço, a resfolegar, sufocado. Não era possível! Só carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, gritámos que se abandonasse o peixe!

O Príncipe, risonho, a sacudir as mãos, concordava que, por fim, «fora mais divertido pescá-lo do que comê-lo!» E o elegante bando voltou apressadamente para a mesa. Ia ao som de uma valsa de Strauss, que os Tziganes lançaram em arcadas de lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou ainda, a reter o meu pobre Jacinto. Queria assegurar-lhe quanto admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreensão da vida, que fina inteligência do conforto!

S. Alteza, aquecido pelo esforço, esvaziou poderosamente dois copos de Château-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os escudeiros serviram o *Barão de Pauillac*, cordeiro dos campos junto ao mar. Preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no Nobiliário de França.

Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu copo e o de Dornan, o Champanhe brilhou e jorrou sem parar, como uma fonte de inverno. Serviram-se hortulanas geladas, que se derretiam na boca. O divino poeta murmurou então, para meu prazer, o seu soneto sublime a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de penugem loura insistia na destruição do velho mundo, também concordei. A beber o Champanhe gelado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilização, todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das luzes, entretanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane. Ela ria como uma bacante. E eu nem tinha pena de Jacinto. Com a doçura de S. Jacinto sobre o cepo, ele esperava o fim do seu martírio e da sua festa.

Ela acabou. Ainda me lembro, às três horas da noite, do Grão-Duque na antecâmara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos. Não acertava com as mangas da pelissa, que Jacinto e eu o ajudámos a vestir. Convidava o meu amigo, com carinhosa efusão, a ir caçar às suas terras da Dalmácia...

— Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela caçada!

Acompanhámo-lo entre as filas dos escudeiros, pela vasta escada. O mordomo ia à frente, com um candelabro de três luzes. E entretanto S. Alteza repetia, pegajoso:

— Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O *Barão de Pauillac*, divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham cá fora! Não se constipem!

E do fundo do coupé, ao arrancar, ainda gritou:

— O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoço, frio, com molho verde!

Subi cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e de sono que me fechava os olhos. Murmurei para o meu Príncipe:

— Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o elevador...

E Jacinto, num som cavo, que era bocejo e rugido:

— Uma maçada! E tudo falha!

Três dias depois desta festa no 202, o meu Príncipe recebeu inesperadamente, de Portugal, uma notícia considerável. Sobre a sua quinta e solar de Tormes tinha passado uma tempestade devastadora de vento, raios e água. Tinha passado por toda a serra. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que os peritos dirão», um pedaço de monte tinha desabado. (Era assim que exclamava na sua carta angustiada o procurador Silvério.) Esse pedaço avançava em socalco sobre o vale da Carriça. Ao cair, arrastou a velha igreja, uma igrejinha rústica do século XVI. Nela estavam sepultados os avós de Jacinto desde os tempos do rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos estavam agora enterrados sob um monte informe de terra e pedra. O Silvério já tinha começado, com os moços da quinta, a desenterrar os «preciosos restos». Mas esperava ansiosamente as ordens de S. Ex.ª...

Jacinto empalideceu, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os Godos, de repente caía! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com estrondo, na tempestade e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que conservavam todas um nome, uma data, uma história, confundidas num lixo de ruína!

— Coisa estranha, coisa estranha!...

E toda a noite me interrogou sobre a serra e sobre Tormes, que eu conhecia desde pequeno. É que o velho solar, com a sua nobre alameda de faias seculares, ficava a duas léguas da nossa casa. Ficava no antigo caminho de Guiães à estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha. E muitas vezes, depois da minha amizade com Jacinto, eu tinha entrado no robusto casarão de granito. Tinha avaliado o grão espalhado pelas salas sonoras e provado o vinho novo nas adegas imensas...

— E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?

— Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra, onde há muitos anos vivia uma família de cegonhas... Terrível transtorno para as cegonhas!

— Coisa estranha! — murmurava ainda o meu Príncipe, cheio de maus presságios.

E telegrafou ao Silvério que limpasse o vale, recolhesse as ossadas e reconstruísse a Igreja. E que, para esta obra de piedade e reverência, gastasse o dinheiro sem contar, como a água de um rio largo.

### Glossário

- **maçada**: coisa aborrecida, que cansa.
- **Tziganes**: palavra francesa antiga para ciganos; músicos da Hungria. Hoje pode ofender.
- **baixelas**: conjuntos de pratos e travessas de luxo.
- **orquídeas**: flores raras e caras, de formas estranhas.
- **murmurei**: disse em voz muito baixa.
- **murmurou**: disse em voz muito baixa.
- **manicuro**: homem que trata das mãos e das unhas.
- **tropeçava**: batia com o pé em alguma coisa e quase caía.
- **pálido**: sem cor ou de cor fraca.
- **desenterrava**: tirava de onde estava enterrado ou esquecido há muito tempo.
- **antecâmara**: sala que fica antes da sala principal.
- **veneráveis**: muito antigos e dignos de respeito.
- **açafrão**: pó amarelo usado na cozinha; aqui, a cor forte desse pó.
- **lisonjazinha**: pequeno elogio feito para agradar.
- **cetim**: tecido macio e brilhante.
- **espartilho**: roupa interior de mulher, justa e rígida, que aperta a cintura.
- **velocípede**: bicicleta antiga.
- **decote**: abertura da roupa à volta do pescoço e do peito.
- **periquito**: ave pequena de cores vivas, parecida com um papagaio.
- **pálpebras**: a pele que se fecha sobre os olhos.
- **nádegas**: a parte de trás do corpo, sobre a qual nos sentamos.
- **penugem**: pelos ou penas muito finos e macios.
- **chut**: som que se faz para mandar alguém calar-se.
- **judeu**: pessoa do povo ou da religião judaica. O narrador fala com os preconceitos do seu tempo; o livro é de 1901.
- **acionistas**: pessoas que têm uma parte de uma empresa.
- **bandós**: cabelo dividido ao meio e colado aos lados da cara.
- **pelissa**: casaco com pele.
- **encalhado**: parado, sem poder andar.
- **socalco**: terreno plano cortado na encosta, como um degrau.
- **jazigos**: construções onde se guardam os mortos de uma família.
- **ossadas**: conjuntos de ossos de mortos.

## V

Entretanto, Jacinto estava desesperado com tantos desastres humilhantes. As torneiras soltavam-se, os elevadores ficavam presos, o Vapor encolhia-se, a Eletricidade desaparecia. Por isso, decidiu corajosamente vencer as últimas resistências da Matéria e da Força. Para isso, ia acumular Mecanismos novos e mais poderosos. Nessas semanas de abril, enquanto as rosas abriam, a nossa casa agitada tremia sem parar. À volta, as casas tranquilas dos Campos Elísios descansavam preguiçosamente ao sol. A nossa estava envolvida numa poeira de cal e de obras. Tremia com o bater bruto na pedra e o martelar agudo no ferro. Nos corredores silenciosos, eu gostava de fumar um cigarro pensativo antes do almoço. Agora, desde a madrugada, passavam lá grupos de operários de blusas brancas. Iam a assobiar o *Petit-Bleu*. E eu ficava intimidado, quando atravessava os corredores em camisa e chinelos, para o banho ou para outros retiros. Com perícia, uma pessoa passava por um andaime que tapava as portas. Logo a seguir, batia numa pilha de tábuas, num cesto de ferramentas ou num enorme balde de argamassa. E os pedaços de chão levantado mostravam tristemente todo o interior do 202, como num cadáver aberto. Viam-se os ossos, os nervos sensíveis de arame, os intestinos negros de ferro fundido.

Cada dia parava diante do portão uma carroça lenta. Os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixas de madeira e fardos de pano grosso. Tudo era aberto numa sala com chão de asfalto, ao fundo do jardim, atrás da fila de lilases. E eu descia, chamado pelo meu Príncipe, para admirar uma Máquina nova. Essa Máquina ia tornar-nos a vida mais fácil. Ia também estabelecer de um modo mais seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão, experimentámos três geleiras, cheios de esperança. Serviam para refrescar as águas minerais, a Soda-Water e os Médocs ligeiros. As três foram perdendo o prestígio, uma depois da outra, e amontoaram-se na copa. Com os morangos novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés com delicadeza. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para mexer freneticamente as saladas. Na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre saltou para os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos atos mais simples, Jacinto recorria à Dinâmica, para aliviar ou apressar o esforço. E agora era uma máquina que lhe abotoava as ceroulas.

Ao mesmo tempo, Jacinto não parava de acumular Erudição, ao lado da Mecânica acumulada. Fazia-o por obediência à sua Ideia, ou então governado pelo despotismo do hábito. Oh, a invasão dos livros no 202! Vinham sozinhos, aos pares, em pacotes, dentro de caixas. Uns eram magros, outros gordos e cheios de autoridade. Uns traziam uma plebeia capa amarela, outros vestiam-se de marroquim e ouro. Sem parar, como uma torrente, entravam por todas as portas largas na Biblioteca. Lá, estendiam-se no tapete, instalavam-se com conforto nas cadeiras macias, sentavam-se como reis em cima das mesas robustas. E sobretudo subiam contra as janelas, em pilhas ansiosas. Parecia que, sufocados pela sua própria multidão, procuravam desesperadamente espaço e ar! Naquela nave erudita, só alguns vidros mais altos ficavam descobertos, sem um muro de livros. Por isso, lá dentro havia sempre um pensativo crepúsculo de outono, enquanto lá fora brilhava junho. A Biblioteca tinha transbordado por todo o 202! Não se abria um armário sem que de dentro caísse, sem apoio, uma pilha de livros! Não se puxava uma cortina sem que de trás surgisse, muito direita, uma pilha de livros! E foi imensa a minha indignação numa certa manhã. Eu corria com urgência, de mãos nos suspensórios. E encontrei a porta do Water-Closet tapada por uma tremenda coleção de Estudos Sociais!

Lembro-me com mais amargura ainda da noite histórica no meu quarto. Eu estava moído e mole de um passeio a Versalhes, com as pálpebras cheias de pó e meio adormecidas. Tive de tirar da minha cama, a praguejar, um pavoroso Dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Enquanto arranjava os travesseiros a murro, amaldiçoei a Imprensa e a Eloquência humana... Já me tinha estendido e estava a adormecer, quando bati contra a lombada de um tomo. Quase parti a preciosa rótula do joelho. O tomo tinha-se escondido, como um malandro, entre a parede e os colchões. Com fúria e um berro, agarrei o tomo ofensivo e atirei-o para longe. Ele entornou o jarro e inundou um rico tapete do Daguestão. E nem sei se adormeci depois, porque os meus pés continuaram a tropeçar em livros. Eu não sentia os passos nem ouvia nenhum ruído. Era como se um vento brando me levasse. Tropecei em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim, branca de luar. Depois tropecei neles na Avenida dos Campos Elísios, cheia de gente e de barulho, como numa festa cívica. E, oh prodígio! Todas as casas dos lados eram construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros agitavam-se folhas de livros. Os homens e as finas damas estavam vestidos de papel impresso, com títulos nas costas. Em vez de rosto, mostravam um livro aberto, e a brisa lenta virava-lhe docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, vi uma montanha íngreme de livros. Tentei subi-la, ofegante. Ora enterrava a perna em camadas moles de versos, ora batia contra a lombada de tomos de Exegese e Crítica. Era dura como pedra. Subi a tão grandes alturas, para além da terra, para além das nuvens, que me encontrei entre os astros, maravilhado. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, cobertos por grossas crostas de livros. Aqui e ali, por alguma fenda entre dois volumes mal juntos, saía um raiozinho de luz sufocada e aflita. E assim subi ao Paraíso. Era com certeza o Paraíso, porque, com os meus olhos de barro mortal, vi o Ancião da Eternidade. Era aquele que não tem Manhã nem Tarde. Dele saía uma claridade mais clara do que todas as claridades. Estava entre fundas estantes de ouro, cheias de códices, sentado em fólios antiquíssimos. Os flocos das suas barbas infinitas espalhavam-se sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos. E o Altíssimo lia. A testa super-divina que tinha concebido o Mundo pousava sobre a mão super-forte que o tinha criado. E o Criador lia e sorria. Arrepiado de sagrado horror, ousei espreitar por cima do seu ombro brilhante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.

Uma porta brilhou e rangeu, como se alguém entrasse no Paraíso. Pensei que tinha chegado da Terra um Santo novo. Era Jacinto, com o charuto aceso e um molho de cravos na lapela. Trazia debaixo do braço três livros amarelos que a Princesa de Carman lhe tinha emprestado para ler!

Numa dessas semanas ativas, porém, a minha atenção soltou-se de repente deste interessante Jacinto. Eu era hóspede do 202 e mantinha lá a minha mala e a minha roupa. Protegido pela bandeira do meu Príncipe, ainda comia às vezes do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha alma, a minha alma embrutecida, e o meu corpo, o meu corpo embrutecido, viviam noutro lugar. Moravam então na rua do Helder, n.º 16, quarto andar, porta à esquerda.

Numa tarde, eu descia o Boulevard da Madalena, numa alegre paz de ideias e sensações. Diante da Estação dos Ónibus, vi uma criatura que rondava no asfalto, com um passo lento de felino. Era seca, muito morena, quase queimada, com dois olhos fundos, calados e tristes. Tinha uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob um chapéu velho de plumas negras. Parei, como se me tivessem dado um puxão nas entranhas. A criatura passou, com o seu andar magro de gata negra, num beiral de telhado, ao luar de janeiro. Dois poços fundos não brilham mais negros e calados do que brilhavam os seus olhos calados e negros. Não me lembro (Deus seja louvado!) de como toquei no seu vestido de seda, lustroso e gorduroso nas pregas. Nem de como lhe rosnei um pedido por entre os dentes que rangiam. Nem de como subimos os dois, devagar e mais silenciosos do que condenados. Subimos para um gabinete do Café Durand, gasto e morno. Diante do espelho, a criatura tirou o chapéu e a capa salpicada de vidrilhos. Fez isso com a lentidão de um rito triste. A seda gasta do corpete rasgava-se nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, duros e espessos como a juba de uma fera. Tinham dois tons de amarelo, uns mais dourados, outros mais queimados. Pareciam a côdea de uma torta a sair quente do forno.

Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:

— E o nomezinho, hein?

Ela respondeu séria, quase grave:

— Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta à esquerda.

E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, atravessado por uma emoção grave. Parecia que, naquela alcova de Café, nos envolvia a majestade de um Sacramento. A porta foi empurrada de leve, e o criado mostrou a cara gorda e lustrosa. Pedi uma lagosta, pato com pimentões e Borgonha. Só quando acabámos o pato é que me levantei, a amarrotar o guardanapo com as mãos convulsas. A tremer, todo a tremer, beijei-lhe a boca, num beijo profundo e terrível. Nesse beijo deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipoia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente do portão do 202, murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo: «Moro ali, todo o ano!...» Ela debruçou-se para olhar o palacete, e tocou na minha barba com a mata fulva do seu pelo crespo. Então berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse para a rua do Helder, n.º 16, quarto andar, porta à esquerda!

Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor. O Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial. Amei-a como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu apagava deliciosamente a minha alegria na cinza da sua tristeza. E afundava, com um gosto indizível, a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas, perdi a consciência da minha pessoa de Zé Fernandes, Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Umas vezes, parecia-me que era um pedaço de cera a derreter-se, com horrível delícia, num forno vermelho e rugidor. Outras vezes, parecia-me que era uma fogueira faminta, onde ardia, estalava e se consumia um molho de ramos secos. Desses dias de sublime imundície só guardo algumas impressões. Uma alcova forrada de cretones sujos. Uma bata de lã cor de lilás com galões pretos. Garrafas vagas de cerveja no mármore de um lavatório. E um corpo escuro que rangia e tinha pelos no peito. Resta-me também outra sensação. Sem parar, e com um prazer extasiado, eu despojava-me de tudo. Atirava tudo para um regaço, que se cavava entre uma barriga magra e uns joelhos agudos. Lá atirei o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de punho de safira. E lá atirei as cento e noventa e sete libras em ouro que tinha trazido de Guiães, num cinto de camurça. Do sólido, decente, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça. Errava através de um sonho, com as pernas moles e a baba a escorrer.

Depois, numa tarde, subi com a gula do costume a escada da rua do Helder. Encontrei a porta fechada. E tinham arrancado da ombreira aquele cartão de *Madame Colombe*, que era a sua tabuleta. Eu lia-o sempre com tanta devoção... Tudo no meu ser tremeu, como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do Mundo, que se tinha fechado à minha frente! Do outro lado estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu tinha ficado sozinho, naquele patamar do Não-Ser, fora da porta fechada, único ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o estrondo e a desordem de uma pedra. Cheguei ao cubículo da porteira e do seu homem. Eles jogavam às cartas, numa paz feliz, como se tão pavoroso abalo não tivesse desfeito o Universo!

— Madame Colombe?

A comadre barbuda recolheu lentamente as cartas da mesa:

— Já não mora cá... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!

Para outra terra! Com outra porca!... Estava vazio, negramente vazio de qualquer pensamento, sentimento e vontade. Flutuei aos trambolhões, como um tonel vazio, na corrente apressada do Boulevard. Por fim, encalhei num banco da Praça da Madalena. Ali tapei os olhos com as mãos. Não sentia a febre nas mãos, nem o choro nos olhos! Já era tarde, muito tarde, e as cortinas de ferro das lojas fechavam-se com estrondo. Então, no meio destas ruínas confusas do meu ser, surgiu uma ideia. Era a eterna sobrevivente de todas as ruínas: a ideia de jantar. Entrei no Durand, com os passos entorpecidos de um ressuscitado. E, numa recordação que me queimava a alma, pedi a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas alarguei o colarinho, encharcado pelo calor daquela tarde de julho, no meio da poeira da Madalena. E pensei com desconforto: «Santíssimo Nome de Deus! Que imensa sede me fez esta desgraça!...» Devagarinho, fiz sinal ao moço: «Antes do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gelo, e um copo grande!...» Creio que aquele Champagne foi engarrafado no Céu, onde corre sempre a fresca fonte da Consolação. E na garrafa abençoada que me calhou, antes da rolha, entrou um largo jorro dessa fonte maravilhosa. Jesus! Que prazer transcendente, o daquele nobre copo, embaciado, gelado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois, Hortelã-Pimenta com gelo picado! E depois, um desejo ofegante de espancar a porca que tinha fugido com outra porca! Queria bater-lhe com o meu rijo pau de marmeleiro de Guiães! Dentro da tipoia fechada que me levou a galope para o 202, não sufoquei este santo impulso. Com os meus punhos serranos, dei murros retumbantes nas almofadas. Nelas *via*, *via* furiosamente a imensa mata de pelo amarelo. Nessa mata, a minha alma tinha-se perdido numa tarde, tinha-se debatido três meses e tinha-se sujado para sempre! Quando o fiacre parou no 202, eu ainda batia na besta ingrata com tanto desespero que o cocheiro berrou. Aos berros dele, dois moços acudiram e seguraram-me. Receberam nos ombros e nas nucas servis os restos cansados da minha cólera.

Em cima, repeli os cuidados do Grilo. Ele tentava impor ao *siô* Zé Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade de um chá de camomila! Estendi-me na cama de D. Galião, com as botas sobre o travesseiro e a cartola sobre os olhos. E ri, com um riso doloroso, deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma angústia horrível. Era Ela! Era Madame Colombe, que tinha saído disparada da chama da vela! Tinha saltado para a minha cama, desabotoado o meu colete e arrombado as minhas costelas. Toda ela, com as saias sujas, tinha mergulhado dentro do meu peito. Tinha abocanhado o meu coração, e chupava-lhe o sangue, em goles lentos, como na rua do Helder! Então, certo da Morte, a ganir pela tia Vicência, inclinei-me para fora da cama, para mergulhar na minha sepultura. Através da névoa final, eu distinguia-a no tapete: redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. A minha sepultura parecia-se, de modo tão irreverente, com o meu bacio. E sobre ela vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num esforço ultra-humano, com um rugido, senti que se esvaziavam não só as entranhas, mas toda a alma. E vomitei Madame Colombe! Caí outra vez sobre a cama de D. Galião... Puxei o chapéu para os olhos, para não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que nascia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente embalada pelo Anjo da Guarda num berço de verga.

De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202. Havia desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim de França. E lavei a alma com uma rica carta da tia Vicência, em letra grande. Contava da nossa casa e da linda promessa das vinhas. Contava da compota de ginja, que nunca lhe tinha saído tão fina. Contava da alegre fogueira do pátio na noite de S. João. E contava da menininha muito gorda e cabeluda que tinha vindo do céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, fui para a janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca. Tomei chá de Naïpò e respirei as roseiras do jardim, renovadas pela chuva da madrugada. E pensei, num espanto divertido, que durante sete semanas me tinha sujado na rua do Helder. Tinha sido com um estafermo muito magro e muito queimado! Concluí que tinha sofrido de uma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação. Tinha-a apanhado num charco de Paris. São os charcos que se formam pela Cidade. São feitos das águas mortas, dos limos, dos lixos, dos cogumelos e dos vermes de uma Civilização que apodrece.

Então, curado, todo o meu espírito se virou logo, como uma agulha para o Norte, para o meu complicado Príncipe. Nas últimas semanas da minha infeção sentimental, tinha-o visto de passagem, sempre caído em cima dos sofás. Ou então vagueava pela Biblioteca, entre os seus trinta mil volumes, com longos bocejos de inércia e de vazio. Eu, na minha pressa indigna, só lhe atirava um distraído «que é isso?». Ele, no seu lento desânimo, só murmurava um seco «é calor!».

E, nessa manhã da minha libertação, entrei no seu quarto antes do almoço. Encontrei-o enterrado no sofá, com o *Figaro* aberto sobre a barriga e a Agenda caída no tapete. Tinha toda a cara envolvida em sombra. E os pés estavam abandonados, numa tristeza soberana, ao pedicuro que lhe polia as unhas. O meu olhar estava de novo aceso e purificado. A brancura das minhas flanelas reproduzia a calma das minhas sensações. Todo o meu ser se movia visivelmente numa harmonia segura. Com certeza, tudo isto impressionou o meu Príncipe, que a melancolia nunca tornava menos agudo. Levantou molemente um braço mole:

— Então esse capricho?

Derramei sobre ele todo o brilho de um riso vitorioso:

— Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado». Jaz! Ou antes, rola! Com efeito, deve andar agora a rolar por dentro do cano do esgoto!

Jacinto bocejou e murmurou:

— Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...

E no meu nome, no meu digno nome, embrulhado num bocejo com ironia distante, coube todo o interesse daquele Príncipe. Foi só isto que ele mostrou pela suja tormenta em que o meu coração se tinha debatido! Mas esse egoísmo perfeito não me ofendeu... Eu percebia claramente que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio. Era tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade! Por isso, as glórias ou os tormentos de um camarada não o comoviam. Pareciam-lhe muito distantes, impossíveis de tocar, separados da sua sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da Grã-Ventura, caído no sofá da inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Na luta contra a Força e a Matéria, tinha renovado bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202. E em que fastio lodoso tinha caído depois! Já não escondeu esse fastio ao seu velho Zé Fernandes, quando recomeçou a nossa comunhão de vida e de alma. Eu tinha-me arrancado a ela tão vergonhosamente, numa tarde, diante da Estação dos Ónibus, no charco da Madalena.

Não eram confissões claras, certamente. O elegante e reservado Jacinto não torcia os braços a gemer: «Oh vida maldita!» Eram apenas expressões de quem está farto. Era um gesto de repelir com rancor as coisas que o importunavam. Às vezes, era uma imobilidade decidida, de protesto, no fundo de um divã. Não saía de lá, como se desejasse um repouso eterno. Depois, eram os bocejos, os bocejos ocos com que sublinhava cada passo, dado por fraqueza ou por um dever inevitável. E sobretudo aquele murmúrio que se tinha tornado constante e natural: «Para quê?» «Não vale a pena!» «Que maçada!...»

Uma noite, no meu quarto, enquanto descalçava as botas, consultei o Grilo:

— Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?

O venerando preto declarou com uma certeza imensa:

— S. Ex.ª sofre de fartura.

Era fartura! O meu Príncipe sentia, sufocado, a fartura de Paris. Antigamente ele gritava, iluminado, que a Cidade, a simbólica Cidade, tinha uma vida culta e forte. Fora dela, o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a «delícia de viver». Mas agora, nessa Cidade, não encontrava nenhuma forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse. Nada lhe valia o esforço de uma corrida curta numa tipoia fácil. Pobre Jacinto! Pensemos num Solitário que, na sua Solidão, só tem um jornal velho para alimentar o espírito. Leu-o setenta vezes, desde a Crónica até aos Anúncios. A tinta está apagada e as dobras roídas. Pois esse jornal não enfastiaria mais o Solitário do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Nesse verão, às vezes eu arrastava-o com astúcia a um Café-Concerto ou ao alegre Pavilhão de Armenonville. O meu bom Jacinto ficava pesadamente colado à cadeira, com um maravilhoso ramo de orquídeas na casaca. As mãos finas caíam sobre o castão da bengala. Mantinha toda a noite uma gravidade tão cansada que eu, com pena, me levantava e o libertava. E gozava a sua pressa em sair, a sua fuga de ave solta... Raramente descia a um dos seus Clubs, ao fundo dos Campos Elísios. E fazia-o com o arranque violento de quem salta um fosso. Não tinha voltado a ocupar-se das suas Sociedades e Companhias. Não se ocupava dos *Telefones de Constantinopla*, nem das *Religiões Esotéricas*, nem do *Bazar Espiritualista*. As cartas deles, fechadas, amontoavam-se sobre a mesa de ébano. O Grilo varria-as tristemente, como o lixo de uma vida acabada. Também se soltava lentamente de todas as suas relações. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam livres e brancas. Ainda cedia, às vezes, a um passeio de Mail-coach. Ou cedia a um convite para um Castelo amigo nos arredores de Paris. Mas era com tanta lentidão, com um esforço tão cansado ao vestir o paletó leve! Lembrava-me sempre um homem que, depois de um jantar gordo de província, está a rebentar. E esse homem, por delicadeza ou por obediência a um dogma, ainda devia comer uma lampreia de ovos!

Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem fechadas e bem defendidas contra toda a intrusão do mundo! Isso seria uma doçura para o meu Príncipe. Mas havia o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização. Dava-lhe uma sensação dolorosa de sufoco e de entulho. Julho queimava. Os brocados, as alcatifas, tantos móveis redondos e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros oprimiam-no pesadamente. Por isso, abria sem parar as janelas, para alargar o espaço, a claridade, a frescura. Mas então era a poeira, suja e acre, em bafos mornos, que o enfurecia:

— Oh, este pó da Cidade!

— Mas, oh Jacinto, porque não vamos para Fontainebleau, ou para Montmorency, ou...

— P'ra o campo? O quê! P'ra o campo?!

E na sua cara enrugada, através deste berro, brilhava sempre tanta indignação que eu curvava os ombros, humilde. Estava arrependido de ter insultado o Príncipe que tanto amava. Príncipe infeliz! Com o seu cigarro dourado de Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e murchamente. Parecia alguém que vagueia em terra alheia, sem afetos e sem ocupações. Esses passos sem afeto e sem ocupação traziam-no, monotonamente, ao seu centro: ao gabinete verde, à Biblioteca de ébano. Era ali que tinha acumulado Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava à sua volta um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe chamavam as mãos, enterradas nos bolsos das calças de seda, numa inércia de derrota. Anulado, bocejava com uma moleza desanimada. E não havia nada mais instrutivo e doloroso do que este homem supremo do século XIX. Estava no meio de todos os aparelhos que reforçavam os seus órgãos. Estava no meio de todos os fios que punham as Forças Universais ao seu serviço. Estava no meio dos seus trinta mil volumes, cheios do saber dos séculos. E ali parava, com as mãos derrotadas no fundo dos bolsos. Na cara e na moleza indecisa de um bocejo, mostrava o embaraço de viver!

### Glossário

- **assobiar**: fazer um som agudo com a boca, soprando o ar.
- **chinelos**: sapatos leves e abertos, para usar em casa.
- **andaime**: estrutura usada pelos operários nas obras.
- **argamassa**: mistura de cal ou cimento, areia e água, usada nas obras.
- **geleiras**: caixas com gelo, usadas para manter frias as bebidas e a comida.
- **ceroulas**: roupa interior de homem, com pernas compridas.
- **pavoroso**: que causa grande medo; terrível.
- **lombada**: parte de trás de um livro, onde as folhas se unem.
- **berro**: grito muito forte.
- **tropecei**: bati com o pé numa coisa e quase caí.
- **ofegante**: a respirar com dificuldade.
- **alcova**: quarto pequeno e íntimo.
- **tipoia**: pequena carruagem puxada por cavalos, que se alugava na rua.
- **cocheiro**: homem que conduz uma carruagem.
- **regaço**: parte do corpo entre a cintura e os joelhos, em quem está sentado.
- **névoa**: nevoeiro leve.
- **bacio**: vaso que se usava à noite, no quarto, em vez da casa de banho.
- **sezão**: febre que volta em períodos certos.
- **charco**: água parada e suja no chão.
- **bocejos**: atos de abrir muito a boca, com sono ou tédio.
- **recheio**: aquilo que enche uma coisa por dentro.
- **fartura**: abundância; aqui, também o cansaço de ter tudo.
- **ébano**: madeira muito escura e dura.
- **preto**: pessoa de pele negra. "Preto" é hoje muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **lampreia de ovos**: doce português muito rico, feito de ovos e açúcar.
- **jazer**: estar deitado, sem se mexer; diz-se também dos mortos.

## VI

Todas as tardes, às quatro horas, Jacinto visitava Madame d'Oriol, com uma regularidade devota. Cultivava assim uma dessas intimidades que, entre tudo o que cansa, nunca cansam. É que essa flor de Parisianismo tinha ficado em Paris, mesmo depois do Grand-Prix. Lá perdia a cor, no calor e no lixo da Cidade. Numa dessas tardes, porém, o Telefone tocou ansiosamente. Avisou Jacinto de que a sua doce amiga ia jantar a Enghien com os Trèves. (Esses senhores gozavam o verão à beira do lago. A casa, toda branca e coberta de rosinhas brancas, pertencia a Efraim.)

Era um domingo silencioso, enevoado e macio, que convidava aos prazeres da melancolia. E eu, no interesse da minha alma, sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do *Sacré-Coeur*. Estava em construção nos altos de Montmartre.

— É uma seca, Zé Fernandes...

— Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...

— Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha e Sande!

Por fim, depois de S. Vicente de Paula, entrámos em bairros estreitos e muito inclinados, quietos como a província. Havia muros velhos a fechar quintalinhos rústicos. Havia mulheres mal penteadas a costurar à soleira das portas, e carroças sem cavalo a descansar diante das tascas. Havia galinhas soltas a picar o lixo e fraldas molhadas a secar em canas. Logo que entrámos ali, perante aquela liberdade e simplicidade das coisas, o meu camarada aborrecido sorriu.

A vitória parou em frente da larga rua de escadarias. Essa rua sobe, cortando ruazinhas campestres, até à esplanada onde se ergue a Basílica imensa, envolvida em andaimes. Em cada patamar havia barracas de arraial devoto, forradas de pano vermelho. Transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Corações de Jesus bordados a seda e molhos claros de Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria. Dois padres desciam, sorridentes, a tomar uma pitada de rapé. Um sino lento tocava na doçura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:

— É curioso!

Mas, lá em cima, a Basílica não nos interessou. Estava abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem Jacíntico, caminhou com gula para a borda do terraço, para contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta. Era como uma larga e grossa camada de cal e telha. Estava imóvel e muda. Só algum rolo de fumo, mais fino do que o de uma ruína mal apagada, subia dela. Era todo o sinal visível da sua vida magnífica.

Então trocei, a sorrir, do meu Príncipe. Ali estava pois a Cidade, augusta criação da Humanidade! Ei-la ali, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta da Terra, uma camada de cal, apenas mais cinzenta! No entanto, ainda momentos antes, tínhamo-la deixado prodigiosamente viva. Estava cheia de um povo forte, com todos os seus órgãos poderosos a funcionar. Estava repleta de riqueza, brilhante de sabedoria. Estava no triunfo pleno do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e o belo Jacinto subíamos a uma colina, espreitávamos, escutávamos. E de toda a ruidosa e radiante Civilização da Cidade não percebíamos nem um rumor nem um brilho! E o 202, o soberbo 202? Onde estão os seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus trinta mil livros? Desaparecido, dissolvido na confusão de telha e cinza! A obra humana desaparece assim, mal é vista de cem metros de altura. E é para isto que o trabalhador humano se esforça com tanta angústia? Hein, Jacinto?... Onde estão os teus Armazéns servidos por três mil caixeiros? E os Bancos onde tine o ouro universal? E as Bibliotecas cheias do saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa parda que suja a Terra. Basta um Zé Fernandes subir a uma colina afastada, a fumar o seu cigarro. Aos seus olhos piscos, a sublime construção dos Tempos é apenas um monte de lixo silencioso. Tem a espessura e a cor do pó final. O que será então aos olhos de Deus!

Lancei estes clamores com uma malícia amável, para picar o meu Príncipe. E ele murmurou, pensativo:

— Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!

Com uma vitória tão fácil, redobrei de eloquência. Certamente, meu Príncipe, uma Ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza. E só tem nela a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade ele perdeu a força e a beleza harmoniosa do corpo. Tornou-se esse ser seco e esquelético, ou obeso e afogado em banha. Tem ossos moles como trapos e nervos trémulos como arames. Tem óculos, tem cabeleiras postiças, tem dentaduras de chumbo. Não tem sangue, nem carne, nem vigor. É torto, é corcunda. É esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto, rijo e nobre Adão! Na Cidade acabou a sua liberdade moral. Cada manhã ela impõe-lhe uma necessidade, e cada necessidade atira-o para uma dependência. Se é pobre e subalterno, a sua vida é um constante pedir, adular, vergar, rastejar, aguentar. Se é rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o prende. Prende-o em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos. São serviços mais disciplinares do que os de uma prisão ou de um quartel... E a sua tranquilidade, onde está, meu Jacinto? É um bem tão alto que Deus recompensa com ele os Santos! Desapareceu para sempre, nessa batalha desesperada. É a batalha pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo prazer, ou pela fugidia moeda de ouro! E como pode haver alegria na Cidade para esses milhões de seres? Agitam-se na ofegante ocupação de *desejar*. Nunca conseguem fartar o desejo e, por isso, sofrem sem parar de desilusão, desesperança ou derrota. Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na Cidade! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o vento áspero da vida social não deixa arder com serenidade e limpidez. Aqui abana-as e fá-las tremer. Ali apaga-as brutalmente. Mais adiante obriga-as a arder com violência antinatural. As amizades nunca passam de alianças. O interesse ata-as apressadamente com um cordel apressado, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do ataque. E elas estalam ao menor choque de rivalidade ou de orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende a peso, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do Himeneu! Em vez do ondulante facho da Paixão, anda por aí com a apertada carteira do Dote! Espreita a multidão que foge dos largos caminhos de sol, onde os Faunos amam as Ninfas na boa lei natural. Ela procura tristemente os cantos sombrios de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais estraga no homem é a Inteligência. Porque ou a fecha dentro da banalidade, ou a empurra para a extravagância. Há uma densa camada de Ideias e Fórmulas suspensa no ar: é a atmosfera mental das Cidades. O homem que a respira só pensa todos os pensamentos já pensados e só exprime todas as expressões já exprimidas. Ou então quer destacar-se na Rotina parda e chata, e subir ao frágil andaime da pequena glória. Para isso, inventa, com um esforço gemente, a inchar o crânio, uma novidade disforme. É uma novidade que espante e detenha a multidão, como um monstro numa Feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, que seguem o mesmo trilho e balem o mesmo balido. Têm o focinho caído para a poeira, onde pisam, em fila, as pegadas já pisadas. E alguns são macacos, que saltam no alto de mastros vistosos, com caretas e cabriolas. Assim, meu Jacinto, a Cidade é uma criação muito antinatural! O chão é de pau, feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu. A gente vive empilhada nos prédios como o pano nas lojas. A luz vem pelos canos, e as mentiras murmuram-se através de arames. Aqui, o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento. E traz em si um espírito passivo como um escravo ou atrevido como um palhaço... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!

Estas acusações são velhas e veneráveis. Todos os Moralistas bucólicos as repetem, desde Hesíodo, através dos séculos. Mas o meu Príncipe baixou a nuca dócil. Era como se elas nascessem, inesperadas e frescas, de uma Revelação superior, naqueles cimos de Montmartre:

— Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!

Insisti logo, com abundância, a puxar os punhos, a saborear o meu fácil filosofar. E se ao menos essa ilusão da Cidade fizesse felizes todos os seres que a mantêm... Mas não! Só uma casta estreita e brilhante goza na Cidade os prazeres especiais que ela cria. O resto, a escura e imensa plebe, só sofre nela, com sofrimentos especiais que só nela existem! Estamos neste terraço, junto a esta rica Basílica, consagrada ao Coração que amou o Pobre e sangrou por ele. Daqui vemos bem o casario sombrio. Aí a plebe curva-se sob essa antiga vergonha. Nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua própria força bruta a poderão nunca libertar dela! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como estrume vil que fecunda a Cidade. Os séculos rolam. E sempre os mesmos farrapos lhe cobrem o corpo. E sempre, debaixo deles, durante o longo dia, os homens trabalharão e as mulheres chorarão. E é com este trabalho e este choro dos pobres, meu Príncipe, que se constrói a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de casas onde eles não se abrigam. Ei-la cheia de tecidos com que eles não se agasalham. Ei-la repleta de alimentos com que eles não se saciam! Para eles só fica a neve, quando a neve cai. Ela entorpece e enterra as criancinhas encolhidas nos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cai, muda e branca, na escuridão. As criancinhas gelam nos seus trapos. E a polícia, à volta, ronda com atenção, para que ninguém perturbe o sono morno daqueles que amam a neve. Eles amam-na para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha, com pelissas de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização exige sem fim regalos e pompas. Nesta amarga desarmonia social, só os obterá se o Capital der ao Trabalho, por cada esforço ofegante, uma migalha avarenta. Por isso, é irremediável: a plebe tem de servir sempre, a plebe tem de penar sempre! A sua miséria esgotada é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a justa ração de caldo... Então não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de *foie-gras* e trufas. São eles o orgulho da Civilização. Há andrajos em trapeiras — para que as belas Madames d'Oriol subam a escadaria da Ópera. Elas sobem-na em doce ondulação, a brilhar de sedas e rendas. Há mãos geladas que se estendem e lábios magros que agradecem a dádiva generosa de um *sou*. É para que os Efraim tenham dez milhões no Banco de França. É para que se aqueçam à chama rica da lenha aromática. É para que cubram de colares de safiras as suas concubinas, netas dos Duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos. É para que os Jacintos, em janeiro, comam devagar, a bocejar, em pratos de Saxe. São morangos gelados em Champagne, avivados com um fio de éter!

— E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu!

Ele murmurou, desolado:

— É horrível, comemos desses morangos... E talvez por uma ilusão!

Deixou a borda do terraço, pensativo, como se a presença da Cidade, estendida na planície, fosse um escândalo. E caminhámos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde, a filosofar. Considerámos que esta injustiça não tinha cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Efraim, os Trèves, os tubarões vorazes e sombrios do mar humano! Só deixarão ou aliviarão a exploração das Plebes se uma influência celeste lhes converter as almas. Tem de ser um milagre novo, mais alto do que os milagres velhos! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado. Contra ele nada podem os choros dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer um granito tão duro, só uma doçura divina. Eis pois a esperança da terra, posta de novo num Messias!... Um desceu certamente outrora dos grandes Céus. E, para mostrar bem que mandado trazia, entrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um sermão meigo numa montanha, ao fim de uma tarde meiga. Uma repreensão moderada aos Fariseus que então escreviam o *Boulevard*. Algumas chicotadas nos Efraim vendilhões. E logo, pela porta da morte, a fuga radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus teve pressa demais em voltar a casa de seu Pai! Confiou a continuação da sua obra a alguns homens. Mas logo eles foram envolvidos pelas influências dos Efraim, dos Trèves, da gente do *Boulevard*. Bem depressa esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberíades. Eis que, por sua vez, vestem a púrpura, e são Bispos, e são Papas. Aliam-se à opressão e reinam com ela. Constroem a duração do seu Reino sobre a miséria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim, a obra da Redenção tem de ser recomeçada. Jesus, ou Gautama, ou Krishna, deverá descer novamente à terra da servidão. Ou então outro desses filhos que Deus escolhe às vezes no seio de uma Virgem, nos quietos pomares da Ásia. Virá ele, o desejado? Será que algum grave rei do Oriente já despertou e olhou a estrela? Já tomou a mirra nas suas mãos reais e montou, pensativo, no seu dromedário? De noite, enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta no Paillard, já um Anjo andou pelos arredores da dura Cidade? Andou atento, num voo lento, a escolher um curral? Já vêm de longe, sem moço que os conduza, a trotar a vaca, a trotar o burrinho? Vêm na pressa deliciosa de um encontro divino?

— Tu sabes, Jacinto?

Não, Jacinto não sabia, e queria acender o charuto. Dei um fósforo ao meu Príncipe. Ainda andámos pelo terraço, a espalhar no ar outras ideias sólidas, que no ar se desfaziam. Depois íamos entrar na Basílica. Mas um Sacristão gordo e lustroso, de barrete de veludo, fechou a porta com força. E um Padre passou, a enterrar no bolso o seu velho Breviário. Fez um gesto cansado e final, como se fosse para sempre.

— Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu camarada pensativo comprou uma imagem da Basílica. E saltávamos para a vitória, quando alguém gritou com força, surpreendido:

— Eh Jacinto!

O meu Príncipe abriu os braços, também espantado:

— Eh Maurício!

E, todo alvoroçado, atravessou a rua para um café. Aí, sob o toldo às riscas, um homem robusto, de barba em bico, mexia o seu absinto. Tinha o chapéu de palha caído para a nuca e a quinzena solta sobre a camisa de seda, sem gravata. Parecia que descansava num banco, entre as sombras do seu jardim.

Os dois apertaram as mãos e admiraram-se daquele encontro, num domingo de verão, nas alturas de Montmartre.

— Oh! Eu estou aqui no meu bairro! — exclamava alegremente Maurício. — Em família, de chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de Israel!

O meu Príncipe apontou para o seu Zé Fernandes:

— Com este amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.

Mr. de Mayolle levantou o seu chapéu de palha. Pela cara larga e pelo nariz nobremente grosso, lembrava Francisco de Valois, Rei de França. Empurrava uma cadeira e insistia que nos sentássemos para um absinto ou para um *bock*.

— Toma um *bock*, Zé Fernandes! — lembrou Jacinto. — Tu estavas a ganir com sede!

Passei devagar a língua pelos lábios, mais secos do que pergaminhos:

— Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um vinhozinho gelado!

Maurício saudou, com admiração silenciosa, esta minha sábia malícia. E logo disse para o meu Príncipe:

— Há três anos que não te vejo, Jacinto... Como tem sido possível, neste Paris que é uma aldeola e que tu enches?

— A vida, Maurício, a vida espalhada... Com efeito! Há três anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário?

Maurício fez um gesto largo e desdenhoso, que sacudia um mundo:

— Oh! Há mais de um ano que me separei dessa bicharada herética... Uma multidão indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo tonto, falta completa e cómica de qualquer base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à *Cerveja ideal*, o que reinava?...

Jacinto procurou lentamente as suas recordações por entre os pelos do bigode:

— Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Eddica, e o Ragnarok, e as Nornas... Muito Pré-Rafaelismo também, e Montagna, e Fra Angelico... Em moral, o Renanismo.

Maurício sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado arcaico, quase pré-histórico! Madame de Lamotte-Orcel tinha mobilado de novo a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de açafrão. E nessa altura o Renanismo já tinha passado. Estava tão esquecido como o Cartesianismo...

— Tu ainda és do tempo do culto do *Eu*?

O meu Príncipe suspirou, a sorrir:

— Ainda o cultivei.

— Pois bem! Logo depois foi o Hartmannismo, o Inconsciente. Depois o Nietzschismo, o Feudalismo espiritual... Depois espalhou-se o Tolstoísmo, um furor imenso de renúncia, como a dos monges. Ainda me lembro de um jantar em que apareceu um monstro de um eslavo, de cabelo sujo e comprido. Atirava olhares medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche. E grunhia, com o dedo espetado: «Busquemos a luz, muito por baixo, no pó da terra!» E à sobremesa bebemos à delícia da humildade e do trabalho servil. Bebemos aquele Champagne Marceaux granizado que a Mathilde dava nos grandes dias, em copos com a forma do San-Gral! Depois veio o Emersonismo... Mas a praga cruel foi o Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já havia uns perdidos que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam caindo no Falismo, uma mistura místico-brejeira. Pregava-a aquele pobre La Carte, que depois se fez Monge Branco e que anda no Deserto... Um horror! E numa tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ânsia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado à bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval a rodopiar, a torcer-me o crânio! E até Jacinto balbuciou, de olhos esgazeados:

— O Ruskinismo?

— Sim, o velho Ruskin... John Ruskin!

O meu feliz Príncipe compreendeu:

— Ah, Ruskin!... *As Sete Lâmpadas da Arquitetura*, *A Coroa de Oliveira Brava*... É o culto da Beleza.

— Sim! O culto da Beleza — confirmou Maurício. — Mas nesse tempo eu, enojado, já tinha descido de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais seguro, mais fértil.

Bebeu um gole lento de absinto, de pálpebras fechadas. Jacinto esperava, com o seu nariz fino dilatado, como para respirar a Flor de Novidade que ia abrir:

— E então? Então?...

Mas o outro murmurou, de modo disperso, por entre reticências em que se escondia:

— Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de génio, que percorreu toda a Índia... Viveu com os Toddas e esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo... Estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi a décima sexta encarnação de Gautama, e era portanto um Bodhisattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. São factos, experiências bem antigas, que vêm talvez desde os tempos de Krishna...

Ao dizer estes nomes, que tinham um perfume triste de ritos antiquíssimos, afastou a cadeira. De pé, deixou cair na mesa, distraído, moedas de prata e moedas de cobre para pagar o absinto. E murmurava, com os olhos postos em Jacinto, mas perdidos noutra visão:

— Por fim, tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. É toda a ciência e força dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstáculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, já obtivemos resultados bem estranhos. Conheces as experiências de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre químico, para demonstrar as vibrações do som, tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas quê! Homem de ciência, portanto homem de estupidez, ficou aquém, entre as suas placas e as suas retortas! Nós fomos além. Verificámos as *ondulações da Vontade*! Diante de nós, a três metros, uma chama obedeceu à energia do meu companheiro e ao ritmo do seu mandado. Ondulou, rastejou, lançou línguas ardentes, lambeu uma parede alta. Rugiu furiosa e negra, brilhou direita e silenciosa. E de repente caiu em cinza e morreu!

E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou imóvel, de braços abertos e olhar esgazeado. Parecia sentir de novo o espanto e o transe daquele prodígio. Depois voltou ao seu modo fácil e sereno, e acendeu devagar um cigarro:

— Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202, para almoçar contigo, e levo o meu amigo. Ele só come arroz, um pouco de salada e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do *Sepher-Zerijah* e outro do *Targum d'Onkelus*. Preciso de folhear esses livros.

Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este Zé Fernandes assombrado e seguiu serenamente pela rua quieta. Levava o chapéu de palha para a nuca e as mãos enterradas nos bolsos, como um homem natural entre coisas naturais.

— Oh Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é ele, santíssimo nome de Deus?

Recostado na vitória, a arranjar o vinco das calças, o meu Príncipe contou, em poucas palavras. Era um rapaz nobre e leal, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle. Descendia dos Duques de Septimania... E murmurou, no seu bocejo do costume:

— O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo esotérico... Aspirações, deceções... Já experimentei... Uma maçada!

Atravessámos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do crepúsculo de verão. Íamos jantar ao Bosque, ao Pavilhão de Armenonville. Lá, os Tziganes viram Jacinto e tocaram o *Hino da Carta* com paixão e languidez. Era um ritmo de *czarda* doloroso e áspero.

E eu, a desdobrar o guardanapo com prazer:

— Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! Mereço-o muito, caramba, porque filosofei superiormente!... E creio que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da cidade!

O meu Príncipe percorria a Lista dos Vinhos, a puxar o bigode, enquanto o Copeiro esperava com pensativa reverência:

— Mande gelar duas garrafas de Champagne St. Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Água de Évian... Não, de Bussang! Bem, de Évian e de Bussang! E, para começar, um *bock*.

Depois, a bocejar, a desabotoar lentamente a sobrecasaca cinzenta:

— Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre... Com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde e dominar a Cidade...

### Glossário

- **enevoado**: com nevoeiro leve e nuvens.
- **tascas**: lugares simples e baratos onde se bebe e se come.
- **arraial**: festa popular com barracas, muitas vezes junto a uma igreja.
- **andaimes**: estruturas usadas pelos operários nas obras.
- **abafada**: coberta, fechada, sem ar.
- **caixeiros**: empregados de uma loja.
- **ofegante**: a respirar com dificuldade.
- **áspero**: duro, pouco suave.
- **arder**: queimar com chama; estar em fogo.
- **plebe**: o povo pobre.
- **pelissas**: casacos com pele.
- **sou**: palavra francesa; moeda de muito pouco valor.
- **bocejar**: abrir muito a boca, com sono ou tédio.
- **vendilhões**: pessoas que vendem coisas por dinheiro, sem respeito pelo que é sagrado.
- **absinto**: bebida alcoólica muito forte, de cor verde.
- **bock**: palavra francesa; copo de cerveja.
- **Tziganes**: palavra francesa antiga para ciganos; músicos da Hungria. Hoje pode ofender.

## VII

Julho tinha acabado com uma chuva fresca e consoladora. E eu pensava em fazer finalmente a minha peregrinação às cidades da Europa. Tinha-a sempre adiado, durante a primavera, por causa das surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto começou a pedir e a exigir uma coisa. O seu Zé Fernandes devia acompanhá-lo todas as tardes a casa de Madame d'Oriol! E eu compreendi o que o meu Príncipe desejava. Queria ter, no retiro do Amor, a presença, o conforto e o socorro da Amizade. Fazia como o divino Aquiles, que, na tenda, junto da branca, insípida e dócil Briseida, nunca dispensava Pátroclo. Pobre Jacinto! Logo de manhã, combinava pelo telefone com Madame d'Oriol essa hora de calma e doçura. E assim encontrávamos sempre a superfina Dama preparada e sozinha, naquela sala da rua de Lisbonne. Jacinto e eu mal cabíamos ali e sufocávamos na confusão. Havia cestos de flores, ouros cheios de curvas, monstros do Japão e a fragilidade galante das porcelanas de Saxe. Havia peles de feras estendidas aos pés de sofás que convidavam ao sono. E biombos de Aubusson formavam alcovas favoráveis e lânguidas... Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, ela esperava o seu amigo. Estava entre almofadas perfumadas com verbena da Índia, com um romance pousado no regaço. Mostrava uma certa indolência passiva e mansa, que me lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, com as frescas sedinhas Pompadour, parecia também uma marquesinha de Versalhes, cansada do grande século. Ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como uma veneziana preparada para um Doge. A minha intrusão na intimidade daquelas tardes não a contrariava. Antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu *cher Fernandez*!

Bastava-lhe abrir os lábios pintados de vermelho, semelhantes a uma ferida fresca. Começava a tagarelar, e logo nos envolvia o burburinho e a má-língua de Paris. Ela só sabia tagarelar sobre a sua pessoa, que era o resumo da sua Classe. E sobre a sua existência, que era o resumo do seu Paris. Desde que tinha casado, a sua existência consistia nisto. Enfeitava com suprema ciência o seu lindo corpo. Entrava com perfeição numa sala e brilhava. Mexia em tecidos e conferenciava, pensativa, com o grande costureiro. Rolava pelo Bois, pousada na sua vitória como uma imagem de cera. Decotava e branqueava o colo. Debicava uma perna de galinhola em mesas de luxo. Abria caminho entre multidões ricas, em bailes cheios de gente. Adormecia com a vaidade cansada. De manhã, ao tomar chocolate, percorria os «Ecos» e as «Festas» do *Figaro*. E, de vez em quando, murmurava para o marido: «Ah, és tu?...» Além disso, ao anoitecer, num sofá, dava alguns suspiros certos, nos braços de alguém a quem era constante. Nesse ano, o sofá pertencia ao meu Príncipe. E cumpria a sorrir todos estes deveres de Cidade e de Casta. Desde que se tinha casado, tinha sorrido tanto que duas pregas lhe marcavam já, para sempre, os cantos da boca. Mas nem na alma nem na pele mostrava outras marcas de cansaço. A sua Agenda de Visitas tinha mil e trezentos nomes, todos do Nobiliário. Através, porém, desta sociabilidade brilhante, tinha arranjado algumas Ideias Gerais no cérebro. (Ali tinha certamente entrado o pó de arroz que, desde o colégio, punha em camadas na testa.) Em Política, era pelos Príncipes. Os outros «horrores» eram a República, o Socialismo, a Democracia que não se lava. Sacudia-os a sorrir, com uma batida do leque. Na Semana Santa, juntava às rendas do chapéu a amarga Coroa de espinhos. É que esses eram, para a gente bem-nascida, dias de penitência e dor. Diante de qualquer Livro ou Quadro, sentia a emoção e formulava com finura o juízo. Eram a emoção e o juízo que, no seu Mundo e nessa Semana, era elegante sentir e formular. Tinha trinta anos. Nunca se tinha embaraçado nos tormentos de uma paixão. Apontava, com rígida regularidade, todas as suas despesas num Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima era a Ordem. Era mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos à missa de S. Philippe du Roule. No inverno, na amável cidade, começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem abrigo. Logo ela preparava, com comovido cuidado, os seus vestidos de patinagem. Preparava também os de Caridade, porque era boa. Contribuía para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando eram patrocinados pelas Duquesas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma vendedora de roupa usada os vestidos e as capas de inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.

Pois passámos as tardes desse julho a respirar esta macia e fina flor. Entretanto, as outras flores dobravam-se e murchavam no calor e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse contentamento de alma. Esse contentamento, entre tudo o que cansa, nunca cansa. Já subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e cercada de palmeiras tão frescas, com uma lentidão paciente. Era a lentidão com que se sobem todos os Calvários, mesmo os mais bem atapetados. A apetitosa criatura, com dedicação, abria a sua vivacidade para o entreter, como um pavão abre a cauda. Quando fazia isto, o meu pobre Príncipe puxava os pelos do bigode murcho. Tinha a postura murcha de quem assiste, numa igreja negra, a um responso fúnebre por um Príncipe. E isto numa manhã de maio, enquanto os melros cantam nas sebes. E no beijo chupado que ele dava na mão da sua doce amiga, ao despedir-se, havia sempre alegria e alívio.

Mas no dia seguinte, ao começar da tarde, errava pela Biblioteca e pelo Gabinete. Puxava sem curiosidade a fita do telégrafo e atirava algum recado mole pelo telefone. Espalhava um olhar desanimado sobre o saber imenso dos trinta mil livros e remexia a colina dos Jornais e Revistas. E acabava por me chamar, já com a preguiça triste de quem se empurra para uma façanha:

— Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de Madame d'Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um bocado de frescura e paz.

O meu Príncipe procurava assim desesperadamente um «bocado de frescura e paz». Foi numa dessas tardes que encontrámos o marido de Madame d'Oriol, a meio da escadaria suave, entre as palmeiras. Eu já o conhecia, porque Jacinto me tinha mostrado esse homem uma noite, no Grand Café. Estava a cear com bailarinas do *Moulin Rouge*. Era um moço gordalhão, indolente, de uma brancura crua de toucinho. Tinha uma calvície já séria e lustrosa, sempre acariciada pelos seus dedos gordos, carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha vermelho, todo emocionado, a calçar as luvas com cólera. Parou diante de Jacinto. Sem mesmo lhe apertar a mão, fez um gesto para o patamar:

— Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima disposição... Tivemos uma cena, e tremenda.

Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, já rasgada:

— Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é excelente! Mas em tudo há medida e forma... Ela tem o meu nome. Não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintanário. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os criados, que emigre para o fundo da província, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu lhe disse! Ficou como uma fera.

Sacudiu então a mão de Jacinto, que «era da sua roda», e rolou pela escadaria florida e nobre. O meu Príncipe ficou imóvel nos degraus, de cara caída, a alisar lentamente os fios caídos do bigode. Depois olhou para mim, como um ser saturado de tédio, em quem já não cabe nenhum tédio novo:

— Já agora subamos, sim?

Parti então, muito alegre, para a minha desejada peregrinação às Cidades da Europa.

Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, a bufar, com todo o sangue na cara, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolvido em poeira e fumo. Ia sufocado, ofegante, a escorrer de suor. Em cada estação saltava para beber desesperadamente limonadas mornas que me destruíam as entranhas. Catorze vezes subi, derreado, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um Hotel. Espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido. Estranhei uma cama desconhecida. Levantava-me dela ensonado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite. Sabia-me a fava. E pedia um banho de tina, que me cheirava a lodo. Oito vezes tive brigas abomináveis na rua com cocheiros que me roubavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca, outra de verniz, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas, esperei tristemente que me chegasse o *boeuf-a-la-mode*, já frio, com molho coalhado. Esperei que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus, que eu provava e recusava com uma careta infeliz. Percorri vinte e nove Catedrais, na penumbra fresca dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado. Arrastei-me, com uma dor surda na nuca, por catorze museus e cento e quarenta salas. Estavam cobertas até aos tetos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas, verduras, nudezes. E havia manchas sombrias de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce foi em Veneza, onde chovia a cântaros. Encontrei lá um velho inglês de nariz enorme e vermelho, que tinha vivido no Porto. Tinha conhecido o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Enfim chegou uma abençoada manhã de outubro, com o primeiro frio e a primeira névoa de outono. Com alegria comovida, vi as cortinas de seda do meu 202, ainda fechadas. Toquei com carinho no ombro do Porteiro. No patamar, encontrei o ar macio e morno que tinha deixado em Florença. E apertei os ossos do excelente Grilo:

— E Jacinto?

O digno negro murmurou, de entre os altos colarinhos brilhantes:

— S. Ex.ª circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de Loches... Ainda tomou um chá gelado antes de se deitar... E disse, a coçar a cabeça: «Eh! Que maçada! Eh! Que maçada!»

Depois do banho e do chocolate, às dez horas, estava consolado e quentinho no roupão de veludo. Entrei de rompante no quarto do meu Príncipe. Ia de braços abertos e sedentos:

— Oh Jacinto!

— Oh viajante!...

Abraçámo-nos com força. Depois recuei, para lhe olhar a cara e, nela, a alma. Estava encolhido numa quinzena de pano cor de malva, com bordas de pele de marta. Os pelos do bigode estavam murchos, as suas duas rugas mais fundas, os ombros largos moles. O meu amigo parecia já dobrado sob o peso, a opressão e o terror do seu dia. Sorri, para que ele sorrisse:

— Valente Jacinto... Então, como tens vivido?

Ele respondeu, muito serenamente:

— Como um morto.

Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:

— Aborrecidote, hein?

O meu Príncipe soltou, com um gesto tão vencido, um *oh* tão cansado, que fiquei cheio de pena. Abracei-o de novo e apertei-o. Era como se quisesse passar-lhe uma parte desta alegria sólida e pura que recebi do meu Deus!

Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar claramente, abertamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existência o enchia. O seu cuidado e o seu esforço passaram a ser sondar e formular esse tédio. Esperava vencê-lo logo que conhecesse bem a sua origem e a sua força. E o meu pobre Jacinto repetiu a comédia pouco divertida de um Melancólico que raciocina sem parar a sua Melancolia! Nesse raciocínio, partia sempre de um facto inegável e maciço. A sua vida especial de Jacinto tinha todos os interesses e todas as facilidades possíveis no século XIX. Possíveis na vida de um homem que não é um Génio nem um Santo. Com efeito! Doze anos de Champagnes e molhos ricos tinham-lhe embotado o apetite. Mas ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo. Na luz da sua inteligência não tinha aparecido tremor nem pavio queimado. A boa terra de Portugal e algumas Companhias sólidas forneciam-lhe pontualmente a sua doce centena de contos. As simpatias de uma Cidade inconstante e trocista rodeavam-no, sempre ativas e sempre fiéis. O 202 rebentava de confortos. Nenhuma amargura de coração o atormentava. E, no entanto, era um Triste. Porquê?... Daqui saltava, com uma certeza brilhante, para a sua conclusão. A sua tristeza, esse burel cinzento em que a sua alma andava amortalhada, não vinha da sua individualidade de Jacinto. Vinha da Vida, do lamentável, desastroso facto de Viver! E assim o saudável, intelectual, riquíssimo, bem acolhido Jacinto tinha caído no Pessimismo.

E um Pessimismo irritado! Porque, segundo ele afirmava, tinha nascido para ser tão naturalmente otimista como um pardal ou um gato. Até aos doze anos tinha sido um bicho superiormente mimado. Tinha a pele sempre bem coberta e o prato sempre bem cheio. Nunca tinha sentido cansaço, melancolia, contrariedade ou pena. E as lágrimas eram para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam um vício. Só quando cresceu e passou da animalidade à humanidade é que nasceu nele esse fermento de tristeza. Durante muito tempo, não se desenvolveu, no tumulto das primeiras curiosidades. Depois alastrou, invadiu-o todo, tornou-se parte da sua substância, como o sangue das suas veias. Portanto, Sofrer era inseparável de Viver. Havia sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na multidão dos humanos, é a luta angustiada pelo pão, pelo teto, pelo lume. Numa casta, agitada por necessidades mais altas, é a amargura das desilusões. É o mal da imaginação insatisfeita, é o orgulho que choca contra um obstáculo. Nele, que tinha os bens todos e nenhuns desejos, era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Inteligência: eis a Vida! E agora, aos trinta e três anos, a sua ocupação era bocejar. Passava os dedos desanimados pela cara caída, para nela palpar a caveira e a desejar.

Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente todos os líricos e todos os teóricos do Pessimismo. Lia-os desde o *Eclesiastes* até Schopenhauer. Nestas leituras encontrava uma prova reconfortante. O seu mal não era uma coisa pequena e «Jacíntica». Era o grandioso resultado de uma Lei Universal. Já há quatro mil anos, na distante Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delícias mais triunfais, resumia-se em Ilusão. Já o Rei incomparável, de sabedoria divina, sumo Vencedor, sumo Construtor, se enfastiava e bocejava. Bocejava entre os despojos das suas conquistas, os mármores novos dos seus Templos e as suas três mil concubinas. Bocejava entre as Rainhas que subiam do fundo da Etiópia. Subiam para que ele as fecundasse e lhes pusesse no ventre um Deus! Não há nada novo sob o sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe, mais se sofre. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Tudo tende para o pó efémero, em Jerusalém e em Paris! E ele, obscuro no 202, sofria por ser homem e por viver. Sofria como o filho magnífico de David, no seu trono de ouro, entre os seus quatro leões de ouro.

Não se separava então do *Eclesiastes*. Andava por Paris com Salomão dentro do coupé, como um irmão de dor. Com ele repetia o grito desolado que é a suma da verdade humana: *Vanitas Vanitatum!* Tudo é Vaidade! Outras vezes, logo de manhã, encontrava-o estendido no sofá, num roupão de seda, a absorver Schopenhauer. Entretanto, o pedicuro, ajoelhado no tapete, polia-lhe as unhas dos pés, com respeito e perícia. Ao lado estava pousada a chávena de Saxe. Tinha esse café de Moka enviado por emires do Deserto, que nunca o contentava, nem pela força nem pelo aroma. De vez em quando pousava o livro no peito e deixava cair um olhar compassivo sobre o pedicuro. Parecia procurar que dor o torturaria, pois a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto esse mexer assim, sem parar, em pés alheios... E quando o pedicuro se levantava, Jacinto abria para ele um sorriso de fraternidade. Dizia-lhe «adeus, meu amigo», que era «um adeus, meu irmão!».

Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacinto tinha encontrado enfim na vida uma ocupação agradável: maldizer a Vida! Queria poder maldizê-la em todas as suas formas, as mais ricas, as mais intelectuais, as mais puras. Por isso, sobrecarregou a sua própria vida de novo luxo e de novos interesses de espírito. Acrescentou até fervores humanitários e curiosidades sobrenaturais.

O 202, nesse inverno, brilhou de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, a repetir Heliogábalo, os Festins de Cor contados na *História Augusta*. E ofereceu às suas amigas esse jantar sublime cor-de-rosa. Tudo era rosado: as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os Champagnes. E até, por uma invenção da Alta Cozinha, os peixes, as carnes e os legumes. Os escudeiros serviam, cobertos de pó rosado, com librés cor-de-rosa. Entretanto, do teto, de um toldo de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, gritou: «Bravo, Jacinto!» E o meu Príncipe, no fim da festa brilhante, pôs as mãos nas ilhargas, diante de mim, e gritou triunfalmente: «Hein? Que maçada!...»

Depois foi o Humanitarismo. Fundou um Hospício no campo, entre jardins, para velhinhos abandonados. Fundou outro para crianças fracas, à beira do Mediterrâneo. Depois, com o major Dorchas, Mayolle e o Hindu de Mayolle, entrou no Teosofismo. E montou tremendas experiências para verificar a misteriosa *exteriorização da motilidade*. Depois, desesperadamente, ligou o 202 aos fios telegráficos do *Times*. Fê-lo para que, no seu gabinete, como num coração, palpitasse toda a vida Social da Europa.

E depois de cada um destes esforços da elegância, do humanitarismo, da sociabilidade e da inteligência curiosa, voltava para mim. Vinha de braços alegres, com um grito vitorioso: «Vês tu, Zé Fernandes? Uma maçada!» Agarrava então o seu *Eclesiastes*, o seu Schopenhauer. Estendido no sofá, saboreava com volúpia a concordância da Doutrina e da Experiência. Tinha uma Fé: o Pessimismo. Era um apóstolo rico e corajoso. E tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!

No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacinto já não folheava o *Eclesiastes* e abandonava Schopenhauer. Nem festas, nem Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do *Times* pareciam agora interessar o meu amigo. Nem mesmo como demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua abominável função voltou a limitar-se a bocejar. Passava os dedos moles pela cara caída, a palpar a caveira. Falava sem parar da morte como de uma libertação. Uma tarde mesmo, no crepúsculo melancólico da Biblioteca, antes de se acenderem as luzes, aterrorizou-me bastante. Falou, num tom gelado, de mortes rápidas, sem dor. Podia ser pelo choque de uma grande pilha elétrica, ou pela violência compassiva do ácido cianídrico. Diabo! O Pessimismo tinha aparecido na Inteligência do meu Príncipe como um conceito elegante. E agora tinha atacado bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento foi então o de um boi inconsciente, que marcha sob a canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento. Nem sequer se lamentava por ela lhe trazer tédio ou pena. «Tudo é indiferente, Zé Fernandes!» Com a mesma indiferença iria à janela receber uma Coroa Imperial oferecida por um Povo. Ou se estenderia numa poltrona rota, para se calar e jazer. Tudo era inútil, e tudo levava só a uma desilusão maior. Que importava, pois, a atividade mais brilhante ou a inércia mais desgostosa? O seu gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Diante de duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no ato mais pequeno, riscar um fósforo ou desdobrar um Jornal, punha uma lentidão tão desconsolada que parecia preso. Todo ele estava como ligado, desde os dedos até à alma, pelas voltas apertadas de uma corda. Essa corda não se via e travava-o.

Lembro-me com grande desagrado do dia dos seus anos, a 10 de janeiro. Cedo, de manhã, tinha recebido um cesto de camélias, azáleas, orquídeas e lírios do vale. Vinha com uma carta de Madame de Trèves. Foi este mimo que lhe lembrou a data importante. Soprou o fumo do cigarro sobre as pétalas e murmurou, com um riso de lento escárnio:

— Então, há trinta e quatro anos que eu ando nesta maçada?

Propus que telefonássemos aos amigos, para beberem no 202 o Champagne do «Natalício». Ele recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! Que seca horrível!... E gritou mesmo para o Grilo:

— Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!

A sua ironia não parou até ao almoço, diante dos bilhetes, dos telegramas e das cartas. Subiam e arredondavam-se em colina sobre a mesa de ébano, como uma homenagem da Cidade. Vieram outras flores, em cestos vistosos, com laços vistosos. Ele comparou-as às que se põem sobre um túmulo. Só se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma mesa engenhosa. Baixava até ao tapete ou subia até ao teto. Para quê, Senhor meu Deus?

Depois do almoço, como chovia sombriamente, não saímos do 202. Ficámos com os pés estendidos para o lume, num silêncio preguiçoso. Acabei por adormecer, muito feliz. Acordei com os passos apressados do Grilo... Jacinto, enterrado na poltrona, recortava um papel com uma tesoura! Este amigo tinha cansado a juventude a acumular todas as noções formuladas desde Aristóteles. Tinha reunido todos os inventos realizados desde Teramenes. E nunca tive tanta pena dele como nessa tarde de festa. Estava cercado de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. E encontrava-se reduzido, junto ao seu lar, a recortar papéis com uma tesoura!

O Grilo trazia um presente do Grão-Duque: uma caixa de prata, forrada de cedro, cheia de um chá precioso. Tinha sido colhido, flor a flor, nos campos de Kiang-Sou, por mãos puras de virgens. Tinha atravessado a Ásia em caravanas, com a veneração de uma relíquia. Então, para despertar o nosso torpor, lembrei que tomássemos o divino chá. Era uma ocupação em harmonia com a tarde triste. A chuva grossa alagava os vidros e a chama clara dançava no fogão. Jacinto aceitou. E um escudeiro aproximou logo a mesa de Efraim, para estrearmos os seus hábeis serviços. Mas o meu Príncipe, para meu espanto, subiu-a até aos cristais do lustre. Depois travou uma batalha suada e desesperada com as molas. Mas não conseguiu que ela voltasse a uma altura humana e caseira. E o escudeiro levou-a de novo, levantada como um andaime, fantástica, útil apenas para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do chá, entre chaleiras, lâmpadas, coadores, filtros, todo um luxo de utensílios de prata. Davam a essa ocupação a majestade de um rito. E é tão simples e doce em casa da minha tia, *fazer chá*! Avisado pelo meu camarada da sublimidade daquele chá de Kiang-Sou, levei a chávena aos lábios com reverência. Era uma infusão sem cor, que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... Não tomámos chá.

Ao fim de outro silêncio pensativo, murmurei, com os olhos perdidos no lume:

— E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja nova?

Jacinto tinha voltado ao papel e à tesoura:

— Não sei... Não voltei a receber carta do Silvério... Nem imagino onde param os ossos... Que história lúgubre!

Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu tinha encomendado pelo Grilo, ao nosso magistral cozinheiro, uma larga travessa de arroz doce. Devia ter as iniciais de Jacinto e a data feliz em canela, à moda amável da nossa meiga terra. À mesa, o meu Príncipe percorreu a lâmina de marfim onde, no 202, se escreviam os pratos a lápis vermelho. Louvou com fervor a ideia patriarcal:

— Arroz doce! Está escrito com dois *ss*, mas não tem dúvida... Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz doce!... Desde a morte da avó.

Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, saía de uma calda de cereja. Desaparecia sob os frutos secos que o cobriam até ao cimo. Lá no alto equilibrava-se uma coroa de Conde, feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais e a data eram tão lindas e graves na canela ingénua! Pois vinham desenhadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num horror mudo, o prato tornado canalha. E Jacinto, levantando o copo de Champagne, murmurou como num funeral pagão:

— *Ad Manes*, aos nossos mortos!

Recolhemos à Biblioteca, para tomar o café no conforto e alegria do lume. Lá fora, o vento bramia como num ermo da serra. As vidraças tremiam, alagadas, sob as bátegas da chuva irada. Que noite dolorosa para os dez mil pobres que em Paris andam sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre monte e vale, talvez rugisse assim a tormenta. Mas lá cada pobre tem o abrigo da sua telha vã e a sua panela cheia de couves. Encolhe-se no seu manto, ao calor da lareira. E há quem não tenha lenha nem couves. Para esses, lá estão o João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abade. Conhecem todos os pobres pelos seus nomes. Contam com eles, como se fossem dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no forno. Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos pequeninos!

Suspirei. Jacinto preguiçava. E acabámos a mexer languidamente nos jornais que o mordomo tinha trazido, num monte eloquente, sobre uma salva de prata. Eram jornais de Paris, jornais de Londres, Semanários, Magazines, Revistas, Ilustrações... Jacinto desdobrava e atirava fora. Das Revistas espreitava o sumário, logo farto. Nas Ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, a bocejar por cima das gravuras. Depois, mais estendido para o lume:

— É uma seca... Não há que ler.

E de repente revoltou-se contra este fastio opressor que o escravizava. Saltou da poltrona, com o arranque de quem despedaça algemas. Ficou direito, a lançar à volta um olhar imperativo e duro. Parecia ordenar àquele seu 202, tão cheio de Civilização, que lhe desse um interesse vivo para a alma. Por um momento que fosse, que desse à sua vida um gosto fugitivo! Mas o 202 ficou insensível. Nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo. Só as vidraças tremeram, sob o embate mais rude da água e do vento.

Então o meu Príncipe, vencido, arrastou os passos até ao seu gabinete. Começou a percorrer todos os aparelhos que completavam e facilitavam a Vida. O seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Grafofone, o seu Microfone. A sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Calcular, a sua Imprensa Elétrica, a outra Magnética. Todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares de onde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecânica ficou rígida, a brilhar friamente. Nem uma roda girou, nem uma lâmina vibrou, para entreter o seu Senhor.

Compadeceu-se só o relógio monumental que marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas. Bateu a meia-noite e anunciou ao meu amigo que mais um Dia tinha partido, a levar o seu peso. Assim diminuía esse peso sombrio da Vida, sob o qual ele gemia, dobrado. O Príncipe da Grã-Ventura decidiu então ir para a cama, com um livro... Durante um momento, parou no meio da Biblioteca. Considerou os seus setenta mil volumes, instalados com pompa e majestade como Doutores num Concílio. Depois olhou para as pilhas tumultuosas dos livros novos, que esperavam pelos cantos e no tapete. Esperavam o repouso e a consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode, caminhou por fim para a região dos Historiadores. Espreitou séculos, farejou raças. Pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino. Entrou na Revolução Francesa, de onde se afastou desencantado. E apalpou, com mão indecisa, toda a vasta Grécia, desde a criação de Atenas até à destruição de Corinto. Mas virou de repente para a fila dos Poetas. Brilhavam em marroquins claros. Nas lombadas, em ouro, os títulos fortes ou lânguidos mostravam o interior das suas almas. Não lhe apeteceu nenhuma dessas seis mil almas. E recuou, desconsolado, até aos Biólogos... A estante de Biologia era tão maciça e fechada que o meu pobre Jacinto ficou paralisado! Parecia uma cidadela inacessível! Fez rolar a escada e, em fuga, subiu até às alturas da Astronomia. Tirou astros, repôs mundos. Todo um Sistema Solar caiu com estrondo. Atordoado, desceu e começou a procurar em cima dos montes de obras novas. Ainda estavam por encadernar, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, atirava. Para desenterrar um volume, demolia uma torre de doutrinas. Saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões. Olhava de relance uma linha, esgravatava num índice. Interrogava todos, desinteressava-se de todos. Rolava quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam. Não se podia deter, na ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem. Contemplava aqueles muros todos forrados, aquele chão todo coberto, os seus setenta mil volumes. Nem sequer lhes provou a substância, e já estava absolutamente saciado, cheio, enjoado pela opressão da sua abundância. Acabou por voltar ao monte de jornais amarrotados. Levantou melancolicamente um velho *Diário de Notícias*. E, com ele debaixo do braço, subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.

### Glossário

- **trintanário**: criado que ia na carruagem ao lado do cocheiro.
- **lacaio**: criado de uma casa rica, com uniforme.
- **negro**: pessoa de pele negra. "Preto" é hoje muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **mesas-redondas**: refeições de hotel em que todos os hóspedes comem juntos, à mesma mesa.
- **burel**: tecido grosseiro de lã, usado por monges.
- **Teosofismo**: doutrina que procura conhecer Deus e o mundo invisível através da mística.
- **canga**: peça de madeira que prende os bois um ao outro para puxarem o carro.
- **aguilhão**: vara com ponta de ferro para picar os bois.
- **arroz doce**: sobremesa portuguesa de arroz, leite, açúcar e ovos, com canela por cima.
- **tagarelar**: falar muito, sobre coisas sem importância.
- **maçada**: coisa aborrecida.
- **lume**: fogo, por exemplo na lareira.
- **bocejar**: abrir muito a boca, com sono ou tédio.
- **bocejava**: abria muito a boca, com sono ou tédio.
- **palpar**: tocar com os dedos para sentir.
- **pavio**: fio de uma vela ou candeia, que arde e dá a luz.
- **telha vã**: telhado de casa pobre, só com as telhas, sem forro por baixo.

## VIII

No fim desse inverno escuro e pessimista, eu estava uma manhã a preguiçar na cama. Através da vidraça cheia de sol ainda pálido, sentia um sopro de primavera ainda tímido. De repente, Jacinto apareceu à porta do meu quarto, vestido de flanelas leves, brancas como açucenas. Parou devagar à beira do colchão. Com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou cair sobre mim esta declaração formidável:

— Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O salto com que me sentei fez tremer a dura cama de madeira preta do velho D. Galião:

— Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...

Feliz com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou do bolso uma carta. Começou a ler estas linhas, que certamente já tinha relido e estudado a fundo:

— «Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor. Tenho grande satisfação em comunicar a V. Ex.ª que durante toda esta semana devem ficar prontas as obras da capela...»

— É do Silvério? — exclamei.

— É do Silvério. «...as obras da capela nova. Os veneráveis restos dos excelsos avós de V. Ex.ª merecem todo o meu respeito. Podem portanto ser em breve trasladados da igreja de S. José. Têm estado ali depositados por bondade do nosso abade, que muito se recomenda a V. Ex.ª... Submisso, aguardo as valiosas ordens de V. Ex.ª a respeito desta majestosa e aflitiva cerimónia...»

Abri os braços, porque tinha compreendido:

— Ah! Bem! Queres ir assistir à trasladação...

Jacinto escondeu a carta no bolso.

— Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que são ossos vagos e que eu não conheci. É por causa do avô Galião... Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele. Tu estás deitado na cama dele, e eu ainda uso o relógio dele. Não posso deixar ao Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça e gritei: *vou a Tormes*! E vou!... E tu vens!

Eu tinha calçado os chinelos e apertava os cordões do roupão:

— Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está inabitável...

Ele fixou em mim uns olhos aterrados.

— Medonha, hein?

— Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os caseiros vivem lá há trinta anos. Dormem em catres, comem o caldo à lareira e usam as salas para secar o milho. Creio que, se bem me lembro, Tormes tem só dois móveis. São um armário e uma espineta de charão, coxa e já sem teclas.

O meu pobre Príncipe suspirou, com o gesto de quem se rende e se entrega ao Destino:

— Acabou!... *Alea jacta est!* E como só partimos em abril, há tempo de pintar, de pôr soalho, de pôr vidros... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Depois um estofador de Lisboa vai forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma máquina para fazer gelo... E é mesmo uma ocasião de pôr enfim alguma decência e ordem numa das minhas casas de Portugal. Pois não achas? E logo essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império Bizantino!

Eu espalhava na cara, com o pincel, flocos lentos de sabão. O meu Príncipe acendeu um cigarro, muito pensativo. Não se afastou do toucador e observava os meus preparativos com uma atenção triste que me incomodava. Por fim, como se estivesse a mastigar uma frase minha, para lhe tirar bem a moral e o sumo:

— Então, definitivamente, Zé Fernandes, achas que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?

Afastei do espelho a cara ensaboada e olhei para o meu Príncipe com um espanto divertido:

— Oh Jacinto! Foi em ti, só em ti, que nasceu a ideia desse dever! E fica-te bem essa honra, menino... Não cedas a ninguém essa honra!

Ele atirou o cigarro fora. Com as mãos enterradas nos bolsos das calças, vagueou pelo quarto. Tropeçava nas cadeiras e batia contra os postes torneados da velha cama de D. Galião. Balançava sem destino, como um barco já solto do seu porto seguro, sem rumo no mar incerto. Depois encalhou na mesa onde eu tinha, em fila, a galeria da minha Família. Estava organizada por graus de sentimento, desde o daguerreótipo do papá até à fotografia do *Carocho*, o meu perdigueiro.

Eu olhava para o meu Príncipe enquanto esticava os suspensórios. Nunca me tinha parecido tão curvado, tão diminuído. Parecia gasto por uma lima que o andasse a limar fundo, desde há muito tempo. Assim tinha acabado, desfeita em Civilização, a raça fortíssima dos Jacintos! Tinha acabado naquele magricelas super-requintado, sem músculo e sem energia! Aqueles Jacintões de cabelos compridos batiam o mouro no Salado ou o castelhano em Valverde. Depois voltavam às suas altas terras de Tormes. Nem sequer despiam as armaduras escuras para lavrar as suas planícies e amarrar a vinha ao olmo. Construíam o Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e duras! E agora ali estava aquele último Jacinto, um Jacintículo. Tinha a pele macia embebida em aromas e a curta alma enrolada em Filosofias. Estava parado, a suspirar baixinho, na pequena indecisão de viver.

— Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão gorducha?

Estiquei o pescoço para a fotografia que ele tinha levantado da minha galeria, na sua honrosa moldura de pelúcia escarlate:

— Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É a minha prima Joaninha, de Sandofim, da casa da Flor da Malva.

— Flor da Malva — murmurou o meu Príncipe. — É a casa do Condestável, de Nun'Álvares.

— Flor da Rosa, homem! A casa do Condestável era na Flor da Rosa, no Alentejo... Essa tua ignorância atrapalhada das coisas de Portugal!

O meu Príncipe deixou escorregar a fotografia da minha prima dos seus dedos moles. Levou os dedos à cara, no seu gesto horrível de palpar a caveira através da pele. Depois, de repente, fez um esforço magnífico, endireitou-se e cresceu:

— Bem! *Alea jacta est!* Partamos pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem descanso!... À obra! E a caminho!

Deitou a mão ao fecho dourado da porta, como se fosse o negro ferrolho que abre os Destinos. No corredor, gritou pelo Grilo com uma voz larga e apressada que eu nunca lhe tinha ouvido. Lembrou-me a voz de um Chefe que ordena, ao amanhecer, que se levante o Acampamento. Ordena que o Exército marche, com bandeiras e bagagens...

Logo nessa manhã, escreveu ao Silvério. Mandou caiar o casarão, pôr-lhe soalho e vidros. Trabalhou com uma atividade em que reconheci a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino. Depois do almoço, apareceu na Biblioteca o diretor da *Companhia Universal de Transportes*. Tinha sido chamado violentamente pelo telefone, para combinar o envio de móveis e confortos.

Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia. Vinha apertado num casaco de xadrez miúdo e escuro, com polainas de viagem sobre botas brancas. Trazia a tiracolo uma sacola de marroquim. No casaco tinha uma roseta de muitas cores, que resumia as suas condecorações exóticas. Eram de Madagáscar, da Nicarágua, da Pérsia e de outros sítios, e provavam a universalidade dos seus serviços. Apenas Jacinto disse «Tormes, no Douro...», ele estendeu logo o braço, com um sorriso superior. Não precisava de mais explicações, porque conhecia essas regiões ao pormenor.

— Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!

Escreveu uma nota rápida na carteira, sobre o joelho. Eu olhava, espantado, para a vastidão do seu saber geográfico. Aquele homem conhecia os recantos de uma serra de Portugal e todos os seus velhos solares! Ele já tinha atirado a carteira para o bolso... E disse que «nós, seus caros senhores, só tínhamos de encaixotar as roupas, os móveis, as preciosidades! Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, e poria neles o endereço, em letra grossa, com tinta grossa...»

— Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico! Perfeitamente, perfeitamente!

Dobrou a cabeça numa vénia profundíssima e saiu da Biblioteca. Os seus passos devoravam léguas e anunciavam a rapidez dos seus Transportes.

— Vê tu — murmurou Jacinto, muito sério. — Que prontidão, que facilidade!... Em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!

Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos. O meu Príncipe precisava deles para um mês de serra áspera. Eram camas de penas, banheiras de níquel, candeeiros Carcel, divãs profundos. Eram cortinas para tapar as fendas rudes e tapetes para amaciar os soalhos grosseiros. Os sótãos, onde se guardavam os pesados móveis do avô Galião, foram esvaziados. Isto porque o casarão medieval de 1410 podia receber os altos espelhos românticos de 1830. De todos os armazéns de Paris chegavam, cada manhã, fardos, caixas e embrulhos temíveis. Os empacotadores desfaziam-nos e enchiam os corredores de montes de palha e de papel pardo. Os nossos passos apressados enrolavam-se neles. O cozinheiro, sem fôlego, organizava o envio de fogões e geleiras. Mandava também frascos de trufas, latas de conservas e garrafas bojudas de águas minerais. Jacinto lembrou-se das trovoadas da serra e comprou um imenso para-raios. Desde o amanhecer, nos pátios e no jardim, martelava-se e pregava-se com um grande barulho. Parecia a construção de uma cidade. E o desfile das bagagens através do portão lembrava uma página de Heródoto a contar a marcha dos Persas.

Das janelas, com o braço estendido, Jacinto saboreava aquela atividade e aquela disciplina:

— Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!

Enquanto preparava o seu Êxodo, o meu Príncipe tinha recomeçado a amar a Cidade. Passava toda a manhã a apressar os encaixotadores. Descobria confortos novos para o solar abandonado. Telefonava grandes listas de encomendas para cada loja de Paris. Depois, era com delícia que se vestia, se perfumava, punha uma flor no casaco. Enterrava-se na vitória ou saltava para o assento do faetonte e corria ao Bosque. Saudava a barba talmúdica de Efraim e os bandós furiosamente negros da Verghane. Saudava o Psicólogo no seu fiacre e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito molas. A caleche tinha sido paga pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova. Depois juntava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no Bignon. Aí desdobrava o guardanapo com a impaciência de uma fome alegre. Vigiava com fervor se os Bordéus estavam bem aquecidos e os Champagnes bem gelados. E nos teatros das *Nouveautés*, do *Palais Royal*, dos *Bufos*, ria e batia na coxa. Ria de piadas velhas de farsas velhas, de caretas antiquíssimas de atores antiquíssimos. Já se tinha rido com elas na sua infância, antes da guerra, no tempo do segundo Napoleão!

De novo, em duas semanas, as páginas da sua Agenda ficaram cheias. A magnificência do seu traje de imperador Frederico II da Suábia deslumbrou todos no baile de máscaras da Princesa de Cravon-Rogan. (Também lá fui, vestido de «moço de forcado».) E na *Associação para o Desenvolvimento das Religiões Esotéricas* discursou e lutou bravamente pela construção de um Templo Budista em Montmartre!

Para meu espanto, recomeçou também a falar, como nos tempos da Escola, da «famosa Civilização nas suas máximas proporções». Mandou encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. Tive mesmo medo de uma ideia que podia nascer no seu espírito. Ele podia querer criar, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus órgãos. Pelo menos, o meu Jacinto não consentia que essas semanas na selvagem Tormes interrompessem a acumulação ilimitada de noções. Porque uma manhã entrou à força no meu quarto, aflito. Gritava que, entre tantos confortos e formas de Civilização, nos tínhamos esquecido dos livros! Era verdade, e que vergonha para a nossa Intelectualidade! Mas que livros escolher, entre os eloquentes milhares que faziam dobrar o 202? O meu Príncipe decidiu logo dedicar os seus dias na serra ao estudo da História Natural. Nós mesmos deitámos imediatamente no fundo de um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. Depois despejámos lá para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia, Botânica... Por cima espalhámos uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote estas Ciências oscilantes, entalámos à volta umas cunhas de Metafísica.

Mas chegou o dia da última caixa, pregada e cintada de ferro. Saiu do portão do 202 na última carroça da *Companhia dos Transportes*. Então toda esta animação de Jacinto caiu, como a espuma num copo de Champagne. Estávamos já em meados de março, e o tempo era morno. De novo os seus desagradáveis bocejos encheram o 202 como um trovão. Todos os sofás rangeram sob o peso do corpo que ele atirava para cima deles. Estava mortalmente vencido pela fartura e pelo tédio. Desejava um repouso eterno, bem envolvido em solidão e silêncio. Desesperei. O quê! Ia eu aturar ainda aquele Príncipe a palpar amargamente a caveira? Ia ouvi-lo ainda, quando o crepúsculo entristecia a Biblioteca, falar em tom rouco da doçura das mortes rápidas? Mortes pela violência misericordiosa do ácido cianídrico? Ah não, caramba! Uma tarde encontrei-o estendido num divã, de braços em cruz. Parecia a sua própria estátua de mármore sobre o seu jazigo de granito. Sacudi-o mesmo com fúria, a berrar:

— Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a brilhar, cheio de coisas! Os ossos dos teus avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, vamos enterrar esses mortos e viver nós, os vivos!... Irra! São cinco de abril!... É o bom tempo da serra!

O meu Príncipe ergueu-se lentamente da sua inércia de pedra:

— O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grilo e o Anatole, que engraxa bem o calçado e tem jeito como pedicuro... Hoje é domingo.

Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:

— Bem, partimos no sábado!... Avisa tu o Silvério!

Começou então o estudo trabalhoso e pensativo dos Horários. O dedo magro de Jacinto avançava e recuava sobre o mapa, entre Paris e Tormes. Queríamos escolher o «salão» onde devíamos viver durante a temida viagem. Para isso, percorremos duas vezes o depósito da Estação de Orleans. Andámos atolados em lama, atrás do Chefe do Tráfego, que ficava tonto. O meu Príncipe recusava este salão por causa da cor tristonha dos estofos. Depois recusava aquele por causa da pobreza aflitiva do Water-Closet! Uma das suas preocupações era o banho, nas manhãs que íamos passar a rolar. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou tanto como a mudança de comboio em Medina del Campo, de noite, nas trevas de Castela-a-Velha. A Companhia do Norte de Espanha e a de Salamanca escreveram cartas e enviaram telegramas. Tentaram em vão sossegar o meu camarada. Afirmavam que ele chegaria no comboio de Irun, dentro do seu salão. Outro salão, ligado ao comboio de Portugal, já estaria à espera. Estaria bem aquecido e bem iluminado, com uma ceia oferecida por um dos Diretores, D. Esteban Castillo. Era um ruidoso e corado conviva do 202! Jacinto passava os dedos ansiosos pela cara. «E os sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rápidos e os mais hábeis de toda a Europa! Ele murmurava: «Pois sim, mas em Espanha, de noite!...» A noite, longe da Cidade, não tinha telefone, nem luz elétrica, nem postos de polícia. Parecia ao meu Príncipe cheia de surpresas e assaltos. Só se acalmou depois de ir ao Observatório Astronómico. Ali verificou, com a garantia do sábio professor Bertrand, que a noite da nossa viagem era de lua cheia!

Enfim, na sexta-feira, acabou a tremenda organização daquela viagem histórica! O sábado predestinado amanheceu com um sol generoso, de uma doçura acariciadora. Eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as fotografias das criaturinhas suaves. Nesses vinte e sete meses de Paris, elas tinham-me chamado «*mon petit chou! mon rat cheri!*». Então Jacinto entrou de repente no quarto, com um soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido e todo nervoso.

— Vamos ao Bosque, como despedida?

Fomos, à grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e nas molas da vitória senti logo uma elasticidade que embalava mais. Depois, pela Avenida do Bosque, quase tive pena de não ficar a rolar ali para sempre. Rolávamos ao trote ritmado das éguas perfeitas, no brilho rico dos metais e dos vernizes. Rolávamos sobre aquele macadame, mais liso que o mármore, entre flores bem regadas e relvas tão tentadoras e frescas. Cruzávamos uma Humanidade fina, de elegância bem acabada. Essa gente tinha almoçado o seu chocolate em porcelanas de Sèvres ou de Minton. Tinha saído de entre sedas e tapetes de três mil francos. E respirava a beleza de abril com vagar, requinte e pensamentos ligeiros! O Bosque brilhava numa harmonia de verde, azul e ouro. Nenhum buraco ou terra solta estragava as alamedas polidas que a Arte tinha desenhado e enrolado entre as árvores. Nenhum ramo despenteado desmanchava as ondulações macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar das aves só se levantava para espalhar uma graça leve de vida com asas. E, entre as árvores sociáveis, parecia mais natural o ranger das selas novas. Nelas pousavam, com um balanço elegante, as amazonas com espartilhos do grande Redfern. Em frente do Pavilhão de Armenonville, cruzámo-nos com Madame de Trèves. Ela envolveu-nos a ambos na carícia do seu sorriso, mais vivo àquela hora pelo vermelhão ainda húmido. Logo atrás, no alto de um faetonte tilintante, apareceu a barba talmúdica de Efraim. Estava negra, fresca também da brilhantina da manhã. Outros amigos de Jacinto circulavam nas Acácias. As mãos que lhe acenavam, lentas e amáveis, calçavam luvas frescas cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle passou rente a nós como um relâmpago, numa grande bicicleta. Dornan, espalhado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto. Parecia perdido na busca de rimas sensuais e gordas. Mais à frente foi o Psicólogo, que não nos viu. Conversava, com um requebro melancólico, para dentro de um coupé que cheirava a alcova. Um cocheiro obeso dava dignidade e decência a esse coupé. E ainda rolávamos quando o Duque de Marizac, a cavalo, levantou a bengala e fez parar a nossa vitória. Queria perguntar a Jacinto se aparecia à noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu Príncipe rosnou um «não, parto para o sul...» que mal lhe passou entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou, porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da História Sagrada e da História Romana!... Madame Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas nuas, a limpar com os cabelos os pés do Cristo! O Cristo era um rapagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministério da Guerra. Gemia, derreado, sob uma cruz de cartão! Havia também Lucrécia na cama e Tarquínio ao lado, de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em mesas soltas, todos com os seus trajes históricos. Ele já tinha par: Madame de Malbe, que era Agripina! Esse quadro era portentoso: Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as formas. Admira umas e despreza outras, como imperfeitas. Mas, por delicadeza, tinha ficado combinado que Nero admiraria sem reservas todas as formas de Madame de Malbe... Enfim, colossal e estupendamente instrutivo!

Acenámos um longo adeus àquele alegre Marizac. Voltámos para casa, e Jacinto não saiu do silêncio enrugado em que se tinha afundado. Tinha os braços rigidamente cruzados, como se mastigasse pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente do Arco do Triunfo, moveu a cabeça e murmurou:

— É muito grave, deixar a Europa!

Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo, que se tinha enevoado, deixámos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre cheio de livros, estojos, casacos e impermeáveis. Levavam também travesseiros, águas minerais, sacos de couro e rolos de mantas. Mais atrás, um ónibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na Estação, Jacinto ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, Horários e mais livros. Comprou também um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo Chefe do Tráfego e pelo Secretário da Companhia, ocupámos em abundância o nosso salão. Pus o meu boné de seda e calcei os meus chinelos. Um silvo atravessou a noite. Paris brilhou e fugiu numa última luz de janelas... Para a beber com os olhos, Jacinto ainda se lançou à portinhola. Mas já rolávamos na treva da Província. O meu Príncipe caiu então sobre as almofadas:

— Que aventura, Zé Fernandes!

Até Chartres, em silêncio, folheámos as Ilustrações. Em Orleans, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles quatorze meses de Civilização, adormeci. Só acordei em Bordéus, quando Grilo, cuidadoso, nos trouxe o nosso chocolate. Lá fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um céu espesso de algodão sujo. Jacinto não se tinha deitado, porque desconfiava da aspereza e da humidade dos lençóis. Metido num roupão de flanela branca, com a cara arrepiada e estremunhada, molhava um bolo no chocolate e rosnava, sombrio:

— Este horror!... E agora com chuva!

Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza preguiçosa:

— É Biarritz.

Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o Historiador Danjon. Reconheceu o seu lento andar de pernas altas e o seu nariz bicudo e triste. Era ele, o homem eloquente, vestido de xadrez miúdo, ao lado de uma senhora roliça. Ela levava pela trela uma cadelinha peluda. Jacinto baixou a vidraça com violência e berrou pelo Historiador. Ansiava por comunicar ainda, através dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio já tinha mergulhado na chuva e no nevoeiro.

Sobre a ponte do Bidassoa, Jacinto adivinhou o fim da vida fácil e os espinhos da Incivilização. Suspirou, desanimado:

— Agora adeus, começa a Espanha!...

Indignado, eu, que já saboreava o ar generoso da terra bendita, saltei para diante do meu Príncipe. Dancei com tremendo *salero*, a estalar os dedos como castanholas, e cantei uma «petenera» à altura:

*A la puerta de mi casa*

*Ay Soledad, Soleda... á... á... á.*

Ele estendeu os braços, suplicante:

— Zé Fernandes, tem piedade do doente e do triste!

— *Irun*! *Irun*!...

Nessa Irun almoçámos bem e com gosto, porque a Companhia do Norte velava sobre nós, como uma Deusa omnipresente. Depois, «*el jefe d'Aduana, el jefe d'Estacion*» instalaram-nos com todo o cuidado noutro salão. Era novo, com cetins cor de azeitona, mas muito pequeno. Por isso, uma rica parte dos nossos confortos em mantas, livros, sacos e impermeáveis passou para o compartimento do *Sleeping*. Aí estavam refastelados o Grilo e o Anatole, ambos de bonés escoceses e a fumar charutos gordos. — *Buen viaje*! *Gracias*! *Servidores*! — E entrámos a silvar nos Pirenéus.

Sob a influência da chuva que embaciava tudo, e daquelas serras sempre iguais, escorreguei para uma sonolência doce. As serras desenrolavam-se, arrepiadas, diluídas no nevoeiro. Quando abria os olhos, encontrava Jacinto a um canto, com o livro fechado esquecido nos joelhos. Tinha os dedos magros cruzados por cima do livro. Olhava para os vales e os montes com a melancolia de quem entra nas terras do seu desterro! Num dado momento, atirou o livro, enterrou mais o chapéu mole e levantou-se com tanta decisão que tive medo. Receei que ele parasse o comboio para saltar para a estrada. Podia correr através das Vascongadas e de Navarra, de volta para o 202! Sacudi o meu torpor e exclamei: «Oh menino!...» Não! O pobre amigo ia apenas continuar o seu tédio noutro canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. À medida que a escuridão da tarde crescia, crescia também a tempestade de vento e água. Uma inquietação mais aterrada apoderava-se do meu Príncipe. Estava separado da Civilização e arrastado para a Natureza, que já o cercava com a sua brutalidade agreste. Não parou então de me fazer perguntas sobre Tormes:

— As noites são horríveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme solidão... E médico?... Há médico?

De repente, o comboio parou. A chuva bateu nas vidraças, mais grossa e ruidosa. Era um campo aberto, todo em trevas, onde rolava e soprava um grande vento solto. A máquina apitava com angústia. Uma lanterna brilhou, a correr. Jacinto batia o pé: «É medonho! É medonho!»... Abri um pouco a portinhola. Da luz incerta das vidraças saíam cabeças esticadas e assustadas. «*Que hay*? *Que hay*?» Uma rajada alagou-me, e recuei. Esperámos durante minutos lentos e calados, a esfregar desesperadamente os vidros embaciados, para sondar a escuridão. De repente, o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.

Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estação que parecia uma barraca. Um revisor, com o casacão de oleado a escorrer, subiu ao salão. Enquanto carimbava os bilhetes à pressa, disse-nos que o comboio vinha muito atrasado. Talvez não apanhasse em Medina o comboio de Salamanca!

— Mas então?...

O casaco de oleado tinha escorregado pela portinhola e fundiu-se na noite. Deixou um cheiro a humidade e azeite. E nós começámos um novo tormento... E se o comboio de Salamanca já tivesse partido? O salão tinha sido reservado até Medina e era desengatado em Medina. E eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas almas, despejados em Medina, em cima da lama! Ficaríamos entre vinte e três malas, numa rude confusão espanhola, sob a tormenta de vento e água!

— Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!

Para o meu Príncipe, essa noite em Medina parecia a suprema desgraça. Imaginava uma *fonda* sórdida, a cheirar mal a alho, com filas gordas de percevejos nos lençóis de estopa suja!... Não parei então de olhar, inquieto, para os ponteiros do relógio. Entretanto, Jacinto, à vidraça bem aberta, todo batido pela chuva ruidosa, furava a escuridão. Esperava ver as luzes de Medina e um comboio paciente a fumegar... Depois caía no divã, limpava os bigodes e os olhos e amaldiçoava a Espanha. O comboio arquejava, a romper o vasto vento da planície desolada. A cada apito, era uma agitação. Medina?... Não! Era algum apeadeiro escondido, onde o comboio se demorava, cansado, a resfolegar. Figuras adormecidas, encapuçadas e embrulhadas em mantas, rondavam sob o telheiro do barracão. As lanternas baças tornavam-no mais sombrio. Jacinto esmurrava o joelho: «Mas porque para este infame comboio? Não há tráfego, não há gente! Oh esta Espanha!...» A sineta badalava, moribunda. De novo rompíamos a noite e a tempestade.

Resignado, comecei a ler um *Jornal do Comércio* antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salão com passos cheios de raiva e rosnava como uma fera. E mesmo assim passou, gota a gota, uma hora cheia de eternidade. Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes palpitaram ao longe, no nevoeiro. As rodas passaram, com duros solavancos, pelas junções dos carris. Enfim, Medina!... Apareceu o muro sujo e branco de um barracão. Bruscamente, a portinhola abre-se com violência e aparece um cavalheiro barbudo, de capa à espanhola, a gritar pelo Sr. D. Jacinto!... Depressa! Depressa! Que parte o comboio de Salamanca!

— *Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!*

Agarro, tonto, o meu casaco e o *Jornal do Comércio*. Saltámos com ânsia. Fomos pela plataforma, por cima dos carris, através de charcos, a tropeçar em fardos. O vento empurrava-nos, e o homem da capa à espanhola também. Entrámos por outra portinhola, que se fechou com um estalo tremendo... Ambos arquejávamos. Era um salão forrado de um pano verde que comia a pouca luz. Eu estendia o braço para receber dos carregadores apressados as nossas malas, os nossos livros, as nossas mantas. Nesse momento, em silêncio, sem um apito, o comboio soltou-se e rolou. Ambos nos atirámos às vidraças, com gritos furiosos:

— Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grilo! Oh Grilo!

Uma imensa rajada levou os nossos gritos. Era de novo o campo aberto e tenebroso, sob a chuva que caía a pique. Jacinto levantou os punhos, numa fúria que o engasgava:

— Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!

Acalmei o meu desgraçado amigo:

— Escuta! Eu vi de relance dois carregadores a apanhar as nossas coisas... Certamente o Grilo vigiou tudo. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo connosco, no salão... Até podíamos jogar à manilha!

De resto, a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava pelo nosso conforto. Porque à porta do lavatório estava o cesto branco da nossa ceia. Na tampa tinha um bilhete de D. Esteban, com estas doces palavras a lápis: *á D. Jacinto y su egregio amigo, que les dè gusto*! Cheirou-me a perdiz. E sentimos alguma tranquilidade no coração, porque as nossas malas estavam também sob a proteção da Deusa omnipresente.

— Tens fome, Jacinto?

— Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.

Com efeito! Depois de emoções tão desencontradas, só nos apetecia dormir nas camas, que esperavam macias e abertas. Quando caí sobre o travesseiro, sem gravata, em ceroulas, o meu Príncipe já ressonava com majestade. Não se tinha despido. Tinha apenas embrulhado os pés no *meu* casaco, o nosso único agasalho.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi alguém junto da minha cama. Na luzinha da manhã, filtrada pelas cortinas verdes, estavam uma farda e um boné. Murmuravam baixinho, com imensa doçura:

— V. Ex.as não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho, com imensa ternura:

— Não temos aqui nada... Pergunte V. Ex.ª pelo Grilo... Aí atrás, num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grilo.

A farda desapareceu sem ruído, como uma sombra boa. E eu adormeci de novo a pensar em Guiães. Lá, a tia Vicência, muito ocupada, de lenço branco cruzado no peito, certamente já preparava o leitão.

Acordei envolvido num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas a subir pelas paredes. Havia outras rosas em moitas, num jardim. Aí um tanquezinho, tapado de limos, dormia sob duas mimosas em flor que deitavam perfume. Um moço pálido, de casaco cor de mel, dobrava a bengalinha contra o chão e olhava pensativo para o comboio. Agachada junto à grade da horta, uma velha contava moedas de cobre no colo, diante do seu cesto de ovos. No telhado secavam abóboras. Por cima brilhava o azul profundo, rico e macio que os meus olhos tanto desejavam.

Sacudi violentamente Jacinto:

— Acorda, homem, que estás na tua terra!

Ele desembrulhou os pés do meu casaco e alisou o bigode. Veio sem pressa à vidraça que eu tinha aberto, para conhecer a sua terra.

— Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

— Está claro que cheira bem, animal!

A sineta tocou languidamente. O comboio deslizou, com descanso, como se passeasse por gosto sobre as duas fitas de aço. Assobiava e gozava a beleza da terra e do céu.

O meu Príncipe abria os braços, aflito:

— E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de água-de-colónia!... Entro em Portugal imundo!

— Na Régua há uma paragem, temos tempo de chamar o Grilo e recuperar os nossos confortos... Olha para o rio!

Rolávamos na encosta de uma serra, sobre penhascos que desciam até largos socalcos cultivados de vinhas. Lá em baixo, numa esplanada, via-se uma casa nobre e branca, de repouso opulento. Tinha uma capelinha muito caiada, no meio de um laranjal maduro. O rio tinha uma água turva e lenta, que nem se quebrava contra as rochas. Por ele descia um barco lento carregado de pipas, de vela cheia. Mais além, outros socalcos, de um verde pálido de reseda, subiam com oliveiras que pareciam pequenas na amplidão dos montes. Subiam até outros penedos, todos brancos e cheios de sol, que mergulhavam na fina abundância do azul. Jacinto acariciava os pelos lisos do bigode:

— O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes!

Também eu! Destapámos o cesto de D. Esteban, e dele saiu um banquete grandioso. Havia presunto, borrego, perdizes e outras carnes frias. O ouro de duas nobres garrafas de Amontillado, com mais duas de Rioja, aquecia tudo com calor de sol andaluz. Durante o presunto, Jacinto lamentou, arrependido, o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar histórico, assim abandonado e vazio! Que delícia, naquela manhã tão brilhante e morna, subir à serra e encontrar a sua casa bem equipada, bem civilizada... Para o animar, lembrei-lhe as obras do Silvério e os muitos caixotes de Civilização enviados de Paris. Tormes estaria confortável até para Epicuro. Oh! Mas Jacinto queria dizer um palácio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim a conversar, atacámos as perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado quando o comboio, muito discretamente, entrou numa Estação. Era a Régua. O meu Príncipe pousou logo a faca, para chamar o Grilo e pedir as malas que traziam o asseio dos nossos corpos.

— Espera, Jacinto! Temos muito tempo. O comboio para aqui uma hora... Come com tranquilidade. Não estraguemos este almocinho com arrumações de maletas... O Grilo não tarda a aparecer.

E corri mesmo a cortina, porque lá fora tinha parado um padre muito alto. Tinha uma ponta de cigarro colada ao lábio e espreitava indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabámos as perdizes, e Jacinto desembrulhava, confiante, um queijo manchego, nem Grilo nem Anatole apareciam. Inquieto, corri à portinhola para apressar esses criados atrasados... E nesse instante o comboio partiu e deslizou com o mesmo silêncio discreto. Para o meu Príncipe foi um desgosto:

— Aí ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Zé Fernandes!

— É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e parte! Paciência, Jacinto. Em duas horas estamos na Estação de Tormes... Também não valia a pena mudar de camisa para subir à serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar... A banheira já deve estar instalada.

Ambos nos consolámos com copinhos de uma divina aguardente de Chinchon. Depois, estendidos nos sofás, saboreámos os dois charutos que nos restavam. Com as vidraças abertas ao ar adorável, conversámos sobre Tormes. Na estação estaria certamente o Silvério, com os cavalos...

— Quanto tempo leva a subir?

Uma hora. Depois de nos lavarmos, sobrava tempo para um longo passeio pelas terras com o caseiro, o excelente Melchior. Assim o Senhor de Tormes tomaria posse solene do seu Senhorio. E à noite, o primeiro banquete da serra, com os piteus genuínos do velho Portugal!

Jacinto sorria, seduzido:

— Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu recomendei que fosse um soberbo cozinheiro português, clássico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples da cozinha de França!... O pior é não te demorares e seguires logo para Guiães...

— Ah, menino, anos da tia Vicência no sábado... Dia sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma grande Bucólica. E, está claro, para assistir à trasladação.

Jacinto tinha estendido o braço:

— Que casarão é aquele, além no outeiro, com a torre?

Eu não sabia. Algum solar de um pequeno fidalgo do Douro... Tormes era assim, baixo e maciço. Casa de séculos e para séculos, mas sem torre.

— E vê-se logo Tormes, da estação?...

— Não! É muito no alto, numa prega da serra, entre as árvores.

No meu Príncipe já tinha evidentemente nascido uma curiosidade pela sua rude casa dos antepassados. Olhava para o relógio, impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, respirando o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de um iniciado:

— Que doçura, que paz...

— Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!

Guardei o meu velho *Jornal do Comércio* dentro do bolso do casaco, que pus sobre o braço. Ambos de pé, às janelas, esperámos com alvoroço a pequenina Estação de Tormes, fim feliz das nossas provações. Apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas. Tinha girassóis vistosos a encher um pequeno jardim e duas altas figueiras a dar sombra ao pátio. Por trás, estava a serra coberta de árvores velhas e densas... Logo na plataforma vi com gosto a imensa barriga e as bochechas de menino do chefe da Estação. Era o louro Pimenta, meu colega em Retórica, no Liceu de Braga. Os cavalos esperavam decerto à sombra, sob as figueiras.

Mal o comboio parou, saltámos ambos alegremente. A massa bojuda do Pimenta rolou para mim com amizade:

— Viva o amigo Zé Fernandes!

— Oh belo Pimentão!...

Apresentei o senhor de Tormes. E logo a seguir:

— Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o Silvério?

— Não... O Silvério partiu há quase dois meses para Castelo de Vide. Foi ver a mãe, que apanhou uma cornada de um boi!

Lancei a Jacinto um olhar inquieto:

— Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão aí os cavalos para subirmos à quinta?

O digno chefe levantou, surpreendido, as sobrancelhas cor de milho:

— Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... Há que tempos eu não vejo o Melchior!

O carregador tocou lentamente a sineta para o comboio partir. Olhámos à volta, na Estação lisa e despovoada, e não vimos nem criados nem malas. Então o meu Príncipe e eu lançámos o mesmo grito de angústia:

— E o Grilo? As bagagens?...

Corremos pela beira do comboio, a berrar com desespero:

— Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!

Esperávamos que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos. Subíamos aos estribos e metíamos a cabeça dentro dos compartimentos. Assustávamos a gente quieta com o mesmo berro que retumbava: «Grilo, estás aí, Grilo?» Já de uma terceira classe, onde tocava uma viola, um brincalhão gritava, a troçar: «Não há por aí um grilo? Andam por aí uns senhores a pedir um grilo!» E nem Anatole, nem Grilo!

A sineta tocou.

— Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes partir o comboio!... As nossas bagagens, homem!

Aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, para procurar as nossas vinte e três malas! Só encontrámos barris, cestos de vime, latas de azeite e um baú amarrado com cordas... Jacinto mordia os lábios, lívido. E o Pimentinha, de olhos esbugalhados:

— Oh filhos, eu não posso atrasar o comboio!...

A sineta tocou outra vez... E com um belo fumo claro, o comboio desapareceu por detrás das altas rochas. Tudo à volta pareceu mais calado e deserto. Ali ficávamos, portanto, largados e perdidos na serra. Estávamos sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu tinha o casaco claro, de onde saía o *Jornal do Comércio*. Jacinto tinha uma bengala. Eram todos os nossos bens!

O Pimentão abria para nós os olhinhos inchados e cheios de pena. Contei então a esse amigo a mudança atrapalhada em Medina, sob a tempestade. Contei que o Grilo se tinha perdido e estava encalhado com as vinte e três malas. Ou talvez rolasse para Madrid, sem nos deixar um lenço...

— Eu não tenho um lenço!... Tenho este *Jornal do Comércio*. É toda a minha roupa branca.

— Grande arrelia, caramba! — murmurava o Pimenta, impressionado. — E agora?

— Agora — exclamei — é trepar para a quinta, a pé... A não ser que se arranjassem aí uns burros.

Então o carregador lembrou-se de uma coisa. Perto dali ficava o casal da Giesta, que ainda pertencia a Tormes. O caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um jumento... E o prestável homem saiu a correr para a Giesta. Entretanto, o meu Príncipe e eu caímos num banco, ofegantes e sem forças, como náufragos. O vasto Pimentinha, com as mãos nos bolsos, não parava de nos olhar e de murmurar: «É de arrelia.» O rio, em frente, descia preguiçoso, como adormecido sob a calma já pesada de maio. Abraçava, sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que brilhava. Mais além, a serra crescia em corcovas doces. Tinha uma prega funda onde se aninhava uma vilazinha clara, bem junta e esquecida do mundo. O espaço imenso repousava num imenso silêncio. Naquelas solidões de monte e rocha, os pardais que voavam no telhado pareciam aves importantes. E a massa redonda e vermelha do Pimentinha dominava e enchia a região.

— Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm aí os bichos!... Só o que não se arranjou foi um selinzinho para a jumenta!

Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta. Sacudia na mão duas esporas diferentes e enferrujadas. Não tardaram a aparecer no córrego, para nos levarem a Tormes. Eram uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um podengo. Apertámos a mão suada e amiga do Pimentinha. Cedi a égua ao senhor de Tormes. E começámos a subir o caminho. Não tinha sido alisado nem arranjado desde os tempos dos Jacintos do século XIV! Eles pisavam-no com rudes sapatões ferrados, de rio a monte. Atravessámos uma trémula ponte de madeira sobre um riacho cheio de pedras. Logo depois, com o olho de dono subitamente agudo, o meu Príncipe notou a força e a abundância das oliveiras... E em breve esquecemos os nossos males, diante da incomparável beleza daquela serra bendita!

Com que brilho e com que inspiração generosa a tinha composto o divino Artista que faz as serras! Tanto cuidou delas e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, muito fundos, desciam bandos de árvores. Eram tão densas e redondas, de um verde tão novo, que pareciam um musgo macio. Apetecia cair e rolar nele. Das encostas, por cima do carreiro de pedras, largos ramos estendiam o seu toldo amável. O voo leve dos pássaros sacudia o seu perfume. Os muros seculares seguram as terras e estão presos pelas heras. Através deles saíam grossas raízes torcidas, e nelas se enrolava mais hera. Em todo o torrão, de cada fenda, nasciam flores silvestres. Nas encostas, rochas brancas estendiam a sua sólida nudez, com o ventre polido pelo vento e pelo sol. Outras, vestidas de líquenes e de silvas em flor, avançavam como proas de galeras enfeitadas. E no meio das rochas apinhadas nos cimos, havia um ou outro casebre que tinha subido até lá. Todo amachucado e torto, espreitava pelas pequenas janelas negras. Por cima tinha mechas despenteadas de verdura, que o vento lhe tinha semeado nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água que dá vida... Regatinhos espertos fugiam, a rir com os seixos, entre as patas da égua e do burro. Ribeiros grossos e apressados saltavam com barulho de pedra em pedra. Fios direitos e brilhantes, como cordas de prata, vibravam e faiscavam das alturas até aos barrancos. E muitas fontes, à beira dos caminhos, jorravam por uma bica, para bem de todos. Estavam à espera dos homens e dos gados... Às vezes, todo um monte era um campo de cereais. Aí um vasto carvalho antigo e solitário dominava, como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais perfumados. Caminhos de lajes soltas rodeavam prados ricos, com carneiros e vacas a pastar. Outros caminhos eram mais estreitos e apertados entre muros. Entravam sob ramos espessos de videira, numa penumbra de repouso e frescura. Subíamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres escondidos entre figueiras. Aí se desfazia o fumo branco e cheiroso das pinhas, que fugia da lareira pelas telhas. Nos montes distantes, por cima do negro pensativo dos pinhais, branqueavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um tilintar disperso de chocalhos de guizos morria pelas encostas...

Jacinto, à frente, na sua égua ruça, murmurava:

— Que beleza!

E eu, atrás, no burro de Sancho, murmurava:

— Que beleza!

Ramos frescos tocavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque não as tinham maduras. Todos os vidros de uma casa velha, com a sua cruz no topo, brilharam hospitaleiramente quando passámos. Durante muito tempo, um melro seguiu-nos, de azinheiro em olmo, a assobiar os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E fiquemos sempre contigo, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!

Assim, devagar e maravilhados, chegámos àquela avenida de faias que sempre me tinha encantado pela sua fidalga gravidade. O nosso rapaz deu uma chicotada no burro e na égua. Com o seu podengo nos calcanhares, gritou: «Aqui é que estêmos, meus amos!» Ao fundo das faias, com efeito, aparecia o portão da quinta de Tormes. Tinha o seu brasão de armas, de granito secular. O musgo retocava-o e envelhecia-o ainda mais. Lá dentro, os cães já ladravam com fúria. Jacinto, na sua égua suada, e eu atrás, no burro de Sancho, passámos o portão do solar. Então, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, desceu para nós um homem gordo e liso. Vinha rapado como um padre, sem colete, sem casaco. Acalmava os cães, que ladravam com raiva ao meu Príncipe. Era o Melchior, o caseiro... Logo que me reconheceu, abriu toda a boca num riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas depois revelei-lhe quem era aquele cavalheiro de bigodes louros, que descia da égua a esfregar as ancas. Era o senhor de Tormes! O bom Melchior recuou logo, cheio de espanto e terror, como diante de um fantasma.

— Ora essa!... Santíssimo nome de Deus! Pois então...

E, entre o rosnar dos cães, a agitar os braços, desolado, balbuciou uma história. Agora era Jacinto quem se apavorava, como se o negro muro do casarão estivesse para cair. O Melchior não esperava S. Ex.ª! Ninguém esperava S. Ex.ª!... (Ele dizia *sua Incelência*)... O Sr. Silvério estava em Castelo de Vide desde março, com a mãe, que tinha apanhado uma cornada na virilha. E decerto tinha havido engano, cartas perdidas... Porque o Sr. Silvério só contava com S. Ex.ª em setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas. Muitas janelas ainda esperavam pelos vidros. E, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...

Jacinto cruzou os braços, numa cólera tumultuosa que o sufocava. Por fim, com um berro:

— Mas os caixotes? Os caixotes mandados de Paris, em fevereiro, há quatro meses?...

O desgraçado Melchior abria muito os olhos miúdos, que se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada tinha chegado, nada tinha aparecido!... E, na sua perturbação, olhava pelas arcadas do pátio e apalpava o bolso das calças. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!

— E agora, Zé Fernandes?

Encolhi os ombros:

— Agora, meu filho, só vindo comigo para Guiães... Mas são duas horas fartas a cavalo. E não temos cavalos! O melhor é ver o casarão e comer a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto. Depois, dormir numa enxerga e, amanhã cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia Vicência.

Jacinto respondeu, com uma decisão furiosa:

— Amanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para Lisboa!

E subiu a gasta escadaria do seu solar, com amargura e rancor. Em cima, uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de vigas negras. Entre os pilares de granito, estava toda enfeitada com caixas de madeira onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo e entrei atrás de Jacinto nas salas nobres. Ele olhava para elas com um murmúrio de horror. Eram enormes, com a sonoridade de uma sala de convento. Os muros grossos estavam enegrecidos pelo tempo e pelo abandono. As salas eram geladas, desoladamente nuas. Só tinham nos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos tetos distantes, de carvalho em painéis, brilhavam manchas de céu através dos rasgões. As janelas, sem vidros, conservavam as portadas maciças, com fechos para as trancas, que, quando se fecham, espalham a escuridão. Sob os nossos passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e cedia.

— Inabitável! — rugia Jacinto, surdamente. — Um horror! Uma infâmia!...

Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tábuas novas. Os mesmos remendos claros manchavam os velhíssimos tetos de rico carvalho escuro. As paredes repeliam pelo branco cru da cal fresca. E o sol mal atravessava as vidraças, embaciadas e gordurosas da massa e das mãos dos vidraceiros.

Entrámos enfim na última sala, a mais vasta, com seis janelas. Tinha como móveis um armário e uma enxerga parda e curta, estendida a um canto. Junto dela parámos. Sobre ela pusemos, tristemente, o que nos restava de vinte e três malas. Era o meu casaco claro, a bengala de Jacinto e o *Jornal do Comércio*, que era de ambos. Pelas janelas abertas, sem vidros, o grande ar da serra entrava e circulava como num terraço. Trazia um cheiro fresco a horta regada. Mas o que víamos, da beira da enxerga, era um pinhal que cobria um monte. Descia pela encosta suave como um exército em marcha, com pinheiros à frente, separados, direitos, de penachos negros. Mais longe estavam as serras do outro lado do rio, de uma fina e macia cor de violeta. Depois havia o branco do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E lá de baixo, dos vales, subia, solitária e melancólica, a voz de um pastor a cantar.

Jacinto caminhou lentamente para o banco de pedra de uma janela. Caiu ali, esmagado pelo desastre, sem resistência perante aquele brusco desaparecimento de toda a Civilização! Eu apalpava a enxerga, dura e gelada como um granito de inverno. Pensei nos luxuosos colchões de penas e molas, tão generosamente encaixotados no 202. E desabafei também a minha indignação:

— Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos caixotes enormes?...

Jacinto sacudiu amargamente os ombros:

— Encalhados, por aí, algures, num barracão!... Em Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferença das Companhias, inércia do Silvério... Enfim a Península, a barbárie!

Vim ajoelhar-me no outro banco de pedra, com os olhos consolados pelo céu e pelo monte:

— É uma beleza!

O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, com a cara encostada à mão:

— É uma lindeza... E que paz!

Por baixo da janela crescia uma horta viçosa e farta. Tinha repolhos, feijões, talhões de alface e gordas folhas de abóbora a rastejar. Uma eira velha e mal alisada dominava o vale. De lá subia já, muito leve, a névoa de algum ribeiro fundo. Toda a esquina do casarão, desse lado, entrava num laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas trémulas, corria um longo fio de água brilhante.

— Estou com um apetite desesperado daquela água! — declarou Jacinto, muito sério.

— Também eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cozinha, para saber do frango.

Voltámos à varanda. O meu Príncipe, já mais conciliado com o destino cruel, colheu um cravo amarelo. Por outra porta baixa, de ombreiras duríssimas, entrámos numa sala cheia de caliça. Não tinha teto, só grossas vigas, e de lá levantou-se um bando de pardais.

— Olha para este horror! — murmurava Jacinto, arrepiado.

Descemos por uma escada escura de castelo. Depois avançámos às apalpadelas por um corredor tenebroso, de lajes ásperas. Estava atravancado por arcas profundas, capazes de guardar todo o grão de uma província. Ao fundo, a cozinha imensa era uma massa de formas negras: madeira negra, pedra negra, negruras densas de fuligem secular. Nesta escuridão brilhava a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha. Lambia tachos e panelas de ferro e lançava uma fumarada. O fumo fugia pela grade aberta no muro e depois por entre as folhas dos limoeiros. Na enorme lareira, os Jacintos medievais aqueciam-se e assavam as suas grossas peças de porco e de boi. Agora não servia, por causa da sobriedade dos caseiros. Nela havia só um monte negro e poeirento de cestos e ferramentas. Toda a claridade entrava por uma porta de castanho, aberta sobre um pequeno quintal rústico. Ali se misturavam couves lombardas e belos junquilhos. À volta do lume, um bando agitado de mulheres depenava frangos, mexia as caçarolas e picava a cebola. Trabalhavam com fervor, vermelhas do lume e sempre a falar. Todas se calaram quando aparecemos. Do meio delas, o pobre Melchior, tonto, com o sangue a subir à cara lisa de abade, correu para nós. Jurava «que o jantarinho de suas Incelências não demorava um credo»...

— E a respeito de camas, oh amigo Melchior?

O digno homem sussurrou uma desculpa envergonhada «sobre enxergazinhas no chão...»

— É o que basta! — acudi eu, para o consolar. — Por uma noite, com lençóis frescos...

— Ah, quanto aos lençoizinhos, respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um colchãozinho de lã, sem um lombinho de vaca... Que eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. Incelências podiam ir dormir aos *Ninhos*, a casa do Silvério. Tinham lá camas de ferro, lavatórios... Mas sempre é uma leguazita e mau caminho...

Jacinto, bondoso, acudiu:

— Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da serra!

Saímos para o terreiro, um pedaço de horta fechado por grossas rochas cobertas de verdura. Encostava aos socalcos da serra, onde o centeio alourava. O meu Príncipe bebeu da água gelada e brilhante da fonte, com gosto, com os lábios na bica. Teve vontade de comer a alface gorda e crespa. E deu saltos para os ramos altos de uma grande cerejeira, toda carregada de cerejas. Depois, seguimos junto ao velho lagar, onde um bando de pombas branqueava o telhado. Descemos até ao carreiro, cortado no lado do monte. Enquanto andava, pensativo, o meu Príncipe ficava pasmado a olhar para os milharais. Olhava para os velhos carvalhos plantados por velhos Jacintos. Olhava para os casebres espalhados nos montes, à beira negra dos pinhais.

De novo entrámos na avenida de faias e passámos o portão senhorial, entre o ladrar dos cães. Agora estavam mais mansos, porque farejavam um dono. Jacinto reconheceu «certa nobreza» na fachada da sua casa. Mas agradava-lhe sobretudo a longa alameda, tão direita e larga. Parecia desenhada para por ali passar um desfile de Senhores a cavalo, com plumas e pajens. Depois, de cima da varanda, reparou na telha nova da capela. Elogiou o Silvério, «esse preguiçoso», por cuidar ao menos da morada do Bom Deus.

— E esta varanda também é agradável — murmurou ele, mergulhando a cara no aroma dos cravos. — Precisa de grandes poltronas, de grandes divãs de verga...

Dentro, na «nossa sala», sentámo-nos ambos nos bancos de pedra da janela. Olhávamos para o doce sossego do crepúsculo, que descia lentamente sobre o vale e o monte. No alto tremia uma estrelinha, a Vénus de diamante, lânguida mensageira da noite e dos seus prazeres. Jacinto nunca tinha olhado demoradamente para aquela estrela de brilho amoroso. Ela conserva no nosso Céu católico a memória da Deusa incomparável. Também nunca tinha assistido, de alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. Os montes escureciam e cobriam-se de sombra. As árvores calavam-se, cansadas de sussurrar. O brilho das casas apagava-se mansamente. O cobertor de névoa agasalhava o frio dos vales. Um toque sonolento de sino rolava pelas encostas. As águas e as relvas escuras segredavam baixinho. Tudo isto era para ele como uma iniciação. Daquela janela, aberta sobre as serras, via vagamente uma outra vida. Não estava cheia apenas do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar, como quem enfim descansa.

Deste encanto arrancou-nos o Melchior, com o doce aviso do «jantarinho de suas Incelências». Era noutra sala, mais nua, mais abandonada. Logo à porta, o meu super-civilizado Príncipe parou, gelado pelo desconforto, pela pobreza e pela rudeza das coisas. A mesa estava encostada ao muro escuro, marcado pelo fumo das candeias. Sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata iluminavam grossos pratos de louça amarela. Ao lado havia colheres de estanho e garfos de ferro. Os copos eram de vidro espesso. Conservavam a sombra roxa do vinho que tinha passado por eles em anos fartos de fartas vindimas. A malga de barro, cheia de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetada na côdea de um imenso pão, brilhava uma imensa faca. Ao meu Príncipe estava reservada a cadeira senhorial, o último móvel dos velhos Jacintos. Tinha as costas rígidas, de couro, e a madeira roída pelo caruncho. A crina fugia em madeixas pelos rasgões do assento gasto.

Uma moça formidável entrou, a esmagar o soalho, com uma terrina a fumegar. Tinha enormes peitos, que lhe tremiam dentro das flores do lenço cruzado. Estava ainda suada e vermelha do calor da lareira. O Melchior vinha atrás, com a infusa do vinho. Esperava que suas Incelências lhe perdoassem, porque tinha faltado tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a cadeira dos antepassados. Durante alguns momentos, esfregou com energia, com a ponta da toalha, o garfo negro e a escura colher de estanho. Para o excelente caseiro, foram momentos de ansiedade, de olhos arregalados. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e cheirava bem. Provou, e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Voltou a sorver uma colherada mais cheia, mais pensada. E sorriu, com espanto: «Está bom!»

Estava precioso. Tinha fígado e tinha moela. O seu perfume comovia. Três vezes, com fervor, ataquei aquele caldo.

— Também lá volto! — exclamava Jacinto, com uma convicção imensa. — É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou, com avareza, a sopeira. E já espreitava a porta, à espera da portadora dos piteus. A forte moça de peitos trémulos apareceu enfim, mais vermelha, a fazer tremer o soalho. Pousou na mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre tinha detestado favas!... Tentou, no entanto, uma garfada tímida. E de novo aqueles olhos, que o pessimismo tinha enevoado, brilharam e procuraram os meus. Outra larga garfada, concentrada, com a lentidão de um frade que se regala. Depois um grito:

— Ótimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres faladoras que lá em baixo mexiam as panelas. Louvava o Melchior, que presidia ao banquete...

— Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem ótimo sorria, já completamente tranquilo:

— Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto também vai engordar e ganhar força!

O bom caseiro acreditava sinceramente numa coisa. Perdido nesses distantes Parises, longe da fartura de Tormes, o Senhor de Tormes passava fome e emagrecia... E o meu Príncipe, na verdade, parecia matar uma fome muito antiga e uma longa saudade da abundância. A cada travessa, rompia em louvores mais ricos. Veio o louro frango assado no espeto e a salada que ele tinha desejado na horta. Estava agora temperada com um azeite da serra, digno dos lábios de Platão. Diante deles, acabou por gritar: «É divino!» Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, que caía do alto, da infusa verde e bojuda. Era um vinho fresco, vivo, cheio de seiva. Tinha mais alma e entrava mais na alma do que muitos poemas ou livros santos. O meu Príncipe olhava, à luz da vela de sebo, para o copo grosso, com a sua leve espuma rosada. Com um brilho de otimismo na cara, citou Virgílio:

— *Quo te carmina dicam, Rethica*? Quem te cantará dignamente, vinho amável destas serras?

Eu, que não gosto que me passem à frente em saber clássico, sacudi logo também o pó ao meu Virgílio. Louvei as doçuras da vida rural:

— *Hanc olim veteres vitam coluere Sabini*... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!

Imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior abria os olhos para nós, em infinito espanto e religiosa reverência.

Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob a proteção do Melchior. Ele ainda nos forneceu depois o tabaco, previdente e protetor. Tínhamos pela frente uma noite de monte. Por isso voltámos para as janelas sem vidros, na sala imensa, a olhar para o sumptuoso céu de verão. Filosofámos então com calma e eloquência.

Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olha para os astros, nem se pensa neles. É por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade, que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o Universo. E essa comunhão é a única glória e a única consolação da Vida. Mas na serra não há prédios disformes de seis andares. Não há a fumarada que tapa Deus. Não há as preocupações que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pó rasteiro. Um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, a fumar nos bancos de uma janela, olham para os astros. E os astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros olham com curiosidade e ânsia, com uma luz que acena, uma luz que chama. Parece que tentam, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...

— Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?

— Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinhal?

— Não sei.

Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque tinha na sua Biblioteca trezentos e oito tratados sobre Astronomia. E o Saber assim acumulado forma um monte que nunca se atravessa nem se diminui. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírius e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto e outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, somos modos diferentes de um Ser único. As nossas diferenças espalhadas somam-se na mesma Unidade compacta. Somos Moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, a rolar para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro... Tudo é o mesmo Corpo. Nele circula, como um sangue, o mesmo Deus. Quando um tremor de vida, por menor que seja, passa numa fibra desse Corpo sublime, repete-se em todas as outras. Chega até às mais humildes, até às que parecem sem vida. Um Sol que não vejo, nem nunca verei, morre de fome nas profundezas. Então este galho fino de limoeiro, lá em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte. E quando eu bato com o pé no soalho de Tormes, lá longe o monstruoso Saturno estremece. E esse estremecimento percorre o Universo inteiro! Jacinto bateu com força com a mão no rebordo da janela. Eu gritei:

— Acredita!... O sol tremeu.

E depois (como eu notei) devíamos pensar numa coisa. Sobre cada um desses grãos de pó luminoso existe uma criação, que sem parar nasce, morre e renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, sentados às janelas de outras Tormes, olham para o céu noturno. E nele veem um pequenininho ponto de luz, que é a nossa poderosa Terra, que nós tanto exaltamos. Nem todos terão esta nossa forma, tão frágil, tão desconfortável. Ela é singularmente feia e burlesca, a não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus de Milo e talvez na Princesa de Carman. Mas podem ser horrendos ou de uma beleza indescritível. Podem ser colossais, de uma carne mais dura que o granito, ou leves como gases, a ondular na luz. Todos eles são seres pensantes e têm consciência da Vida. Porque decerto cada Mundo tem o seu Descartes. Ou então o nosso Descartes já os percorreu a todos, com o seu Método e a sua capa escura. Levou a sua agudeza elegante e formulou a única certeza talvez certa, o grande *Penso logo existo*. Portanto, todos nós somos Habitantes dos Mundos, às janelas dos nossos casarões, lá nos Saturnos ou aqui na nossa Terrazinha. E fazemos sempre um ato sagrado, que nos penetra e nos funde. Sentimos no Pensamento o núcleo comum de todos os nossos modos de ser. E assim realizamos por um momento, dentro da Consciência, a Unidade do Universo! Hein, Jacinto?...

O meu amigo rosnou:

— Talvez... Estou a cair de sono.

— Também eu. «Remontamos muito, Ex.mo Sr.!», como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vão, do que uma conversa no alto das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanhã?

— Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso *logo fujo*!» Como queres tu, nesta ruína, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro-me em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E também fico à espera que estas obras acabem e que os caixotes apareçam. Depois posso voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...

— É verdade, os ossos...

— Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andará esse perdido?

Então, a passear lentamente na sala enorme, meditámos na sorte do Grilo. A vela de sebo, já derretida no castiçal de lata, era como um lume de cigarro num campo aberto. O estimado negro podia ter sido despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos gritos. Ou então, regaladamente adormecido, tinha rolado com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos pareciam ao meu Príncipe irremediavelmente destruidores do seu conforto...

— Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na *fonda*, tirou de cima os percevejos e esta madrugada correu para Tormes. Quando amanhã desceres à Estação, às quatro horas, encontras o teu precioso homem, com as tuas preciosas malas. Vem metido nesse comboio que te leva ao Porto e à Capital...

Jacinto sacudiu os braços, como quem luta nas malhas de uma rede:

— E se seguiu para Madrid?

— Então, por esta semana, aparece cá em Tormes. Aqui encontra ordem para voltar a Lisboa e entrar de novo no teu séquito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se amanhã encontrares o Grilo na Estação, separa a minha mala negra, o saco de lona e a chapeleira. O Grilo conhece-as. E pede ao Pimenta, ao gorducho, que me avise para Guiães. Se o Grilo chegar a Tormes, apressado, de Madrid, com toda essa malaria, deixa aqui as minhas coisas, ao Melchior... Amanhã eu falo ao Melchior.

Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:

— Mas como posso partir para Lisboa, amanhã, com esta camisa de dois dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes!

Fértil em ideias, estendi as mãos, num belo gesto protetor:

— Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu saio daqui cedo, pelas seis horas, e chego a Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da conversa com a tia Vicência, mando-te logo um moço. Ele leva-te um saco de roupa branca. As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te fiquem largas. Mas um mendigo como tu não tem direito a elegâncias e a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote, entra aqui às duas horas. Tens tempo de mudar de roupa antes de desceres para a Estação... Posso meter na mala uma escova de dentes.

— Oh Zé Fernandes! Então mete também uma esponja... E um frasco de água-de-colónia!

— Água de alfazema, excelente, feita pela tia Vicência...

O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua miséria suja e com esta oferta de roupas:

— Bem, então vamos dormir, que estou exausto de emoções e de astros...

Justamente, o Melchior abria um pouco a pesada porta, com timidez. Vinha avisar que «estavam preparadinhas as camas de suas Incelências». Seguimos o bom caseiro, que levantava uma candeia. E que vimos nós, o meu Príncipe e eu, ainda há pouco irmãos dos astros? Vimos duas saletas, separadas por um arco de pedra escuro, e duas enxergas no soalho. Junto à cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de Tormes, havia um castiçal de latão sobre um alqueire. Aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de um banco de três pés. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o pé, o meu super-civilizado amigo apalpou a enxerga. Decerto sentiu uma dureza intransigente, porque ficou curvado sobre ela. Passava os dedos, desolado, pela cara sem cor.

— E o pior ainda não é a enxerga — murmurou enfim, com um suspiro. — É que não tenho camisa de dormir, nem chinelos!... E não me posso deitar de camisa engomada.

Por inspiração minha, recorremos ao Melchior. De novo, esse homem generoso resolveu o problema. Trouxe a Jacinto uns tamancos, para ele descansar os pés. Trouxe também, para embrulhar o corpo, uma camisa da comadre, enorme, de estopa. Era áspera como o hábito de um penitente, com folhos mais crespos e duros do que trabalhos em madeira. Para consolar o meu Príncipe, lembrei-lhe Platão, quando compunha o *Banquete*, e Vasco da Gama, quando dobrava o Cabo. Nenhum dos dois dormia em melhores camas! As enxergas duras fazem as almas fortes, oh Jacinto!... E é só vestido de estamenha que se entra no Paraíso.

— Tens tu — respondeu o meu amigo, secamente — alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem um livro.

Eu? Um livro? Só tinha o velho número do *Jornal do Comércio*, que tinha escapado à dispersão dos nossos bens. Rasguei o grande jornal pelo meio e partilhei-o fraternalmente com Jacinto. Ele ficou com a sua metade, que era a dos anúncios... Jacinto, senhor de Tormes, estava então encolhido à beira da enxerga. A seu lado, a vela de sebo derretia-se no alqueire. Tinha os pés enfiados nos tamancos e estava perdido dentro das pregas ásperas e dos duros folhos da camisa serrana. Percorria pensativamente, num pedaço velho de jornal, as partidas dos Paquetes. Quem não o viu assim não pode saber o que é uma imagem intensa e verdadeira do Desânimo.

Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, num delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me chamou:

— Zé Fernandes...

— Diz.

— Manda também no saco uma abotoadeira de botas.

Estendi-me comodamente na dura enxerga. Murmurei, como sempre murmuro ao entrar no Sono, que é um primo da Morte: «Deus seja louvado!» Depois peguei na metade do *Jornal do Comércio* que me pertencia.

— Zé Fernandes...

— Que é?

— Também podias meter no saco pó de dentes... E uma lima das unhas... E um romance!

Já a meia Gazeta me escapava das mãos adormecidas. Mas do seu quarto, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:

— Zé Fernandes...

— Hein?

— Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!

### Glossário

- **trasladação**: mudança dos ossos de um morto para outro lugar.
- **jazigo**: construção onde se guardam os mortos de uma família.
- **Alea jacta est**: frase latina que quer dizer «a sorte está lançada».
- **lavradeirona**: mulher do campo, grande e forte.
- **lastro**: peso colocado no fundo de alguma coisa para a manter firme.
- **moço de forcado**: homem que enfrenta o touro com as mãos, nas touradas portuguesas.
- **quadros vivos**: cenas feitas por pessoas vestidas a rigor e paradas, como numa pintura.
- **salão**: aqui, carruagem de comboio de luxo, reservada para poucas pessoas.
- **desterro**: castigo de viver longe do seu país.
- **iniciado**: pessoa que começa a conhecer um mundo novo ou secreto.
- **vidraça**: vidro de uma janela.
- **vidraças**: vidros de uma janela.
- **chinelos**: calçado leve e aberto, para usar em casa.
- **soalho**: chão de tábuas de madeira.
- **soalhos**: chãos de tábuas de madeira.
- **aflitiva**: que causa angústia ou sofrimento.
- **palpar**: tocar com os dedos para sentir o que está por baixo.
- **Que hay**: em espanhol, «o que há», «o que se passa».
- **Que no hay un momento**: em espanhol, «não há um momento a perder».
- **caballeros**: em espanhol, «senhores».
- **mon petit chou! mon rat cheri!**: em francês, palavras de carinho: «meu amorzinho! meu querido!».
- **salero**: em espanhol, graça e elegância ao dançar ou ao andar.
- **petenera**: canção popular do sul de Espanha.
- **que les dè gusto**: em espanhol, «que lhes dê prazer».
- **fonda**: em espanhol, pequena pensão ou hospedaria.
- **omnipresente**: que está em todo o lado ao mesmo tempo.
- **faetonte**: carruagem leve e aberta, puxada por cavalos.
- **fiacre**: carruagem de aluguer, puxada por cavalos.
- **talmúdica**: própria dos sábios judeus que estudam o Talmude.
- **albarda**: sela grosseira que se põe em burros e outros animais de carga.
- **podengo**: cão de caça português.
- **égua ruça**: égua de pelo cinzento.
- **burro de Sancho**: o burro em que anda Sancho, o companheiro de D. Quixote.
- **caseiro**: pessoa que vive numa quinta e trata dela para o dono.
- **enxerga**: colchão pobre e duro, cheio de palha.
- **estopa**: tecido grosseiro.
- **estamenha**: tecido de lã grosseira, usado por pessoas que fazem penitência.
- **infusa**: jarro grande para vinho ou água.
- **alqueire**: antiga medida de cereais; aqui, a caixa de madeira usada para medir.
- **bojuda**: de barriga larga e redonda.
- **cornada**: golpe dado com os cornos de um animal.
- **sineta**: sino pequeno.
- **decerto**: com certeza.
- **estêmos**: forma popular de «estamos».
- **faias**: árvores altas, de tronco liso.
- **telhas**: peças de barro que cobrem o telhado.
- **lume**: fogo.
- **sebo**: gordura de animais, usada em velas baratas.
- **favas**: sementes grandes e verdes, parecidas com feijões.
- **fava**: o mesmo que «favas».
- **malaria**: aqui, brincadeira: muitas malas juntas.
- **arrelia**: grande aborrecimento, contrariedade.
- **jumento**: burro; a fêmea é a jumenta.
- **alpendre**: telhado sobre uma entrada ou uma varanda.
- **apalpava**: tocava com a mão ou com o pé, para sentir como era uma coisa.
- **espeto**: ferro comprido onde se assa carne sobre o lume.

## IX

Parti para Guiães muito cedo, de madrugada. Não fiz barulho, para não acordar o meu Jacinto. Ele dormia como um santo, com as mãos cruzadas sobre o peito, na sua enxerga de granito.

Ao fim de uma semana, numa manhã, voltei a casa para o almoço. No corredor encontrei as minhas malas, tão desejadas. Um moço do casal da Giesta tinha-as trazido num carro, com «recados do Sr. Pimentinha». O meu pensamento saltou logo para o meu Príncipe. E mandei pelo telégrafo, para Lisboa, para o Hotel Bragança, este grito alegre: «Estás lá? Sei recuperaste Grilo e Civilização! Hurrah! Abraço!» Passaram sete dias. Ocupei-os a apanhar com cuidado os espargos com que, em tempos, tinha civilizado a horta da tia Vicência. Só depois notei o silêncio de Jacinto. Num postal, repeti e desenvolvi o meu grito de amigo: «Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim te tornam desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? Tempo delicioso! 23º à sombra. E os ossos?...» Veio depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei a cortar mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicência vomitou, com uma indigestão de murcelas. E o silêncio do meu Príncipe continuava, ingrato e teimoso.

Enfim, uma tarde, voltei da Flor da Malva, de casa da minha prima Joaninha. Parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber um certo vinho branco que a minha alma conhece — e sempre pede.

Em frente, à porta do ferrador, estava o Severo. Era sobrinho do Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra. Picava tabaco, sentado de pernas abertas num banco. Mandei encher outro quartilho. Ele fez festas ao pescoço da minha égua, que já tinha salvado de um resfriamento. Perguntei pelo nosso Melchior. O Severo contou que tinha jantado com ele em Tormes, na véspera, e que também se tinha chegado ao fidalgo...

— Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em Tormes?

O meu espanto divertiu o Severo:

— Então V. Ex.ª... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma grandeza!

Santíssimo nome de Deus! No dia seguinte, domingo, fui à missa. Depois trotei para Tormes, todo agitado, sem medo do calor que pesava. Os rafeiros ladraram quando passei o portão do solar. A comadre do Melchior veio do lado do curral, com um alguidar de lavagem encostado à cintura.

— Então o Sr. D. Jacinto?...

O Sr. D. Jacinto andava lá em baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos campos de Freixomil...

— E o Sr. Grilo, o preto?

— Há bocadinho também o vi no pomar, com o francês, a apanhar limões doces...

Todas as janelas do solar brilhavam, com vidros novos, bem limpos. A um canto do pátio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansava durante o Dia Santo, encostada ao telhado. E, junto ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montes de palha. Era a palha tirada de caixotes consideráveis.

— Bem — pensei eu. — Eis a Civilização!

Guardei a égua e subi a escada a correr. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, uma banheira de zinco brilhava num raio de sol. Lá dentro, encontrei todos os soalhos remendados e esfregados com carqueja. As paredes, muito caiadas e nuas, davam uma frescura de convento. Três portas, abertas com franqueza serrana, levaram-me a um quarto. Era certamente o de Jacinto. A roupa pendia de cabides de pau. A cama de ferro, com colcha de fustão, escondia-se timidamente a um canto, na sua rigidez virginal. Ficava entre a parede e a mesinha onde um castiçal de latão brilhava sobre um volume do *D. Quixote*. No lavatório pintado de amarelo, a imitar bambu, só cabiam o jarro, a bacia e um pedaço gordo de sabão. Uma prateleirinha bastava para a arrumação cuidada. Tinha a escova, a tesoura, o pente e o espelhinho de feira. Tinha também o frasquinho de água de alfazema que eu tinha mandado de Guiães. As três janelas, sem cortinas, olhavam a beleza da serra. Respiravam um ar delicado e macio, perfumado pelas resinas dos pinhais e depois pelas roseiras da horta. Em frente, do outro lado do corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente o meu Príncipe, previdente, o tinha destinado ao seu Zé Fernandes. Pendurei logo lá dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.

Mas havia a sala imensa, onde tínhamos filosofado tanto, a olhar para as estrelas. Agora Jacinto tinha feito dela um lugar de repouso e de estudo. Ali tinha desenrolado essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de verga da Madeira, largas e com braços, ofereciam o conforto de almofadinhas de chita. Sobre a enorme mesa de madeira branca, feita em Tormes, admirei um candeeiro de metal de três bicos. Havia também um tinteiro de frade com penas de pato, e um vaso de capela a transbordar de cravos. Entre duas janelas estava uma cómoda antiga, embutida, com ferragens trabalhadas. Sobre o seu mármore rosado, recebia o peso devoto de um Presépio. Nele, Reis Magos, pastores com sacos vistosos e cordeiros de lã despenteada apressavam-se por entre as rochas. Iam ter com o Menino, que na sua gruta lhes abria os braços, coroado com uma enorme Coroa Real. Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois retratos negros com molduras negras. Numa das prateleiras repousavam duas espingardas. Nas outras esperavam, espalhados, alguns livros nobres, como os primeiros Doutores nos bancos de um concílio. Eram um Plutarco, um Virgílio, a *Odisseia*, o *Manual* de Epicteto, as *Crónicas* de Froissart. Depois, em fila decorosa, vinham cadeiras de palhinha, muito novas, muito envernizadas. E a um canto havia um molho de varapaus.

Tudo brilhava de limpeza e ordem. As portadas das janelas, fechadas, protegiam do sol. Ele batia naquele lado de Tormes e escaldava os parapeitos de pedra. Do soalho, molhado com água, subia uma frescura na penumbra suave. Os cravos perfumavam o ar. Nem dos campos nem da casa subia um ruído. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. Eu sentia-me penetrado por aquela paz consoladora de convento rural. Por fim, estendi-me numa cadeira de verga, junto da mesa. Abri preguiçosamente um tomo de Virgílio e murmurei o doce verso que tinha encontrado, adaptando-o:

*Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota*
*Et fontes sacros, frigus captabis opacum...*

Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e águas que te são sagradas, encontras enfim a sombra e a paz!

Li ainda outros versos. Estava cansado das duas horas de égua e de calor desde Guiães. E, sem respeito, adormecia sobre o divino poeta dos pastores, quando me acordou um berro amigo! Era o meu Príncipe. Soltei-me do seu abraço forte. E então comparei-o, com toda a certeza, a uma planta doente, murcha na escuridão, entre tapetes e sedas. Essa planta é levada para o vento e para o sol, e regam-na com abundância. Então fica verde outra vez, abre em flor e honra a Natureza! Jacinto já não andava curvado. Ele tinha uma palidez fria de supercivilizado. Sobre ela, o ar da montanha, ou uma vida mais verdadeira, tinha espalhado um vermelho moreno e quente. Era sangue novo, que lhe dava um ar soberbamente viril. Na Cidade, os seus olhos andavam sempre tão crepusculares, tão afastados do Mundo. Agora saltava deles um brilho de meio-dia, decidido e largo, contente de beber a beleza das coisas. Até o bigode se tinha encrespado. E já não passava a mão desencantada pela cara: batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei eu? Era um Jacinto novíssimo. E quase me assustava, porque eu tinha de aprender a conhecer, neste novo Príncipe, os modos e as ideias novas.

— Caramba, Jacinto, mas então...?

Ele encolheu alegremente os ombros, agora mais largos. Andava pelo soalho remendado, como um rei, com os sapatos brancos e cheios de pó. E só me soube contar isto: ao acordar em Tormes, lavou-se numa dorna e vestiu a minha roupa branca. E sentiu-se de repente como *desanuviado*, *desembaraçado*! Tinha almoçado um pratão de ovos com chouriço, sublime. Tinha passeado por toda aquela magnificência da serra, com pensamentos leves de liberdade e de paz. Tinha mandado comprar ao Porto uma cama, uns cabides... E ali estava...

— Para todo o verão?

— Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão divinamente!

Caí na cadeira de verga e olhei para o meu Príncipe, de olhos arregalados, quase assustados! Ele enrolava tabaco numa mortalha. Era tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava:

— Ando por estas terras desde o nascer do dia! Já pesquei hoje quatro trutas, magníficas... Lá em baixo, no Naves, um riacho que se atira pelo vale da Seranda... Logo ao jantar temos essas trutas!

Mas eu queria saber a história daquela ressurreição:

— Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...

— Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da Lira, à sombra de uma grande árvore... *Sub tegmine* não sei quê, a ler esse adorável Virgílio... E também a arranjar o meu palácio! Que te parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei, com uma brocha imensa. Viste o comedoiro?

— Não.

— Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!

Era a mesma sala onde tínhamos louvado tanto o arroz com favas. Mas agora estava muito esfregada, muito caiada. Tinha um rodapé besuntado de um azul gritante, e logo adivinhei ali a obra do meu Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães cobria a mesa, e as franjas roçavam o soalho. No fundo dos pratos de louça forte brilhava um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma louça da nossa casa, em Guiães. Lá, servem-se neles os feijões dos cavadores...

Mas no pátio os cães ladraram. E Jacinto correu para a varanda, com uma ligeireza curiosa que me encantou. Ah, aquela rede invisível que antes o prendia tinha-se rasgado, bem definitivamente! Nesse momento apareceu o Grilo, de casaco de linho, com uma garrafa de vinho branco em cada mão. Ficou todo contente «em ver na quinta o siô Fernandes». Mas a sua venerável cara já não brilhava, como em Paris, com aquele sereno e feliz brilho de ébano. Até me pareceu que andava curvado... Perguntei-lhe o motivo daquela mudança. Ele estendeu com dúvida o beiço grosso:

— O menino gosta, eu então também gosto... Que o ar aqui é muito bom, siô Fernandes, o ar é muito bom!

Depois falou mais baixo. Com um gesto triste, mostrou a louça de Barcelos e as facas de cabo de osso. Mostrou também as prateleiras de pinho, como num refeitório de Franciscanos:

— Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!

Jacinto voltava com um maço de jornais ainda com a cinta:

— Era o carteiro. Já vês que não me zanguei de todo com a Civilização. Eis a Imprensa!... Mas nada de *Figaro*, nem da horrível *Dois-Mundos*! Jornais de Agricultura! São para aprender como se produzem as searas alegres. E sob que signo se casa a vinha com o olmo, e que cuidados pede a abelha previdente... *Quid faciat laetas segetes*... De resto, para esta nobre educação, já me bastavam as *Geórgicas*, que tu ignoras!

Eu ri-me:

— Alto lá! *Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus*!

Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas, como Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:

— Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha!

Saltei, imensamente divertido:

— Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?...

O meu Príncipe atirou os ombros para trás, com um desprezo soberbo. E saudou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura gelada da água brilhante. Uma bela moça trazia-o num prato. Eu admirei sobretudo a moça... Que olhos, de um negro tão líquido e sério! No andar, no balançar da cintura, que harmonia e que graça de Ninfa latina!

Assim que a esplêndida aparição desapareceu pela porta:

— Oh Jacinto, daqui a um instante também quero água! E se é esta rapariga que traz as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia da serra, toda viva...

O meu Príncipe sorria, com sinceridade:

— Não! Não nos enganemos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca de boa raça. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, faz filhos bem. Foi para isso que a Natureza a fez, assim sã e forte; e ela cumpre. O marido, porém, não parece contente, porque lhe bate. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e estou-lhe muito grato... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São, porém, verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso.

Lentamente, a gozar a frescura, o silêncio e a liberdade do vasto casarão, voltámos à sala. Jacinto já lhe chamava a *Livraria*. De repente, vi a um canto uma caixa com a tampa meio despregada. E quase me engasguei, tão furiosa foi a minha curiosidade:

— E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que mandámos, cheia de Civilização? Soubeste? Apareceram?

O meu Príncipe parou e bateu alegremente na coxa:

— Sublime! Ainda te lembras daquele homenzinho com o saco a tiracolo? Aquele que nós admirámos tanto pela sua sagacidade, pelo seu saber geográfico?... Lembras-te? Mal falei em Tormes, ele gritou que conhecia e rabiscou uma nota... Nem era preciso mais! «Oh! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para Alba de Tormes, em Espanha! Está tudo em Espanha!

Cocei o queixo, desconsolado:

— Ora, ora... Um homem tão esperto, tão rápido, que fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?

— Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou a saborear esta delícia: levantar-me de manhã, e ter só uma escova para alisar o cabelo.

Olhei para o meu amigo, cheio de recordações:

— Tinhas umas nove...

— Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma confusão, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas ocupações: eram tantas que nunca fui útil!

De tarde, quando o calor passou, fomos passear pelos caminhos tortuosos daquela quinta rica. Ao longo de duas léguas, ela ondula por vale e monte. Eu não tinha voltado a estar com Jacinto no meio da Natureza desde aquele dia distante, digno de uma comédia. Nesse dia ele tinha sofrido tanto no bosque de Montmorency, sociável e bem policiado. Ah, mas agora, com que segurança e com que amor idílico ele se movia naquela Natureza! Tinha andado afastado dela tantos anos, por teoria e por hábito! Já não temia a humidade mortal da relva. Já não afastava, como insolente, o roçar dos ramos. Nem o silêncio dos altos o inquietava, como se o Universo tivesse ficado sem gente. Era com delícia que enterrava os grossos sapatos na terra mole, como no seu elemento natural e paterno. Sentia, satisfeito, que tinha recuperado a estabilidade. Sem razão, deixava os caminhos fáceis. Metia-se por arbustos emaranhados, para receber na cara a carícia das folhas tenras. Nos outeiros parava, imóvel, impedia os meus gestos e quase a minha respiração, para beber o silêncio e a paz. E duas vezes o surpreendi a sorrir, atento, à beira de um regatinho falador, como se ouvisse os seus segredos...

Depois filosofava sem parar, com o entusiasmo de um convertido que quer converter os outros:

— Como a inteligência aqui se liberta, hein? E como tudo é animado por uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...

— Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...

— Pois é uma maneira de refletir muito estreita e muito grosseira...

— Ora essa! Mas eu...

— Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...

— Que não sou!

— A vida é essencialmente Vontade e Movimento. Naquele pedaço de terra, plantado de milho, há todo um mundo de impulsos e de forças. Elas revelam-se e atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não, essa tua filosofia ainda está extremamente grosseira...

— Irra! Mas eu não...

— E depois, menino, que diversidade de formas, inesgotável, miraculosa... E todas belas!

Agarrava o meu pobre braço e exigia que eu olhasse com reverência. Na Natureza eu nunca descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera semelhantes na cor ou no recorte! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa. Todas as caras reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação. As ideias têm todas o mesmo valor, a mesma marca, a mesma forma, como as libras. E até o que há de mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é igual em todos. Todos a respiram, e todos se perdem nela, como no mesmo nevoeiro... A *mesmice* — eis o horror das Cidades!

— Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que o vejo todas as manhãs, e parece-me sempre outro... A sombra, o sol, o vento, as nuvens e a chuva dão-lhe sem parar uma expressão diferente e nova. É sempre interessante. Nunca me cansaria da sua companhia...

Murmurei:

— É pena que não converse!

O meu Príncipe recuou, com olhos de fogo, de Apóstolo:

— Como, não conversa? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não diz graças, nem fala de teorias, *ore rotundo*. Mas nunca passo junto dele sem que me sugira um pensamento ou me revele uma verdade... Ainda hoje, quando voltava de pescar as trutas... Parei, e logo ele me fez sentir como a sua vida de vegetal é livre. Não tem o trabalho, a ansiedade e o esforço que a vida humana impõe. Não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo. É filho querido de Deus, e Deus alimenta-o, sem que ele se mexa ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?

Eu sorria e concordava. Tudo isto era certamente rebuscado e enganador. Mas que importavam as metáforas requintadas, e essa metafísica mal madura, colhida à pressa nos ramos de um castanheiro? Por baixo de toda aquela ideologia via-se uma excelente realidade: a reconciliação do meu Príncipe com a Vida. A sua Ressurreição estava segura, depois de tantos anos de cova. Era a cova mole em que tinha estado deitado, enrolado como uma múmia nas faixas do Pessimismo!

E como esse Príncipe me cansou nessa tarde! Farejava, com uma curiosidade insaciável, todos os cantos da serra! Subia os montes a correr, como se esperasse descobrir lá de cima os esplendores nunca vistos de um Mundo novo. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvores. Nem sequer o da planta mais rasteira que nascia nas fendas de um socalco... Constantemente me folheava, como a um Dicionário Botânico.

— Fiz toda a espécie de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes... E não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro...

— É um azinheiro, Jacinto.

Caía a tarde quando voltámos, muito lentamente. Havia uma paz adorável no céu, realmente celestial, e nos campos. Cada folhinha estava quieta, a contemplar, na luz docemente desmaiada. A luz pousava sobre as coisas como uma carícia lisa e leve. Essa paz entrava tão fundo em Jacinto que, no silêncio em que tínhamos caído, o senti suspirar de puro alívio.

Depois, muito gravemente:

— Tu dizes que na Natureza não há pensamento...

— Outra vez! Olha que maçada! Eu...

— Mas é por não ter pensamento que ela é poupada ao sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento. Mas podemos certamente discipliná-lo, e impedir que ele se perca e se esgote, como na fornalha das cidades. Lá imagina gozos que nunca se realizam e deseja certezas que nunca se atingem!... E é isto que estas colinas e estas árvores aconselham à nossa alma, que vigia e se agita. Que viva na paz de um sonho vago. Que nada deseje, nada tema, contra nada se revolte. Que deixe o Mundo rolar, e espere dele apenas um rumor de harmonia. Que esse rumor a embale e a ajude a dormir dentro da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes?

— Talvez. Mas então é preciso viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno. Ou ter cento e quarenta contos de renda e o descaramento de certos Jacintos... E também me parece que andámos léguas. Estou derreado. E que fome!

— Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera...

— Bravo! Quem te cozinha?

— Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás de ver a canja! Hás de ver a cabidela! Ela é horrível, quase anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar! Que génio!

Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito assado num espeto de cerejeira. Vieram as trutas, e o vinho Melchior. Veio a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos tinha posto inspirações que não são da terra. E veio aquela doçura da noite de junho, que pelas janelas abertas nos envolveu no seu veludo negro. Assim fiquei tão mole e tão satisfeito que, na sala onde nos esperava o café, caí numa cadeira de verga. Escolhi a mais larga, a de melhores almofadas. E soltei um berro de pura delícia.

Depois, lembrando-me de uma coisa, limpei o café dos pelos do bigode:

— Ó Jacinto, e quando nós andávamos por Paris com o Pessimismo às costas, a gemer que tudo era ilusão e dor?

O meu Príncipe, ainda mais alegre com o cabrito, andava a grandes passos pelo soalho, a enrolar o cigarro:

— Oh! Que besta engenhosa, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o bebia, e que ficava sinceramente desolado! E, todavia — continuava ele, a mexer a chávena —, o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem. Porque tira ao sofrimento o seu caráter individual. Alarga-o até o tornar uma lei universal, a própria lei da Vida. Tira-lhe portanto aquela dor aguda de uma injustiça especial, cometida contra quem sofre por um Destino inimigo e parcial! Realmente, o nosso mal custa-nos sobretudo quando olhamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho. Porque então nos sentimos escolhidos e separados para a infelicidade, quando podíamos, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo, se toda a humanidade coxeasse? Imagina um homem metido na neve, no frio e na tempestade de um inverno especial. Esse inverno teria sido organizado nos céus só para ele. E em redor toda a Humanidade se moveria na luminosa bondade de uma Primavera. Que urros e que revolta furiosa não soltaria esse homem!

— Com efeito — murmurei eu —, esse sujeito teria imensa razão para urrar...

— E depois — clamava ainda o meu amigo —, o Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o feio delito da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a alma vai bater, para que marchar até ela? Para quê, através dos embaraços do mundo? De resto, repara em todos os Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até ao maligno Schopenhauer. Lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das suas misérias. Por isso as subordinam a uma vasta lei da Vida, uma lei Cósmica. E assim enfeitam, com a auréola de uma origem quase divina, as suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo quando é um filósofo sem editor e um professor sem discípulos. Sofre horrivelmente de terrores e manias. Esconde o dinheiro debaixo do soalho. Escreve as suas contas em grego, nas eternas queixas da desconfiança. Vive nas adegas, com medo de incêndios. Viaja com um copo de lata no bolso, para não beber por um vidro contaminado por lábios de leproso!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas logo que entra na celebridade, os seus nervos miseráveis acalmam, e rodeia-o uma paz amável. Então não há, em toda a Francoforte, burguês mais otimista, de cara mais alegre. Nenhum goza com mais regra os bens da inteligência e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedante rei de Jerusalém! Quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe foge das mãos trémulas. Quando o seu harém de trezentas concubinas se torna ridiculamente inútil. Então rebentam as queixas pomposas! Tudo é vaidade e aflição de espírito! Nada é estável debaixo do sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa — principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se devolva a sua virilidade a esse velho sultão asiático, besuntado de Literatura. E onde irá parar o lamento do *Eclesiastes*? Então voltará, em segunda e triunfal edição, o êxtase do *Livro dos Cantares*!...

Assim discursava o meu amigo no silêncio noturno de Tormes. Creio que ainda disse sobre o Pessimismo outras coisas alegres, profundas ou elegantes. Mas eu tinha adormecido, beatificamente envolvido em Otimismo e doçura.

Pouco depois, porém, fez-me saltar e abrir as pálpebras moles uma gargalhada forte, larga, sã e genuína. Era Jacinto, estendido numa cadeira, a ler o *D. Quixote*... Oh Príncipe bem-aventurado! Continuava a ter o poder agudo de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde. Deus, na sua clemência, tinha feito florir de novo o tronco seco. E assim ele tinha recuperado o dom divino de rir com as piadas de Sancho!

Eu concedi-lhe duas semanas de ócio bucólico. Jacinto aproveitou a minha companhia para preparar então a cerimónia tão falada, tão meditada. Era a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos. Eram os «respeitáveis ossos», como murmurava, a cumprimentar, o bom Silvério, o procurador. Foi naquela manhã de sexta-feira em que almoçava connosco, metido num espantoso casaco de veludilho amarelo, debruado a seda azul! De resto, a cerimónia pedia muita simplicidade, porque aqueles restos eram tão incertos, quase impessoais. Íamos colocá-los na capelinha do vale da Carriça. Era uma capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

O Silvério passou o guardanapo pela larga cara suada e pelas imensas barbas negras, como as de um turco. E explicou:

— Porque enfim V. Ex.ª compreende, naquela mixórdia... Oh! Peço desculpa a V. Ex.ª! Naquela confusão, quando tudo caiu, já não pudemos saber a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, para falar verdade, sabíamos bem que dignos avós de V. Ex.ª descansavam na capela velha. Eram tão antigos, com os letreiros apagados... Senhores de todo o nosso respeito, certamente. Mas, se V. Ex.ª me permite, senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça. Estavam no meio do lixo e das pedras. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira no seu caixão. Depois... Que quer V. Ex.ª? Não havia outro meio! E aqui o Sr. Fernandes dirá se não acha que fizemos as coisas com habilidade. A cada caveira juntámos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia outro meio... Nem todos os ossos se encontraram. Canelas, por exemplo, faltavam! E é bem possível que as costelas de um daqueles senhores tenham ficado com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim, fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia do Juízo, cada um destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.

Dizia estas coisas macabras e tremendas cheio de respeito, quase com majestade. Espetava, ora em mim, ora no meu Príncipe, os olhinhos agudos e brilhantes como contas de vidro.

Aprovei aquele homem pitoresco:

— Perfeitamente! Fez muito bem, amigo Silvério. São tão vagos, tão anónimos, todos esses avós! Só é pena, grande pena, que se tenham perdido os restos do avô Galião.

— Não estava cá! — acudiu Jacinto. — Vim a Tormes expressamente por causa do avô Galião. E afinal o seu jazigo nunca foi aqui, na capelinha da Carriça... Felizmente!

O Silvério sacudia gravemente a careca morena:

— Nunca tivemos o Ex.mo Sr. Galião. Há cem anos, Sr. Fernandes... Há cem anos que não se depositava na capela velha o corpo de um cavalheiro cá da casa.

— Onde estará então?...

O meu Príncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na igrejinha, no cemitério de alguma das numerosas freguesias onde ele tinha terras. Casa tão espalhada!

— Bem! — concluí. — Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data, convém uma cerimoniazinha muito simples, muito sóbria.

— Quietinha, quietinha! — murmurou o Silvério, a dar um forte sorvo assobiado ao café.

E foi quietinha, de uma simplicidade rústica e doce, a cerimónia daqueles altos senhores. Foi cedo, numa manhã com um pouco de névoa. Os oito caixões pequeninos estavam cobertos de veludo vermelho, mais de festa que de funeral, com molhos de rosas espalhados. Cada um levava o seu montinho de ossos incertos. Saíram da Igreja de S. José, aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços da quinta. O sino leve da igreja tocava, na doçura da manhã de névoa. Tocava tão fina e levemente! Era como o piar de um passarinho triste. À frente, um moço elegante de sobrepeliz levantava com zelo a velha cruz prateada. O velho sacristão curvado protegia o pescoço com um imenso lenço de rapé, de quadrados azuis. Segurava, pensativo, a caldeirinha de água benta. E o bom abade de S. José, com os dedos no breviário fechado, movia os lábios. Rezava numa oração lenta e murmurada, que ia espalhando mais doçura pelo ar doce. Logo atrás do último caixão, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, caminhava Jacinto. E eu ia com ele, a rebentar dentro de um fato preto de Jacinto. Tinha sido tirado à pressa de uma das malas de Paris. Só de manhã me tinha lembrado de que toda a minha roupa era de cores festivas e pastoris. Já era tarde para mandar a Guiães.

Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde se espalhavam as barbas imensas, negríssimas. De casaca, com o beiço grosso caído, o Grilo enfiava no braço a sua coroa enorme de rosas e heras. Estava todo caído com aquela melancolia de enterro, que se juntava à melancolia da serra. Por fim seguia o Melchior, no meio de um grupo de mulheres. Escondidas na sombra dos lenços pretos, desfiavam longos rosários e resmungavam ave-marias surdas. Entre elas soltavam suspiros espaçados, tão doridos como se chorassem sem consolo a perda daqueles Jacintos. Assim seguia a procissão pelas várzeas cortadas de regos de água. Ia lenta nas encostas do mato e descia mais rápida pelos caminhos de pedra. A cruz ia sempre à frente, alta e prateada. Às vezes brilhava num breve raiozinho de sol, que saía devagar da névoa desfeita. Ramos baixos de lódão ou de salgueiro passavam uma última carícia sobre o veludo dos caixões.

Às vezes um regato acompanhava-nos, a brilhar discretamente entre a relva. Murmurava e parecia que rezava também, com alegria. E nos pequenos quintais cheios de sombra, quando passávamos, os galos estavam em cima das pilhas de mato. Faziam soar o seu clarim festivo. Depois da fonte da Lira, o caminho ficava mais longo, e queríamos poupar o nosso velho abade. Por isso cortámos por uma seara já alta, quase madura, toda cheia de papoulas. O sol brilhou. Sob a brisa larga, que tinha levado a névoa, toda a seara se moveu numa lenta onda dourada. Nela balançavam os caixões. E, como uma enorme papoula, a mais vermelha de todas, brilhava o guarda-sol de pano. O sacristão tinha-o aberto logo, para proteger o abade.

Jacinto tocou-me no cotovelo:

— Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples enterro de ossos, quanta graça e quanta beleza!

A capelinha nova dominava o vale da Carriça. Estava solitária e muito nua, no meio de um adro ainda pouco liso. Não tinha um pouco de relva verde, nem a frescura de um arbusto. À porta, dois moços seguravam molhos de tochas. O Silvério distribuiu-as, a passos graves, com cortesias, soleníssimo. Lá dentro, as chamas curtas mal brilhavam. A sua luz amarela e triste quase se perdia na brancura reluzente das paredes de estuque. Perdia-se também na claridade alegre que caía das altas janelas de vidros bem limpos. Os caixões estavam pousados sobre bancos, cobertos de veludilho pesado. À volta deles, o abade murmurava um latim suave. Entretanto, ao fundo, as mulheres, escondidas na sombra dos seus lenços negros, gemiam *amens* agudos e abafavam um soluço respeitoso. Depois, o bom abade pegou levemente no hissope. Aspergiu ainda, para uma última purificação, os ossos incertos dos incertos Jacintos. E todos desfilámos diante do meu Príncipe, encostado timidamente à ombreira da porta. A seu lado estava o Silvério, que esmagava contra o peitilho as barbas imensas. Tinha a cara caída e as pálpebras fechadas, como quem segura as lágrimas.

No adro, o meu Príncipe acendeu com grande prazer um cigarro pedido ao Melchior:

— E então, Zé Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?

— Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delícia.

Mas o abade tinha-se despido na sacristia, e apareceu. Já trazia o seu grande casaco de lustrina e o seu velho chapéu de abas largas. O moço da residência tinha-os trazido num saco de chita. Jacinto agradeceu-lhe logo tantos cuidados. Agradeceu também a hospitalidade amável que tinha dado aos ossos, durante a construção da capelinha nova. O velho suave, todo branquinho, tinha as faces ainda coradas, como as de um menino. Com um sorriso claro de dentes sãos, louvava Jacinto. Tinha vindo de tão longe, numa viagem tão longa, para cumprir aquele dever de bom neto.

— São avós muito distantes, e agora tão confusos! — murmurava Jacinto a sorrir.

— Pois ainda é maior o mérito de V. Ex.ª. Respeitar um avô morto é bem comum... Mas respeitar os ossos de um quinto avô, de um sétimo avô!

— Sobretudo, Sr. Abade, quando nada se sabe deles, e naturalmente nada fizeram.

O velho sacudiu o dedo gordo, a rir:

— Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E afinal, quem fica muito tempo no mundo, como eu, acaba por se convencer de uma coisa. No mundo não há coisa ou ser inútil. Ainda ontem li num jornal do Porto uma descoberta. São as minhocas que estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador com os bois e o arado. Até as minhocas são úteis. Não há nada inútil... Eu tinha lá na residência uma porção de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois refleti e acabei por me regalar com eles em xarope. Os avós de V. Ex.ª por cá andaram, por cá trabalharam, por cá sofreram. Quer dizer: por cá serviram. E, em todo o caso, rezar-lhes um Padre-Nosso pela alma só lhes pode fazer bem, a eles e a nós.

E assim, filosofando docemente, parámos num bosque de carvalhos, onde esperava a velhíssima égua do abade. É que o santo homem tinha tido reumatismo no último inverno. Agora já não enfrentava com força, como antes, os caminhos duros da serra. Para ele montar, Jacinto segurou-lhe o estribo, como um filho. A égua empurrava-se pelo caminho acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que o velho se abrigava. Entretanto, nós voltámos para casa pela serra da Lombinha, através dos milhos. Fomos depressa, porque eu estava a rebentar, apertado dentro da roupa preta do meu Príncipe.

— Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! Só falta rezar por eles o Padre-Nosso que o abade recomenda... Só que eu não sei, já não me lembro do Padre-Nosso.

— Não te aflijas, Jacinto. Peço à tia Vicência que reze por mim e por ti. É sempre a tia Vicência que reza os meus Padre-Nossos.

Durante essas semanas de preguiça em Tormes, assisti a uma mudança considerável. Vi com terno interesse como evoluíam as relações de Jacinto com a Natureza. Tinha havido aquele período sentimental de contemplação. Nele colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira e construía Sistemas sobre a espuma das levadas. Agora o meu Príncipe passava lentamente para o desejo da Ação... E de uma ação direta e material. A sua mão, enfim devolvida a uma função superior, queria revolver a terra.

Depois de tanto *comentar*, o meu Príncipe, evidentemente, desejava *criar*.

Uma tardinha, ao anoitecer, estávamos sentados no pomar, na borda do tanque. O Manuel hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada encostada a uma alta laranjeira. Jacinto observou, mais para si do que para mim:

— É curioso... Nunca plantei uma árvore!

— Pois é um dos três grandes atos. Sem eles, segundo diz não sei que Filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para seres um homem. É possível que nunca tenhas prestado um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!

— Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.

Como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe pediu logo a opinião daquela autoridade. Ele nunca tinha acreditado inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola:

— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia semear agora?

Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, com um riso lento, entre respeitoso e divertido:

— Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.

— Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então ali no pomar, junto do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?

O riso do Manuel crescia.

— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca...

O meu Príncipe afastou com um gesto brando estes legumes rasteiros.

— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira de que fala o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve-as para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.

Não! O seu empenho era criar a árvore. Na serra tinha olhado a árvore na sua verdadeira majestade. Tinha visto o bem da sua sombra e a frescura do seu rumor que embala. Tinha visto a graça e a santidade dos ninhos que a povoam. Talvez por aí tivesse começado, lentamente, o seu novo amor da Terra. E agora sonhava com uma Tormes toda coberta de árvores. Teria frutos e verduras, sombras, rumores suaves e ninhos abrigados. Tudo seria obra e cuidado das suas mãos de pai.

No silêncio grave do crepúsculo que descia, murmurou ainda:

— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?

— Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos...

— Tudo tão lento, Zé Fernandes...

É que ele sonhava — eu compreendia-o — plantar caroços que subissem em troncos fortes e se alargassem em ramos verdes. E isso antes de voltar ao 202, no começo do inverno...

— Um carvalho!... Trinta anos, antes de ser belo! Desanimo! É bom para Deus, que pode esperar... *Patiens quia aeternus*. Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!

— Já é um ganho. E depois para os teus filhos, Jacinto...

— Filhos! Onde os tenho eu?

— É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.

Ele murmurou, a cruzar as mãos sobre o joelho:

— Tudo leva tanto tempo!...

E ficámos à borda do tanque, calados, na fresca doçura do anoitecer. Havia ali o cheiro mais vivo das madressilvas do muro. Olhávamos para o crescente da lua, que saía de trás dos telhados de Tormes.

Na Natureza, ele queria agora ser, não um sonhador, mas um criador. E decerto foi esta pressa que atirou o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios pela quinta, ele notava como ela era solitária.

— Faltam aqui animais, Zé Fernandes!

Eu imaginava que ele desejava em Tormes o enfeite elegante de veados e pavões. Mas um domingo íamos ao longo do largo campo da Ribeirinha. Sempre tinha tido pouca água, e agora estava mais seco, com um verão de tanta secura. O meu Príncipe parou a olhar para os três carneiros do caseiro, que comiam com dificuldade uma erva pobre.

E, de repente, como magoado:

— Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto! Com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos, como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?

— Sim... Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.

E o meu Príncipe juntou logo a esta ideia inspirada outra, mais rica e vasta. Lembrou a beleza que Tormes teria com esses prados, esses verdes campos de pasto, cheios de manadas de vacas. Seriam formosas vacas inglesas, bem gordas e bem brilhantes. Hein? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitetura leve e útil, todos em ferro e vidro. Seriam fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água... Hein? Que formosura! Depois haveria todas essas vacas e o leite a jorrar. Nada seria mais fácil, mais divertido e até mais moral do que instalar uma queijaria. Seria à fresca moda holandesa, toda branca e brilhante, de azulejos e de mármore. Ali se fariam os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que atividade!

— Pois não te parece, Zé Fernandes?

— Com certeza. Tu tens em abundância os quatro Elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijaria!

— Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o prazer moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, talvez implante no país uma indústria nova e rica! Ora, com essa instalação perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?

Fechei um olho, a calcular:

— Eu te digo... Pensa num desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal. Cada queijo pode vir a custar-te, a ti, Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.

O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres e espantados fixos em mim.

— Como, trezentos mil réis?

— Ponhamos duzentos... Podes ter a certeza! Com todos esses prados, os canos de água e a forma da serra alterada. Com as vacas inglesas, os edifícios de porcelana e vidro, as máquinas, a extravagância e a patuscada bucólica. Com tudo isso, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinquenta réis!

O meu Príncipe não desanimou.

— Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao sábado, para o comermos nós dois ao domingo!

O seu novo Otimismo dava-lhe tanta energia, e ele desejava criar com tanta ansiedade! Por isso arrastou logo o Silvério e o Melchior por montes e barrancos e começou a percorrer a quinta toda. Queria determinar onde iam crescer, à sua ordem inspirada, os prados verdes. E onde iam levantar-se, a brilhar no sol de Tormes, os currais elegantes. Tinha a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda. O Melchior murmurava as dificuldades a rir, e o Silvério exclamava-as com espanto respeitoso. Mas ele afastava-as todas com um gesto leve e brando, como um ramo de roseira brava atravessado num caminho.

Aquelas rochas, além, atrapalhavam? Que fossem arrancadas! Um vale importuno dividia dois campos? Que fosse enchido! O Silvério suspirava e limpava na careca escura um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Tinha sido sacudido com força na doce calma da sua administração. Calculava despesas que pareciam sobre-humanas à sua poupança de homem da serra. Era obrigado a arquejar, sem descanso, sob os sóis de junho. O desgraçado tinha retomado na Serra o gesto que Jacinto tinha deixado em Paris. Era ele que agora passava pelas longas barbas escuras os dedos sem ânimo... Enfim, uma tarde, desabafou comigo, a um canto da varanda. Jacinto estava na Livraria, a escrever a um amigo da Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da Corte. Pedia-lhe desenhos, planos e orçamentos de uma queijaria perfeita.

— Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza for por diante, sempre lhe digo uma coisa. O Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos... Dezenas de contos!

Eu falei da fortuna do meu Príncipe. Todas aquelas obras tão vastas iam alterar a cara muito antiga da serra. Mas não lhe custavam mais do que a outros o conserto de um socalco. Então o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:

— Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás-zás, para a frente! E eu não o censuro pela ideia. Tivesse eu a renda de S. Ex.ª, e também me atirava a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. Fernandes, nestas serras, entre rochedos. Pois um senhor que tem aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego! Até podia plantar lá jardins melhores do que os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é um condado! É uma terra plana, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que havia prados e manadas de vacas inglesas, e queijaria e horta rica, de fartar! E aí trinta perus na capoeira...

— Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos...

O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à nobreza secular da casa.

— Ora! Até ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste século da liberdade... Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em República? Leia o *Século*, Sr. Fernandes! Leia o *Século*, e verá! E depois eu sempre quero ver o Sr. D. Jacinto aqui no inverno. Com o nevoeiro a subir do rio logo de manhã, e o frio a atravessar os ossos! Com ventanias que atiram carvalhos de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que desfazem a serra!... Olhe, até por amor à saúde! O Sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, precisa de sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que S. Ex.ª estava bem. E o Sr. Fernandes, tão amigo dele e com tanta influência, devia teimar e berrar, até o levar para Montemor.

Mas, infelizmente para a paz do Silvério, Jacinto tinha lançado raízes fortes e amorosas na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele chão muito antigo de onde tinha brotado a sua raça. Era como se a terra muito antiga subisse outra vez e entrasse nele todo. E como se o fosse transformando num Jacinto rural, quase vegetal. Tão do chão e preso ao chão como as árvores que ele tanto amava.

E depois havia outra coisa que o prendia à serra. Tinha encontrado nela o que nunca tinha encontrado na Cidade, apesar da sua sociabilidade. Eram dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um interesse tão saboroso! Entrava sempre neles como numa festa ou numa glória.

Logo de manhã, às seis horas, eu estava no meu quarto. Ainda mexia com prazer o corpo nos colchões de folhelho fresco. Ouvia os seus sapatões fortes pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas feliz como o de um melro. Em poucos instantes abria a minha porta com estrondo. Já trazia o chapéu de abas largas e o bengalão de cerejeira. Estava pronto, com um fervor discreto, para os caminhos conhecidos da serra. E trazia sempre a mesma notícia, quase orgulhosa:

— Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com tanta serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!

Na sua pressa, nem me deixava ficar na frescura da banheira. E quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava. Dizia que era um desperdício efeminado do tempo devido aos fortes prazeres da terra.

Mas depois acariciávamos os rafeiros no pátio e saíamos da alameda de plátanos. Diante de nós dividiam-se, na manhã, os caminhos tortuosos da quinta, mais brancos entre o verde. Então toda a sua pressa acabava. Entrava na Natureza com a lentidão reverente de quem entra num Templo. E repetia muitas vezes que era «contrário à Estética, à Filosofia e à Religião, andar depressa através dos campos.» De resto, tinha desenvolvido uma sensibilidade subtil pelo campo, e ela não parava de se apurar. Qualquer breve beleza do ar ou da terra lhe bastava para um longo encanto. Feliz, podia passar uma manhã inteira a caminhar por um pinhal, de tronco a tronco. Ia calado, mergulhado no silêncio, na frescura, no aroma de resina. Empurrava com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o prendia. Ficava comovido com aquela atividade prestável. A água apressa-se, a cantar, para a terra que tem sede, e nela se some e se perde. E ainda me lembro de um domingo, depois da missa. Prendeu-me metade do dia no alto do monte, junto de um velho curral em ruínas, sob uma grande árvore. Só porque em volta havia sossego e uma brisa doce. Havia um piar fino de ave nos ramos, um murmúrio de regato entre canas verdes. E, por cima da sebe, ao lado, vinha um perfume muito fino e muito fresco de flores escondidas.

Depois havia as vezes em que eu, velho amigo das serras, não me entregava aos mesmos êxtases. Eram os êxtases que enchiam aquela alma ainda noviça. Então o meu Príncipe rugia. Tinha a indignação de um poeta que descobre um merceeiro a bocejar sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria-me.

— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é *linda*, mas se a terra é *boa*. Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»

— Pudera! — exclamava o meu Príncipe. — Um livro escrito por Judeus, por ásperos semitas, sempre com o olho turvo posto no lucro! Repara, homem, naquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que ele rende! Verás que a sua beleza e graça te dão mais alegria à alma que os trinta mil réis ao corpo. E na vida só a alma importa.

Quando voltávamos ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio fechadas e os soalhos molhados. Era por causa daquelas quentes faixas de sol de junho. Depois do almoço, elas prendiam-nos docemente na Livraria, a preguiçar.

Mas realmente a alegre atividade do meu Príncipe não parava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, no arvoredo mudo, os pardais mais agitados dormiam. O próprio sol parecia descansar, imóvel no brilho da sua luz. Mas Jacinto tinha o espírito acordado. Estava ávido de gozar sempre, agora que tinha reconquistado esse poder. E pegava com delícia no *seu livro*. Porque o dono de trinta mil volumes tinha ressuscitado. Agora, na sua casa de Tormes, era o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza tinha-o soltado das ligaduras de morto do tédio. Tinha-lhe gritado o seu belo *Ambula*, caminha! E decerto lhe tinha gritado também *et lege*, e lê. Estava livre, enfim, do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa. E o meu feliz amigo compreendia enfim a delícia incomparável de *ler um livro*. Eu tinha corrido a Tormes (depois das revelações do Severo na venda do Torto). Nessa altura, ele estava a acabar o *D. Quixote*. Ainda lhe ouvi as últimas gargalhadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que Sancho lhe murmurava. O gordo Sancho ia sentado de pernas abertas no seu burro. Mas agora o meu Príncipe tinha mergulhado na *Odisseia*. Vivia todo no espanto e no deslumbramento. Tinha encontrado, a meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero!

— Oh Zé Fernandes, como é que eu cheguei a esta idade sem ter lido Homero?...

— Outras leituras, mais urgentes... O *Figaro*, George Ohnet...

— Tu leste a *Ilíada*?

— Menino, gabo-me sinceramente de nunca ter lido a *Ilíada*.

Os olhos do meu Príncipe lançavam fogo.

— Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista? Um sofista sem vergonha, que se gabava de não ter lido a *Ilíada*?

— Não.

— Levantou a mão e deu-lhe uma bofetada tremenda.

— Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a *Odisseia*!

Oh! Mas decerto a tinha lido depressa, com a alma distraída! E ele insistia em iniciar-me, e em conduzir-me através do Livro sem igual. Eu ria-me. E, a rir, pesado do almoço, acabava por aceitar e estendia-me no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, como um sacerdote abre um missal. E começava, numa leitura lenta e sentida. Aquele grande mar da *Odisseia* brilhava e soava, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas. Rolava e quebrava mansamente sobre a areia fina, ou contra as rochas de mármore das Ilhas divinas. Soltava logo uma frescura de sal, bem-vinda e consoladora naquele calor de junho, que adormecia a serra. Depois vinham as astúcias espantosas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos. Vinham tantas queixas sublimes, e uma saudade tão grande da Pátria perdida. E vinha toda aquela intriga em que ele embrulhava os Heróis, enganava as Deusas, iludia o Destino. Tudo isso tinha um sabor delicioso ali, nos campos de Tormes. Ali nunca era preciso subtileza nem engenho. A Vida corria com a segurança imutável do Sol, que nascia sempre igual todas as manhãs. E sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, cresciam com segurança, faziam espiga e amadureciam... Embalado pela leitura grave e monótona do meu Príncipe, eu fechava docemente as pálpebras. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me sobressaltava... Eram os rugidos de Polifemo, ou os gritos dos companheiros de Ulisses a roubar as vacas de Apolo. De olhos logo arregalados para Jacinto, eu murmurava: *Sublime*! E sempre, nesse momento, via o engenhoso Ulisses, de barrete vermelho e com o longo remo ao ombro. Com a sua eloquência, surpreendia a clemência dos Príncipes. Ou reclamava presentes devidos ao Hóspede, ou roubava com astúcia algum favor aos Deuses. E Tormes dormia, no esplendor de junho. Eu fechava outra vez as pálpebras consoladas, sob a carícia indizível da larga fala de Homero... E, meio adormecido, encantado, via sempre ao longe a divina Hélade. Entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurava Ítaca...

Depois da sesta, o meu Príncipe soltava-se de novo para os campos. E a essa hora, sempre mais ativa, voltava com ardor aos «seus planos». Eram as culturas de luxo e as oficinas elegantes que iam cobrir a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que tinha concebido, uma imensa horta ajardinada. Todos os legumes, clássicos ou exóticos, iam crescer soberbamente em talhões vistosos. Estes seriam fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de dálias. A água das regas desceria por lindos regos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousadas em pilares cobertos de azulejo. O meu Príncipe tinha desenhado o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso. O Melchior e o Silvério, consultados, olharam-no longamente. Um coçava a nuca a rir, e o outro tinha os braços duramente cruzados e a sobrancelha trágica.

Mas este plano não saía das nossas saborosas conversas. Nem o da queijaria, nem o da capoeira, nem outro, sumptuoso, de um pombal. Este seria tão povoado que todo o céu de Tormes, às tardes, ficaria branco e a tremer de asas. Os planos não saíam também dos papéis em que Jacinto os desenhava. Os papéis amontoavam-se sobre a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.

Nenhuma enxada tinha aberto terra, nenhuma alavanca tinha movido pedra, nenhuma serra tinha serrado madeira, para começar estas maravilhas. Os planos do meu Príncipe ficavam encalhados, como galeras vistosas em rochas ou em lodo. Encalhavam contra a resistência redonda e escorregadia do Melchior, contra a inércia respeitosa do Silvério.

Não convinha mexer em nada — clamava o Silvério — antes das colheitas e da vindima! E depois — acrescentava o Melchior, com um sorriso de grande promessa — «para boas obras, mês de janeiro». Porque lá ensina o ditado:

Em janeiro — mete obreiro
Mês meante — que não ante.

E, de resto, gozar a conceção das suas obras bastava por agora ao meu Príncipe. Ele era ainda mais imaginativo do que ativo. Bastava-lhe estender a bengala por cima de vale e monte, e indicar os sítios privilegiados que elas iam embelezar. E meditava estas transformações da terra. Enquanto isso, ia-se habituando, aos poucos e com um esforço amável, aos homens simples que a trabalhavam. Quando chegou a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros e dos jornaleiros. Tinha-a até diante de qualquer rapazinho que passasse a levar uma vaca para o pasto. Nunca parava então a conversar com os moços. Nem quando eles se endireitavam, à beira de um caminho ou num campo em monda, de chapéu na mão. Era um respeito de velha vassalagem. Decerto o travava a preguiça. E talvez ainda o pudor de atravessar toda a imensa distância. Ela ia da sua complicada supercivilização à rude simplicidade daquelas almas naturais. Mas o que o prendia sobretudo era o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra. Ou o medo de parecer talvez desdenhoso de ocupações e interesses que para os outros eram supremos e quase religiosos. Pagava então esta reserva com muitos sorrisos e doces acenos. Tirava também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal força de delicadeza que eu às vezes tinha um receio. Receava que ele murmurasse aos jornaleiros: «Tenha V. Ex.ª muito boas tardes... Criado de V. Ex.ª!»

Mas agora tinham passado aquelas semanas de serra. Já sabia, com um saber ainda frágil, a época das sementeiras e das ceifas. Sabia que as árvores de fruta se semeiam no inverno. Já gostava de parar junto dos trabalhadores, olhar com calma para o trabalho, dizer coisas amáveis e vagas.

— Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de terra aqui é rico... O talude ali à frente precisa de conserto...

Cada um destes ditos tão simples lhe era doce. Era como se por eles entrasse mais fundo na intimidade da terra. E como se consolidasse assim a sua encarnação em «homem do campo». Como se deixasse de ser uma simples sombra a circular entre realidades. Por isso já não cruzava no caminho com o rapazinho atrás das vacas sem o parar. E interrogava-o: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, contente consigo, elogiava sempre com gosto o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer os nomes de todos os campos. Conhecia também as nascentes de água e os limites da sua quinta.

— Vês além, para lá do ribeiro, o pinhal? Já não é meu, é dos Albuquerques.

E com a alegria constante de Jacinto, as noites da serra, no vasto casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se simplificava. Qualquer pequeno prazer lhe bastava, desde que tivesse paz ou doçura. Com verdadeira delícia, ficava depois do café estendido numa cadeira. Sentia pelas janelas abertas a tranquilidade noturna da serra, sob o céu mudo e cheio de estrelas.

Eu contava-lhe histórias muito simples e muito caseiras. Eram de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da Malva. Interessavam-no tão sinceramente que comecei, para seu regalo, a crónica completa de Guiães. Tinha todos os namoricos, as façanhas de força e as zangas por causa de passagens ou de águas. Às vezes também nos metíamos, com paixão, numa partida de gamão. Era um belo tabuleiro de madeira preta, com pedras de marfim velho, que o Silvério nos tinha emprestado. Mas decerto nada o encantava tanto como atravessar as salas, pé ante pé. Ia até uma salinha que dava para o pomar. Ali ficava encostado à janela, sem luz, num sossego enlevado. E escutava longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.

### Glossário

- **alveitar**: pessoa que trata de animais, sem ser veterinário.
- **ladraram**: fizeram o barulho forte dos cães.
- **preto**: pessoa de pele negra. «Preto» é hoje muitas vezes ofensivo; o livro é de 1901.
- **caixotes**: caixas grandes de madeira, para transportar coisas.
- **soalho**: chão de tábuas de madeira. «Soalhado» quer dizer «com soalho».
- **carqueja**: planta dura da serra, usada aqui para esfregar o chão.
- **dorna**: grande recipiente de madeira, usado na vindima.
- **encadeirado**: palavra inventada por Jacinto: com cadeiras.
- **siô**: forma como o Grilo diz «senhor».
- **mortalha**: papel fino para enrolar um cigarro.
- **trutas**: peixes de rio.
- **besuntado**: coberto de uma camada grossa e mal espalhada.
- **beiço**: lábio, sobretudo um lábio grosso; palavra popular.
- **magreza**: aqui: pobreza, pouca fartura.
- **Arcádia**: terra imaginária de pastores felizes, de que falam os poetas.
- **trasladação**: mudança dos ossos de um morto para outro lugar.
- **sub tegmine**: palavras latinas de Virgílio: «à sombra».
- **Quid faciat laetas segetes**: palavras latinas de Virgílio: «o que torna alegres as searas».
- **Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus**: brincadeira em latim: «nós também somos gente e sabemos o nosso Virgílio».
- **ore rotundo**: expressão latina: com voz cheia e solene.
- **caixões**: caixas onde se põem os mortos.
- **névoa**: nevoeiro leve.
- **veludo**: tecido muito macio.
- **regato**: pequena corrente de água.
- **relva**: erva baixa e verde que cobre o chão.
- **adro**: espaço aberto em frente de uma igreja.
- **hissope**: objeto com que o padre espalha água benta.
- **pálpebras**: a pele que cobre o olho quando ele se fecha.
- **pomar**: terreno com árvores de fruta.
- **semear**: pôr sementes na terra.
- **debulha**: trabalho de separar os grãos das espigas.
- **Patiens quia aeternus**: expressão latina: «paciente porque é eterno».
- **decerto**: com certeza.
- **queijaria**: lugar onde se faz queijo.
- **réis**: antiga moeda de Portugal.
- **tostão**: moeda antiga de cem réis.
- **zás-zás**: imita o som de uma coisa feita depressa, sem parar para pensar.
- **folhelho**: folhas secas do milho, usadas para encher colchões.
- **semitas**: nome dado aos judeus e a outros povos; aqui é dito com desprezo, como era costume no tempo do livro.
- **latada**: armação que segura videiras por cima de um caminho.
- **meante**: palavra antiga: a meio do mês.
- **jornaleiro**: trabalhador do campo pago ao dia.
- **monda**: trabalho de tirar as ervas más de um campo.

## X

Numa dessas manhãs, justamente na véspera do meu regresso a Guiães, o tempo mudou de repente. Até ali, tinha andado pela serra muito alegre, num riso constante de luz brilhante. Andava todo vestido de azul e ouro e levantava poeira pelos caminhos. Alegrava toda a natureza, desde os pássaros até aos ribeiros. Mas o tempo tem mudanças súbitas, que tornam o seu temperamento muito parecido com o do homem. Naquela manhã apareceu triste, de cara fechada, todo enrolado no seu manto cinzento. A sua tristeza era tão pesada e contagiosa que toda a serra ficou triste. Nenhum pássaro cantou mais, e os ribeiros fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.

Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o assustar:

— Sudoeste! Há gralhas a gritar por todos esses castanheiros... Vamos ter muita água, Sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! Agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza. Com esta chuva sem parar, com vendaval, com a serra toda a escorrer!

O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nos bolsos:

— Com efeito! O céu está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casaco impermeável... Não importa! As árvores ficam mais verdes. E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de inverno.

Mas o Melchior tinha-lhe garantido que a «chuvinha só viria para a tarde». Por isso, Jacinto decidiu ir à Corujeira antes do almoço. O Silvério esperava-o lá, para decidirem a sorte de uns castanheiros. Eram muito velhos, muito pitorescos e inteiramente interessantes, mas já estavam roídos e ameaçavam cair. Confiámos nas previsões do Melchior e partimos sem que Jacinto se vestisse para a chuva. Porém, ainda não tínhamos andado meio caminho quando as árvores tremeram e o céu ficou negro. De repente, caiu sobre nós uma chuva grossa e inclinada, batida com força pelo vento. Ficámos tontos, a agarrar os chapéus, enrolados na tempestade. Uma grande voz chamou-nos, aguda, no meio do vento. Num campo mais alto, à beira de um alpendre, vimos o Silvério debaixo de um guarda-chuva vermelho. Fazia-nos sinais e mostrava-nos o caminho mais curto para aquele abrigo. Corremos para lá, com a chuva a escorrer-nos pela cara e os pés a bater na lama. Íamos torcidos, sem equilíbrio, tontos com o vendaval. Num instante, o vendaval tinha enchido os campos de água e feito crescer os ribeiros. Desfazia a terra dos socalcos e lançava todas as árvores num desespero. Tinha tornado a serra negra, selvagem, hostil, impossível de habitar.

Enfim chegámos à beira do campo, onde o Silvério nos esperava com o seu vasto guarda-chuva. Debaixo dele, corremos para o alpendre e metemo-nos naquele abrigo inesperado, a escorrer e a respirar com força. O meu Príncipe limpou a cara, limpou o pescoço e murmurou, sem forças:

— Apre! que ferocidade!

Parecia espantado com aquela cólera brusca e violenta de uma serra tão amável e acolhedora. Durante dois meses, sem mudar, ela só lhe tinha oferecido doçura e sombra e céus suaves. Só lhe tinha dado ramos quietos e o murmúrio discreto de ribeirinhos mansos.

— Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas tempestades?

O Silvério assustou imediatamente o meu Príncipe:

— Isto agora são brincadeiras de verão, meu senhor! Mas há de V. Ex.ª ver no inverno, se V. Ex.ª se aguentar por cá! Então é cada temporal que até parece que os montes tremem!

E contou que também tinha sido apanhado quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, tinha sentido o ar pesado e visto as folhinhas dos choupos a tremer. Por isso, tinha levado o guarda-chuva e calçado as suas grandes botas.

— Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. É aquela casa, ali em baixo, onde está a figueira... Mas a mulher está doente, já há dias... E pode ser coisa que se pega, bexigas ou coisa parecida. Por isso, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti-me no alpendre... E nem tinha passado um credo quando vi V. Ex.ª... Foi coisa assim!... Agora o Sr. D. Jacinto é voltar para casa e mudar de roupa. É que temos um dia e uma noite de água.

Mas nesse momento a chuva começou a cair a direito. O céu ainda estava negro, mas o vento tinha-se calado. Para além do rio e dos montes havia uma luz, como entre cortinas de pano cinzento que se abrem.

Jacinto descansava. Eu não parava de me sacudir e de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, a passar a mão pensativa pela sua barba negra, refletia e emendava as suas previsões:

— Pois, não senhor... Ainda vai estiar! Nunca pensei. É que o vento mudou.

O alpendre que nos cobria estava apoiado em duas paredes em ângulo, de pedra solta. Eram restos de alguma casa pobre em ruínas. No canto, estava também apoiado num pilar. Naquele momento só abrigava madeira, uma pilha de cestos vazios e um carro de bois. O meu Príncipe tinha-se sentado no carro e enrolava um cigarro confortador. A chuva caía, abundante, em longos fios brilhantes. E nós os três estávamos calados, naquela contemplação parada e sem pensamento. É a contemplação em que uma chuva grossa e serena sempre prende os olhos e as almas.

— Ó Sr. Silvério — murmurou lentamente o meu Príncipe —, que é que o senhor esteve aí a dizer de bexigas?

O procurador voltou a cara, surpreendido:

— Eu, Ex.mo Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser, pode ser... Não imagine V. Ex.ª que faltam por cá doenças. O ar é bom, não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve. Mas às vezes, se V. Ex.ª me dá licença, anda por aí muita febre.

— Mas não há médico, não há botica?

O Silvério riu com o riso superior de quem vive em regiões civilizadas e bem servidas...

— Então não havia de haver? Pois há um boticário em Guiães, quase ao pé da casa aqui do nosso amigo. E é homem entendido... o Firmino, hein, Sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, a légua e meia daqui, nas Bolsas. Mas V. Ex.ª já vê, esta gentinha é pobre!... Mal têm para o pão, quanto mais para remédios!

E de novo ficámos em silêncio, sob o alpendre, onde entrava o frio crescente da serra encharcada. Para além do rio, a luz prometedora não tinha crescido entre as duas espessas cortinas cinzentas. No campo inclinado à nossa frente corriam longos ribeiros de água barrenta. Eu tinha acabado por me sentar na ponta de um madeiro, nervoso, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro, com os pés no ar, alisava o bigode húmido e apalpava a cara. Com espanto meu, tinha voltado a essa cara a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!

Então apareceu por trás da parede do alpendre um rapazinho, muito rotinho, muito magrinho. Tinha uma carinha miúda, toda amarela debaixo da sujidade. Dois grandes olhos pretos abriam-se para nós, com vago espanto e vago medo. O Silvério reconheceu-o imediatamente.

— Como vai a tua mãe? Não precisas de te chegar para cá, deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?

Não percebi o que os pobres lábios descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:

— Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?

Foi o Silvério que informou, com respeito:

— É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro mais novo do que este... Filhos não lhe faltam.

— Mas este pequeno também parece doente! — exclamou Jacinto. — Coitadinho, tão amarelo!... Tu também estás doente?

O rapazinho tinha ficado mudo, a chupar o dedo, com os tristes olhos espantados. E o Silvério sorria, com bondade:

— Nada! Este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e fraquinho porque... Que quer V. Ex.ª? Mal comido! Muita miséria... Quando há o bocadinho de pão, é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!

Jacinto saltou de repente da borda do carro.

— Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?

Os seus olhos brilhavam, num espanto comovido. Pediam, ora a mim, ora ao Silvério, que confirmássemos esta miséria de que ele nunca tinha suspeitado. E fui eu que esclareci o meu Príncipe:

— Homem! Está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que o Paraíso tinha continuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres, até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...

O meu Príncipe fez um gesto de aflita impaciência:

— Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como esta, com fome? É o que eu quero saber.

O Silvério sorria, com respeito, diante daquela ignorância inocente das realidades da Serra:

— Pois está bem de ver, meu senhor, que há por aí caseiros muito pobres. Quase todos... É uma miséria, e se não fosse algum socorro que se lhes dá, nem sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, é uma desgraça... V. Ex.ª havia de ver as casinhas em que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...

— Vamos vê-la! — cortou Jacinto, com uma decisão exaltada.

E saiu logo do alpendre, sem ligar à chuva, que ainda caía, mais leve e mais rala. Mas então o Silvério abriu os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar de um precipício.

— Não! V. Ex.ª na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...

Jacinto não perdeu a sua delicadeza paciente:

— Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu guarda-chuva, e avante!

Então o procurador baixou os ombros. Como S. Ex.ª mandava, abriu com estrondo o imenso guarda-chuva e abrigou Jacinto com respeito, através do campo encharcado. Eu segui-os. Pensava na esmola magnífica que o bom Deus mandava àquele pobre casal, por meio de um senhor distante das Cidades! Atrás vinha o pequenino, perdido num imenso espanto.

Como todas as casas pobres da serra, a do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco. Tinha um telhado incerto, de telha negra e com musgo, uma janelinha no alto e uma porta rude. Essa porta servia para o ar, para a luz, para o fumo e para a gente. À volta, a Natureza e o Trabalho tinham juntado muitas coisas, ao longo dos anos. Havia ali trepadeiras e flores silvestres, cantinhos de horta, sebes cheirosas e velhos bancos roídos de musgo. Havia panelas com terra onde crescia salsa, regueiros que cantavam e videiras enforcadas nos olmos. Havia sombras e charcos como espelhos. Tudo isto tornava deliciosa, para uma Écloga, aquela morada da Fome, da Doença e da Tristeza.

Com cautela, com a ponta do guarda-chuva, o Silvério empurrou a porta, chamando:

— Eh! tia Maria... Olá, rapariga!

Na fenda da porta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados. Olhou-nos com espanto, serenamente.

— Então como vai a tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores...

Ela abriu, lentamente, e foi murmurando numa voz triste e arrastada, mas sem queixa. Um vago sorriso, resignado, acompanhava a voz:

— Ora, coitada! Como há de ir? Malzinha... malzinha.

E lá dentro, de entre as roupas, a mãe repetiu a queixa triste. Era um gemido lento e sonolento, que subia como do chão:

— Ai! Para aqui estou, e malzinha, malzinha!...

O Silvério não passou da porta. Segurava o guarda-chuva apontado em frente, meio aberto, como um escudo contra a infeção. E lançou uma consolação vaga:

— Não há de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão friagem!

E, por cima do ombro de Jacinto, encolhido:

— V. Ex.ª já vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.

O chão era de terra batida. No pedaço que víamos, brilhava uma mancha húmida, da chuva que pingava de uma telha partida. A parede, coberta de fuligem do longo fumo da lareira, era tão negra como o chão. Aquela penumbra suja parecia cheia, numa desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas. Só duas coisas tinham uma forma que se compreendia. Uma era uma arca de madeira negra. A outra estava por cima dela, pendurada de um prego, entre uma serra e uma candeia. Era um grosso saiote vermelho.

Então Jacinto, muito atrapalhado, murmurou, distraído:

— Está bem, está bem...

E partiu pelo campo na direção do alpendre, como se fugisse. Entretanto, com certeza, o Silvério revelou à rapariga a nobre presença do «fidalgo». É que a ouvimos, da porta, levantar a voz dorida:

— Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!

O Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, apanhou-nos no meio do campo. Jacinto tinha parado. Olhava para mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e murmurava:

— É horrível, Zé Fernandes, é horrível.

Ao lado, a voz enorme do Silvério trovejou:

— Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!

Era o pequeno rotinho e cheio de fome, que se prendia a nós. Olhava-nos num imenso espanto. Talvez tivesse a esperança confusa de que nós, como Deuses encontrados num caminho, lhe déssemos carinho ou proveito. Ele abria os olhos tristes sobretudo para Jacinto. E Jacinto ficava horrivelmente atrapalhado e acanhado com aquela miséria e a sua humildade muda. Só soube sorrir e murmurar o seu vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenino um tostão, para o contentar e o afastar dos nossos passos. Mas ele, com o seu tostão bem agarrado, continuava a seguir-nos, como no rasto da nossa magnificência. Por isso, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:

— Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...

— E nós vamos almoçar — lembrei eu, a olhar para o relógio. — O dia ainda vai estar lindo.

Sobre o rio, com efeito, brilhava um pedaço de azul lavado e lustroso. A grossa camada de nuvens já se ia enrolando, varrida lentamente pelo vento. O vento levava-as, vazias e rotas, para um canto escondido do céu.

Então voltámos lentamente para casa, por um carreiro íngreme que o Silvério nos tinha ensinado. Por ele descia ainda uma pequena corrente de água, a saltar e a tagarelar. De cada ramo que tocávamos caía uma chuva leve. Toda a verdura tinha bebido largamente e brilhava, consolada.

Saímos do carreiro para um caminho mais largo, entre um socalco e uma fila de vinhas. Aí, de repente, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:

— Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.

O procurador encolheu um pouco os ombros, com um vago *eh*! *eh*! de obediência e dúvida.

— Antes de tudo — continuou Jacinto —, mande hoje mesmo chamar esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E que vão buscar logo os remédios a Guiães. E peça ao médico que volte amanhã, e todos os dias, até que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze mil réis... Bastará?

O procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tostões bastavam... Nem era bom habituar aquela gente a tanta generosidade. Depois todos queriam, todos pediam...

— Mas é que todos hão de ter — disse Jacinto simplesmente.

— V. Ex.ª manda — murmurou o Silvério.

Tinha encolhido os ombros e estava parado no caminho, espantado com aquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:

— Vamos conversar enquanto andamos! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!

Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo. Tinha a testa enrugada sob a vasta aba do chapéu e a barba imensa espalhada pelo peito. Debaixo do braço levava, enrolada, a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho. E Jacinto, a puxar nervosamente o bigode, arriscava outras ideias generosas. Fazia-o com cautela, porque tinha um medo invencível do Silvério:

— E as casas também... Aquela casa é um covil!... Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são pocilgas iguais... Era necessária uma reforma! Construir casas novas para todos os rendeiros da quinta...

— Para todos?... — gaguejou o Silvério, e ficou mudo.

E Jacinto gaguejava, assustado:

— Para todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?

O Silvério atirou um gesto enorme:

— São vinte e coisas... Vinte e três, se bem me lembro. Upa! Upa! Vinte e sete...

Então Jacinto também ficou mudo, como quem reconhece a grandeza do número. Mas quis saber quanto custaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa e confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. O Silvério parou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? S. Ex.ª queria saber? E largou a cifra, muito do alto, como uma pedra imensa para esmagar Jacinto:

— Duzentos mil réis, Ex.mo Senhor! E é para mais, não para menos!

Eu ria da ameaça trágica do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para acalmar o Silvério:

— Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.

Então o Silvério soltou um grito de terror:

— Mas então, Ex.mo Senhor, é uma revolução!

Ele tinha os olhos loucos de horror e os imensos braços abertos para trás, como se visse o mundo desabar. Nós não conseguimos deixar de rir. E o bom Silvério ficou ofendido:

— Ah! V. Ex.ªs riem? Casas para todos, mobílias, pratas, roupa de casa, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Viva a bela piada!... Está boa a risota!

E de repente, numa profunda vénia, como quem recusa toda a responsabilidade naquele disparate magnífico:

— Enfim, V. Ex.ª é quem manda!

— Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que essa gente paga e os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.

O Silvério estava tão cheio de espanto que nem sentiu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, muito grato. Mas pediu licença a S. Ex.ª para passar primeiro pelo lagar. Queria ver os carpinteiros que estavam a consertar a trave do rio. Era um instante, e depois estava às ordens de S. Ex.ª.

Meteu por um atalho, saltando uma cancela. E nós seguimos com passos ligeiros. Era por causa da hora do almoço, que estava atrasada, e do azul alegre que voltava a aparecer. Era também por toda aquela justiça feita à pobreza da serra.

— Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto — disse eu. E bati no ombro do meu amigo, com uma ternura que não escondi.

— Que miséria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas onde crianças têm fome! É horrível...

Estávamos a entrar na alameda. Um raio de sol saiu de entre duas nuvens grossas, como algodão. Pôs numa esquina do casarão, ao fundo, uma tira viva de ouro. Os galos cantavam, claros e altos, como clarins. E um vento doce, que se tinha levantado, punha nas folhas lavadas e brilhantes um tremor alegre e doce.

— Sabes o que eu estava a pensar, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Não me lembro do santo... Nem era ainda santo... Era apenas um cavaleiro pecador, que se apaixonou por uma mulher. Pôs toda a sua alma nessa mulher, só por a ver de longe na rua. Depois, numa tarde em que a seguia, encantado, ela entrou no portal de uma igreja. E aí, de repente, ergueu o véu e abriu um pouco o vestido. Mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas apaixonado pela serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga... É talvez a tua preparação para S. Jacinto.

Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:

— É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é das que eu posso curar!

Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do casarão.

### Glossário

- **alpendre**: telhado apoiado em pilares ou paredes, que serve de abrigo.
- **socalcos**: terrenos planos cortados na encosta, como degraus.
- **bexigas**: doença grave e contagiosa que deixa marcas na pele.
- **o seguro morreu de velho**: ditado: quem tem cuidado evita perigos e vive muito.
- **cautela e caldo de galinha**: ditado: é sempre bom ter cuidado.
- **estiar**: parar de chover; o tempo melhorar.
- **friagem**: frio húmido; doença que se apanha com o frio.
- **Écloga**: poema antigo que mostra a vida feliz dos pastores no campo.
- **proletariado**: classe dos trabalhadores pobres, que só têm o seu trabalho para viver.
- **chaga**: ferida grande e profunda.
- **gralhas**: aves negras, parecidas com corvos, que gritam muito.
- **escorrer**: perder água, que cai em fios ou em gotas.
- **castanheiros**: árvores que dão castanhas.
- **roídos**: gastos ou comidos aos poucos.
- **réis**: antiga moeda de Portugal.

## XI

No dia a seguir a estas largas caridades, voltei para Guiães. Desde então, trotei tantas vezes por aquelas três léguas, entre a nossa alameda e a velha alameda dos Jacintos! A minha égua já conhecia bem essa estrada, que levava a uma cavalariça também conhecida. Aí ela convivia com o garrano do Melchior. Por isso, quando eu a desviava desse caminho, relinchava de pura saudade. Até a tia Vicência mostrava vagamente ciúmes daquela Tormes, para onde eu estava sempre a correr. Tinha ciúmes daquele Príncipe de quem eu elogiava sem parar o rejuvenescimento, a caridade, os piteus e os sonhos agrícolas. Um dia mostrou um grão de sal e de ironia, o único que cabia num coração todo cheio de inocência. Moveu mais depressa as agulhas da sua meia e disse-me:

— Olha que te podes gabar! Até já me fizeste ter curiosidade de conhecer esse Jacinto... Traze cá essa maravilha, menino!

Eu ri-me:

— Sossegue, tia Vicência, que o trarei agora, para o dia dos meus anos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para o Jacinto.

Eu, com efeito, já tinha convidado o meu Príncipe para este «natalício». De resto, convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia a rir, convinha que ele conhecesse algumas mulheres. Falava de algumas daquelas fortes raparigas dos solares da serra. É que Tormes tinha uma solidão de mosteiro. E o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente fica rude na solidão. Ganha uma casca áspera, como as árvores.

— Esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, esta renúncia às mentiras da Civilização, é uma linda história... Mas, caramba, faltam mulheres!

Ele concordava, a rir, estendido com preguiça na cadeira de vime:

— Com efeito, há aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras das casas dos arredores... Não sei, penso que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela, mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às Flores são sempre as mulheres das Cortes e das Capitais. É a elas que os poetas se rendem, sempre, desde Hesíodo e Horácio... E é evidente que não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte numa cenoura ou numa couve... Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.

— Eu te digo... A tua vizinha mais próxima é a filha do D. Teotónio. Com efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um monstro! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, também não tentaria nem o necessitado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, porque é um espinafre infernal! Essa, sim, é legume, e não dos nutritivos.

— Tu o disseste: espinafre!

— Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... E depois tem um tom de voz que não te sei descrever. É o tom com que se fala no D. Maria, em peças de sentimento. Tu também nunca viste o Teatro de D. Maria... Enfim, um horror! E faz perguntas pavorosas. «V. Ex.ª, Sr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me fez esta, a indecente!

— E tu?

— Eu! Abri muito os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas de João Rojão. São duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho de saúde, e muito simples... A tia Vicência morre por elas. Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma beleza. Oh! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da Civilização... Além disso, é mulher muito séria, toda dedicada aos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com um cabelo lindo... Borda na perfeição e faz doces como uma freira do antigo Regime... Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro de mais. Mas falta a flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.

— E tu, primo Zé, como tens resistido?

— Somos como irmãos, criados de pequeninos, mais habituados e familiares do que tu e eu... A familiaridade apaga os sexos. A mãe dela era a única irmã da tia Vicência e morreu muito nova. A Joaninha cresceu em nossa casa, em Guiães, quase desde o berço. O pai é bom homem, o tio Adrião. É culto, antiquário, colecionador... Coleciona toda a espécie de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivelas... Tem uma coleção curiosa. Há muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga e não pode montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva até aqui é impossível para carruagens...

O meu Príncipe espreguiçou longamente os braços:

— Não, está claro! Eu é que hei de visitar o teu tio e a tia Vicência... Desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu povo.

E com efeito! Jacinto era agora como um Rei que funda um Reino, e um grande construtor. Por todo o seu domínio de Tormes havia obras, para renovar as casas dos rendeiros. Umas eram consertadas. Outras, mais velhas, eram deitadas abaixo, para serem reconstruídas mais largas e cómodas. Pelos caminhos chiavam sempre carros carregados de pedra ou de madeiras cortadas nos pinhais.

Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, havia um movimento fora do costume. Eram os pedreiros e carpinteiros contratados para as obras. O Pedro, de mangas arregaçadas, por trás do balcão, não parava de encher os decilitros com um grande jarro.

Jacinto, que agora tinha dois cavalos, percorria as obras todas as manhãs cedo, com amor. Inquieto, sentia bater e romper outra vez no meu Príncipe o seu velho furor maníaco de acumular Civilização! O plano primitivo das obras era constantemente alargado e aperfeiçoado. Nas janelas, segundo o velho costume da serra, só devia haver portadas de madeira. O mestre de obras disse-lhe honestamente que, depois de um mês de habitadas, não haveria casa com um só vidro. Mesmo assim, ele decidiu pôr vidraças. Para substituir as traves clássicas, queria estucar os tetos. Eu via bem que ele se continha e se prendia ao Bom-senso, para não dar a cada casa campainhas elétricas. Nem sequer me espantei quando ele me declarou, uma manhã, a sua nova ideia. Disse que a sujidade da gente do campo vinha de não terem onde se lavar com comodidade. Por isso, andava a pensar em dar uma banheira a cada casa. Descíamos nesse momento, com os cavalos pela rédea, por um caminho estreito, inclinado e cheio de pedras. Um vento leve mexia nas árvores, e um ribeiro saltava com ruído entre as pedras. Eu não me espantei. Mas realmente pareceu-me que as pedras, o ribeiro, os ramos e o vento se riam alegremente do meu Príncipe. O João, mestre de obras, chamava a estes confortos «as grandezas», com os olhos loucamente abertos. Mas Jacinto, além deles, pensava no bem das almas. Já tinha encomendado ao seu arquiteto, em Paris, o plano perfeito de uma escola. Queria construí-la naquele campo da Carriça, junto à capelinha que guardava «os ossos». Pouco a pouco, criaria aí também uma biblioteca, com livros de imagens. Serviria para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era possível ensinar a ler. Eu baixava os ombros, a pensar: «Aí vem a terrível acumulação das Noções! Eis o livro a invadir a Serra!» Mas outras ideias de Jacinto eram tocantes. Eu mesmo me entusiasmei, e entusiasmei a tia Vicência, com o seu plano de uma Creche. Nela, ele esperava ter manhãs muito divertidas. Veria as criancinhas a gatinhar e a correr sem jeito atrás de uma bola. De resto, o nosso boticário de Guiães já tinha prometido abrir uma pequena farmácia em Tormes. Ficaria sob a direção do seu ajudante, um afilhado da tia Vicência. Este tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no *Almanaque de Lembranças*. E já tinha sido oferecido o partido médico de Tormes, com um ordenado de 600$000 réis.

— Não te falta senão um Teatro! — dizia eu, a rir.

— Um teatro, não. Mas tenho a ideia de uma sala com projeções de lanterna mágica. Serviria para ensinar a esta pobre gente as cidades desse mundo, as coisas de África e um bocado de História.

E também eu fiquei orgulhoso com esta novidade! Quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquário, apesar do reumatismo, deu uma palmada tremenda na coxa. «Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar àquela gente iletrada, de maneira viva, por imagens! A História Santa, a História Romana, até a História de Portugal!...» E, voltado para a prima Joaninha, o tio Adrião declarou que Jacinto era um «homem de coração!»

E realmente crescia pela Serra a popularidade do meu Príncipe. As mulheres saudavam-no ao passar com um «guarde-o Deus, meu senhor!» e voltavam-se para o ver ainda. Nessas palavras havia uma seriedade de oração, o desejo bem sincero de que Deus o guardasse sempre. As crianças, a quem ele distribuía tostões, adivinhavam de longe a sua passagem. À volta dele juntava-se um escuro formigueiro de carinhas morenas e sujas. Tinham grandes olhos abertos, que ainda mostravam espanto, mas já não mostravam medo. Uma tarde, à saída da alameda, o cavalo de Jacinto caiu sobre umas pedras grossas que estragavam a estrada. Por isso, logo no dia seguinte, sem que Jacinto o ordenasse, veio um grupo de homens, por dedicação. Cobriram de saibro e alisaram aquele pedaço perigoso de caminho, assustados com o risco que o bom senhor tinha corrido. Já se espalhava pela serra esse nome de «bom senhor». Os mais velhos da freguesia não o encontravam sem exclamar, uns com gravidade, outros com grandes risos sem dentes: *Este é o nosso benfeitor*! Às vezes, alguma velha via-o no caminho. Corria do fundo do quintal, ou vinha à porta da sua casinha. E gritava, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de bênçãos! Que Deus o cubra de bênçãos!»

Aos domingos, o padre José Maria, bom amigo meu e grande caçador, vinha de Sandofim a Tormes. Vinha na sua égua ruça, para dizer a missa na capelinha. Jacinto assistia ao ofício na sua tribuna, como os Jacintos de outros tempos. Não queria que aquela gente simples o julgasse alheio a Deus. Então recebia quase sempre presentes, que as filhas dos caseiros ou os pequenos, muito corados, lhe vinham trazer à varanda. Eram vasos de manjericão, ou um grosso ramo de cravos, e às vezes um pato gordo. Havia então uma distribuição de cavacas e merengues de Guiães às raparigas e às crianças. E no pátio circulavam, para os homens, os jarros de vinho branco. O Silvério já mostrava espanto e respeito redobrado. Afirmava que o Sr. D. Jacinto teria em breve mais votos nas eleições do que o Dr. Alípio. E eu próprio fiquei impressionado com o que o Melchior me contou. João Torrado era um velho singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas. Era ervanário, vagamente alveitar, um pouco adivinho, e vivia misteriosamente numa cova no alto da serra. E esse João Torrado afirmava a todos que aquele bom senhor era El-Rei D. Sebastião, que tinha voltado!

### Glossário

- **garrano**: cavalo pequeno e forte das serras do Norte.
- **piteus**: comidas muito boas.
- **natalício**: dia de anos.
- **senhorama**: muitas senhoras juntas; palavra familiar e um pouco trocista.
- **antiquário**: aqui, pessoa que estuda e coleciona coisas antigas.
- **Santo Antão**: santo que viveu no deserto e resistiu a muitas tentações.
- **sinetes**: pequenos objetos de metal usados para marcar cera com um desenho.
- **partido médico**: lugar pago de médico de uma terra.
- **lanterna mágica**: aparelho antigo que mostra imagens numa parede.
- **ervanário**: pessoa que conhece e vende plantas que curam.
- **alveitar**: pessoa que trata de animais, sem ser veterinário.
- **El-Rei D. Sebastião**: rei português desaparecido em batalha; muitos acreditavam que ia voltar.
- **trotei**: andei a cavalo, a passo rápido.
- **alameda**: caminho largo com árvores dos dois lados.
- **relinchava**: fazia o som próprio do cavalo.
- **rejuvenescimento**: o facto de voltar a ficar jovem.
- **gabar**: dizer bem de alguém; gabar-se é dizer bem de si próprio.
- **bailarico**: pequeno baile popular.
- **convinha**: era útil, era bom.
- **áspera**: dura, que não é lisa ao tocar.
- **espinafre**: legume de folhas verdes.

## XII

Assim chegou setembro, e com ele o meu natalício, que era no dia 3 e num domingo. Tinha passado toda essa semana em Guiães, a preparar a vindima. De manhã cedo, nesse domingo ilustre, fui debruçar-me na varanda do quarto do saudoso tio Afonso. Vigiava a estrada, por onde devia aparecer o meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência andava atarefada pela cozinha e pela copa desde a madrugada. Queria mostrar ao meu Príncipe «o pessoal» da serra. Por isso, tinha convidado para jantar algumas famílias amigas dos arredores. Eram as que tinham carruagens ou carroções. Assim podiam voltar tarde, pelas estradas pouco seguras, depois de um bailarico à moda do campo, no pátio. O pátio já estava decorado, para esse efeito, com lanternas chinesas. Mas logo às dez horas desesperei. Um moço da Flor da Malva trouxe-me uma carta da prima Joaninha. Dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço». E que ela «não o queria abandonar». Corri indignado para a cozinha. Aí a tia Vicência presidia a um violento bater de gemas de ovos, numa terrina imensa.

— A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço... Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada...

A boa cara redondinha e corada da tia Vicência encheu-se de ternura.

— Coitado! Será em sítio onde não se possa sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que o teu tio se dava bem.

Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:

— Dize à Sr.ª D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu lá apareça amanhã.

E voltei à janela, impaciente. É que o relógio do corredor, muito atrasado, já tinha dado as dez e meia. E o Príncipe tardava para o almoço. Mas mal cheguei à varanda, apareceu justamente Jacinto na curva da estrada, de grande chapéu de palha, no seu cavalo. Seguia-o o Grilo, também de chapéu de palha, abrigado sob um imenso guarda-sol verde. Ia de pernas abertas sobre a albarda da velha égua do Melchior. Atrás vinha um moço com uma mala pequena à cabeça. Era uma alegria ver enfim o meu Príncipe a vir a cavalo para a minha casa de aldeia. E no dia dos meus trinta e seis anos! Nessa alegria, eu pensava noutro natalício, no dele, em Paris, no 202. Aí, entre todos os esplendores da Civilização, nós tínhamos bebido tristemente *Ad Manes*, aos nossos mortos!

— *Salvè*! — gritei da varanda. — *Salvè, domine Jacinthi*!

E, para o receber, cantei o Hino da Carta, num alegre tarantantan!

— Isto por aqui também é lindo! — gritou ele de baixo. — E o teu palácio tem um ar soberbo... Por onde é a porta?

Mas eu já corria para o pátio. Aí Jacinto desceu do cavalo e contou alegremente os sofrimentos do Grilo. O Grilo nunca tinha montado a cavalo e não tinha parado de gritar diante dos perigos daquela aventura.

E o digno preto, ofegante, brilhante de suor e lívido sob o esplendor da sua negrura, exclamava. Apontava com a mão a tremer para a pobre égua. Ela estava solta, de cabeça pensativa, e parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis do que marcos:

— Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!

E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol, deu uma pancada vingativa na égua, sobre a albarda.

Subimos a escada leve e entrámos no corredor alegre, com a sua janela ao fundo coberta de rosinhas. Jacinto elogiava muito a nossa casa, que o fazia descansar das duras muralhas e das grossas portas feudais de Tormes. No seu quarto, agradeceu os cuidados maternais da tia Vicência. Ela tinha enchido de flores os dois vasos da China sobre a cómoda. E tinha adornado a cama com uma das nossas colchas da Índia mais ricas. Era cor de canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, comovido. Então apertámos os ossos num grande abraço, pelo natalício... «Trinta e oito, hein, Zé Fernandes?» — «Trinta e quatro, animal!» E o meu Príncipe abriu a mala, uma mala pequena e simples de filósofo. Ofereceu os «nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na *Odisseia*. Era um alfinete de gravata com uma safira. Era uma cigarreira de aro fosco, adornada com um ramo florido de macieira, em esmalte delicado. E era uma faca para livros, de velho trabalho chinês. Eu protestava contra tanta generosidade.

— É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem à noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança à tua tia Vicência. Não vale nada... É só por ter pertencido à princesa de Lamballe.

Era uma caldeirinha de água benta, em prata trabalhada, de um gosto florido e quase galante.

— A tia Vicência não sabe quem é a princesa de Lamballe, mas vai ficar encantada! E é uma garantia, porque ela desconfia da tua religião. És homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao almoço!

A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada, com o meu camarada. Ela tinha-o imaginado mesmo como um Príncipe, arrogante, altivo e difícil. Ele ofereceu-lhe a caldeirinha, com um pedido delicado, «para se lembrar dele nas suas orações». Então duas largas rosas cobriram as faces redondas da boa senhora. Eram mais rosadas e frescas do que as rosas que enchiam a mesa. Ela nunca tinha recebido presente tão piedoso, com palavra tão linda. Mas o que sobretudo a conquistou foi o tremendo apetite de Jacinto. Ele acumulava no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de forno, depois bifes com muita cebolada. E, com uma convicção entusiasmada, exaltava a nossa cozinha e jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia:

— Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas recheadas...

— Com certeza, minha senhora! Até duas! As minhas rações, em mesas destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua.

— Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores profanos! — exclamava eu, também radiante. — E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus, que amadurece tal uva.

O almoço foi muito alegre, muito íntimo, com muita conversa. Falámos das obras de Jacinto em Tormes e da sua Creche, que encantava a tia Vicência. Falámos das esperanças da vindima, da minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, e do péssimo estado dos caminhos. Mas a maior ternura veio quando o criado serviu o café. Pôs ao lado de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e habitual pau de canela. A tia Vicência não o tinha esquecido! Ali tinha ele o seu pauzinho de canela! Queria que ele continuasse em Guiães os seus hábitos de Tormes... E aquele pau de canela foi o símbolo de adoção do meu Príncipe, como novo sobrinho da tia Vicência.

Ela voltou em breve para a cozinha, para os preparativos do banquete. Nós fumámos um charuto preguiçoso no jardim, ao pé da fonte, à sombra recolhida do cedro. Depois, sem piedade, como proprietário, mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com minúcia implacável. Não lhe perdoei um campo, um rego de água, uma árvore, um pé de vinha. Por fim, a sua cara começou a inchar e a empalidecer de cansaço. Do seu entendimento, totalmente atordoado, só escorria um vago «muito bonito! bela terra!». Só então voltei os passos para casa. Mas ainda dei uma volta larga, para lhe mostrar o lagar e uma plantação de espargos. Mostrei-lhe também o sítio onde tinha existido a ruína de um velho castro romano. Entrámos de novo na sala fresca, pelo jardim. E ainda o empurrei, como a uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso. Queria mostrar-lhe as preciosidades. Havia uma magnífica crónica de D. João I por Fernão Lopes e a primeira edição do *Imperador Clarimundo*. Havia uma *Henriada* com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel e outras maravilhas. Ele respirava, a fechar o último pergaminho, quando o arrastei para a adega. Queria que admirasse a famosa pipa que tinha, em relevo, na madeira da tampa, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Príncipe tinha um ar perdido e lívido. Cravei nele os olhos sem piedade, olhos em que eu mesmo sentia brilhar a ferocidade. E declarei «que iríamos agora ver a tulha». Mas então, com as mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmúrio de criança:

— Não se me dava de me sentar um poucochinho!

Tive então piedade e abri as garras. Deixei que ele se arrastasse atrás de mim para o seu quarto. Aí, descalçou freneticamente as botas e atirou-se para um canapé fresco, forrado de ganga. E murmurou, num abatimento profundo: «Bela propriedade!»

Consenti generosamente que ele adormecesse. Eu mesmo desci para verificar se a Gertrudes tinha disposto bem as escovas e as toalhas de renda. Era no quarto onde os convidados, ao chegar, iam em breve lavar as mãos e escovar a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com a parelha ruça. Espreitei da janela e descobri, com prazer, que ele chegava só. Vinha de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, apertava à pressa as suas ricas pulseiras de topázios.

— Tia Vicência! Chegou o D. Teotónio! Felizmente vem sem a filha... Não se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!

### Glossário

- **natalício**: dia de anos.
- **vindima**: colheita das uvas.
- **debruçar-me**: inclinar-me para a frente, com o corpo para fora.
- **saudoso**: de quem se tem saudades; diz-se de uma pessoa que já morreu.
- **atarefada**: com muito que fazer.
- **bailarico**: baile simples do povo.
- **leicenço**: inflamação dolorosa na pele.
- **gemas**: partes amarelas dos ovos.
- **emplastrozinho**: pequeno remédio que se põe sobre a pele.
- **tardava**: demorava a chegar.
- **albarda**: sela grosseira, cheia de palha, para animais de carga.
- **Salvè, domine Jacinthi**: latim: «Salve, senhor Jacinto».
- **caldeirinha**: pequeno recipiente para água benta.
- **Gargântua**: gigante muito comilão de um livro de Rabelais.
- **castro**: povoação antiga, com muralhas, no alto de um monte.
- **tulha**: lugar onde se guardam os cereais.
- **Não se me dava**: não me importava; maneira antiga e humilde de pedir uma coisa.

## XIII

Ai de mim! A festa do meu aniversário não teve brilho nem alegria!

O meu Príncipe entrou na sala muito elegante. Nessa elegância eu senti as malas de Paris, abertas na véspera. Trazia uma rosa branca no casaco preto e um colete branco, bordado e cruzado. A gravata de seda branca era larga e fofa, presa por uma pérola negra. Todos os convidados já estavam na sala. Eram D. Teotónio, Ricardo Veloso, o Dr. Alípio e o gordo Melo Rebelo, de Sandofim. Eram também os dois manos Albergaria, da quinta da Loja. Estavam todos de pé, muito juntos, como um pelotão de soldados.

À volta do sofá onde a tia Vicência se tinha instalado, um grupinho de cadeiras reunia as senhoras. Beatriz Veloso vestia um tecido branco e fino sobre seda, que a tornava mais leve e magra. Tinha o seu enorme monte de cabelo encaracolado. As duas Rojões, com a tia Adelaide Rojão, vinham ambas de branco, vermelhinhas como maçãs. E a mulher do Dr. Alípio estava de preto, esplêndida como uma Vénus Rústica...

E foi na sala como se entrasse realmente um Príncipe. Era um Príncipe daqueles países do Norte, onde os Príncipes são magníficos. Vivem muito distantes dos homens e assustam as pessoas. Um silêncio esmagava-nos, como se o teto de carvalho descesse. Todos os olhos se apontaram como lanças contra o meu desgraçado Jacinto. Assim acontece numa caçada hindu, quando o Tigre Real aparece à beira da floresta.

Levei-o pela sala, em apresentações confusas e apressadas. Os seus apertos de mão e os seus sorrisos foram cheios de simpatia e simplicidade. Murmurava vagamente «a sua honra, o seu prazer». Foi tudo inútil. Todos os cavalheiros ficavam reservados, a observar o Príncipe que tinha subido à serra. E as senhoras encostavam-se mais à sombra da tia Vicência. Pareciam ovelhas à volta do pastor, quando o lobo aparece no alto. Eu, já preocupado, lancei D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.

— O Sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.

O digno D. Teotónio sorriu e passou a mão pelos grossos bigodes brancos de velho brigadeiro:

— V. Ex.ª chegou diretamente de Viena?

Não! Jacinto tinha vindo diretamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:

— Mas certamente visita Viena muitas vezes...

Jacinto sorria, surpreendido:

— Viena, porquê?... Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.

O nobre murmurou um lento *ah*! e ficou calado, de pálpebras baixas. Parecia fazer análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.

Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:

— O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o homem mais influente de todo o distrito.

O Doutor curvou a cabeça bem-feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e brilhante. Mas a tia Vicência tinha-se levantado do sofá e chamava o meu Príncipe. É que o Manuel tinha anunciado o jantar, sem dizer nada. Tinha apenas mostrado, à porta da sala, a sua pessoa corpulenta, rígida e vermelha.

Na mesa havia pudins e travessas de doce de ovos. Havia também antigos vinhos da Madeira e do Porto, em pesadas garrafas de cristal lapidado. Tudo isto misturava com felicidade as suas cores ricas e quentes. Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luizinha, afilhada dela. Por velho costume, quando jantava em Guiães, a Luizinha sentava-se sempre à sombra da sua boa madrinha.

A sopa era de galinha com macarrão. Foi comida num silêncio tão largo e pesado que eu queria muito quebrá-lo. Sem pensar que estava na minha própria casa em Guiães, depois de tanto tempo, exclamei ao acaso:

— Deliciosa, esta sopa!

Jacinto fez eco:

— Divina!!

Mas todos os convidados estranharam certamente o meu grito e a admiração excessiva de Jacinto. Por isso o silêncio, já carregado de cerimónia, carregou-se ainda mais de embaraço. Felizmente a tia Vicência, com o seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... E eu queria sempre animar a conversa. Por isso nem deixei o meu Príncipe confirmar o seu amor pela cozinha nacional. Gritei:

— Se gosta! Até delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, sem os piteus lusitanos...

Felizmente lembrei-me do prato de arroz doce que o cozinheiro do 202 tinha preparado no aniversário de Jacinto. Contei a história com abundância e a exagerar. Afirmei que esse arroz doce continha *foie gras*. E disse que sobre a sua pirâmide enfeitada flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessou ninguém. Provocou apenas alguns sorrisos de condescendência educada. Era quando eu me voltava ora para um cavalheiro, ora para uma senhora, e insistia, exclamando:

— Extraordinário, hein?

D. Teotónio observou, misteriosamente, que o «cozinheiro sabia para quem cozinhava». E a bela mulher do Dr. Alípio atreveu-se a murmurar, corando:

— Havia de ser um prato bonito, e talvez não fosse mau!

Eu queria sempre dar espírito ao banquete e fazer nascer a conversa. Por isso ataquei com alegria rude a Sr.ª D. Luísa, porque defendia assim a profanação do nosso grande prato nacional! Mas, pobre de mim! Falei à formosa senhora com tanto excesso e tanto ruído que ela se encolheu e emudeceu. Ficou toda corada, e assim ainda mais formosa.

E outro silêncio caía sobre a mesa, como um nevoeiro. Foi então que a tia Vicência, providencial, pediu desculpa a Jacinto por não ter peixe! Mas quê! Ali na Serra era impossível ter peixe, mesmo a peso de ouro, a não ser a pescada salgada ou o bacalhau.

O excelente Rojão tinha um modo tão suave que cada sílaba parecia untada com óleos santos, para correr mais docemente. Com esse modo, lembrou uma coisa. O Sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do rio Douro, com o privilégio de pescar o sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. Alípio não se admirava. É que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro há vinte anos, na juventude do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!...

A propósito das antigas pescas do Douro, foram nascendo lentas conversinhas rurais à volta da mesa. Nasciam entre os homens mais vizinhos. As senhoras aproveitavam-nas para cochichar. Assim desabafavam daquele silêncio cerimonioso, que tinha vindo a pesar cada vez mais, desde a sopa até aos frangos guisados. Eu receava que voltasse aquela orla de murmúrios lentos, sem brilho e sem alegria. Por isso, para animar, atrevi-me a chamar Jacinto. Recordei a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado no elevador.

— Essa foi uma das melhores histórias que nos aconteceram em Paris! O Grão-Duque Casimiro tinha mandado ao Jacinto um peixe muito raro. Por causa dele, o Jacinto dava uma ceia magnífica, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...

Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas. O Melo Rebelo bebeu à pressa do copo e quase se engasgou. Queria contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu contei, com abundância, o peixe encalhado e o Grão-Duque a pescar. Contei o anzol feito com um gancho da Princesa de Carman. Contei o Duque de Marizac quase a cair no poço do elevador... Mas não houve um único riso. A própria atenção era dada com esforço, por cortesia. Em vão eu atirava aqueles nomes magníficos de príncipes e princesas, misturados com coisas cómicas... Nenhum dos meus convidados compreendia o mecanismo do elevador, nem um prato encalhado num poço negro... Diante do gancho da princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu em reticências, gelada ainda mais pela exclamação inocente da tia Vicência:

— Oh! filho, que coisas!

Mas Jacinto tinha começado de repente uma longa conversa com a Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e faladora. Por isso todos, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram em conversinhas discretas. Agora, depois do assado, o champanhe dava-lhes mais vida. Aqueles murmúrios tristes à volta da mesa ficaram definitivamente instalados. Foi então que desisti de animar o jantar. Mergulhei, com a bela mulher do Dr. Alípio, na grande questão social desse tempo em Guiães. Era o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! Eu defendia a D. Amélia e os direitos do amor, quando se fez um largo silêncio. Era Jacinto, que se inclinava para a frente, de copo na mão.

— Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.

Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se levantaram. Correu um grande rumor de amizade e boa vizinhança. Fiz sinal ao Manuel, vivamente, para encher os copos. E logo, também de pé, atirei para trás a sobrecasaca e disse:

— Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? Que pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida pátria! E que por cá fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu velho!

Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa oratória, claramente, não tinha incendiado as imaginações! A tia Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto. Ele tocou no copo da sua vizinha, a Luizinha Rojão, toda resplandecente e mais vermelha que uma peónia. Depois foi uma série de saúdes, com os copos quase vazios, entre todos os convidados. Ninguém esqueceu o tio Adrião e o abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência já espalhava aquele olhar que prepara o levantar e o arrastar das cadeiras. Foi então que D. Teotónio, meio levantado, ergueu o seu copo de vinho do Porto. Apoiou a outra mão na mesa, chamou Jacinto e disse, numa voz respeitosa, quase profunda:

— Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!

Esvaziou o copo como num ato de religião, com a solenidade de um bispo. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam-se. Eu dei o braço à tia Albergaria.

E só compreendi na sala. O Dr. Alípio tinha na mão a chávena de café e o charuto a fumegar. Lançou-me um daqueles olhares finos que lhe valiam a alcunha de *Dr. Agudo*. E disse-me:

— Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...

O mesmo olhar fino indicava-me D. Teotónio. Ele tinha arrastado Jacinto para entre as cortinas de uma janela. Ali discursava, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto um miguelista teimoso, por herança de família. Naquela vinda inesperada ao seu solar de Tormes via uma missão política. Via o começo de uma propaganda enérgica e o primeiro passo para tentar uma Restauração. Então, na reserva daqueles cavalheiros diante do meu Príncipe, senti a suspeita liberal. Senti o receio de uma influência rica e nova nas próximas Eleições. E senti a irritação que nascia contra as velhas ideias, representadas naquele moço tão rico e de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela tolice. Segurei o Melo Rebelo, que punha a chávena vazia na bandeja, e fitei, com um pouco de riso, o *Dr. Agudo*.

— Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar para o miguelismo?

Muito sério, o Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:

— Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel está com ele em Tormes!

Eu olhava para eles, de olhos arregalados. E o Dr. Alípio, tão agudo!, confirmou:

— É o que corre... Disfarçado em criado!

Em criado? Oh! Santo Deus! Era o Baptista! Nesse momento, Ricardo Veloso veio acender o seu cigarrinho no meu charuto. E o bom Rebelo logo pediu o seu testemunho. Pois não corria que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?...

— Disfarçado em lacaio — confirmou logo o digno Rebelo.

Acendeu o cigarro, soprou o fumo e levantou muito as sobrancelhas, a meditar:

— Se assim é, parece-me atrevimento... Eu até não desgostava de o ver. Dizem que é um moço bonito, de boa figura. Mas enfim, o meu tio João Vaz Rebelo foi cortado aos bocados, à machadada, nas prisões de Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...

Calou-se. Jacinto tinha-se libertado do velho D. Teotónio. Ainda conservava um resto de riso, de espanto divertido, e vinha desabafar comigo:

— Extraordinário! Vejo que aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...

Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:

— É conforme o que V. Ex.ª chama *boas ideias*.

Eu estava agora furioso com aquela invenção disparatada. Ela cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto e estragava aquela amável noite de anos. Intervim vivamente:

— Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... Então vamos arranjar duas mesas... O D. Teotónio há de querer cartas.

E arrastei Jacinto para as senhoras. Elas aninhavam-se de novo à sombra da tia Vicência, no seu canto do sofá. Todas se calavam. Pareciam encolher-se diante da aparição do meu Príncipe, como pombas que avistam o abutre. Deixei o temido homem ao pé da mulher do Dr. Alípio, um pouco afastada do bando das aves tímidas. Ele afirmava-lhe que lhe tinha dado grande prazer aquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes... Ela tinha aberto nervosamente o leque e sorria. E nunca, decerto, Jacinto tinha admirado na Cidade uma boca mais vermelha, nem dentinhos mais brilhantes.

Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de me sentar também. Fui substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico. Ele declarou-se «afrontado» e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles cavalheiros, aliás, se queixavam do calor. Mandei abrir as janelas que davam para as mimosas do pátio. O Veloso, ao baralhar as cartas, parava e bufava, como oprimido:

— Está abafado... Ainda temos trovoada!

O Dr. Alípio ficou preocupado, porque tinha uma hora de estrada até casa. E uma das éguas da caleche assustava-se facilmente. Correu à janela, para espreitar o céu, que tinha ficado negro, morno e pesado.

— Com efeito, vai cair água.

Os ramos das mimosas agitavam-se, arrepiados. E o ar que mexia as cortinas vinha aos poucos, tonto. Na sala, certamente, as senhoras sentiam a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu para avisar o mano Jorge.

Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... O Dr. Alípio puxou o relógio. Propôs que, no fim daquela mão de cartas, todos se preparassem para a viagem. Nesse momento o Albergaria voltava da varanda, sem o mal-estar, aliviado com um cálice de genebra. Pegou outra vez nas suas cartas e anunciou também que vinha aí uma trovoada valente.

Voltei à sala e encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras. Elas já estavam à vontade e escutavam, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes. Tinha chegado sem malas, sem criados, tão desprovido que tinha dormido com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos acabava, desorganizada. A tia Albergaria andava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, a espreitar a escuridão abafada. A bela mulher do Dr. Alípio calçava lentamente as luvas e perguntava se ainda faltava a última mão de cartas. E a tia Vicência tinha apressado o chá. O Manuel, seguido pela Gertrudes com a bandeja de bolos, já começava a servi-lo às senhoras. Jacinto, de pé, oferecia chávenas e brincava:

— Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?

Elas respondiam com à-vontade, numa simpatia cada vez maior pelo meu Príncipe:

— Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...

— Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite tão escura!

O voltarete tinha acabado nas duas mesas. E aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as carruagens esperavam, com os cavalos já atrelados:

— Baixa a capota da vitória, ó Diogo!

— Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.

A criada Quitéria chegava à porta com os braços carregados de xailes e mantilhas de renda. Uma das Albergarias ia no banco da frente da vitória. Por isso corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar se viesse a chuva. Só D. Teotónio não se apressava. Tinha apenas meia légua de estrada boa até casa. Agarrava-se outra vez ao meu Príncipe e levava-o para os cantos mais solitários. Ali tinha conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia. E então foi uma pressa das senhoras, que beijavam depressa a tia Vicência. Entretanto, na antecâmara, os homens enfiavam os casacos à pressa.

Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada. Uma a uma, as carruagens rolaram pela noite, entre os nossos desejos de boa viagem. Foram a traquitana do Dr. Alípio, a vitória das Albergarias e a velha e imensa caleche dos Velosos. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:

— Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!

Ao subir a escada, o meu Príncipe desabafou:

— Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?!

— E tu?

— Eu fiquei tão espantado que nem o desiludi!

— Pois fica a saber mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tens o Príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele é? O Baptista!

— Isso é sublime! — murmurou Jacinto, com os olhos muito abertos.

Na sala, a tia Vicência esperava-nos, desconsolada. Todas as luzes ainda ardiam, no silêncio e na paz do serão acabado:

— Ora uma coisa assim! Nem quiseram ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto!

— Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! — exclamei, a desabafar o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, e os amigos com um ar desconfiado...

Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:

— Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram ótimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.

Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria...

— Mas o Sr. Jacinto não é?

— Eu, minha senhora, sou socialista...

Acudi, a explicar à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora achou esse partido o melhor, o verdadeiro:

— O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... O meu pai também, e até amigo do Duque da Terceira...

Mas um trovão rude rolou e ressoou pela noite negra. E uma pancada de água cantou nos vidros e nas pedras da varanda.

— Santa Bárbara! — gritou a tia Vicência. — Ai aquela pobre gente!... Até estou com cuidado... As Rojões, que vão na vitória!

E correu para o quarto, com pressa de acender as duas velas do costume no oratório. Fê-lo antes mesmo de ir guardar as pratas e de rezar o terço com a Gertrudes.

### Glossário

- **esmagava-nos**: apertava-nos com muita força, como um grande peso.
- **sobrecasaca**: casaco comprido e fechado, usado antigamente pelos homens.
- **piteus**: comidas muito boas.
- **sável, sáveis**: peixe que sobe os rios para pôr os ovos.
- **furúnculos**: inflamações dolorosas na pele.
- **forca**: estrutura de madeira usada para matar pessoas, penduradas pelo pescoço.
- **miguelista**: pessoa que apoiava D. Miguel e o rei com todo o poder.
- **lacaio**: criado de uma casa rica.
- **voltarete**: jogo de cartas.
- **dispéptico**: pessoa que digere mal e sofre do estômago.
- **mimosas**: árvores de pequenas flores amarelas.
- **mulherio**: grupo de mulheres; palavra familiar e pouco respeitosa.
- **espreitar**: olhar com atenção, para ver o que se passa.
- **traquitana, vitória, caleche**: carruagens puxadas por cavalos.

## XIV

No dia seguinte, depois do almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo. Íamos dar um grande passeio até à Flor da Malva. Queríamos saber do meu tio Adrião e do seu furúnculo. E eu sentia uma curiosidade interessada, até inquieta. Queria ver que impressão daria ao meu Príncipe a nossa prima Joaninha, o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã tínhamos andado todos no jardim, a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu Príncipe. A tia Vicência tinha elogiado a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha muito amada. Fê-lo com tanto fervor que eu protestei:

— Oh! Tia Vicência, olhe que esses elogios todos só pertencem à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! Depois o Jacinto vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem uma desilusão tremenda!

E agora, a trotar pela estrada fácil de Sandofim, lembrava-me daquela manhã no 202. Jacinto tinha encontrado o retrato dela no meu quarto e tinha-lhe chamado uma *lavradeirona*. Com efeito, a Joaninha era grande e forte. Mas a fotografia era do seu tempo de frescura rústica. Nessa altura ela era apenas uma planta bela, forte e sã da serra. Agora entrava nos vinte e cinco anos, e já pensava e sentia. A alma que nela se tinha formado tinha afinado e amaciado o seu esplendor corado. E tornava-o mais espiritual.

A manhã tinha o céu todo limpo pela trovoada da véspera. As terras estavam outra vez verdes, lavadas pelas chuvas leves. A manhã oferecia uma doçura luminosa, fina e fresca. Essa doçura tornava doce mover o corpo, como diz o velho Eurípides ou o velho Sófocles. E tornava doce deixar a alma preguiçar, sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve e tocava-nos com uma carícia quase alada.

Jacinto nunca tinha passado ali. O vale parecia-lhe uma pintura da Escola Francesa do século XVIII. As terras verdes ondulavam nele com tanta graça! O risonho Serpão corria com tanta paz e frescura! E os casais brancos brilhavam entre as verduras novas, tão amáveis, a prometer fartura e alegria! Os nossos cavalos caminhavam com passo pensativo, a gozar também a paz da manhã adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um aroma delicado. Eu já o tinha sentido muitas vezes naquele caminho, ao começar o outono.

— Que dia delicioso! — murmurou Jacinto. — Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do céu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom?

Eu sorri, com certo pensamento:

— Não sei... É talvez já o cheiro do céu!

Depois parei o cavalo e apontei com o chicote para o vale:

— Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos e o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é coisa do céu. Também lhe hei de pedir que te mande o doce.

Ele ria:

— Será explorar de mais a prima Joaninha.

E eu (porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada de cavaleiros. Tinha sido composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:

— Manda-lhe um servo querido,  
Bem hajas dona formosa!  
E que lhe entregue um anel  
E com um anel uma rosa.

Jacinto riu alegremente:

— Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia dúzia de pêssegos e de um boião de doce.

Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da quinta dos Velosos. Depois apareceu a capelinha de S. José de Sandofim. Imediatamente esporeei o cavalo para o largo, para a taverna do Torto. Era por causa daquele vinhozinho branco que a minha alma me pede sempre, quando a levo por ali. O meu Príncipe reprovou, indignado:

— Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois do almoço, vais beber vinho branco?

— É um costumezinho antigo... Aqui à tavernazinha do Torto... um decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.

E parámos. Gritei pelo Manuel, que apareceu com a sua barriga grossa a rebolar sobre as pernas tortas. Trazia o jarro verde e um copo.

— Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.

Depois de um protesto fraco, o meu Príncipe também quis. Olhou ao sol o vinho límpido e dourado, provou, e esvaziou o copo com delícia. Deu um estalinho com a língua, de alto apreço.

— Delicioso vinho!... Hei de querer deste vinho em Tormes... É perfeito.

— Hein? Fresquinho, leve, aromático, que dá alegria, todo alma!... Encha lá outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, o fidalgo de Tormes.

Então, de trás da ombreira da taverna, uma grande voz gritou, profunda e solene:

— Bendito seja o Pai dos Pobres!

E um velho estranho apareceu no vão da porta. Tinha longos cabelos brancos e barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo. Apoiava-se a um bordão e trazia uma caixa de lata a tiracolo. Cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar os olhos de Jacinto. Esses olhos alargavam-se, mais negros. Mandei vir outro copo e apresentei Jacinto, que tinha corado, embaraçado.

— Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza.

O velho atirou bruscamente para ele o braço cabeludo e quase negro, que saía de uma manga muito curta.

— A mão!

Jacinto tirou depressa a luva e deu-lhe a mão. João Torrado segurou-a longamente e sacudiu-a com um movimento lento e pensativo, a murmurar:

— Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

Depois pegou no copo que o Torto lhe oferecia e bebeu com imensa lentidão. Limpou as barbas e ajeitou a correia que lhe prendia a caixa de lata. Bateu com a ponta do cajado no chão:

— Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, sem ser o meu dia, e vi um homem!

Eu então inclinei-me para ele, em maior confidência:

— Mas, ó tio João, ouça cá! É mesmo verdade que você anda a dizer por aí, por estes sítios, que o Rei D. Sebastião tinha voltado?

O velho pitoresco apoiou as duas mãos no cajado e o queixo de barba espalhada sobre as mãos. Murmurava sem nos olhar, como se seguisse a batida dos seus pensamentos:

— Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa... Na feira da Roqueirinha, quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!

Como ele tinha acabado num murmúrio, eu atirei um olhar a Jacinto. E, para gozarmos aqueles modos estranhos e pitorescos de vidente, insisti:

— Mas, ó tio João, você, em sua consciência, pensa realmente que o Rei D. Sebastião não morreu na batalha?

O velho levantou a face para mim, enrugada de desconfiança:

— Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e V. S.ª tem pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo, com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!

Com a mão magra fez um gesto para seguirmos. Já passávamos o cruzeiro quando o seu grito ardente voou de novo, solene e profundo:

— Bendito seja o Pai dos Pobres!

Direito, no meio da estrada, levantava o cajado como se dirigisse as aclamações de um povo. E Jacinto estava pasmado por ainda haver no reino um Sebastianista.

— Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade, cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma do Sebastianismo. Eu, todas as manhãs, mesmo sem nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, porque eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?

— Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa é aquela com os dois torreões?

— A Flor da Malva.

Jacinto tirou o relógio:

— São três horas. Gastámos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este sítio.

A Flor da Malva ficava sobre um outeirinho, afastada da estrada por árvores que um muro fechava. Dominava a paisagem. Voltava para Oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados. As janelas de varanda eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, com dois bancos de pedra aos lados, ficava ao fundo do terreirinho. Ali um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Um pequeno, sentado nas raízes fortes e descarnadas da grande árvore, esperava, a segurar um burro pela corda.

— Está por aí o Manuel da Porta?

— Ainda agora subiu pela alameda.

— Bem: empurra lá o portão.

E subimos por uma curta avenida de árvores velhas até outro terreiro. Tinha um alpendre, uma casa de criados toda coberta de heras, e uma casota de cão. Da casota saltou, com um ruído de corrente arrastada, um molosso, o Tritão. Logo o sosseguei, fazendo-o reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavalos.

— Como está o tio Adrião?

Surdo, o excelente Manuel sorriu, deliciado:

— E então Vossa Excelência, bem? A Sr.ª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.

Seguimos por ruazinhas de areia bem tratada, com bordas de alfazema e buxo alto. Eu ia contando ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana. Agora era o seu encanto e todo o seu cuidado.

— Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem por aí pela freguesia um verdadeiro rancho de filhos. E não é só dar-lhes roupas e presentes e ajudar as mães. Até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda apaixonada por este Josezinho.

Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, procurei em vão. Entrei pelas árvores e até gritei: «Eh, prima Joaninha!...»

— Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...

Descemos a rua entre árvores que a cobriam com os seus ramos densos e cruzados. Uma água de rega, fresca e límpida, corria e luzia num canal de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de verão. E o pequeno campo que se avistava mais além brilhava com doçura. Estava todo amarelo e branco, de malmequeres e botões-de-ouro.

O tanque redondo tinha sido esvaziado para ser lavado. Agora o repuxo ia-o enchendo de novo de uma água muito clara, ainda baixa. Os peixes vermelhos agitavam-se nela, alegres por recuperarem o seu pequeno oceano. Num dos bancos de pedra à volta do tanque estava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço podava as camélias, numa escada. Ele tinha visto a Sr.ª D. Joana seguir para o lado da parreira.

Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uvas pretas. Ao longe, duas mulheres ensaboavam roupa num lavadouro, à sombra de grandes nogueiras. Gritei:

— Eh lá! Vocês viram por aí a Sr.ª D. Joana?

Uma das moças gritou com voz aguda, mas a voz perdeu-se no vasto ar luminoso e doce.

— Bem: vamos a casa! Não podemos andar assim a farejar a tarde toda.

— É uma bela quinta — murmurava o meu Príncipe, encantado.

— Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excelente... Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!

Passámos pela horta, uma horta ajardinada como a que o meu Príncipe tinha sonhado. Os seus canteiros tinham bordas de alfazema. A madressilva enrolava-se nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas, cobertas de parra densa. Demos a volta à capela. Aos dois lados da porta cresciam uma roseira-chá, com uma única rosa muito aberta, e uma moita de baunilha. Jacinto apanhou um raminho para cheirar.

Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrolada de jasmineiros amarelos. A porta de vidro estava aberta. Subimos a escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva descansava. Chegámos à antecâmara de tetos altos e trabalhados, com longos bancos de madeira. Neles, a pintura velha das complicadas armas dos Cerqueiras estava a desmaiar. Empurrei a porta de outra sala, com as janelas de varanda abertas, cada uma com a gaiola de um canário.

— É curioso! — exclamou Jacinto. — Parece o meu Presépio... E as minhas cadeiras.

E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, estava um presépio semelhante ao da Livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro trabalhado tinham umas armas sob um chapéu de Cardeal. Eram como as que ele tinha descoberto no sótão.

— Oh senhores! — exclamei. — Não haverá um criado?

Bati as palmas com força. E o mesmo doce silêncio ficou, muito largo, todo luminoso e arejado pelo ar macio da quinta. Só o cortava o saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas.

— É o Palácio da Bela Adormecida no bosque! — murmurou Jacinto, quase indignado. — Dá um berro!

— Não, caramba! Vou lá dentro!

Mas a porta abriu-se de repente, e apareceu a minha prima Joaninha. Vinha corada do passeio e do ar vivo. Trazia um vestido claro, um pouco aberto no pescoço. Esse vestido fundia mais docemente, numa grande claridade, o esplendor branco da sua pele. Com ele se fundia o louro ondulado dos seus belos cabelos. Estava lindamente risonha. A surpresa alargava os seus grandes e luminosos olhos negros. E trazia ao colo uma criancinha gorda e cor-de-rosa, coberta apenas com uma camisinha de grandes laços azuis.

E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou. Casou em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira estava todo coberto de rosas.

### Glossário

- **furúnculo**: inflamação dolorosa na pele.
- **lavradeirona**: mulher do campo, grande e forte.
- **botoeira**: pequena abertura no casaco, onde se pode pôr uma flor.
- **bordão, cajado**: pau comprido que ajuda a andar.
- **vidente**: pessoa que diz ver o futuro e as coisas escondidas.
- **Sebastianista**: pessoa que acredita que o rei D. Sebastião, desaparecido em batalha, vai voltar.
- **torreões**: pequenas torres de uma casa grande.
- **molosso**: cão grande e forte, de guarda.
- **parreira**: planta que dá uvas, presa a uma estrutura alta que faz sombra.
- **presépio**: conjunto de figuras que mostra o nascimento de Jesus.
- **trotar**: andar a cavalo a um passo rápido, entre andar e correr.
- **afinado**: tornado mais fino e delicado.
- **amaciado**: tornado mais macio e suave.
- **casais**: pequenas casas de campo com terra à volta.

## XV

E agora, entre roseiras que rebentam e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final. Porque naquele solar, que tinha decaído, correm agora dois filhos, com vida soberba. São uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade.

Agora pai de família, aquele homem tinha começado a tornar-se monótono, pela perfeição da beleza moral. Antes era tão pitoresco, com a sua inquietação filosófica e os sofrimentos variados da sua imaginação insatisfeita. Agora entendia bem as coisas da lavoura. Quando percorria comigo a quinta, em conversas agrícolas sólidas, prudentes e sem fantasias, eu quase tinha pena do outro Jacinto. Esse colhia uma teoria em cada ramo de árvore. Riscava o ar com a bengala e planeava queijarias de cristal e porcelana. Queria fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!

A paternidade também lhe tinha despertado a responsabilidade. Jacinto tinha agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com falhas e papelinhos soltos pelo meio. Mas ali as suas despesas e as suas rendas alinhavam-se como dois exércitos disciplinados. Já tinha visitado as suas propriedades de Montemor, da Beira. Consertava as velhas casas dessas propriedades e punha-lhes móveis, para os filhos encontrarem «ninhos feitos» mais tarde, quando fossem crescidos.

Mas reconheci que um equilíbrio perfeito e feliz se tinha estabelecido definitivamente na alma do meu Príncipe. Foi quando, já livre daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade, abriu um pouco a porta de Tormes à Civilização.

Uma tarde, dois meses antes de nascer a Teresinha, entrou pela avenida de plátanos uma longa fila de carros. Chiavam, pedidos a toda a freguesia, e vinham cheios até cima de caixotes. Eram os famosos caixotes, encalhados há tanto tempo em Alba de Tormes. Chegavam para despejar a Cidade sobre a Serra. Pensei: «Mau! O meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados daquela temível caixotaria foram, para minha surpresa, para os sótãos imensos. Ficaram no pó da inutilidade. O velho solar só recebeu alguns tapetes sobre os seus soalhos e cortinas nas janelas desabrigadas. Recebeu também poltronas e sofás fundos, para que os descansos por que ele tinha suspirado fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação à minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que tinha sido o seu Jacinto a ordená-lo. Mas, passadas semanas, tremi. Tinha aparecido, vindo de Lisboa, um contramestre com operários e mais caixotes, para instalar um telefone!

— Um telefone, em Tormes, Jacinto?

O meu Príncipe explicou, com humildade:

— Para casa de meu sogro!... Bem vês.

Era razoável e carinhoso. Mas o telefone, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio para Valverde. E Jacinto, a abrir os braços, quase suplicante:

— Para casa do médico. Compreendes...

Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei com os berros da tia Vicência! Tinha chegado um homem misterioso, com outros homens, a trazer arame, para instalar em nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia Vicência. Jurei que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu e encolheu os ombros:

— Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro... E, depois, estás tu!

Era fraternal. Todavia pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina!» Mas não! O Progresso tinha subido a Tormes, à ordem de Jacinto, para instalar aquela sua maravilha. Pensava talvez que tinha conquistado mais um reino para enfear. Mas desceu, silenciosamente, desiludido. E não vimos mais sobre a serra a sua sombra rígida, cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que o equilíbrio da vida se tinha realmente instalado na alma de Jacinto. E com ele veio a Grã-Ventura, de que tinha sido durante tanto tempo o príncipe sem Principado.

Uma tarde, no pomar, encontrei o nosso velho Grilo. Estava agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe tinha dado meninos para trazer às cavalitas. O digno preto lia o seu *Figaro*, armado de uns imensos óculos redondos. Observei-lhe:

— Pois, Grilo, agora podemos mesmo dizer que o Sr. D. Jacinto está firme.

O Grilo afastou os óculos para a testa e levantou para o ar os cinco dedos em curva, como pétalas de uma tulipa:

— S. Ex.ª brotou!

Profundo sempre, o digno preto! Sim! Aquele galho seco de Cidade, plantado na serra, tinha pegado. Tinha chupado o húmus da terra herdada, criado seiva e afundado raízes. Tinha engrossado de tronco, atirado ramos e rebentado em flores. Estava forte, sereno, feliz, benéfico, nobre, a dar frutos e a derramar sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela alimentados, cem casais em redor abençoavam-na.

### Glossário

- **rebentam**: começam a dar folhas e flores.
- **vindimam**: colhem as uvas.
- **solar**: casa antiga de uma família nobre.
- **decaído**: que perdeu a riqueza e a grandeza de antes.
- **afilhada**: menina de quem se é padrinho ou madrinha.
- **lavoura**: trabalho da terra.
- **queijarias**: lugares onde se faz queijo.
- **réis**: dinheiro antigo de Portugal.
- **rabiscado**: escrito à pressa, com letra feia.
- **boticário**: pessoa que prepara e vende remédios.
- **contramestre**: chefe de um grupo de operários.
- **fuligem**: pó negro deixado pelo fumo.
- **às cavalitas**: sentado nos ombros de outra pessoa.
- **brotou**: nasceu e cresceu, como uma planta.
- **seiva**: líquido que alimenta as plantas.
- **casais**: pequenas casas de campo com terra à volta.

## XVI

Muitas vezes, durante esses anos, Jacinto tinha falado com prazer de um regresso ao 202, por dois ou três meses. Queria mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para registar os espantos da minha serrana diante da Cidade! Depois concordou em esperar que o Jacintinho fizesse dois anos. Assim podia viajar sem desconforto, e já apontar com o dedo para as coisas da Civilização. Mas quando o Jacintinho fez esses dois anos desejados, em outubro, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase medo. Tinha preguiça do comboio, do barulho da Cidade, do 202 e dos seus esplendores.

«Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!», murmurava ela, sempre deslumbrada, e lançava os braços ao pescoço forte do seu Jacinto. Ele logo desistia de Paris, encantado. «Vamos para abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em abril vieram aqueles cansaços que prendiam a prima Joaninha ao divã. Estava feliz e risonha, com umas pintas na pele e o roupão mais solto. A alegre aventura ficava desfeita por todo um longo ano.

Eu andava então a sofrer de falta de ocupação. As chuvas de março prometiam uma colheita farta. Uma certa Ana Vaqueira, viúva, corada e bem-feita, que satisfazia as necessidades do meu coração, tinha partido para o Brasil. Foi com o irmão, que lá dirigia uma venda. Desde o inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava. E certamente, em algum lugar da minha alma, tinha nascido uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.

Logo em Hendaia, mal pisei a doce terra de França, o meu pensamento voou ao 202. Voou como um pombo a um velho pombal. Talvez fosse por ver um cartaz enorme. Nele, uma mulher nua, com flores de bacante nas tranças, contorcia-se. Numa das mãos segurava uma garrafa espumante. Na outra agitava, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! Logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, eis um moço esbelto, de perfeita elegância. Entra depressa no meu compartimento, olha para mim e grita:

— Eh, Fernandes!

Marizac! O Duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina, por ele me ter reconhecido! O bom Marizac atirou para o canto do vagão um casaco e um maço de jornais. O escudeiro tinha-lhos passado. E exclamou, com a mesma surpresa alegre:

— E Jacinto?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor pela minha prima. Contei os dois filhos, que ele trazia às cavalitas.

— Ah, que canalha! — exclamou Marizac, com os olhos espetados em mim. — É capaz de ser feliz!

— Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...

— Indecentemente — murmurou Marizac, muito sério. — Que canalha!

Eu então quis saber do nosso grupo familiar do 202. Ele encolheu os ombros e acendeu o cigarro:

— Toda essa gente circula...

— Madame d'Oriol?

— Continua.

— Os Trèves? O Efraim?

— Continuam, todos três.

Fez um gesto mole e preguiçoso.

— Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pó de arroz, e a pele um pouco mais mole e melada. Os homens com um pouco mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A Princesa de Carman fugiu com um acrobata do Circo de Inverno... E... e *voilà*!

— Dornan?

— Continua... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo às vezes o nome dele, no *Boulevard*, com versos preciosos e obscenidades muito apuradas, muito subtis.

— E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...

— Continua também. Sempre com as coisas de mulheres a três francos e cinquenta... Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que se vendem bem!

Eu, encantado, ia perguntar por Todelle e pelo Grão-Duque, mas o comboio entrou na estação de Biarritz. O delicioso Marizac apanhou depressa o casaco e os jornais e apertou-me a mão. Saltou pela portinhola, que o seu criado tinha aberto, e gritou:

— Até Paris!... Sempre rue Cambon.

Então, sozinho no compartimento, bocejei. Sentia uma estranha monotonia e um cansaço de tudo. Era como se estivesse já cercado de gente muito vista. Essa gente murmurava histórias muito sabidas e coisas muito ditas, através de sorrisos gastos.

Dos dois lados do comboio estendia-se a longa planície monótona, sem variedade. Estava muito miudamente cultivada e muito miudamente cortada em pedaços. Tinha um verde de reseda, cinzento e apagado. Nenhum brilho, nenhum tom alegre de flor, nenhum acidente do terreno perturbava aquela mediocridade discreta e ordenada. Choupos pálidos, em filas finas e regulares, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor parda, mal se levantavam do chão. Mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma nuvem, tinha um sol descorado. Parecia um vasto espelho lavado com muita água, até lhe sair todo o esmalte e todo o brilho. Adormeci numa doce insipidez.

Com que linda manhã de maio entrei em Paris! Tão fresca, fina e já macia, que, mesmo cansado, mergulhei com repugnância no fundo e sombrio leito do Grand-Hotel. Estava todo fechado por veludos espessos, cordões grossos e borlas pesadas, como um palanque de festa. Naquela funda cova de penas, sonhei que em Tormes tinham construído uma torre Eiffel. À volta dela dançavam nuas as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, a própria tia Albergaria. Agitavam no ar enormes saca-rolhas.

Com as emoções deste pesadelo, depois o banho e o desfazer da mala, já eram quase duas horas. Saí enfim pelo grande portão e pisei, ao fim de cinco anos, o Boulevard. E logo me pareceu que tinha ficado ali todos esses cinco anos, à porta do Grand-Hotel. Tudo me era tão cansativamente conhecido: o rolar barulhento da cidade, as árvores magras, as grossas tabuletas. Conhecia os chapéus imensos, de plumas, sobre tranças pintadas de amarelo. Conhecia as sobrecasacas empertigadas, com grossas rosetas da Legião de Honra. E conhecia os garotos que, em voz rouca e baixa, ofereciam baralhos de cartas obscenas e caixas de fósforos obscenas... «Santo Deus!», pensei. «Há tantos anos que estou em Paris!»

Comprei então, num quiosque, um jornal, a *Voz de Paris*. Queria que ele me contasse, durante o almoço, as novidades da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, coberta de jornais ilustrados. Em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua ou meio despida. Umas vezes mostrava as costelas magras, de gata faminta. Outras vezes voltava para o Leitor duas nádegas tremendas... Eu murmurei outra vez: «Santo Deus!» No Café da Paz, o criado estava lívido, com um resto de pó de arroz sobre a lividez. Por ser tão tarde, aconselhou ao meu apetite um linguado frito e uma costeleta.

— E que vinho, Sr. Conde?

— Chablis, Sr. Duque!

Ele sorriu à minha deliciosa piada, e eu abri, contente, a *Voz de Paris*. A primeira coluna tinha uma prosa muito retorcida, toda a brilhar como joia barata. Através dela, vi uma Princesa nua e um Capitão de Dragões que soluçava. Saltei para outras colunas, que contavam os feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página, escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois vinham os crimes do costume. Não há nada de novo!

Pus de lado a *Voz de Paris*. E então começou, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável tinha-se fritado com ódio contra mim. Não me deixava tirar da sua espinha nem uma fibra de carne. Todo ele tinha secado, numa sola impenetrável e tostada. A faca dobrava-se nela, impotente e trémula. Gritei pelo moço lívido. Ele pegou numa faca mais dura e firmou no soalho os sapatos de fivela. Arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos. Engoli-as juntas, e fiquei com mais fome. Acabei a costeleta com uma garfada. Paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu com a delicadeza requintada de uma civilização muito espalhada, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de maio saí para o terraço. Tomei um café cor de chapéu de coco, que sabia a fava.

Com o charuto aceso, contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e barulho da sua vida grossa. A densa torrente de ónibus, calhambeques, carroças e carruagens de luxo rolava depressa. Era como toda uma humanidade escura a formigar entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento contínuo e rude depressa me deixou tonto. O meu espírito estava habituado, há cinco anos, ao sossego das serras imutáveis. Tentava então, como uma criança, descansar os olhos numa forma imóvel. Podia ser um ónibus parado, ou um fiacre travado pelo escorregar brusco do cavalo magro. Mas logo alguém de costas apressadas se enfiava pela portinhola da tipoia. Ou um cacho de figuras escuras subia com avidez para o ónibus. E, rápido, recomeçava o rolar estrondoso.

Imóveis, decerto, estavam os altos prédios rígidos, margens de pedra e cal que continham e disciplinavam aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, por toda a fachada, havia tabuletas. Havia tabuletas por cima de tabuletas, apertadas por outras tabuletas. E ainda me cansava mais perceber o trabalho escondido, teimoso e sem fim. Por trás das fachadas decentes e mudas, arquejava a canseira devoradora do lucro.

Então, a fumar o meu charuto, fui estranhamente tomado pelos sentimentos que Jacinto tinha tido outrora no meio da Natureza. E esses sentimentos tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, estava como ele no campo. Também eu senti a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão. Estava certamente ali como perdido num mundo que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu tivesse fome e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflição que a minha cara mostrasse, ninguém, na sua pressa, pararia para me consolar. E de que me serviriam as qualidades da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela multidão não se importaria com a minha santidade. E se abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard: «Ó homens, meus irmãos!», os homens ririam e passariam, indiferentes. Seriam mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis.

Só dois impulsos, correspondentes a duas únicas funções, pareciam vivos naquela multidão: o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e contagiada pela sua influência, a minha alma em breve se contrairia. Iria tornar-se um duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu tinha trazido da Serra só restaria, em pouco tempo, esse calhau. E nele estariam vivos os dois apetites da Cidade: encher a bolsa, saciar a carne!

E pouco a pouco invadiam-me, diante da Cidade, os mesmos exageros de Jacinto diante da Natureza. Aquele Boulevard soltava para mim um bafo mortal, saído dos seus milhões de micróbios. De cada porta parecia sair uma armadilha para me roubar. Em cada cara, vista à portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido em ação. Todas as mulheres me pareciam pintadas de branco como sepulcros, só com podridão por dentro. E achava de uma melancolia funambulesca as formas de toda aquela Multidão. Era a sua pressa áspera e vã, a afetação das atitudes, as plumas imensas dos chapéus. Eram as expressões postiças e falsas, a pompa dos peitos levantados. Era o dorso redondo dos velhos a olhar as imagens obscenas das montras. Ah! Tudo isto era infantil, quase cómico da minha parte. Mas é o que eu sentia no Boulevard. Pensava na necessidade de mergulhar outra vez na Serra. Queria que a crosta da Cidade caísse de mim ao seu ar puro, e que eu ressurgisse humano, e Zé-Fernandico!

Então, para afastar aquele peso de solidão, paguei o café e parti, lentamente, para visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ónibus, pensei: «Que será feito de Madame Colombe?» E, oh miséria! Pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde me tinha envenenado, e que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno.

Depois, ao virar da rue Royale para a Praça da Concórdia, dei com um homem robusto e forte. Ele parou, levantou o braço e o vozeirão, num modo de comando:

— Eh, Fernandes!

O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de casaco esbranquiçado e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me tinha reconhecido.

— E Jacinto? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo no meio da Natureza. Contei a minha doce prima e os bravos pequenos, que ele trazia às cavalitas. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:

— Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com um rancho de filhos... Homem perdido! Ora não há!... E um rapaz útil, que nos divertia, e tinha gosto! Aquele jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... Potável, mulher ainda muito potável... Mas não é o meu género... Adocicada, leitosa, cheia de pomada, *neve à la vanille*!... Ora esse Jacinto!...

— E Vossa Alteza fica muito tempo em Paris?

O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:

— Nada. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest, que era *maître-d'hôtel* do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palha, indecentemente palha! Não tem, não tem a noção da salada! Paris acabou! Teatros, uma maçada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num dos teatrinhos de Montmartre, na Roulotte, há uma revista que se vê: *Para cá as mulheres!* É engraçada, bem despida... A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o *Amor no Water-Closet*, que diverte, tem atrevimento... Onde está, Fernandes?

— No Grand-Hotel, meu senhor.

— Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabeça:

— Sua Majestade, bem.

— Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola! Vá ver a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal *Amor no Water-Closet*.

Deu-me um aperto de mão fortíssimo. S. Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me encheu de gratidão... Excelente homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. A sua nobre e formosa largura estava toda verde, com os castanheiros em flor. Por ali corriam velocípedes, para cima e para baixo. Parei a contemplar aquela fealdade nova, aquelas inúmeras costas curvadas e pernas magras a agitar-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de pescoço escarlate, pedalavam gordamente. Rapagões magros, de canelas descarnadas, fugiam em linha, como balas. E as mulheres, muito pintadas, de casaquinho curto e calções largos, giravam mais depressa ainda. Iam escarranchadas em hastes de ferro, no prazer duvidoso da corrida. E a cada instante passavam outras máquinas medonhas, vitórias e faetontes a vapor. Tinham uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés. Rolavam com uma trepidação barulhenta e pesada, e espalhavam um grosso mau cheiro a petróleo. Segui para o 202, a pensar num grego do tempo de Fídias. Que diria ele, se visse esta nova beleza e graça do andar humano!...

No 202, o porteiro, o velho Vian, mostrou uma alegria comovente quando me reconheceu. Não se cansava de saber do casamento de Jacinto e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade eu aparecer, justamente quando estava tudo a ser limpo para a entrada da primavera. Quando entrei na amada casa, senti mais vivamente a minha solidão. Em toda ela não restava nenhum dos aspetos do costume, que fizesse reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe.

Logo na antecâmara, grandes lonas cobriam as tapeçarias heroicas. Igual lona parda escondia os estofos das cadeiras e das paredes. Escondia também as largas estantes de ébano da Biblioteca. Ali os trinta mil volumes, nobremente em fila como Doutores num Concílio, pareciam separados do mundo por aquele pano. Tinha descido sobre eles, depois de acabada a comédia da sua força e da sua autoridade.

No gabinete de Jacinto, a mesa de escrever já não tinha aquela confusão de instrumentozinhos. Eu até já os tinha esquecido. Só a Mecânica sumptuosa, sobre bases e pedestais, acabada de limpar, reluzia com engrenagens, tubos, rodas e metais rígidos. Estava numa frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas fora de uso. Parecia já colocada num Museu, para exemplificar os instrumentos velhos de um mundo passado. Tentei mexer o telefone, que não se mexeu. A mola da eletricidade não acendeu nenhuma luz. Todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como criados despedidos. E então, a passear pelas salas, pareceu-me realmente que percorria um museu de antiguidades. Mais tarde, pareceu-me, viriam outros homens, com uma compreensão mais pura e exata da Vida e da Felicidade. Percorreriam como eu longas salas, cheias de instrumentos da Super-Civilização. E, como eu, encolheriam os ombros com desdém diante da grande Ilusão acabada. Agora estava para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardada debaixo de lona.

Quando saí do 202, tomei um fiacre e subi ao Bosque de Bolonha. Rolei uns momentos pela Avenida das Acácias. Havia um silêncio decente, cortado apenas pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas a esmagar a areia. E logo comecei a reconhecer as velhas figuras. Tinham sempre o mesmo sorriso e o mesmo pó de arroz. Tinham as mesmas pálpebras caídas, os mesmos olhos a farejar, a mesma imobilidade de cera!

O romancista da *Couraça* passou numa vitória, fixou em mim o monóculo fumado, mas ficou indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane tapavam-lhe as orelhas. Pareciam ainda mais furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia. Branco era o chapéu, as plumas, as flores e as rendas. Branco era o corpete, onde o seu peito imenso subia como uma onda. No passeio, sob as Acácias, estendido em duas cadeiras, o diretor do *Boulevard* mamava o resto do seu charuto. E num grande landau, Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos. Tinha duas preguinhas mais moles aos cantos dos lábios secos.

Parti para o Grand-Hotel a bocejar, como outrora Jacinto. E acabei o meu dia de Paris no Teatro das Variedades. Fiquei tonto com uma comédia muito fina, muito aclamada, a brilhar do mais vivo parisianismo. Toda a história se enrolava à volta de uma Cama. Nela rebolavam, à vez, mulheres em camisa e sujeitos gordos em ceroulas. Havia um coronel com papas de linhaça nas nádegas e cozinheiras de meias de seda bordadas. E havia ainda mais gente, barulhenta e saltitante, a fervilhar de cio e de piadas.

Tomei um chá melancólico no Julien, no meio de um namoro áspero e lúgubre de prostitutas, à caça da presa. Duas delas tinham a pele oleosa e acobreada, olhos oblíquos e cabelos duros e negros como crinas. Nelas senti o Oriente e a sua provocação felina... Interroguei o criado, um ser medonho, de uma obesidade mole e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz rouca e surda:

— Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a França ocupou a ilha!

Arrastei então por Paris dias de tédio imenso. Ao longo do Boulevard voltei a ver nas montras todo o luxo, que já me tinha enfartado há cinco anos. Não havia uma graça nova, nem uma pequena frescura de invenção. Nas livrarias não descobria um livro. Folheava centenas de volumes amarelos. De cada página que abria ao acaso saía um cheiro morno de alcova e de pó de arroz. As linhas eram trabalhadas com enfeites efeminados, como rendas de camisas.

Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava sempre o mesmo molho, a enfeitar e a disfarçar as carnes ou as aves. Tinha cores e sabores de pomada. Já de manhã, noutro restaurante cheio de espelhos e dourados, me tinha enjoado no peixe e nos legumes. Paguei por altos preços garrafas do nosso vinho de Torres, rústico e adstringente. Estava enobrecido com o título de *Château* isto, *Château* aquilo, e com pó falso no gargalo.

À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada Cama, como centro e único fim da vida. Atraía, com mais força do que o monte de lixo atrai os moscardos, um enxame de gente. Essa gente estava tonta, a tremer de erotismo, a zumbir piadas senis. Esta sordidez da Planície levou-me a procurar melhor ar para o espírito nas alturas da Colina, em Montmartre. Aí estava uma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade. No meio dela, eu recebia do alto do palco grossos jorros de obscenidades. Faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros. Faziam arfar de delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas.

Voltava enjoado com tanto cheiro de Alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar. E sobretudo descontente comigo, por não me divertir e não compreender a Cidade. Andava por ela e pela sua Civilização Superior com a reserva ridícula de um Censor, de um Catão austero. Pensava: «Oh senhores! Pois eu não me divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?»

Passei as pontes que em Paris separam o Temporal do Espiritual. Mergulhei no meu doce Bairro Latino. Diante de certos cafés, recordei a minha Nini. E, como outrora, subi preguiçosamente as escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde tinha ouvido um grosso sussurro, ensinava um homem magro. Tinha uma testa muito branca e larga, como feita para guardar pensamentos altos e puros. Falava das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal entrei, o seu discurso elegante e límpido foi abafado por gritos, urros e pateadas. Era um tumulto rancoroso, de troça bestial. Vinha da juventude apertada nos bancos, a juventude das Escolas, Primavera sagrada, de que eu tinha sido flor murcha.

O Professor parou, espalhou à volta um olhar frio e mexeu nas suas notas. Quando o grosso grunhido baixou para um sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e sólidas, expressas numa língua pura e forte. Mas imediatamente rebenta uma rajada furiosa de apitos, uivos, relinchos e cacarejos de galo. No meio deles levantavam-se mãos magras, estendidas para estrangular as ideias. Ao meu lado estava um velho, encolhido na gola alta de um casaco aos quadrados. Contemplava o tumulto com melancolia, a pingar da constipação. Perguntei ao velho:

— Que querem eles? É birra com o professor... é política?

O velho abanou a cabeça e espirrou:

— Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.

Então, indignado, berrei:

— Silêncio, brutos!

E eis que um pequeno aborto de rapaz, amarelado e sebento, se levanta e me fita. Tem longas melenas e enormes lunetas brilhantes. Berra-me:

— *Sale Maure*!

Levantei o meu grosso punho serrano. E o desgraçado caiu, numa confusão de melenas, com sangue por toda a cara. Caiu como um monte de trapos moles, a ganir desesperadamente. Entretanto, o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e assobios envolvia o Professor. Ele tinha cruzado os braços e esperava, com uma serenidade simples.

Desde esse momento decidi abandonar a Cidade aborrecida. O único dia alegre e divertido que lá passei foi o último. Comprei para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização. Eram vapores de aço e cobre, com caldeiras para viajar em tanques. Eram leões de pele verdadeira, que rugiam pavorosamente. Eram bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo na barriga...

Finalmente parti uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:

— Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me apanhas! O que tens de bom, que é o teu génio elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. Adeusinho!

Na tarde do domingo seguinte, eu vinha debruçado da janela do comboio, que deslizava devagar pela beira do rio lento. Havia um silêncio todo feito de azul e de sol. Na plataforma da quieta estação da minha aldeia, avistei os Senhores de Tormes. Estava com eles a minha afilhada Teresa, muito vermelha, a arregalar os seus soberbos olhos. E estava o bravo Jacintinho, que segurava uma bandeira branca. Abracei e beijei aquela tribo tão amada. A minha alegria ficaria bem a quem voltasse vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até dei uns beijos ao chefe Pimentinha. A rebentar de obesidade, ele apressava-se a gritar ao carregador que tivesse cuidado com as minhas malas.

Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, abraçou-me de novo:

— E esse Paris?

— Medonho!

Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.

— Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?

— É a bandeira do Castelo! — declarou ele, com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.

A mãe ria. Nessa manhã, logo que soube da chegada do Ti-Zé, o menino tinha aparecido com a bandeira. Tinha sido feita pelo Grilo, e o menino não a tinha largado mais. Com ela tinha almoçado, com ela tinha descido de Tormes!

— Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu também venho daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?

— Tudo ótimo! — gritou Jacinto. — A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.

No largo por trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos. Esperavam também dois belos burros brancos. Um levava uma cadeirinha para a Teresa. O outro levava um cesto de verga, para meter dentro o heroico Jacintinho. Cada um deles ia acompanhado por um criado, ao lado. Eu tinha ajudado a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis. Eu tinha-os esquecido na carruagem. Era uma papelada comprada na Estação de Orleans. Estava toda cheia de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo e de erotismo. Jacinto reconheceu aquilo e gritou, a rir:

— Deita isso fora!

E eu atirei para um monte de lixo, ao canto do pátio, aquele podre resto da Civilização. E montei. Mas ao virar para o caminho íngreme da serra, ainda me voltei. Queria gritar adeus ao Pimenta, de quem me tinha esquecido. O digno chefe, debruçado sobre o monte de lixo, apanhava, sacudia e guardava com amor aquelas belas imagens. Elas chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, espalhavam pelo mundo a sedução de Paris.

Começámos a subir em fila para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de verão. Uma brisa trazia, como oferta, perfumes de flores silvestres. Os ramos moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e brilhantes. Todos os passarinhos cantavam, numa agitação de alegria e de louvor. As águas, a correr e a saltar, davam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis brilhavam como chamas, com um fulgor de ouro. A serra toda se oferecia, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre à frente da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca. O Jacintinho não a largava, dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era *a bandeira do Castelo*, tinha ele afirmado.

E na verdade me parecia que íamos todos por aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa. Ia o meu Príncipe, moreno dos sóis e dos ventos da serra. Ia a minha prima Joaninha, mãe tão doce e risonha. Iam os dois primeiros representantes da sua tribo abençoada. E ia eu. Estávamos tão longe das ilusões amargas e das falsas delícias! Pisávamos um chão eterno, de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós. E parecia-me que, serenamente e seguramente, subíamos para o Castelo da Grã-Ventura!

### Glossário

- **canalha**: pessoa sem honra; aqui, dito a brincar.
- **cocottes**: palavra francesa; mulheres sustentadas por homens ricos.
- **tabuletas**: placas com nomes ou anúncios, nas fachadas.
- **ónibus**: grande carruagem pública, puxada por cavalos.
- **fiacre, tipoia, vitória, landau**: carruagens puxadas por cavalos.
- **velocípedes**: bicicletas antigas.
- **melancolia funambulesca**: tristeza ridícula, como a de um acrobata na corda.
- **alcova**: pequeno quarto de dormir; aqui, o lugar do amor físico.
- **Catão**: romano antigo, famoso pela sua moral muito severa.
- **Sale Maure**: "mouro sujo", em francês; é um insulto.
- **castanheiros**: árvores que dão castanhas.
- **reconhecimento**: gratidão; aqui, lembra também o verbo «reconhecer».
- **maço**: conjunto de papéis ou jornais juntos.
- **miudamente**: em pedaços muito pequenos.
- **verdura**: aqui, as plantas verdes do campo.
- **plumas**: penas grandes, usadas como enfeite.
- **rouca**: diz-se da voz áspera e fraca.
- **lona**: pano grosso e forte, usado para cobrir ou proteger.
